10/06/2009 - 18:27h Sociedades raras

http://doisdedosdeprosa.files.wordpress.com/2007/04/berlusconi.jpghttp://www.casamerica.es/var/casamerica.es/storage/images/otras-miradas/fama-y-sociedad/carlos-menem-y-cecilia-bolocco-llegan-a-un-acuerdo-para-iniciar-su-divorcio/carlos-menem-y-cecilia-bolocco/262565-1-esl-ES/carlos_menem_y_cecilia_bolocco_fullblock.jpg

Sociedades raritas

Es cierto, como estipuló Carlos Marx, que los impulsos y conflictos económicos son aquellos que hacen girar las ruedas de la historia. Pero tampoco la plata es todo. Los que así lo creen, intuyó Voltaire, “suelen estar sujetos a hacer cualquier cosa por dinero”. Las razones del corazón -y las de otros órganos, un poco más a mano- hacen también lo suyo. Hasta historia.

Que lo diga si no Silvio Berlusconi -por no hablar del postrer juego sexual del actor David Carradine-, cuya última broma la estrenó el lunes, durante una recepción oficial, acercándose a algunos de los invitados y preguntándoles: “¿Eres menor? Si es así, podemos hablar”. Lo que se toma con tan buen humor el primer ministro italiano es una acusación gravísima por parte de su mujer, quien tramita el divorcio sosteniendo que “Il Cavaliere” se dedica a las muy chicas, especialmente a una que acaba de cumplir 18 años.

La prueba del escándalo ha sido la publicación de fotos tomadas en su villa de Cerdeña, donde el poderoso caballero solía hacer fiestas en las que numerosas lolitas ejercían el top less.

Increíblemente, estas inclinaciones hormonales -por así llamarlas- no hacen mella en la popularidad del gobernante que, furioso, niega todo y le echa la culpa a ¡un complot de izquierda! Lo cual habla quizá más del estado de la sociedad italiana que de Berlusconi mismo.

El que ya no quiere ni oir del tema es Bill Clinton, que anduvo por estos barrios la última semana. Al ex jefe del imperio americano una relación con una jovencita que de pura sólo tuvo el célebre episodio del puro en el Salón Oval, le hizo una espantosa mella en su popularidad y casi le cuesta la presidencia.

Pero la que sabe de amores bien asimétricos es Moria Casán, quien le explicó a una revista: “¿Cómo no voy a tener un novio de 25 años si me siento de 22?”. Abuela y todo, quiso razonar: “Para ellos represento una clase de historia. Me cuentan de pibes que se mueren por mí y yo no lo puedo creer. (…) Algunas que generaron deseo, se les termina la juventud y se vuelven patéticas y decadentes. La gente las ve y reflexiona: ‘Pensar que ésta era una bomba’. A mí no me ocurrió. Estoy en otra dimensión.” Quizá efectivamente no le haya pasado; lo que está fuera de duda es lo de la otra dimensión.

Y allende la Cordillera, Cecilia Bolocco -que no pudo ser primera dama argentina a pesar de haberse casado con alguien que casi podría haber sido su abuelo- se toma venganza de las inclemencias del calendario, noviando a los 44 años, con un joven de 28.

De la asimetría al delito hay bastante más que un paso. Y aunque en muchos distritos de la Argentina esté prohibido fumar en bares, manejar con dos copas de más o cultivar plantas de marihuana, está permitido, en cambio, cometer relaciones sexuales con los hijos, siempre y cuando sean consentidas y los perjudicados hayan cumplido la mayoría de edad.

El incesto no es delito en la Argentina y quizá eso pese en lo ocurrido con el llamado Chacal de Mendoza. Que semejantes monstruosidades no causen una conmoción similar a la que desató en el mundo el monstruo de Amstetten, resulta extraño. Y más raro, porque este caso pinta peor.

Ya han salido hijas de matrimonios anteriores de Lucero confesando que también abusó de ellas. Y su víctima principal -con quien tuvo siete hijos nietos- parece aún bajo el poder psicológico del victimario: sostiene que ya lo perdonó y no se presentará como querellante en su contra.

Todo lo cual habla más de la sociedad que del espanto mismo de los hechos. Sobre todo por estos días de frío medular y luz tímida en que nuestra linda Argentina sólo parece enfrascada en dilucidar si castigará o premiará en las urnas a un matrimonio nada asimétrico pero por demás singular.

(Marcelo A. Moreno, publicado en la columna Disparador de Clarín el domingo 7 de junio del 2009)

10/04/2009 - 11:31h O retrato da “gestão” tucana da educação de São Paulo

Clique no infográfico da Folha SP para ampliar

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18/01/2009 - 15:50h NÃO MATEM O LEITOR

Como um romance, de Daniel Pennac, pode ser um grande aliado na dura tarefa de formar bons leitores

Antonio Carlos Viana • Aracaju – SE (Fonte Rascunho)

Como um romance
Daniel Pennac
Trad.: Leny Werneck
Rocco / L&PM
150 págs.

Nenhuma leitura deve ser obrigatória, salvo uma, a de Como um romance, de Daniel Pennac, que sai agora em edição de bolso pela L&PM, em associação com a Rocco, que o publicou pela primeira vez quinze anos atrás. Todas as comissões de vestibular deviam ser obrigadas a ler esse pequeno grande livro de apenas 150 páginas. Depois de sua leitura, talvez deixassem de se preocupar com as tão temidas listas de livros que os vestibulandos devem ler para responder àquelas perguntinhas muitas vezes sem sentido. Prestariam, assim, um grande serviço à formação de leitores no Brasil.

Pennac abre seu livro com uma afirmação que não nos abandonará mais:

O verbo ler não suporta o imperativo. Aversão que partilha com alguns outros: o verbo “amar”… o verbo “sonhar”…

Bem, é sempre possível tentar, é claro. Vamos lá: “Me ame!” “Sonhe!” “Leia!” “Leia logo, que diabo, eu estou mandando você ler!”

 - Vá para o seu quarto e leia!

Resultado?

Nulo.

Assim começam os problemas de um ex-futuro leitor. Leitura obrigatória não cria leitores. Pelo contrário, afasta-os dos livros. Quantos alunos continuarão lendo com voracidade poesia e ficção depois do vestibular?

Para evitar a incidência no erro, nada melhor do que ler esse livro de título tão intrigante: Como um romance. De que romance fala Pennac? Logo, logo, o entenderemos. Sua linguagem aliciadora nada tem da monotonia dos livros de intenção pedagógica. Ele nos pega desde o primeiro instante, pois logo entendemos que ele fala da relação entre a criança que se inicia na leitura e a de seus iniciadores, os pais. Desde as primeiras historinhas, cria-se entre eles uma relação amorosa, que cresce a cada noite, antes do sono. O primeiro contato do menino com o livro se dá através dessas leituras que o deixam em permanente estado de excitação:

Sejamos justos. Nós não havíamos pensado, logo no começo, em impor a ele a leitura como dever. Havíamos pensado, a princípio, apenas no seu prazer. Os primeiros anos dele nos haviam deixado em estado de graça. O deslumbramento absoluto diante dessa vida nova nos deu uma espécie de inspiração. Para ele, nos transformamos em contador de histórias. (…) Na fronteira entre o dia e a noite, nos transformávamos em romancista, só dele.

Os pais, a criança e o livro, a trindade perfeita. Não há criança que não espere com ansiedade a hora em que os pais sentam ou deitam com ela na cama e começam a desfiar histórias, algumas lidas, outras inventadas. É um tempo de prazer, sem compromisso outro que o de viajar nas palavras. E ela quer mais, sempre mais, até que o pai ou a mãe, exaustos, a convencem a dormir. Até esse momento somos pedadogos, mas sem nenhuma preocupação com a pedagogia.

Eis que chega o dia em que a trindade se desfaz. O menino vai para a escola. Ele se entusiasma com aprender as letras, é quase um milagre juntá-las e dali sair um nome de seu mundo concreto. A primeira palavra escrita: Mamãe! “Esse grito de alegria celebra o resultado da mais gigantesca viagem intelectual que se possa conceber, uma espécie de primeiro passo na lua, a passagem da mais total arbitrariedade gráfica à significação mais carregada de emoção!“. Mas, eis que de repente…

Luta solitária
Sim, não mais que de repente, parece que tudo se esfuma: a alegria de aprender, a alegria de ler. O que todo pai ou professor observa é que a relação do menino com os livros vai se enfraquecendo. Onde foi parar aquele que gostava tanto de ouvir histórias? A leitura, que fora até então fonte de prazer, sofre uma mutação rápida, começa a se transformar num peso a carregar. Uma vez desfeita a trindade, ele terá agora de lutar solitário com um livro que parece rejeitá-lo.

Jogado o menino na escola, os pais se sentem liberados da obrigação de ler para ele como sempre faziam. Que alívio! Mal sabem que perderam seu ouvinte mais atento. Nessa hora é que deviam estar por perto, mas não estão, pois o menino cresceu, não precisa mais de sua ajuda. Finalmente, ele é capaz de se virar sozinho. Até que notam que alguma coisa não vai bem, algo está acontecendo com aquele que foi um dia leitor tão exigente. Vêm os diagnósticos: um desatento, um preguiçoso que não consegue ler um livro em quinze dias. Nunca levam em conta que o que o torna preguiçoso, desatento, é a obrigação de ler, e ler para responder a fichas de leitura, que são a morte do livro. De seu lado, os professores cobram, e caro, uma leitura que não é do interesse daquele leitor e que só faz perdê-lo. Pennac mostra o caminho:

Ele é, desde o começo, o bom leitor que continuará a ser se os adultos que o circundam alimentarem seu entusiasmo em lugar de pôr à prova sua competência, estimularem seu desejo de aprender, antes de lhe impor o dever de recitar, acompanharem seus esforços, sem se contentar de esperar na virada, consentirem em perder noites, em lugar de procurar ganhar tempo, fizerem vibrar o presente, sem brandir a ameaça do futuro, se recusarem a transformar em obrigação aquilo que era prazer, entretendo esse prazer até que ele se faça um dever, fundindo esse dever na gratuidade de toda aprendizagem cultural, e fazendo com que encontrem eles mesmos o prazer nessa gratuidade.

O que antes era prazer vira obrigação. O menino não vê mais o livro, vê o número de páginas que tem de enfrentar, sempre num prazo curto demais para ele e, o pior de tudo, para fazer uma prova. Um temor o assalta: “Como se sair bem se não o entender?” Ele está só, sente-se mais só que nunca, não há ninguém para salvá-lo. O livro passa a ser visto com inquietação, um antagonista do qual ele tem de se livrar o mais rápido possível.

Um livro não pode ser escolhido por outrem, a escolha devia ser sempre nossa. Mas há o cânone. Parece que, sem ele, as portas do futuro não se abrirão. O menino terá de ler o que professor acha que ele deve ler. O mais comum, então, é vê-lo adormecer com o livro aberto sobre o peito e, perto da prova, pedir a alguém um resumo ou, mais fácil ainda, percorrer a internet. Algo está errado. Não, não pode ser assim. Ler por obrigação nunca dará certo. Ou se chega ao livro espontaneamente ou ele será logo abandonado.

