16/12/2011 - 09:55h Com ações em queda, setor de mineração foca longo prazo

Por Robb M. Stewart e John W. Miller | The Wall Street Journal – VALOR

Parece que a indústria da mineração tem muito com o que se preocupar. Os preços de muitas commodities caíram nos últimos meses. Os custos de produção subiram muito. A economia de dois dos mais importantes clientes da indústria, a China e os EUA, parece estar caminhando para um crescimento mais lento, e talvez até para uma recessão, no caso dos EUA.

Mas as maiores mineradoras do mundo não estão apreensivas. Elas continuam a jogar bilhões de dólares em projetos para expandir sua capacidade de produção.

Isso porque elas esperam que a demanda no longo prazo vá muito além do que está agora ou do que qualquer nível que possa ser alcançado nos próximos dois anos. E, ao contrário de alguns de seus pequenos concorrentes, que podem ter que diminuir as operações ou mesmo fechar caso as pressões sobre a indústria não diminuam em breve, as grandes mineradoras parecem ter margens de lucro bastante amplas e reservas de caixa grandes o suficiente para resistir por um longo período.

Alguns investidores estão focados no curto prazo, preocupados que, caso as empresas de mineração continuem a extrair produtos diante da demanda incerta, os preços das commodities caiam ainda mais e o lucro das empresas entrem em colapso. Essas preocupações se refletem na drástica queda da cotação das ações de empreas do setor. Mas outros estão comprando de forma seletiva, acreditando que as grandes mineradoras têm acertado na abordagem de longo prazo.

Os altos custos “tornam elevar o volume extraído muito desafiador”, diz Ian Ashby, presidente da área de minério de ferro da gigante anglo-australiana de mineração BHP Billiton Ltd. “Falta mão de obra, e há gargalos para compras de pneus, caminhões e produtos de consumo.”

A taxa média de inflação para equipamentos de mineração e máquinas para extração do minério de ferro tem sido de 11% por ano desde 2002, segundo a consultoria McKinsey & Co. Como um exemplo do que isso significa, o custo dos grandes pneus usados em alguns veículos em locais de mineração passou de US $ 70.000 por pneu, dizem os executivos de mineração, e os pneus duram apenas cerca de quatro meses.

Enquanto isso, a falta de mão de obra qualificada tem impulsionado muito os salários de trabalhadores como Wayne Rider, de 26 anos. Há três meses, Rider era empilhador de caixas em um armazém em Perth, na Austrália, ganhando 40.000 dólares australianos por ano, ou cerca de US $ 41.000. Agora, ele dirige caminhões para a NRW Holdings Ltd., uma empresa de mineração de serviços, por 120.000 dólares australianos por ano. Ainda assim, não é um trabalho que muitas pessoas querem fazer – pelo menos não o bastante para manter os salários baixos.

Algumas mineradoras estão testando caminhões automatizados, trens e plataformas de perfuração, ou planejam fazer isso, para ajudar a controlar os custos com mão de obra. Mas esses esforços são muito novos e em pequena escala, neste momento, para terem muito impacto ou serem julgados práticos ou não.

Os custos com energia elétrica e combustível são outros gastos que absorvem boa parte do dinheiro das mineradoras. Os preços mais altos de energia em comparação com o ano anterior absorveram US$ 95 milhões dos lucros nos seis meses terminados no dia 30 de junho da anglo-australiana Rio Tinto PLC, uma das maiores empresas do mundo em mineração.

Os maiores custos de produção são mais difíceis de absorver, é claro, quando as empresas estão recebendo menos pelos produtos que vendem. O preço à vista do minério de ferro, que é usado na produção de aço e é um gerador de lucros importante para as grandes empresas de mineração, caiu cerca de 24% desde o início de setembro, em grande parte por causa da desaceleração na produção de aço na China. Outras commodities industriais sofreram quedas de preços semelhantes nos últimos meses.

A combinação de custos de produção maiores e preços de venda mais baixos é mais difícil para mineradoras menores, que não têm tanto poder de negociação quanto as gigantes, como BHP e Rio Tinto..

“O problema é que você tem os custos de 2007 com os preços de 2011, o que torna as margens muito mais baixas”, diz Willi Boehm, tesoureiro da Aquarius Platinum Ltd., uma pequena produtora de platina com sede em Perth, que tem minas na África do Sul e Zimbábue. “Nossos problemas são o custo de eletricidade e os salários.”

Recentemente, diz Boehm, a Aquarius teve que aumentar os salários na África do Sul entre 8% e 10% para manter um número suficiente de trabalhadores. E, no ano passado, os custos de energia da empresa saltaram de 15% a 20%. No geral, os custos para as mineradoras estão crescendo de 10% a 12% ao ano, estima Boehm. Os preços das commodities precisam subir “ou as pessoas vão começar a fechar”, diz ele.

Nas grandes mineradoras, é uma história diferente. Suas margens de lucro também estão diminuindo, mas elas têm uma margem de lucro muito mais ampla do que as pequenas mineradoras porque as grandes empresas, como grandes compradores, são capazes de negociar preços mais baixos dos fornecedores.

As grandes mineradoras também têm uma grande quantia de dinheiro na mão para financiar seus planos de expansão. A BHP planeja investir US$ 20 bilhões em grandes projetos e exploração no ano fiscal que começou em primeiro de julho, e mais de US$ 80 bilhões até 2015. A Rio planeja investir US$ 14 bilhões em novos projetos em 2012 e US$ 12 bilhões neste ano.

Tanto a Rio Tinto como a BHP dizem esperar grandes aumentos na demanda da China e de outras economias emergentes nos próximos 20 anos ou mais, uma vez que a industrialização e a urbanização nesses países estão em progresso.

Muitos investidores estão pouco confiantes nas perspectivas de longo prazo ou não estão enxergando longe o suficiente. O índice de mineração mundial S&P/TSX e as ações da BHP caíram cerca de 24% este ano, enquanto as ações da Rio encolheram em cerca de um terço.

06/07/2011 - 10:30h Petrobras vale só quanto pesa

Investidores avaliam a maior companhia brasileira por um valor abaixo do patrimônio líquido pela primeira vez em 12 anos.

Nelson Niero e Cláudia Schüffner | VALOR

De São Paulo e do Rio

O valor de mercado da Petrobras está, pela primeira vez desde 1999, abaixo do patrimônio líquido da empresa.

O indicador é uma maneira de medir o que o mercado coloca de expectativa em uma ação. Quanto maior a diferença, mais se espera da empresa no futuro.

Ontem, o preço sobre valor patrimonial (P/VPA) da ação preferencial da maior companhia do país e da bolsa fechou em 0,98 vez, ou seja, o papel vale menos na bolsa do que nos livros. Para a ação ordinária, a relação era de 1,08 vez.

O preço da ação, formado diariamente nas negociações em bolsa, é a base para o cálculo do valor de mercado. Já o valor patrimonial, o que sobra para os acionistas subtraindo-se as dívidas dos ativos, é calculado pela empresa e divulgado trimestralmente nos balanços.

Existem várias maneiras de se medir o “prêmio” que investidores pagam por uma empresa. O preço sobre valor patrimonial dá uma ideia do “intangível” de uma companhia, o ágio que o mercado está disposto a pagar por ela além do preço contábil, notoriamente conservador – mesmo com os recentes avanços da chamada contabilidade do “valor justo”. Um valor de mercado constantemente abaixo do valor dos livros sugere, no mínimo, que não há ganho para os investidores até onde o mercado pode ver.

Entre as empresas do Índice Bovespa, a principal referência do mercado de ações, o maior P/VPA ontem era da Cielo, 23,91 vezes. O menor, da Eletrobras, a holding estatal do setor elétrico: 0,36 vez para a ordinária e 0,45 vez para a preferencial.

No caso da Petrobras, uma das maiores petrolíferas do mundo por valor de mercado, as ações, preferenciais ou ordinárias, eram negociadas desde 1999 com um ágio – substancial, em alguns momentos -, segundo dados da consultoria Economática.

Essa situação parece contraditória, dado o portfólio de descobertas, notadamente as do pré-sal – mas não só ali -, que a coloca em um patamar único entre seus pares. Com um plano de investimentos em marcha de US$ 224 bilhões, um dos maiores do mundo, a Petrobras tem presença dominante em um dos mercados que mais crescem no globo, o brasileiro, e é uma das poucas que pretendem dobrar a produção na próxima década.

Adicionalmente, com as áreas do pré-sal, as reservas de petróleo devem saltar dos atuais 16 bilhões de barris pelo critério da Society of Petroleum Engineers (SPE) ou 12,14 bilhões pelo critério americano para no mínimo 30 bilhões de barris. O índice de reposição de reservas da companhia aumentou 229% em 2010, o que significa que, se não descobrir mais nenhum barril, poderá manter a atual produção por 18,4 anos. Então, o que está acontecendo com a Petrobras?

Para Emerson Leite, analista de petróleo do Credit Suisse, não há surpresa. “Como o retorno sobre o capital [lucro líquido sobre o patrimônio, ou retorno patrimonial] está próximo do custo de capital, não surpreende que o valor de mercado da Petrobras esteja próximo do valor patrimonial”, afirma. “Para essa dinâmica mudar, o retorno para o acionista tem que ser gradualmente maior que o custo de capital. À medida que isso acontecer, se acontecer, a ação deve reagir.”

Comparada com seus principais pares nas Américas (a base de dados da Economática não tem europeias), a Petrobras tem hoje a pior relação valor de mercado/patrimônio. Na maior empresa do setor, a Exxon Mobil, a relação estava ontem acima de 2,5 vezes. Numa lista de 56 ações compilada pelo Valor, os papéis da estatal brasileira só ganham de quatro: entre eles, os da Petrobras Argentina e os da americana Dynegy, em negociação com credores para evitar a recuperação judicial. A melhor relação preço/patrimônio nesse grupo é da americana Continental Resources, acima de 6 vezes.

No auge da euforia do pré-sal, o valor de mercado da Petrobras ficou mais de quatro vezes acima do patrimonial. A estatal, que chegou a estar entre as cinco empresas de maior valor de mercado do mundo, marcava posição ontem, com US$ 209,38 bilhões, no décimo primeiro lugar, segundo levantamento da Bloomberg.

A Exxon segue inabalada na liderança, valendo US$ 420,51 bilhões, seguida não muito de perto pela Apple e pela Petrochina. Outra rival da Petrobras, a Royal Dutch Shell, estava em sétimo lugar.

‘O investidor acha que fizemos um mau negócio’, diz Barbassa

Do Rio

A Petrobras atingiu seu maior valor de mercado no dia 21 de maio de 2008, quando chegou a R$ 510,4 bilhões. Em setembro de 2010, época da capitalização seguida da “cessão onerosa” de barris pelo acionista controlador, o governo, o valor foi a R$ 362,8 bilhões. Ontem, estava em R$ 325,6 bilhões. Neste ano, a empresa perdeu R$ 55 bilhões.

Para especialistas ouvidos pelo Valor, a destruição de valor só deve ser revertida quando aumentar a confiança do mercado na empresa. Parte dessa retomada depende da qualidade dos investimentos que a companhia planeja executar, alguns já em marcha.

Almir Barbassa, diretor financeiro da estatal, acha que a perda de valor das ações é resultado de um conjunto de fatores que passa pela capitalização com barris de petróleo (cujo preço foi considerado elevado na época), aumento da percepção de interferência do governo na companhia e a impossibilidade, momentânea, de ampliar a comunicação com o mercado.

“A capitalização não foi bem entendida e ainda não foi digerida. O investidor acha que fizemos mau negócio”, admite.

O executivo também menciona um ponto nevrálgico: o controle da companhia pelo governo, que aumentou sua fatia de 39,8% para 48,3% do capital social após a capitalização com 5 bilhões de barris do pré-sal.

“Os investidores julgam que houve falta de governança e que pagamos caro pelos barris [da cessão onerosa] porque o governo era o vendedor. Veem problema no preço acertado. Mas estamos convencidos de que fizemos um ótimo negócio”, diz.

Uma das reclamações dos investidores na capitalização dizia respeito ao preço de cada barril negociado entre a Petrobras e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e Ministérios da Fazenda, Minas e Energia e Casa Civil.

O valor fixado no contrato de cessão onerosa foi de US$ 42,5 bilhões (R$ 74,8 bilhões). A revisão do preço está prevista para 2014 no contrato com a União e esses barris, cuja aquisição serviu para aumentar o valor patrimonial da empresa, podem estar até mais caros quando forem recalculados. Nesse caso, a Petrobras ainda terá que pagar a diferença para o governo.

Barbassa lembra que o preço dos 5 bilhões de barris negociados no ano passado é “quase provisório”, mas acha que o mercado não está percebendo as possibilidades de a Petrobras adicionar valor ao negócio. Ele destaca duas coisas que, a seu ver, estão sendo deixadas de lado nas avaliações (negativas) feitas pelo mercado depois da capitalização.

A primeira delas é o fato de a companhia ficar exposta ao preço do petróleo (que tende a subir) com grande volume de reservas adicionadas; a segunda são efeitos benéficos das sinergias e da evolução tecnológica que serão colocadas em práticas na fase de exploração do pré-sal.

Também não ajuda o fato de a companhia estar tendo dificuldades óbvias para ter aprovado seu novo plano de negócios. E isso se soma às críticas quanto ao aumento dos investimentos em refino construindo quatro novas refinarias de grande porte e ao aumento dos investimentos em produção de etanol. São projetos que vêm aumentando a percepção de risco político da companhia e que colocam a estatal diante do velho dilema: tudo que é bom para a Petrobras é bom para o Brasil? E vice-versa?

Se de um lado é benéfico para o país aumentar a capacidade de refino para evitar déficits bilionários na balança comercial, o mesmo pode ser dito com relação à Petrobras? Por que ela não pode aumentar primeiro a produção de petróleo para então, fortalecida e com caixa, investir em refino mais à frente? Para Barbassa, esse dilema não existe e os temores são infundados.

“Se o governo tivesse intenção de fazer coisas ruins para o acionista não colocaria US$ 42,2 bilhões na capitalização. Nem iria fazer algo para perder arrecadação e dividendos com prejuízos para a economia”, pondera, ressaltando que ao vender petróleo bruto e importar derivados a companhia perde margem de US$ 8 por barril.

O diretor também contesta as suspeitas de controle, pelo governo, do preço dos derivados com o objetivo de conter a inflação. E repete que a companhia pratica uma política que garante, no médio prazo, preços iguais aos do mercado americano.

“Um aumento nos preços seria insignificante em termos de variação de caixa. Claro que não estamos falando de se segurar [os preços] por anos, aí se poderia alegar controle de preços. Mas o que temos feito é trabalhar com a média.”

Barbassa acha que grande parte das dúvidas poderá ser sanada depois que o novo plano de negócios for divulgado. Ele não entra em detalhes sobre o plano, que tem 580 projetos orçados em mais de US$ 25 milhões cada um. Diz apenas que os investimentos estão sendo analisados para serem consistentes, garantirem a saúde financeira da companhia, preservarem os “ratings” e a capacidade de alavancagem, sem colocar a empresa em risco e sem a necessidade de novas emissões.

O executivo respondeu a uma comparação feita na semana passada por Frederic Fromm, gestor especializado em recursos naturais da Franklin Equity Group, braço da Franklin Templeton, para quem empresas sem controle governamental pagam dividendos especiais para os investidores ou recompram ações. “Com a carteira de projetos que a Petrobras tem, que é única no mundo, alguém ainda fala em recompra de ações? Quem está fazendo isso não deve ter projetos. A ação da Petrobras tem um grande potencial. Comprar Petrobras hoje é a forma mais barata do mundo de se adquirir petróleo”, rebate. (CS)

09/09/2010 - 10:12h Empresas captam US$ 3,3 bi no exterior em 2 dias e mercado já prevê recorde

Na volta das férias no Hemisfério Norte, investidor estrangeiro renova apetite por ativos brasileiros; prazo longo e custo ”baixo” atraem empresas

Leandro Modé – O Estado de S.Paulo

Os investidores voltaram das férias no Hemisfério Norte com apetite redobrado por ativos do Brasil. Isso já se reflete, sobretudo, nas emissões de empresas brasileiras no exterior. Entre terça-feira e ontem, ocorreram três operações, num total de US$ 3,25 bilhões. Segundo informações de mercado, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deve captar 1 bilhão nos próximos dias.

Se o ritmo for mantido até o fim do ano, 2010 terá recorde nesse tipo de transação.

O movimento tem impacto direto na taxa de câmbio. O dólar fechou ontem com desvalorização de 0,17%, cotado a R$ 1,725. A queda teria sido ainda mais expressiva se não fosse a atuação do Banco Central (BC). Pela primeira vez desde maio, a instituição realizou dois leilões de compra da moeda americana – normalmente, faz um leilão diário.

