04/10/2009 - 11:58h ”Lula vai deixar o BC segurar a inflação”

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Fernando Dantas – O Estado SP


Recuperando-se de uma cirurgia de coluna, mas já mergulhado nos números da economia brasileira, o economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC), dá um voto de confiança ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Para Pastore, Lula é pragmático, sabe que a inflação prejudica a sua popularidade e não vai impedir o BC de fazer o seu trabalho, mesmo num ano eleitoral. “Estou assumindo que o governo tenha responsabilidade.” O economista se alinha ao mercado ao prever que o surpreendente ritmo de reaquecimento da economia brasileira deve levar o BC a aumentar a Selic, a taxa básica de juros, em 2010. Pastore observa também que, como o impulso fiscal do governo que ajudou a tirar o País da crise foi realizado em grande parte com despesas permanentes, como salários e aposentadorias, não há como ajudar o BC agora, reduzindo aqueles gastos. A seguir, a entrevista:

Por que o Brasil está saindo tão rápido da crise?

A crise pegou o Brasil pela indústria. Teve uma queda um pouco menor na agricultura, mas a queda grande foi na produção industrial. No setor dos serviços, não caiu praticamente nada. Esse quadro é corroborado pelo emprego, que caiu na indústria, na agricultura, mas praticamente não caiu no setor de serviços. O grande setor da economia brasileira é o de serviços, empregando quatro vezes mais do que a indústria. Isso explica por que a recessão fez subir o desemprego no mundo inteiro, mas praticamente não fez subir o desemprego no Brasil.

E por que foi desse jeito?

Pode ter várias explicações, mas uma que ficou clara é que nós fomos pegos pelo lado dos “tradables” (produtos comercializáveis internacionalmente). A indústria é um setor muito aberto em relação ao comércio internacional, a exportação de manufaturas é mais ou menos 50% do PIB da indústria. Quando a crise jogou para baixo as exportações, jogou para baixo a produção industrial. Mas não jogou para baixo, por exemplo, setores de serviços como o setor bancário, que estava sólido, o comércio varejista, que foi rapidamente ajudado com medidas de isenção fiscal, ou as telecomunicações.

Qual o papel da política econômica em preservar o Brasil dos piores efeitos da crise?

A primeira reação que tinha de ter e teve foi a baixa agressiva de taxa de juros. O Banco Central teve de trazê-la a um nível mínimo histórico, abaixo da taxa de juros neutra. A segunda reação foi a política fiscal, em parte deliberada em reação à crise, como a isenção de impostos para automóveis, geladeiras e material de construção. Outra parte teve efeitos contracíclicos, mas já havia sido tomada antes, como aumentar salário de funcionários, benefícios da Previdência, Bolsa-Família, etc. Essas transferências, no fundo, são renda real que o governo está distribuindo a camadas da sociedade. Não é o único fator, mas explica um bom pedaço do movimento da recuperação da produção industrial de bens de consumo.

Então acabaram sendo corretos esses aumentos?

Esses são aumentos permanentes dos gastos públicos, que tiveram o lado benéfico de criar consumo e estão ajudando a sair rapidamente da crise. Mas tem outro lado: como esses aumentos de salário, de benefícios, são permanentes, você não consegue fazer uma redução gradual disso. E, assim, gera-se um episódio de aceleração da recuperação da atividade, que se soma ao estímulo que vem da política monetária.

E quais as implicações disso?

Eu mencionei que o setor de serviços está mais próximo do pleno emprego. Se você olhar para a indústria, há um hiato do produto (diferença entre o produto potencial e a produção atual) ainda muito grande. Mas, quando se olha para o PIB como um todo, no qual o setor de serviços é maior que o industrial, o hiato fica um pouco menor. Se ele é um pouco menor, isso significa que ele vai fechar um pouco mais depressa. E o risco é de que se tenha de começar o ajuste de taxa de juros antes do que o mercado julgava há três ou quatro semanas. Antes de alguns dados que saíram e mostram a velocidade com a qual a economia vem se recuperando, como o PIB do segundo trimestre e a produção industrial.

Quando deve haver o fechamento do hiato?