A leitura para ser boa tem de ser gratuita. Deve servir de “trégua ao combate entre os homens”, mas a escola a transforma numa guerra em que o perdedor é sempre o leitor forçado e, por conseguinte, a própria literatura. Ler devia ser sempre um presente, “um momento fora dos momentos”, um hiato de distensão dentro de um cotidiano tedioso. Quem sabe o valor da leitura não força ninguém a ler. O melhor caminho é o incentivo, ter lido e motivar o outro a procurar o livro que tanto nos entusiasmou e encheu nossas horas por dias e meses.

Daniel Pennac parte do pressuposto de que é o prazer de ler que preside todo ato de leitura e que, se ele existe, “não teme imagem, mesmo televisual e mesmo sob a forma de avalanches cotidianas”. Não adianta culpar a vida moderna, a televisão, a internet. Nada disso é empecilho para quem se habituou naturalmente à leitura. O que devemos sempre nos perguntar é : “O que fizemos daquele leitor ideal que ele (o menino) era?”. Não foi gratuitamente que o livro mágico da infância cedeu lugar ao livro hostil.

Qual a saída?
Pais, não se desesperem! Daniel Pennac traz um pouco de alento àqueles que já perderam a esperança de ver de novo o filho com um livro nas mãos, não os didáticos, mas o de um Thomas Mann, de um Dostoiévski, de um Flaubert. Se seu filho gostava de ler e não lê mais, o prazer de ler não desapareceu assim, de uma hora para outra, não se perdeu, apenas desgarrou-se e um dia será reencontrado.

Uma criança não fica muito interessada em aperfeiçoar o instrumento com o qual é atormentada; mas façais com que esse instrumento sirva a seus prazeres e ela irá logo se aplicar, apesar de vós.

A leitura deve ser algo que se oferece como ato liberador da vida insípida. Uma viagem em que não se exige nada. “A gratuidade, a única moeda da arte.”

Estimular o desejo de aprender, o entusiasmo pelo saber, seria esse o papel da escola. Ler sem cobranças, nos contentarmos em ler apenas. Abandonemos o dogma do “é preciso ler”. Ler sem alegria é não ler. As palavras pesam, o livro em breve estará fechado e, só fato de vê-lo sobre a mesa, assusta. Quando se sugere um livro é para partilhá-lo, é uma prova de amor, você quer que o outro leia aquilo que foi importante para você em certo momento da vida. A gente dá a ler aquilo que nos é mais caro. Antes de tudo, reconciliar o jovem com a leitura. Jamais fazê-lo sentir-se um pária dela.

A escola parece proscrever o prazer de seu espaço. Como se todo conhecimento fosse feito de sofrimento. Há uma dissociação entre vida e escola. “A vida está em outro lugar”, relembrando Rimbaud. Para contrariar isso, Daniel Pennac conta a história de um professor que nunca mandou um aluno ler um livro. O que ele fazia? Todo dia chegava e lia um trecho de alguma obra importante. A turma inteira ficava em suspenso, envolvida por sua leitura. Foi assim que ele despertou aqueles adolescentes para os livros. Nunca a mais leve sugestão de que fossem correndo à biblioteca, mas eles iam, voluntariamente, em busca do autor que mais os tinha tocado.

Uma aluna desse professor assim o descreve:

Ele chegava desgrenhado pelo vento e pelo frio, em sua moto azul e enferrujada. Encurvado, numa japona azul-marinho, cachimbo na boca ou na mão. Esvaziava uma sacola de livros sobre a mesa. E era a vida. (…) Ele caminhava, lendo, uma das mãos no bolso e, a outra, a que segurava o livro, estendida como se, lendo-o, ele o oferecesse a nós. Todas as suas leituras eram como dádivas. Não nos pedia nada em troca.

Ao final do ano, os alunos somavam: Shakespeare, Kafka, Beckett, Cervantes, Cioran, Valéry, Tchecov, Bataille, Strindberg. A lista era imensa. E ela continua no seu depoimento emocionado:

Quando ele se calava, esvaziávamos as livrarias de Renner e de Quimper. E quanto mais líamos, mais, em verdade, nos sentíamos ignorantes, sós sobre as praias de nossa ignorância, e face ao mar. Com ele, no entanto, não tínhamos medo de nos molhar. Mergulhávamos nos livros, sem perder tempo em braçadas friorentas.

O gosto pela leitura – é o que se depreende de Como um romance – depende do professor. Antes de tudo, ele tem de ser um apaixonado por livros. Falar que os jovens não gostam de ler é simplificar demais. Então se parte para o oposto: obrigam-nos a ler o que não querem. O resultado não podia ser outro: distância dos livros.

Então alguém se pergunta: o que fazer para colocar o livro na mão dos jovens? Se for para continuar fazendo o que estamos habituados a fazer, a melhor resposta é: NADA. Pelo grau de rejeição que eles desenvolvem em relação à leitura, vemos que as estratégias postas em prática até agora não deram resultado. Insistir nisso é burrice. O que se pode fazer é preparar melhor os professores para que transmitam sua paixão pelos livros de forma natural. Professor que não tem nos livros sua forma de viver não deveria ensinar. Professor que não tem paixão pela escrita não deveria ensinar a escrever. É preciso que sua fala transmita uma verdade que vem de dentro, nunca de fora. Sobre aquele professor do qual falei mais acima, Pennac diz:

(Ele) não inculcava o saber, ele oferecia o que sabia. Era menos um professor do que um mestre trovador (…) Ele abria os olhos. Acendia lanternas. Engajava sua gente numa estrada de livros, peregrinações sem fim nem certeza, caminhada do homem na direção do homem.

O papel do professor é o de alcoviteira. É ele que vai fazer o elo entre o aluno e o livro, casá-los para sempre. Facilitar o ato de ler, contabilizar páginas, convencê-lo de que lendo cinco páginas por dia, ao final da semana são 30 (dispensemos o domingo); no final do mês, são 120. Que lucro para quem não conseguia ler nada! O professor se transforma, assim, num estrategista da leitura.

Daniel Pennac termina seu livro listando os “direitos imprescritíveis” do leitor. Um deles é o de não ler. Não obstante, os professores de literatura e as comissões dos vestibulares ficam proibidos de exercê-lo em relação a Como um romance. Só assim será possível evitar a morte de mais leitores.

O AUTOR
Daniel Pennac
nasceu em Casablanca, Marrocos, em 1944, a bordo de um navio, filho de um oficial francês servindo nas colônias do país. É professor de língua francesa, em Paris, e um apaixonado pela pedagogia. O sucesso na literatura chegou com a série de romances sobre o personagem Benjamim Malaussène – O paraíso dos ogros, A pequena vendedora de prosa, Senhor Malaussène e Frutos da Paixão. Na década de 1980, Pennac morou por dois anos em Fortaleza (CE).

14/01/2009 - 16:50h Uma em cada quatro adolescentes tem HPV

Uma em cada quatro adolescentes sexualmente ativas já possui HPV (Papilomavírus humano). Isso é o que revelou um estudo de cinco anos realizado pela ginecologista Denise Monteiro, que acompanhou 403 adolescentes enquanto elas estavam iniciando a atividade sexual. A constatação é muito preocupante, visto que o HPV pode provocar câncer de colo de útero. Esse é o segundo tipo de tumor mais comum em mulheres — foram registrados 510 mil casos no Brasil em 2008, segundo o Instituto Nacional do Câncer. Fonte Diário de São Paulo

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12/01/2009 - 17:46h Absolutismo infantil

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Lúcia Guimarães – O Estado SP

A cena correu mundo. O rosto da adorável Sasha Obama estava colado na janela do carro blindado que a levou para o primeiro dia de aula na exclusiva escola Sidwell Friends. Em poucas horas, os noticiários de TV perderam qualquer senso de ridículo e exibiram imagens do menu do refeitório da escola, uma dieta de alimentos orgânicos. A atenção devotada ao começo do ano letivo das duas primeiras filhas, Sasha e Malia, não é resultado de exibicionismo de seus pais. É um sintoma da infância como espetáculo.

Desde que o índice de natalidade entre americanas de mais de 35 anos disparou, na década de 80, assistimos a esta exacerbação do papel da criança no mundo adulto. A maternidade adiada aumentou de maneira expressiva entre baby boomers e continuou na geração seguinte.

O governo americano acaba de divulgar as últimas estatísticas de nascimentos, de 2006. Em destaque, o novo aumento da gravidez adolescente, depois de anos de queda, e o aumento da gravidez entre mulheres de 40 a 44 anos, o maior índice de natalidade nesse grupo desde 1968.

Meu bairro, em Manhattan, é anedoticamente apontado como o epicentro desse fenômeno. Meu olhômetro confirma a estatística informal. É comum esbarrar em nova-iorquinas grisalhas empurrando carrinhos com bebês asiáticos; ou em apressadas executivas quarentonas empurrando carrinhos com gêmeos e trigêmeos, cortesia dos tratamentos de fertilidade.

O efeito da nova dinâmica familiar já foi tema de vários livros. Pais mais velhos têm maior estabilidade financeira e maturidade psicológica. Mas as crianças têm menos chance de crescer com avós e podem ter de cuidar de pais idosos doentes num momento da vida em que ainda estão se estabelecendo profissionalmente. Era inevitável que o aumento da expectativa de vida fosse estender a idade da primeira gravidez ou da paternidade. Mas, como me lembrou a escritora Camille Paglia numa entrevista, a natureza nos pregou uma peça cruel. O custo da maternidade adiada é muito mais alto para as mulheres.

Por ter sido mãe ainda bem jovem, já enfrentei o choque inicial de observar o quarto vazio, o voo do ninho para a independência. Mas logo as mulheres de meia-idade começaram a ter filhos à minha volta. E a infância que reapareceu é bastante diferente da minha ou da infância que, aos trancos e sem consultar manuais, proporcionei à minha filha.

Nova York, capital cultural americana da neurose e da competitividade, tornou-se uma vitrine dessa hiperinfância. Ela é resultado em parte do narcisismo materno e paterno – uma pessoa de 40 anos tende a ser mais bem-sucedida do que a de menos de 25 e, portanto, mais zelosa de sua identidade social. E é fruto também da insegurança com a erosão da estabilidade no emprego e do acesso à educação. Meu pai, a certa altura, tinha três empregos, mas nunca lhe passou pela cabeça que seus cinco filhos seriam privados de boa educação e de boas chances profissionais.

Vamos concordar com o argumento de que a maternidade adiada ou a adoção na meia-idade são um fator potencial para crianças desfrutarem mães e pais mais amorosos, articulados, tolerantes e seguros.

Agora vamos, por um momento, discordar. O exército de ditadores mirins, que passei a observar, me convenceu de que esses pais iluminados estão transferindo um ônus aos filhos. O fardo de serem tão importantes.

Quem já não se viu numa festa de adultos, interrompido pelo clamor de pais de primeira viagem sobre os atributos “únicos” de uma criança? Por que a criança está acordada, ouvindo conversas maduras que não consegue entender? E, pior, solitária na responsabilidade pelo orgulho adulto – “canta aquela música que você aprendeu na escola”, “dança pra nós”, enquanto os presentes esperam voltar a discutir economia ou política, como gente grande. É melancólico.

Imagine observar o assustador e vasto mundo adulto, aos 3 anos, e ser investido de autoridade pelo que vai ser servido no jantar, pelo programa de domingo, por tantas decisões que os pais deviam tomar sem o populismo democrático que contaminou as relações de família.