Terça-feira, a Odebrecht levantou US$ 500 milhões com um tipo de bônus chamado perpétuo – ou seja, sem prazo definido de vencimento. Ontem, a Vale captou US$ 1,75 bilhão e a Telemar (Oi), US$ 1 bilhão. Segundo executivos, Banco do Brasil e Suzano Papel também devem fazer emissões em breve.

Analistas afirmam que pelo menos três fatores explicam o bom momento. O primeiro é a farta liquidez no exterior, em razão dos juros historicamente baixos nos países desenvolvidos.

O segundo é a confiança no Brasil, fruto, entre outras razões, do selo de qualidade (investment grade) que o País recebeu em 2008 e 2009 e do crescimento superior ao do mundo.

Por fim, os juros pagos pelo País ainda são altos quando comparados a nações com nível de risco semelhante ao brasileiro.

“Eu compararia este momento que vivemos na renda fixa (emissão de dívida) com o que tivemos na renda variável (emissão de ações) em 2007″, disse o vice-presidente executivo do Itaú BBA, Jean-Marc Etlin, referindo-se ao ano em que o Brasil bateu recordes em aberturas de capital (IPOs, em inglês).

O vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, Alberto Kiraly, observa que, de janeiro a julho, o total de captações no exterior alcançou US$ 20 bilhões. Em igual período de 2009, foram US$ 8,4 bilhões. “A diferença principal está nos bancos, que saíram de US$ 210 milhões para US$ 8,8 bilhões.” Mantido o ritmo, ele crê que o valor captado em 2010 será recorde.

Fabio Mentone, diretor do Bradesco BBI, diz que a oferta de crédito é tão alta que, nos próximos meses, é provável que setores que não estão acostumados a acessar o mercado externo o façam. “As condições vão esquentar ainda mais”, afirmou.

Uma das características da bonança é o fato de que as companhias brasileiras nunca pagaram juros tão baixos (embora, em termos globais, ainda sejam taxas altas). Outra característica é o prazo mais longo./ COLABOROU ALTAMIRO SILVA JÚNIOR

22/06/2010 - 07:52h Injeção de US$ 224 bi no petróleo

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Para viabilizar novo plano de investimentos, Petrobras precisa levantar US$ 58 bi. Analistas criticam foco no refino

Ramona Ordoñez, Danielle Nogueira, Martha Beck e Cristiane Jungblut RIO, BRASÍLIA e SÃO PAULO – O GLOBO

A Petrobras planeja investir US$ 224 bilhões até 2014, para aumentar a produção nacional de petróleo em 38%, de 2,1 milhões de barris por dia para 2,9 milhões em 2014. O montante, previsto no Plano de Negócios 2010-2014, anunciado ontem pela empresa, é 28,4% maior em relação aos US$ 174,4 bilhões previstos no plano anterior, para o período de 2009 a 2013. A estatal prevê que, no período, conseguirá uma geração de caixa de US$ 155 bilhões. Para cumprir os investimentos previstos, portanto, precisará buscar recursos no mercado. Pelo plano, a Petrobras terá que captar US$ 58 bilhões nos próximos anos, incluindo empréstimos em instituições financeiras e a oferta pública de ações, prevista para acontecer até julho. A estimativa de analistas é que a emissão de papéis fique em cerca de US$ 50 bilhões.

O maior volume do Plano de Negócios — US$ 118,8 bilhões — irá para exploração e produção de petróleo, mas a parcela do total caiu frente ao plano anterior: de 60% (US$ 104,6 bilhões) para 53%. Já o refino receberá o segundo maior valor: US$ 73,6 bilhões, ou 33% do total, acima dos 24,8% previstos anteriormente. Segundo o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, um dos objetivos é tornar a Petrobras uma efetiva exportadora de derivados. A meta é atingir uma capacidade de refino de 2,2 milhões de barris diários em 2014.

O plano mostra que 95% do total, ou seja, US$ 212,3 bilhões, ficarão no Brasil. Em contrapartida, os recursos destinados à área internacional caíram de US$ 16 bilhões no plano anterior para US$ 11,7 bilhões

União estuda uma opção para aporte

Especialistas criticaram o fato de a área de refino ganhar espaço. Para Adriano Pires, do Centro de Brasileiro de Infraestrutura, os números refletem o viés político do plano: — Até 2014, entrarão em operação, mesmo que em etapas iniciais, quatro novas refinarias (Comperj, no Rio; Clara Camarão, no Rio Grande do Norte; Premium, no Maranhão; e Refinaria do Nordeste, em Pernambuco), cedendo a uma grande pressão de governadores.

A refinaria Premium poderia ser deixada para depois — diz Pires, lembrando que os investimentos em exploração e produção são mais rentáveis que os feitos em refino.

O volume de investimentos veio dentro da expectativa de mercado.

Analistas ressaltaram, no entanto, que o plano robusto confirma que a capitalização é imprescindível para sua viabilidade. Caso contrário, a estatal terá que se endividar demais contratando empréstimos junto ao BNDES ou outros bancos, o que poderia levála a perder o grau de investimento (chancela de aplicação segura concedida a empresas e países por agências de classificação de risco).

— Sem a emissão de ações, o plano não é viável, a não ser que a Petrobras queira perder o grau de investimento — diz Daniella Marques, sócia da Oren Investimentos.

O aumento de capital de até R$ 150 bilhões (cerca de US$ 85 bilhões) da estatal será aprovado hoje em assembleia de acionistas. Parte da capitalização ficará a cargo da União, e parte será oferecida ao mercado em geral.

Gabrielli destacou que tanto os volumes de investimentos como a previsão da produção de petróleo não levam em conta as futuras áreas no pré-sal a serem exploradas pelo sistema de partilha, nem a cessão onerosa, sistema pelo qual o governo federal cederá à Petrobras o direito de explorar cinco bilhões de barris de petróleo em áreas do pré-sal ainda não concedidas. Em pagamento, o governo receberá de volta os títulos que emitir para comprar ações da Petrobras e manter sua participação na empresa.

No mercado, a aprovação da capitalização é dada como certa, já que o governo é o controlador e principal interessado. A dúvida é quanto ao valor do barril. Na avaliação de Osmar Camilo, analista da corretora Socopa, o preço deverá ser fixado em US$ 5.

Uma alternativa em estudo no governo é trocar a cessão onerosa por um contrato, com a estatal, de exploração dos campos sob o regime de partilha. Por ele, o governo receberia da petrolífera bônus de assinatura (valor pela permissão de perfuração dos poços, com base no potencial do bloco). A arrecadação compensaria o aporte da União. A ideia foi avaliada ontem em reuniões na sede provisória de governo com os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e da Casa Civil, Erenice Guerra — uma das quais teve a participação do presidente Lula.

Mais segurança contra vazamentos

Porém, enquanto a cessão onerosa está aprovada pelo Congresso (a lei depende só de sanção presidencial), o regime de partilha depende de segunda votação na Câmara. O calendário está complicado, diante das festas juninas, e a apreciação pode ficar para julho.

— Existe outra alternativa que é pelo sistema de partilha. Mas o modelo ainda provável é a cessão onerosa — afirmou Mantega, após a reunião.

A Petrobras está convencida de que a opção em que ganha mais é a cessão onerosa dos barris e tenta convencer o governo disso. Na reunião, ficou decidido ainda que a votação do texto do Fundo Soberano — ao qual está anexada a instituição do regime de partilha e a Emenda Simon, de distribuição dos royalties do petróleo — só será encaminhada na próxima semana.

Para evitar acidentes como o vazamento de óleo da BP no Golfo do México, Gabrielli afirmou que a Petrobras vai reforçar os procedimentos operacionais em relação à segurança de suas atividades exploratórias.

— O acidente é trágico e lamentável.

Nossos procedimentos e nossa disciplina operacional precisam ser reforçados. Nós precisamos dar maior ênfase do que já damos aos cumprimentos dos procedimentos prévios de cada atividade.

A Petrobras Biocombustível anunciou ontem parceria com o grupo São Martinho para produzir etanol em Goiás. O acordo prevê a criação da Nova Fronteira Bioenergia S.A., que controlará a Usina Boa Vista, em Quirinópolis, e a SMBJ Agroindustrial, em Bom Jesus. A estatal fará aporte de R$ 420,8 milhões, passando a deter 49% das ações da nova sociedade

16/10/2009 - 09:49h Os limites para a valorização do real

Colunista

Maria Cristina Pinotti e Affonso Celso Pastore – VALOR

Passada a fase mais aguda da crise, voltamos a assistir a uma onda de valorização do câmbio real. Atualmente o câmbio real no Brasil, corretamente calculado para refletir o conceito de preço relativo entre bens internacionais e domésticos, está muito próximo do nível mais valorizado desde que se iniciou o regime de flutuação cambial, em 1999.

Por que o câmbio real teima em se valorizar? A explicação repousa no aumento da capacidade de o país atrair capitais, cujos ingressos se acentuaram nos últimos meses. Mas o Brasil não está sendo vítima do monstro representado pelos capitais especulativos, de curto prazo, que seriam atraídos pelo diferencial de taxa de juros, que ainda é alto, e sim beneficiando-se predominantemente do ingresso dos capitais que buscam aplicações em investimentos diretos ou na bolsa de valores, ajudando a financiar a expansão da capacidade produtiva. Os investimentos estrangeiros líquidos no Brasil, que acumularam nos últimos 12 meses mais de US$ 35 bilhões, superaram a cifra bruta ocorrida no auge do programa de privatizações no governo FHC, crescendo durante a crise.

Por trás dessa atração está um diferencial, mas não das taxas de juros, e sim das taxas de crescimento econômico. O Brasil crescerá em 2010 mais do que a média das economias industrializadas (EUA, Europa e Japão). Isso exerce forte estímulo aos investimentos estrangeiros diretos e em portfólio de renda variável – ações. A prescrição de que baixando a taxa de juros os ingressos de capitais cairiam é falsa, porque esses capitais estão sendo atraídos pelo crescimento econômico brasileiro. Da mesma forma, há um claro custo em controlar os ingressos desses capitais, porque esse controle reduziria as fontes de financiamento aos investimentos em capital fixo, baixando a taxa de crescimento econômico.

Ao lado da expansão do consumo das famílias, que está atualmente por trás da retomada do crescimento, há claras indicações de que assistiremos, ao longo dos próximos 12 a 18 meses, uma significativa elevação dos investimentos. Superávits nas contas correntes, como os ocorridos em torno de 2005 são eventos raros na economia brasileira, e sempre estão associados a fases de queda nos investimentos em capital fixo. Quando a economia entra em uma fase de crescimento acelerado, como a que atualmente vem entrando, elevando os investimentos, surgem déficits, que historicamente já chegaram a superar 5% do PIB, como na segunda metade da década de 1970 e início da década de 1980, ou fixaram-se em torno de 4% do PIB, com em torno do ano 2000. Estamos começando a assistir um período de queda nos superávits comerciais e de forte elevação no déficit em contas correntes.

A taxa de crescimento econômico em 2010 facilmente poderá superar a marca de 5% ou mesmo de 5,5%. Com todo esse vigor de crescimento, as importações crescerão bem mais do que indicam todas as projeções atuais, e embora os déficits nas contas correntes não cheguem de imediato aos níveis comparáveis aos maiores citados acima, podem chegar entre 2,5% a 3% do PIB, superando US$ 45 bilhões. Por que esta previsão sobre o comportamento das importações? Mais de 70% das importações brasileiras são matérias-primas para a indústria e bens de capital. A crise atingiu o Brasil derrubando a produção industrial e a formação bruta de capital fixo e junto com elas as importações, e foi essa queda de importações que sustentou temporariamente os superávits comerciais em níveis mais elevados. Com as exportações mundiais em recuperação lenta, e sem perspectivas de crescimento muito forte dos preços de commodities, não há como ser otimista achando que o crescimento das exportações compensará a elevação de importações.

O Brasil sai da crise internacional com seu sistema bancário intacto, com a capacidade de reagir à crise usando políticas contracíclicas, e pronto para aumentar o consumo, que já vem crescendo. O aumento da produção industrial de bens de consumo eleva as margens de utilização de capacidade, e fatalmente elevará a demanda por investimentos em capital fixo. Como o Brasil é um país de poupanças baixas, o crescimento esperado dos investimentos em capital fixo conduz inexoravelmente ao crescimento dos déficits nas contas correntes.

Mas contrariamente ao que ocorria no passado, quando esse crescimento levava à depreciação cambial, desta vez há fundamentos econômicos que permitem manter baixos os prêmios de risco, o que significa manter elevada a demanda por ativos brasileiros que permitam financiar, com ingressos de capitais, o inevitável aumento do déficit nas contas correntes. Afinal o Brasil já obteve o seu almejado “grau de investimento”, que é um prêmio pela manutenção de estabilidade macroeconômica, geradora da queda dos riscos. Finalmente o que atraímos são predominantemente capitais mais estáveis, e que contribuem para elevar a capacidade produtiva.

Mas o diabo mora nos detalhes, e para que esses capitais continuem sendo atraídos é preciso que o crescimento ocorra em uma trajetória equilibrada, sem o artificialismo que conduz à inflação. Um crescimento econômico artificial gera uma percepção maior de riscos, o que reduz a atração aos ingressos de capitais e pressiona a taxa cambial. Da mesma forma, embora os superávits primários atualmente possam ser menores, sem comprometer a dinâmica da dívida pública, o governo não está totalmente livre para aumentar os gastos e reduzir impostos. A moral da história é que o governo não pode abusar dos estímulos monetários e fiscais, reagindo à tentação de fazê-lo às vésperas de eleições.

A prudência indica que deve moderar os estímulos fiscais à expansão da demanda, e que o Banco Central saiba ler corretamente os sinais sobre a direção na qual a taxa de juros básica deva se mover. A prudência indica, também, que o Banco Central sempre pode acumular um pouco mais de reservas. Não nos esqueçamos do custo fiscal da esterilização, que é alto, mas olhado pela ótica correta deveria ser mais um motivo para reduzir o crescimento das despesas públicas. Seriam necessárias piruetas teóricas invejáveis para se provar que os ativos que atualmente vêm sendo comprados por estrangeiros, que não se limitam à arbitragem com o cupom cambial, são substitutos perfeitos de ativos estrangeiros, que seria a única forma pela qual as intervenções esterilizadas do BC seriam ineficazes. Sendo eficazes, elas podem reduzir a velocidade da valorização cambial, e ao mesmo tempo elevar a liquidez internacional do país, baixando prêmios de risco e atraindo capitais que financiem um esforço maior de crescimento.

Affonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti são economistas e escrevem mensalmente às segundas. Este mês, excepcionalmente, nesta sexta.

20/09/2009 - 11:03h ”Chuva de dólares” vitamina o real

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Especialistas preveem entrada de bilhões de dólares em ofertas de ações e investimentos até o fim do ano

Leandro Modé – O Estado SP

As boas perspectivas para a economia brasileira vão atrair um “caminhão” de dólares para o País nos próximos meses e – provavelmente – anos. É isso que, segundo analistas, explica a forte alta do real em 2009.

Com ganhos de quase 30%, o real é a moeda que apresenta a segunda maior valorização ante o dólar no mundo este ano, atrás apenas do rand da África do Sul. Na sexta-feira, o dólar subiu 0,11% e fechou cotado a R$ 1,809. Mas, como já havia ocorrido quarta a moeda chegou a ser negociada a R$ 1,79.

A valorização do real preocupa o governo, que já estuda medidas para estimular as exportações. Entre elas, estaria a desoneração de empresas exportadoras, além de financiamentos especiais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Para se ter uma ideia, daqui para o fim do ano, espera-se que operações como aberturas de capital (IPOs, na sigla em inglês) e emissões de empresas que já têm papéis em bolsa movimentem até R$ 20 bilhões. Como os investidores estrangeiros têm comprado, em média, de 60% a 70% dos ativos oferecidos, só por esse canal devem entrar no País mais de US$ 5 bilhões até dezembro. A conta é da diretora da Fator Gestão de Recursos, Roseli Machado.

Cientes do grande interesse por ativos brasileiros, várias empresas já anunciaram a intenção de captar no mercado de capitais nos próximos meses: Santander (que, segundo estimativas, pode chegar a R$ 8 bilhões), Cetip (R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões), Gol (R$ 1 bilhão) e Tivit (R$ 750 milhões).

O Investimento Estrangeiro Direito (IED) é outra fonte que tem contribuído para a valorização do real. Entre janeiro e julho, esses investimentos somaram US$ 14 bilhões. A expectativa do mercado, expressa no mais recente boletim Focus do Banco Central (BC), é de que, no ano, o IED alcance US$ 25 bilhões. Para 2010, as perspectivas são ainda mais positivas.

