23/11/2008 - 11:46h Ações afirmativas aumentaram elite negra nos EUA

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Jesse Jackson e Obama, o primeiro abriu o caminho para um presidente negro nos EUA

Para pesquisadora, carreira de Obama “deve muito” às conquistas dos movimentos pelos direitos civis

FABIANO MAISONNAVE – FOLHA SP

EM BOSTON

Em artigo publicado logo após a eleição de Barack Obama nos EUA, o colunista Dennis Byrne relembrou no jornal “Chicago Tribune” um episódio de 1967, quando era professor para alunos negros num curso supletivo no Estado sulista da Geórgia. Depois de dizer a eles que poderiam ser “o que quisessem”, viu uma aluna arrancar risadas dos colegas ao anunciar ironicamente que seria procuradora-geral.

Para Byrne, a aluna estava certa há 40 anos -hoje, não. Ecoando uma visão crescente nos EUA, ele crê que a eleição de Obama comprova que as políticas de ações afirmativas implantadas a partir da Lei dos Direitos Civis, em 1964, cumpriram o papel de assegurar igualdade de oportunidades aos negros e, portanto, deveriam deixar de existir.

“Como sabemos quando os tipos de desequilíbrios impostos por alguns programas de ação afirmativa não são mais necessários? Se um dos sinais de que devemos estar indo nessa direção não é a eleição de um presidente afro-americano, então o que é?”, escreveu Byrne.

Promulgada pelo presidente democrata Lyndon Johnson sob forte pressão do movimento negro, a Lei dos Direitos Civis proibia a segregação em escolas, espaços públicos e no trabalho. Entre outras medidas, determinou que as instituições que recebem fundos públicos, como universidades privadas, eliminassem toda forma de discriminação racial.

Desde então, os processos de seleção universitários e de trabalho passaram a criar mecanismos -ações afirmativas- para que o ambiente escolar ou de trabalho refletisse a composição racial norte-americana, onde os negros representam 12%. Ao contrário do que se pensa no Brasil, não há cotas nos EUA -estão proibidas pela Suprema Corte desde 1978.

Nova elite

Desde então, afro-americanos passaram a ocupar cargos cada vez mais altos nos setores público e privado e aumentaram sua presença nas universidades, mas as estatísticas mostram que o abismo entre brancos e negros continua em áreas como renda e educação. De acordo com o Departamento de Educação, 19,5% dos negros entre 25 e 29 anos tinham diploma superior em 2007, contra 35,5% dos brancos.

A última grande discussão sobre ações afirmativas nos Estados Unidos ocorreu em 2003, quando, por 5 votos a 4, a Corte Suprema manteve a constitucionalidade dessas políticas.

Na decisão, houve o entendimento de que a Universidade de Michigan pode fazer “uso estrito de raça” para “obter os benefícios educacionais que emergem de um corpo estudantil diversificado”, mas com a ressalva de que é um recurso com tempo de vida limitado.

Dentro desse discurso da “diversidade”, onde fica Obama, filho de um queniano com uma norte-americana branca nascido no Havaí e casado com uma afro-americana?

“A sua história certamente não é a de uma afro-americano crescido no Sul”, afirma a cientista política afro-americana Melissa Nobles, do MIT (Massachusetts Institute of Technology). “Mas a sua carreira profissional se deve muito às conquistas do movimentos pelos direitos civis. E ele nunca teria vencido se Jesse Jackson não tivesse introduzido a idéia de um presidente negro”, completa, lembrando que Obama trabalhou por vários anos na comunidade negra de Chicago.

Para brasilianistas especialistas em relações raciais ouvidos pela reportagem, um fenômeno similar ao de Obama dificilmente ocorreria no Brasil num curto prazo. Entre os motivos está a trajetória ainda pequena das ações afirmativas em comparação com os EUA.

Na avaliação do cientista político americano branco Seth Racusen, do Anna Maria College, o movimento negro brasileiro teve um enfoque inicial concentrado no racismo como um problema principalmente criminal, tendência que vem sido revertida nos últimos anos.

Há mais de 30 anos estudando relações raciais no Brasil, o ganense Anani Dzidizienyo, da Universidade Brown, vê dificuldades para reconhecer o que chama de “racismo institucional”. “No Brasil, a discussão sobre ações afirmativas provoca reações histéricas, existe certa inabilidade para reconhecer o racismo institucional.”