Lembro de ter comentado com escárnio a insensibilidade britânica de ditados como “as crianças devem ser vistas e não ouvidas”. Pois os excessos contemporâneos me fazem clamar por crianças mais vistas do que ouvidas, protegidas desta precocidade politicamente correta estimulada pelos pais.

A imaginação infantil não é apenas refúgio, é um estágio fundamental do desenvolvimento psicológico, cultural e social. Ela se desenvolve na privacidade da criança livre de um papel tão proeminente na vida dos adultos.

Durante uma festa no fim de ano, uma amiga de 85 anos, com quatro filhos e seis netos, balançou a cabeça ao ver duas mães de meia-idade incapazes de impedir que suas duas crianças interrompessem a refeição e a conversa dos adultos. Elas confundiram o amor que sentem com a importância social dos filhos.

É exaustivo. A curto prazo, para os adultos. A longo prazo, é doloroso para os filhos que vão enfrentar sozinhos a transição de monarcas para plebeus.

15/12/2008 - 15:49h “Se eu me calasse, seria omissa”

Mãe de vítima ajudou a prender militar, 1.º indiciado por nova lei

 

Pedro Dantas, RIO – O Estado SP

 


Há menos de um mês, a perita civil Fátima Freire, de 45 anos, foi a primeira mãe a romper o silêncio e denunciar à polícia do Rio o assédio de um pedófilo pela internet. A vítima era sua filha V. , de 12 anos, chantageada durante cinco meses por um terceiro-sargento da reserva da Marinha, que acabou preso. Agora, Fátima conta o drama que ela e V. viveram e defende que a luta contra a pedofilia não deve ser uma “guerra envergonhada”. Ela planeja fazer um site para ajudar vítimas e pais que sofrem em silêncio. “Os pais devem sair detrás da cortina. Imagina o número de meninas passando o mesmo que a minha filha e não contam às mães”, afirma.

A filha de Fátima começou a ser assediada em julho, quando passava férias no Recife. No site de relacionamentos Orkut, o militar Francisco Luís Dias, de 49 anos, morador de São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos, clonou o perfil de uma colega de escola da menina e a adicionou como amiga. A vítima aceitou e logo o criminoso teve acesso a dezenas de fotos de V. e informações sobre a sua vida.

Sempre se passando pela colega, o militar passou a falar com a menina em um programa de conversa instantânea. V. ligou a webcam sem saber que era gravada. A imagem foi editada em um filme como se a menina aparecesse nua. A falsa amiga virtual começou a chantageá-la. Mostraria o filme aos colegas, caso ela não aceitasse um encontro com um “amigo”.

O tormento durou cinco meses. Em troca da não divulgação do vídeo, a falsa colega pedia que V. mostrasse o corpo. Como recusou o encontro com o militar, o pedófilo divulgou o vídeo para os colegas de V.

Em seguida, diante de novas recusas da vítima, o militar clonou o perfil de V. e se passou por ela para enviar filmes amadores pornográficos em que ele fazia sexo com outras crianças para os amigos da escola da garota. Sob a falsa identidade, ele dizia que os vídeos eram protagonizados por V. A menina começou a ser hostilizada no colégio e entrou em depressão.

Sem saída, no dia 1º de novembro, ela contou tudo para a mãe. “Eu percebia que tinha algo errado. Ela passou a faltar às aulas, tinha febre sem estar doente, mas não falava o que era. Resolvi não pressionar e ela contou tudo, até que mesmo que não agüentava mais e queria se matar”, conta Fátima.

A mãe entrou em ação rapidamente. Procurou a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) e os policiais a orientaram a manter conversas com o pedófilo até marcar um encontro. “O constrangimento de ficar ao lado da minha filha por até três horas, durante quase um mês, vendo obscenidades, foi o sacrifício para livrá-la dessa situação. A pedofilia matou o sonho de ver o sexo entrar na vida da minha filha de forma natural e orientá-la sobre o tema. Hoje, aos 12 anos, ela faz tratamento psicológico e mudou de escola. Não sei por quanto tempo essa sombra estará sobre ela”, lamenta a mãe.

O conteúdo das conversas é impublicável. “Ele se excitava toda vez que ameaçava minha filha. Usava gírias de adolescentes e assumia várias identidades. No fim, se revelou como homem, ligava a câmera, mas só mostrava o sexo e se masturbava. No entanto, notei que o relógio era o mesmo usado pelo homem nos vídeos com outras crianças”, conta a mãe. O militar da reserva Francisco Luis Dias, de 49 anos, foi preso no dia 28 de novembro ao ir ao encontro da menina no estacionamento de um supermercado em Nova Iguaçu, armado com uma pistola PT 380, munição e um laptop com vários vídeos pornográficos amadores.

O militar foi o primeiro brasileiro indiciado na nova lei contra a pedofilia na internet, que pune o armazenamento de imagens pornográficas, criminaliza as fotomontagens com crianças e o assédio ou a incitação de adolescentes à auto-exibição. As punições variam de um a oito anos de prisão, além de multa. No caso de Dias, se condenado, a pena será aumentada em um terço, pois ele é pai de um menino de 6 anos e de uma adolescente de 16.

O drama da filha fez Fátima encarar novamente o pesadelo que enfrentou na infância. Ela diz que foi abusada aos 5 anos por um parente que passou as férias na casa de seus pais. Mais tarde, o abusador foi preso após engravidar a própria filha. “A primeira vez eu era uma criança e não tinha discernimento. Agora, com a minha filha, se me calasse, seria omissa”, avalia.

O delegado-titular da DRCI, Fernando Vila Pouca de Sousa, diz que o medo do julgamento alheio ou de estigmatizar socialmente a criança inibe a denúncia. Há cinco meses no comando do distrito, ele afirma que Fátima foi a primeira a denunciar o assédio. “Ela é uma exceção. As vítimas, pais de classe média e esclarecidos, deveriam buscar Justiça, mas não o fazem com medo de submeterem a filha a um prejulgamento”, afirma o delegado.

Fátima confirma que após denunciar sentiu como é ser julgada mesmo sendo vítima. “Algumas pessoas me perguntaram se a minha filha mostrou ou não o corpo. Não entendo a diferença, pois V. estava sendo chantageada por um adulto em uma luta desigual”, conta.

O mercado da pornografia infantil, de acordo com dados da CPI da Pedofilia, movimenta cerca de R$ 3 milhões por ano no País. Esse montante é gerado pela compra e venda de fotos de material pornográfico com crianças para Estados Unidos e Europa. O crime na internet desconhece fronteiras. Ao tentar identificar as outras vítimas do militar pedófilo, a polícia descobriu entre elas uma adolescente do interior paulista. “A pedofilia é um crime que entra em nossa casa, mesmo com as portas fechadas”, alerta Fátima.

ATENÇÃO, PAIS

Proibir não educa e não previne nada. As tecnologias mais
avançadas para proteger crianças e adolescentes continuam sendo diálogo e orientação

Coloque-se sempre à disposição para que as crianças peçam ajuda quando se sentirem ameaçadas ou receberem conteúdos impróprios online

Alerte os filhos para não divulgarem dados pessoais na internet, não aceitarem convites para encontros com amigos virtuais nem receberem arquivos de estranhos

Espionar e gravar o que os filhos fazem não são boas saídas. Você fere a privacidade e pode fragilizar a confiança

Ensine que não podemos acreditar em tudo nem em todos. A internet é território fértil para pessoas mal-intencionadas e mentirosas

Estabeleça regras e limites para o uso da internet, adequadas à idade da criança. Fixe um horário ou tempo limite de acesso, converse sobre os sites e serviços que ela pode ou não usar e
explique o motivo. Monitore o uso de salas de bate-papo e de comunicadores instantâneos

Mostre às crianças que a internet é apenas mais uma
opção de lazer e educação entre várias. A web não deve substituir opções de interação social realizadas fora do computador

Use os recursos que seu provedor de acesso puser ao seu dispor para bloquear o acesso a sites com conteúdo impróprio para seu filho. Você também pode utilizar programas de filtragem de conteúdo, disponíveis na internet

Fonte: SaferNet Brasil (prevencao@safernet.org.br)

COMBATE AO ABUSO

20/12/2007: Operação Carrossel

A Polícia Federal cumpriu 102 mandados de busca e apreensão de material pornográfico em residências e empresas de suspeitos de crimes sexuais contra crianças, em 14 Estados e no Distrito Federal. Foram detectados cerca de 3,8 mil acessos à material pornográfico infantil na internet. Três pessoas foram presas em flagrante, duas em São Paulo e uma em Fortaleza

25/3/2008: CPI

Senado instala a CPI da Pedofilia para propor projetos de lei para combater os crimes sexuais contra crianças e adolescentes no País

23/3/2008: Orkut

CPI da Pedofilia consegue quebra de sigilo de 3.261 usuários do Orkut, suspeitos de estimularem a pedofilia, com divulgação de material pornográfico com menores

2/7/2008: PF e Google

Polícia Federal e Google assinam o Termo de Ajustamento de Conduta para combater a pedofilia no site de relacionamentos Orkut

9/7/2008: Projeto

Em desdobramento dos trabalhos da CPI da Pedofilia, o Senado aprova projeto de lei que pune com mais rigor os crimes de pornografia infantil e pedofilia na internet. O projeto é encaminhado para votação na Câmara

3/9/2008: Carrossel 2

A Polícia Federal fez buscas e apreensões de material de pornografia infantil em 113 endereços de 17 Estados e do Distrito Federal, de onde o material era distribuído pela internet. O Estado campeão de mandados foi São Paulo, seguido pelo Rio Grande do Sul

11/11/2008: Câmara

Câmara aprova o projeto de lei, que foi, então, para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva

25/11/2008: Lei

O presidente Lula sanciona o projeto de lei que aumenta a punição e a abrangência de crimes de pedofilia na internet, durante o 3.º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, no Rio

27/11/2008: Quebra de sigilo na internet

PF assina acordo com ONG SaferNet para ter acesso às denúncias de pedofilia na internet no www.denunciar.org.br; ação da PF faz varredura em 3.261 perfis no Orkut e identifica 117 pedófilos no País

29/11/2009: O 1.º indiciado pela nova lei

O militar da reserva da Marinha, Francisco Luís Dias, de 49 anos, foi o primeiro indiciado pela nova lei. Ele foi flagrado em encontro com uma menina de 12 anos que estava sendo chantageada para posar em fotos pornográficas

24/11/2008 - 17:59h Desafio global

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MARIE-PIERRE POIRIER – O GLOBO

No momento em que os brasileiros acabam de eleger seus prefeitos e prefeitas, o Brasil sediará o mais importante evento do mundo sobre o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes.

A coincidência de agendas não foi intencional, mas existe uma forte conexão entre as eleições e o tema que será discutido por autoridades e especialistas de 150 países durante o III Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, que acontece entre os dias 25 e 28 de novembro no Rio de Janeiro.

Apesar dos avanços obtidos nessa área por governos, ONGs e sociedade civil, evidências confirmam que a exploração sexual de crianças se alastra e atravessa fronteiras geográficas. Mais de uma década após o I Congresso Mundial contra a Exploração Sexual de Crianças, realizado em Estocolmo, a situação é de crescente preocupação. O Congresso Mundial vai debater exatamente esses desafios globais, mas é importante lembrar que as soluções para o problema também devem ser locais.

