
De Roma – VALOR
A indústria brasileira de equipamentos agrícolas poderá se beneficiar de uma iniciativa de Brasília de ajudar países africanos a cultivarem as Savanas, que são parecidas com o Cerrado brasileiro, acredita a Embrapa.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discutiu ontem a iniciativa com líderes africanos, na FAO, em Roma. Lula quer reunir ministros de Agricultura do continente em Brasília, em abril, para examinar mecanismos de financiamento a serem levados à reunião de cúpula do G-20 em junho, no Canadá.
Atualmente, só 10% das Savanas estão cultivadas. A Embrapa já identificou 35 projetos de cooperação em 16 países e entraria com US$ 12,8 milhões.
Um projeto que começou a tomar corpo neste mês é para ajudar na exploração de 3 milhões de hectares em Moçambique, em cooperação com o Japão, que já ajudou por sua vez na exploração do Cerrado brasileiro.
Os japoneses entrarão com o dinheiro, cerca de US$ 300 milhões em dez anos; o Brasil, com a tecnologia; e os africanos, com a terra. A ideia é produzir soja, milho, arroz e outras commodities.
O presidente da Embrapa, Pedro Arraes, afastou a ideia de que se estaria estimulando a criação de concorrentes para o agronegócio brasileiro. “Tenho certeza de que a demanda vai aumentar globalmente muito. E, se não houver soja suficiente, os usuários partem para outro produto.”
A fome atinge 1,2 bilhão de pessoas. Nesse cenário, o Brasil é visto como um sucesso. A ONG ActionAid diz ter avaliado vários países e concluido que foi o Brasil o que melhor conseguiu combater a fome. (AM)
Tags: ActionAid, Africa, agricultura, combate a fome, comércio mundial, cooperação, Embrapa, Fome, governo Lula, investimentos, Savana africana
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*HILARY BENN – O Globo
Mais de seis bilhões de pessoas compartilham os frágeis sistemas de apoio à vida na Terra.
Com mais pessoas vivendo nas cidades, podemos nos sentir distantes da natureza, mas somos completamente dependentes daquilo que ela nos oferece. É fácil esquecermos que a natureza nos fornece o alimento e a água que nos sustentam; e um clima estável.
À medida que a população mundial cresce, os recursos naturais acabarão por tornarem-se incapazes de responder às nossas demandas. A paz e a estabilidade globais dependem de nossa habilidade de encontrar novas maneiras de crescer e gerir nossos recursos para que todos se beneficiem deles, hoje e no futuro.
E é isso o que significa desenvolvimento sustentável.
Se quisermos alcançar um mundo mais sustentável, precisamos enfrentar nossa responsabilidade por mudanças climáticas. Se falharmos em cortar as emissões de gases de efeito estufa, estaremos sujeitos a secas, inundações e perdas de colheitas.
A mudança do clima representa uma ameaça à prosperidade global. É por isso que o Reino Unido se comprometeu a cortar suas emissões em 34% até 2020 e 80% até 2050, e propôs um fundo de 100 bilhões de dólares anuais para ajudar as nações em desenvolvimento a lutar contra estas mudanças.
A transição para uma economia mais sustentável não significa sacrificar o crescimento ou cercear as aspirações dos países ricos ou pobres.
O Relatório Stern possui uma mensagem simples: enfrentar a mudança do clima não custará nada ao planeta, mas a Terra pagará o preço se não fizermos nada.
É do interesse de todos enfrentarmos essa ameaça juntos. O comprometimento do Brasil em reduzir o crescimento de duas emissões em 38-42 % até 2020, incluindo a redução do desmatamento em 80%, é realmente ambicioso.
O Brasil emerge como uma das potências econômicas e políticas.
Sua economia é estável, sua população vem prosperando e algumas de suas empresas são reconhecidas mundialmente. Mas o Brasil sempre foi mais do que uma potência convencional. É o lar de aproximadamente um quinto de todas as espécies conhecidas. Suas florestas fornecem à América do Sul a chuva para regar as plantações, e ao resto do mundo, um clima estável. Além disso, o país tem sido líder no desenvolvimento de biocombustíveis e no monitoramento via satélite.
É exatamente desse tipo de liderança que o mundo precisa agora. O Brasil tem a oportunidade de consolidar sua reputação de potência ambiental. É possível fazê-lo expandindo sua matriz energética sustentável e seu monitoramento da Amazônia para outros biomas, explorando novas formas de cultivo e pecuária e compartilhando suas tecnologias agrícolas e de monitoramento de outras regiões mega diversas na África e na Ásia.
Em cerca de 20 dias, o mundo se reunirá em Copenhague com o objetivo de acordar uma estrutura política para combater o aquecimento global. Será o primeiro passo no caminho rumo a um mundo mais sustentável. Devemos dar esse passo juntos. O Reino Unido está pronto para embarcar nessa jornada e contamos com o Brasil.
*HILARY BENN é ministro de Meio Ambiente, Alimentação e Questões Rurais do Reino Unido.
Tags: agricultura, biodiversidade, clima, CO2, desenvolvimento sustentável, energia, energia limpa, floresta amazônica, gases de efeito estufa, Hilary Benn, Relatório Stern
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Mas produtores reclamam que, mesmo com esse potencial, setor está ameaçado pela falta de investimentos em infraestrutura
Analistas dizem que, para ser celeiro do mundo, país precisa de investimentos do governo, dos próprios produtores e de empresas
Marlene Bergamo – 23.set.2009/Folha Imagem
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Suínos em frigorífico em Santa Catarina; demanda por alimentos crescerá
MAURO ZAFALON – FOLHA SP
DA REDAÇÃO
Enquanto atenções e planos de investimentos no país se voltam à exploração de petróleo na região do pré-sal, produtores agrícolas reclamam que o “pré-sal” do campo, que deve trazer US$ 1 trilhão ao país em dez anos, está ameaçado justamente pela falta de investimentos em infraestrutura.
Com tantos investimentos em pré-sal, trem-bala, Copa do Mundo e Olimpíada, os problemas do campo podem ser relegados a segundo plano, temem os agentes do setor.
É difícil imaginar como será a participação do petróleo na economia mundial em 20 anos. Mas não é difícil prever a importância dos alimentos.
Relatórios recentes de vários organismos internacionais, entre eles da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e da ONU (Organização das Nações Unidas), mostram que haverá forte demanda de alimentos nos próximos anos, e todos são unânimes em apontar a importância do Brasil como grande produtor de grãos, proteína animal e biocombustíveis.
O país, que já é grande fornecedor mundial de alimentos, deverá ter participação ainda maior no contexto internacional nas próximas décadas.
As receitas com exportações nacionais do agronegócio cresceram a uma média de 13% ao ano na última década, devido a demanda maior, melhora nos preços e aumento de renda em países emergentes.
Com apenas metade dessa evolução por ano, o país acumularia US$ 1 trilhão nos próximos dez anos. Se for mantido o mesmo percentual de evolução dos últimos dez anos, o valor chegaria a US$ 1,5 trilhão na próxima década -até 2019.
Do estágio atual à condição de celeiro do mundo, no entanto, o caminho a ser percorrido é longo, dizem os analistas.
Especialistas no setor são unânimes em dizer que há muito para ser feito, e essas ações não dependem só do governo mas também dos próprios produtores e empresas do setor.
Da parte do governo, as ações devem focar investimentos em infraestrutura, avanços em tecnologia, questões ambientais e política agrícola de longo prazo.
Menos sonegação
Já da parte de produtores e empresas, afirmam ser necessária uma melhora na gestão dos negócios e maior responsabilidade empresarial, que inclua reduções na sonegação de impostos e na corrupção.
“Os investimentos virão com certeza, e várias mudanças serão necessárias, mas não é mostrando garras, unhas e dentes que elas ocorrerão. Serão necessários acordos políticos de fundo”, diz Reinhold Stephanes, ministro da Agricultura.
Para Stephanes, reestruturação das empresas agropecuárias, mudanças de contratos e questões tributárias e de sonegação estão entre as prioridades para o futuro.
Guilherme Dias, professor da USP e que participou do governo Fernando Henrique Cardoso, também diz que serão necessárias mudanças no setor produtivo.”Há uma resistência da base produtora para a evolução. Parte ainda prefere a sonegação tributária e a corrupção a uma regulação do setor.”
Luis Carlos Guedes Pinto, ex-ministro da Agricultura e vice-presidente da área de agronegócios do Banco do Brasil, acrescenta à lista de problemas a serem resolvidos a necessidade de regularização da posse de terra e uma melhora nas relações de trabalho.
“O Brasil vai ficar na pauta do mundo” e duas palavras vão determinar esse novo cenário agropecuário: concentração e internacionalização, segundo Roberto Rodrigues, também ex-ministro da Agricultura. “O pré-sal vai trazer um tsunami de dinheiro para o país.” Esses investimentos não ficarão apenas em petróleo, mas irão também para saúde, educação, chegando ainda às indústrias de insumos e de alimentos.
Mas o país tem de ter estratégias, adverte Rodrigues. Política agrícola existe, mas são necessários instrumentos para sua aplicação.
Os técnicos da Unctad concordam com Rodrigues e sugerem que os governos enquadrem o fluxo de financiamentos para a produção e que elaborem contratos padrão para proteger os produtores.
Tags: agrícola, agricultura, agro-indústria, agropecuária, alimentos, campo, infraestrutura, investimentos
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“CANA DE AÇÚCAR”, de Bete Brito. Tela painel 60×60cm, óleo s/tela e textura acrílica.
TENDÊNCIA
A introdução das primeiras variedades transgênicas de cana, o melhoramento genético clássico com a seleção de novas variedades e o desenvolvimento de tecnologias sofisticadas para orientar o plantio podem aumentar a produtividade da cana-de-açúcar entre 40% e 50% nos próximos 20 anos no Brasil. A avaliação – que reforça a posição do País como imbatível na produção de açúcar, álcool e energia renovável – é do diretor-superintendente do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Nilson Boeta, feita durante o lançamento das novas variedades de cana da instituição de pesquisa, em Ribeirão Preto (SP). Fonte O Estado SP
Tags: açúcar, agrícola, agricultura, alcool, campo, Cana, cana de açúcar, commodities, CTC, Produtividade, tecnologia
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TV GLOBO
agrofolha
Plano que vai financiar a próxima safra terá R$ 107,5 bilhões, dos quais R$ 15 bilhões irão para a agricultura familiar
Lula apela a agricultores para manter produção a fim de atender a demanda que virá da recuperação da economia mundial
JOSÉ MASCHIO DA AGÊNCIA FOLHA, EM LONDRINA
No lançamento do Plano Agrícola e Pecuário 2009/10, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem em Londrina (PR) um apelo para que os agricultores continuem plantando, de olho na recuperação econômica mundial. Ele comparou os grandes países a um urso em hibernação na crise, que vai estar faminto após esse período. “”Plantem, plantem, plantem”, afirmou Lula.
Na solenidade foram anunciados R$ 107,5 bilhões para o plano, um total 37% maior que o destinado para a safra 2008/ 9. R$ 92,5 bilhões foram destinados à agricultura comercial e R$ 15 bilhões para a familiar.
Lula também apelou aos agricultores para que acompanhem a liberação de recursos, pois, segundo ele, não adianta aprovar verbas se elas não chegam aos produtores. Neste plano de safra, a novidade foi a liberação de R$ 2 bilhões para o Programa de Capitalização de Cooperativas Agropecuárias, em uma rubrica de R$ 14 bilhões para investimentos.
Ainda com relação a investimentos, o governo federal anunciou outro R$ 1,5 bilhão para ampliar o Programa de Incentivo à Produção Sustentável do Agronegócio. Outros R$ 5 bilhões serão destinados ao fortalecimento do Proger (Programa de Geração de Emprego e Renda). Os preços mínimos fixados para 33 culturas tiveram reajustes de até 65%.
O Proger foi destacado, no lançamento do Plano Agrícola e Pecuário, para atender médios produtores com juros anuais menores (6,25%) do que os grandes (6,75% ao ano). Segundo o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, o novo Proger foi “”desenhado” para dar ao médio produtor condições de crescer.
Ele se destina a produtores com renda anual de até R$ 500 mil, que terão recursos para custeio, investimento, comercialização e aquisição de máquinas de até R$ 250 mil. Antes o limite era de R$ 150 mil.
O presidente da Sociedade Rural do Paraná, Alexandre Lopes Kireef, anfitrião de Lula em Londrina, pediu, em discurso, modificações na legislação ambiental. Lula enfatizou a necessidade de equilíbrio nesse debate. “”Não dá para pegar um Estado que desmatou nos anos 30, 40 e dizer: “assim não dá, vamos replantar tudo”.”
Lula criticou ainda “”aqueles que fazem a separação” entre agricultura familiar e agronegócio. Segundo o presidente, o país “”depende dos dois”.
O presidente afirmou que a função do governo federal é preparar o país para produzir e andar. “”Não adianta produzir e ficar na mão de três ou quatro tradings, que na hora do “pega para capar” correm e nos deixam na mão.”
Para ressaltar a importância que é dada ao agronegócio durante os dois mandatos de Lula, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) disse que no plano de safra 2002/3 o governo federal liberou R$ 24,7 bilhões.