Dzidizienyo completa: “A ironia é que este país racista produziu um Obama. Nem vou começar a pensar se isso é possível no Brasil; está completamente fora de cogitação”.

Leia o caderno especial sobre a questão racial no Brasil na Folha SP

10/11/2008 - 19:01h Duas visões da vitória de Obama

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por Luiz Weis – Verbo Solto

Deu nos jornais. Há poucas semanas, a deputada republicana Michele Bachmann, de Minnesota, disse na televisão que estava “muito preocupada” com a possibilidade de Obama ter “idéias anti-americanas”. No dia seguinte à eleição, ela se declarou “extremamente grata por termos um presidente afro-americano”. A vitória de Obama, exultou, “foi um tremendo sinal que nós mandamos.”

Se fosse mais uma das incontáveis cenas explícitas de adesismo que os políticos se permitem o tempo todo em toda parte (Mangabeira Unger e Eduardo Paes em relação a Lula, por exemplo, guardadas as devidas), o episódio não serviria de gancho para espetar nele um comentário – ou uma provocação – sobre o que parece a este blogueiro um dos aspectos mais interessantes da eleição americana de que a imprensa mundial se ocupou, com pencas de fatos e argumentos, mas, salvo engano, sem parar para discuti-los.

A deputada, a rigor, não aderiu a Obama. O que ela queria, segundo uma interpretação, era “não ficar no lado errado da história”. Isso deve ser verdade também para aqueles americanos que, a julgar por suas manifestações dos últimos dias, sonhavam desde criancinha com a eleição de um negro para a Casa Branca – e com os quais não se devem confundir os milhões de pessoas, dentro e fora dos Estados Unidos, que torciam ardentemente por ele e acham que o mundo ficou melhor depois da maior das terças-feiras da história da América.

Mas não é nem disso que se trata exatamente. O ponto – que remete aos tais fatos e argumentos que inundaram a mídia, sem que ela os tivesse posto em debate – está no fecho da fala da senhora Bachmann.

Repetindo: “Foi um tremendo sinal que nós enviamos”.

Então lá vai: “Nós” quem, cara-pálida?

”Nós”, evidentemente, seriam os Estados Unidos da América – os seus valores de berço com os quais o país, sem distinções, se reencontrou elegendo Obama. Não foi ele próprio quem disse, no discurso de vitória, que a América “é o lugar onde tudo é possível”?

Ou, no título do editorial da edição do último domingo do Observer, de Londres: “A América restaurou a fé mundial nos seus ideais”.

Aceitar esses enunciados pelo seu valor de face implica, primeiro, passar batido pelo fato de que esses ideais – “democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança”, Obama, no mesmo discurso – conviveram durante 76 anos (de 1787, quando foi promulgada a Consitutição de Filadélfia, a 1863, quando acabou a Guerra Civil) com a escravidão legal e, depois, durante mais de um século com a segregação racial, aberta ou disfarçada, em muitas partes da América.

É fato histórico que, entre abolir a escravidão e garantir a unidade das 13 colônias que viriam a formar os Estados Unidos, os “pais fundadores” escolheram a unidade.

É fato histórico ainda que eles adotaram um sistema político – o do voto majoritário, ou distrital, para a eleição do Congresso, combinado com a escolha em última análise indireta do presidente da República – concebido para barrar a ascensão ao poder das minorias, quaisquer que fossem. E adotaram um sistema eleitoral feito para desestimular os mais pobres a votar [“O voto americano visto do Brasil”, neste blog].

Mas é fato histórico também que, em matéria de liberdades individuais, a começar da mais essencial delas, a de expressão, nenhum país iguala os Estados Unidos.

O país, escreveu na semana passada o historiador holandês Ian Buruma, “representa o que o combalido mundo ocidental tem de melhor e de pior”. Pura verdade.

Em segundo lugar e mais prosaicamente, aceitar o enunciado de que “a América” elegeu Obama faria sentido se ele devesse a sua vitória a uma maioria homogênea, ou quase isso, de eleitores. Não foi assim: quem deu a Obama 65,4 milhões de votos (ante 57,4 milhões para McCain) foi uma determinada América – a coalisão de negros, jovens, mulheres e hispânicos das grandes cidades.

