13/06/2009 - 16:00h Ciúmes, ela?

por Helena Celestino – Blog prosa Online – portal O Globo

As duas vidas de Catherine M.

Ciúmes, ela? Depois de criar um choque entre os bem pensantes da França, ao descrever com extrema crueza sua movimentada e pouco convencional vida sexual, Catherine Millet surpreende de novo ao relatar com a mesma profusão de detalhes sua descida aos infernos do ciúme quando descobre que o marido tinha aventuras com outras mulheres. Catherine é aquela diretora da mais importante revista francesa de arte, a “Art Press”, que escolheu abandonar o pedestal reservado à respeitadíssima especialista em Salvador Dali e Yves Klein para contar num livro, em tom lacônico e distanciado, sua entrega a um número incalculável de mãos e pênis de homens anônimos, encontrados ao acaso em estacionamentos, nas sombras do Bois de Bologne, ou em estações de trem parisienses. Seu relato de orgias e surubas virou um best-seller, “A vida sexual de Catherine M.” (Ediouro), que vendeu 2,5 milhões de exemplares em 47 países — o mais recente lançamento foi na Albânia e o próximo será no Líbano, um país árabe.  Sete anos e muitas polêmicas depois, ela reaparece agora num novo livro, “A outra vida de Catherine M.” —- lançado no Brasil pela Agir — como uma tigresa disposta a usar as garras para manter jovens rivais distante de seu marido. A mesma mulher que oferece o corpo a quem puder lhe dar prazer, conta, sem nenhum pudor, como durante três anos vasculhou o computador e as gavetas do companheiro com uma obsessão de mulher fiel, disposta a tudo para manter seu casamento de quase 30 anos com o escritor Jacques Henric. Enquanto investiga a vida paralela do marido, perde-se em crises de angústia, taquicardias e cenas cheias de lágrimas, num enredo distante da utopia do amor livre, até então aceito como dogma pelo casal, desde o encontro dos dois nos libertários anos 70.  A autora (ao lado, em foto de divulgação) estará no Brasil em julho participando da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Pelo que a senhora conta, “A vida sexual de Catherine M.” foi uma maneira de sair da crise de ciúmes. Foi isto?
Na verdade, quando comecei a escrever estava tão fragilizada que não tinha segurança sobre o que estava fazendo. E também não tinha confiança de que sairia da crise. Retrospectivamente, ao escrever “A outra vida de Catherine M.” (cujo título original é “Dia de sofrimento”), percebi que isto tinha acontecido.

Por que decidiu se expor outra vez em um livro?
Logo depois de “A vida sexual” dei muitas entrevistas e participei de muitos encontros com o público. E todo o tempo vinha a pergunta: mas se você tem essa vida sexual livre, você não conhece o ciúme? E eu era obrigada a reconhecer que sim, eu conhecia o ciúme. Nas semanas que se seguiram à publicação de “A vida sexual” decidi que, por honestidade com o público, eu contaria que tinha vivido uma crise terrível de ciúme.

Mas passaram-se sete anos entre um livro e outro…
Primeiro, eu viajei por mais de três anos por causa de “A vida sexual de Catherine M.” E depois eu queria um refresco, estava cansada de falar sobre isso. Escrevi um livro (que não foi traduzido em português) sobre Salvador Dali como escritor, que me exigiu alguns anos de trabalho.

É mais difícil contar a vida sexual ou falar do seu ciúme?
Falar do ciúme é muito mais difícil, claro. Por diferentes razões, “A outra vida de Catherine M.” me obrigou a rememorar sentimentos extremamente dolorosos. Ao contrário, “A vida sexual” me fez voltar aos bons momentos, era escrever sobre boas lembranças. Sempre falei livremente e sem nenhuma inibição da minha vida sexual e do meu corpo. Mas falar de sentimentos nunca foi fácil para mim. Ao contrário do que muita gente pensou ao ler meu livro, eu não sou exibicionista… Mas não escondia nada sobre a minha vida sexual, no meio profissional muita gente sabia. Para mim, era uma maneira natural de levar a vida.

