16/06/2008 - 09:11h Sonhos

Seria realmente ótimo se o Brasil fosse esse paraíso mestiço que os nãoracialistas apregoam

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NEI LOPES - O GLOBO

Contrariando expectativas que já duram mais de cem anos, no Brasil, “país com maior população afro-descendente fora da África”, “negros e pardos vão superar o número de brancos neste ano” de 2008, conforme afirmações textuais do jornalista Ivan Martins, em reportagem publicada na edição do último de junho da revista “Época”, publicação semanal da Editora Globo. As afirmações, acompanhadas da constatação de que o país “não tem um único político negro de projeção nacional”, vem a propósito da candidatura do senador Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos.

No momento em que o Congresso Nacional prepara a votação do Estatuto da Igualdade Racial, um grupo de intelectuais e artistas lidera a corrente contrária à aprovação do texto, colocandose contra a “grave ameaça” de secessão da sociedade brasileira em “negros” (pretos e pardos) e “brancos” (louros e “morenos”), como se essa divisão, em termos de poder e capital, já não fosse a grande característica desta sociedade.

Invocam, agora, esses arautos da “desracialização”, no calor da discussão sobre o problema social brasileiro, o suposto exemplo de Obama, o qual, em pura retórica de campanha, afirmou num discurso que “não existe uma América branca, uma negra, uma asiática, uma hispânica: e sim os Estados Unidos da América”. E os “desracializadores” invocam o candidato americano, nos apontando o dedo, como se dissessem: “Estão vendo? Ele não exibe a cor da pele como uma arma ou um escudo!” Para nós seria realmente ótimo se o Brasil fosse esse paraíso mestiço que os não-racialistas apregoam.

Se além dos mulatos “no sentido lato”, como diz a canção, também aqueles no sentido estrito (com a indisfarçável fenotipia dos majoritariamente afro-descendentes), como o autor destas linhas se vê e considera, tivessem as possibilidades de poder e influência que tem o afro-americano Barack Obama. Mas esta, infelizmente, não é a nossa realidade.

Atrasados em pelo menos cinqüenta anos com relação às conquistas sociais do povo negro nos Estados Unidos, no Brasil, nós, herdeiros do mesmo brutal despojamento que plasmou a sociedade norte-americana (e do qual Obama, esclareça-se, não é vítima direta), vimos sendo, há mais de 120 anos, forçados a acreditar que neste país “alegremente mestiço e desracializado” nunca houve segregação nem ku-kluxklan, e que nossa inferioridade se deve apenas a problemas econômicos e pode ser zerada com boas escolas e boas merendas para todos.

Mas aí vem o jornalista Ivan Martins, da “Época”, e, depois de dar a palavra ao idealizador e diretor da paulista Universidade Zumbi dos Palmares, “gerida por negros, subsidiada e voltada para as classes mais pobres”, pergunta, na reportagem mencionada: “Quanto tempo, porém, será necessário para que se produza um líder como Obama no Brasil?” Enquanto isso não ocorre, meu amigo Martinho da Vila segue cantando seus belos sambas-enredo.

Principalmente, o “Sonho de um sonho”, com que sua escola chegou em segundo lugar (empatada com mais duas) no disputado carnaval de 1980.

04/04/2008 - 14:06h Segregação presente, mas sob outra roupagem

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Marília Martins - O Globo

Correspondente

NOVA YORK. Quando alguém pergunta sobre as conquistas e as frustrações do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, a professora Lillian Williams costuma responder citando sua própria trajetória pessoal como exemplo.
Ela é hoje coordenadora de estudos afro-americanos na Universidade Estadual de Nova York, em Buffalo. Nos anos 60, a área de estudos afro-americanos simplesmente não existia e o posto de pesquisadora universitária era praticamente impossível de ser alcançado por mulheres negras.

Lillian Williams reconhece que, nos últimos 40 anos, a sociedade americana mudou radicalmente.Mas a professora não considera que a pauta de reivindicações do movimento pelos direitos civis esteja esgotada.