As pesquisas de boca-de-urna (depois da votação) revelaram que votaram em Obama 95% dos negros, 70% dos moradores das metrópoles, 66% dos jovens de 18 a 29 anos – o grande exército mobilizador de recursos e eleitores, via internet –, 66% também dos hispânicos e 56% das mulheres.

A propósito, dos eleitores de primeira viagem, 7 em 10 votaram em Obama.

Se dependesse apenas do voto masculino, não se sabe no que daria a eleição. Foram 49% para Obama, 48% para McCain. Se dependesse apenas do voto branco, daria McCain por 55% a 43%. Embora, proporcionalmente, mais homens brancos votaram em Obama do que em qualquer outro candidato democrata desde Jimmy Carter (1974), Bill Clinton incluído.

Além disso, Obama ganhou no Nordeste, no Meio-Oeste e no Oeste. Perdeu no Sul (Arkansas, Oklahoma, Louisiana, Tennessee, Missisippi, Alabama, Georgia e Carolina do Sul), embora tivesse obtido uma vitória histórica – com perdão pelo adjetivo – na Carolina do Norte.

A coalisão pró-Obama foi também uma coalisão de motivações – o que a ênfase no “voto da América” que percorre a mídia torna mais difícil discernir.

Os negros votaram em Obama, antes de tudo, porque era o primeiro deles escolhido candidato por um dos dois grandes partidos nacionais, portanto o primeiro a ter chances reais de chegar lá.

O mestiço Obama, no Brasil, seria mulato. Nos Estados Unidos de duas cores, negro. E, como tal, os negros o encamparam. Perguntado, depois da vitória, se preferia se referir a Obama como meio-branco e meio-negro, ou simplesmente negro, um barman de Washington respondeu: “Negro. Porque significa mais.”

Não menos revelador – e neste caso também por relativizar a teoria de que “a América” elegeu Obama – foi um comentário recolhido pelo correspondente do Globo em Washington, José Meirelles Passos, em Birmingham, Alabama.

“Sempre houve, no fundo, a sensação de que os negros não podiam ser parte do povo americano, e muito menos do sonho americano”, disse-lhe Jacqueline Wood, diretora-assistente do Programa de Estudos Afro-Americanos da Universidade do Alabama. “Nós estávamos sentados na cozinha. Agora passamos para a sala de visitas.”

Os jovens votaram em Obama principalmente por se identificar com o mais inspirador (“Yes, we can”) dos políticos americanos desde John Kennedy e decerto o mais singular deles: pelas origens, trajetória, personalidade, estampa – e coolness.

Também junto às mulheres funcionaram as suas “armas de atração em massa”. Com uma particularidade que, de novo salvo engano, só foi destacada na imprensa graças a um artigo no New York Times da sexta-feira, 7, pelo sociólogo jamaicano Orlando Patterson, da Universidade Harvard.

”Essa campanha, de maneira notável, foi uma reencenação da inteira e entrelaçada luta de negros e mulheres pela inclusão política”, observou. “A primeira vez que rejeitaram o seu confinamento ao papel de virtuosa maternidade na esfera privada no início da República foi ao liderar o combate muito público pela abolição da escravatura.”

As conquistas negras sempre pressagiaram os avanços femininos, lembra Patterson, “embora não sempre pelos motivos mais nobres”. Ou seja, o movimento pela emancipação das mulheres se nutria da seguinte rationale: afinal, se os negros podem votar, podem encontrar na lei proteção contra a discriminação e disputar cargos eletivos, por que não nós, mulheres?

A partir dos anos 1980, pela primeira vez desde que passaram a ter direito ao voto, as mulheres passaram a votar proporcionalmente mais do que os homens e em candidatos comparativamente mais progressistas.

”Em termos demográficos crus, o mais importante fator da vitória de Obama foi a margem de 13 pontos a seu favor no eleitorado feminino”, assinala o sociólogo.

De fato, a vantagem de Obama foi relativamente maior entre os mais jovens. Mas estes são apenas 18% do eleitorado. Vale para os hispânicos: como os jovens, 2 em cada 3 deles votaram em Obama; mas representam somente 8% do eleitorado. Já as mulheres (56% pró-Obama) pesaram mais porque são 53% do eleitorado.

E os trabalhadores brancos, aqueles a quem, nas prévias do Partido Democrata, e no seu pior momento, Hillary Clinton pediu o voto com uma mensagem que se curvava ao seu preconceito (”Hard-working Americans; White hard-working Americans…”)? O que levou sabe-se lá quantos deles a votar em Obama?