Os livros “confessionais”, digamos, mudaram a sua vida?
Não mudaram muito. No meio artístico, então, não mudou nada: nem a relação com meus colaboradores próximos — que não necessariamente sabiam o que acontecia — nem com os artistas de uma maneira geral. Acho que o mundo artístico hoje é o mais liberal de todos, é um universo em que a liberdade é completa. Podemos nos permitir coisas que seriam chocantes entre as pessoas do (mundo do) cinema ou entre escritores. Nas obras de arte, expostas nas galerias, há coisas da mesma natureza do que as contadas no meu livro (risos). De uma maneira geral, as reações foram positivas: imagino que as pessoas acharam engraçado ver que eu tinha virado um personagem midiático. Criou-se uma simpatia maior em torno de mim.

Como “A outra vida de Catherine M.” foi recebido?
As críticas na França foram ainda melhores, foram muito positivas. Na verdade, todas as críticas iam no sentido de que, finalmente, eu me confirmava como escritora. Isso foi uma surpresa. O outro livro não era mal escrito, mas não era isso que interessava às pessoas. Para os críticos foi um pouco como se aquela mulher, que fez as pessoas falarem tanto dela, finalmente tivesse virado uma escritora.

A linguagem de “A vida sexual…” é muito mais crua do que a de “A outra vida…”. Foi um efeito procurado?
São dois livros muito diferentes. “A outra vida de Catherine M.” é mais bem escrito, primeiro porque eu já tinha uma experiência anterior de escrever um livro no qual falava de mim. As frases são mais longas, mais torneadas. E também porque a dificuldade que eu tinha para contar a dor, a complexidade dos meus sentimentos, me fazia pensar mais. A natureza do que eu tinha para contar me obrigava a mudar a forma de escrever.

A senhora disse que o francês é a língua do sexo. O que achou das traduções, ao ler o seu livro em outras línguas?
Eu e muitos outros escritores já falamos isso. Existem muitas palavras para falar de sexo, de órgãos sexuais, de sedução. Conversei com alguns tradutores e foi interessante, porque a gente percebe as diferentes percepções do vocabulário do sexo nas diferentes línguas. A gente vê que em algumas línguas, para designar os órgãos sexuais ou a bunda, por exemplo, existem muitas palavras. Ou, ao contrário, muito poucas palavras. Algumas são empregadas de uma maneira banal em francês mas, em inglês, por exemplo, viram uma obscenidade terrível.

O surpreendente no seu livro sobre o ciúme é que a senhora vigia o seu companheiro com uma obsessão de mulher fiel. Para os leitores que conhecem “A vida sexual de Catherine M.” foi uma surpresa?
Acho que não foi muito surpreendente. Mesmo se a maioria das pessoas não tem uma vida sexual livre como a minha, não são muitas as que escapam do ciúme. A liberação sexual, como sonhávamos nos anos 60 e 70, era uma utopia. Todos os que viveram essa época são conscientes disso: a sexualidade completamente livre que imaginávamos, com a realização completa dos nossos desejos, sem entrar em conflito com o cônjuge, era uma utopia. Aqui, na França, ao lerem “A outra vida de Catherine M.”, muitos disseram: “ah, finalmente, descobrimos que ela é normal”.

Ou seja, caiu o mito Catherine M.
As pessoas pensam que eu era um monstro sem sentimentos. Voilà, não sou. O fato de ter e assumir uma sexualidade livre não me impede de cair na armadilha horrorosa do ciúme e não imuniza ninguém contra a dor que o acompanha.

Lendo seus livros sobre arte e os textos “confessionais” parece que existem duas Catherine Millet. Há uma relação entre o olhar de crítica de arte e relato de Catherine M.?
Acho que a crítica ensinou-me a ser mais descritiva do que introspectiva. Para falar de um sentimento não vou procurar explicações profundas na minha vida passada, na minha infância. Eu vou procurar simplesmente descrever como se manifesta esse sentimento, o que ele me fez dizer, como ele age sobre o meu corpo ou sobre a minha vida. É um paradoxo, mas quando eu trabalho prefiro ficar na superfície. Escrevo como se eu estivesse descrevendo uma escultura.

Bataille e Sade são autores que a inspiraram?
Não. Claro que eu li isso, faz parte da cultura da minha geração. Mas a lógica do Bataille é a da transgressão e tudo o que contei sobre a minha vida sexual não entra nessa lógica. Claro que o tema me interessa, mas não faz parte das minhas experiências. Jamais transgredi os tabus sociais, nem o tabu do incesto, nem os tabus religiosos. Acho que não existe sociedade sem tabus fundamentais. Nunca estive na posição de transgressora.