Há muita controvérsia, com algumas instituições prevendo já para o fim do primeiro trimestre de 2010, e outra para mais adiante. Na minha visão, independentemente da posição de cada um hoje, todos estão reconhecendo que o fechamento está um pouco mais rápido do que achavam que seria há alguns meses. O mercado está hoje avaliando como uma possibilidade mais alta que a Selic tenha de subir no começo do ano que vem. Em algum ponto do primeiro trimestre.

De quanto precisará ser a alta da Selic?

Se olhar a curva de juros, o mercado está colocando um ciclo total de 400 pontos, 450 pontos de subida de taxa de juros. Aí tem uma segunda controvérsia. Precisa tudo isso? Vai para mais de 12% a taxa de juros de novo, saindo de 8,75%? Ou vai se resolver com menos? É aí entra uma questão simples: se pudesse tirar um pedaço do estímulo fiscal, esse ajuste seria feito com taxa de juros menor. Acontece que estímulos fiscais contracíclicos, para que se possa tirá-los, têm de ser transitórios. No momento em que você não precisa mais deles, você tira. Esse estímulo fiscal tem um pedaço transitório, pequeno, que é a desoneração tributária. Mas tem a faceta permanente, do aumento das transferências. É um aumento dos gastos que você só resolveria se a inflação fosse maior para erodir o salário real dos funcionários. Porque ninguém vai politicamente chegar e baixar salário, não é? Essa componente é grande e permanente, não tem como tirar. Se não sai, se tiver de fazer o ajuste, será feito inteiro em cima de taxa de juros.

O que não é a situação ideal…

Certamente, não. Ela pode ser positiva para quem olha política de distribuição de renda, ou para quem olha o benefício eleitoral que deriva de uma estratégia como essa. Mas não é positiva como política econômica ótima, porque implica uma taxa de juro maior.

E a expansão de crédito pelos bancos públicos, não é um estímulo que poderia ser controlado?

No meu modelo, coloco o crédito e a parte fiscal juntos, como explicativos de um pedaço da recuperação dos bens de consumo. Quando se olha o crédito, os bancos privados não estão aumentando, a não ser algo em crédito ao consumo. O grosso do aumento de crédito está nos bancos oficiais. Nisso, o governo poderia voltar atrás. Se ele quiser reduzir a taxa de expansão de crédito para o setor privado, ele abre espaço para a taxa de juros ficar mais baixa. Mas não me parece que é essa a determinação do governo. Me parece que a determinação é a de continuar a expansão de crédito dos bancos oficiais.

Quanto o Brasil pode crescer sem risco inflacionário?

Depende de crescimento de produto potencial. Com a taxa de investimento ainda baixa, acho que o produto potencial vai crescer, no máximo, 4,5%. Se estamos indo para 5% de crescimento, isso apressa o fechamento do hiato do produto.

E quanto o sr. acha que o Brasil vai, de fato, crescer em 2010?

Eu já estive no 4,5%, já passei para o 4,7%. Acho que é possivelmente entre 4,5% e 5%. Tem gente com mais do que isso no mercado. Tem gente com 6%. Depende do governo. Se o governo não fizer nada, vai dar 6%. É que eu sou um otimista inveterado, e acho que o governo vai tomar cuidado, não vai deixar ir para 6%. Enfim, cada previsão dessas depende do que pensamos sobre a reação do governo. O cara que acha que cresce 6% acha que o governo vai deixar o pau comer solto e não vai fazer nada. Não acho que o governo vai deixar o pau comer solto. Ele vai ser mais comedido, se precisar subir o juro vai subir o que tiver de subir. Se der para dar uma acertada, dentro do limite do possível, na política fiscal, vai dar. E aí vai ficar com o crescimento mais na faixa do 4,5% a 5%. Estou assumindo que o governo tenha responsabilidade. E que não está olhando só para a eleição.

O que o sr. pensa da possível saída do Henrique Meirelles do BC?