A resposta, numa palavra, parece ter sido a crise. Como se tivessem posto num dos pratos da balança o medo de ter um presidente negro, no outro o medo de ter um presidente branco incapaz de salvá-los do naufrágio econômico.

O New York Times ouviu um deles, no subúrbio de Levittown, Pensilvânia (Estado em que McCain investiu pesadamente, em vão, na reta final da campanha). O técnico em ar-condicionado Joe Sinitski disse ao repórter Michael Sokolove:

”Durante muito tempo eu não podia ignorar o fato de que Obama é negro, se é que me entende. Não me orgulho disso, mas fui criado a pensar que não há negros bons. Eu podia ver que ele é muito inteligente, e isso conta para mim, mas meu instinto ainda era o de fechar com o branco. Mas, quando ele escolheu [a governadora do Alasca] Sandra Palin para vice, com todos os problemas que a gente tem, isso não mostrou inteligência da parte de McCain. Não dizia coisa boa dele em geral.”

O interesse próprio prevaleceu sobre o racismo, em suma.

O que vai acontecer com o racismo americano não se pode prever. O lugar-comum que se encontra numa página dos jornais e na outra também é que o próprio triunfo de Obama – e a sua repercussão mundial sem paralelo – funciona por si só como um breve contra o preconceito.

Tomara. Afinal, o homem tem uma capacidade única de fazer com que as pessoas ponham para fora o que têm de melhor. A euforia dos europeus, por exemplo, é o reverso da medalha da hostilidade européia aos imigrantes, principalmente de pele escura.

Mas, nos Estados Unidos, há apenas quatro meses uma pesquisa nacional mostrou que apenas 30% dos eleitores brancos diziam ter uma opinião favorável de Obama. E mais: cerca de 60% dos entrevistados negros – e não mais de 34% dos brancos – achavam que as relações raciais no país são em geral ruins.

A pesquisa revelou que muitos padrões raciais na sociedade americana permanecem intocados nos anos recentes. Muito pouco mudou no componente racial da vida cotidiana no país desde 2000, quando o New York Times publicou uma série de reportagens intitulada “Como a raça é vivida na América”.

Exemplo: mais de 40% por cento dos negros americanos acham que foram parados pela polícia por causa da cor de sua pele, a mesmo índice de respostas da pesquisa de oito anos atrás.

”Devagar com o andor pós-racial”, escreveu na Folha o correspondente Sérgio Dávila. “Os Estados Unidos mudaram, os novos eleitores e os eleitores novos ajudaram a eleger Barack Obama – mas foi preciso uma crise econômica sem precedentes e o equivalente ao gênio negro na política concorrendo para que isso acontecesse.”

Toda eleição, obviamente, tem a sua circunstância. A desta, nos Estados Unidos, se chamou George W. Bush, atolando americanos em duas guerras, nos maiores índices de pobreza e desigualdade desde os impropriamente chamados Anos Dourados (a década de 1920), e, enfim, no colapso financeiro e na recessão.

Foi o que decidiu a parada em favor de Obama. Antes do derretimento de Wall Street, não custa lembrar, ele e McCain estavam cabeça a cabeça nas pesquisas.

Então, uma coisa é dizer que Obama encarna o que a América tem de melhor ou que a América ficou melhor com a sua vitória. Outra coisa é dizer que o resultado eleitoral comprova a excepcionalidade dos Estados Unidos, o poderio incomparável de seus valores.

A imprensa ficou devendo um debate sobre essas duas visões – um debate, em suma, sobre a democracia na América.

09/11/2008 - 13:33h NAÇÃO FURTA-COR


VITÓRIA DEMOCRATA REVELA PESO DA COMUNIDADE LATINA NOS EUA E MOSTRA COMO O BRASIL PERDEU O BONDE DA HISTÓRIA NA QUESTÃO RACIAL


Anja Niedringhaus – 4.nov.08/Associated Press

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Correligionários do então candidato do Partido Democrata fazem campanha do Hariem, em Nova York