A artista francesa Sophie Calle também vem ao Brasil para a Flip.Tanto a senhora quanto ela partem de histórias pessoais em livros e/ou trabalhos de arte. Existe proximidade entre as duas?
Não acho muito, não. Podemos pensar nisso porque ela se revela nas suas obras. Mas acho que ela está mais no pathos do que eu. Eu conto as histórias como se elas não me pertencessem mais . Sophie, para falar de um momento de crise, por exemplo, faz isso de um ponto de vista crítico. Acho que estamos em terrenos diferentes.

Como a crítica de arte vê o trabalho de Sophie?
Eu respeito, mas não é o tipo de coisa que me interessa. Eu jamais escrevi sobre ela ou sobre seu trabalho, por exemplo. Vou ver as exposições, mas não somos amigas.

O que a senhora espera dessa viagem ao Brasil e da participação na Flip?
A única coisa que me disseram é que vou debater sobre a questão do tabu (ela vai conversar com a psicanalista Maria Rita Kehl no domingo, dia 5, às 11h30m). Ainda não sei sobre o que vou falar…

29/03/2009 - 10:44h A dor de amar

+Sociedade


Respeitada crítica de arte, Catherine Millet fala de “Dia de Sofrimento”, livro em que retrata a crise de ciúme por que passou em sua relação aberta com o marido

LENEIDE DUARTE-PLON  -  COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

No seu livro anterior, “A Vida Sexual de Catherine M.”, Catherine Millet quis dar, como ela mesma conta, um testemunho pessoal de que a vida sexual pode ser dissociada dos sentimentos. O livro se transformou num fenômeno literário mundial, traduzido para 45 línguas, vendeu mais de 1,2 milhão de exemplares e transformou sua autora numa celebridade.

Nele, uma mulher de 50 anos conta como se entregava a homens que nunca vira antes, nos locais mais inesperados, como um bosque de Paris, um estacionamento subterrâneo, um cemitério, uma estação de trem e mesmo no escritório da revista “Art Press”, fundada e dirigida pela própria Millet, crítica de arte e especialista em Salvador Dalí.

A vida real colocou Millet diante de um problema que consistia em conciliar a vida de mulher totalmente livre com um casamento duradouro. Ela é casada há muitos anos com o escritor e fotógrafo Jacques Henric, autor de “Légendes de Catherine M.” [Lendas de Catherine M.], e vivem um casamento totalmente aberto.

Em seu novo livro, “Dia de Sofrimento” (a ser lançado no Brasil em junho, pela ed. Agir), dá uma espécie de resposta aos leitores que se perguntavam se é possível driblar o ciúme quando a vida a dois pressupõe total liberdade de ambas as partes.

Millet responde: o ciúme não pode ser driblado, e ela o viveu como uma obsessão: “Comecei a sofrer terrivelmente, imaginando Jacques em companhia de outras mulheres”, conta Millet em entrevista exclusiva à Folha.

“Penso que o ciúme é uma pulsão que pode escapar a todo controle e que pode varrer toda a inteligência, a cultura, a moral que possuímos. Mas não me arrependo. É essa pulsão que se deve dominar para continuar fiel a sua cultura e a sua moral.”

Assumir uma sexualidade totalmente livre, resume Millet, “não impede de cair na armadilha assustadora do ciúme e nem vacina contra a dor que o acompanha”.

FOLHA – “A Vida sexual de Catherine M.” transformou-se em um fenômeno de sociedade. Como isso afetou sua vida?
CATHERINE MILLET
– Fora uma sobrecarga de trabalho, minha vida cotidiana não foi praticamente modificada. Durante algumas semanas, tornei-me “Madame Sexo” na França e, se tivesse aceito esse epíteto, teria passado todo meu tempo nos estúdios de TV, participando de programas sobre sexualidade.

Tentei limitar essas participações. Para mim, é muito importante continuar a dirigir a “Art Press”. Ganhei um pouco mais de dinheiro, mas também não fiquei milionária.