E é por isso que a prefeitura tem um papel estratégico nessa força-tarefa. As crianças e suas famílias vivem no município e, portanto, é nesse local que as ações devem ser colocadas em prática.

Mas, afinal, o que a prefeita e o prefeito eleitos podem fazer? Além de programas e ações de combate ao problema, é fundamental que o município adote um plano municipal de enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes, baseado no diálogo entre os principais atores do Sistema de Garantia dos Direitos: conselho dos direitos, conselho tutelar; secretarias municipais, delegacia de proteção à criança; juízes e promotores da infância. Nesse processo, as lideranças comunitárias, os adolescentes e suas famílias são atores fundamentais.

Ainda que essa etapa de articulação seja essencial, essa iniciativa deve ter orçamento próprio, dedicado a programas de atendimento às crianças, às redes de proteção à família e a um serviço de denúncia. Dessa forma, o poder público municipal terá condições de cumprir seu papel de prevenir novos casos de exploração, proteger a criança que sofreu violência e punir os agressores de forma mais ágil e eficiente.

Enfrentar a exploração sexual de crianças e adolescentes requer persistência.

Estamos diante de um problema complexo. Mesmo que esse crime não tenha como causa a pobreza e a miséria, é importante ressaltar que a maior incidência de casos é registrada entre meninas e mulheres afro-descendentes e indígenas, com baixa escolaridade e que vivem com suas famílias de baixa renda nas periferias das grandes metrópoles ou em municípios de baixo desenvolvimento socioeconômico.

A partir de 1° de janeiro os novos prefeitos e prefeitas serão agentes fundamentais.

No entanto, cada um de nós também tem um papel nesses esforços: propor e exigir soluções, além de denunciar os casos de violação. Podemos, juntos, colocar um fim a essa prática criminosa e cruel, que marca para sempre a mente de quem sofre a violação.

Em seus novos mandatos, os representantes políticos nos municípios terão uma oportunidade de mudar de uma vez essa realidade.

13/11/2008 - 19:01h Argentina: anos de estupros e de horror culminam com paródia de justiça

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Un fallo a que premia a un abusador y viola la razón

La serenidad de Traslasierra, una región de Córdoba dueña de un ritmo aquietado de belleza y silencio, se ha sacudido para mal.

Anteayer un destacado vecino de esa región, precisamente de San Javier, dueño de un aserradero y “hombre fuerte” en la comarca fue condenado a ocho años de prisión por haber abusado durante una década de una chiquita. Elizabeth “Eli” Díaz, hija de una de las mucamas de Benavídez, trabajaba en tareas domésticas en la casa del violador desde que era una nena.

Cuando “Eli” tenía nueve años el empresario empezó a aprovechar su poder sobre la familia y el estado de indefensión de la nena para iniciar los ultrajes. Estos sólo terminaron con la muerte: embarazada del abusador, a los 18 años la chica mató a golpes al bebé producto del escarnio. Sólo en la prisión, acusada de homicidio calificado por el vínculo, “Eli” se vio libre, al fin, del acoso. Y a pesar de que pidieron perpetua para ella, un tribunal la absolvió, entendiendo que había actuado “en estado crepuscular de emoción violenta”.

Pero al ventilarse todo en el juicio, Benavídez fue detenido y procesado por las reiteradas violaciones. Aún no se conocen los fundamentos del tribunal que lo juzgó y lo benefició con la escueta pena que pidió el fiscal Novillo Corvalán -la querella había solicitado 20 años de prisión-. El defensor del violador de la nena -un abogado que también patrocina a Carlos Menem en el juicio por la voladura del arsenal militar de Río Tercero- trató de explicar lo inexplicable: el tribunal consideró que “Eli” “consentía los encuentros sexuales”.

¿Puede una nena de 9 años “consentir” tener relaciones con un hombre de 50? ¿Y una adolescente de 14, 15 o 16? ¿Y una chica de 17, que ha sido violada desde los 9? Es difícil vislumbrar una luz de razonamiento en semejante noche de irracionalidad. Pero quizá el tribunal haya encontrado milagrosos argumentos para perpetrar su veredicto.

La joven es pobre -al fin y al cabo, una “chinita” (remember María Soledad Morales) siempre trabajó de mucama-; su atormentador, rico. Eso siempre explica demasiado en la Argentina en general, y en la Argentina profunda, mucho más.

Hoy “Eli” tiene 20 años y Benavídez, 61. Las pesadillas de la chica -según confesó en un reportaje con Clarín- están pobladas del “aliento a hombre viejo, del olor a hombre” y sueña ser madre “alguna vez, pero sin marido”.

Las pesadillas de la joven seguramente ya no tendrán fin: gracias a un fallido fallo, en muy pocos años el monstruo volverá a la libertad.

(Publicado en la columna Disparador de Clarín el 12 de noviembre del 2008)

Publicado por Marcelo A. Moreno

11/11/2008 - 15:12h Rotina de agressões

As emergências das unidades de saúde do DF receberam 371 mulheres vítimas de violência este ano. No domingo, Claudilene Costa nem pôde buscar ajuda. Morreu esfaqueada. Segundo a polícia, pelo parceiro

Lúcio Costi Especial para o Correio Braziliense e Érica Montenegro da equipe do Correio

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
Francisca chora a morte da irmã. Casal brigava com freqüência

 O cotidiano de brigas do lavador de carros Valmir Vanieli Silva de Souza, 26 anos, e da empregada doméstica Claudilene Costa Campos, 31, foi encerrado de maneira trágica no último domingo. Esfaqueada, Claudilene – ou Milene, como era chamada carinhosamente pelas irmãs, morreu na casa que os dois dividiam havia cinco meses. Valmir negou o crime, mas foi preso em flagrante por conta das circunstâncias em que a morte ocorreu.

A violência de gênero que pode ter provocado a morte de Claudilene leva mais de uma moradora do DF por dias às unidades de saúde da cidade. Só este ano, 371 mulheres espancadas, esfaqueadas ou violentadas foram atendidas nas emergências dos postos de saúde e hospitais brasilienes. No caso de violência física, elas repetem o perfil da doméstica: todas tinham relacionamento com o agressor. “Quem bate é o namorado, o marido, o companheiro. Eles se sentem donos delas”, afirma Laurez Vilela, chefe do Núcleo de Estudos e Programas para os Acidentes e Violências da Secretaria de Saúde.

Segundo relato de familiares de Claudilene, as brigas entre o casal eram comuns. O próprio Valmir teria dito várias vezes aos vizinhos: “Nos amamos muito, mas quando a gente bebe acaba brigando”. A irmã da vítima, Francisca Conceição Santos, contou que várias discussões dos dois evoluíram para agressões físicas. Num desses episódios, Francisca precisou levar a irmã ao hospital. “Ele deu um soco nela e o nariz sangrou”, relatou. Em outra ocasião, foi Claudilene quem atacou Valmir. “A faca pegou de raspão.”

As vítimas só costumam procurar as unidades de saúde quando a violência já atingiu um nível crítico. Buscam auxílio quando a situação muda de patamar. “Elas chegam bastante machucadas, com um braço quebrado, um trauma na cabeça ou até mesmo depois de ter levado um tiro ou uma facada. Sabemos que a violência acontece em um crescendo. Por isso acreditamos que não é a primeira ofensa que leva a vítima ao hospital”, comenta Laurez Vilela. Para ela, a demora em procurar ajuda faz com que o agressor aumente a força e a constância das surras.

Nos hospitais e postos de saúde, as vítimas não costumam se referir às agressões como violência. Preferem dizer que os machucados foram resultado de um desentendimento com o companheiro. “Muitas vêm de um histórico de violência familiar e até acham a agressão natural”, acrescenta Vilela.

De acordo com as informações da Secretaria de Saúde, a faixa etária mais propensa à violência é a de mulheres entre 24 e 29 anos. “São as que têm relacionamento estável. Quanto mais formalizada a relação, mais eles se sentem donos”, completa Laurez Vilela.

A delegada titular da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam), Sandra Gomes Melo, reforça a importância de as vítimas procurarem auxílio assim que o companheiro começa a apresentar os primeiros sinais de comportamento violento. “As denúncias de agressões e ameaças podem inibir os crimes passionais contra a mulher. Servem para pedirmos medidas de proteção para elas”, afirma Sandra. A delegada-chefe da Deam afirma que a investigação é sempre difícil pois envolve segredos familiares. “São crimes que acontecem entre quatro paredes e muitas vezes envolvem psicopatia. Eles só batem em quem sentem que exercem poder, como mulher e filhos.”

Na percepção da antropóloga Rita Segato, da organização não-governamental Ações em Gênero, Desenvolvimento e Cidania (Agende), a intensidade da violência contra a mulher tem aumentado. “O homem desconta na mulher as violências estruturais que sofre. A crise não é porque elas se libertaram ou liberaram, mas porque eles identificam nelas o único território que ainda possuem” , comenta.

16 DIAS DE ATIVISMO
A organização não-governamental Agende (Ações em Gênero, Desenvolvimento e Cidadania) vai lançar no dia 17, a partir das 10h, no Plenário da Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, a campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres. O tema deste ano é: “Há momentos em que sua atitude faz a diferença. Lei Maria da Penha. Comprometa-se”.

Claudilene estava em Brasília havia seis meses e, nos últimos cinco, vivia com Valmir em um quarto e sala de Taguatinga. O casal brigava muito. As discussões aconteciam aos finais de semana, quando ele queria deixá-la em casa para sair com amigos. Claudilene não se importava com as farras dele, apenas queria acompanhá-lo. “Ela queria sair com ele para as festas”, contou a irmã Francisca.Pelo que conta Francisca, o caso dos dois foi amor à primeira vista. No dia em que chegou à capital, Claudilene foi recepcionada com festa pelos familiares. Foram todos beber para comemorar. “Ela viu o Valmir no bar e pediu que eu fosse falar com ele. ‘Minha irmã quer falar com você’, eu disse a ele, que respondeu: ‘Diga para ela vir até mim’”, contou. Os dois passaram a se encontrar e, um mês depois, estavam morando juntos na QNG 31. Eles se preparavam para deixar Brasília em breve. Se mudariam para Fortaleza, terra natal de Valmir.No dia do crime, Francisca visitou a irmã pela manhã. Claudilene estava na casa de uma amiga, fazendo uma escova no cabelo, enquanto Valmir preparava o almoço. Francisca conta que a irmã estava feliz e o cunhado, satisfeito. Claudilene morreu por volta das 20h. A suspeita recaiu sobre Valmir porque antes de o Serviço de Atendimento de Urgência (Samu) chegar, ele lavou um tapete e uma bolsa onde foram encontrados vestígios de sangue pelos peritos.A faca que a feriu também não foi encontrada. Os parentes dela acrescentam que, em vez de chamar o socorro, ele correu para avisá-los. Quando chegaram, ela estava viva, mas inconsciente. Quando a ambulância do Samu apareceu, Valmir fez questão de ir junto, acompanhando Claudilene. E, na hora em que foi informado sobre a morte dela, desabou em prantos. “Acho que ele gostava dela. Dizia para todos mundo que a amava, mas que brigavam muito”, afirma Francisca. O inquérito será concluído pela 17° Delegacia de Polícia. Valmir está desde a manhã de ontem encarcerado no Departamento de Polícia Especializada.