Dilma afirmou que as obras de infraestrutura e logística do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) têm como objetivo eliminar gargalos na agropecuária brasileira, especialmente para o escoamento da produção.
Ricardo Stuckert/PR

Ao lado dos ministros Dilma Rousseff e Stephanes, o presidente Lula admitiu o tom político do anúncio do novo plano
Política agrícola: Foco para a temporada 2009/10 será centrado na “classe média rural” e nas cooperativas
Em clima eleitoral, governo confirma plano de R$ 92,5 bi
Mauro Zanatta, de Brasília – VALOR
O governo confirmou ontem, ao anunciar o novo Plano de Safra para o ciclo 2009/10, que dará prioridade de estímulos à classe média rural e às cooperativas agropecuárias. O lançamento oficial, feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Londrina (PR), destinou R$ 92,5 bilhões ao financiamento do segmento empresarial, dos quais R$ 12,3 bilhões reservados à agroindústrias e usinas de álcool já haviam sido anunciados em abril. Mesmo sem reduzir os atuais juros de 6,75% ao ano, o governo garantiu R$ 54,2 bilhões em recursos a taxas subsidiadas pelo Tesouro.
As medidas do governo reservaram, como antecipou o Valor, um orçamento de R$ 5 bilhões aos médios produtores com renda bruta anual até R$ 500 mil. E acabaram com o limite de propriedade de até 1,5 mil hectares para esses produtores. Na prática, a mudança reduz os juros ao setor rural, já que a taxa do Proger está em 6,25% ao ano.
Ao mesmo tempo, o governo federal criou uma nova regra para obrigar os bancos operadores do crédito rural a emprestar ao segmento dentro da parcela de 30% de aplicação obrigatória sobre os depósitos à vista – as chamadas exigibilidades bancárias. A partir da nova safra, que começa oficialmente no próximo dia 1º de julho, os bancos terão que emprestar ao menos 6% das exigibilidades aos médios produtores. Na safra 2010/11, o índice passará a 8%, chegando a 10% no ciclo 2011/12.
O governo deixou evidente sua opção pela pequena e média agriculturas. Os produtores familiares, por exemplo, já têm garantidos ao menos 10% das exigibilidades pelo governo. Assim, em 2011, pequenos e médios terão 20% dessas exigibilidades. “Como o cobertor do crédito é curto, fica clara a opção do governo”, avalia o diretor Febraban, Ademiro Vian. Para completar a prioridade, o governo criou uma linha de R$ 2 bilhões para capitalização das cooperativas agropecuárias a juros de 6,75%, seis anos de prazo e dois de carência. Cada associado poderá financiar R$ 25 mil para reforçar sua cota-parte na cooperativa. Os grupos também poderão emprestar até R$ 50 milhões nesse linha.
O governo elevou os limites de crédito para custeio – de R$ 170 mil a R$ 600 mil, segundo a cultura – e elevou o orçamento de investimento a R$ 14 bilhões, além de reajustar os preços mínimos de todos os principais produtos. O orçamento para a comercialização da nova safra será de R$ 5,2 bilhões, informou o Ministério da Agricultura. O governo também elevou, de R$ 273 milhões para R$ 452 milhões, os recursos para subsidiar metade do prêmio do seguro rural em 2010.
O evento do lançamento do novo plano teve um tom bastante político. O governo escolheu a dedo a cidade do evento. Segundo maior colégio eleitoral do Paraná, Londrina é a base política do ministro Paulo Bernardo (Planejamento), pré-candidato a governador, e de sua esposa, Gleisi Hoffmann, pré-candidata ao Senado. A região norte do Paraná também é uma das principais bases eleitorais do ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, que obteve parte de seus 101,7 mil votos de deputado federal por lá.
Questionado sobre o tom político do evento, o presidente Lula, que estava acompanhado pela ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), admitiu a interferência. “(…) a gente não consegue segurar ministro. Tem um comichão assim, uma coisa, uma coceira, que quando vai chegando perto do ano eleitoral todo mundo quer ser candidato a alguma coisa. (…) eu acho que se o Paulo Bernardo quiser ser candidato, ele tem direito de querer ser candidato”, afirmou a uma rádio local. “Eu não posso impedir que ninguém seja candidato. Obviamente que, sendo candidato, eu espero que, aqui no Paraná, a gente consiga construir uma aliança política e que todo mundo esteja junto. E que demarquemos quem é o nosso adversário e trabalhemos para derrotar nossos adversários tradicionais lá de Brasília e do Estado do Paraná”, explicitou Lula.
O “adversário” é o PSDB do senador Álvaro Dias e do prefeito de Curitiba, Beto Richa. O presidente Lula trabalha para garantir uma chapa a governador com o senador Osmar Dias (PDT) na cabeça, o PT na vice ou em uma das duas vagas ao Senado, que também teria o governador Roberto Requião (PMDB).
Tags: , agricultura, agricultura familiar, cooperativas, crédito, Plano de Safra, rural, safra 2009-2010
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Política agrícola
Patrick Cruz, de São Paulo – VALOR
Ruy Baron / Valor

Faturamento de cooperativas agropecuárias pode cair até 8% neste ano, afirma Márcio Freitas, presidente da OCB
O Conselho Monetário Nacional (CMN) deve aprovar em sua próxima reunião uma linha de R$ 2 bilhões, a ser ofertada pelo BNDES, para o Programa de Capitalização de Cooperativas de Produção (Procap). A próxima reunião do conselho está agendada para o dia 25 deste mês.
O programa financiará a compra de cotas-partes de cooperativas. A taxa de juros da nova linha será de Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), atualmente de 6,25% ao ano. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, já havia apresentado o novo programa no fim de abril, mas ele ainda depende da aprovação do CMN.
Naquele mês, o conselho aprovou uma série de medidas de apoio à atividade rural que somou R$ 12,6 bilhões. Entre as medidas que incluíram as cooperativas entrou uma linha para o financiamento de capital de giro. “O setor está preocupado com o acesso ao crédito. O processo de endividamento de algumas cooperativas piorou muito”, disse Márcio Lopes de Freitas, presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).
As cooperativas agropecuárias serão as principais responsáveis pela frustração dos planos de crescimento do mercado total de cooperativas no Brasil, segundo o dirigente. Em janeiro, a previsão da OCB era de aumento de cerca de 10% do faturamento total do segmento no país.
No momento, a expectativa é que a receita total das cooperativa, no máximo, repita, o desempenho de 2008, quando o faturamento chegou a R$ 84,4 bilhões. “O faturamento tende a ficar abaixo disso, mas dentro da casa de R$ 80 bilhões”, diz Freitas. Isso representaria uma queda de até 5%.
Entre 2002 e 2008, o crescimento médio do setor foi de 17,6%. Praticamente tudo o que o setor exporta é vendido pelas agropecuárias – em 2008, as vendas ao exterior somaram R$ 4,1 bilhões. “Tem só pouca coisa de exportações de serviços e também de artesanato”, segundo Freitas.
No ramo das agropecuárias, que faturaram R$ 40,1 bilhões em 2008, o declínio projetado é de 7% a 8%. “Dezembro foi horrível e o primeiro trimestre foi ruim, mas em abril e maio já se verificou alguma recuperação”, afirma o presidente. “As cooperativas de crédito, serviços e trabalho devem crescer este ano, mas as agropecuárias foram muito afetadas pela crise”.
O endividamento das cooperativas é um problema, mas também preocupa a retração das tradings na oferta de crédito para a agricultura, segundo Freitas. “Este ainda não é um ano perdido”, diz ele, “e agora as tradings estão começando a oferecer crédito novamente. Mas vamos ver como isso vai ocorrer. Quem vai querer crédito com o dólar baixo como agora? As tradings nos deixaram na mão quando mais precisávamos”.
Em evento realizado pela Sociedade Rural Brasileira (SRB), Luís Carlos Guedes Pinto, vice-presidente de agronegócios do Banco do Brasil e ex-ministro da Agricultura, reiterou a perspectiva do banco de aumentar em 30% os empréstimos para a agricultura na safra 2009/10. “O banco já tem 60% do crédito rural no país. A oferta de crédito no mercado está aquém da demanda, mas nós vamos aumentar os financiamentos no limite das nossas possibilidades. “, disse.
No acumulado até abril da temporada 2008/09, os desembolsos do banco para a agricultura somaram R$ 24,9 bilhões, volume 29,5% superior ao do acumulado entre julho de 2007 e abril de 2008. Segundo Guedes Pinto, as discussões sobre a adoção de um novo modelo de crédito agrícola permanecem em curso, mas ainda não há definição sobre a possibilidade de adoção de algumas medidas já na safra 2009/10.
Tags: agrário, agricultura, BNDES, campo, cooperativas agropecuárias, crédito, dívidas, gasto público, Juros, Sociedade Rural Brasileira
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Nathan Blanche* – O Estado SP
O desempenho da balança comercial brasileira nos últimos anos, e mesmo durante a atual crise, deve ser atribuído principalmente aos superávits dos setores de agronegócio e mineração. Diante deste quadro, já há algum tempo surgem críticas e preocupações de alguns analistas, inclusive com destaque na imprensa, sobre a dependência do saldo comercial da exportação desses produtos. Afirma-se que há uma volta ao atraso da década de 1980, quando o Brasil era exportador exclusivo de produtos básicos. O que se pretende mostrar neste artigo é que não é porque o País é exportador de produtos básicos e semielaborados que está fadado a ter baixos crescimento e desenvolvimento.
A afirmação de “volta ao atraso da década de 1980″ é tendenciosa, superficial e carece de qualquer fundamento para o caso brasileiro. Procede a preocupação em relação ao risco para o desempenho das contas externas e para a trajetória de crescimento econômico de países cuja diversificação da pauta é mínima e a produção carece de desenvolvimento tecnológico.
Países com baixa diversificação de sua pauta de exportação ficam à mercê da tendência e da volatilidade dos preços das commodities específicas, o que de fato pode gerar problemas no balanço de pagamentos. Além disso, a carência de desenvolvimento tecnológico e humano que muito se observa em grandes países exportadores de commodities específicas é um claro limitador ao crescimento de longo prazo dessa economia.
Mas não é porque o país é exportador de produto básico que está fadado a ter baixos investimentos, reduzido crescimento econômico e desenvolvimento limitado. Pode-se tomar como exemplo o Chile, cujas contas externas têm forte dependência do preço do cobre, mas o nível de desenvolvimento humano, tecnológico e institucional é elevado, impulsionando o crescimento de longo prazo da economia.
O Brasil, diferentemente do Chile e de outros países produtores de petróleo, possui uma pauta de exportação bastante diversificada, mesmo quando comparado com países desenvolvidos como Canadá, Austrália e Nova Zelândia (ver quadro abaixo, ref. 2007). Essa diversificação protege a economia de enfrentar estrangulamentos no balanço de pagamentos, como ocorre com países que dependem da exportação de poucos produtos.
Nesse contexto é importante destacar que, apesar da forte retração da demanda mundial e do baixo crescimento doméstico decorrentes da crise financeira, o Brasil ainda deve apresentar um saldo comercial superavitário em US$ 21,8 bilhões e ainda ter uma sobra do balanço de pagamentos na casa de US$ 16 bilhões em 2009.
Além disso, a vantagem comparativa e a competitividade da agricultura brasileira resultam de esforços de décadas. O atual nível tecnológico se deve ao desenvolvimento de pesquisas realizadas por instituições como Embrapa, Esalq, Universidade de Viçosa e outros. E é justamente esse nível tecnológico que permite altos ganhos de produtividade, que fazem com que a agricultura seja lucrativa mesmo com os enormes custos advindos dos entraves de infraestrutura, principalmente no que se refere a armazenamento, estradas, ferrovias e portos.
E a variável-chave que tem permitido que essa vantagem comparativa apareça é o câmbio flutuante, um dos três pilares da política econômica – formado em conjunto com responsabilidade fiscal e monetária – que têm permitido a consolidação da estabilidade macroeconômica brasileira. Diferentemente do passado, quando o câmbio era fixo, os agentes podem ser beneficiados pela rentabilidade gerada por suas atividades.
Assim, o Brasil não se encaixa no grupo de países que poderia enfrentar problemas de balanços de pagamentos e menor taxa de crescimento da economia no longo prazo por depender da exportação do agronegócio e da mineração. Ao contrário, o País não voltou ao atraso da década de 1980, mas, sim, deu vários passos em direção a um futuro marcado por taxas mais expressivas de crescimento da economia.
É importante ressaltar que os setores de agronegócio e mineração devem aumentar sua participação no saldo comercial este ano, o que em parte se deve ao fato de sofrerem menos em momentos de crise, uma vez que apresentam uma demanda mais inelástica a alterações na renda. Por exemplo, a participação do saldo do agronegócio no saldo comercial, que atingiu 113,5%, em 2007; 206,7%, em 2008; e deve passar para 230,4% neste ano. Com isso, acaba beneficiando a indústria e os serviços domésticos, pois, mantendo o controle das contas correntes, evita uma depreciação acelerada do real, o que obviamente demandaria aperto de política monetária, inibindo o consumo interno. Além disso, esses dois setores devem apresentar rentabilidade bastante positiva, apesar da queda importante dos preços em dólares dessas commodities. E isso acontece, uma vez que a depreciação do real compensa boa parte da queda de preços em dólares. Esse benefício não existe só para o Brasil, mas para todos os exportadores de commodities, dada a característica de commodity-currency de suas moedas.