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO
COLUNISTA DA FOLHA

No jogo barra-pesada da política em Chicago, onde Obama se elegeu para o Senado Federal, Kirk Dillard, velha raposa do Partido Republicano, já havia topado com o perigo ameaçando seus correligionários: “Sempre tivemos medo de ver Barack tornar-se um “rock star” da política americana”.
A frase não foi dita na semana passada. Ela apareceu em maio de 2004, no artigo de William Finnegan na revista “New Yorker” que, pela primeira vez na grande imprensa, apontava a garra política de Barack Obama.
Dois meses depois, Obama atraiu a atenção do país com o seu notável discurso “supra-racial” na convenção democrata de Boston. Em novembro do mesmo ano, foi eleito para o Senado Federal.
O resto é a história que transcorre agora sob os olhos e as expectativas dos norte-americanos e do mundo inteiro.
Quais as implicações da eleição altamente simbólica de Obama na política do Brasil, país que contém a maior população afrodescendente das Américas? Culturalmente globalizado, Obama conhece a Europa, a Ásia e a África. Mas nunca pôs os pés na América Latina.
Persiste ainda nos EUA o embaciamento que cobriu a América Latina depois da reorganização da agenda internacional americana na seqüência do 11 de Setembro.
Isto posto, a revista londrina “The Economist” extraiu dos votos no Senado e dos discursos de campanha elementos que configuram a política de Obama com relação à América Latina. No tocante aos tópicos que podem impactar o Brasil, há dois pontos principais.

Ambivalência
O primeiro é ambivalente.
Obama é favorável aos acordos sobre biocombustíveis, mas prega a inclusão de cláusulas sobre o ambiente e as condições de trabalho envolvendo produtos exportados para os EUA. O segundo ponto se refere à imigração.
Obama propõe uma legislação mais liberal, dando aos imigrantes ilegais a oportunidade de se tornarem cidadãos norte-americanos.
Calcula-se que cerca de 900 mil brasileiros vivam legal e ilegalmente nos EUA. Apesar da crise econômica americana, a imigração clandestina brasileira continua ativa.
De modo mais geral, o voto dos latinos -incluindo o voto dos milhares de brasileiros com cidadania americana- constituiu um dos pilares da vitória de Obama.
Ao lado dos jovens (66% dos eleitores entre 18 e 29 anos votaram em Obama), dos negros, tradicionais eleitores democratas (97% em Obama), dos americano-asiáticos (62% em Obama), dos judeus (78% em Obama), dos habitantes das grandes cidades (70% em Obama), os latinos (67% em Obama) renovaram o eleitorado democrata no país.
Nesse contexto, os latinos tiveram um peso decisivo, pois compuseram boa parte dos novos eleitores e porque abandonaram os candidatos republicanos. Sobretudo por causa da crise dos subprimes e da política imigratória do governo de George W. Bush.
O feitio multicultural da vitória democrata, garantia de uma dominação partidária duradoura, responde ao objetivo perseguido com determinação por Barack Obama: posicionar sua candidatura acima das clivagens raciais.
Aqui se situa um outro ponto de impacto na política brasileira. Em que medida a eleição de um negro à Presidência dos EUA influencia o atual debate sobre a discriminação racial e as cotas no Brasil?
De saída, é preciso salientar as semelhanças e as diferenças entre os EUA e o Brasil.
Os dois países tiveram um escravismo arraigado na sociedade e consubstancial à formação nacional. As elites das independências americana e brasileira nacionalizaram e modernizaram o escravismo de origem colonial. Daí o racismo que perpetuou-se -de maneira distinta- tanto nos EUA como no Brasil.
Apoiando as medidas de “ação afirmativa” contra as discriminações raciais, o futuro presidente americano é, no entanto, desfavorável ao sistema de cotas. Obviamente, Obama se beneficiou das políticas que favoreciam a promoção dos jovens afro-americanos.

Contraste gritante
Ora, os negros e mulatos americanos formam uma das minorias demográficas do país, representando 12% da população. Menos, portanto, que os 15% de latinos (descendentes de latino-americanos brancos, negros ou de origem indígena), cuja taxa de natalidade é duas vezes maior que a da restante da população americana.
No Brasil, os afrodescendentes são, desde este ano, mais numerosos que os brancos e, a partir de 2010, formarão a maioria absoluta da população brasileira. O fato de que ainda constituam uma minoria política faz ainda mais cortante o contraste com a situação americana.
Há 50 anos, o estatuto dos negros americanos nos Estados racistas do Sul era, em muitos aspectos, pior que a dos negros brasileiros. O quadro mudou, na seqüência das decisões da Corte Suprema, das campanhas pelos direitos civis e pelas políticas afirmativas, fixando dispositivos legais em favor da minoria negra.
No Brasil, permaneceu tudo igual, e multiplicam-se as estatísticas desenhando o quadro aberrante da desigualdade racial. Hoje, guardadas as devidas proporções, a situação dos negros brasileiros é pior que a dos negros americanos.
Em algumas décadas, a sociedade americana transformou-se, e Barack Obama será o 44º presidente dos EUA. Quantos presidentes haverá ainda no Brasil antes que um negro vista a faixa presidencial no Palácio do Planalto?