O número

Não se cale
180
é o número da central telefônica que funciona em todo o país para denunciar violência doméstica

Memória
Intolerância que se repete

2008

  • 2 de novembro
    Deoraci de Souza Oliveira, 28, foi morta junto com o ex-marido, Paulo Pereira de Souza, 24, com quem queria reatar o relacionamento. O então companheiro dela, João Benedito Moreira de Carvalho, encontrou os dois na casa de Paulo e os matou a facadas.
  • 29 de outubro
    Erika Matos Ribeiro, 14, morreu baleada em Planaltina. Renato Souza Ramos, 19, foi preso e confessou o crime. A polícia suspeita de motivação passional, mas ele nega.
  • 4 de agosto
    Karen Guedes, 18, grávida de dois meses, foi morta com um tiro no pescoço na saída de uma festa em Samambaia. O autor seria o namorado dela, conhecido como André.
  • 26 de junho
    O cabo do Corpo de Bombeiros Glauber Evaristo Melo, 41, matou a ex-namorada Josiene Pimentel, 35, com um tiro na cabeça. Josiene já havia dito que não queria mais namorar Glauber.
  • 8 de março
    O vendedor de frutas Humberto Alves de Olveira, 35, foi encontrado morto na Estrutural. Ele estava a caminho de uma feira e levou um tiro na nuca. A polícia suspeita de crime passional.
  • 8 de janeiro
    Uma adolescente foi encontrada morta em Planaltina depois que moradores próximos à Chácara Bom Jesus, na DF-128, ouviram tiros. Uma discussão com o namorado seria o motivo da morte.2007
  • 21 de julho
    Insatisfeito com a separação, o churrasqueiro Manoel Dias, 53, esfaqueou a esposa, a empregada doméstica Antônia de Sene Rocha, 53. O crime ocorreu na casa do casal, em Santa Maria.
  • 29 de junho
    Transtornada pelo fato de o marido a rejeitar, a dona-de-casa Cláudia Pereira da Silva, 22, esfaqueou o companheiro, Jorge Augusto Teixeira da Rocha, 22, em São Sebastião.
  • 25 de maio
    Cego de paixão, o vigia Sebastião Ferreira, 30, tirou a vida da companheira, Marivone de Oliveira, 40, a golpes de porrete, num núcleo rural próximo a Sobradinho. Ele matou a mulher para tentar ficar com a filha dela. Foi preso.
  • 03/11/2008 - 10:19h SP concentra serviços sociais para crianças em bairros ricos e centrais

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    Os dez distritos com as redes de proteção mais frágeis estão nas periferias e em lugares de pobreza extrema

    Bruno Paes Manso – O Estado SP

    Os dez distritos da cidade que oferecem mais vagas em programas sociais e educacionais para crianças e adolescentes estão nas regiões centrais e mais bem estruturadas de São Paulo. Já os dez distritos com as mais frágeis redes de proteção ficam nas periferias e concentram número elevado de crianças e jovens em condição de pobreza extrema. O ranking dos serviços no Município, obtido com exclusividade pelo Estado, foi encomendado ao Instituto Lidas pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA).

    Em primeiro lugar no ranking de atendimento ficou Moema, na zona sul. Entre os mais de 70 mil moradores da área, 53% vivem em famílias cujo chefe ganha mais de 20 salários mínimos por mês, situação que se reflete nos indicadores sociais do bairro. Perto de 70% da população teve mais de 12 anos de estudos. Das meninas com idade entre 10 e 19 anos, apenas 1,73% enfrentaram problemas de gravidez na adolescência. A taxa de homicídios no bairro, em 2006, foi de 1,5 caso por 100 mil habitantes, semelhante à de países desenvolvidos. Para cada mil crianças e adolescentes do bairro até 18 anos, 564 dispõem de vagas em diferentes serviços conduzidos pela Prefeitura e por entidades do terceiro setor – passando por vagas em creche, apoio socioeducativo, orientação sócio-familiar e medidas socioeducativas.

    Os dez primeiros distritos no ranking, todos com mais de 285 vagas ofertadas para cada mil crianças e jovens de até 18 anos que vivem na região, possuem 1,5% de seus jovens em situação de pobreza extrema (seguindo os índices de vulnerabilidade social da Fundação Seade). Para se ter uma idéia da elevada concentração de serviços nessas áreas, toda a capital oferece, em média, 89 vagas para cada mil pessoas até 18 anos, enquanto 17% de seus jovens vivem em pobreza extrema.

    A situação se inverte em Perus, o último colocado entre os 96 distritos, que tem dez vagas em diferentes tipos de serviços para cada mil moradores de até 18 anos ou 56 vezes menos do que o distrito de Moema. Ao mesmo tempo, 11% de seus jovens estão em situação de extrema pobreza. Em 2006, por exemplo, o índice de homicídios na região alcançou 31 casos por 100 mil habitantes, total 21 vezes maior do que em Moema. No mesmo ano, 17% das mulheres no distrito com idade entre 10 e 19 anos engravidaram.

    A situação se repete entre os dez piores colocados do ranking, que chegam a oferecer no máximo 24 vagas de serviços sociais e educacionais para cada grupo de mil com idades até 18 anos. Ao mesmo tempo, em média 12% de seus jovens estão em situação de pobreza extrema.

    E o ranking traz surpresas. O Brás, na região central, é o quarto distrito com menor oferta de vagas, com um índice de 14 vagas para cada mil jovens do bairro. Como é vizinho de distritos com alta oferta, como Belém e Água Rasa, ambos entre os 20 mais bem colocados, a carência de serviços acaba sendo amenizada.

    Já o distrito do Grajaú, na periferia sul, com 76 vagas por cada mil pessoas de até 18 anos, fica um pouco abaixo da média registrada na capital. A situação piora quando se constata que mais de 42 mil crianças e jovens vivem em situação de pobreza extrema, o que representa 32% da população até 18 anos.

    “Ainda não tínhamos um quadro dos serviços na cidade e o estudo ajuda a detectarmos as distorções”, afirma a presidente do CMDCA, Elaine Macena Ramos. “Com esse quadro, temos como ajudar a orientar investimentos do poder público e do terceiro setor e como cobrar melhorias para as populações menos beneficiadas.”

    FRASES
    Eliana de Oliveira
    Supervisora de empregos “Como faltam vagas
    em creche, o filho da empregada pode transformar-se num problema”

    Marinilda de Lima
    Babá
    “Antes de ter o filho, quando saía de um emprego já tinha outro”

    23/10/2008 - 07:56h ”Não houve tiro antes da invasão”


    Nayara nega versão da polícia e de vizinhos de que ação só ocorreu após disparo; para coronel, tiro ”não era primordial”

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    Eloá e Nayara

    Bruno Tavares, Diego Zanchetta e Josmar Jozino – O Estado de São Paulo

    Em seu primeiro depoimento após o assassinato de Eloá Cristina Pimentel, Nayara, de 15 anos, revelou ontem que ela e a amiga só foram baleadas por Lindemberg Alves, de 22, depois que policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) detonaram os explosivos colados na porta do apartamento. O relato da adolescente diverge da versão apresentada pelo comando da Polícia Militar, de que a invasão só ocorreu porque o Gate ouviu um tiro vindo de dentro do cativeiro.

    Segundo o delegado seccional de Santo André, Luís Carlos dos Santos, Nayara afirma “taxativamente” que os disparos só ocorreram depois da explosão. “O Lindemberg, segundo a versão da Nayara, não deu nenhum tiro por volta das 18 horas. Ela (que estava em um colchonete no chão, do lado direito da amiga Eloá), relatou que ouviu uma explosão, teve um susto, ouviu dois tiros e depois não se lembra de mais nada”, disse o seccional. “Teria ocorrido um disparo anterior, por volta das 15 ou 16 horas, para o alto, num ato de nervosismo (de Alves). Em seguida a Eloá teve uma crise nervosa e ele a controlou, segundo Nayara.”

    O delegado frisou que o inquérito ainda está na fase de recolhimento de provas e outras duas testemunhas, vizinhos do apartamento, foram ouvidas anteontem à tarde no 6º Distrito Policial e relataram “um estampido”, como de um tiro, por volta das 18 horas. As versões conflitantes agora deverão passar pelo crivo do Instituto de Criminalística (IC), que já periciou o apartamento no Conjunto Habitacional do Jardim Santo André. Imagens das emissoras de TV já foram requisitadas e também serão analisadas.

    Embora o depoimento de Nayara não altere a apuração sobre o assassinato de Eloá – a polícia não tem mais dúvidas de que os tiros partiram do revólver de Alves -, ajudou a engrossar as críticas à operação da PM. O coronel Eliseu Teixeira, responsável pelo Inquérito Policial-Militar (IPM), que apura a conduta dos homens do Gate, tentou minimizar o fato de as versões da polícia e de Nayara serem conflitantes. “O disparo não era primordial para a invasão ou não do Gate”, argumentou. “Havia risco iminente de morte das vítimas e os policiais estavam ali há mais de 100 horas tentando justamente protegê-las.”

    Uma hora depois da entrevista concedida no Centro Hospitalar Municipal de Santo André, onde Nayara foi ouvida por mais de quatro horas, o comandante do Comando de Policiamento de Choque (CPChoq), coronel Eduardo José Félix, convocou a imprensa para reiterar seu apoio à tropa. “O Gate tem a minha confiança, a da sociedade e a do governo”, reafirmou. Questionado se Nayara havia mentido em seu depoimento, o oficial afirmou: “Respeito as declarações dela, mas se trata de uma jovem de 15 anos, que pode estar confusa.” A PM também divulgou um vídeo em que uma suposta moradora relata ter ouvido um estampido antes da explosão.

    Por volta das 20h30, Nayara apareceu pela primeira vez, depois de ser libertada do mais longo cárcere privado da história de São Paulo, segurando um bicho de pelúcia. Ela deixou o hospital sem dar declarações.