Por fim, as captações de empresas no exterior por meio de bônus dispararam nas últimas semanas. Segundo a Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), essas emissões somavam quase US$ 8,4 bilhões até o fim de julho. Mas os números vão engordar bastante por causa de operações como a da Votorantim, que, sexta-feira, captou US$ 1 bilhão nos Estados Unidos. Segundo a companhia, a demanda foi seis vezes maior do que a oferta do papel.

Tanto o IED quanto os recursos para emissões de empresas são explicados pela situação privilegiada do País. “O Brasil é uma das primeiras economias a sair da crise, tem bons fundamentos e reservas internacionais elevadas. Isso favorece tanto o investimento direto quanto o de portfólio”, afirmou o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa.

Hoje, a projeção média do mercado para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 2010 está entre 4% e 4,5%, mas já começa a convergir para 5% ou mais. Algumas casas, como a Quest Investimentos, já trabalham com um avanço do PIB de até 6% no ano que vem. “É uma expansão muito superior à média mundial”, observou Rosa.

O analista de mercados emergentes da corretora Icap Brasil, Felipe Brandão, explicou que, nesse cenário, os investidores “antecipam o fluxo (de dólares) esperado para o País”. A posição dos investidores estrangeiros na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) dá uma dimensão do que fala Brandão.

No início do ano, os fundos estrangeiros apostavam fortemente na valorização do dólar – em janeiro, a posição líquida deles em contratos futuros de câmbio era de US$ 13,3 bilhões a favor do dólar. Essa posição começou a mudar em março e, na semana passada, chegou a US$ 900 milhões ainda a favor do dólar. Mesmo assim, nesse período, a mudança de posição envolveu mais de US$ 12 bilhões. Esse valor é duas vezes maior do que o fluxo físico de dólares.

Há, ainda, outro movimento que favorece o real neste momento: a alta das commodities. O Brasil é o maior exportador de soja, carne e minério de ferro do mundo. De janeiro até a última sexta-feira, o índice CRB (síntese da variação de preços de várias commodities) acumulava valorização de 13,2%. O petróleo, sozinho, subia quase 26% no mesmo período. Se tudo correr como se espera hoje, em alguns anos, o País se tornará também um dos maiores exportadores globais de petróleo.

10/09/2009 - 14:31h FGTS na capitalização da Petrobras acirra debate

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Cristiane Agostine, de Brasília – VALOR

O debate sobre a eventual compra de ações da Petrobras com cotas individuais dos trabalhadores do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) é marcado por divergências entre o governo federal, o comando do FGTS, sindicatos e parlamentares. A capitalização da Petrobras, prevista em projeto de lei encaminhado ao Congresso, reacendeu a discussão, mas não há consenso nem mesmo entre representantes dos trabalhadores.

O Congresso decidirá como os minoritários poderão participar da capitalização da Petrobras durante a tramitação do novo marco regulatório do petróleo. Sindicatos e parlamentares pressionarão pela inclusão de emenda que permita a compra de ações com cotas individuais do FGTS, para que os trabalhadores tenham maior rentabilidade no fundo de garantia, mas há divergências entre esses grupos. O contraponto é que investimentos fora das áreas de infraestrutura, saneamento e habitação podem esvaziar o fundo de garantia, e as ações apresentam riscos aos trabalhadores.

O governo federal descartou, na semana passada, o uso do fundo na compra de ações da estatal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o FGTS não deve ser usado para que acionistas minoritários adquiram novas ações no aporte que o governo pretende fazer para capitalizar a Petrobras, visando a exploração do petróleo no pré-sal.

A posição do presidente foi reforçada pelo superintendente nacional do FGTS, Joaquim Oliveira, e pelo secretário-executivo adjunto do Conselho Curador do FGTS, Antonio Góis de Oliveira. Ontem, depois de participar de debate no Senado sobre projetos de lei que visam a maior rentabilidade do fundo, o superintendente disse que é necessário cautela. “Se tirar dinheiro da habitação, como é que vai ficar?”, questionou Joaquim Oliveira. Para o secretário executivo-adjunto do conselho, os investimentos do FGTS são amplos e não se deve aumentá-los.

A compra de ações da estatal com cotas do FGTS divide parlamentares. Autor de projeto de lei que visa a ampliar a remuneração das contas do fundo de garantia, o senador César Borges (PR-BA) tem restrições. “É preciso ter muito cuidado, porque aplicar em ações apresenta alto risco”, disse. O senador Paulo Paim (PT-RS) discorda: “Temos de deixar o trabalhador aplicar onde há maior rentabilidade. O rendimento do fundo é muito baixo.” Para o senador Renato Casagrande (PSB-ES), o governo deve permitir a compra de ações com o fundo de garantia individual, a exemplo do que houve em 2000, quando os trabalhadores puderam adquirir cotas do FMP-Petrobras: “As ações vão se valorizar e os trabalhadores poderão capitalizar isso.”

Sindicalistas, parlamentares e o governo discutem sobre a possibilidade de os trabalhadores que compraram ações da Petrobras com FGTS em 2000 e continuam com papéis da estatal usarem até 30% de seu saldo na capitalização. Eles debatem também a possibilidade de o Fundo de Investimentos do FGTS investir em projetos do pré-sal.

A CUT fará pressão no Congresso para impedir a aprovação de qualquer projeto que permita a aplicação de cotas individuais do fundo de garantia em novas ações da Petrobras. “Quem quiser comprar ações não deve usar o FGTS para isso. Somos contrários”, disse o presidente da central, Artur Henrique da Silva. A Federação Única dos Petroleiros também é contrária. “O FGTS é uma garantia para o trabalhador, não é para ganhar dinheiro”, comentou o coordenador da federação, João Antonio de Moraes. Já a Força Sindical, dirigida pelo deputado Paulo Pereira de Souza (PDT-SP), defende a compra de ações. “O governo não pode discriminar os trabalhadores recusando-lhes o direito de socializar este capital, que pertence ao povo”, afirmou a Força, em nota.

28/07/2009 - 10:55h Grupos brasileiros crescem em ranking dos maiores do mundo. Petrobras avança do 37º para o 8º lugar

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Para consultoria, números mostram que empresas do País estão se recuperando mais rápido

Renato Cruz – O Estado SP

As grandes empresas brasileiras estão entre as que mais se valorizaram no mundo no primeiro semestre, avançando no ranking das 300 maiores empresas globais, por valor de mercado, elaborado pela consultoria Ernst & Young. O levantamento mostrou a recuperação das empresas depois do ponto mais crítico da crise mundial, no final do ano passado.

O número de empresas brasileiras na lista passou de cinco, em dezembro, para oito, em janeiro, com três delas entre as 100 maiores: Petrobrás (8º lugar), Vale (46º) e Itaú Unibanco (76º). Entre as 300 maiores, ainda aparecem o Bradesco (120º), a AmBev (147º), o Banco do Brasil (204º) e o Banco Santander do Brasil (254º). O estudo tem como base o valor das ações das empresas ao fim do semestre.

“A recuperação está muito alinhada com os Brics”, disse Paulo Sérgio Dortas, sócio da área de transações corporativas da Ernst & Young, referindo-se ao grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China. “A Rússia e a China também se recuperaram.”

O total de empresas chinesas na lista das 100 maiores passou de oito no fim de 2009 para 11 em junho. No entanto, as três brasileiras entre as 100 maiores foram as que apresentaram a maior valorização, com valor conjunto de US$ 313,8 bilhões. Elas subiram 101%, ficando muito à frente das russas, que acumularam um aumento de 42%, com o segundo melhor resultado entre os países.

A China tem três empresas entre as dez maiores: Petrochina (1º), Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) (3º) e China Construction Bank (6º). A operadora de telecomunicações China Mobile (5º) tem sede em Hong Kong. A Petrochina ultrapassou a americana Exxon Mobil, que ocupava o topo da lista no fim do ano passado e passou para o segundo lugar.

A Petrobrás é a única empresa brasileira entre as 10 maiores. Seu valor de mercado passou de US$ 95,895 bilhões para US$ 164,818 bilhões, avançando do 37º para o 8º lugar no ranking. A Vale subiu do 68º para o 46º lugar, com um valor de mercado de US$ 89,317 bilhões, o que equivale a um crescimento de 48% no trimestre. “A valorização da Petrobrás e da Vale reflete, em grande parte, a recuperação do mercado de commodities”, destacou Dortas.

A alta dos bancos brasileiros, com a entrada de dois deles na lista das 300 maiores empresas, mostra como eles foram pouco afetados pela crise, quando comparados com as instituições de países desenvolvidos. “Uma notícia muito boa foi o avanço da AmBev, que está muito mais ligada à situação do País que ao mercado internacional”, disse o consultor. “É uma empresa que depende mais do mercado interno, e sua recuperação mostra que as classes C, D e E continuam consumindo.”

Com base nos dados do estudo, Dortas apontou que já existem sinais de que a retomada do crescimento começa a acontecer mais rápido que o esperado, puxada pelos Brics. “O Brasil e a China são os carros-chefe, e estão surpreendendo quem só esperava uma recuperação para 2010.”

As empresas americanas e europeias perderam espaço na lista das 300 maiores do primeiro semestre, com um crescimento da Ásia. “Apesar de ainda estarem em primeiro lugar, essas economias têm perdido pujança”, apontou. O total de empresas americanas entre as 300 maiores manteve-se estável, com perdas de posições para muitas delas, enquanto o número de empresas europeias caiu de 110 para 95. Entre as 100 maiores, a presença europeia passou de 46 para 35 companhias.

Depois de cair 22% no primeiro semestre de 2008 e 33% no segundo, o valor das 300 maiores empresas voltou a crescer, com expansão de 8%, ou US$ 1,1 trilhão. No ano passado, perderam US$ 11,3 trilhões.

14/07/2009 - 10:15h Endividamento de empresa brasileira no exterior despenca

Participação do mercado internacional na dívida total sai de 40% em 2000 para 11% em 2008

Leandro Modé – O Estado SP

O endividamento financeiro das empresas brasileiras cresceu pouco em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) entre 2000 e 2008, mas as fontes em que os recursos foram captados mudaram drasticamente. Esse é o resumo de um trabalho inédito elaborado pelo Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec) do Ibmec, obtido com exclusividade pelo Estado. O estudo tem por base dados de instituições como o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A participação do mercado internacional no endividamento financeiro despencou de 40,2% do total em 2000 para 11% no ano passado. No mesmo intervalo, o crédito bancário tradicional livre (ou seja, sem direcionamento obrigatório) avançou de 29,6% para 40,3%. O crescimento mais expressivo, no entanto, se deu nos títulos de dívida (como debêntures e notas promissórias), que saíram de 10,2% do total para 24,3% em 2008.

“Esse desempenho é explicado, principalmente, pela queda da taxa de juros e pelos fortes avanços institucionais do mercado de capitais”, afirmou o coordenador do Cemec, Carlos Antônio Rocca. “O juro mais baixo, por sua vez, decorre da redução da vulnerabilidade externa do País e da queda da dívida do governo, que abriu espaço para o setor privado.”

A taxa básica de juros (Selic) média foi de 16,19% ao ano em 2000, chegou a 23,03% em 2002 e encerrou o ano passado em 13,66%. Atualmente, está em 9,25%, menor nível da história do País.

Segundo Rocca, o forte recuo do endividamento financeiro no exterior resulta da experiência traumática das companhias brasileiras com a desvalorização do real, em 1999. “Dívida em moeda estrangeira e receita em moeda local cria um problema de descasamento”, observa Rocca. Foi o que ocorreu em 1999, quando a adoção do câmbio flutuante foi seguida de uma disparada das cotações do dólar, o que quebrou várias companhias e ameaçou a sobrevivência de outras tantas.

Situação parecida ocorreu no ano passado com os chamados derivativos tóxicos. Muitas empresas pegaram empréstimos bancários corrigidos pela taxa de câmbio. Com a disparada do dólar, em consequência da crise global, muitas delas tiveram perdas bilionárias. Os exemplos mais conhecidos são a Aracruz e a Sadia (que, por causa desses problemas, acabou se fundindo à Perdigão).

Rocca frisa que esses são exemplos do mau uso do instrumento. “Derivativos são indicados como estratégia para se proteger de grandes oscilações nos preços dos ativos”, disse. De qualquer forma, vale deixar claro que, em 1999, a exposição das empresas era diretamente em dólar. Na experiência mais recente, a dívida assumida era em reais, ainda que corrigida pela variação da moeda americana.

O professor observa, ainda, que, apesar da mudança de perfil, o investidor estrangeiro continuou a ser importante fonte de financiamento para as companhias brasileiras. “A diferença é que, antes, eram as empresas que iam lá fora captar recursos. Mais recentemente, os estrangeiros vieram para cá comprar papéis emitidos por elas.”

ESTOQUE

Segundo o trabalho do Cemec, o estoque de endividamento financeiro das empresas em relação ao PIB subiu de 34,9% em 2000 para 40,9% em 2008, o equivalente a quase R$ 1,2 trilhão. Rocca diz que é um nível ainda baixo se comparado a outros países, mas a tendência é de crescimento.

“As perspectivas são muito positivas, especialmente para os títulos privados de dívida, que tendem a participar cada vez mais da carteira dos investidores.”

De novo, a taxa de juros tem um papel vital na tendência. Em primeiro lugar porque barateia o custo de endividamento, o que estimula as empresas a buscar crédito para, por exemplo, bancar projetos de expansão. De outro lado, porque leva os investidores a buscar alternativas mais rentáveis para suas aplicações, hoje atreladas, em sua maioria, a títulos públicos corrigidos pela Selic.

Com o juro básico no menor nível da história, muitas empresas já emitem papéis com vistas ao investidor de pequeno porte. Oi e Bradespar, por exemplo, lançaram debêntures no primeiro semestre com valor de face baixo para alcançar esse público
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13/07/2009 - 11:39h O mundo se resume a Brasil e China

De Olho na Bolsa

Daniele Camba – VALOR

Desde que a atual crise financeira deu os seus primeiros sinais, no início do segundo semestre do ano passado, o que mais se falou é do descolamento positivo do mercado brasileiro (o “decoupling”), consequência direta dos sólidos fundamentos econômicos do país. Essa, no entanto, é uma meia verdade. Os gráficos mostram que, além do Brasil, os investidores estrangeiros também foram para a bolsa da China, à procura dos melhores retornos entre os países emergentes.

Um estudo feito pela RC Consultores revela como a bolsa brasileira e a chinesa se alternaram na preferência dos investidores internacionais, com ganhos muito interessantes. Desde o início da crise, é possível perceber três momentos bem distintos entre os dois mercados. No primeiro, entre setembro do ano passado – quando houve a quebra do banco americano Lehman Brothers e a crise internacional de fato se deteriorou – e fevereiro deste ano, o Índice Shangai teve um desempenho muito melhor que o Índice Bovespa, especialmente em janeiro e fevereiro deste ano. Entre 15 de setembro, dia da quebra do Lehman, e o fim de fevereiro, o Índice Shangai se valorizou em dólar 0,21%, enquanto o Ibovespa caiu 45,11% na moeda americana.

Num segundo momento, entre março e maio deste ano, o mercado brasileiro nitidamente tem um desempenho melhor que o chinês. Nesse período, o Ibovespa teve uma alta de 67,95% em moeda americana e o Índice de Shangai de apenas 26,63%. No último movimento, que começou no mês passado e vai até hoje, os dois mercados inverteram as posições, com o Índice Shangai subindo 18,12% e o Ibovespa registrando uma queda de 9,39%, ambos em dólar.

“Houve uma polarização entre Brasil e China, com o investidor estrangeiro preferindo ora a bolsa chinesa, ora a Bovespa”, diz o economista-chefe da RC Consultores, Marcel Pereira, responsável pelo estudo. Esse fluxo maior ou menor de recursos internacionais explica boa parte do movimento cambial desde o começo da crise. “É um comportamento inédito já que, historicamente, o câmbio sempre esteve ligado muito mais ao lado real da economia e menos ao fluxo para ativos financeiros”, diz Pereira.

Até fevereiro, quando o saldo líquido (diferença entre compras e vendas de ações) de estrangeiros na Bovespa continuava fortemente negativo, o câmbio se aproximava dos R$ 2,40 por dólar. A partir de então, esses investidores trocaram a China pelo Brasil e, no fim de maio, até quando durou a valorização da Bovespa, o dólar chegou a R$ 1,94.

“Não foi uma simples coincidência as ações subirem no mesmo momento em que o real se valorizou frente o dólar; foi a entrada de dinheiro externo na bolsa que fez as ações subirem e o dólar cair”, explica o economista-chefe da RC Consultores. Por fim, desde junho, com a saída de uma parte dos recursos estrangeiros, o Ibovespa caiu e o dólar voltou a se valorizar ante o real, fechando a sexta-feira em R$ 2,00.