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO é historiador, professor na Universidade de Paris 4. É autor de “O Trato dos Viventes” (Cia. das Letras) e escreve regularmente na seção “Autores”, do Mais!.

16/06/2008 - 09:11h Sonhos

Seria realmente ótimo se o Brasil fosse esse paraíso mestiço que os nãoracialistas apregoam

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NEI LOPES – O GLOBO

Contrariando expectativas que já duram mais de cem anos, no Brasil, “país com maior população afro-descendente fora da África”, “negros e pardos vão superar o número de brancos neste ano” de 2008, conforme afirmações textuais do jornalista Ivan Martins, em reportagem publicada na edição do último de junho da revista “Época”, publicação semanal da Editora Globo. As afirmações, acompanhadas da constatação de que o país “não tem um único político negro de projeção nacional”, vem a propósito da candidatura do senador Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos.

No momento em que o Congresso Nacional prepara a votação do Estatuto da Igualdade Racial, um grupo de intelectuais e artistas lidera a corrente contrária à aprovação do texto, colocandose contra a “grave ameaça” de secessão da sociedade brasileira em “negros” (pretos e pardos) e “brancos” (louros e “morenos”), como se essa divisão, em termos de poder e capital, já não fosse a grande característica desta sociedade.

Invocam, agora, esses arautos da “desracialização”, no calor da discussão sobre o problema social brasileiro, o suposto exemplo de Obama, o qual, em pura retórica de campanha, afirmou num discurso que “não existe uma América branca, uma negra, uma asiática, uma hispânica: e sim os Estados Unidos da América”. E os “desracializadores” invocam o candidato americano, nos apontando o dedo, como se dissessem: “Estão vendo? Ele não exibe a cor da pele como uma arma ou um escudo!” Para nós seria realmente ótimo se o Brasil fosse esse paraíso mestiço que os não-racialistas apregoam.

Se além dos mulatos “no sentido lato”, como diz a canção, também aqueles no sentido estrito (com a indisfarçável fenotipia dos majoritariamente afro-descendentes), como o autor destas linhas se vê e considera, tivessem as possibilidades de poder e influência que tem o afro-americano Barack Obama. Mas esta, infelizmente, não é a nossa realidade.

Atrasados em pelo menos cinqüenta anos com relação às conquistas sociais do povo negro nos Estados Unidos, no Brasil, nós, herdeiros do mesmo brutal despojamento que plasmou a sociedade norte-americana (e do qual Obama, esclareça-se, não é vítima direta), vimos sendo, há mais de 120 anos, forçados a acreditar que neste país “alegremente mestiço e desracializado” nunca houve segregação nem ku-kluxklan, e que nossa inferioridade se deve apenas a problemas econômicos e pode ser zerada com boas escolas e boas merendas para todos.

Mas aí vem o jornalista Ivan Martins, da “Época”, e, depois de dar a palavra ao idealizador e diretor da paulista Universidade Zumbi dos Palmares, “gerida por negros, subsidiada e voltada para as classes mais pobres”, pergunta, na reportagem mencionada: “Quanto tempo, porém, será necessário para que se produza um líder como Obama no Brasil?” Enquanto isso não ocorre, meu amigo Martinho da Vila segue cantando seus belos sambas-enredo.

Principalmente, o “Sonho de um sonho”, com que sua escola chegou em segundo lugar (empatada com mais duas) no disputado carnaval de 1980.

04/04/2008 - 14:06h Segregação presente, mas sob outra roupagem

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Marília Martins – O Globo

Correspondente

NOVA YORK. Quando alguém pergunta sobre as conquistas e as frustrações do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, a professora Lillian Williams costuma responder citando sua própria trajetória pessoal como exemplo.
Ela é hoje coordenadora de estudos afro-americanos na Universidade Estadual de Nova York, em Buffalo. Nos anos 60, a área de estudos afro-americanos simplesmente não existia e o posto de pesquisadora universitária era praticamente impossível de ser alcançado por mulheres negras.