Enfim, as críticas não fazem sentido para o caso brasileiro. Além disso, é justamente a exportação de básicos e semielaborados que está garantindo o bom desempenho da balança comercial e, consequentemente, do balanço de pagamentos. O Brasil só tem ganho com essa estrutura de comércio externo. A vantagem comparativa brasileira nesses setores é clara e vai continuar sendo determinante para o desempenho do saldo comercial no futuro.
*Nathan Blanche é sócio diretor da Tendências Consultoria Integrada
Tags: , agricultura, Agronegócio, Balança Comércial, commodities, exportações, infraestrutura, investimentos, minério, Nathan Blanche
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Alta de preços agrícolas deve injetar até R$ 12 bi na renda de produtores
Governo e consultorias revertem estimativa de queda de 7% e dizem que a renda do campo pode ser igual à de 2008
Márcia De Chiara – O Estado SP
A alta recente dos preços dos produtos agrícolas deve injetar pelo menos R$ 6 bilhões de renda no campo neste ano, segundo os cálculos do Ministério da Agricultura. Consultorias privadas preveem um acréscimo de até R$ 12 bilhões na receita em relação às previsões iniciais, que apontavam queda de 7%. Nos últimos 30 dias, as cotações de soja, algodão e açúcar, por exemplo, subiram 13%, 22%, 18%, respectivamente, nas bolsas internacionais. A recuperação de preços trouxe de volta otimismo ao campo e abriu perspectivas mais favoráveis para o plantio da próxima safra.
Em setembro, com o agravamento da crise financeira, os preços das commodities desabaram e as projeções da receita agrícola para este ano também. O Ministério da Agricultura chegou a projetar no início do ano que a renda das lavouras poderia chegar a R$ 150 bilhões em 2009. Agora, prevê que a receita atinja R$ 156 bilhões, resultado apenas 3% menor do que o obtido em 2008, revela um estudo do Ministério da Agricultura a que o Estado teve acesso e será divulgado amanhã.
“A tendência é de que a renda agrícola de 2009 não sofra uma queda tão grande quanto se previa inicialmente e possa até se igualar à do ano passado, que foi recorde”, afirma o coordenador-geral de Planejamento do Ministério da Agricultura, José Garcia Gasques. Em 2008, a renda de 20 produtos agrícolas somou R$ 161,1 bilhões.
Segundo Gasques, o que está puxando para cima a receita são os preços. Ele observa que os dados da receita de abril refletem apenas parcialmente esse movimento porque as cotações consideradas são as de março e a escalada das commodities ganhou força em abril.
Consultorias privadas que consideram em seus cálculos os preços deste mês têm projeções mais otimistas. A RC Consultores, por exemplo, refez as contas e prevê que a renda obtida com a venda de grãos, cana, café e laranja atinja R$ 186,9 bilhões em 2009, ante estimativas iniciais que indicavam R$ 174,5 bilhões. A nova projeção é praticamente a mesma receita recorde obtida no ano passado. “A percepção de renda futura da agricultura mudou”, diz o diretor da consultoria, Fabio Silveira. Ele acredita que esse resultado possa até ser superado.
“Estamos contentes, mas preocupados”, afirma o presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso, Glauber Silveira. Ele explica que a receita com soja pode ser corroída pela valorização do real ante o dólar, apesar de o preço atual do grão, que passa de US$ 11 por bushel na Bolsa de Chicago, superar a média histórica e o esperado diante do cenário de recessão global. O dólar fechou a semana em R$ 2,068, a menor cotação desde outubro do ano passado.
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Agroenergia
Ricardo Balthazar, de Washington – VALOR
O etanol do Brasil será o único combustível capaz de cumprir as metas previstas para a expansão do consumo de biocombustíveis nos EUA na próxima década se tecnologias avançadas não se tornarem viáveis comercialmente logo, indicou ontem a Agência de Proteção Ambiental (EPA, em inglês).
Uma resolução proposta pela agência define critérios rigorosos para o cumprimento das metas estabelecidas pela legislação americana, que condiciona aumento do consumo de biocombustíveis a reduções substanciais nas emissões de dióxido de carbono e outros gases responsáveis pelo efeito-estufa.
A resolução é o passo inicial de um processo regulatório que levará meses para ser concluído. Embora o objetivo seja estimular mudanças na maneira como os biocombustíveis são produzidos nos EUA, criando incentivos para a adoção de tecnologias mais limpas, a medida também poderá criar oportunidades para usineiros brasileiros interessados em elevar suas vendas aos EUA.
A legislação dos EUA determina que as refinarias do país comprem neste ano 42 bilhões de litros de biocombustíveis e elevem o consumo para 136 bilhões de litros até 2022. A maior parte da demanda gerada por essa obrigação atualmente é atendida pelas usinas de etanol locais, que usam o milho como matéria-prima.
Mas os EUA querem frear a expansão das usinas de etanol de milho, para evitar que seu avanço continue empurrando para cima os preços do grão e gerando dificuldades para criadores de gado, indústrias alimentícias e outros setores. Segundo a lei, a produção de etanol de milho deve alcançar 57 bilhões de litros em 2015 e não poderá passar disso.
Os outros 79 bilhões de litros que as refinarias precisarão comprar para cumprir as metas previstas por lei terão que ser produzidos com tecnologias mais modernas, capazes de assegurar reduções de 20% a 60% nas emissões de gases de efeito estufa associadas ao uso de gasolina. Somente o etanol do Brasil, feito de cana, teria condições de atender hoje aos critérios propostos pela EPA.
Segundo cálculos preliminares apresentados ontem pela agência, o uso do etanol de cana como substituto da gasolina permitiria uma redução de 44% nas emissões de gases-estufa. Para cumprir as exigências da EPA, o etanol de cana precisaria assegurar uma redução de 40% a 50%. O uso de etanol de milho permitiria uma redução de apenas 16%.
Combustíveis mais avançados como o etanol celulósico, que pode ser feito com capim, madeira e diversos resíduos vegetais, poderiam alcançar reduções superiores a 100%, diz a EPA. Mas o etanol celulósico ainda não é produzido em escala comercial em lugar nenhum do mundo e muitos especialistas acham que vai demorar para ele se tornar viável.
A resolução da EPA adota um método controverso para calcular a contribuição das usinas para a mudança do clima. Além das emissões associadas diretamente à produção e à distribuição de biocombustíveis, a agência leva em consideração efeitos indiretos da expansão da indústria no desmatamento e no uso da terra em outras partes do planeta.
A resolução será submetida a consulta pública por 60 dias. A administradora da EPA, Lisa Jackson, indicou que está disposta a rever seus cálculos, submetendo os modelos da agência à análise de cientistas e especialistas do setor privado. Representantes da indústria de etanol nos EUA e no Brasil se mobilizam para convencer a agência de que são capazes de alcançar reduções maiores do que as estimadas pelos modelos da EPA.
Estudos de especialistas brasileiros recrutados pela União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) e encaminhados à EPA sugerem que o uso do etanol do Brasil em substituição à gasolina pode reduzir em 64% as emissões de gases de efeito estufa, mesmo incluindo na conta estimativas sobre o desmatamento e outros efeitos indiretos, se os modelos reconhecerem a adoção de práticas mais modernas pelas usinas.
Na tentativa de atenuar o impacto negativo que a iniciativa da EPA poderá ter para os produtores de etanol de milho, o governo americano anunciou a criação de um grupo especial com a missão de ajudar a indústria doméstica a desenvolver tecnologias mais avançadas. O grupo será formado pelos departamentos de Agricultura e Energia dos EUA e pela EPA.
Numa teleconferência em que a criação do grupo foi anunciada a jornalistas, o secretário de Energia, Steven Chu, disse ontem que a produção de etanol de milho foi “um bom começo” para reduzir o consumo de petróleo nos EUA, mas o investimento em novas tecnologias dará ao país “opções muito melhores”. O governo pretende investir US$ 786,5 milhões neste e no próximo ano para desenvolver a produção de etanol celulósico.
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A limitação ao etanol de milho, favorece o etanol de cana e preserva a produção de alimentos
Decisão favorece produtores brasileiros de etanol
Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP
O governo Barak Obama divulgou ontem as novas regras para as metas de combustíveis renováveis nos Estados Unidos, que representam uma grande vitória para o etanol de cana brasileiro. Essas regras classificaram o etanol de cana, oficialmente, como mais eficiente na redução da emissão de poluentes que o de milho, produzido nos EUA. Essa classificação abre o caminho para usinas brasileiras concorrerem às cotas de “biocombustíveis avançados” , que serão de 2,2 bilhões de litros neste ano e chegarão a 80 bilhões de litros em 2020.
A Agência de Proteção Ambiental, a Secretaria de Agricultura e a Secretaria de Energia anunciaram as novas referências, segundo os quais o etanol de milho reduz em 16% as emissões de poluentes (em comparação com a gasolina), enquanto o de cana reduz em 44%.
Esses índices levam em conta a emissão de poluentes durante o transporte e a distribuição, pela queima de combustível nas usinas. Mas consideram também o controverso cálculo do uso indireto da terra: com o aumento da demanda por milho ou cana para produzir etanol, aumenta o preço dessas commodities e cresce a área cultivada em outros lugares, o que causa desmatamento e, consequentemente, emissão de poluentes. O cálculo foi adotado pelo governo por pressão de grupos ambientais, preocupados com os efeitos dos biocombustíveis no preço dos alimentos e no desmatamento.
Para ser “avançado”, o combustível precisa reduzir em pelo menos 50% a emissão de poluentes, com tolerância de 10 pontos porcentuais. assim, o etanol de cana, que reduz em 44%, está qualificado para abastecer os 80 bilhões de litros de combustíveis avançados que estão na meta da lei de combustíveis renováveis. O etanol de milho ficou de fora.
Para ser qualificado apenas de “renovável”, o combustível precisa reduzir em pelo menos 20% a emissão de poluentes. Como o etanol de milho só reduz emissões em 16% , está comprometida toda a justificativa ambiental do lobby do milho para receber subsídios e manter tarifas sobre o etanol importado.
Como a regra não é retroativa, as usinas de etanol de milho nos EUA continuarão a funcionar e a fornecer para as refinarias. A regra vale para eventuais novas usinas de etanol de milho, que estão abaixo da qualificação ambiental. Portanto, na prática, fica impedida a expansão da produção do etanol de milho.
CELULOSE É MELHOR
O etanol de celulose é o que promove a maior redução nas emissões, de 128%, mas ainda não é viável comercialmente. A diretora da Agência de Proteção Ambiental, Lisa Jackson, deixou claro que, para o governo , o etanol de milho “é apenas uma ponte, uma transição para a próxima geração de etanol”. O preço do milho no mercado futuro caiu 0,1%, refletindo a esperada queda na demanda.
Essas regras ainda vão passar por um período de consultas de 60 dias e o lobby do etanol de milho promete protestar. “Há um grau enorme de incerteza no cálculo do uso indireto da terra, por isso haverá muita revisão”, disse Bob Dineen, diretor executivo da Associação de Combustíveis Renováveis, que representa os produtores de etanol de milho. Segundo os modelos usados por Dineen, o etanol de milho reduz em até 61% a emissão de poluentes.
Joel Velasco, representante da Unica nos Estados Unidos, comemorou o anúncio. “Confirma que há diferenças entre os biocombustíveis”, disse. Biodiesel de soja reduz em 22% e biodiesel de gordura, em 80%.
As novas referências são parte do plano do governo de usar US$ 786 milhões do pacote de estímulo e US$ 1,1 bilhão do Departamento de Agricultura para promover combustíveis alternativos. O plano prevê o aumento da disponibilidade de etanol nos postos, maior produção de veículos flex e mais ajuda para produtores de etanol em dificuldades, já que muitos foram duramente atingidos pela crise e pela queda dos preços.
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Relação de troca para comprar adubo tem melhora
EDUARDO SCOLESE – FOLHA SP
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Diferentes dados revelam sinais de recuperação do agronegócio, apesar das reclamações dos ruralistas, que pedem nova renegociação de dívidas, garantia de preço mínimo e um pacote volumoso de recursos para o plano agrícola 2009/10.
Um desses indicativos aparece numa espécie de índice de custeio criado pela Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos). Ele mede a quantidade do produto agrícola necessária para adquirir uma tonelada de fertilizante.
De dez produtos analisados, houve queda de custo em oito deles, numa comparação do primeiro trimestre deste ano com a média do ano passado. Por exemplo: em 2008, um produtor tinha de oferecer 26,3 sacas de soja para receber uma tonelada de fertilizante. Neste ano, até agora, precisa de 23,7 sacas -queda de 10%.
“Caiu o preço do adubo, aumentou o preço em reais do produto exportado, a relação de troca começa a ficar mais favorável”, afirma Eduardo Daher, da direção da Anda. Sobre o clima entre os representantes ruralistas, ele diz: “Neste momento não deveríamos estar nem otimistas nem pessimistas”.