    19/10/2008 - 09:21h Especialistas apontam quatro falhas graves

    “— O Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) trabalhou muito bem. Muitas vezes eles salvam vidas, mas era uma situação delicada porque envolvia o comportamento imprevisível de uma pessoa. Neste caso, inclusive, como soubemos, havia oscilações de depressão e raiva — disse o governador. — O Gate atuou segundo seu procedimento.
    Ao perceber que havia ameaça de morte dos reféns, entraram no local para preservar a vida de quem estava lá.
    Serra evitou comentar um dos pontos mais criticados da atuação da polícia: a volta de Nayara ao cativeiro 34 horas após ter sido libertada: — O coronel (Eduardo José Félix) deu uma explicação, que é a explicação que nós temos. E, quando ela (Nayara) sair do hospital, dará sua explicação.”(Diário de São Paulo)

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    Eloá e Nayara

    Exaustão de rapaz deveria ter sido aproveitada

    O GLOBO

    Especialistas em legislação, segurança e ações de resgate de reféns apontaram ao menos quatro falhas na operação do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) que resultou na prisão de Lindemberg Alves, de 22 anos, e em ferimentos nas adolescentes Eloá Cristina Pimentel, ex-namorada do rapaz preso, e Nayara Vieira, no caso de reféns mais longo da história de São Paulo. Atingida na cabeça, Eloá está internada em estado grave.
    Foram quase cem horas de seqüestro em Santo André, com três pessoas trancadas num apartamento, cercado 24 horas pela polícia. Para Leonardo Pantaleão, da Comissão de Direito Criminal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o primeiro erro grave da polícia foi permitir a volta de Nayara à condição de refém: — Situação que não tem explicação, inusitada na História brasileira, que acaba colidindo com todas as normas vigentes. O Estatuto da Criança veda que todo adolescente seja colocado em situação de risco.
    O coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), Sérgio Adorno, reconhece as dificuldades de ação da polícia num caso como esse, mas estranha que em quatro dias não se tenha usado tecnologia para aproveitar um momento de relaxamento do seqüestrador: — Existem recursos técnicos de escuta através da parede.
    Eu imagino que as pessoas dormiram, tanto as meninas como o seqüestrador.
    Em algum momento, na exaustão, ele dormiu. Numa hora em que ele cai numa exaustão, talvez fosse o momento de intervenção.
    Rodrigo Pimentel, ex-comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) do Rio de Janeiro, disse que o grupo de policiais de São Paulo é o mais bem-sucedido do país em recuperação de reféns com vida, mas reconhece a gravidade desse tipo de seqüestro: — Existe uma tendência mundial a respeito do tomador de refém passional.
    Ele não é economicamente motivado, é mentalmente perturbado. Ele é imprevisível.
    Não se espera algo razoável ou lúcido de uma pessoa que esteja sofrendo de paixão ou amor. Os Estados Unidos sinalizam essa ocorrência de refém como a mais difícil de todas.

    17/10/2008 - 12:19h Polícia devolve refém menor de idade a sequestrador

    Especialistas condenam volta de refém à casa

    Para ex-comandantes, ação foi “erro grosseiríssimo” e “pouco responsável”

    Jovem é mantida refém desde o começo da tarde de segunda-feira em Santo André
    Werther Santana/AE

    Edison Veiga – O Estado SP

    Eram 9 horas da manhã de ontem quando Nayara, de 15 anos, voltou ao apartamento onde sua amiga Eloá é mantida em cárcere privado desde segunda-feira. Nayara havia sido liberada na terça-feira. A polícia teria acatado uma exigência do seqüestrador e permitiu o retorno da adolescente. “Foi um erro grosseiríssimo”, afirma o coronel da reserva José Vicente da Silva, diretor do Instituto Pró-Polícia e ex-secretário Nacional de Segurança Pública. “Colocar mais um inocente em risco é a última coisa que poderia ser feita.”

    Ele não foi o único a condenar a concessão feita pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar. “Não entendi como permitiram a volta de uma refém menor de idade ao ambiente de risco”, diz o capitão da reserva Rodrigo Pimentel, ex-comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da PM do Rio e co-autor do livro Elite da Tropa – que deu origem ao filme Tropa de Elite. “Foi uma decisão pouco responsável.”

    Policiais que já atuaram no Gate e hoje ocupam outros postos também criticaram a maneira como o processo vem sendo conduzido. “No processo de negociação é preciso haver alguns limites”, defende um deles. “É inadmissível colocar a vida de alguém em risco. E, pior ainda, menor de idade.” Como o comando da PM não autorizou que ninguém se manifestasse antes do fim do caso, eles pediram para não ter seus nomes revelados.

    HISTÓRIA E PROCEDIMENTOS

    Inspirado nas polícias especializadas norte-americanas, o Gate foi criado em 1988. É uma tropa da PM acionada em ocorrências que exigem treinamento específico e equipamentos especiais. Seus policiais são chamados para atuar em ações de combate ao terrorismo, em operações com explosivos, rebeliões em presídios e ações com criminosos armados em locais de difícil acesso ou com reféns.

    Comandados pelo capitão Adriano Giovaninni, os cerca de 70 integrantes da tropa têm sua base no bairro de Vila Maria, na zona norte da capital. São requisitados para casos complexos. Operacionalmente, dividem-se em três equipes. Em casos que levam dias, como o de Santo André, um grupo dá lugar a outro.

    CAMINHO

    É árduo o caminho para quem quer ingressar na “tropa de elite” paulista. Cerca de 200 policiais militares, todos os anos, candidatam-se, voluntariamente. Neste ano, apenas sete conseguiram passar por todas as fases. Os dois dias de testes de aptidão física – natação, corrida, séries de abdominais – já costumam eliminar 90% dos concorrentes. Os que passam dessa fase fazem um rígido curso de 35 dias, com simulações de situações limite com explosivos, reféns e outros obstáculos. Só então passam a fazer parte do efetivo da tropa.

    Mas o aprendizado não termina aí. Cursos específicos são constantes. Alguns especializam-se em negociação – no caso de Santo André, quatro negociadores se revezavam -, outros em desarmar explosivos e há os atiradores de elite. Intercâmbios com polícias do exterior são constantes.

    Pela “cartilha” do Gate, a invasão em caso de cárcere privado só ocorre em situações extremas. “Desde o começo da negociação, um policial faz o exame técnico do ambiente”, afirma o coronel José Vicente. Os policiais só entrarão em três situações: seqüestrador distraído (ou dormindo), acesso facilitado ou risco iminente para a vítima.

    16/09/2008 - 17:03h Comportamento de alto risco


    Pesquisa revela que Brasil têm alta taxa de doenças sexualmente transmissíveis

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    Evandro Éboli – O Globo

    Pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde em seis capitais brasileiras revela que 42% das 3.303 gestantes examinadas, entre 2004 a 2007, eram portadoras de pelo menos uma doença sexualmente transmissível (DST). A contaminação por HPV, um tipo de lesão genital, foi a que teve maior registro. Segundo o Ministério da Saúde, esta doença não causa riscos para o bebê se a mulher não apresentar verrugas e lesão. Mas, do total de grávidas examinadas, 13,5% adquiriram doenças mais graves como gonorréia, clamídia e sífilis, que podem provocar morte do feto, má-formação óssea, cegueira e levar ao parto prematuro. Esses dados são os que mais preocupam autoridades do Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids do governo.

    — São dados que chamam a atenção porque são doenças que causam mais danos ao binômio mãe-bebê. São problemas que têm diagnóstico, tratamento e cura, mesmo adquiridos na gravidez — disse o coordenador da unidade de DST do Programa DST-Aids do Ministério da Saúde, Valdir Pinto.
    Segundo o coordenador, são doenças cujo tratamento está disponível na rede pública de saúde e os medicamentos usados são de custo muito baixo, com preços que variam de R$ 0,39 a R$ 5.
    Pinto destaca ainda que quase metade das grávidas pesquisadas (49,2%) nunca usa preservativo com parceiro fixo. Para o coordenador, a camisinha deve ser usada sempre, independentemente de se ter parceiro fixo ou eventual.

    — Não se pode garantir que o parceiro fixo não transmite doença. É um tema delicado para ser abordado, mas o governo não pode impor. Os homens e mulheres é que devem decidir se vão adotar métodos seguros. É o livre-arbítrio.
    A pesquisa também ouviu 2.814 homens trabalhadores de pequenas indústrias, grupo que apresentou o menor índice de ocorrência de doenças sexualmente transmissíveis: apenas 5,2%. Quase a totalidade desses entrevistados (95,5%) respondeu que faz sexo apenas com mulheres. Apenas 1,5% afirmou ter relações homossexuais.

    Mulheres se protegem mais que os homens

    O terceiro grupo abordado na pesquisa foi o de homens e mulheres atendidos em serviços de saúde especializados em DSTs. Dos 3.210 pesquisados, 51% apresentaram algum tipo de infecção. A mais comum foi o HPV, doença diagnosticada em 32,6%. O HPV é uma lesão conhecida como crista de galo e aparece em forma de uma verruga no colo do útero, e também no pênis e no ânus. A sua transmissão pode ocorrer também por sexo oral ou por contaminação por meio de toalha, roupa íntima, vaso sanitário ou banheira, por exemplo.
    Em relação ao comportamento sexual dos brasileiros, as mulheres aparecem como mais cuidadosas: 47,3% delas responderam usar sempre camisinha com parceiros eventuais; 35% dos homens afirmaram usar preservativo.
    Esse estudo é considerado o de maior porte realizado pelo governo federal nessa área da saúde. A pesquisa conclui ainda que a chance de desenvolver as doenças sexuais é maior em pessoas com menos de 20 anos.
    Os jovens e adolescentes formam o grupo que menos se relaciona com parceiros fixos, uma das razões de estarem vulneráveis às DSTs. Outros fatores que contribuem para o aumento do risco são o não uso do preservativo, coito anal e as drogas injetáveis.
    A pesquisa foi realizada em Manaus, Fortaleza, Goiânia, no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Valdir afirmou que as regiões escolhidas apresentam características socioeconômicas e demográficas diferentes.

    — Mas os resultados demonstraram que não há diferença de percentuais das doenças.
    O índice de grávidas infectadas por essa doença sexual em regiões como Norte e Nordeste é igual ao do Sudeste — disse o coordenador do programa.

    25/08/2008 - 19:37h Gordos famintos

    gordos hambrientos

    Civilización & Barbarie de Cristina Civale

    Cuando investigaba uno de los capítulos de mi libro sobre el abuso infantil, me topé con una contradicción flagrante que sucedía en el East Harlem, en plena New York, el barrio habitado por latinos y negros.

    Allí el 60 por ciento de la población infantil sufría de obesidad pero esa misma población también padecía hambre. El mismo fenómeno se reproduce en otras megalópolis, desde San Pablo a Nápoles, desde Nueva Delhi a Tijuana. Las franjas más pobres de la población sólo pueden consumir, mayoritariamente, comida chatarra y aún así hasta cierto día del mes. Luego del 20, cuando se acaba el efectivo, empieza el hambre. Así se van formando las nuevas generaciones en el reparto de la comida: generaciones pobladas de gordos hambrientos.

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    Acaba de publicarse en España a través de Ediciones del Lince, Obesos y famélicos: El impacto de la globalización en el sistema alimentario mundial (Stuffed and Starved: the Hidden Battle for the World Food System), una obra que ya araña los primeros puestos en el ranking del New York Times.

    Su autor es el inglés Raj Patel, tiene 36 años y vive en San Francisco.

    Con una pluma desaforada y una tenacidad de militante, este graduado en Matemáticas, Filosofía, Política y Economía por Oxford y doctor en Sociología del Desarrollo por la prestigiosa Universidad de Cornell, narra con ímpetu y datos bien concretos (más de 100 páginas están dedicadas a las fuentes en las que basa sus afirmaciones) por qué sucede esta aberración en nuestra aldea global. No se queda en la descripción del fenómeno, también aporta las soluciones para que la comida alcance para todos, la buena comida, la que evita tanto la obesidad como el hambre, muchas veces habitantes de un mismo cuerpo.

    Aquí la introducción de Stuffed and starved.

    Una contradicción muy gorda

    La humanidad produce actualmente más alimentos que en toda su historia, y sin embargo una cifra superior al diez por ciento de la población padece hambre. El hambre de esos 800 millones de personas ocurre al mismo tiempo que otro récord histórico: mil millones de seres humanos sufren hoy en día sobrepeso.