A atual crise só reforçou a preferência pelas bolsas chinesa e brasileira que já vinha ocorrendo nos últimos anos. Entre 2003 e 2007, o Ibovespa, por exemplo, acumulou uma valorização de 1.031% em dólar (é esse percentual mesmo, não é erro de digitação). Já entre agosto de 2006 e outubro de 2007, o Índice Shangai subiu 287,96% na moeda americana. Os fundamentos macroeconômicos explicam essa predileção pelos mercados financeiros dos dois países. Em primeiro lugar está a China, cujo Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos anos cresceu a taxas de dois dígitos. No caso do Brasil, a história é bem mais modesta, pelo menos em termos de crescimento do PIB. No entanto, a razoavelmente recente estabilidade econômica trouxe junto uma importante evolução dos fundamentos do país.

É importante lembrar, no entanto, que as duas economias já deram alguns sinais de alerta que vale a pena considerar. “No Brasil, há uma piora na situação fiscal, enquanto na China a economia cresce bem menos do que nos últimos anos”, diz Pereira. “Além disso, existem dúvidas sobre a força do mercado de crédito chinês, mesmo com o pacote de estímulo do governo.”

Também não é à toa que os dois mercados prediletos são de países altamente relacionados às commodities: o Brasil como produtor e a China tanto como produtor quanto como consumidor. O ciclo de alta dessas matérias-primas, como petróleo, minério de ferro e aço entre 2003 e o primeiro semestre de 2008, trouxe prosperidade para os dois países. Consequentemente, atraiu olhares e bolsos cheios internacionais.

O futuro das commodities no médio prazo também é um fator a se pensar quando se fala do destino das bolsas brasileira e chinesa. “Recentemente, houve uma valorização de algumas matérias-primas, como o petróleo, mas graças apenas a um movimento especulativo por parte dos investidores, já que não existe um aumento de demanda real”, completa Pereira.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

E-mail: daniele.camba@valor.com.br

22/06/2009 - 14:09h Ambiente macro favorece construção

De Olho na Bolsa

Daniele Camba – VALOR

Processo consistente de queda da taxa de juros, pacote de medidas do governo de estímulo ao setor e déficit habitacional historicamente alto. Esse tripé forma o cenário ideal para o crescimento das construtoras no país e, consequentemente, para suas ações. Depois de sofrerem muito em 2008 com a crise internacional, esses papéis neste ano registram valorizações relevantes, em parte refletindo o terreno fértil para o setor. No ano até sexta-feira, o Índice Imobiliário (Imob), formado pelas ações de maior liquidez das construtoras, acumula alta de 80,07%, mais do que o dobro da valorização de 36,81% do Índice Bovespa no mesmo período.

Alguns papéis registram altas de mais de 100% neste ano. As ações ordinárias (ON, com direito a voto) da Tenda, por exemplo, já subiram 221,55%, as ON da MRV se valorizaram 169,71% e as ON da Helbor, 117,95% . Apesar desse desempenho, a expectativa é que os papéis ainda tenham potencial para novos movimentos de alta. “As ações ainda precisam subir para compensar toda a queda do ano passado; além disso se espera que as construtoras entreguem resultados crescentes neste e nos próximos anos”, diz o sócio da Polo Capital Marcos Duarte.

Os papéis de construtoras tiveram quedas significativas no ano passado. As ON da Tenda caíram 88,68%, as da MRV se desvalorizaram 74,18% e as da Helbor, 75,80%. As ofertas iniciais (IPOs, em inglês) das construtoras ocorreram nos últimos anos, quando o mercado ainda estava no auge, e a grande maioria a preços altos. Os investidores estrangeiros foram os grandes compradores dos papéis. No entanto, com a crise, eles se desfizeram em massa desses ativos, embolsaram os ganhos e voltaram para os seus países.

Neste momento em que a crise parece dar uma trégua, mais uma vez são os investidores internacionais que apostam as fichas no cenário promissor das construtoras. “São eles principalmente que estão comprando as ações, enquanto o brasileiro olhou muito, agiu pouco e agora chupa o dedo vendo o quanto elas já subiram”, diz Duarte. Ele, no entanto, pegou carona com os estrangeiros e colocou nos fundos da Polo ações de dez construtoras que caíram muito e apresentam boas perspectivas. “Comprando um leque de papéis, eu acabo diluindo o risco de possíveis perdas”, diz o gestor. Os fundos da Polo têm hoje entre 4% e 15% do capital social dessas companhias.

Na opinião de Duarte, um dos temores do investidor local é que os ativos, como terrenos e prédios, estejam lançados por valores inflados dentro dos balanços das companhias. No entanto, nos últimos meses, várias construtoras venderam bens pelo valor patrimonial ou acima, o que comprova que os preços nas demonstrações financeiras não eram irreais, explica Duarte.

Juros na veia

Motivos não faltam para imaginar que as construtoras terão anos de crescimento pela frente, mas um dos mais importantes, sem dúvida, é o recente processo de queda da taxa de juros. Uma boa parte da venda de imóveis depende dos financiamentos imobiliários de longo prazo, que são altamente impactados pela baixa da Selic. “Um financiamento de 10 anos, com Taxa Referencial (TR) mais 8% ao ano é algo que nunca tinha se visto e hoje já existe”, lembra o gestor da Polo. O financiamento imobiliário no Brasil ainda é incipiente. Aqui as hipotecas representam cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto nos EUA são 70%, afirma Duarte. Os reflexos positivos do pacote de medidas do governo de estímulo ao setor também já podem ser sentidos, com um aumento de demanda por imóveis, o que deve provocar a continuidade de crescimento da receita das companhias. “As vendas atuais só irão se refletir integralmente nos balanços das construtoras daqui dois ou três anos, quando os imóveis forem entregues; os bons resultados que as companhias apresentam agora ainda são das vendas feitas anos atrás”, diz Duarte.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

E-mail: daniele.camba@valor.com.br

18/05/2009 - 11:22h Bolsas dos emergentes estão engordando

De Olho na Bolsa:
Emergentes tiram a barriga da miséria

Daniele Camba – VALOR

A crise internacional pegou todos os países, sem distinguir grandes ou pequenos, bons ou maus. Os mercados caíram muito e, de forma geral, na mesma proporção. Agora, com a sensação de que o olho desse furacão ficou para trás, as bolsas deram uma arrancada desde o mês passado. A recuperação se deu de forma ainda mais acentuada nos mercados emergentes. Inclui-se nessa lista o Brasil. A alta foi tamanha que boa parte dessas bolsas conseguiu zerar as perdas do ano e ainda mostrar ganhos acumulados consideráveis. Algumas bolsas registram valorizações no ano, em dólar, entre 30% e 50%. Isso porque o primeiro semestre nem chegou ao fim.

A bolsa brasileira se destaca ainda mais dentro desse grupo de felizardas. No ano, o Índice Bovespa sobe 46,91% na moeda americana. Esse retorno só fica atrás, e por um triz, da bolsa da Rússia, com alta de 48,17%. O país vem se beneficiando da valorização gradual do petróleo, que chegou a bater a mínima de US$ 37,41 e, na sexta-feira, já estava em US$ 57 o barril.

A grande questão é: por que os mercados emergentes se recuperaram tanto ao menor sinal de melhora no cenário internacional? Há várias respostas. Uma delas é que, de 1994 para cá, quando houve a crise do México, esta é a primeira crise deflagrada num país desenvolvido – os Estados Unidos. “Exatamente por esse motivo, seria natural que os ativos de emergentes se recuperassem antes e mais”, diz o superintendente de renda variável do banco Itaú, Walter Mendes.

A melhora dos fundamentos econômicos dessas nações ao longo dos anos também explica o fôlego maior das bolsas de países em desenvolvimento. Mendes lembra, por exemplo, que, em 1994, eles tinhas reservas internacionais pífias. Já hoje a China tem reservas na casa dos US$ 2 trilhões, a Rússia, dos US$ 500 bilhões, e o Brasil, de US$ 200 bilhões. Nada mau. Esses países também adotaram políticas econômicas mais ordotoxas, além do câmbio flutuante.

Os investidores brasileiros têm motivos para acreditar que o mercado local poderá ter um desempenho ainda melhor que os demais emergentes à medida que os fundamentos melhorarem. Diferentemente de outros países, o Brasil ainda possui uma taxa de juros alta e uma baixa participação do crédito no Produto Interno Bruto (PIB). “O país ainda tem muito espaço para evoluir e os ativos devem refletir esses progressos quando eles ocorrerem”, acredita o superintendente do Itaú.

De volta aos fundamentos

Nas últimas semanas, analistas e investidores têm se perguntado se a recente recuperação das bolsas não foi exagerada. Mendes discorda. Não dá para bater o martelo, mas, ao que tudo indica, os piores momentos da crise parecem, de fato, já terem passado. “Só teremos certeza disso quando saírem os primeiros dados concretos de recuperação econômica, o que deve começar a ocorrer apenas a partir do terceiro trimestre”, diz ele, que acredita que o fantasma do Ibovespa na casa dos 29 mil pontos é página virada. Aliás, aqueles que compraram ações quando a bolsa estava nesses níveis devem estar rindo à toa. Da mínima de 29.435 pontos, em 27 de outubro do ano passado, até sexta-feira, o Ibovespa acumula valorização de 66,49%.

Depois de tantos solavancos, especialmente desde setembro de 2008, com a quebra do banco americano Lehman Brothers, a bolsa brasileira, enfim, retomou a sua tendência de alta de longo prazo, que vem desde 2003, acredita Mendes. “A recuperação de agora deve ser bem mais racional; longe do pessimismo exagerado dos últimos meses e da euforia exacerbada que marcou 2007, antes da derrocada do ano passado”, completa Mendes. O Itaú mantém a estimativa do Ibovespa em 55 mil pontos para o fim deste ano e de 65 mil pontos para 2010.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

E-mail: daniele.camba@valor.com.br

16/05/2009 - 08:51h PSDB provoca danos à Petrobrás

Noticiário negativo causa queda das ações

NICOLA PAMPLONA – O Estado SP

O mercado financeiro reagiu mal à criação, no Senado, da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a Petrobrás. As ações da companhia puxaram para baixo a Bolsa de Valores de São Paulo ontem e, segundo analistas, a tendência é de mau desempenho nas próximas semanas, em virtude do noticiário negativo que pode ser gerado pela CPI. Especialistas, porém, não veem grandes impactos na gestão da estatal.

“A Petrobrás deve permanecer na mídia de forma negativa enquanto durar a CPI”, comentou o analista Nelson Rodrigues de Mattos, do Banco do Brasil Investimentos, destacando que o impacto maior deve se dar junto aos investidores estrangeiros, que seriam mais vulneráveis ao noticiário político.

As ações ordinárias da estatal (com direito a voto) fecharam o dia em queda de 1,37%. Já as preferenciais caíram 1,39%. A Bovespa terminou o pregão em queda de 0,89%.

01/04/2009 - 09:57h Mercados de ações dos emergentes sobem e descolam dos desenvolvidos

Joanna Slater, The Wall Street Journal – VALOR

Este ano os mercados acionários estão seguindo caminhos separados, em contraste com o colapso geral ocorrido ao longo do ano passado.

Nos primeiros três meses de 2009 houve uma ampla divergência no desempenho dos mercados, do sofrível até o excelente. Ações de países em desenvolvimento, como Brasil e China, tiveram desempenho bem melhor do que as da Europa e dos Estados Unidos.

Isso representa uma acentuada mudança em relação ao fim do ano passado, quando as bolsas do mundo todo desabaram em uníssono, e a única disparidade no desempenho foi na intensidade da queda.

Apesar de que um trimestre não constitui uma tendência, a divergência pode ser um sinal de que o medo dos investidores do mundo todo está diminuindo um pouco.

Os investidores não estão mais vendendo ações indiscriminadamente. Em vez disso, estão tentando identificar quais as ações, em todo o mundo, que vão gerar lucros se uma recuperação econômica começar a se firmar, mesmo se as perspectivas mundiais para este ano continuarem sombrias.

“Talvez isso indique que nós já saímos da fase aguda da crise e passamos para uma fase mais crônica”, diz William Sterling, da Trilogy Global Advisors, que administra US$ 8,5 bilhões em ações nos mercados globais.

O Índice Mundial Dow Jones, que exclui ações dos Estados Unidos, caiu 13% em dólares no trimestre, comparado com uma queda de 14% na Média Industrial Dow Jones. O índice da Morgan Stanley que acompanha as bolsas nos mercados emergentes subiu 5,4% em dólares.

Depois de serem duramente atingidos no ano passado, os mercados emergentes se saíram especialmente bem. Os índices de referência do Brasil e da Rússia aumentaram, ambos, 9% nas moedas locais. As ações de empresas domésticas da China – em geral fechadas para os investidores estrangeiros – lideraram a turma, com o Índice Composto de Xangai subindo 30% (ele teve um declínio de 65% no ano passado).

Michael Hartnett, diretor de estratégia para investimentos internacionais da Banc of America Securities-Merrill Lynch, diz que houve três elementos combinados que apoiaram os mercados emergentes: sinais de que a economia chinesa estava se estabilizando; a relativa força das ações de empresas financeiras nesses mercados; e o rápido retorno de alguns investidores a investimentos mais arriscados, em março.

Na categoria média ficaram mercados como Japão e Canadá, onde os declínios foram modestos em comparação com os EUA. No Japão o índice Nikkei de 225 ações caiu 8%, ao passo que no Canadá o Composto S&P/TSX perdeu 3% do valor.

Na Europa os declínios trimestrais foram semelhantes, ou piores, que os dos EUA, com os índices de referência da Alemanha, França e Reino Unido caindo de 11% a 15%

Não surpreende que o setor com pior desempenho mundialmente tenha sido o financeiro, que caiu 24% em dólares, com base em um índice do Morgan Stanley que acompanha um amplo leque das bolsas mundiais.

Mas nenhum setor realmente brilhou. Os setores de melhor desempenho foram o de informática, que conseguiu um pequeno ganho de 0,6%, seguido pelo de materiais básicos, com baixa de apenas 3,7%.

Para os investidores americanos, o dólar foi uma pedra no sapato. A moeda americana conseguiu um bom avanço, apesar de uma queda no fim do trimestre. Isso corroeu os lucros provindos de ações no estrangeiro e aumentou os prejuízos, uma vez que a maior parte das moedas estrangeiras equivaliam a menos dólares no fim do trimestre.

A diferença de desempenho entre os mercados globais representa um desafio para os investidores. Se houver uma volta à pressão de venda generalizada e à extrema volatilidade que caracterizaram os mercados financeiros no fim do ano passado, então as bolsas poderão voltar a movimentar-se em sincronia. Mas se a divergência continuar, será cada vez mais importante acertar na escolha dos mercados vencedores e perdedores.

“Veremos uma desconexão entre os mercados” se as ações conseguirem se estabilizar por um período prolongado, diz Uri Landesman, administrador sênior de carteira da ING Investment Management em Nova York. “Pode ser verdade que a maré cheia levanta a maioria dos barcos, mas não igualmente.”

Landesman dá preferência a mercados como Brasil e Canadá. Segundo ele, estão bem posicionados para se beneficiar de uma recuperação nos preços de commodities como o petróleo, após uma estabilização da demanda global.

Outros administradores de fundos dizem que veem razões para preferir as ações dos EUA e Ásia às da Europa. A lógica é que a intensa reação do governo americano à atual crise vai ter efeito, levando a uma recuperação de algumas das exportações asiáticas que despencaram no abismo no ano passado.

Mais ainda, “as empresas asiáticas e as economias asiáticas possuem o balanço patrimonial (necessário) para sobreviver à atual situação”, diz Stephen Auth, diretor de investimentos para mercados globais da Federated Investors, que administra US$ 28 bilhões.

Auth diz que durante o primeiro trimestre sua firma transferiu dinheiro de suas carteiras internacionais da Europa para a Ásia. Acrescenta que a firma prefere ações americanas, e não as internacionais de modo geral. O principal motivo é seu pessimismo em relação às ações europeias, as quais representam uma proporção significativa dos índices de referência que excluem os Estados Unidos.

“Acreditamos que a ‘Chimérica’ (China e EUA) está se movimentando mais depressa, e de modo geral está em melhor forma do que a Europa”, diz ele. “Em parte porque a Europa nem percebeu ainda a extensão do seu problema.”

Um fator a favor da Europa é que as ações estão sendo negociadas a preços baixos. Um relatório recente de analistas do Citigroup recomendou que os investidores comprem mais ações europeias e britânicas do que o sugerido por um índice de referência, exatamente por esse motivo. Em meados de março essas ações estavam sendo negociadas a nove vezes o valor do lucro por ação estimado para 2009, segundo o Citigroup, comparado com doze vezes para ações americanas e ações asiáticas, excluindo o Japão.

17/03/2009 - 10:37h Para seu criador, Bric pode ser ampliado

Leo Pinheiro/Valor

Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o responsável pela criação do termo Bric: o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA

Iván Rothkegel, The Wall Street Journal, de Nova York – VALOR

Nos últimos anos, Bric tornou-se uma das palavras da moda do mundo financeiro. A sigla para Brasil, Rússia, Índia e China passou a representar o ápice do reequilíbrio de forças econômicas da globalização. Nos próximos 50 anos, esses países iriam se tornar grandes potências mundiais e a economia global não seria dominada apenas por Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão.