Nos últimos meses, tanto a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) como integrantes da bancada ruralista do Congresso têm feito reclamações públicas sobre as dificuldades dos produtores.
A CNA tem orientado seus associados a atuar com cautela para a próxima safra, enquanto, por conta dessa pressão, o governo se movimenta para buscar R$ 100 bilhões em créditos para o plano agrícola e pecuário 2009/10. O plano passado teve R$ 65 bilhões para a agropecuária empresarial.
Menos nuvens
Sobre as exportações, os números do agronegócio também aparecem menos nebulosos.
Um trabalho da assessoria do deputado federal Beto Faro (PT-PA) revela que, dos 10 produtos que mais arrecadam com vendas ao exterior, 4 têm apresentado forte alta em 2009.
Numa comparação entre o primeiro trimestre deste ano e os três primeiros meses de 2008, o produto que mais avançou em volume de recursos foi o açúcar (59%), seguido de milho, (41%), soja (30%) e fumo (13%). Se somados os dez principais produtos, 2009 apresenta leve queda (1%) ante 2008.
Em relação ao valor dos produtos, após uma aparente bolha de valorização pré-crise, o índice criado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (USP) para medir o preço das exportações tem caído desde o fim do ano passado. Ainda hoje (136,73), porém, mantém-se em patamar acima da média dos últimos quatro anos (133,01).
Para Karlin Saori Ishii, pesquisadora do Cepea, o atual cenário pode ser visto de dois ângulos: o do pessimismo, se comparado com o crescimento entre 2002 e setembro de 2008; e de otimismo, se os atuais valores forem comparados com as médias dos últimos anos. “Com a crise, a gente tem o problema de demanda e de crédito. Talvez, quando estabilizarem, os preços terão de novo uma tendência de alta”, diz Ishii.
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Alberto Tamer* – O Estado SP
Um balanço dos intensos 100 dias de Obama é positivo para o Brasil. Na verdade, ele e sua equipe estão agitando e revolucionando a economia americana, que receberam em frangalhos. Não perdeu tempo com as discussões acadêmicas sobre se deveria primeiro socorrer o sistema financeiro para depois estimular a demanda e o crescimento. Desde os primeiros dias, atacou as duas frentes, consciente de que ambas se interdependem e são imprescindíveis para superar a recessão. O mercado financeiro tem sido saneado a custos elevados e a política fiscal começa a dar algum ânimo ao consumidor. Somente isso impediu que o PIB não tivesse uma queda maior que 6,1% neste trimestre. De novo, herança do passado, quando o PIB recuou 6,3%. Somente nos próximos meses o dinheiro da política fiscal começará a entrar no sistema. Se tudo continuar como está – mercado financeiro socorrido e demanda estimulada – a recessão americana poderá terminar em 2009. No momento, a economia parou de afundar ou afunda mais lentamente, o que já é um bom resultado. Afinal, alguém agora está fazendo alguma coisa, oportuna e certa.
FOI BOM PARA NÓS
O grande mérito dos 100 dias de Obama é que sua política está trazendo alguma sensação de alívio no mercado financeiro. E é aí que nos beneficia. Estamos muito longe da normalidade, mas o governo e as empresas brasileiras voltaram a captar no mercado financeiro internacional depois de uma longa e difícil ausência. Além disso, os investimentos financeiros começam a afluir novamente nas bolsas ou na compra de títulos do governo e outros papéis.
O simples anúncio da vitória de Obama abriu novas oportunidades ao Brasil. O governo captou US$ 1 bilhão, no dia 6 de janeiro. E isso após uma ausência de quase 8 meses no mercado. A última captação havia sido feita em 14 de maio de 2008.
O setor privado foi mais ativo. Em março, entraram US$ 750 milhões de captação da Telemar e devem estar entrando US$ 700 milhões de empresas do grupo Friboi. A Odebrecht também levantou US$ 150 milhões em bônus no dia 3 de março. “Os governos (federal e estadual) tem dado ênfase na infraestrutura para sustentar a economia”, afirmou Paulo Cesena, diretor financeiro da empresa. Estão programadas outras operações nesse mesmo setor, estradas, usinas. Também a Petrobrás votou a ser ativa no mercado financeiro.
Nada disso seria possível há 8 meses. O plano de Obama está sendo bom para o Brasil. E isso pode ser apenas o começo. Se o governo brasileiro lançar concorrência para outras obras a serem executadas pelo setor privado, certamente mais recursos entrarão no país nos próximos meses.
HÁ MUITA BOBAGEM…
Nos balanços dos 100 dias, tenho ouvido e lido as coisas mais controversas e algumas até engraçadas. Um professor acadêmico disse que o Brasil não se beneficiou com a nova política de Obama porque os EUA não liberaram o comércio agrícola e continuam dando subsídios aos seus produtores… Isso é falta de informação ou deformação ideológica (abaixo o Satã do Norte…). De acordo com o Ministério da Agricultura, entre janeiro e março deste ano, as exportações do agronegócio para os EUA representam apenas 10,1% do total. Eles são ainda os maiores importadores, mas, ainda de acordo com a tabela do ministério, elas são de apenas US$1,4 bilhão.
Pode argumentar que nossas vendas totais – não só do agronegócios – para os EUA caíram 37,8% no trimestre. Mas esse não foi um fenômeno isolado. Houve aumento de 20,9% para a Ásia, com destaque para para a China, 62,7%. Todos os demais mercados reduziram drasticamente as compras do Brasil e de outros países. O caso do nosso “querido” Mercosul é típico: uma retração de 29,2%.
O protecionismo dos países afundados na recessão não será atenuado com palavras de queixa e protesto. Cabe ao Brasil aproveitar as oportunidades e atrair os recursos que tanto precisamos. Obama está acertando. E nós também se o governo continuar criando condições para captar aqueles dólares que apenas agora começam a dar tímidos sinais de vida.
*E-mail: at@attglobal.net
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celso.ming@grupoestado.com.br
A depender das estimativas oficiais e dos analistas independentes, o tombo da safra 2008/2009 não será tão grande quanto se esperava há apenas um mês. É mais um elemento que parece mostrar que as condições da economia brasileira não estão tão ruins como pareciam há dois meses.
Terça-feira, tanto o IBGE como a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) reviram suas expectativas de produção para cima. Passaram de uma queda de 7,3%, estimada em março, para 6,5%, no caso do IBGE, e de 6,1% para 4,5%, nos números da Conab.
Isso parece indicar que a economia do interior deve se recuperar mais rapidamente do que se esperava, o que também deverá reanimar tantas administrações municipais afundadas na redução da arrecadação.
Para o analista de mercado da Agroconsult, Marcos Rubin, o pico das projeções mais pessimistas se deu nos primeiros dois meses do ano porque havia muita incerteza sobre os efeitos da forte estiagem que atingiu as plantações em novembro e dezembro passados, principalmente na Região Sul do País. Calculadas as perdas das safras de verão, o produtor pode ter visto nas culturas de inverno (milho e trigo) uma oportunidade de recuperação.
No caso do milho, que possui importante ciclo de inverno, a soma de preços melhores e de uma redução nos custos incentivou os produtores a aumentar a área de plantio, mas que, ainda assim, é inferior à registrada na safra passada. “O cenário geral, em comparação ao que se viu no início deste ano, está melhor”, diz Rubin.
E há outro fator positivo: os custos médios de produção, que, no caso da soja cultivada na região de Mato Grosso, tiveram um aumento de 82% na safra 2008/2009 em relação à anterior, já começam a cair.
O analista da Agroconsult calcula que, para a próxima safra, a redução do custo médio dos fertilizantes para a soja será de 13% e a do custo total de produção, de 8%. O milho, cujo aumento médio nos custos de produção nesta safra foi de 25%, terá queda de 11% na próxima.
Os dados da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda) mostram que a relação de troca do milho (quantidade de sacas de 60 quilos do produto necessária para a compra de uma tonelada de fertilizante) caiu de 51,0 em 2008 para 47,7 no primeiro bimestre deste ano, e a da soja, de 26,3 para 24,6.
O analista Pedro Collussi, da AgraFNP, aponta outros motivos para o otimismo: “Em março, os produtores, influenciados por um relatório mais otimista de estimativa de produção de milho nos Estados Unidos, resolveram plantar de última hora.” A estimativa da redução de área cultivada, que era de 18%, passou a 9,5%.
Em relação ao trigo, cujo plantio se inicia agora, poucas mudanças devem ocorrer. Rubin explica que, por se tratar de uma cultura de rotação, sua decisão de plantio é técnica, também por causa da antecipação dos contratos de venda. “Mesmo com a quebra de produção na Argentina, os preços não mudaram aqui. Pode ser que, no período de colheita, que deve ocorrer no terceiro trimestre, eles estejam mais altos.”
Apesar da queda desta safra, ela ainda deverá ser a segunda maior da história, perdendo apenas para a 2007/2008, que somou 144,1 milhões de toneladas.
COLABOROU NÍVEA TERUMI
Confira
Melhora – Ainda é cedo para afirmar que a crise já passou. Mas esta já é uma boa aposta, com base em alguns indícios. Aqui vão três:
As vendas de produtos que não dependem de crédito parecem bem melhores. Os supermercados, por exemplo, faturaram 1,7% a mais nos dois últimos meses. E o consumo físico de energia elétrica cresceu 3,3% no mesmo período.
E, anteontem, a Associação Brasileira de Papelão Ondulado comunicou que as vendas do produto, muito usado em embalagens, cresceram 16,4% em março, quando comparadas com os números de fevereiro.
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Ricardo Balthazar, de Washington – VALOR
Uma das agências de proteção ambiental mais poderosas dos EUA está prestes a aprovar uma resolução que deverá provocar a reavaliação profunda dos benefícios gerados por biocombustíveis como o etanol, criando novas oportunidades para os usineiros brasileiros interessados em aumentar as exportações do produto para o cobiçado mercado americano.
A medida está há meses em estudos no Conselho de Qualidade do Ar do Estado da Califórnia, organismo encarregado de definir regras para a execução de um ambicioso programa lançado há dois anos para incentivar o consumo de combustíveis limpos e combater o aquecimento global. A iniciativa poderá levar à adoção de políticas semelhantes em outros Estados americanos e na esfera federal.
No centro do debate está a possibilidade de os EUA adotarem um método novo e controverso para calcular a contribuição da indústria dos biocombustíveis para as mudanças climáticas, contabilizando efeitos indiretos como o impacto da produção no desmatamento na Amazônia e no uso da terra em outras partes do globo.
Diversos estudos científicos demonstram que a substituição da gasolina pelo etanol reduz de forma significativa as emissões de dióxido de carbono e outros gases responsáveis pelo efeito estufa. Mas essas análises consideram apenas as emissões que podem ser atribuídas diretamente à produção e à distribuição do combustível e não incluem efeitos indiretos, difíceis de medir com exatidão.
Os ambientalistas americanos temem que o avanço dos biocombustíveis empurre a produção agrícola mundial para regiões como a Amazônia, o que poderia anular seus benefícios para o planeta. Mas os estudos que estão sendo feitos nos EUA têm servido para realçar as vantagens que o etanol brasileiro oferece em relação a outros tipos de biocombustível.
Cálculos preliminares do Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia sugerem que o etanol produzido no Brasil permite reduzir em 72% a emissão de gases-estufa associados ao consumo de gasolina, em linha com estudo recente da estatal brasileira Embrapa . Se forem incluídos na conta desmatamento e outros efeitos indiretos atribuídos pelos ambientalistas à produção de álcool, a redução seria bem menor: 24%.
Ainda assim, o álcool brasileiro sairia ganhando na comparação com o etanol produzido nos EUA, onde o combustível é feito de milho em vez de cana-de-açúcar. Os cálculos da Califórnia sugerem que a substituição da gasolina por etanol de milho aumentaria em 4% as emissões de carbono, depois de computados os efeitos indiretos.
A resolução em discussão no Conselho de Qualidade do Ar deve ser aprovada no próximo dia 24 e dará enorme força a esses números. O programa de combate ao aquecimento global lançado pela Califórnia estabelece como meta para a próxima década uma redução de 10% na intensidade de carbono dos combustíveis usados por carros e outros veículos no Estado.
A partir de 2011, as refinarias do Estado precisarão de volumes crescentes de combustíveis limpos para cumprir essa meta. Se as regras propostas pelo governo prevalecerem, os cálculos que incluem o desmatamento e outros efeitos indiretos na análise dos biocombustíveis terão peso decisivo nas escolhas das refinarias e poderão favorecer o álcool produzido no Brasil.
Mais rico dos Estados americanos, a Califórnia consumiu quase 57 bilhões de litros de gasolina em 2008. Se as refinarias substituíssem um décimo disso por etanol, misturando o álcool à gasolina para cumprir as exigências da legislação do Estado, a demanda gerada pela iniciativa seria equivalente a três vezes o volume de etanol vendido pelos usineiros brasileiros para os EUA no ano passado.
Se a proposta dos ambientalistas da Califórnia vingar, o álcool do Brasil terá uma vantagem significativa sobre o etanol feito de milho nesse mercado. “O combustível que proporcionar uma redução maior das emissões de carbono poderá cobrar um prêmio por isso”, disse o representante da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) nos EUA, Joel Velasco, que tem acompanhado de perto a discussão do tema na Califórnia.