    El hambre y el sobrepeso globales son síntomas de un mismo problema. Es más, el camino que podría conducirnos a erradicar el hambre del mundo serviría de paso para prevenir las epidemias globales de diabetes y afecciones cardíacas, y para hacer frente a un montón de males medioambientales y sociales. Los obesos y los famélicos están vinculados entre sí por las cadenas de producción que llevan los alimentos desde el campo hasta nuestra mesa. Guiadas por su obsesión por los beneficios, las grandes corporaciones que nos venden comida delimitan y constriñen nuestra forma de comer y nuestra manera de pensar sobre la comida. En los puntos de venta de la comida rápida es donde con mayor claridad se ven las actuales limitaciones, pues allí apenas podemos elegir entre el McNugget y el McMuffin. Pero aun cuando creemos encontrarnos lejos del ámbito de Ronald McDonald también hay limitaciones ocultas y sistémicas.

    Incluso cuando queremos comprar algo sano, algo que nos mantenga alejados del médico, estamos atrapados por el propio sistema que ha creado las “Fast Food Nations” [Países de Comida Rápida, en alusión al libro homónimo de Eric Schlosser].

    Intente, por ejemplo, comprar manzanas. En los supermercados de Norteamérica y de Europa, las elecciones están restringidas a media docena de variedades: Fuji, Braeburn, Granny Smith, Golden Delicious y quizá un par más. ¿Por qué éstas? Porque son atractivas: nos gusta su piel lustrada e inmaculada, y tienen un sabor que, para la mayoría del público, es inobjetable; pero también porque soportan ser transportadas a través de largas distancias y su piel no se daña si son sacudidas en el trayecto desde el huerto hasta la góndola; además, toleran las técnicas de lustrado y los compuestos que permiten el transporte y que las mantienen atractivas en los estantes, son fáciles de cosechar y responden bien a los pesticidas y a la producción industrial. Éstas son las razones por las cuales nunca encontraremos manzanas Calville Blanc, Black Oxford, Zabergau Reinette, Kandil Sinap o las antiguas y venerables Rambo en los estantes. No somos nosotros los que elegimos por nuestra cuenta porque, ni siquiera en el súper, no elaboramos nuestro menú a partir de lo que nosotros elegimos, o de la estación o el país en que nos encontramos, ni por la amplísima variedad de manzanas existente, ni por la amplísima gama de alimentos y sabores existentes, sino sometiéndonos al poder de las empresas de la alimentación.

    Los intereses de las empresas que producen alimentos tienen ramificaciones que van mucho más allá de lo que nos ofrecen los estantes del súper. Son esos intereses lo que huele a podrido en el corazón mismo del sistema alimentario actual. Demostrar que la habilidad sistémica de unos pocos afecta a la salud de la mayoría requiere una investigación global que implica viajar desde los “desiertos verdes” de Brasil hasta la arquitectura de la ciudad contemporánea, y moverse a través de la historia desde la época de los primeros cultivos hasta la batalla de Seattle. Es una pesquisa que descubre las verdaderas causas de las hambrunas en Asia y en África, por qué hay una epidemia mundial de suicidios entre los agricultores, por qué ya no sabemos qué contiene nuestra comida, por qué en Estados Unidos los afroamericanos presentan mayor tendencia al sobrepeso que los norteamericanos blancos, por qué hay vaqueros en el sur de Los Ángeles y cómo el movimiento social más grande del mundo está descubriendo maneras, a mayor o menor escala, de que pensemos y vivamos de un modo distinto respecto a la comida.

    La forma de comer alternativa a como lo hacemos actualmente promete solucionar el tema del hambre y las enfermedades relacionadas con la dieta mediante una manera de nutrirnos y de cultivar alimentos ecológicamente sostenible y socialmente justa.

    Entender qué problemas plantea el modo en que se cultivan los alimentos y cómo se ingieren también ofrece la clave para una mayor libertad y un camino para recuperar el placer de comer. Tan urgente es la tarea como enorme el premio.

    En todos los países, las contradicciones entre la obesidad, el hambre, la pobreza y la riqueza se están agudizando cada vez más. Por ejemplo, la India ha destruido millones de toneladas de cereales permitiendo que se pudran en silos mientras que la calidad de los alimentos que comen los indios pobres es la peor desde la independencia, en 1947. En el año 1992, en los mismos pueblos y aldeas donde la malnutrición había comenzado a atacar a las familias más pobres, el gobierno indio permitió que se colaran en su sistema económico, hasta entonces muy protegido, los fabricantes de refrescos extranjeros y multinacionales de la alimentación. En el plazo de una década, la India ha logrado la mayor concentración de diabéticos del mundo: personas -muy a menudo niños- cuyos cuerpos se han quebrado bajo el peso del consumo excesivo de alimentos inadecuados.

    La India no es el único país que padece estos contrastes. Son globales, y están presentes incluso en el país más rico del mundo. En 2005, en Estados Unidos 35,1 millones de personas no sabían si iban a poder pagarse la siguiente comida. Y esto coincide con el momento en que hay en Estados Unidos más comida que nunca en su historia, y también mayor número de personas aquejadas por dolencias relacionadas con la alimentación.

    Resulta fácil acostumbrarse a esta contradicción; su versión cotidiana sólo provoca una desazón pasajera cuando, de camino a los supermercados llenos de comida a reventar, nos cruzamos con carteles que nos hablan de gente “hambrienta” y “sin techo”. Hay excusas morales que sirven para calmar a una conciencia atormentada: los pobres tienen hambre porque son perezosos, o los ricos son gordos porque comen alimentos que engordan. Esta clase de sabiduría popular es muy antigua. De alguna forma, todas las culturas han comprendido que nuestros cuerpos son libros contables donde queda registrado el catálogo de nuestros vicios privados. Sin embargo, las frases inculpatorias no nos sirven para comprender las razones por las cuales hemos llegado a una situación inédita en la que hambre, abundancia y obesidad son más compatibles que en toda nuestra historia.

    La condena moral sólo funcionaría si los afectados hubiesen podido hacer las cosas de forma diferente, si hubiesen tenido opciones. La prevalencia del hambre y de la obesidad afecta a la gente con demasiada regularidad y en demasiados lugares distintos como para que sean consecuencia de algún defecto personal. En parte, nuestro juicio yerra de forma tan notable debido a que todavía interpretamos los cuerpos a la manera antiintroducción gua, sin darnos cuenta de que los tiempos han cambiado. Aunque en algún momento fuese cierta, la suposición de que tener sobrepeso es ser rico ya no es válida: la obesidad no puede explicarse exclusivamente como la maldición de la opulencia individual. Hay rasgos sistémicos que marcan la diferencia. Por ejemplo en México, un país en desarrollo con unos ingresos medios de 6.000 dólares anuales, hay más adolescentes gordos que nunca, aunque el número de mexicanos pobres aumenta. La riqueza individual no explica por qué los hijos de algunas familias son más obesos que otros: el factor crucial no son los ingresos, sino la proximidad con la frontera de Estados Unidos. Cuanto más cerca viva una familia mexicana de sus vecinos del norte y de sus hábitos de comida procesada rica en grasas y en azúcar, más sobrepeso sufrirán los niños de esa familia. Que la geografía tenga tanta importancia desmiente la idea de que la elección personal es la clave para prevenir la obesidad o, del mismo modo, prevenir el hambre. Y sirve para retomar el lamento de Porfirio Díaz, el dictador de México a finales del siglo XIX: “¡Pobre México! Tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos”.

    Uno de los efectos perversos del modo en que nos llega la comida a la mesa consiste en que ahora existe la posibilidad de que padezcan obesidad personas que carecen de los medios necesarios para comprarse alimentos. Los niños que se crían mal nutridos en las favelas de São Paulo, por ejemplo, sufren mayor riesgo de obesidad cuando llegan a adultos. Sus cuerpos, afectados por la pobreza de la niñez, metabolizan y almacenan mal los alimentos, por lo que presentan mayor riesgo de retener como grasa la comida de mala calidad a la que tienen acceso. A lo largo y ancho del planeta, los pobres no pueden permitirse comer bien, y esto es cierto incluso en el país más rico del mundo: en Estados Unidos son los niños quienes sufren las consecuencias. Un equipo de investigación indicó recientemente que, si persisten los actuales modelos de consumo, los niños norteamericanos de hoy vivirán cinco años menos, debido a las enfermedades relacionadas con la dieta a las que estarán expuestas en el transcurso de sus vidas.

    En cuanto consumidores, se nos incita a pensar que un sistema económico basado en la elección individual nos salvará de los males comunes del hambre y la obesidad. Sin embargo, es precisamente la “libertad de elección” la que ha incubado estos males. Aquellos que pueden dirigirse al súper se quedan pasmados ante la posibilidad de escoger entre cincuenta marcas de cereales azucarados, media docena de tipos de leche que sabe a tiza, estantes de panes tan saturados de productos químicos que nunca se pudrirán y estantes repletos de productos cuyo ingrediente principal es el azúcar. Por ejemplo, los niños británicos tienen la posibilidad de escoger entre veintiocho marcas de cereales para el desayuno cuyo marketing está dirigido directamente a ellos. El contenido de azúcar de veintisiete de éstos excede las recomendaciones del gobierno. Nueve cereales para niños tienen un contenido de azúcar del 40 por ciento. Así pues, no es para nada sorprendente que en Reino Unido el 8,5 por ciento de los niños de seis años y más de uno de cada diez chicos de quince años sean obesos. Y los niveles están aumentando. El ejemplo de los cereales para el desayuno es un signo de un rasgo sistémico más amplio: las corporaciones que producen alimentos tienen todos los incentivos para vender comida sometida a un procesamiento que la hace más rentable, aunque menos nutritiva. Por cierto, esto también explica por qué hay a la venta muchas más variedades de cereales para el desayuno que de manzanas.

    Nuestras opciones tienen límites naturales. Por ejemplo, la gente está dispuesta a comer un número limitado de frutas, hortalizas y animales disponibles en la naturaleza. Pero incluso en este caso, un poco de publicidad nos puede persuadir a expandir el alcance de nuestras opciones. Pensemos en el kiwi, que hace mucho era conocido como la grosella china: para adecuarse a los prejuicios de la guerra fría la empresa de Nueva Zelanda que lo lanzó al mercado a finales de los años cincuenta le cambió el nombre. Era un sabor con el que nadie se había criado, aunque ahora parece que siempre haya existido. Y mientras agregan lentamente nuevos alimentos naturales a nuestros menús, la industria alimentaria suma todos los años decenas de miles de nuevos productos a los expositores, algunos de los cuales se convierten en elementos indispensables hasta tal punto que, después de una generación, no se puede pensar en vivir sin ellos. Esto es un signo de cuán limitada puede ser nuestra imaginación gastronómica, y también de que no estamos totalmente seguros de cómo, de dónde o por qué ciertos alimentos llegan a nuestra mesa.