O Meirelles vai decidir a vida dele, e tem todo o direito de fazer o que ele quiser – isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que, se o Brasil estiver crescendo 5%, e se tiver de subir taxa de juros, acho que o dano é muito pequeno. Raciocine um pouco com a cabeça de um homem pragmático que se chama Luiz Inácio Lula da Silva, que viveu a vida inteira como sindicalista, antes de ser presidente e político, e sabe que o custo da inflação é tirar a popularidade de qualquer governo. E que sabe também que, se você tiver desemprego aberto, a sua popularidade vai embora. Um crescimento de 4,5% ou de 5% não vai gerar desemprego. Mas, se gerar inflação, tem o custo. Se o governo elevar os juros caso tenha de fazê-lo, a Fiesp pode gritar, alguns empresários podem ficar irritados, achando que estão destruindo o País, mas o Brasil estará melhor, com uma inflação contida e com o crescimento mais próximo do PIB potencial. Acho que, no plano do puro pragmatismo, o BC estaria tão livre para subir taxa de juros como jamais foi.

Preocupa a flexibilização da meta de superávit primário de 3,3% em 2010?

Em primeiro lugar, a meta não é 3,3%. É 3,3% menos o Fundo Soberano, menos o PAC, menos isso, menos aquilo. A dinâmica da dívida pública não responde a essa definição do 3,3% menos o Fundo Soberano, etc. Porque o Fundo Soberano do qual se deduz o superávit é gasto que aumenta a dívida. O dinheiro que está se transferindo para o BNDES, para comprar empresas no exterior, está aumentando a dívida. O que se está deduzindo com o PAC – e não quero dizer que o PAC não seja uma coisa boa – está aumentando a dívida. Se a política fiscal é mais expansionista, se vão trabalhar com uma taxa real de juros mais alta, vai haver a necessidade de um superávit primário um pouco maior. Quer dizer, é preciso prestar atenção e se adaptar, e acho que possivelmente o governo está prestando atenção.

Pode haver consequências negativas da redução do superávit?

O temor de não sustentabilidade da dívida pública, que existia no começo do governo Lula, caiu a um mínimo. Isso ocorre em parte porque o Brasil está crescendo. Se o País crescer pouco, cresce 4,5%. Com isso, dá para ter até um superávit de 1,6% do PIB que estabiliza a relação dívida/PIB. Não há risco de o mercado achar que o Brasil vai entrar em “default”, fazendo um superávit primário menor. Esse risco desapareceu, o Brasil virou grau de investimento. Não é essa a discussão que interessa, mas sim se estamos fazendo o uso adequado das políticas monetária e fiscal para determinar o melhor balanço de crescimento do ponto de vista do impulso que você gera para o setor privado poder investir, ou do impulso que gera para o setor governamental crescer.

Como o sr. vê as contas externas?

O déficit na conta corrente este ano é muito pequeno, mas vai crescer bem no próximo. O BC, depois de hesitar muito, nesse último relatório de inflação já projeta um déficit na conta corrente para o ano que vem de 1,8% do PIB. Não é enorme, é financiável, porque você pode ter e deve ter fluxos de capital para financiar um déficit desse tamanho. Em primeiro lugar, o Brasil vai crescer mais do que o resto do mundo. Se ficar no intervalo mais baixo das projeções, temos de 4,5% a 5% em 2010 – é mais que os Estados Unidos, é mais que a Europa, é mais do que qualquer país latino-americano. O Brasil mudou muito a sua corrente de comércio, estamos muito mais integrados na Ásia, e a Ásia está crescendo muito mais depressa do que os Estados Unidos e as Américas. Quando se tem isso e um mercado interno deste tamanho, com sistema bancário sólido, com condições macroeconômicas estáveis, você atrai investimento estrangeiro direto, atrai portfólio de bolsa, tem fluxos de capitais que financiam facilmente o déficit em conta corrente de 1,8%. Agora, para que esse dinheiro entre, o mercado tem de perceber que esse é um crescimento sustentável, que não há nada artificial aqui dentro.

O que o sr. quer dizer com isso?