O etanol brasileiro enfrenta atualmente diversas barreiras para entrar nos EUA. Os produtores americanos recebem subsídios oficiais generosos para extrair o combustível do milho. Tarifas impostas ao álcool importado encarecem o produto brasileiro, reduzindo sua competitividade. As normas em debate na Califórnia podem reduzir a importância dessas barreiras se de fato gerarem um aumento na demanda pelo etanol do Brasil.
Políticos, cientistas e grandes corporações com interesses no setor tem se mobilizado para influir na discussão. Vários grupos estão pressionando as autoridades da Califórnia a abandonar a ideia de incluir os efeitos indiretos nas suas análises, por causa das perdas que isso pode causar especialmente às usinas americanas. É provável que diversos grupos recorram à Justiça contra a decisão da Califórnia.
Os modelos matemáticos usados para calcular os efeitos indiretos são imperfeitos. Se uma floresta é destruída porque fazendeiros precisam de terra para produzir alimentos, o carbono armazenado nas árvores é liberado na atmosfera, contribuindo para o efeito estufa. Mas inúmeros fatores podem contribuir para que isso ocorra, e o avanço dos biocombustíveis em áreas que eram dedicadas à produção de comida é só um deles.
“A premissa básica dessa discussão, a de que os biocombustíveis também são responsáveis por emissões que ocorrem fora da sua cadeia produtiva, está errada”, disse o professor Bruce Dale, um especialista da Universidade de Michigan. “Outro problema é achar que temos condições de analisar todas as variáveis envolvidas no processo e tomar decisões com base em modelos tão pouco confiáveis”.
Mas os ambientalistas têm muito poder na Califórnia e neste ano passaram a ocupar postos-chave em Washington também, com a posse do presidente Barack Obama. “Não há como fugir dessa discussão”, disse Nathanael Greene, um analista do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, um influente grupo de pressão. “Pode haver dúvidas sobre a melhor forma de calcular isso, mas é certo que o impacto dos biocombustíveis sobre o uso da terra não é zero e precisamos desenvolver a indústria de forma mais sustentável”.
Há no momento uma discussão muito semelhante em curso na esfera federal. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla inglês) também está prestes a definir uma nova metodologia para calcular as emissões de gases-estufa associadas aos vários tipos de biocombustíveis, incluindo os efeitos indiretos sobre o uso da terra. A proposta da EPA ainda está em análise na Casa Branca.
Metas fixadas pela legislação americana impõem limites à expansão das usinas de etanol de milho no país e determinam que no futuro o consumo de outros biocombustíveis só poderá aumentar se eles emitirem 50% menos gases-estufa do que a gasolina. Cálculos preliminares feitos pela EPA indicaram uma redução de 44% com o uso do etanol de cana, numa conta que inclui os efeitos indiretos.
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IBGE eleva previsão para a safra 2009
SEGUNDA REVISÃO
O IBGE elevou de novo a estimativa para a safra 2009. Segundo o levantamento de março, a produção agrícola do País vai somar 136,4 milhões de toneladas. A projeção é 0,8% superior à de fevereiro, na segunda revisão consecutiva para cima. Apesar da queda prevista de 6,5% ante o ano passado, a produção esperada será a segunda maior da história do País, e só perde para 2008, de 145,9 milhões toneladas.
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De São Paulo – VALOR
Engana-se quem pensa que o algodão é matéria-prima apenas para as indústrias têxtil e de óleo comestível. Estudos desenvolvidos pela Embrapa Meio-Norte comprovaram não só isso, mas também que o algodão cultivado no Piauí e no Maranhão tem mais potencial para a produção de biocombustíveis que em outras partes do país.
“O caroço do algodão em geral tem um teor de óleo que varia entre 18% e 20% e a produtividade média no Piauí é de 4,3 toneladas de algodão em caroço por hectare. No Maranhão, a produtividade ficou ligeiramente inferior, ao alcançar 4,2 toneladas de algodão em caroço por hectare”, afirma o pesquisador e coordenador da pesquisa José Lopes Ribeiro.
Ele explica que foram feitos vários experimentos até se obter o melhor resultado em produtividade, divulgados no princípio deste ano. “Foram implantados 82 experimentos em sete municípios do Piauí e outros sete no Maranhão”, diz. Segundo ele, no Piauí, os municípios que apresentaram as melhores médias de produtividade foram Baixa Grande do Ribeiro e Uruçuí. Para se ter uma ideia, no primeiro, a variação oscilou entre 3,2 toneladas por hectare a 4,3 toneladas por hectare. Já no segundo, a produtividade média foi de 2,7 toneladas por hectare a 3,4 toneladas por hectare.
No Maranhão, as melhores produtividades foram registradas nos municípios de Tasso Fragoso, com uma variação de 2,7 toneladas por hectare a 4,2 toneladas por hectare, e em São Raimundo das Mangabeiras. Neste último, a produtividade variou de 3,3 toneladas por hectare a 3,9 toneladas por hectare. “As 12 cultivares que mais se destacaram nos ensaios foram recomendadas para o cultivo na região Meio-Norte”, diz.
De acordo com o levantamento sistemático da produção agrícola do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país teve, na última safra, uma área colhida de algodão superior a um milhão de hectares. O Nordeste alcançou 379 mil hectares e o Piauí, 17 mil hectares. A produção brasileira chegou a 3,9 milhões de toneladas. Mas foi a produtividade média no país que mais animou os produtores e pesquisadores, atingindo 3,7 toneladas por hectare.
Outros estudos recentes apontam na mesma direção. A coordenadora de projetos do Pólo Nacional de Biocombustíveis da Universidade de São Paulo (USP), Catarina Rodrigues Pezzo, após uma análise comparativa feita nas cinco regiões do país, concluiu que o biodiesel mais viável e de menor custo é o do caroço do algodão. Pelos seus cálculos, sai a R$ 0,81 o litro, na região Nordeste.
Essa afirmação já havia movimentado o setor em 2007, quando um estudo desenvolvido pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) também demonstrou que o caroço de algodão do Nordeste é a melhor matéria-prima, do ponto de vista econômico, para a produção do biodiesel.
Para a pesquisadora da USP, entre as oleaginosas de peso como a soja e a mamona, o caroço de algodão está na frente por fatores como facilidade de acesso e por resultar em subproduto com valor de mercado. Ela ressalta que o caroço é o subproduto da indústria têxtil e o seu farelo ainda serve para a ração animal, que tem igualmente valor de mercado, e mesmo possuindo um teor de óleo próximo ao da soja – de 14% a 18% – uma das vantagens é não competir com a alimentação, como é o caso da soja.
Na opinião de Catarina Pezzo, o biodiesel é uma alternativa econômica viável para os pequenos produtores, mas salienta que para competir no mercado o projeto só se tornaria viável em uma produção integrada e organizada, por meio de associações ou cooperativas.
De olho nessa possibilidade, a Associação dos Plantadores de Algodão do Mato Grosso (Ampa), que existe desde 1997, e congrega toda a classe produtora de algodão do estado, iniciou há um ano a construção da usina Cooperbio, em Cuiabá-MT, que utilizará entre outras oleaginosas, o caroço de algodão, matéria-prima que possuem de sobra.
Para o presidente da Cooperbio, João Luiz Ribas Pessa, “a possibilidade de se obter óleo do caroço atende à necessidade de melhor utilização deste subproduto, como também em contribuir para a diminuição do custo de produção ao gerar um combustível mais barato que o diesel”. Os associados Cooperbio plantam hoje 405 mil hectares de algodão, produzindo 1,4 milhão de toneladas de algodão em caroço, o correspondente a 530 mil toneladas de fibra e 730 mil de caroço. (R.C.)
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agrofolha
Com alta da soja e maior interesse de investidor estrangeiro, preço médio do hectare no país bate novo recorde nominal
Cotação chega a R$ 4.373; desvalorização do real dá competitividade a produtos de exportação e contribui para recuperar mercados
GITÂNIO FORTES – FOLHA SP
DA REDAÇÃO
Nada de crise no preço das terras. A valorização das commodities neste começo de ano e a retomada do interesse de investidores internacionais, que voltaram a prospectar negócios, repercutiram favoravelmente no mercado. A média nacional do preço do hectare, que ensaiou retração na virada de 2008 para 2009, surpreendeu com registro de alta.
De acordo com o mais recente Relatório de Terras, divulgado bimestralmente pela consultoria AgraFNP há mais de três anos, o preço médio do hectare no país alcançou o recorde nominal de R$ 4.373.
No último bimestre do ano passado, a cotação era de R$ 4.330, menor que os R$ 4.341 de setembro/outubro.
Jacqueline Bierhals, gerente da AgraFNP, aponta a volta do investidor estrangeiro, que se retraiu no fim de 2008, como um dos principais fatores para a valorização. Segundo ela, no começo deste ano, comitivas de empresários chineses, americanos, alemães e holandeses visitaram as principais regiões produtoras de grãos do país.
Não há registro de que negócios tenham sido fechados -até pela época, de proximidade da colheita da safra de verão. Os agricultores se concentram na produção e deixam para depois o investimento em novas áreas ou a análise de propostas pelas suas propriedades.
Ainda de acordo com a AgraFNP, a recuperação dos preços agrícolas devolveu vigor ao mercado de terras.
A valorização da soja na Bolsa de Chicago no primeiro bimestre, em relação aos dois meses anteriores foi de 1,95%. No mercado interno, chegou a 7,45%, afirma Bierhals.
Novo patamar
A diferença se explica pela mudança de patamar do real ante o dólar desde setembro do ano passado, com o agravamento da crise financeira.
Para quem conseguiu escapar dos problemas climáticos -também eles um dos motivos para que os preços agrícolas se recuperem- e manter a produtividade, cada saca de produto exportado agora propicia obter mais reais que antes.
O dólar atualmente na casa de R$ 2,20 nem se compara às mínimas de 2008, quando ficou abaixo de R$ 1,60.
O presidente da Sociedade Rural Brasileira, Cesário Ramalho, afirma que era de esperar outro comportamento do mercado. A expectativa era a de quedas abruptas no valor do hectare, principalmente pelas restrições de crédito, capazes de inibir o financiamento para a aquisição de novas áreas.
“Mas, com a soja na faixa de R$ 40 a R$ 42, a saca e produtividade de 50 sacas por hectare, é possível obter renda acima do custo de produção”, diz o presidente da Rural. Com isso, tornou-se natural que o preço da terra se sustente.
Ramalho ressalva que a valorização, no entanto, não se dá em todos os lugares.
Perto de Bauru e Marília, no interior paulista, região em que o espaço agrícola se divide entre grãos, cana-de-açúcar, pastagens e reflorestamento, os preços não se mostram tão firmes, afirma ele.
Frederico Fonseca Lopes, sócio da Markestrat, centro de pesquisas de Ribeirão Preto (SP), afirma que no interior paulista há poucos negócios, principalmente em áreas destinadas para a citricultura e a cana-de-açúcar, lavouras que já passaram por períodos de preços mais favoráveis.
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*Suely Muniz e Jorge Mattoso – Correio Braziliense
A atual crise financeira internacional trouxe fortes impactos sobre a economia brasileira. No entanto, nosso país mostrou uma nova capacidade de resistir a choques externos, tanto que os impactos estão sendo menores que em outras crises e menos intensos do que nos países desenvolvidos.
Para isso, foram importantes o crescimento dos últimos anos, a ampliação dos investimentos e da capacidade instalada, a incorporação de brasileiros ao consumo e à cidadania, a adaptação da política comercial à nova realidade do mercado externo, a geração de superávits e a ampliação das reservas internacionais. O governo federal também agiu tempestivamente, enfrentando a escassez do crédito e a redução da capacidade produtiva, acentuadas pela crise internacional.
Mas também foram importantes as condições do sistema bancário. Os elevados depósitos compulsórios permitiram maior direcionamento do crédito, sobretudo para a agricultura e a habitação. Depois de anos em que a palavra de ordem foi a privatização, consolidou-se um competitivo setor bancário público, com cerca de 1/3 dos ativos totais, sendo que a Caixa é responsável por mais de 57% dos financiamentos habitacionais e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social concentra a quase totalidade dos financiamentos de longo prazo, permitindo, assim, uma intervenção positiva na atual crise.
Não menos importante, o governo federal não se omitiu frente ao grave problema social da moradia, e conseguiu tirar o setor habitacional do marasmo em que se encontrava desde os anos 1980. É verdade que esse esforço ocorreu em conjunto com o segmento empresarial, que tinha um diagnóstico das deficiências e propostas para superá-las.
Desde 2003 — por meio de processo que buscou amplo entendimento entre os vários atores — reergueu-se a construção habitacional, ampliou-se o crédito e melhoram-se as condições institucionais. Desenvolveu-se o Sistema Nacional de Habitação e criaram-se mecanismos e incentivos — como o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social, criado por iniciativa popular — que permitem que o Estado, nas três esferas de governo, possa praticar uma política de subsídios transparente, sem a qual não haverá acesso à moradia pelas famílias de menor renda.