    ©Raj Patel y Libros del Lince
    Publicado por Cristina Civale

    09/08/2008 - 18:44h A tragédia argentina vista por um adolescente

    Com História do Pranto, Alan Pauls faz seu exercício estilístico mais radical, cruzando o íntimo e o político numa só dimensão

    Antonio Gonçalves Filho – O Estado de São Paulo

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    Mais Nietzsche do que Schopenhauer. A teoria do escritor argentino Alan Pauls sobre o problema da dor aponta para o primeiro filósofo não tanto por identificação com os ideais pagãos de uma Europa pré-cristã, que fizeram da filosofia de Nietzsche um manual de sobrevivência na selva das cidades. A uma certa altura de seu novo livro, A História do Pranto, Pauls diz que a dor que o protagonista sente “é sua educação e sua fé”. A dor, continua o autor, “o torna crente”. Como em Nietzsche, ela obriga o sofredor a se tornar mais forte. E, no caso, o sofredor é um adolescente de 13 anos, filho de pais divorciados, que acompanha a tragédia política da América Latina nos anos 1970, tentando inutilmente derramar uma lágrima pelas vítimas de ditaduras.

    Dito assim, o livro de Alan Pauls pode parecer uma novela política lacrimosa. Não é lacrimosa e nem mesmo uma novela. A despeito de sugerir um gênero, ao incorporar o subtítulo Um Testemunho à História do Pranto, o talentoso autor de O Passado guia seus leitores por uma trilha enganosa, recheando esse “testemunho” de aforismos, à maneira de Nietzsche, e criando com esses o desejo de interpretar, não de conhecer, a história desse adolescente introspectivo e fixado na imagem do Super-Homem – outra pista que conduz o leitor à estrada principal, ou seja, ao sentido moral da crítica de Nietzsche à metafísica. Nada de platonismo pós-moderno. Pauls dá nome às ditaduras e faz da memória do menino sem nome um registro da história tenebrosa de uma Argentina afogada em sangue.

    É bem verdade que o elogio do Super-Homem e a teoria da vontade de potência de Nietzsche acabaram servindo ao nacional-socialismo alemão – não por sua culpa, evidentemente, ele que considerava o nacionalismo uma neurose. Porém, no caso da admiração que o adolescente de Pauls sente pelo Super-Homem dos quadrinhos, trata-se inversamente de investigar a posição de fragilidade, de vulnerabilidade desse ser, acossado por um dilema moral e desgarrado da comunidade que pretende proteger. Mais uma vez recorrendo – deliberadamente ou não – a Nietzsche, Pauls adota uma narrativa marcada pelo tempo cíclico e pela alternância entre criação e destruição. Quando o leitor pensa que localizou no adolescente traços autobiográficos do autor, plasmado no narrador, ele desaparece como desapareceram milhares de crianças durante a ditadura argentina.

    Críticos ciosos de uma revisão política do período ou de um ensaio antropológico sobre o modelo neoliberal que engendrou seres incapazes de se emocionar, como o garoto de Alan Pauls, vão se decepcionar com História do Pranto, mas não o leitor que anda atrás de um autor capaz de renovar a linguagem literária com uma escritura mais digressiva que a do chileno Bolaño, para citar um nome caro ao argentino.

    As palavras surgem em cascata na narrativa desse garoto prodígio “que considera as lágrimas uma espécie de moeda, um instrumento de troca com o qual compra ou paga coisas”, um desses monstros que assombram as platéias de televisão respondendo a perguntas impossíveis em programas de auditório. Isso explica a sintaxe ornamental e a sofisticação barthesiana de Pauls, às voltas com a consciência de si, que se desdobra no outro e rememora a história coletiva por meio de lembranças pessoais. Esse exercício proustiano, intimista, que se choca com a tumultuada história argentina, é menos uma biografia – ou autobiografia – que um projeto mais ambicioso de atar numa única história todos os seus títulos anteriores (especialmente O Passado), a história da nostalgia da tragédia que têm os argentinos e deu origem ao tango.

    O adolescente de História do Pranto não consegue evitar a lembrança da cena que comoveu seu pai até as lágrimas, a do show “mítico” de um cantor de protesto que reencontra os fãs após seis anos de exílio, chamado ironicamente de “Bondade Humana” pelo autor dessas memórias que a ninguém e a todos pertencem. Em outra ocasião, mais histórica, a da derrubada de Allende, vista pela TV, o protagonista tenta até chorar, ao ver seu amigo revolucionário desabar diante da invasão do Palácio de La Moneda pelos brucutus do general Pinochet, em 1973. Tempo perdido: não consegue verter uma só lágrima.

    Numa entrevista, Pauls argumentou que, na origem do livro, está esse desejo de fundir o político e o íntimo num único registro em que ambas dimensões sejam indistinguíveis. Encontrou a saída nas memórias de um adolescente, um ser ainda em formação, um arauto além do bem e do mal que anuncia a urgência de ultrapassar os valores argentinos, dos quais o choro parece o mais evidente.

    09/08/2008 - 15:38h O ‘jeitinho’ chegou à grande rede

    Daniel Pinheiro – Carta Capital

    A imagem “http://www.cartacapital.com.br/uploads/destaques/1218221010350.jpg” contém erros e não pode ser exibida. Durante a apuração da reportagem O Brasil cai na rede, publicada na edição 508 e que tenta explicar os impactos sociais e econômicos produzidos por metade da populção brasileira a navegar na internet, CartaCapital ouviu uma série de especialistas em diversas áreas relacionadas à grande rede.

    Alguns desses especialistas deram pistas sobre um fenômeno interessante e bastante particular: a existência de um possível “jeito brasileiro” de se navegar pela web.

    Marcelo Coutinho, diretor de análise de mercado do Ibope Inteligência, foi talvez a fonte mais enfática ao indicar uma apropriação e transformação das tecnologias disponíveis na rede por parte dos internautas brasileiros.

    Para Coutinho, um estudioso das relações de interatividade entre usuários de ferramentas da chamada Web 2.0 –blogs, redes sociais, sites colaborativos, entre outros–, esse “jeito brasileiro” pode colocar o Brasil em uma posição de vanguarda em alguns aspectos da rede.

    Em entrevista concedida à CartaCapital, que transcorreu em clima de conversa descontraída, Coutinho tenta explicar melhor o que significa esse fenômeno da presença maciça do brasileiro na internet.

    (mais…)

    26/06/2008 - 19:26h Brasil caipira

    Zuenir Ventura – O Globo

    zuenir.jpgQuando a gente viaja por algumas regiões, como tenho feito, nota que um novo “mapa” do Brasil está sendo redesenhado.

    Ele é chamado de “Brasil rural”, “sertanejo” ou, com um certo desprezo preconceituoso, de “Brasil caipira”. A economia já é capaz de mostrá-lo com números e dados, e um jornal estrangeiro disse que ele está trocando nossos estereótipos: “O país do carnaval, do samba, do futebol, do café e da caipirinha já tem outro símbolo por bandeira: a cana-de-açúcar.” Só falta um daqueles mergulhos do repórter José Casado e uma das sacações de Roberto DaMatta para revelar o que uma crônica impressionista como esta não consegue: as dimensões antropológicas e culturais do fenômeno.

    Esse mundo do “interior” (o “centro” somos nós, claro) não tem nada a ver com os hábitos da época de jeca-tatu e nem com a proposta hippie de volta nostálgica (“quero uma casa no campo”). Ele está conectado com a cidade, dispõe de uma oferta cultural variada e pratica um consumo eclético. Há uma elite que acessa a internet, vê filmes em DVD, compra livros e freqüenta restaurantes sofisticados.

    Numa noite ouvi em Ribeirão Preto a multidão na praça cantando orgulhosa “Romaria”, com Renato Teixeira (“Sou caipira, pirapora”), e dois dias depois, em Goiânia, assisti a um show de Bossa Nova num teatro de 800 lugares, superlotado. Miele, Leni Andrade, Fernanda Takai, Toquinho, quase não precisaram cantar. O público fazia por eles, inclusive quando eram 74 versos, como em “Aquarela” (“Numa folha qualquer/eu desenho um sol amarelo”).

    Ver o teatro inteiro entoar a música, e Toquinho, o autor com Vinícius, acompanhar apenas com gestos, foi um espetáculo à parte. As pessoas riam das histórias de Miele sobre Bossa Nova com a intimidade de quem morasse em Ipanema ou Leblon.

    No dia seguinte, lendo num jornal local que “a carne brasileira alimentará o mundo”, aprendi que as nossas exportações de “proteína vermelha” para 150 países saltaram em dez anos de 370 mil toneladas para 1,5 milhão. Almoçando com jovens professores, pude discutir questões da atualidade artística e cultural. O nosso etnocentrismo metido a besta se surpreende com isso, e às vezes tem vontade de dizer “que pena”, quando a menina linda de minissaia, parecendo saída de uma novela urbana da Globo, pronuncia “voilrta” e “poirlta”.

    De noite, falei num auditório de mil lugares para alunos do Colégio Visão. Mais de duas horas não foram suficientes para atender à curiosidade insaciável daqueles adolescentes que queriam saber tudo sobre 1968, o país, a juventude, o jornalismo, a nova ordem mundial e, acreditem, a política.

    Não sei no que vai dar esse novo ciclo do açúcar e da carne, mas vale a pena desviar um pouco o olhar do Sul-Maravilha e prestar atenção no “Brasil caipira”. Há vida inteligente, além de rica, fora do eixo Rio-São Paulo.

    19/05/2008 - 20:32h Primeira-dama lança congresso contra exploração infantil

    Flávio Tabak – O Globo

    RIO – A primeira-dama, Dona Marisa Letícia Lula da Silva, participou, na manhã desta segunda-feira, do lançamento do III Congresso Mundial de Enfrentamento à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, no Rio. Como presidente de honra do Congresso, Dona Marisa apenas assistiu aos discursos do ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência. Paulo Vannuchi, do governador do Rio em exercício, Luiz Fernando Pezão, e da secretária estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, Benedita da Silva, além de representantes de ONGs e da Unicef.Depois da cerimônia, numa rápida entrevista coletiva – a primeira numa cerimônia oficial desde a primeira posse do presidente Lula – Dona Marisa disse por que aceitou o convite :

    - Estou dando o maior apoio, também estão juntos os governos federal e estadual, além dos ministros. Vamos participar juntos, queremos melhorar a situação da criança e do adolescente no Brasil.

    Discurso de Benedita, vítima na infância, emociona Dona Marisa

    O discurso de Benedita emocionou a primeira-dama. A secretária disse, chorando, que sofreu violência sexual quando tinha sete anos de idade.

    - Conheço essa história porque sou parte dela. Vivenciei a mesma situação, o sentimento se repete – afirmou Benedita, que já contou o episódio em sua autobiografia.

    A primeira-dama ficou com os olhos cheios de lágrimas ao ouvir o relato da ex-governadora.

    A subsecretária de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, Carmen Oliveira, anunciou durante a cerimônia a criação de uma página na internet, em parceria com a Polícia Federal e a Interpol, para receber denúncias de abuso sexual:

    - Vai ser um site específico que receberá denúncias. Teremos em três meses um sistema de rastreamento que nos permitirá acionar mais rapidamente a Polícia Federal

    O congresso ocorrerá entre os dias 25 e 28 de novembro no Rio e deve reunir cerca de três mil pessoas.

    A primeira-dama, Dona Marisa Letícia, concede entrevista coletiva, a primeira, após participar do lançamento do II Congresso Mundial de Enfretamento á Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, no Palácio Guanabara, no Rio – Hipólito Pereira/O Globo