Lillian Williams reconhece que, nos últimos 40 anos, a sociedade americana mudou radicalmente.Mas a professora não considera que a pauta de reivindicações do movimento pelos direitos civis esteja esgotada.

Ao contrário, para ela ainda há muito por fazer para reduzir as tremendas desigualdades raciais que ainda persistem nos EUA. Segundo a acadêmica, nestes 40 anos muita coisa mudou, como o surgimento de uma classe média negra, que antes não existia. Ela cita as leis sobre os direitos civis, de 1964, e sobre a garantia do direito de voto, de 1965, como fundamentais para que estas mudanças acontecessem, assim como as ações afirmativas dos anos 70, que garantiram, por exemplo, cotas para professores e estudantes de minorias raciais nas universidades.

Apesar disso, a acadêmica mantém suas ressalvas.

— Mas mesmo assim, 40 anos depois do assassinato de Luther King, não se pode dizer que os EUA sejam uma democracia racial. Não é verdade.

As escolas de ensino fundamental, por exemplo, tornaramse ainda mais segregacionistas, e as oportunidades em termos de trabalho, educação e saúde não são iguais. As minorias raciais ainda são segregadas economicamente — analisa ela. — Chegamos a um ponto em que não se trata mais de conquistar direitos legais, e sim de garantir a implementação dos direitos existentes.

O conflito agora é econômico, e nesse sentido se pode pensar numa coalizão ampla de todas as minorias.

Bairros pobres ainda são guetos para moradores Um dos aspectos que chamam a atenção é o fato de as escolas públicas fundamentais serem, nos EUA de hoje, mais segregacionistas que as dos anos 60. Lillian explica que o sistema escolar público americano divide as escolas de acordo com a vizinhança: escolas de bairros negros têm hoje apenas alunos negros, e assim por diante. Há pouca mistura de alunos de raças diferentes na mesma classe porque as cidades americanas têm divisões raciais que são superpostas a divisões geográficas.

Por isso, os bairros pobres continuam a ser guetos para seus moradores, sem oportunidades de educação e de trabalho que se equiparem aos bairros ricos, onde mora a maioria branca. O mesmo acontece com as universidades.

Para a professora, as cotas facilitaram o acesso de alunos negros aos cursos universitários, mas não resolveram o problema da discriminação.

Ela explica que as universidades estaduais têm menos verbas para ensino do que as ricas universidades particulares, ainda redutos da elite branca.

— É verdade que universidades ricas, como Harvard, têm programas de inclusão social e de diversificação do seu quadro docente, mas os centros de decisão ainda permanecem nas mãos de uma elite branca, e por isso persistem as desigualdades de oportunidades — critica Lillian Williams. — Outra vez voltamos ao ponto que é central no debate racial de hoje nos EUA: é preciso garantir a todos oportunidades iguais de educação e de trabalho, e nisto os EUA ainda estão longe de ser uma democracia racial.

Como a pesquisadora, muitos lembram que o movimento dos direitos civis nos EUA ganhou uma outra realidade com o aparecimento, nos anos 90, de uma alta classe média negra, antes inexistente.

Segundo o Censo americano, 25% dos domicílios de famílias negras são hoje de classe média, mas nos números que revelam a ascensão social dos negros ainda há forte índice de concentração: apenas 5% dos negros americanos têm renda superior à de 85% dos domicílios de famílias brancas. Nomes como o da apresentadora de TV Oprah Winfrey ou o do primeiro CEO negro americano, Stanley O’Neal, da Merrill Lynch, tornaram-se símbolos desta nova possibilidade de ascensão social, que antes não havia.

Timothy Nelson, da Universidade de Harvard, considera que a abertura das universidades para os negros teve um papel importante nisso, permitindo a formação de um contingente de profissionais liberais que hoje disputa postos de trabalho com a elite branca.

Mas ele ressalta que ainda resta um largo contingente de negros, hispânicos, asiáticos e outras minorias raciais que permanecem à margem da sociedade, vivendo segregados em bairros que se transformam em guetos sociais.

— É possível pensar, hoje, em pontos comuns que unem todas essas minorias socialmente marginalizadas. Mas, para que esta realidade mude, seria preciso que houvesse uma nova maioria no poder interessada em priorizar a redução das desigualdades sociais. Num momento em que a economia americana caminha para a recessão, esta promessa parece difícil de ser alcançada — diz.