FOLHA – “A Vida Sexual…” foi criticada por ser “sem sentimento”. “Dia de Sofrimento” é seu oposto implacável?
MILLET
– É ao mesmo tempo o anúncio e o prolongamento do outro. Anúncio porque a crise de ciúme narrada em “Dia de Sofrimento” é um dos “acidentes” na minha vida que me levaram a escrever uma coisa diferente de um livro de história da arte -isto é, “A Vida Sexual de Catherine M.”. De fato, “Dia de Sofrimento” mistura a narração dessa crise e a aproximação com a escrita, a realização de um desejo de ser escritora. Também é o prolongamento de “A Vida Sexual…” na medida em que a ideia do segundo livro me ocorreu logo após a publicação do primeiro. Muitos leitores e jornalistas me perguntavam -e a Jacques também- sobre o ciúme. Como tínhamos podido viver a liberdade sexual sem ter ciúme? E eu respondia que não tinha escapado a ele. Por honestidade, pensei que deveria me explicar num segundo livro. Quanto à ausência de sentimento em “A Vida Sexual…”, isso é o resultado de um “parti pris”. Eu não queria nenhuma forma de psicologia no livro, quis deixar tudo focalizado nos atos sexuais.

FOLHA – Um crítico ressaltou um paradoxo em “Dia de Sofrimento”: a sra. vigia e espiona seu marido como se fosse uma mulher fiel. Ora, no seu texto pode-se ler: “Jacques me colocava diante do fato de que nunca deixei de fazer sexo grupal e que por longos períodos meu desejo me levara a outros homens”.
MILLET
– Um dos objetivos do livro é, creio, expor a que ponto podemos estar em contradição com nossas próprias ideias. A liberdade sexual era a filosofia de vida que eu tinha escolhido. Eu tinha essa liberdade. De vez em quando descobria que Jacques também dispunha dessa liberdade, mas comecei a sofrer terrivelmente imaginando-o em companhia de outras mulheres.

FOLHA – “A Vida Sexual…” foi escrito durante uma crise grave com seu marido. Como a sra. conseguiu trabalhar vivendo um turbilhão de emoções causadas pelo ciúme?
MILLET
– Na realidade, quando comecei a escrever esse livro, tinha me distanciado da minha vida de libertinagem. Como escritora e contrariamente a autores que fazem o que se chama “autoficção”, somente posso ter um olhar retrospectivo. Durante essa crise, fui dominada por fantasias em que imaginava Jacques em companhia de outras mulheres. De certa forma, a escrita desse livro foi uma maneira de me recolocar no centro das cenas de sexo.

FOLHA – O livro quer mostrar que uma intelectual libertina não está protegida do mais banal ciúme?
MILLET
– Esta é uma das razões por que sofri tanto: é claro que não podia fazer nenhuma crítica a Jacques; ao contrário, só podia me criticar pela falta de lógica de meu comportamento.

FOLHA – A sra. conta que saiu da periferia de Paris com 18 anos com suas leituras como única bagagem. Que leituras eram essas ?
MILLET
– Tudo um pouco misturado. Muito jovem, eu lia relatos de aventura para crianças, mas também lia os clássicos que encontrava na biblioteca de minha mãe. Uma das primeiras leituras que me impressionaram foi “O Lírio do Vale”, de Balzac. Adorava ler Lamartine e também Stendhal. Somente histórias de amores impossíveis! E castos!

FOLHA – A sra. foi feminista? Os movimentos pela liberação da mulher dos anos 70 de alguma forma lhe interessaram?
MILLET
– Como digo em “A Vida Sexual”, eu me sentia “do lado dos homens”, logo não podia me sentir próxima das feministas. E depois, dispunha de minha liberdade de fato, não tinha de conquistá-la. Por outro lado, hoje me sinto muito próxima do que se chama “neofeminismo” ou “feminismo pró-sexo”.

FOLHA – Seu livro fala de suas fantasias masturbatórias incestuosas. Qual é a importância da masturbação na vida sexual?
MILLET
– Acho que muito grande, mas é um assunto que ainda é tabu. Acho que uma mulher aprende a conhecer melhor os caminhos de seu prazer graças à masturbação.

FOLHA – Como a sra. vê a arte contemporânea? Acompanhou os debates em torno da última Bienal de São Paulo, em 2008?
MILLET
– Acho que os que consideram a arte como uma atividade do espírito realizaram uma resistência “do interior”, em um mundo da arte governado pelo mercado.
E infelizmente as instituições públicas, que poderiam ser uma alternativa ao mercado, se tornam cúmplices dele.
Não acompanhei muito de perto os acontecimentos em torno da última Bienal de São Paulo, mas me parece que um protesto contra essa situação se fez presente por meio das ações de alguns artistas.