Suponha que nós podemos crescer 4,5% a 5%, mas o governo resolve crescer 6% para tentar ganhar uma eleição. Para crescer 6%, começa a exagerar no gasto público e – isto é puramente hipotético – põe o BC numa camisa de força, na qual ele é impedido de subir a taxa de juros, e deixa a inflação crescer temporariamente. Numa situação dessas, o mercado certamente perceberá que o crescimento é artificial. E o fluxo de capital não entra, e nesse caso deprecia o câmbio e tem inflação. Agora, para evitar correr o risco de deixar o crescimento ir para 6%, pode-se subir um pouco a taxa de juros, cortar um pouco o gasto público, trazer o crescimento de volta para 4,5% a 5%, evitando o custo inflacionário da depreciação cambial e financiando o déficit na conta corrente sem nenhum problema, com o câmbio de equilíbrio que tiver de ter. Nessas circunstâncias, que considero mais prováveis – porque acho que o governo vai ter juízo – penso que a tendência do câmbio é a de ficar estável, ou com uma pequena valorização. Mais para estável do que para pequena valorização.

29/08/2009 - 20:26h Um ano depois, Brasil sai da crise mundial maior do que entrou

Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise global, o otimismo com o País tornou-se consenso

Fernando Dantas, de O Estado de S. Paulo

RIO – O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.

O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estado ouviu oito grandes economistas estrangeiros e brasileiros: Rogoff; O’Neill; Barry Einchengreen, da Universidade de Berkeley; José Alexandre Scheinkman, de Princeton; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio gestor do Gávea Investimentos; Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e codiretor do Instituto de Estudo de Políticas Econômicas – Casa das Garças (Iepe/CdG); Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro – o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. “Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil”, acrescenta.

Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. “Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo ‘esse cara é bom’”, diz Goldfajn.

Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado – câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. “Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá , não tiveram crise bancária”, diz O’Neill.

A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas “por coincidência”, já que foram decididos antes da crise. “O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.”

Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. “Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido”, comenta Rogoff.

De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. “À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos”, diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.

A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.

18/06/2009 - 14:07h Pastore pede discurso mais claro a Meirelles

Apesar disso, economista elogia trabalho do BC durante a crise

Ricardo Leopoldo – O Estado SP

O ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore disse que o atual presidente da autoridade monetária, Henrique Meirelles, precisa ser um pouco mais consistente na comunicação, a fim de coordenar de forma eficiente as expectativas de mercado, especialmente as relacionadas às decisões de política monetária.

“Ele (Meirelles) tem de vir a público e deixar muito claro que está defendendo certos pontos de vista que ajudam o mercado a entender a sinalização. Se há um erro que o presidente do Banco Central está cometendo, é esse. As outras ações são todas acertadas”, comentou Pastore, em entrevista concedida ontem à Agência Estado.

Segundo Pastore, as pressões políticas emanadas de setores do governo para que os juros baixem com maior vigor fazem com que Meirelles se comunique com dois públicos: um deles é o mercado e o outro é composto por integrantes do governo que desejam uma política monetária mais flexível.

Na avaliação de Pastore, foi correta e adotada por critérios técnicos a decisão da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar os juros em 1 ponto porcentual, para 9,25% ao ano. A ata do encontro do BC, que será divulgada hoje, na expectativa dele, não mostrará nenhum otimismo com a recuperação da economia.

Pastore defende que o BC explique que “o hiato do produto está grande, que essa é uma força desinflacionária e que o investimento está baixo, o que freia a demanda”. O ex-presidente do Banco Central acredita que, como a inflação está sob controle, há espaço para os juros caírem pelo menos mais 0,50 ponto na próxima reunião, prevista para julho.

Ele prevê que o PIB deve registrar uma retração de 0,5% a 1% neste ano, mas voltará a crescer no quarto trimestre de 2009 a uma taxa anualizada de 3,5%. Em função do baixo vigor da recuperação do nível de atividade, ele defende que o juro efetivo deve ficar abaixo do juro de equilíbrio por um bom período, talvez até um ano. Para 2010, ele espera uma expansão do PIB de 3,5%.

O ex-presidente do BC diz que respeita o excelente trabalho que a equipe de Meirelles tem feito durante a crise. “O Brasil tem de usar políticas contracíclicas, porque está enfrentando uma crise de demanda. O BC reagiu baixando a taxa de juros, reduziu os compulsórios e criou o Fundo Garantidor de Crédito.” Com isso, diz ele, o crédito está voltando gradativamente. “Se a recessão do primeiro e segundo trimestres está se encerrando, isso se deve muito, se não quase exclusivamente, às políticas contracíclicas adotadas pelo BC.”

