César Felício, VALOR
Paulo Pinto/AE – Afif revelou-se como o elo entre Maluf e Kassab:
entrou na política ao ingressar em chapa do ex-prefeito na ACSP
e convidou o atual prefeito a integrar os quadros da entidade

Coordenador da campanha de reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM) em São Paulo, o secretário estadual de Trabalho Guilherme Afif Domingos expôs ontem a uma abarrotada platéia de empresários na Associação Comercial de São Paulo seus planos para 2010: será candidato a um cargo majoritário numa aliança global entre PSDB, DEM e PMDB.
“O resultado da eleição coloca São Paulo no epicentro das mudanças que ocorrerão no País em 2010. Neste ano vamos ter a repetição desta aliança para a Presidência da República e vice, a governador e vice e às duas vagas no Senado. Estou escalado para ser candidato majoritário”, afirmou, diante de uma faixa erguida por presentes, onde se lia “Kassab Prefeito, Afif Governador”. Uma manifestação classificada como “espontânea” pelo presidente da entidade, Alencar Burti, e como “um boato, mas agradável” pelo próprio Afif.
Na visão de Afif, a eleição de 2010 fechará o ciclo de 1964, “com o fim do mandato da oposição mais radical que se fez àquele sistema”. A candidatura presidencial do governador paulista José Serra (PSDB) emergeria então, segundo Afif, como a marca do pragmatismo que elimina as diferenças ideológicas entre esquerda e direita. “Serra é o homem talhado para conduzir o barco neste mar encrespado e a formatação da aliança de 2010 foi feita nesta eleição”, disse.
Durante uma palestra de cerca de uma hora, Afif esboçou o que seria um projeto de gestão de longo prazo para São Paulo. “Devemos evitar que aconteça em São Paulo o que ocorreu no Rio. Temos 1 milhão de pessoas sem renda declarada e 3 milhões sem endereço. É um Uruguai na informalidade ou na marginalidade. Temos uma conflagração surda. Se a gente não reintegrar este contingente na cidadania, se não agirmos, o PCC o fará”, disse.
A reintegração na cidadania, de acordo com Afif, só pode se dar pelo fomento ao empreendedorismo. “A auto-sustentabilidade do cidadão se confronta com a política assistencialista, que beneficia mais o assistente do que o assistido”, disse. Na secretaria estadual do Trabalho, Afif planeja iniciativas de impacto até as eleições de 2010. Falou em promover “mutirões de legalização” logo que o Congresso Nacional aprovar a criação da figura do micro-empreendedor individual.
Empresário do ramo de seguros, Afif dirigiu a Associação Comercial por vários períodos desde o início dos anos 80, intercalando a atividade patronal com incursões na política. Foi secretário de Agricultura, candidato a vice-governador em 1982, a presidente da República em 1989 e a senador em 1990 e 2006. Elegeu-se deputado constituinte em 1986.
O apoio da entidade a seus projetos políticos é permanente. Ontem, o atual presidente da instituição, Alencar Burti, disse que “São Paulo e o Brasil” ganhavam com a reeleição do prefeito. No ato promovido ontem pela Associação, Afif recebeu aplausos do ex-governador, ex-prefeito e deputado Paulo Maluf (PP-SP), que presidiu a entidade na década de 70.
Maluf foi prudente ao comentar de público a pretensão de Afif a algum cargo majoritário em 2010. “Deus permita que São Paulo tenha a ventura de ter no seu quadro de dirigentes alguém com a experiência e a honestidade de Guilherme Afif”, disse. Antigo dirigente da Associação Comercial, representando o setor imobiliário, Gilberto Kassab era presença aguardada no encontro, mas avisou a Afif com antecedência que não poderia ir.
No encontro, Afif traçou o elo entre Kassab e Maluf, uma associação que a candidata derrotada do PT à prefeitura, Marta Suplicy, procurou fazer, de modo negativo, durante toda a campanha eleitoral. Tanto Afif quanto Kassab e Maluf têm vínculo com a Associação Comercial de São Paulo, definida pelo secretário de Trabalho como “uma escola de formação de homens públicos, na defesa das liberdades econômicas”.
Afif narrou que tornou-se dirigente da entidade ao entrar na chapa encabeçada por Maluf que ganhou a presidência da Associação, em 1976, representando o setor de seguros. Na base do convite havia antigas relações familiares: o avô de Afif, William e o pai do ex-governador, Salim Farah Maluf, eram amigos. “Eles conversavam em árabe, quando eu era criança. O respeito que tenho por Afif começou aí, antes mesmo dele nascer”, comentou Maluf.
Já em 1984, quando o próprio Afif era o presidente da entidade, recebeu de um contraparente, Aniz Kassab, tio do atual prefeito, um pedido para aproveitar o então recém formado engenheiro em sua equipe. Aniz Kassab era alto funcionário da Serraria Americana, a empresa da família Maluf que deu origem à Eucatex.
Além de dirigente da Associação Comercial, Kassab tornou-se um operador político de Afif na formação do Partido Liberal em 1985, na campanha para deputado em 1986 e na eleição presidencial de 1989. Só começou a disputar mandatos eletivos na década de 90, quando Afif retirou-se temporariamente da política.