Ao contrário, para ela ainda há muito por fazer para reduzir as tremendas desigualdades raciais que ainda persistem nos EUA. Segundo a acadêmica, nestes 40 anos muita coisa mudou, como o surgimento de uma classe média negra, que antes não existia. Ela cita as leis sobre os direitos civis, de 1964, e sobre a garantia do direito de voto, de 1965, como fundamentais para que estas mudanças acontecessem, assim como as ações afirmativas dos anos 70, que garantiram, por exemplo, cotas para professores e estudantes de minorias raciais nas universidades.

Apesar disso, a acadêmica mantém suas ressalvas.

— Mas mesmo assim, 40 anos depois do assassinato de Luther King, não se pode dizer que os EUA sejam uma democracia racial. Não é verdade.

As escolas de ensino fundamental, por exemplo, tornaramse ainda mais segregacionistas, e as oportunidades em termos de trabalho, educação e saúde não são iguais. As minorias raciais ainda são segregadas economicamente — analisa ela. — Chegamos a um ponto em que não se trata mais de conquistar direitos legais, e sim de garantir a implementação dos direitos existentes.

O conflito agora é econômico, e nesse sentido se pode pensar numa coalizão ampla de todas as minorias.

Bairros pobres ainda são guetos para moradores Um dos aspectos que chamam a atenção é o fato de as escolas públicas fundamentais serem, nos EUA de hoje, mais segregacionistas que as dos anos 60. Lillian explica que o sistema escolar público americano divide as escolas de acordo com a vizinhança: escolas de bairros negros têm hoje apenas alunos negros, e assim por diante. Há pouca mistura de alunos de raças diferentes na mesma classe porque as cidades americanas têm divisões raciais que são superpostas a divisões geográficas.

Por isso, os bairros pobres continuam a ser guetos para seus moradores, sem oportunidades de educação e de trabalho que se equiparem aos bairros ricos, onde mora a maioria branca. O mesmo acontece com as universidades.

Para a professora, as cotas facilitaram o acesso de alunos negros aos cursos universitários, mas não resolveram o problema da discriminação.

Ela explica que as universidades estaduais têm menos verbas para ensino do que as ricas universidades particulares, ainda redutos da elite branca.

— É verdade que universidades ricas, como Harvard, têm programas de inclusão social e de diversificação do seu quadro docente, mas os centros de decisão ainda permanecem nas mãos de uma elite branca, e por isso persistem as desigualdades de oportunidades — critica Lillian Williams. — Outra vez voltamos ao ponto que é central no debate racial de hoje nos EUA: é preciso garantir a todos oportunidades iguais de educação e de trabalho, e nisto os EUA ainda estão longe de ser uma democracia racial.

Como a pesquisadora, muitos lembram que o movimento dos direitos civis nos EUA ganhou uma outra realidade com o aparecimento, nos anos 90, de uma alta classe média negra, antes inexistente.

Segundo o Censo americano, 25% dos domicílios de famílias negras são hoje de classe média, mas nos números que revelam a ascensão social dos negros ainda há forte índice de concentração: apenas 5% dos negros americanos têm renda superior à de 85% dos domicílios de famílias brancas. Nomes como o da apresentadora de TV Oprah Winfrey ou o do primeiro CEO negro americano, Stanley O’Neal, da Merrill Lynch, tornaram-se símbolos desta nova possibilidade de ascensão social, que antes não havia.

Timothy Nelson, da Universidade de Harvard, considera que a abertura das universidades para os negros teve um papel importante nisso, permitindo a formação de um contingente de profissionais liberais que hoje disputa postos de trabalho com a elite branca.

Mas ele ressalta que ainda resta um largo contingente de negros, hispânicos, asiáticos e outras minorias raciais que permanecem à margem da sociedade, vivendo segregados em bairros que se transformam em guetos sociais.

— É possível pensar, hoje, em pontos comuns que unem todas essas minorias socialmente marginalizadas. Mas, para que esta realidade mude, seria preciso que houvesse uma nova maioria no poder interessada em priorizar a redução das desigualdades sociais. Num momento em que a economia americana caminha para a recessão, esta promessa parece difícil de ser alcançada — diz.