27/05/2009 - 12:17h Os critérios para definir crescimento e recessão ficam mais precisos

Brasil já define recessão pelo critério dos EUA

Hoje, Comitê do Ibre divulga ciclos econômicos nos últimos 30 anos

Fernando Dantas, RIO – O Estado SP

O Brasil já estabelece os seus períodos de expansão e contração econômica num método semelhante ao dos Estados Unidos. A datação é considerada de melhor qualidade do que o critério de dois trimestres seguidos adotado para definir o que se chama de “recessão técnica” na maior parte dos países.

Hoje, em entrevista à imprensa no Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, será divulgada a cronologia dos ciclos de expansão e recessão da economia brasileira nos últimos 30 anos, com pontos de transição precisos, estabelecida pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), organizado pelo Ibre.

O Codace é coordenado por Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC), e tem como membros os economistas Dionísio Dias Carneiro, do Instituto de Estudos de Política Econômica (Iepe-Casa das Garças); João Victor Issler, da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da FGV-Rio; Marcelle Chauvet, da Universidade da Califórnia; Marco Bonomo, da EPGE; Paulo Picchetti, da Escola de Economia de São Paulo (EESP/FGV); e Regis Bonelli, do Ibre.

O Codace vai funcionar de forma parecida com o Comitê de Datação de Ciclo de Negócios do National Bureau of Economic Research (NBER), dos EUA. O Comitê do NBER tem a datação dos ciclos econômicos americanos desde 1854, e, no seu site, deixa claro que uma recessão não é definida como dois trimestres consecutivos de queda do PIB real, mas, sim, por “um declínio significativo na atividade econômica espalhado pela economia, durando mais do que alguns meses, normalmente visível no PIB real, na renda real, no emprego, na produção industrial e nas vendas no atacado e varejo”.

Na verdade, o método do NBER, e também o do Codace, além de utilizar todos aqueles dados, conta também com a interpretação dos conselheiros para definir os períodos de recessão e expansão.

Para Rodrigo Azevedo, ex-diretor do BC e sócio da JGP Investimentos, “essa iniciativa é importante porque uniformiza a leitura do ciclo econômico no Brasil”. Alexandre Schwartsman, economista chefe do Santander e também ex-diretor do BC, considera que a datação “é uma tremenda iniciativa, já que a definição de dois trimestres consecutivos de redução do PIB é muito superficial”.

10/05/2009 - 10:15h ”País se recupera e vai crescer em 2010”

Economista vê sinais de melhora da atividade e diz que no fim do ano o ritmo de crescimento pode ser de 3,5% a 4,5%

 

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Affonso Celso Pastore

Fernando Dantas – O Estado SP

 


Em 2010, o Brasil já terá saído da recessão e, no fim de 2009, pode apresentar um ritmo de crescimento entre 3,5% e 4,5%. A avaliação é do economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC). No momento, porém, o País já está em recessão técnica, definida como a queda por dois trimestres consecutivos do PIB – o último de 2008 e o primeiro deste ano, que ainda não foi divulgado, mas para o qual se espera desempenho negativo, em razão dos resultados já conhecidos, como a produção industrial.

Pastore admite que não consegue explicar a alta atual das bolsas mundiais, em um momento no qual a produção industrial da Europa e do Japão recuou para níveis do fim da década de 90. Mas ele indica alguns fatos que podem causar, apenas parcialmente, o otimismo: o alívio em relação a países do Leste Europeu, o pacote de saneamento dos bancos americanos e o desempenho da China.

Sua esposa, a economista Maria Cristina Pinotti, aventa outra possibilidade: a de que a super-injeção de liquidez dos bancos centrais dos países ricos, especialmente dos Estados Unidos, possa estar inflando o preço dos ativos. Mas Pastore frisa que são apenas hipóteses. Classificando os tempos de “estranhos”, ele diz, referindo-se à alta recente dos mercados: “Pode publicar aí que eu não sei explicar.”

Como o sr. vê a atual maré de otimismo?