A pior crise que o mundo presenciou desde a Grande Depressão, contudo, está batendo pesado nos Brics e o “Wall Street Journal Americas” considerou que seria o momento oportuno para revisitar o conceito. O Bric ainda é válido ou, assim como a previsão de que o barril de petróleo chegaria a US$ 250, é outro símbolo dos excessos do mundo dos investimentos antes do colapso do Lehman Brothers?

Para obter as respostas, conversamos com Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o homem que cunhou o termo. Sua resposta: o conceito é tão válido como nunca, embora possa ser expandido para incluir países como o México ou Indonésia ou excluir outros, como a Rússia. A seguir, trechos editados da entrevista, feita em 26 de fevereiro:

WSJ:Como o sr. chegou ao conceito?

O´Neill: Até 2001, eu era um dos diretores de pesquisa econômica da Goldman Sachs mundialmente. E minha maior especialidade era como economista-chefe de câmbio. No fim dos anos 90, passei a ficar mais interessado na China e na questão cambial chinesa. Então esse é o primeiro aspecto. Mas muito mais importante nesse contexto (foi que) por volta de 11 de setembro (de 2001) me tornei o único diretor de pesquisa econômica mundial para a Goldman Sachs. Então eu precisava buscar aquilo que seria a minha marca. O cara que dividia o posto comigo antes, Gavin Davis, era um pensador econômico excepcionalmente poderoso e estava no cargo antes de eu chegar. Ele liderou a análise cíclica do G7 nos anos 80 e isso é um dos motivos por que a Goldman se tornou tão bem conhecida. E então eu estava pensando: ‘Como posso fazer algo que tenha o mesmo impacto para nossa firma e nossos clientes?’ Isso era o que estava na minha cabeça. Tudo aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo, quando houve o 11 de setembro, e eu acho que a verdadeira lição do 11/9 para mim, além do horror, foi uma mensagem de que a globalização tinha de ser diferente. Se eu combinasse aquilo com meu fascínio já forte pela China, foi isso que me levou a sonhar com a expressão Bric.

WSJ: Por que Bric?

O´Neill: Escrevi um artigo em novembro de 2001 chamado ‘O mundo precisa de melhores Brics (soa como a palavra ‘tijolo’, em inglês) econômicos’. É porque três desses países, menos o Brasil, tinham algo fundamentalmente bem diferente começando a acontecer nos anos 90 e potencialmente no futuro. No caso da Rússia era o fim da União Soviética. No da China era a adoção da economia de mercado. No da Índia era o boom mundial de tecnologia. E então, com grandes populações nesses três lugares-chave, minha visão era que com a globalização esses três países iam ser participantes importantes. A grande coisa que coincidiu com isso foi o aparecimento de Lula na cena (internacionalmente). E se você lembrar em 2000, 2001 as pessoas achavam que depois da desvalorização na Argentina o Brasil ia ser um desastre sob Lula. A coisa que chamou minha atenção no Brasil, e foi completamente subestimada por todo mundo, foi a introdução das metas de inflação (em 1999). Quando vi isso, pensei ‘pera aí, não são apenas esses três países que serão muito diferentes, se o Brasil for tratar a meta de inflação de maneira séria, o Brasil será diferente’. E pensei, sabe, que o Brasil deveria estar lá também. É um país de 160 milhões de pessoas, talvez chegando a 200 milhões. O Brasil, se mantiver a inflação sob controle, vai ser uma das maiores economias do mundo.

WSJ: Por que Bric e não MRIC, com o México em vez do Brasil?

O´Neill: Em retrospecto, a coisa que realmente deu um grande impulso ao Bric foi, dois anos depois, quando fizemos nossa primeira análise de 2050 e mostramos que os quatro países juntos poderiam ser maiores que o G7 em 2036. Então, depois de dois anos em que (o Bric) se tornou algo enorme, e com muitas pessoas perguntando por que não México, por que não Turquia, escrevemos um grande estudo dizendo como os Brics são sólidos e analisamos por que os próximos 11 países em população não estavam lá. Dos 11, para ser honesto, um deles, o México, tem provavelmente justificativas para ser incluído. Por isso muitas vezes brinco com as pessoas que talvez eu devesse ter chamado BRICM, com um M de México.

WSJ: O conceito pode ser expandido?

O´Neill: Conceitualmente, acho que sim. Digo, por volta de 2005, quando escrevemos um estudo sobre como os Brics eram sólidos, sugeri que o que realmente constitui um Bric (…) é o seguinte: um país do mundo emergente que tenha o potencial de ter pelo menos 3% do PIB mundial. Isso significa que, se algum dos atuais quatro Brics não puder realizar seu potencial, talvez ele não devesse (estar lá). Mas também significa que o México tem definitivamente esse potencial e levanta a possibilidade de que países com grandes populações, como a Indonésia, também possam.

WSJ: O sr. acha que, ao longo do tempo, as pessoas começaram a usar o conceito de uma maneira diferente da que o sr. pretendia?

O´Neill: Às vezes. Em 2007 em particular eu estava preocupado que toda a coisa do Bric estava virando uma febre insustentável no mundo do investimento. Muitas pessoas estavam elaborando fundos Bric. Um banco criou um Brict com um T de Turquia no fim etc. etc. E as pessoas estavam colocando dinheiro em fundos Bric em 2007, embora a relação entre preço e estimativa de lucro por ação da China e da Índia fossem mais que o dobro da dos EUA. E isso era claramente, como dissemos na época, insensato.

WSJ: O sr. acha que os Brics, como estão, formam um conceito sustentável?

O´Neill: Decididamente. Muita gente tola colocou dinheiro em fundos Bric em 2007 e 2008 e perdeu dinheiro. As pessoas não deveriam se esquecer que, desde que introduzimos a sigla, o índice Bric MSCI ainda está em alta de algo como 120%, enquanto o S&P 500 está em baixa de uns 20%. Ou seja, são apenas as pessoas que compraram essas coisas quando elas estavam extremamente caras que perderam dinheiro. Nunca presumimos que nos próximos 30 anos, mais ou menos, esses países sustentariam taxas de crescimento próximas das que vinham crescendo, com a exceção do Brasil. Nossa premissa para o crescimento chinês é de 5,8%. Nos primeiros sete anos da sigla Bric, a China cresceu quase ao dobro do que presumimos. Por isso, a grande desaceleração da China não ameaça nem um pouco sua parte no sonho do Bric.

WSJ:E suponho que ao fim do período o sr. leva em conta um crescimento muito mais lento para a China.

O´Neill: Entre 2011 e 2050, ou seja, descartando esta década, temos o seguinte: 4,3% para o Brasil, 5,2% para a China, 6,3% para a Índia e 2,8% para a Rússia. A China vai crescer mais que isso este ano! Quando você olha para o pensamento da moda atual, as pessoas acham que o descasamento não aconteceu. Se você olha para o consumo interno, há evidências bem claras de que, embora tenha desacelerado um pouco, o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA, e o tem feito há três anos, para o crescimento global. Por isso, não acho que, até agora, esta crise tenha ameaçado nem um pouco o conceito do Bric. Deixe-me acrescentar um ponto controverso. Acho que o fato de os Brics serem sólidos vai ajudar a tirar os EUA desta bagunça porque vai permitir que as exportações americanas se recuperem e sejam uma parte importante do futuro da economia americana.

WSJ: O fenômeno Bric foi associado com um boom em commodities liderado pela China e pela Índia. Agora, quando a poeira assentar, o que vai acontecer com esse boom de commodities? Como os Brics vão lidar com isso?

O´Neill: De certa maneira, a Índia tem lidado com ela particularmente bem porque a alta dos preços das commodities não era boa para o país. Você está certo, especialmente no caso do Brasil, claro, que as pessoas associam o Bric com commodities. Rússia e Brasil são ambos grandes produtores de commodities e China e Índia são ambos grandes importadores de commodities. A grande alta dos preços de commodities, que se pode argumentar ter sido causada pela China crescendo 12% durante uns três anos, foi realmente boa para Rússia e Brasil, mas na verdade bastante ruim para a Índia, e eu diria que uma possível surpresa este ano, caso consigamos parar a deterioração da crise de crédito, é que a Índia pode se sair muito melhor mais cedo do que as pessoas pensam. O declínio nos preços das commodities é um grande fator positivo para a Índia.

WSJ: Mas é um grande fator negativo para Rússia e Brasil.

O´Neill: Argumentei durante três anos que não seria possível realmente dizer se Rússia e Brasil justificariam seu status de Bric até que passassem por um períodos de preços de commodities fracos.

WSJ: Então este é um teste maior para Brasil e Rússia do que para Índia e China?

O´Neill: Este não é nenhum teste para China e Índia. É decididamente um teste para Rússia e Brasil. E é um bom teste.

WSJ: Eles passarão?

O´Neill: Acho que a evidência no Brasil já é sim. A estrutura macroeconômica de melhores práticas que Lula adotou sete anos atrás está (…) demonstrando que o Brasil pode lidar com essa crise. O Brasil dos anos 70 aos 90 estaria tão ruim quanto a Rússia. Não estou certo de que a Rússia possa enfrentá-la e temo que não possa. Até agora, esta crise está demonstrando que a Rússia é dependente demais de commodities.

WSJ: Quando o sr. fala sobre o Brasil conseguindo enfrentar, o que quer dizer?

O´Neill: A moeda enfraqueceu, o mercado acionário enfraqueceu, mas diferentemente de crises brasileiras passadas eles não tiveram de aumentar as taxas de juros para conter a saída de capital, o que é um sinal muito poderoso.

WSJ: Já vimos a China tirar proveito de algumas oportunidades de compra para conseguir acesso a alguns recursos nacionais. O sr. acha que as empresas brasileiras podem ir ao ataque também?

O´Neill: Em minha experiência nos mercados financeiros, e esta é provavelmente a sexta crise que enfrento, o que define a longevidade e o sucesso das pessoas e empresas é como elas transformam uma crise numa oportunidade. É uma coisa muito difícil de fazer. Não dá para ignorar ou minimizar os problemas desta crise, mas ao mesmo tempo o melhor momento para expandir é perto do fim de uma crise.

WSJ: O sr. acha que estamos perto do fim da crise?

O´Neill: Desenvolvemos um indicador da crise em outubro, depois que o Lehman quebrou, que consiste numa série de diferentes variáveis do mercado monetário. Este indicador está agora (26 de fevereiro) de volta ao nível de quando o Bear Stearns quebrou. Isso me sugere que, embora estejamos obviamente numa recessão mundial muito severa, a crise financeira está mais perto do fim que do começo.

WSJ:No Brasil, por exemplo, há números contraditórios. Algumas pessoas estão assustadas com os números da produção industrial, mas houve listas de espera para a compra de alguns carros depois que o governo ofereceu alguns incentivos.

O´Neill: A psicologia dos mercados financeiros será sempre a mesma. De algumas maneiras a comunidade de investimento financeiro é realmente estúpida. As pessoas estão sempre assustadas quando não deviam e estão sempre empolgadas quando deviam estar assustadas. Por que as pessoas estavam comprando fundos de ações do Bric no começo de 2008, quando a valoração das empresas chinesas era o dobro das americanas? Em segundo lugar, a produção industrial estava realmente fraca no Brasil? É a mesma coisa em qualquer país do mundo. Mas todos esses dados não deveriam surpreender as pessoas, porque refletem o fato de que o sistema financeiro mundial parou em outubro. Por isso o que você tem de olhar realmente é para o consumidor. Se as pessoas estão começando a gastar um pouco mais em lugares como o Brasil, e ouvi a mesma coisa na China, isso é realmente importante.

WSJ: Mas as coisas ainda parecem bem feias. A produção está caindo em todas as partes, os EUA não fecharam ainda um plano coerente para lidar com os bancos…

O´Neill: Não digo que a crise econômica tenha acabado, o que estou dizendo é que a intensidade da crise financeira está mais próxima do fim.

WSJ: E o mercado financeiro antecipa a economia real.

O´Neill: Sim. Isso sugere para mim que em seis meses os números de produção industrial serão melhores. Não no mês que vem, em seis meses. A chave para isso tudo é a China. Se a China for melhor no segundo semestre deste ano, o que eu fortemente acho que acontecerá, então todo o caso do Bric vai voltar a ficar muito popular bem rapidamente.

17/03/2009 - 10:06h Fuga para emergentes pode ser opção

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Catherine Vieira e Nelson Niero, Valor, do Rio e de São Paulo

Os títulos do tesouro americano não são mais o parâmetro de “risco zero” no mercado global? Conceitos como “fuga para qualidade” estão sob revisão, desde que a bússola econômica perdeu o norte? O Primeiro Mundo não é mais o mesmo depois da implosão de ícones de seu poderio empresarial?

Se questões como essas começaram a perturbar o sono do investidor estrangeiro, ele pode estar suscetível a uma ideia que começa a ganhar força entre economistas e gestores: talvez esta seja a hora dos chamados emergentes, e uma suposta comprovação da teoria é que empresas e bancos que têm operações fortes em países como China, Índia e Brasil vêm conseguindo respirar melhor na crise financeira global. Mas vamos aos fatos.

Os efeitos práticos dessa que é a percepção de muitos formadores de opinião de investidores globais ainda não são completamente nítidos, mas há quem já vislumbre alguns sinais, como o fluxo positivo de investidores estrangeiros no mercado de ações brasileiro em fevereiro. Óbvio que esse suspiro ainda é muito pouco para sustentar uma direção para os ativos ou sinalizar uma reabertura do mercado como alternativa de financiamento para as companhias. No entanto, nesses tempos de dureza, não há muito a que se apegar.

É preciso ponderar que a torcida é grande. Mais que uma simples retomada do mercado brasileiro, a volta das captações das empresas por meio do lançamento de títulos e, principalmente, de ações seria a confirmação de que os quatro anos de sucessivas emissões recordes não foram apenas um ponto fora da curva – apesar da euforia excessiva do mercado em 2007.

Entre 2004 e 2007, cerca de cem companhias foram à bolsa e um recorde absoluto de ofertas públicas foi registrado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Foi uma experiência e tanto para um país no qual o mercado de capitais como opção de financiamento de longo prazo parecia uma lenda.

Agora, há aquela sensação incômoda de que voltamos ao zero. A relação entre valor de mercado das empresas e o Produto Interno Bruto (PIB) sugere isso: depois de chegar perto de 100% em 2007, voltou aos níveis de 2004 no ano passado (47,6%). O número de operações em análise e já registradas em 2009 é extremamente desanimador e os prognósticos são de que pelo menos até o fim do ano não se verá um cenário muito diferente.

Mas se estamos com dificuldades de passar pela “marolinha” do presidente Lula e o ano será praticamente nulo para o mercado de capitais, há indícios de que o país está mais bem preparado para a crise do que em outras épocas.

A euforia da fase anterior deixou como herança um caixa gordo em algumas companhias e também em muitas carteiras de fundos de participações em empresas. O sistema financeiro, depois da crise da década de 90, também parece mais sólido do que seus pares no exterior (sem esquecer que os bancos brasileiros ganham muito com títulos públicos e não precisam de muita ousadia para sobreviver).

A expectativa entre gestores e analistas é que, passados estes momentos de nebulosidade, as emissões voltem a florescer no Brasil – mesmo que em ritmo menor que 2007. “Apesar das nossas qualidades, não dá para superar o fato de que a liquidez secou”, observa a presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Maria Helena Santana. Ela diz que os instrumentos foram testados e que os eventuais problemas que surgiram foram sendo contornados.

Entre esses problemas, um dos cruciais é a questão de governança empresarial no país. Muitas novatas foram à bolsa sem o devido preparo, empurradas por bancos de investimento, e companhias tradicionais, consideradas exemplares, envolveram-se em operações arriscadas com derivativos, para a surpresa de seus acionistas.

A queda do PIB no quarto trimestre, que projeta um número anualizado entre os piores do mundo, foi outro balde de água fria, já que as empresas podem não crescer no ritmo esperado. Ainda assim, há um certo otimismo entre os participantes do mercado, especialmente porque o país, assim como China e Índia, vem sendo escalado entre os que reúnem melhores condições competitivas no tumultuado cenário global de hoje.

“Passada a tormenta inicial, os diferenciais positivos do Brasil neste novo cenário começam a ser visualizados com mais clareza”, observa Marcelo Mesquita, que após mais de dez anos no UBS abriu sua própria gestora de recursos, a Leblon Equities. O estrategista assinala que a presença estatal já é forte também por aqui, inclusive no setor financeiro e nas empresas listadas, como a Petrobras.