04/04/2008 - 13:54h O sonho não se realizou*


Senador Edward W. Brooke, primeiro senador negro dos Estados-Unidos - Bill Crandall for The New York Times

*Edward W. Brooke - O Globo

Os Estados Unidos têm muito sobre o que refletir com os 40 anos de eventos inter-relacionados como a Comissão Kerner, o assassinato de Martin Luther King e a onda de protestos que ocorreram depois do crime em mais de cem cidades em todo o país. Ouvimos o inteligente discurso do senador Barack Obama sobre a questão da raça, e as reações que ele provocou. Hoje, infelizmente, o sonho do Dr. King ainda não se realizou.

O ex-senador Fred Harris e eu somos os únicos membros ainda vivos da Comissão de Aconselhamento sobre a Desordem Civil (o nome do grupo liderado pelo governador Otto Kerner) do presidente Lyndon Johnson. Ela concluiu que a frustração dos negros cresceu a partir da sub-representação no sistema político, na polícia, na mídia e em todos os aspectos da vida americana. Exortamos novos investimentos em empregos, escolas e habitação.

Declaramos que a pobreza, a desigualdade e a segregação no gueto racial criaram um ambiente destrutivo desconhecido para a maioria dos americanos brancos. Dissemos que a América branca criara e mantivera o gueto e que fazia vista grossa. Foram palavras duras, mas a verdade precisava ser dita.

Pensei que o presidente Johnson aplaudiria nossa análise e apoiaria nossas recomendações.

Mas o presidente que tanto fizera para os direitos civis se distanciou das descobertas.

Não nos convidou à Casa Branca para o lançamento do relatório, como era costumeiro, nem acolheu nossas recomendações.
Retrospectivamente, vejo que o relatório era forte demais para ele aceitar: sugeria que suas conquistas — a Lei dos Direitos Civis, o programa antipobreza — eram só um começo.

Pedimos, num ano eleitoral, que ele endossasse a idéia de que a América branca tinha grande responsabilidade pela rebelião negra.

A comissão dificilmente poderia prever os avanços que os afro-americanos fariam desde o relatório, ou o aumento populacional, o progresso e a influência dos hispânicos. Com a ascensão de um afro-americano na disputa presidencial, observadores imparciais poderiam engasgar com o quanto avançamos.

Ainda assim, apesar da visibilidade de afroamericanos e hispânicos bem-sucedidos e do progresso nas relações raciais, para os pobres dos EUA — aqueles que não sabem o que é assistência médica, porque, para eles, ela não existe; para quem a prisão é um futuro mais possível do que a faculdade; os que foram abandonados nos centros urbanos decadentes devido à fuga da classe média — o futuro é tão sombrio quanto nos anos 1960.

As condições-chave identificadas pela comissão são tão atuais, mesmo que não tão violentas, hoje como há 40 anos. A ausência de moradias e a falta de emprego ou de esperança no futuro confinaram um número ainda maior de cidadãos num mundo assustadoramente familiar, que não muito tempo atrás fez com que as cidades ficassem em chamas.

Realizar o sonho do Dr. King requer segurança econômica e de saúde, geração de empregos e educação de qualidade para a minoria pobre, para a negligenciada classe trabalhadora e para a ansiosa classe média.

*EDWARD W. BROOKE , republicano, foi o primeiro senador negro dos EUA

14/03/2008 - 13:52h Condoleezza Rice visita Bahía a capital do turismo étnico

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Durante a visita da secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, à Bahia o governador do Estado, Jaques Wagner, pediu apoio à autoridade norte-americana para o Projeto Inglês Para Todos, que irá beneficiar cerca de 60 mil jovens de baixa renda da Bahia.

Na ocasião, Wagner falou ainda sobre a importância do turismo étnico para a Bahia, cuja intenção é atrair afro-americanos para o Estado, e a necessidade de mais vôos diretos entre EUA e Bahia. Ele ainda agradeceu a visita da secretária e disse que era um privilégio recebê-la.

Condoleezza Rice, acompanhada de Jaques Wagner, governador da Bahía e Marta Suplicy, ministra de turismo visitando o Pelourinho e a Igreja do Rosário. Na noite anterior, junto com Gilberto Gil, a Secretária de Estado Norte-americana, eximia pianista, caiu no samba.