Em paralelo, fortaleceu-se o FGTS e aperfeiçoaram-se as regulamentações voltadas ao setor, tais como o patrimônio de afetação, a regra do valor incontroverso e as reduções de carga tributária, sem as quais também não se teria alcançado o desempenho dos últimos anos.
Tais esforços, conduzidos pelo governo federal, favoreceram o intenso crescimento do setor da construção civil sem que houvesse o abandono dos menos favorecidos, como desejavam os economistas conservadores que brandiam as propostas do Estado mínimo e do fim das políticas públicas.
Nunca é demais lembrar que foi a expansão das finanças — em mercados altamente desregulados — que reduziu as políticas públicas. Muitos países tentaram simplesmente transferir parte das responsabilidades do Estado ao mercado e esse procedimento, aliado à desregulamentação, responde, em grande medida, pela atual crise internacional.
Na origem da crise do subprime americano estava esse procedimento. Abandonada a população de mais baixa renda à própria sorte, essa foi atendida apenas pelo sistema financeiro, porém com taxas de juros mais elevadas, dado o risco embutido na operação. Beneficiando-se da ausência de transparência e de controles do mercado financeiro, suas hipotecas foram “empacotadas” e transferidas para bancos de investimentos e fundos que as passavam adiante sem constrangimento. Quando dos primeiros solavancos…
No Brasil, o pacote habitacional a ser anunciado proximamente — dadas as informações já veiculadas pela mídia — mostra que outra política é possível. As questões em discussão, relativas à construção de cerca de 1 milhão de imóveis até 2010, aos subsídios para os mutuários que ganham até três salários mínimos e à constituição de um Fundo Garantidor, indicam a consolidação de uma política habitacional que incorpora as camadas de menor renda, mas também de mecanismos de segurança e prevenção contra riscos exacerbados de inadimplência. Enfim, consolida-se no Brasil um verdadeiro antissubprime.
Ao incorporar um aumento do subsídio à habitação popular, baratear os seguros no financiamento à população de menor renda, criar um fundo garantidor e abrir uma linha especial de financiamento para a infraestrutura das áreas desses empreendimentos, o novo pacote habitacional pode tornar-se exemplar e indicar — não só para o Brasil — que é possível, mesmo em meio a uma grave crise internacional, deixar de lado a omissão do Estado e o vale-tudo de mercados desregulados.
*Suely Muniz
Doutora pela USP, economista, foi pesquisadora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (1985-2008) e diretora financeira e presidente da Cohab-SP (2001-2004).
*Jorge Mattoso
Secretário de Finanças de São Bernardo do Campo (SP), foi professor doutor na Unicamp (1985-2008) e presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2006)
Tags: , agricultura, Bancos, Caixa, CEF, construção, consumo, crédito, crise, FGTS, finanças, financiamentos, Habitação, hipotecas, infraestrutura, investimentos, Jorge Mattoso, Juros, Mercados, moradia, mutuários, privatização, Renda, salários, subprime, Suely Muniz
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Carol Carquejeiro / Valor

Fabio Feldmann, do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais e de Biodiversidade: distorções no inventário
Daniela Chiaretti, de São Paulo – VALOR
Até o fim deste ano o Brasil deverá conhecer seu perfil real de emissões de gases do efeito-estufa. É este o prazo para que saia o segundo inventário nacional, uma espécie de retrato da contribuição do país ao aquecimento global, por setores e por volume. O estudo traçará um panorama de 1990 a 2005, mas no caso do desmatamento os dados chegarão apenas até 2002.
O anúncio foi feito ontem por Newton Paciornik, o coordenador técnico do primeiro inventário de emissões de gases-estufa brasileiro lançado em 2004, e responsável pela nova edição. “Estamos em pleno andamento do trabalho”, disse a uma plateia de técnicos reunidos no auditório da Cetesb, a agência ambiental paulista, durante seminário sobre o tema. “Até meados do ano queremos ter todos os pareceres, colocá-los em discussão nacional e a expectativa é termos o inventário no fim do ano.”
Segundo Paciornik, os dados relativos à mudança no “uso da terra” – o jargão que define as alterações na cobertura vegetal natural causadas, por exemplo, pela pecuária ou agricultura – só chegarão até 2002, porque “temos que otimizar os recursos, que são limitados, e distribuí-los da melhor maneira possível”. O desmatamento é o ponto fraco do Brasil quando se trata de aquecimento global e o único inventário brasileiro traz dados de 1994. Foi ali que se cravou a informação que o desmatamento responde por 75% das emissões brasileiras. “Só acho 2002 muito defasado”, reagiu Fabio Feldmann, secretário-executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais e de Biodiversidade. “Teremos distorções no inventário em função disso.”
Todos os países signatários da Convenção do Clima têm que apresentar inventários de emissões de gases-estufa. As nações ricas, com metas de corte de emissões definidas no Protocolo de Kyoto, devem fazer este relato todos os anos; os países em desenvolvimento, como o Brasil, apenas periodicamente. Contam, para isso, com recursos do GEF, um fundo financiado pelas nações industrializadas. Com este dinheiro produzem o inventário e também a Comunicação Nacional, uma informação mais ampla onde se tornam conhecidas todas as ações que um país está tomando para combater a mudança climática. Paciornik, do Ministério da Ciência e Tecnologia, adiantou que “já estamos negociando com o GEF os valores para a 3ª Comunicação Nacional”, o que atualizaria os dados.
O inventário é fundamental para que se entenda quem contribui com o quê e, assim, traçar políticas públicas que procurem reduzir as emissões. Um estudo bem feito, num país das dimensões do Brasil, é complexo. O Estado de São Paulo está iniciando o seu, que deve ficar pronto só em 2010. “Estamos fazendo uma mera lição de casa que, francamente falando, talvez já devêssemos ter feito”, disse, numa espécie de autocrítica, o secretário estadual do Meio Ambiente, Francisco Graziano. “Fico impressionado com a fragilidade das nossas teses em função da precariedade das nossas bases de dados.”
Um exemplo está na dificuldade de definir as emissões de gases-estufa produzidas no tratamento de resíduos e efluentes. Pelos dados do IBGE, o Brasil produz 228 mil toneladas de resíduos por dia. Pelas estatísticas da associação das empresas do setor, a Abrelpe, o volume é de 140 mil toneladas. “Os dados do IBGE, neste caso, não são a melhor informação”, diz João Wagner da Silva Alves, responsável pela análise do setor na Cetesb.
Protocolo de Montreal ajudou o de Kyoto
O Protocolo de Montreal, que cuida de banir os gases que destroem a camada de ozônio da Terra e, desta forma, aumentam a incidência de casos de câncer de pele, fez mais para o clima do planeta do que o próprio Protocolo de Kyoto, este sim, o documento internacional que procura reduzir a emissão de gases que provocam o aquecimento da Terra.
“Dependendo do país, os cortes de emissões de gases que arruinam a camada de ozônio, respondem por 3% a 5% das emissões de gases do efeito-estufa”, disse, em São Paulo, Roberto de Aguiar Peixoto, membro do comitê de opções técnicas em refrigeração e ar condicionado do PNUMA, o Programa das Nações Unidas pelo Meio Ambiente. Trata-se de uma constatação curiosa – o mundo, tentando equacionar um problema, o da camada de ozônio, acabou acertando outro, o do aquecimento da Terra.
Nos anos 80, um erro comum era confundir um fenômeno com outro. O buraco na camada de ozônio é causado pelos gases CFCs, os clorofluorcabonos, que a humanidade decidiu banir há 20 anos, com a Convenção de Viena e o Protocolo de Montreal. Os CFCs eram muito utilizados em geladeiras e aparelhos de ar-condicionado, mas quando escapavam à atmosfera, destruíam a camada de ozônio, uma proteção natural para os raios ultravioleta. Com a camada de ozônio rarefeita, a radiação é mais intensa e aumentam os casos de câncer de pele e catarata. Desde 1999 não se produzem mais veículos com estes gases no Brasil e, desde 2001, nenhuma geladeira. Os CFC ainda são utilizados no Brasil em aerossóis para asmáticos.
O efeito estufa, por outro lado, é um desafio bem mais complicado. O fenômeno é provocado por gases provenientes da queima de combustíveis fósseis ou de desmatamento, a humanidade tenta resolver o problema através da Convenção-Quadro de Mudanças Climáticas e do Protocolo de Kyoto – e agora, de um esperado acordo em Copenhague, no fim deste ano. O efeito disso é o aquecimento da Terra. “Acontece que existe uma ponte entre estas duas questões ambientais”, diz Peixoto.
A ponte são os chamados gases fluorados (HFCs, PFCs e SF6, substitutos dos velhos CFCs, mas que são gases do efeito-estufa e muito nocivos para o aquecimento global. Os HFCs também têm prazo para serem substituídos, pelo bem-sucedido Protocolo de Montreal. “Eliminá-los é também um benefício para o clima. É preciso uma convergência das duas convenções”, defende Peixoto. (DC)
Tags: agricultura, aquecimento global, biodiversidade, cetesb, clima, desmatamento, efeito estufa, espécies, IBGE, kyoto, ozônio, Protocolo de Montreal, resíduos, tecnologia, veículos
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Sergio Leo – VALOR
A alegria quase adolescente com que as autoridades brasileiras falam da aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama desmoraliza um dos mais frequentes lugares-comuns nas críticas à política externa do governo, a acusação de antiamericanismo. Quando se trata da relação comercial Brasil-EUA, os críticos têm até (reduzida) base real para reprovações contra Lula e assessores, mas o chavão foi esquecido neste fim de semana. Parte das atenções para o encontro entre Lula e Obama se concentrou em uma tolice, as tarifas dos EUA contra o etanol brasileiro.
Etanol não é besteira, nem o esforço brasileiro para derrubar as barreiras dos Estados Unidos contra qualquer produto brasileiro, especialmente commodity tão simbólica. Mas medir os resultados do primeiro encontro dos presidentes por decisões que possam adotar em relação à tarifa do álcool é um exercício de quem ignora a natureza e funcionamento do poder nos EUA.
Não será na Casa Branca que se decidirão mudanças relevantes na política comercial americana nessa questão. É no Capitólio, o Congresso dos EUA. Que, aliás, rejeitou na semana passada a tentativa feita por Obama de reduzir os subsídios pesados à agricultura, que distorcem o comércio e prejudicam países competitivos como o Brasil.
Curiosamente, o blogue da Casa Branca contraria o noticiário que, no Brasil, insinuou uma aparente relutância de Obama em reduzir a tarifa aplicada sobre o etanol brasileiro nos EUA. O texto do governo americano fala do tom “positivo e otimista” de Obama, que limitou-se a dizer o óbvio – a questão do etanol não se resolve do dia para a noite – e disse acreditar que essa fonte de atrito se eliminará com o tempo, à medida em que os dois governos aprofundarem a troca de “ideias, comércio, intercâmbio no setor de biocombustível”. Esse último comentário foi ignorado no relato de jornais brasileiros.
Entre os queixumes com ar de despeito feitos sobre a bem-sucedida visita de Lula a Obama, uma crítica é relevante: como notou o presidente do Diálogo Interamericano, Peter Hakim, Lula poderia ter aproveitado a oportunidade para contatos com os importantes presidentes das comissões do Congresso, tão essenciais para o futuro das questões de interesse brasileiro quanto o chefe do Executivo americano.
Lula, que hoje fala a empresários, limitou os encontros extra-agenda a uma conversa com um velho conhecido, John Sweeney, presidente da AFL-CIO, principal organização sindical do país. Visita importante: a AFL-CIO move parte do insistente lobby protecionista americano. Não há registro, porém, que Lula tenha tentado converter Sweeney para a campanha de livre-mercado hoje em moda no Planalto.
O embaixador do Brasil em Washington, Antônio Patriota, considera a questão levantada por Hakim um “falso problema”, já que a viagem, desde o convite, no primeiro contato telefônico entre os dois presidentes, à definição da data – que se ajustou à agenda de Obama – tinha uma característica diferente da visita de Estado, onde, aí sim, sem nenhuma distorção no protocolo, caberiam encontros de Lula com líderes no Congresso americano. “Essa crítica está fora de foco; e o Brasil não pode ser visto apenas pela perspectiva interamericana”, reage Patriota.
De fato, o Brasil, para os EUA tem uma dimensão hemisférica e outra mundial. A tradição é dar ênfase à relação dos EUA com o Brasil no plano do chamado Hemisfério Ocidental. Nesse plano, o encontro deu sinais importantes. Primeiro deles: como definiu a revista “Time”, na edição desta semana, Lula firmou-se como a “melhor aposta” para aproximar o governo Obama da esquerda que governa boa parte dos países do continente. Lula teve aval do venezuelano Hugo Chávez para levar sinais de paz à Casa Branca. Mais discreto, o boliviano Evo Morales indicou a Lula que gostaria de encontrar-se com Obama às margens da reunião da Cúpula das Américas, em abril, onde o Brasil será ator de destaque.
Também notável foi o anúncio feito por Lula de que o Brasil promoverá a formação de uma instituição sul-americana para cuidar, sem participação dos EUA, do combate a drogas no continente. Tarefa inadiável e complicada. Na Bolívia, por exemplo, a receita com o gás natural tende a cair, deixando sem muitas opções de renda a economia do país. Vale lembrar que o presidente da República, lá, fez questão de manter, depois de eleito, o posto de presidente do sindicato de cultivadores de coca.
Como nota o embaixador brasileiro nos EUA, porém, a dimensão do Brasil se expandiu para além do continente, e também nesse aspecto é um avanço importante a abertura de um canal direto com o governo Obama, para discutir as soluções em discussão para a crise econômica global. É difícil imaginar que o secretário do Tesouro, Thomas Geithner, vá consultar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para decidir os próximos passos a tomar na crise; mas a criação de um regime de contatos regulares entre as duas equipes econômicas tem o potencial de aumentar em muito a qualidade do processo decisório e a esfera de ação das autoridades brasileiras.
Resta das acusações de antiamericanismo contra o governo brasileiro a constatação de que, desde os anúncios de parceria estratégica, ainda no governo Bush, pouco andaram os grupos de trabalho criados ou o comemorado Fórum de Altos Executivos Brasil-EUA; e os interesses estritamente bilaterais perderam espaço na agenda em Brasília.
Baseada em evidências como a delicada economia do México, maior parceiro americano no continente, e a recusa americana em aprovar até hoje acordos de livre comércio já assinados com parceiros fiéis como a Colômbia, há uma convicção no governo brasileiro de que as diferenças essenciais de interesse entre os dois países recomendam certo descolamento da agenda americana. Se os mecanismos de parceria criados com o governo dos EUA forem postos em funcionamento desta vez, o governo poderá argumentar mais facilmente que suas ações não são guiadas por preconceitos ideológicos, mas por frio e saudável pragmatismo.
Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras
E-mail sergio.leo@valor.com.br
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O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, que teme efeito devastador da contração de até 7% do comércio mundial em 2009
ENTREVISTA DA 2ª
PASCAL LAMY
DIRETOR-GERAL DA OMC
Crise implicará a primeira contração do comércio internacional desde 1982
O francês Pascal Lamy não esconde seu pessimismo quando fala da contração que o comércio mundial sofrerá neste ano, a primeira desde 1982. “Será terrível.” Como diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), ele acompanha de perto o baque sofrido pelo comércio. Seu “faro” indica que o recuo pode chegar a 7%, previsão ainda pior do que as feitas pelos organismos internacionais. Além da queda na demanda, o protecionismo e a falta de financiamento ameaçam o comércio. Lamy continua alertando os membros da OMC para resistir à tentação de fechar seus mercados. “É um tiro no pé.”
MARCELO NINIO – FOLHA SP
DE GENEBRA
Por outro lado, a incerteza no mercado financeiro é intensa, o que restringe os canais de crédito que alimentam o comércio. O volume de papéis podres nos bancos ainda é tão grande, observa Lamy, que a crise pode estar apenas na metade. Por isso, a prioridade absoluta do G20 será focar o sistema bancário de forma clara: “Limpar, limpar, limpar.” Em entrevista à Folha, Lamy reiterou o elogio recente que fez ao presidente Lula na luta contra o protecionismo, pela revogação de barreiras à importação, mas disse que o país precisa de mecanismos mais eficientes de facilitação de comércio. Para ele, a presença do Estado brasileiro no setor ainda é excessiva.
FOLHA – O premiê britânico, Gordon Brown, alertou que o mundo corre o risco de desglobalização. O sr. concorda?
PASCAL LAMY - Depende do que você chama de desglobalização. Se é o encolhimento do comércio, é óbvio que acontecerá. Os números do comércio vão virar. Agora que a economia mundial terá crescimento zero ou negativo, o comércio terá contração de 6% ou 7%. Mas a globalização é muito mais do que comércio. É uma reforma total do processo produtivo, com um gerenciamento global de oferta e demanda.
Quando os EUA importam um Ipod da China por US$ 100, há US$ 5 de valor agregado chinês. Isso é globalização. Haverá menos Ipods exportados da China para os EUA. Mas isso não muda o fato de que os meios de produção mudaram, e que os países aproveitaram a sua vantagem comparativa. Veja o exemplo do Brasil em alimentos. As exportações de alimentos do Brasil vão cair com a queda da demanda. Mas isso significa que a vantagem comparativa do Brasil acabou? Não. O processo [da globalização] é bem mais sofisticado.
FOLHA – É irreversível?
LAMY - Eu acho que sim. Mas é claro que os ganhos da globalização serão reduzidos, assim como a eficiência gerada pelas mudanças na produção. Com isso, cai o volume do comércio. Haverá menos crescimento econômico e, com isso, mais pobreza. É óbvio que os países em desenvolvimento, cuja dependência desses fluxos era maior, serão os mais atingidos.
FOLHA – Isso não pode gerar uma onda de desconfiança com o livre comércio internacional?
LAMY - O impulso de curto prazo para a proteção é compreensível em tempos de dificuldades sociais e econômicas. Mas há muitas formas melhores de proteger as pessoas, seus empregos e o consumo dos pobres, do que o protecionismo. À primeira vista, algumas pessoas dirão que é melhor ser menos dependente do comércio. Mas a médio e longo prazos isso significa menos crescimento. Os países que se apoiaram mais no comércio cresceram 2% a mais do que a média. É claro que em tempos de recessão há um contrachoque. Mas isso não significa que um país deve renunciar a aumentar sua vantagem comparativa no comércio mundial.
FOLHA – Sua previsão [de retração de 7%] para o comércio mundial em 2009 é mais pessimista que a do FMI, de contração de 5%?
LAMY - É a minha expectativa. Passo metade do tempo falando com gente que lida com comércio em vários continentes, e o meu faro diz que será terrível. A questão não é se o comércio mundial vai ou não encolher. A questão é se vai contrair por razões além da queda na demanda. E as outras razões podem ser o protecionismo e a falta de financiamento.
FOLHA – Cláusulas como o “Buy American”, do pacote de estímulo dos EUA, são um sinal preocupante?
LAMY - De certa forma é inevitável. Políticos são eleitos por seus eleitorados, não pelos vizinhos. Eu digo a eles que isso não combina com o planeta de hoje, em que é preciso agir em conjunto. A boa notícia é que o protecionismo de alta intensidade, como o dos anos 30, está descartado, graças às disciplinas a que os países se submeteram na OMC. A má notícia é que ainda há espaço de ação para os membros da OMC. As pessoas tendem a focalizar as tarifas, mas há formas ocultas e sutis de protecionismo, como as barreiras não-tarifárias, licenças. Ocorre que mesmo o protecionismo de baixa intensidade pode ter um grande impacto, pois nossas economias estão 20 vezes mais interdependentes do que nos anos 30. Se eu fizer, outros imediatamente farão. É um tiro no próprio pé. Na OMC temos regras que proíbem subsídios à indústria e à agricultura. Mas não há regras específicas sobre serviços, como os bancários. É mais uma evidência de que o sistema financeiro não é suficientemente regulado. O órgão internacional de doenças animais é mais bem regulado que os bancos.
FOLHA – O sr. disse que o presidente Lula merecia um prêmio pelo antiprotecionismo. Mas na revisão da política comercial do Brasil (TPR, na sigla em inglês), apresentada há poucos dias, a OMC disse que o Brasil precisa se abrir mais.
LAMY - Uma coisa é como as pessoas estão lidando com a crise. A outra é o TPR, que leva tempo. Eu citei o presidente Lula porque ele foi um exemplo de ação. Num dia o licenciamento estava no “Diário Oficial” e no outro ele cancelou tudo. Lula agiu de acordo com o que fala, foi coerente. Quanto ao TPR, houve algumas críticas, mas de modo geral o balanço é positivo, a gestão macroeconômica do Brasil é boa. Um exemplo é que o Banco Central reduziu os juros em plena crise. É um comportamento normal, mas sabemos que no passado ocorria o contrário. Ou seja, o país está se normalizando, embora os juros ainda estejam altos.
Uma área em que há problemas é a facilitação de comércio. Se eu tivesse que aconselhar o Brasil sobre sua política econômica, eu diria para criar um grande programa de facilitação de comércio. O fato de mais de 30% das linhas tarifárias, nesse país emergente e moderno, ainda precisarem de licenças não-automáticas para importação não combina. Há uma discrepância entre a força da economia e do comércio, e sua liderança na OMC, e o fato de 30% de linhas tarifárias ainda precisarem do carimbo de alguém em um escritório. É um problema administrativo, que por algum motivo persiste.
FOLHA – A presença do Estado é grande demais?
LAMY - Não sou um especialista, mas isso me parece claro.
FOLHA – O Brasil está preparado para enfrentar a crise?
LAMY - Não sei. Quem sabe quando teremos atingido o fundo do poço? Isso só acontecerá quando as pessoas estiverem convencidas de que o sistema financeiro está limpo. Quando olhamos os números do FMI, vemos que o volume de ativos tóxicos é superior a US$ 2 trilhões e o volume de perdas até agora é US$ 800 bilhões. Isso significa que ainda não estamos nem na metade da limpeza, que é um pré-requisito para o fim da crise. Digamos que um exportador chinês tem um carregamento pronto para os EUA.
Ele precisa de uma carta de crédito e recebe uma proposta de um banco dos EUA, mas a rejeita, pois teme que todos os bancos americanos irão quebrar. E acaba mantendo seu carregamento. Enquanto estivermos nessa situação, será difícil sair da crise. Precisamos limpar o sistema financeiro e essa tem de ser a prioridade do G20: limpar, limpar, limpar. Não importa como isso é feito, com bancos podres, nacionalização etc.
FOLHA – A queda no PIB do Brasil pode induzir ao protecionismo?
LAMY - Não é o que o presidente Lula diz. Haverá pressões, tenho certeza. A questão é se você resiste às pressões em nome do bem coletivo, que é manter o comércio aberto durante essa crise. Isso é importante principalmente para os países em desenvolvimento. O principal estímulo para esses países não é seu orçamento, mas o comércio. É por isso que a conclusão da Rodada Doha é agora uma prioridade ainda maior do que no ano passado. Os efeitos da crise para o Brasil serão terríveis, mas muito piores nos países mais pobres. Parece óbvio que a África será uma das grandes vítimas da crise, apesar de não tê-la iniciado.
Tags: agricultura, alimentos, barreiras, China, consumo, crédito, crise, Doha, emergentes, emprego, EUA, exportações, financiamentos, FMI, globalização, Indústria, Internacional, Juros, Lamy, Lula, Mercados, OMC, pobreza, protecionismo, recessão, tarifas
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Em mais um sinal de protecionismo do Congresso, foi recusada proposta de Obama de cortar ajuda a fazendeiros com renda anual acima de US$ 500 mil
WASHINGTON – O Estado SP
O Comitê de Agricultura da Câmara dos Representantes dos EUA rejeitou por unanimidade o projeto do governo Barack Obama que previa um corte no subsídio dado aos produtores agrícolas. A proposta de eliminar os pagamentos diretos aos fazendeiros com faturamento anual superior a US$ 500 mil reduziria quase pela metade o programa de assistência aprovado no ano passado dentro da Farm Bill, a lei agrícola.
O Comitê argumentou que o programa só pode ser mudado na próxima Farm Bill, em 2012. “A legislação de 2012 estará aqui antes do que muitos imaginam. Quaisquer mudanças no programa de benefícios podem – e devem – esperar até lá”, disse o órgão.
O representante republicano no Comitê, Frank Lucas, apoiou o presidente, o democrata Collin Peterson. Para ele, a proposta que poderia economizar US$ 10 bilhões no programa de subsídios é “mal concebida” e “ridícula”. Pela Farm Bill 2008, o governo americano deve desembolsar, em cinco anos, US$ 26 bilhões com “pagamentos diretos” aos fazendeiros.
PROTECIONISMO
Congressistas americanos pediram ao Tesouro que impeça bancos resgatados pelo pacote financeiro de investirem em outros países, em mais um sinal do protecionismo crescente do Congresso. O deputado democrata Dennis Kucinich afirmou que os investimentos devem ficar nos EUA. “Enquanto é difícil conseguir um empréstimo neste país, está certo que um banco que recebeu dinheiro do Tesouro arrume um empréstimo de US$ 8 bilhões para o governo de Dubai?”, perguntou a Neel Kashkari, encarregado do plano de resgate do sistema financeiro (Tarp) no Tesouro.
Kucinich se referia ao empréstimo do Citigroup para o governo de Dubai e ao investimento de US$ 7 bilhões do Bank of America no China Construction Bank Company. Os dois bancos receberam recursos do pacote de resgate.
Kashkari rebateu que restringir empréstimos a outros países poderia gerar retaliação. “Se impedirmos nossas instituições de fazer negócios no exterior, outros países podem dizer: “OK, a recíproca é verdadeira, nós não vamos deixar bancos estrangeiros fazerem empréstimos na América.”
PATRÍCIA CAMPOS MELLO COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS
FRASES
Dennis Kucinich
Deputado democrata
“Enquanto é difícil conseguir empréstimo, está certo um banco que recebeu dinheiro do Tesouro emprestar US$ 8 bilhões para o governo de Dubai?”
Neel Kashkari
Encarregado do Tarf
“Se impedirmos nossos bancos de fazer negócios fora, outros países podem dizer: ?OK, a recíproca é verdadeira”
Tags: agricultura, Bancos, Citigroup, Comercio, crise, EUA, Obama, protecionismo, Republicanos, Tarp, USA
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Antonio Delfim Netto – VALOR
Em 1609, Galileu Galilei, (1564-1642) depois de ter aperfeiçoado um instrumento construído um pouco antes por óticos holandeses, produziu uma luneta que chamou de “Perspicillum”. Com ela deu origem a uma revolução na astronomia. Por isso, a União Astronômica Internacional e a Unesco elegeram 2009 como o Ano Internacional da Astronomia. Qual é a profunda importância de Galileu? A resposta é simples, como nos informa o ilustre prof. Antonio Augusto Passos Videira (revista “Ciência Hoje”, jan./fev. 2009: 18): “Suas descobertas contribuíram para minar a primazia da concepção aristotélica do cosmo, baseada na beleza dos corpos celestes e na imutabilidade dos céus. Em longo prazo, suas ideias – sustentadas pela matemática, por medidas e por uma retórica afiada – ergueram uma visão do mundo na qual se buscavam leis para os fenômenos naturais”.
Mas qual a importância disso agora, há de perguntar-se, irritado, um daqueles economistas que se pensa portador da “verdadeira” ciência econômica? Eu também uso a matemática! A pequena diferença é que o seu “tipo” de conhecimento tem muito mais a ver com Aristóteles esteticamente matematizado do que com Galileu. Em lugar de tentar entender como funciona o sistema econômico, tenta ensiná-lo como deveria funcionar em resposta à beleza dos seus axiomas…
Essa é uma crítica antiga, mas que a corrente majoritária dos economistas (que à falta de nome melhor chama-se a si mesma de neoclássica) recusava-se a considerar diante do aparente sucesso da sua teoria na “explicação” do mundo dos últimos 25 anos. A cavalar crise financeira (em parte produzida pelos equívocos propagados pela própria “teoria”) desconstruiu essa ilusão. Um grupo de oito importantes economistas (todos um pouco mais ou um pouco menos críticos, mas sem dúvida, competentes membros do “mainstream” e senhores da mais sofisticada matemática e econometria) acabam de publicar um trabalho, “A Crise Financeira e o Fracasso Sistêmico da Economia Acadêmica” 1. É um verdadeiro réquiem de corpo presente para a economia pré-galileliana, que foi dominante na última geração.
A síntese do artigo (em tradução livre) é a seguinte:
“A profissão dos economistas parece ter ignorado a longa construção que terminou nesta crise financeira internacional e ter significativamente subestimado as suas dimensões quando ela começou a manifestar-se. Na nossa opinião, essa falta de entendimento foi devida à má alocação dos recursos de pesquisa na economia. Fixamos as raízes profundas desse fracasso na insistência da profissão em produzir modelos que – por construção – ignoram elementos fundamentais que controlam os resultados no mundo dos mercados reais. A profissão falhou, lamentavelmente, na comunicação ao público das limitações e fraquezas e, mesmo, dos perigos que caracterizam os modelos de sua preferência. Esse estado de coisas deixa claro a necessidade de uma fundamental reorientação das pesquisas que devem ser feitas pelos economistas e, também, do estabelecimento de um código de comportamento ético, que exija deles o conhecimento e a comunicação (para o público) das limitações e dos maus usos potenciais possíveis de seus modelos”.
O final do trabalho é ainda mais preocupante:
“Acreditamos que a teoria econômica caiu numa armadilha de um equilíbrio subótimo, no qual o grosso do esforço de pesquisa não foi dirigido para as mais angustiantes necessidades das sociedade. Paradoxalmente, um efeito retroativo, que se autorreforça dentro da profissão, levou à dominância de um paradigma que tem base metodológica pouco sólida e cuja performance empírica é, para dizer o menos, apenas modesta. Pondo de lado os mais prementes problemas da moderna economia e fracassando na comunicação das limitações e das hipóteses contidas nos seus modelos mais populares, a profissão dos economistas tem certa responsabilidade na produção da crise atual. Ela falhou na sua relação com a sociedade. Não produziu tanto conhecimento quanto seria possível sobre o comportamento da economia e não a alertou dos riscos implícitos nas inovações que criava. Além do mais, relutou em enfatizar as limitações da sua análise. Acreditamos que o seu fracasso em sequer antecipar os problemas gerados pela crise do sistema financeiro e a sua incapacidade de prover qualquer sinal antecipado dos eventos que iriam se passar exigem uma reorientação fundamental dessas áreas e uma reconsideração de suas premissas básicas”.
Trata-se de um trágico “requiescat in pace”, não para a teoria econômica, mas para o “mainstream” pré-galileliano, que se apropriou dela com imensa irresponsabilidade. Podemos voltar agora à modesta e útil economia política?
1 Os autores são David Colander, Katarina Inlesuis, Alan Kirman e outros
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras
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Alysson Paulinelli e Antonio Licio – O Estado SP
O mundo parece finalmente reconhecer o fenômeno do aquecimento global, embora ainda discuta as proporções de suas origens, entre antrópicas e naturais, e suas reais dimensões. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima em 28 bilhões de toneladas as emissões de gases de efeito estufa – GEE – em 2006, enquanto o Departamento de Energia dos EUA (DoE) mensura de 11 bilhões a 12 bilhões. A primeira diz que o Brasil emite 303 milhões de toneladas, o DoE estima em 294 milhões e nosso Ministério do Meio Ambiente fala em 1,02 bilhão, diferença supostamente atribuída às queimadas de matas. Provavelmente as primeiras não consideram os GEE derivados de queimadas porque esses vegetais já sequestraram CO2 quando em crescimento, e a queimada simplesmente zera a contabilidade das emissões.
Se as origens e dimensões do fenômeno mostram-se tão controvertidas, maior ainda é a confusão sobre como atacar o problema que poderá, nas hipóteses mais pessimistas, aquecer a Terra em até 3°C, com consequências imprevisíveis. Ninguém aponta perspectivas concretas de solução, nem mesmo o respeitado Al Gore. Somente agora os EUA concordam em fazer algo, não se sabe exatamente o quê. A União Europeia anunciou uma política de 3 vezes “20%?s”: 20% de aumento de eficiência da matriz energética, 20% de redução de emissões de CO2 e 20% de participação de energia limpa até 2020. Será isso possível?
A matriz energética mundial tem a seguinte distribuição, em termos de energia primária: 34% de petróleo, 26% de carvão mineral, 21% de gás natural, somando 81% de combustíveis fósseis, ou “sujos”. Os demais 19% “limpos” originam-se em nuclear (6,2%), hidrelétrica (2,2%), 10,1% de combustíveis renováveis (lenha e biocombustíveis) e somente 0,6% de “outras limpas” (eólica, solar, geotérmica, etc.). Na geração de eletricidade, 41% advêm do carvão; 20% do gás natural; 15% de hidráulica; 15% de nuclear; 6% do petróleo; e 2% de outras fontes, segundo a mesma AIE.
A simples observação desses dados revela a enorme rigidez para se alterar esta matriz, de “suja” para “limpa”. Mais: nos grandes países emergentes – Índia e China – e nos EUA só restarão fontes sujíssimas de carvão mineral no futuro. As fontes hidráulicas já estão comprometidas em 70% de seu potencial, o restante é inviável econômica e ambientalmente. Em suma, a perspectiva concreta de geração elétrica virá, infelizmente, de usinas nucleares e a carvão mineral, cujas fontes ainda serão abundantes por mais de uma centena de anos, e do gás natural, menos sujo, mas fóssil e finito.
Por sua vez, o petróleo, principal fonte de energia para transportes, nos oferece o seguinte dilema: ou se extingue na metade deste século – e nesse caso sua contribuição para o aquecimento global é um falso problema – ou continuará “sujando” a matriz. Em qualquer situação há que se viabilizar substitutos.
Despontam aqui os biocombustíveis, curiosamente pouco estudados, tratados mesmo por alguns como inviáveis como solução de larga escala, tal como foi no início do Pro-álcool há 34 anos. Achamos que falta conhecimento agrícola-econômico sobre o assunto, pois a partir do preço do petróleo de US$ 40 a US$ 50 o barril, os biocombustíveis, álcool de cana e biodiesel de dendê são absolutamente viáveis mesmo sem programas ambientais de governo de utilização compulsória.
O mundo consome hoje 1,2 trilhão de litros de gasolina e 1,3 trilhão de litros de diesel anualmente (DoE, 2005), que requereriam, respectivamente, ao redor de 180 milhões e 220 milhões de hectares de cana-de-açúcar e dendê, únicas plantas atualmente com tecnologias capazes de produzir álcool e biodiesel em volumes significativos e competitivamente. Existiriam essas áreas disponíveis no mundo?
No caso da cana, grosso modo, somente com substituição de atuais áreas de pastagens ou de grãos, considerando seu especial requerimento de clima: tropical, sem excessos nem déficits hídricos. No Brasil há mais de 100 milhões de hectares neste clima, inclusive áreas impróprias, como Pantanal, e montanhosas. Parte desses pastos poderá ser empurrada para regiões mais secas. Internacionalmente, a exceção fica por conta de regiões da África Meridional onde ainda há terras ociosas com clima adequado (savanas), mas de difícil mobilização empresarial.
Não se considerou aqui o uso do etanol de milho nem a biomassa de capim para queima e geração termoelétrica, dado o alto custo de oportunidade em desviar áreas alimentícias, nem as perspectivas de etanol de celulose, incógnita bioquímica e econômica, que uma vez equacionada resolverá também o problema alimentar mundial: folhas, galhos e capins poderão ser comidos pelo homem.
No caso do dendê, as perspectivas são bem mais promissoras, pois o clima exigido é o equatorial superúmido (latitudes 10° norte e sul) onde a produção mecanizada de grãos é inviável e sobram áreas com baixo ou nenhum aproveitamento agrícola (somente na Amazônia brasileira há 73 milhões de hectares desmatados, 17 dos quais degradados). Enquadram-se aí toda a Amazônia (450 milhões de hectares), a África úmida (350 milhões de hectares) e partes da Ásia (Indonésia, Filipinas, Bornéu e Papua-Nova Guiné, com 300 milhões hectares), onde certamente os atuais subaproveitamentos agrícolas darão lugar a florestas energéticas. Milhões de empregos poderão ser gerados em áreas pobres.
Dessas regiões virão os necessários combustíveis líquidos do futuro, além de ser a única perspectiva concreta para ajudar a “limpar” a atual matriz energética mundial, alterando ainda profundamente a geografia econômica e a geopolítica mundial.
*Alysson Paulinelli, engenheiro agrônomo, foi ministro da Agricultura e Antonio Licio, economista, foi diretor do Ministério da Agricultura. Ambos participaram da concepção e implantação do Proálcool entre 1975-79
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De Genebra – VALOR
O salário médio das mulheres no Brasil seria 38,5% inferior ao dos homens nos mesmos cargos, quase o dobro da diferença salarial globalmente, segundo a Confederação Sindical Internacional (CSI). Com esse percentual, o Brasil registra a maior desigualdade de salários entre homens e mulheres numa pesquisa realizada pela CSI com 300 mil pessoas em 20 países, com o risco desse fosso aumentar com a crise econômica. Pela pesquisa, o fosso salarial mundial é de 22%, comparado a 16,5% pelos dados oficiais. Ou seja, a desigualdade é bem maior do que os governos normalmente admitem.
A CSI diz representar 170 milhões de empregados em 312 organizações afiliadas de 157 países e divulgou os dados antes da publicação da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre a situação das mulheres na economia. A diferença salarial média vai de 38,5% no Brasil a 11% no Paraguai. Na vizinha Argentina, as mulheres ganham 29% menos que os homens.
O informe confirma que a qualificação acaba jogando contra as mulheres. Aquelas com mais qualificação educativa sofrem uma brecha salarial maior em comparação com os homens com formação similar.
A diferença de salários aumenta também com a idade. Na medida em que os cargos de mais responsabilidade são atribuídos a pessoas mais experientes, ficam sobretudo com os homens, com mais anos de serviço. A CSI mostra também que a diferença salarial entre homens e mulheres é quase idêntica no setor privado e no setor público no Brasil. O estudo mostra que as mulheres ganham 34% a menos na área de serviços, que inclui bancos, marketing etc. A diferença na indústria e agricultura seria de 30,5%.
Sharan Burrow, presidente da CSI, diz existir “discriminação tanto aberta como sutil contra as mulheres no mercado de trabalho e no local de trabalho, de maneira que os empregadores, sobretudo no setor privado, as promovem a postos com remuneração menor”.
O estudo da confederação examina também o impacto da crise econômica sobre as mulheres, notando que as consequências são negativas em setores industriais de exportação e na agricultura. A tendência seria de substituir o emprego regular por contratação temporária.
A pesquisa também aborda a violência contra as mulheres, com base em estudo divulgado em 2005 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), chamando atenção para suas consequências no emprego e na situação econômica das mulheres. (AM)
Tags: agricultura, CSI, desigualdade, discriminação, emprego, feminismo, género, Internacional, Mulheres, OIT, OMS, remuneração, salários, violência
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