A petroleira, aliás, que é a principal ‘blue chip’ da Bovespa, é vista como um trunfo para alguns, já que as ações caíram muito. Apesar das mazelas de governança nas quais anda tropeçando nos últimos tempos, a Petrobras tem, por conta dos projetos do pré-sal, uma perspectiva como nenhuma outra do setor. “A Petrobras vai ser uma Exxon”, compara Mesquita.

Uma Exxon estatal pode até parecer atraente no momento em que o governo americano vira sócio de bancos, mas esse viés estatizante pode cobrar seu preço mais adiante, principalmente no que diz respeito à governança.

Mesquita lembra que os bancos locais também sofreram na bolsa por conta da revoada sem critério que ocorreu no pós-crise, apesar de muitas das instituições locais terem fundamentos sólidos. A atratividade nos preços desses ativos já levou a Leblon a montar duas posições relevantes em dois bancos médios, por exemplo.

O estrategista global de câmbio do HSBC, David Bloom, é um dos que acreditam que os emergentes são o futuro. Mas não de forma generalizada: China, Brasil e Índia encabeçam a lista. Este momento poderá ser lembrado como o ponto de virada para um período em que essas economias passarão a ter mais importância no xadrez global. “Já não dá para dizer que os EUA são seguros e o resto do mundo não. Nada mais é intocável.”

O banco inglês amorteceu as perdas com crédito nos Estados Unidos com os resultados robustos obtidos no Brasil e em países do oriente. A General Electric, pouco à vontade com seus números em sua terra, declarou recentemente que os emergentes são prioridade, fazendo coro ao que vem se tornando um mantra empresarial.

A forte regulação e o juro ainda alto também são vantagens competitivas do Brasil. Esses fatores ajudaram os investidores locais a ficarem menos vulneráveis aos ativos tóxicos que causaram perdas mundo afora, embora não tenha evitado as perdas com derivativos.

Os bancos de investimento são regulados e supervisionados pelo Banco Central e a CVM. As ofertas de ativos securitizados também passam pelo crivo dos reguladores. “Há uma atuação muito coordenada, que busca evitar zonas de sombra e manter sempre a transparência”, afirma Maria Helena

No entanto, pode não funcionar exatamente assim. O Novo Mercado, que tinha como princípio garantir os direitos dos investidores, registrou em 2008 operações no mínimo polêmicas, que colocaram em xeque vantagens consideradas certas pelos acionistas.

Os fundos de pensão, que possuem uma carteira de R$ 415 bilhões e investem pelo longo prazo, são impedidos de aplicar no exterior e têm uma participação média baixa no mercado de ações. Isso não evitou rentabilidades reduzidas em 2008, mas ainda mantém esse grupo com um colchão de segurança e apetite pelos projetos de longo prazo. “Temos aproveitado oportunidades em infraestrutura e na bolsa”, diz Wagner Pinheiro, presidente da Petros, o segundo maior fundo de pensão do país.

Os fundos de participação em empresas também estão em situação confortável. Nos últimos anos, captaram cerca de R$ 50 bilhões para investir, mas a concorrência das ofertas públicas iniciais elevou os preços dos ativos e dificultou a efetiva aplicação desses recursos em projetos. Em meados de 2008, estimava-se que mais de R$ 20 bilhões ainda estavam disponíveis. Na semana passada, o empresário Eike Batista anunciou que criará um fundo de até US$ 10 bilhões.

Os chamados administradores de fortunas optaram, com a crise, por ficar com os recursos mais líquidos, esperando por um momento de maior clareza para voltar a alocar os ativos. “Visitamos quase todos e em média estão com 70% a 80% dos recursos em caixa”, contou Mesquita, convicto de que os valores voltarão a ser aplicados no mercado, em algum momento.

17/03/2009 - 09:41h Brasil capta recursos, mas América Latina tem saques

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Por Eduardo Campos, Valor Online, de São Paulo

Os fundos de ações voltados para a América Latina marcaram a segunda semana seguida de perda de recursos. No acumulado do ano até a o dia 11 de março, no entanto, essas carteiras ainda registram captação líquida de US$ 773 milhões. O total pode não parecer muito, mas, quando comparado a igual período do ano passado, a cifra ganha outra proporção. Naquele período, o resultado era negativo em US$ 1,4 bilhão.

Ainda entre os emergentes, segundo números da EPFR Global, consultoria que acompanha a movimentação dos fundos globalmente, houve ingresso de US$ 92 milhões nos fundos de ações dedicados à Ásia (sem contar com o Japão) na semana encerrada no dia 11. Já a categoria dos diversificados Mercados Emergentes Globais (GEM, na sigla em inglês) registraram captação de US$ 340 milhões no período. No acumulado do ano, os fundos da Ásia marcam saques líquidos de US$ 1,74 bilhão, enquanto os GEMs apresentam entradas de US$ 1,62 bilhão.

Os mercados emergentes da Europa, Oriente Médio e África (EMEA, na sigla em inglês) voltaram a ser alvo de saques dos investidores na semana encerrada no dia 11. No ano, a categoria já perdeu US$ 1,26 bilhão.

Na avaliação por país, os fundos de ações voltados ao Brasil e para o México receberam dinheiro novo, assim como as aplicações destinadas à China. Já as carteiras que apostam na Rússia marcaram a quarta semana consecutiva de retiradas.

Segundo o diretor-gerente da consultoria, Brad Durham, os mercados emergentes têm mostrado maior resistência em termos de fluxo de recursos desde o começo do ano se comparados a seus pares desenvolvidos. Uma explicação seria a crença de que esses países apresentam um melhor perfil fiscal quando comparados aos países de centro.

Embora os resgates tenham predominado em fundos de ações durante a segunda semana de março, a EPFR Global afirma que já foi possível perceber alguma melhora no apetite por risco. Isso porque os “money market funds”, categoria que reúne carteiras de curto prazo e de baixo risco, registraram saídas de US$ 381 milhões.

Pela quarta semana seguida, todos os grandes grupo voltados aos países desenvolvidos perderam dinheiro. Os fundos de ações voltados para os Estados Unidos registraram resgates pela sexta semana consecutiva. Mas esse quadro já pode ter mudado, pois o Dow Jones, principal índice de ações do país fechou a semana encerrada no dia 11 com valorização de 9%.

Na Europa, a retirada de recursos continuou em meio às perspectivas de piora adicional no quadro econômico e maior dificuldade em arquitetar um trabalho de recuperação envolvendo todas as nações da região. No Japão, a saída de dinheiro somou US$ 456 milhões, elevando o total perdido no ano para cima dos US$ 2 bilhões.

Entre os fundos setoriais, o grupo finanças teve a melhor performance semanal entre as nove categorias acompanhadas. No período, as carteiras receberam mais de US$ 200 milhões.

Dinheiro novo também foi enviado na semana do dia 11 para os fundos de tecnologia e energia, de acordo com os dados da consultoria. Commodities e imóveis/construção também receberam aportes. “Isso pode ser interpretado como um posicionamento para uma retomada no crescimento ou uma forma de proteção contra um cenário de inflação”, disse o analista-sênior da EPFR Global, Cameron Brandt, em comunicado.

11/03/2009 - 10:47h Perto do alívio do Citi, o PIB vira fichinha

Daniele Camba – VALOR

O desempenho da economia brasileira ladeira abaixo no último trimestre do ano passado surpreendeu até os mais pessimistas. O Produto Interno Bruto (PIB) caiu 3,6% no quarto trimestre de 2008 na série com ajuste sazonal ante o terceiro trimestre do ano passado. Essa é a maior retração desde 1996, quando o levantamento começou a ser feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Era uma notícia mais do que suficiente para que a bolsa fosse ladeira abaixo. Mas para a felicidade dos investidores, a divulgação ocorreu exatamente no mesmo dia que, em carta enviada a funcionários, o presidente mundial do Citigroup, Vikram Pandit, informou que a instituição teve lucro no primeiro bimestre deste ano. Com uma informação tão alvissareira, de um dos bancos com as piores sequelas da crise de crédito internacional, o PIB brasileiro horrendo virou fichinha.

A Bovespa ignorou terminantemente a notícia local e, junto com as principais bolsas do mundo, subiu de forma acentuada. O Índice Bovespa passou o dia com alta significativa e fechou com valorização 5,59%, aos 38.794 pontos. Para se ter ideia de como o bom humor foi generalizado, dos 66 papéis que fazem parte do índice, apenas três caíram: as preferenciais (PN, sem direito a voto) da Gol, TAM e Votorantim Celulose e Papel (VCP). Faz todo sentido o mercado ignorar o desempenho ruim do PIB brasileiro num dia em que o cenário externo parece um pouco melhor. Essa crise é internacional e, à medida que ela se dissipar, aumentam as chances do mundo voltar aos trilhos com cada país refletindo seus próprios fundamentos. E nesse quesito, o Brasil vai bem, obrigada. Até o quadro internacional ficar feio, o PIB vinha crescendo de forma consistente e a estabilidade econômica se mostrava cada vez mais consolidada.

Em vez de o mercado olhar a retração do PIB como um copo meio vazio, resolveu olhá-lo como meio cheio. Com uma queda da economia nesta magnitude, cresceram as apostas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) pode cortar em até dois pontos percentuais a taxa básica Selic na reunião de hoje

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“Até o começo da semana, os mais otimistas acreditavam numa redução de um ponto e meio de uma vez só, hoje (ontem) esses mesmos profissionais já defendem que o Copom pode, e deve, cortar dois pontos nesta reunião”, diz o gerente para pessoa física da Corretora Gradual, Evandro Soeiro Campos. Ele acredita que, com a alta de ontem, uma boa parte dessa expectativa de um corte mais generoso da Selic já está embutida nos preços das ações. No entanto, se isso de fato se consumar hoje, é possível que a Bovespa continue surfando na onda de valorização, pelo menos pelos próximos dias. Vale lembrar que todas essas possibilidades dependem do cenário externo, que continua sendo a variável mais importante. E o pregão de ontem é a maior prova disso. “Se as notícias internacionais voltarem a ser negativas, todas essas hipóteses vão por água abaixo e a bolsa retoma a toada de queda”, alerta o gerente da Gradual.

Em condições normais de temperatura e pressão, quedas de juros sempre favorecem a bolsa, tanto pelo lado da economia quanto pelo fluxo de investidores. Pelo lado da economia porque, entre outros motivos, as empresas passam a ter crédito mais barato e a roda da economia volta a funcionar melhor. Já pelo aspecto financeiro, ganhando menos na renda fixa, os investidores levam seus recursos para a renda variável. O volume financeiro da bolsa ontem, de R$ 4,5 bilhões, pode ser um sinal interessante de uma queda gradual de aversão ao risco. Nos últimos meses, com a deterioração da crise, o giro diário da bolsa tem oscilado entre R$ 3 bilhões e R$ 3,5 bilhões.

Leia a integra da coluna no jornal VALOR

12/02/2009 - 09:46h Mercados e economia já dão sinais de estabilização

Joellen Perry e Jon Hilsenrath, The Wall Street Journal, de Frankfurt e Washington – VALOR

Apesar das demissões em massa e da queda acentuada dos lucros, alguns sinais de estabilização estão emergindo nos mercados globais e, de forma um pouco mais fraca, na economia em geral.

Nos Estados Unidos, na Europa e na China, pesquisas distintas de gerentes de compras mostraram resultados levemente positivos em janeiro, sugerindo que a contração na atividade industrial pode estar perdendo fôlego. A taxa de juros de empréstimos interbancários está cedendo, e alguns mercados de crédito estão descongelando.

Analistas dizem que as baixíssimas taxas de juros oficiais, as promessas de pacotes maciços de estímulo fiscal e os esforços dos bancos centrais ajudaram a aliviar parte da tensão nos mercados financeiros e podem ter estancado a queda da confiança nas empresas. À medida que a ação dos governos tenha efeito sobre a economia, pode estabelecer as bases para que a economia mundial comece a se afastar da tormenta.

Mas os sinais de estabilização surgem num patamar ainda muito baixo, indicando que o resto do ano será, no mínimo, tumultuado, e os pequenos bafejos de esperança podem desaparecer.

“Alguns dos números que temos vistos são terríveis, de cair o queixo”, diz Kent Wattret, economista do BNP Paribas em Londres. “O que começamos a perceber é que o ritmo da contração não vai continuar o mesmo. Mas isso é, de fato, uma questão de ser menos ruim, não de ser verdadeiramente bom.”

Um indicador importante da saúde do setor financeiro – a Libor, a taxa interbancária de Londres, usada nos empréstimos de curto prazo entre os bancos – disparou no ano passado, depois que o banco de investimento Lehman Brothers pediu concordata, porque os bancos pararam de emprestar uns aos outros. Ontem, a Libor para empréstimos em dólar de três meses subiu para 1,23% por causa da frustração com o plano de estabilização financeira do Departamento do Tesouro americano, mas está com tendência de queda constante desde que chegou ao pico de 4,82%, em 10 de outubro.

A emissão de títulos de empresas com rating alta das agências de classificação de risco está aumentando, num sinal de que os mercados podem voltar aos trilhos com o cumprimento do seu principal papel – o de fornecer recursos para as empresas que precisarem deles.

Os mercados de crédito corporativo de curto prazo também estão mostrando sinais de melhora. O juro de commercial papers, ou notas promissórias de curto prazo, vem caindo, deixando as empresas menos dependentes da linha de crédito especial que o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, criou para os tomadores desses empréstimos.

Desde o começo do ano, as empresas venderam, em todo o mundo, um total de US$ 264,4 bilhões de bônus com grau de investimento (isto é, de baixo risco) e que não têm garantia de nenhum programa governamental, segundo a empresa de pesquisa Dealogic. Isso é mais que o triplo em relação ao quarto trimestre do ano passado, quando as empresas venderam por mês, em média, US$ 82,9 bilhões em dívida sem garantia governamental.

As ações têm se mantido relativamente estáveis desde novembro, apesar da deterioração acentuada do quadro econômico. Ontem, a Média Industrial Dow Jones, da Bolsa de Nova York, subiu 50,65 pontos, para 7.939,53.

“Há alguns sinais de estabilidade no sistema financeiro”, afirma Mark Zandi, economista-chefe da empresa de pesquisa econômica Economy.com, da Moody’s. As condições financeiras são uma peça importante do crescimento econômico e, por isso, esses sinais de estabilidade são potencialmente animadores.

A economia real ainda continua a perder força. Os EUA perderam em média 600.000 empregos por mês durante três meses consecutivos. O Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre dos 16 países da região do euro, cuja divulgação está prevista para amanhã, deve mostrar uma contração de até 1,5%, o pior resultado da história do bloco.

Nos EUA, a pesquisa com gerentes de compra feita pelo Instituto de Gestão de Fornecimento (ISM, na sigla em inglês) subiu para 35,6 pontos em janeiro, ante 32,9 em dezembro. O número de janeiro ainda mostra profundo pessimismo entre os gerentes de compras, mas o pequeno aumento no mês sugere que a expectativa deles pode estar se estabilizando num patamar mais baixo.

Um indicador semelhante para o setor industrial da zona do euro, o Índice dos Gerentes de Compras da empresa de pesquisa Markit Economics, também subiu em janeiro, para 34,4 pontos, ante 33,9 em dezembro, o menor nível de sua história. Apesar de esta ter sido a primeira vez em que o índice subiu desde agosto de 2008, ele continua bem abaixo do nível de 50 pontos que separa expansão de contração. O índice oficial dos gerentes de compras da China também registrou sua segunda alta mensal em janeiro.

“Acho que chegamos ao fundo do poço em termos de taxa de declínio”, diz Chris Williamson, economista-chefe da Markit em Londres. Ele acredita, no entanto, que o índice na zona do euro vai registrar contração pelo menos até junho. “Estamos observando uma certa confiança de volta, bem devagar.”

As pesquisas de confiança de consumidor estão tendo comportamento similar. Nos EUA, o índice de confiança medido pelo instituto de pesquisa Conference Board estabilizou-se perto dos níveis mais baixos alcançados em outubro – ainda recessivos, mas sem piorar.

O mercado imobiliário dos Estados Unidos também mostra sinais de estabilização, embora maior declínio no preço dos imóveis e o aumento da inadimplência sejam esperados. O índice da Associação Nacional de Corretores de Imóveis para vendas ainda a fechar – uma medida de antecipação da atividade – subiu 2,1% em dezembro na comparação com o mesmo mês do ano anterior, e o estoque de casas no mercado está aumentando a um ritmo menor.

02/02/2009 - 09:42h Com cautela, investidores começam a ver alguns sinais de recuperação

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E.S. Browning, The Wall Street Journal – VALOR

Eles podem não aparecer em importantes referências mundiais como as bolsas de valores americanas, mas o fato é que começam a surgir alguns pequenos sinais de otimismo nos mercados financeiros.