Depende do que você está usando para medir o otimismo. Se forem as bolsas de valores, que estão num rali (movimento de alta), eu pediria para você olhar a produção industrial da zona do euro, que está hoje abaixo do nível que estava em 1998. A mesma coisa ocorre com Japão e Reino Unido. A dos Estados Unidos caiu menos. Um artigo em progresso, do Barry Eichengreen (economista americano), calcula que a queda da produção industrial mundial em 1929 e a queda agora, nos nove primeiros meses da crise, é a mesma. Não vai ser uma crise igual à que começou em 1929, porque os governos estão tomando ações. Dei o dado para mostrar que, do lado real, as economias estão muito mal.

Então por que as bolsas sobem?

Sabemos que o preço das ações têm duas componentes, a do valor fundamental e a da bolha. O valor fundamental depende da expectativa de lucro, e o resto é bolha. Com essa desaceleração na economia, a expectativa de lucro tem de ser muito baixa, e eu não tenho explicação racional para esse rally. Acho que nenhum economista de vertente neoclássica terá. Agora, tentando elaborar um pouco mais, podemos pensar na probabilidade dos chamados eventos de catástrofe. O mercado olha uma probabilidade razoavelmente alta desses eventos e reduz o preço dos ativos. Se há uma correção, se é eliminada ou reduzida a probabilidade daqueles eventos, os preços podem subir.

Isso aconteceu?

Houve algumas correções desse tipo nos últimos tempos. Na última reunião do G-20, foi tomada a decisão de colocar US$ 750 bilhões no Fundo Monetário Internacional (FMI), com o intuito precípuo de fazer políticas de ajuste econômico no Leste Europeu, o que reduziu muito a probabilidade de uma catástrofe derivada de um default (não pagamento) de algum ou alguns daqueles países. Nos Estados Unidos, antes do plano Geithner (do secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner), havia uma indefinição completa sobre como ia se resolver o problema da crise bancária. Veio o plano Geithner, que sofreu muitas críticas, respeitáveis, mas não se pode negar que o plano encaminha uma solução para o problema do sistema bancário. E há também a preocupação com a desaceleração da China, que derruba o preço das commodities. Mas, com uma série de decisões tomadas pelo governo chinês, agora se acha que dá para crescer 7%, 7,5%, mais do que os 6% que se previa antes.

Ainda assim, o sr. diz não ter explicação racional para a alta das bolsas?

Exato, tudo aquilo eu consigo entender. O que não consigo entender é quando o teste de estresse (aplicado pelo governo americano aos bancos) aponta que o Bank of America precisa de US$ 35 bilhões de capital, e na hora que isso é anunciado, o preço da ação do banco sobe 17,5%. Por que o mercado aplaude e gosta? A minha esposa Maria Cristina (Pinotti, economista e sócia de Pastore) fez uma hipótese sobre a alta do mercado que considero respeitável. Quando esta crise começou, havia o risco de ser como a de 1929, se não fosse pela reação muito forte de expansão fiscal e do Federal Reserve (Fed, banco central americano), cujo balanço triplicou de US$ 800 bilhões para US$ 2,4 trilhões, praticamente multiplicou por três.

Qual o e efeito disso?

Injetou-se liquidez dentro dos Estados Unidos, no sistema bancário, nas mãos dos fundos, de todo mundo, para empurrar a economia para cima. Ao injetar essa liquidez toda, deve se ter criado demanda por ativos. É como se, para tratar um dependente de drogas com síndrome de abstinência, se desse mais drogas. Mas não posso afirmar que seja isso que está levantando o mercado acionário. Não há provas empíricas.

Como o sr. vê a situação atual do Brasil?

O Brasil tecnicamente entrou em recessão, já que alguém inventou que tecnicamente dois trimestres consecutivos de queda do PIB caracterizam tecnicamente uma recessão. Se é isso, temos dois, o último do ano passado e o primeiro deste ano. Esse último dado ainda não foi oficialmente divulgado, mas, com a produção industrial, já se pode fazer uma estimativa preliminar, e sabe-se que o PIB teve uma contração.

Mas a economia parece já estar se recuperando.