04/04/2008 - 13:54h O sonho não se realizou*


Senador Edward W. Brooke, primeiro senador negro dos Estados-Unidos – Bill Crandall for The New York Times

*Edward W. Brooke – O Globo

Os Estados Unidos têm muito sobre o que refletir com os 40 anos de eventos inter-relacionados como a Comissão Kerner, o assassinato de Martin Luther King e a onda de protestos que ocorreram depois do crime em mais de cem cidades em todo o país. Ouvimos o inteligente discurso do senador Barack Obama sobre a questão da raça, e as reações que ele provocou. Hoje, infelizmente, o sonho do Dr. King ainda não se realizou.

O ex-senador Fred Harris e eu somos os únicos membros ainda vivos da Comissão de Aconselhamento sobre a Desordem Civil (o nome do grupo liderado pelo governador Otto Kerner) do presidente Lyndon Johnson. Ela concluiu que a frustração dos negros cresceu a partir da sub-representação no sistema político, na polícia, na mídia e em todos os aspectos da vida americana. Exortamos novos investimentos em empregos, escolas e habitação.

Declaramos que a pobreza, a desigualdade e a segregação no gueto racial criaram um ambiente destrutivo desconhecido para a maioria dos americanos brancos. Dissemos que a América branca criara e mantivera o gueto e que fazia vista grossa. Foram palavras duras, mas a verdade precisava ser dita.

Pensei que o presidente Johnson aplaudiria nossa análise e apoiaria nossas recomendações.

Mas o presidente que tanto fizera para os direitos civis se distanciou das descobertas.

Não nos convidou à Casa Branca para o lançamento do relatório, como era costumeiro, nem acolheu nossas recomendações.
Retrospectivamente, vejo que o relatório era forte demais para ele aceitar: sugeria que suas conquistas — a Lei dos Direitos Civis, o programa antipobreza — eram só um começo.

Pedimos, num ano eleitoral, que ele endossasse a idéia de que a América branca tinha grande responsabilidade pela rebelião negra.

A comissão dificilmente poderia prever os avanços que os afro-americanos fariam desde o relatório, ou o aumento populacional, o progresso e a influência dos hispânicos. Com a ascensão de um afro-americano na disputa presidencial, observadores imparciais poderiam engasgar com o quanto avançamos.

Ainda assim, apesar da visibilidade de afroamericanos e hispânicos bem-sucedidos e do progresso nas relações raciais, para os pobres dos EUA — aqueles que não sabem o que é assistência médica, porque, para eles, ela não existe; para quem a prisão é um futuro mais possível do que a faculdade; os que foram abandonados nos centros urbanos decadentes devido à fuga da classe média — o futuro é tão sombrio quanto nos anos 1960.

As condições-chave identificadas pela comissão são tão atuais, mesmo que não tão violentas, hoje como há 40 anos. A ausência de moradias e a falta de emprego ou de esperança no futuro confinaram um número ainda maior de cidadãos num mundo assustadoramente familiar, que não muito tempo atrás fez com que as cidades ficassem em chamas.

Realizar o sonho do Dr. King requer segurança econômica e de saúde, geração de empregos e educação de qualidade para a minoria pobre, para a negligenciada classe trabalhadora e para a ansiosa classe média.

*EDWARD W. BROOKE , republicano, foi o primeiro senador negro dos EUA

14/03/2008 - 13:52h Condoleezza Rice visita Bahía a capital do turismo étnico

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Durante a visita da secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, à Bahia o governador do Estado, Jaques Wagner, pediu apoio à autoridade norte-americana para o Projeto Inglês Para Todos, que irá beneficiar cerca de 60 mil jovens de baixa renda da Bahia.

Na ocasião, Wagner falou ainda sobre a importância do turismo étnico para a Bahia, cuja intenção é atrair afro-americanos para o Estado, e a necessidade de mais vôos diretos entre EUA e Bahia. Ele ainda agradeceu a visita da secretária e disse que era um privilégio recebê-la.

Condoleezza Rice, acompanhada de Jaques Wagner, governador da Bahía e Marta Suplicy, ministra de turismo visitando o Pelourinho e a Igreja do Rosário. Na noite anterior, junto com Gilberto Gil, a Secretária de Estado Norte-americana, eximia pianista, caiu no samba.