Os preços de algumas commodities começam a subir, assim como as bolsas de países exportadores de commodities como o Brasil. Alguns investidores voltaram a comprar títulos de dívida corporativa, com empresas fortes emitindo novos papéis, ainda que preços e rendimento não estejam de volta ao normal.

Os investidores chamam isso de aposta na reflação, ou a crença de que os líderes mundiais terão sucesso no combate à depressão e à deflação e gradualmente levarão o mundo de volta ao crescimento econômico. Alguns preveem que a inflação volte a subir no fim deste ano.

O preço do cobre subiu 5% no mercado futuro este ano e está 17% acima do nível mais baixo que alcançou no fim de 2008. Os futuros do estanho subiram 7% em 2009. O Ibovespa subiu 5% este ano, enquanto na Coréia do Sul o principal índice está em alta de 3%.

No entanto, o otimismo parece mais uma marola do que uma onda de verdade, e muitos descrentes acreditam que vai acabar mal. Os ganhos são localizados.

O mercado acionário de Hong Kong caiu 8% em 2009. Os futuros de petróleo e milho já caíram 7% este ano. Alguns mercados, como as bolsas de valores dos Estados Unidos, já devolveram a maior parte dos ganhos que tiveram desde o fim do ano passado. Este foi um dos piores janeiros da história do mercado acionário americano.

Muitos investidores ainda temem que a recente recuperação seja apenas um outro respiro antes que os mercados caiam para pisos ainda mais baixos.

Poucos estão entrando nos mercados com os dois pés, apesar de alguns otimistas estarem gradualmente aumentando seus investimentos em ações, títulos de empresas, commodities e outros ativos de maior risco. Eles dizem que recuperações duradouras às vezes acontecem dessa maneira, com pequenos ganhos aqui e ali.

Os ganhos refletem a esperança de que a economia mundial se recupere mais para o fim do ano, com países em desenvolvimento como China e Brasil recuperando-se antes dos EUA, Europa ou Japão.

Algumas pessoas estão gradualmente tirando dinheiro dos títulos do Tesouro dos EUA, considerados um porto seguro e cuja demanda foi tão alta que o rendimento encolheu para os menores patamares em décadas, reflexo da alta de suas cotações. Muitos ainda querem a segurança dos treasurys, de modo que os preços continuam altos e os rendimentos, baixos. Mas, à medida que alguns investidores voltaram a fazer investimentos mais arriscados, as cotações dos papéis do Tesouro americano caíram um pouco, puxando o rendimento do título de dez anos para 2,8% na sexta-feira passada, ante 2,1% em 18 de dezembro.

Os céticos alegam que os mercados tiveram várias recuperações temporárias no ano passado, para então cair de novo, à medida que a profundidade dos problemas da economia global se tornava mais evidente. Os pessimistas consideram a mais recente recuperação de aplicações de maior risco como “pulo de gato morto”, ou uma breve alta seguida de mais quedas. A frase é parte do jargão de Wall Street e quer dizer que mesmo um gato morto irá quicar se cair muito.

“Se você for um ágil trader de curto prazo, pode tentar aproveitar isso”, diz David Kotok, presidente da empresa de administração de recuros Cumberland Advisors, de Vineland, no Estado americano de Nova Jersey. Mas outros “podem ser sugados pelo pulo do gato morto”. Kotok não aumentou sua exposição a ações de empresas americanas ou à maioria das commodities, embora tenha expandido levemente os investimentos em ouro e prata, que podem dar um bom retorno quando a dívida pública cresce e o governo injeta dinheiro na economia.

Uma série de deprimentes dados econômicos e resultados de empresas levou a Média Industrial Dow Jones a cair 8,8% no mês passado, o maior declínio em janeiro em 113 anos de história.

Mas mesmo na Dow houve um sinal de que os investidores não perderam a esperança. Nas últimas semanas, o índice conseguiu se recuperar toda vez que caiu para a faixa dos 8.000 pontos. Ele testou esse patamar outra vez na sexta-feira passada, quando fechou a 8.000,26 pontos. Os investidores ainda não têm muita esperança quanto às ações americanas, mas muitos acreditam que vão escapar de novos grandes problemas.

“Espero que tenhamos passado o pior”, disse William Hackney, diretor de investimentos do Atlanta Capital Management, empresa de administração de recursos de Atlanta. As bolsas já caíram tanto que “as notícias econômicas não precisam ser boas, elas só precisam ser menos ruins. Devemos chegar a uma posição nos próximos seis meses de pelo menos frear a queda e talvez até voltar a subir um pouco”.

No fim do ano passado, os administradores de um dos fundos de pensão com os quais ele trabalha decidiram suspender totalmente a compra de ações, mesmo que isso implicasse deixar os investimentos em renda variável abaixo do nível que haviam estabelecido. Agora eles decidiram voltar a esse patamar e comprar ações de novo.

Eles não estão adotando uma posição agressivamente otimista em relação a ações, e sim se reequilibrando a partir de uma posição extremamente pessimista.

Muitos, no entanto, temem que ainda seja muito cedo para alimentar esperanças.

Os sinais de recuperação econômica, mesmo nos países em desenvolvimento, ainda não são amplos o suficiente para aplacar as preocupações de Jeff Schappe, diretor de investimentos da BB & T Asset Management, de Raleigh, Carolina do Norete.

Depois de um breve período de otimismo no primeiro semestre do ano passado, Schappe reduziu de 65% para 60% a alocação em ações. Desde então, diz, tem se segurado para evitar cortar ainda mais a exposição a ações.

“Nosso lema agora é de que esta não é a hora de ser herói”, diz Schappe. Ele está comprando títulos corporativos de alta qualidade, mas não papéis de grau especulativo. Está alertando os clientes a se concentrar principalmente em papéis de empresas com balanços fortes, como Wal-Mart Stores, McDonald’s e algumas farmacêuticas.

23/01/2009 - 09:28h De como a especulação sem limites quebrou até os especuladores

Reuters

Pânico atinge países emergentes, como a Argentina: para Krugman, será preciso realizar uma recapitalização maior e mais ampla dos bancos e afirmar com mais firmeza o controle do governo, algo que estará mais próximo da plena estatização temporária de uma parcela significativa do sistema financeiro

 

José Roberto Campos, de São Paulo – VALOR

Os poderosos bancos americanos foram dizimados pela farra com os empréstimos “subprime” e o mundo agora caminha rumo à recessão. Como foi possível que créditos irresponsáveis concedidos na periferia do sistema imobiliário americano – clientes que não obteriam crédito em situações normais – se tornassem tão destrutivos a ponto de ameaçarem a economia global? Já vimos isso antes, lembra o economista Paul Krugman, Nobel de 2008, em seu novo livro “A Crise de 2008 e a Economia da Depressão” (Editora Campus/Elsevier). Houve circunstâncias parecidas e alguns dos mesmos atores na crise mexicana de 1995, no vendaval que se abateu sobre Coréia do Sul, Malásia, Tailândia e Indonésia em 1997, na crise russa de 2008, nos fins traumáticos dos sistemas cambiais de Brasil e Argentina e no pânico com a quebra do fundo de hedge americano LTCM, em 1998.

Heterodoxo e pragmático, Krugman reescreveu partes de seu livro de 1999, em que aborda essas crises, e atualizou-o até o mergulho na insolvência dos grandes bancos americanos. Ao longo do tempo, há uma continuidade em todos os desastres econômicos recentes, e alguns padrões de comportamento repetidos em países muitos distintos entre si. “Parcela considerável do aumento da globalização financeira decorre de investimentos de instituições financeiras altamente alavancadas, que faziam vários tipos de apostas transfronteiriças arriscadas”, escreve Krugman. “Quando as coisas davam errado nos Estados Unidos, esses investimentos transfronteiriços atuavam como ‘mecanismos de transmissão’, pelo qual uma crise que eclodiu no mercado habitacional dos Estados Unidos desencadeou sucessivas outras no exterior.”

Um número grande de instituições financeiras, como bancos de investimentos e fundos de hedge, não era regulado por ninguém e reuniu tamanho poder e apetite por risco que se tornou um fator global de desestabilização das economias. Depois que elas semearam o pânico em países emergentes, implodiram junto com apostas excessivas na bolha de imóveis. É ilustrativa a descrição do poder de fogo atual dessas instituições traçado por Timothy Gethner, ex-presidente do Federal Reserve de Nova York e indicado para secretário do Tesouro do presidente Barack Obama, citado por Krugman. No início de 2007, conta, havia US$ 2,2 trilhões em coisas exóticas como “asset-backed commercial papers conduits”, “structured investment vehicles”, “auction-rate preferred securities”, “tender options bonds” e “variable rate demand notes”. Os ativos dos fundos de hedge eram de US$ 1,8 trilhão e os dos cinco maiores bancos de investimento, US$ 4 trilhões. Já os cinco maiores bancos comerciais detinham US$ 6 trilhões.

“A crise, em boa parte, não envolveu problemas com instituições desregulamentadas, que assumiram novos riscos. Ao contrário, girou em torno de riscos assumidos por instituições que, para começar, nunca foram regulamentadas.” Elas tinham tanto cacife financeiro quanto os bancões comerciais sob a vigilância do Federal Reserve, e uma ousadia que chegava quase que fatalmente à imprudência.

A história da atual recessão começa então com o estouro da bolha habitacional, que, para Krugman, deverá destruir US$ 8 trilhões em riquezas – US$ 7 trilhões de perdas para os donos dos imóveis e US$ 1 trilhão para os investidores. Esse trilhão de dólares é o rabo que acabou balançando o cachorro. Espalhados em títulos tóxicos pelo resto do mundo, forçaram uma espiral de vendas para cobrir posições e prejuízos que derrubou os preços de praticamente todos os ativos, em todos os mercados, em todo o mundo – e, casualmente, quebraram até a Islândia.

Uma retrospectiva das crises anteriores e das idéias na moda mostram como isso se tornou possível. A crença nos poderes mágicos do mercado levou os economistas a quase decretar o fim dos ciclos econômicos. O presidente do Fed, o todo-poderoso Alan Greenspan, que reinou de 1987 a 2006, e que “conseguira substituir a bolha de ações pela bolha habitacional”, disse em 2004 que o sistema bancário estava mais “resiliente”, uma afirmação só menos temerária que a do secretário do Tesouro de George Bush, Henry Paulson, que afirmou a mesma coisa em 2007, quando os bancos estavam caindo no abismo.

A mesma crença impulsionou a desregulamentação, que escancarou os mercados a investidores audazes e aventureiros, especialmente aos fundos de hedge, que, como qualifica bem Krugman, não buscam hedge e sim seu oposto, “extrair o máximo das flutuações de mercado”. O irmão gêmeo da desregulamentação foi o “risco moral”, a percepção, que se tornou verdadeira, de que qualquer estripulia financeira que desse errado seria consertada com dinheiro público, desde que fosse suficientemente grande para isso.

O crescente poder de fogo de instituições financeiras alavancadas patrocinou o “pânico auto-realizável”, que vitimou, por exemplo, os países asiáticos em 1997. Essas economias eram vulneráveis, diz Krugman, mas “não em razão do capitalismo de compadres, nem de políticas públicas que, sem dúvida, eram consideradas inadequadas”. Essa fragilidade aumentou com a abertura de seus mercados financeiros, pelo fato de, “na verdade, se tornarem melhores economias de mercado, não piores”, avalia.

Krugman considera que os US$ 700 bilhões do programa de alívio de ativos problemáticos são pouco para levantar os bancos, que poderão não estar dispostos a emprestar o dinheiro que recebem como ajuda. A recapitalização deverá ser maior e mais ampla, com maior controle do governo, “algo mais próximo da plena estatização temporária de parcela significativa do sistema financeiro”.

Ele acha que os gastos públicos são a melhor forma de estímulo econômico, superior às isenções fiscais. As vantagens: o dinheiro é realmente gasto, e não poupado, e, depois, com obras públicas “algo de valor seria construído”. A receita de um pragmático como ele é fazer tudo o que for preciso para reverter a crise, sem amarras ideológicas. Depois de afastado o perigo, deve-se consertar a bagunça. Sua posição sobre a reforma do sistema financeiro é igualmente simples. “Qualquer coisa que necessite de socorro durante a crise financeira, por desempenhar papel essencial no sistema financeiro, deve ser submetida à regulamentação, quando a crise tiver sido superada, para que não envolva riscos excessivos”, explica.

Conceitualmente, a economia da depressão parece um termo amplo demais, que abarca fenômenos distintos. Krugman a define a partir de falhas no lado da demanda da economia como “fator limitativo inequívoco à prosperidade econômica em boa parte do mundo”. Mas, pelo menos em alguns aspectos essenciais, as crises descritas surgiram durante um dos períodos de maior prosperidade da economia mundial, quando a demanda brotava em todos os lados, regada a crédito farto. A história de Tailândia, Malásia, Indonésia e Coréia é a de países bem-sucedidos, pelo menos pelo padrão das taxas de crescimento econômico.

Krugman chega a oscilar em seu diagnóstico, em geral muito preciso. A vulnerabilidade das economias da Ásia, do México e Brasil ao “pânico auto-realizável” torna-se quase inexplicável. Em um momento, acumular dívidas em moeda estrangeira é um dos principais suspeitos da catástrofe. Em outros, como no caso da Ásia, a repentina, e quase imotivada, é perda de confiança nos mercados que dá o sinal para o colapso. E chega a ser obscura a ligação entre a crise argentina e mexicana e a hecatombe atual dos bancos internacionais. “Sinto-me tentado a afirmar que essa crise não se assemelha a nada que tenhamos visto antes”, confessa. “Porém, eu seria mais exato se afirmasse que ela se parece com qualquer outra que já presenciamos em diferentes épocas, só que agora é como se todas estivessem acontecendo de uma vez, ao mesmo tempo.” A primeira hipótese, também bastante sugestiva, bem que poderia resultar em um outro ótimo livro de Paul Krugman.

19/01/2009 - 09:10h BNDES conta com China para financiar projetos

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Sergio Leo – VALOR

Em segredo, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, busca no Oriente parte importante dos recursos para completar os US$ 100 bilhões que pretende desembolsar em financiamentos neste ano. No Palácio do Planalto, essa quantia é vista como dinheiro certo para bancar os projetos de desenvolvimento em 2009. No BNDES, quem aceita falar sob o tema, muito reservadamente e sem dar detalhes, assegura apenas que parte “importante” dos recursos do banco para este ano poderá vir do CDB. No caso, sigla de China Development Bank, o BNDES chinês.

Em dezembro, uma missão técnica do BNDES esteve na China, para conhecer melhor a economia chinesa e também para discutir com as autoridades os mecanismos de financiamento do CDB, que iniciou no mês passado uma reforma para poder operar como um banco comercial, investindo também em ativos reais e ações. O CDB tem sido pressionado para aumentar o retorno de seus investimentos, e as autoridades brasileiras acreditam que os projetos em infra-estrutura no Brasil podem ser resposta a esse tipo de pressão. Nesse namoro com a China, a recente desistência da Baosteel em instalar uma siderúrgica com a Vale no Espírito Santo é uma má notícia, pior do que aparenta.

Segundo os chineses, o projeto de instalar uma grande siderúrgica no Brasil tem quase oito anos, começou no Maranhão, onde atolou na briga entre os clãs políticos locais, e mudou-se para o Espírito Santo, graças à promessa do governo capixaba de ceder à empresa instalações consideradas ideais, em Anchieta, no litoral. Na sexta-feira, ao anunciar a desistência do projeto, a versão oficial, transmitida pela Vale, atribuiu à conjuntura negativa com desaquecimento na demanda mundial por aço. Meia verdade.

Como lembram interlocutores dos chineses, a nova usina só começaria a produção no fim de 2011, período em que, espera-se, possa ter sido superado o atual mergulho recessivo. Na decisão da estatal chinesa, pesaram mais do que se pensa as idas e vindas dos governadores na autorização do projeto. Há apenas dois meses, a Baosteel não dava sinais de rever a decisão do que seria sua primeira siderúrgica fora da China. Dias antes, o embaixador da China no Brasil, Chen Duqing, dizia a interlocutores no país que as atribulações da siderúrgica desanimavam a direção da Baosteel, e, pior, enviam péssimo sinal para outros potenciais investidores chineses.

“Os chineses reclamam muito das dificuldades de investir no Brasil e essa desistência da Baosteel é muito ruim”, confirma o secretário-executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, Rodrigo Maciel, que voltou há pouco tempo de Pequim. Lá, ouviu comentários preocupados sobre o caso da siderúrgica de instituições-chave, como a Academia de Ciências Sociais da China e o CCIIP, o Conselho Chinês para promoção de Investimento Internacional. “A Baosteel é emblemática na China; a má repercussão desse problema entre as empresas chinesas é muito grave.”