Sim, no segundo trimestre, já começou uma lenta recuperação, e deve continuar no terceiro e no quarto trimestres do ano. Projetamos queda de 1% do PIB este ano, mas, no fim de 2009, o Brasil vai estar crescendo. Vai apontar para uma taxa positiva, mais alta, significativa, eu não sei exatamente que taxa vai ser essa, ninguém sabe, pode ser algo entre 3,5% e 4,5%. No ano que vem, acho que já estaremos fora da recessão. Vamos crescer de novo, bem menos do que antes da crise, porque o mundo será hostil, ainda vai estar em recessão, com preços de commodity baixos e fluxos de capital ruins.

Como o sr. avalia a forma com o Brasil reagiu a crise?

O Brasil adquiriu a possibilidade de fazer políticas macroeconômicas contracíclicas, o que nunca tivemos. Nós desdolarizamos a dívida pública, baixamos a dívida externa, aumentamos as reservas, e hoje, quando tem crise mundial, podemos baixar a taxa de juros – no passado, tínhamos de subir, lá no passado tinha de subir taxa de juros. Hoje podemos aumentar gasto público e baixar receita, quando lá atrás tínhamos de fazer o contrário. O Brasil e outros grandes emergentes, como a China e a Índia, tem sistemas financeiros que não foram contaminados pela crise bancária porque não estavam em ativos de bolha nem ativos tóxicos. É óbvio que vamos crescer mais que o mundo rico, mas o que não é óbvio é que o rabo balance o cachorro. Não é óbvio que o desempenho de Brasil, China e Índia faça o mundo sair da crise antes.

E a trajetóriados juros no Brasil, qual deve ser?

Na ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), a advertência do Banco Central é de que o mercado está pessimista quanto à inflação lá do ano que vem. Na verdade, se a atividade econômica recuperar muito rapidamente, o mercado estará certo, se a atividade econômica não recuperar, estará errado. Eu não sei em que velocidade vai se recuperar, me eximo de dar um palpite sobre isso. Acho simplesmente que, com hiato de produto (diferença entre o que pode se produzir com a atual capacidade e o que se está produzindo efetivamente) atual do Brasil, a direção da taxa de juros é para baixo.

A recente valorização do real o surpreendeu?

Há três semanas, enviamos um relatório especial da consultoria alertando que o real poderia se valorizar, que estava se apreciando. O fluxo de capitais está voltando. Os bônus da Odebrecht, da Telemar, do Friboi, a entrada de recursos na bolsa, tudo isso são fluxos de capital que entraram no Brasil porque o Brasil está melhor em termos de fundamentos macroeconômicos.

O sr. concorda com a política fiscal que foi seguida em razão da crise, com desoneração tributária, redução de superávit primário, aumento dos gastos correntes?

Uma recessão, quando se pode seguir política fiscal contracíclica, requer que ela seja feita na dimensão daquilo que é possível. É natural, portanto, que o Brasil dê isenção de impostos, aumente um pouco o gasto, reduza a meta de superávit primário. Acho que a componente contracíclica foram duas: a queda automática de receita que sempre acontece numa recessão, que foi grande, e as isenções tributárias que o governo fez, para automóveis, para geladeiras, para material de construção, para evitar crescimento de desemprego, para evitar no fundo que se instalasse uma recessão maior. Isto é contracíclico. O aumento de gastos que o governo fez com essa política não é contracíclico coisa nenhuma.

Como assim?

Porque esse aumento foi decidido muito antes de começar essa recessão. Isso não é política contracíclica, isso é política de aumento de gasto de custeio (despesa de pessoal está incluída nesse conceito de custeio), que acabou gerando efeitos contracíclicos. O mundo de vez em quando dá voltas estranhas, você atira que não vê e mata o que não vê. Tem gente que tem sorte. Eu acho que o Lula teve essa sorte. A sorte foi que, no frigir dos ovos, aquela decisão errada lá atrás, de aumentar o gasto de custeio, acabou provocando um aumento de transferência para funcionários públicos que de uma forma ou de outra gera um aumento de consumo que ajuda a tirar o Brasil mais rapidamente da recessão.

Quem é:Affonso Celso Pastore

Doutorado em Economia pela Universidade de
São Paulo (USP)

Ocupou o cargo de secretário da Fazenda do Estado de São Paulo

Esteve à frente do Banco Central do Brasil de 1983 a 1985

É sócio-fundador e consultor da A. C. Pastore e Associados

É professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas