SP fecha albergues e cria Centro-Dia
Prefeitura foca atendimento a morador de rua em ações diurnas; ONG acusa política para o centro de ”higienista”
Diego Zanchetta e Vitor Hugo Brandalise – O Estado SP
O atendimento ao morador de rua mudou em São Paulo. Albergues tradicionais do centro, por onde transitavam todos os dias parte dos 10,7 mil desabrigados da capital, foram fechados. O acolhimento ocorrerá agora principalmente em três “centros de convivência” diurnos – chamados de Centro-Dia. Esses locais – 1 em Santa Cecília e 2 no Parque D.Pedro II – são a maior aposta da secretária da Assistência Social e vice-prefeita, Alda Marco Antonio. “Estão ocorrendo mudanças e elas vão continuar. Se em seis meses esse novo modelo não tiver resultado, pensaremos em outro”, afirma a secretária, criticada por entidades que classificam sua política de “higienista” para a região central.
As mudanças nesses primeiros quatro meses já causam polêmica entre entidades envolvidas há duas décadas na assistência à população de rua. A secretária admitiu, por exemplo, que não gosta de ver moradores de rua “comendo em chãos duros”. Ela disse que as entidades que distribuem sopas e alimentos em diversos pontos do centro serão convidadas a fazer o trabalho dentro dos centros de convivência. “O primeiro será inaugurado em Santa Cecília, logo após o prefeito voltar de viagem da Ásia (dia 21). Dentro dessas tendas, quero que a comida seja servida com os moradores sentados à mesa, vendo televisão e conversando com nossos educadores, e não na calçada de uma rua escura.”
Nos centros, os moradores vão poder passar o dia recebendo atendimento psicológico, médico e social. “Queremos oferecer mais do que o banho do albergue. A ideia é que o morador (de rua) que se recusava a ir para o abrigo seja atraído para o centro”, disse Alda. Esses locais, porém, não terão dormitório. Segundo o governo, os moradores terão a opção de ser removidos para outros albergues, de bairros como Vila Alpina e São Miguel Paulista, na zona leste, no fim do dia. “Se ele (morador) quiser encostar e dormir no centro de convivência, não terá problema”, afirma a secretária.
Alda também discorda do atendimento das Kombis que transportavam os moradores de rua do centro para albergues. O serviço era realizado por 40 carros, por meio de um convênio com a organização não-governamental Santa Lúcia que não foi renovado. “Os moradores passaram a ligar para os responsáveis pelas Kombis a qualquer hora. Era comum o morador de rua chamá-los, em vez de andar cinco quarteirões até o albergue. Então, tenho dúvidas sobre a eficácia do atendimento que era feito por esses veículos.”
Para entidades, a secretária quer afastar os desabrigados do centro. Em março, foi fechado o principal abrigo da região central, o São Francisco (no Glicério), com capacidade para 720 pessoas. Antes, o Centro de Acolhida Jacareí, na Bela Vista, já havia sido fechado, em julho. E as entidades também reclamam do atraso nos repasses do governo. “Fechamos albergues que não tinham condições sanitárias, mas fizemos remanejamento de vagas para outras unidades. Não houve extinção de lugares”, argumenta. “O aumento dos moradores de rua pode ser um reflexo direto da crise”, acrescenta. A Secretaria de Assistência Social informa também que quatro novos convênios para o atendimento da população de rua do centro devem ser ratificados até o fim de maio.
FORÇA POLÍTICA
Alda foi o elo da gestão Kassab para a aliança com o PMDB, principal partido de sustentação à reeleição do prefeito. A parte paulista da sigla, capitaneada pelo ex-governador Orestes Quércia, também já adiantou que apoiará José Serra (PSDB) na eleição presidencial. Com força política, a secretária ganhou autonomia para implementar uma nova gestão na Assistência Social.
NÚMEROS
10,7mil desabrigados estão nas ruas da capital
1 centro de convivência vai funcionar em Santa Cecília
2 centros farão atendimento a desabrigados no Parque D. Pedro II
720 lugares era a capacidade do abrigo São Francisco, no Glicério,
fechado em março
”Mandam o problema para a periferia”
ONGs alegam que moradores de rua habitam região para ter acesso à comida e encontrar trabalhos informais
Vitor Hugo Brandalise e Diego Zanchetta – O Estado SP
Em qualquer dia da semana, nas ruas principais do centro histórico de São Paulo, é por volta das 20h30 que a real dimensão do problema se revela – é quando são formadas, no Pátio do Colégio, na Praça da Sé, no Largo São Francisco, filas imensas de moradores de rua, aguardando o início da distribuição de comida por representantes de entidades. “Hoje tem salsicha! Fazia tempo!”, exclama José Vieira da Rocha, de 49 anos, morador da Praça da Sé desde 2001. “Vou aproveitar, é a única (refeição) do dia”, ele diz, segurando o marmitex, empurrado pelo próximo da fila.
Enquanto a multidão se dispersa, uma figura passa correndo, próximo à Catedral. Carrega entre os braços a cabeça e as tripas de um peixe. “Arranjei no Mercadão”, revela Erivaldo Soares, de 38 anos, ao lavar o bicho com água de um dos chafarizes da Praça da Sé. “Lá no Mercadão sempre tem refeição.”
Para quem vive nas ruas, é esse o tipo de oportunidade que um local como o centro de São Paulo oferece – comida, além de trabalhos informais. “É com isso tudo que a Secretaria ( de Assistência Social) pretende acabar, com o fechamento dos albergues de São Francisco (no Glicério) e do Jacareí (na Bela Vista)”, afirma Anderson Miranda, coordenador do Movimento Nacional dos Moradores de Rua. “Estão tentando limpar o centro, empurrar o problema para a periferia.” Segundo a Assessoria de Imprensa da Assistência Social, o aumento na população de rua é uma situação transitória, de adaptação à nova política enquanto mais convênios são fechados.
Para as entidades, contudo, além do fechamento dos albergues, o fim do programa de atendimento espontâneo a moradores de rua do governo contribuiu para engrossar o número de pessoas vivendo em áreas já saturadas do centro. Atualmente, os atendimentos são realizados somente quando há o encaminhamento por oficiais da Guarda Civil Metropolitana (GCM) ou se há denúncia da população.
Além disso, as entidades reclamam da redução da Central de Atendimento Permanente de Emergência (Cape), que teve seu número de veículos de atendimento à população de rua reduzido de 44 Kombis para 20.
Quem vive nas ruas já sentiu a diferença. “Dizem que só há vagas nos albergues da periferia, que não tem mais como dormir no centro”, afirma o morador de rua Adriano da Silva Pereira, de 28 anos, há seis meses vivendo na Rua Anchieta, próximo ao Pátio do Colégio. “Mas quem quer ir para São Mateus, ou para São Miguel? Nos acordam às 6 da manhã e vamos para a rua, temos de voltar ao centro andando”, relata o morador, que costumava dormir no Albergue São Francisco, no Glicério.
GUARDA CIVIL
Outra crítica das entidades diz respeito à atuação da GCM, que passou a realizar abordagens a moradores de rua, conforme autoriza um decreto de 25 de fevereiro deste ano. Na noite de anteontem, o Estado acompanhou a atuação de sete GCMs, em serviço na região central. Segundo os guardas, a orientação é para que seja realizada a “limpeza e melhoria visual nas regiões mais visitadas da cidade, para liberação da revitalização do centro”. A secretária de Assistência Social nega ter dado orientação à GCM.
“Minha tarefa é empurrá-los para fora da minha inspetoria”, chegou a dizer um inspetor da corporação. O resultado dessa política, segundo as entidades, é que, enquanto ruas próximas à Praça da Sé, Largo São Francisco e Pátio do Colégio se transformam em camas coletivas, outros locais historicamente utilizados pelos moradores de rua, como o Vale do Anhangabaú e a Praça do Patriarca, mais próximos à Prefeitura, hoje praticamente não apresentam o problema.