São coisas distintas a má sorte da Baosteel no Brasil e os entendimentos do BNDES com as autoridades chinesas para completar a necessidade de capital do BNDES. O BNDES, aliás, também mira outras fontes de financiamento: nesta semana volta da Índia uma missão técnica exploratória enviada na semana passada. As instituições financeiras chinesas e outras estatais deverão, nos planos de Luciano Coutinho, complementar fontes tradicionais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o Banco Mundial e o JBIC japonês. Com capital registrado de quase US$ 44 bilhões e uma carteira de quase US$ 300 bilhões em empréstimos, o gigantesco CDB encanta o BNDES.

O caso Baosteel, porém, demonstra as dificuldades dos investidores internacionais no país, que, como costuma enfatizar Chen Duqing, parece menos receptivo que a China ao capital estrangeiro. Muita burocracia, rigidez excessiva das regras e pouca informação são os males do Brasil. Palavra de chinês. “Eles se queixam da falta de informações em inglês, da burocracia, do custo: para montar um escritório de representação, o aporte mínimo é de US$ 200 mil”, diz Rodrigo Maciel.

O governo lançou iniciativas, como a agenda China, de prioridades na relação com o país, que ainda engatinha; e a Cosban, comissão de cooperação de alto nível que teve pouco avanço. A China incluiu o Brasil entre os nove países com quem mantém “diálogo estratégico”. Mas, enquanto organismo semelhante criado pela China com EUA tem, como representante americano, o poderoso secretário do Tesouro Henry Paulson, o Brasil nomeou para representá-lo um diplomata experiente e dinâmico, mas de pouco poder, o embaixador Roberto Jaguaribe.

Falta maior acompanhamento federal do que se faz nos Estados em relação à China, e o fiasco com a Baosteel serve de exemplo do desperdício de oportunidades. No início da década, começaram as negociações para instalação da siderúrgica com a Vale, no Maranhão. Grupos políticos locais, um liderado pelo senador José Sarney, o outro ligado ao então governador, José Reinaldo Tavares, acusam-se um ao outro pela demora na avaliação do projeto, que, após anos de discussões, teve sua localização vetada pelo atual governador, Jackson Lago, do PDT, por razões ambientais. Vale e Baosteel foram convidados pelo governo do Espírito Santo, e seus executivos chegaram a sobrevoar a área onde, menos de quatro meses mais tarde, as autoridades vetaram a localização do projeto, também por razões ambientais.

O vice-governador capixaba, Ricardo Ferraço, não acredita que haja outras razões para a desistência do projeto, além da alegada pela Vale, a retração do mercado. E garante que o risco de veto ambiental foi comunicado desde o início às empresas. Para os chineses, o que ficou, porém, foi a lembrança de um longo e frustrante processo, fracassado após o gasto de alguns milhões em estudos. O BNDES, que vê na China parte das respostas à crise global, deve ter esse caso em mente, ao tocar seu ambicioso plano de financiamento chinês do desenvolvimento.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

05/01/2009 - 10:49h Os cenários para 2009

http://g1.globo.com/Noticias/Carros/foto/0,,13893941-EX,00.jpg

Ribamar Oliveira, O Estado SP

email: ribamar.oliveira@grupoestado.com.br

As previsões dos economistas são tão díspares que as pessoas não conseguem formar uma opinião clara sobre o que vai acontecer com as economias mundial e brasileira este ano. Isto significa apenas que o grau de incerteza sobre as principais variáveis econômicas também é muito grande até mesmo para eles. Além disso, é difícil avaliar qual será o efeito final das ações dos diversos governos sobre a atividade econômica e se elas serão suficientes para amenizar a recessão dos países desenvolvidos.

Para se ter uma ideia das divergências, o último relatório de inflação do Banco Central (BC), divulgado em meados do mês passado, estima que os investimentos estrangeiros diretos (IED) no Brasil em 2009 ficarão em torno de US$ 30 bilhões. As previsões das principais instituições financeiras do País, captadas pelo último boletim Focus, divulgado pelo próprio BC, calculam que estes investimentos ficarão em torno de US$ 21,5 bilhões. A diferença entre as previsões é expressiva, de US$ 8,5 bilhões.

O valor do IED é uma variável importante porque o País precisa saber como irá financiar o seu déficit em conta corrente este ano. Essa conta registra todas as operações comerciais e de serviços do Brasil com o exterior e ela está sendo deficitária nos últimos anos. A previsão tanto do BC quanto das instituições financeiras é que a conta corrente registrará um déficit em torno de US$ 25 bilhões em 2009.

Se o IED for menor do que estima o BC, o País terá que procurar outra forma de financiar o seu déficit em conta corrente. Como os bancos internacionais retraíram os seus créditos e a aversão ao risco dos investidores aumentou, a necessidade de recursos externos do Brasil pressionará a taxa de câmbio, com o dólar subindo mais ainda, o que poderá ser um limitador importante do crescimento brasileiro e um complicador ao controle da inflação.

Qualquer análise sobre as perspectivas brasileiras este ano, no entanto, precisa partir da constatação de que o Brasil não tem problemas estruturais graves. Ou seja, as impressões digitais do País não estão na atual crise internacional. Os bancos brasileiros não apresentaram problemas de solvência e o consumo das famílias cresceu muito até o terceiro trimestre de 2008. Em outras palavras, ao contrário dos Estados Unidos, do Japão e da Europa, a questão que se coloca no Brasil não é de falta de demanda.

É preciso ter clareza que os problemas que o Brasil enfrentará este ano decorrerão, basicamente, da redução da demanda mundial por commodities agrícolas e minerais e da retração da oferta de crédito por parte dos bancos internacionais. O mundo vai crescer menos, demandar menos produtos brasileiros e ter menor liquidez financeira. Por causa desse cenário, o País terá que sustentar o seu crescimento na demanda interna.

Todas as ações que o governo Lula adotou até agora são no sentido de normalizar a liquidez do mercado financeiro, manter o crédito e sustentar a demanda interna. Para melhorar a liquidez, o governo já tinha reduzido em R$ 98 bilhões, até o dia 15 de dezembro, os depósitos que os bancos são obrigados a recolher ao BC. Com o objetivo de dar liquidez em moeda estrangeira, o BC tinha injetado US$ 53,4 bilhões no mercado interno.

O governo supriu com linhas de financiamento alguns setores chaves da economia como o automobilístico, o agrícola e a construção civil e garantiu crédito de capital de giro às empresas por meio dos bancos estatais. Por último, o governo promoveu desonerações tributárias, como a redução do Imposto sobre Produtos Industriais (IPI) na aquisição de veículos novos, a redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no crédito ao consumidor e a diminuição do Imposto de Renda para a classe média.

Em fevereiro, nova medida de estímulo ao consumo entrará em vigor com o aumento do salário mínimo. Pelo acordo fechado com as centrais sindicais, o governo Lula concederá um aumento real de 5,7% ao piso salarial (além da correção da inflação do período pelo INPC). Isto representará uma injeção de cerca de R$ 5,5 bilhões no mercado ao longo do ano, em termos reais, apenas por conta do pagamento de benefícios previdenciários e assistenciais a 17,2 milhões de pessoas que recebem o salário mínimo.

O aumento beneficiará também cerca de 7,2 milhões de trabalhadores ativos que ganham o piso salarial. Além disso, as despesas do governo serão elevadas em mais R$ 20 bilhões por conta dos aumentos e reestruturações de carreiras concedidas ao funcionalismo público ao longo de 2008. O governo Lula pretende ainda aumentar os seus gastos com investimentos, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e do Fundo Soberano do Brasil (FSB), que dispõe de R$ 14,2 bilhões.

Os estímulos fiscais e creditícios que o governo está concedendo amenizarão os efeitos da crise internacional sobre o Brasil. O limitador do crescimento será o déficit em conta corrente e a incapacidade de financiá-lo no mercado, o que poderá ter efeito negativo sobre o câmbio e a inflação. Há outro dado preocupante que a ação do governo não reverterá. A previsão do BC é de aumento dos investimentos totais na economia de apenas 4,4% este ano, o que coloca em xeque a capacidade do Brasil continuar crescendo a taxas elevadas e sem inflação nos próximos anos.

23/12/2008 - 10:36h A vida sem bolhas

Paul Krugman * – O Estado SP

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Faça a nova administração o que fizer, durante meses, um ano até talvez, um inferno econômico nos espera. Depois disso, as coisas devem melhorar à medida que o plano econômico do presidente Obama – ok, me disseram que o termo politicamente correto é agora “plano de recuperação econômica” – começar a ganhar tração. No fim do próximo ano, a economia deve começar a se estabilizar, e estou bastante otimista com 2010.

Mas, o que virá depois? Neste momento, todos estão falando em, por exemplo, dois anos de estímulo econômico – o que faz sentido como um horizonte de planejamento. Boa parte dos comentários econômicos que tenho lido supõe, contudo, que isso será realmente tudo que precisaremos – que tão logo o surto de gastos deficitários reverter a situação econômica, poderemos voltar rapidamente aos negócios como sempre.

A verdade, porém, é que as coisas não poderão simplesmente voltar ao que eram antes da crise. E eu espero que o pessoal de Obama compreenda isso. A prosperidade de anos atrás, tal como era – os lucros eram fabulosos, os salários nem tanto -, dependia de uma bolha imobiliária enorme, que substituiu uma bolha enorme anterior nas ações. E, como a bolha imobiliária não voltará, os gastos que sustentaram a economia também não voltarão.

Para ser mais específico: a recessão imobiliária severa que estamos vendo acabará terminando, mas o imenso boom imobiliário da era Bush não se repetirá. Os consumidores terminarão recuperando parte de sua confiança, mas não gastarão como fizeram no período 2005-2007 , quando muitas pessoas usavam suas casas como caixas eletrônicos, e a taxa de poupança caiu para quase zero.

Então, o que sustentará a economia se consumidores cautelosos e proprietários de imóveis desanimados não estiverem à altura?

Alguns meses atrás, uma manchete no jornal satírico The Onion, de Nova York, na mosca como sempre, ofereceu uma resposta possível: “Nação abalada pela recessão pede nova bolha para investir”. Alguma novidade poderá surgir com a demanda privada de combustíveis, gerando talvez um boom no investimento industrial. Mas esse boom teria de ser enorme, elevando o investimento industrial a uma porcentagem sem precedente do PIB, para tapar o buraco deixado pela retração dos consumidores e do setor imobiliário. Embora isso possa acontecer, não parece algo com que se deva contar.

Um caminho mais plausível para uma recuperação sustentada seria uma redução drástica do déficit comercial americano, que cresceu no mesmo ritmo da bolha imobiliária. Ao vender mais a outros países e gastar mais de nossa renda em bens fabricados nos EUA, poderíamos alcançar o pleno emprego sem um boom nos gastos de consumo ou de investimento.

Mas provavelmente levará muito tempo para o déficit comercial cair o suficiente para compensar o estouro da bolha imobiliária. Uma razão é que o crescimento das exportações, após vários anos bons, estagnou, em parte porque investidores internacionais nervosos, correndo para ativos que ainda consideram seguros, provocaram um aumento do valor do dólar ante outras moedas – tornando a produção americana menos competitiva.

Ademais, mesmo que o dólar torne a cair, de onde virá a capacidade para um aumento das exportações e da competição com importações? Apesar do crescimento do comércio de serviços, a maior parte do comércio mundial ainda é de bens, especialmente manufaturados – e o setor manufatureiro americano, após anos de negligência em benefício dos setores imobiliário e financeiro, está defasado.

Seja como for, o resto do mundo poderá não estar pronto para lidar com um déficit comercial americano drasticamente menor. Como assinalou meu colega Thomas Friedman, boa parte da economia da China, em particular, foi construída em torno da exportação aos EUA, e terá muita dificuldade de mudar de rumo. Em suma, chegar ao ponto em que nossa economia possa prosperar sem amparo fiscal poderá ser um processo árduo e prolongado. E, como eu disse, espero que a equipe de Obama compreenda.

Neste momento, com a economia em queda livre e todos aterrorizados com a Grande Depressão 2.0, os adversários de uma forte resposta federal estão encontrando dificuldade para angariar apoio. John Boehner, o líder republicano na Câmara, ficou reduzido a usar seu website para procurar “economistas americanos credenciados” dispostos a incluir seu nome numa lista de “céticos com gastos de estímulo”.

Mas tão logo a economia tenha se recuperado um pouco, haverá muita pressão para a nova administração recuar. E, se a administração ceder cedo demais, o resultado poderá ser uma repetição do erro que Franklin Roosevelt cometeu em 1937 – o ano em que ele cortou gastos, elevou impostos e ajudou a afundar os EUA numa recessão grave.

*Paul Krugman é articulista

18/12/2008 - 12:23h Na bolsa: estrangeiro volta e pode ser para ficar

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Daniele Camba – VALOR

Desde o início do mês, mas com mais intensidade da semana passada para cá, o mercado brasileiro vem se recuperando. Alguns dizem que é pela melhora do cenário internacional, enquanto outros atribuem o movimento ao rali de alta que tradicionalmente costuma ocorrer no fim do ano. Seja por um motivo ou por outro, o que se sabe é que essa valorização está sendo patrocinada pela volta do investidor estrangeiro. Os mais pessimistas acham que ele está retornando apenas para se aproveitar de um ganho ali outro acolá e que irá bater em retirada assim que estiver com os bolsos cheios. O que se diz nas mesas de operações é que a maior parte é formada por investidores institucionais de longo prazo, como gestores de fundos de ações de grandes gestoras de recursos, que costumam fazer aplicações vislumbrando pelo menos os próximos 12 meses. Caso isso seja verdade, é bem possível que a alta das ações neste mês seja mais do que um simples rali de fim de ano.

Os números comprovam o interesse crescente desses investidores. No mês, até o dia 12, o saldo líquido (diferença entre compras e vendas) de estrangeiros na Bovespa está negativo em R$ 483 milhões, sendo que até o dia 5 essa cifra estava negativa em R$ 3 bilhões. Isso significa que nos cinco pregões da semana passada (de 8 a 12 de dezembro), as compras de ações dos estrangeiros superaram as vendas em cerca de R$ 2,5 bilhões. Nada mau considerando que nos últimos meses, com o agravamento da crise financeira internacional, o que mais se viu foram grandes saídas de recursos.

O saldo deve ser mais animador levando-se em conta que o volume de compras de papéis brasileiros via American Depositary Receipt (ADR, recibo de ações negociados nos Estados Unidos) é ainda maior, dado o câmbio favorável. “Se considerarmos as aplicações nos ADRs, o saldo líquido positivo da última semana deve no mínimo dobrar, ultrapassando a casa dos R$ 5 bilhões”, diz o gestor de uma administradora de recursos independente.

Ele lembra que esse fluxo de investimentos se concentra nos papéis de maior liquidez da Bovespa. Entre eles, Petrobras, Vale e as siderúrgicas. Não é à toa que tais ações vêm se valorizando desde a semana passada, a despeito de todas as perspectivas negativas para a economia global, e conseqüentemente, para os preços das principais commodities. As ações ordinárias (ON, com voto) da Petrobras, por exemplo, sobem no mês 24,80%, enquanto o Índice Bovespa registra uma alta de 9,16%. Dentro do índice, os papéis da estatal só se valorizam menos que as preferenciais (PN, sem voto) da Votorantim Celulose e Papel (VCP) e da TAM. Já as PN série A da Usiminas no mês têm alta de 21,95% e as ON da CSN de 21,82%.

Graças ao fluxo de estrangeiro, ontem, as PN da Petrobras subiram 2,31% e as ON, 2,73%, mesmo com a queda de 8,1% do petróleo tipo WTI, negociado em Nova York, fechando aos US$ 40,06, a menor cotação dos últimos quatro anos e meio. A alta dos papéis da estatal e de outras ações de commodities amorteceram a baixa do Ibovespa que ontem foi de apenas 0,12% aos 39.947 pontos.

Na linha oposta, os papéis considerados defensivos num cenário de crise, como as teles, as elétricas e os setores voltados ao mercado interno (varejo, consumo e bebidas), registram quedas nos últimos pregões. “Essa é uma típica movimentação de investidores que resolveram deixar de se proteger para começar a colocar pelo menos um pé em operações mais arriscadas”, diz o gestor.


Medo de perder a festa

Mas o que de tão positivo os estrangeiros estão vendo no cenário econômico a ponto de quererem retomar as aplicações? Nada. Na realidade, eles estão voltando na expectativa de que a economia melhore a partir de 2010 e que o mercado, como sempre, antecipe esse quadro. Sem contar com o fato de que aparentemente a bolsa já refletiu tudo que deveria da crise atual. “Ninguém quer perder nem um instante da festa de recuperação que os mercados devem ter”, diz o gestor. Para ajudar, a queda da taxa de juros nos países desenvolvidos torna ainda mais atraente os investidores aportarem por aqui o mais cedo possível. “O custo de oportunidade de ficar na Bovespa hoje é insignificante.”

Daniele Camba é repórter de Investimentos

E-mail: daniele.camba@valor.com.br