31/10/2009 - 13:29h PT vai priorizar Presidência e Congresso em 2010, diz Genoíno


Em entrevista à ‘Agência Estado’, deputado conta que PT deve ceder nos Estados e traça um mapa das alianças

Denise Madueño - Agência Estado

Para Genoino, campanha será plebiscitária, entre projeto do governo e da oposição

Pablo Valadares/AE – 07/07/2009

Para Genoino, campanha será plebiscitária, entre projeto do governo e da oposição

BRASÍLIA - Com o comando do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PT encerrou nesta semana com a pré-candidata Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, a rodada de encontros com a cúpula e as bancadas dos partidos da base em busca de fechar um leque de alianças para a eleição de 2010. Enquanto o PSDB não define seu candidato à sucessão presidencial, Lula e o PT mostram que têm uma estratégia clara e vêm conquistando espaço com os partidos para garantir palanques fortes para Dilma nos Estados. É o que revela o deputado José Genoino (SP), ex-presidente do PT, nesta entrevista à repórter Denise Madueño, da Agência Estado. A prioridade é eleger Dilma e, em nome da aliança nacional em torno de sua candidatura, o PT deve ceder nos Estados e apoiar nomes de partidos aliados, conta Genoino. A segunda meta é para o futuro, em caso de vitória petista. O PT e Lula estão preocupados em eleger um grande número de deputados e de senadores para não correr o risco de ficar sem base de sustentação no Congresso. A intenção é não repetir o governo Lula, que teve que acertar apoios já durante o exercício do mandato, depois das dificuldades que enfrentou com uma base parlamentar frágil. Genoino afirma ser melhor para o partido abrir mão de eleger governadores para, em troca, garantir o domínio no Congresso. Na entrevista a seguir, o petista traça um mapa das alianças eleitorais com o PMDB nos Estados considerados problemáticos.

Agência Estado – Fechado o pré-compromisso com o PMDB, o que avançou até agora nesses dez dias?

José Genoino – O que avançou é que agora nós temos uma diretriz nacional, e é fundamental a aliança com o PMDB. São dois os motivos: o PMDB participa do governo, tem sido um fator de estabilidade e dará palanques fortes e tempo na televisão para Dilma. O PMDB deve compor a chapa majoritária, e para isso nós temos de avançar nos Estados para termos palanques unificados. A existência de mais de um palanque deve ser exceção e não regra. Nós temos de ter uma aliança com palanques estaduais que vá do bloco de esquerda até o centro, que é o PMDB, passando pelo PR.

AE – A ministra Dilma e a cúpula do PT já conversaram com o PR, com o PDT, com o PMDB. É uma tentativa de fazer uma campanha no estilo “nós contra a oposição”, personificada no PSDB, no DEM e no PPS?

Genoino – A campanha deve ser plebiscitária com dois projetos: o liderado por Lula e Dilma e o da aliança demo-tucana. São dois projetos, não tem terceira nem quarta via. Portanto, plebiscitar é o conteúdo da campanha. Esse plebiscito tem de se materializar nos Estados porque a eleição das bancadas de deputados estaduais, deputados federais e de senadores se dá no primeiro turno. Interessa-nos eleger grandes bancadas. Por isso, reafirmo, a prioridade é, primeiro, eleger presidente; em seguida, bancadas fortes e, depois, governadores dentro de uma eleição polarizada nacionalmente.

AE – Por que a preocupação de eleger uma bancada grande de deputados e de senadores é maior do que a de eleger governadores?

Genoino – Em primeiro lugar, pela nossa experiência. Nós temos de ter uma aliança e uma coalizão programática na eleição nacional e manter essa relação com a eleição para o Congresso Nacional. É muito difícil fazer maioria depois da eleição. É melhor construir essa maioria política durante a campanha eleitoral. Então, o importante é, primeiro, eleger bancadas afinadas com o programa da companheira Dilma. A nossa experiência do mandato do presidente Lula mostra a importância de ter uma maioria mais definida na Câmara e no Senado. Nós temos de trabalhar com isso, inclusive mostrar para a população que é importante eleger senadores e deputados.

AE – E a bancada de governadores?

Genoino – No caso de governadores, nós temos de analisar em cada Estado de acordo com quem tem viabilidade e quem pode montar um palanque unificado. O palanque unificado facilita a eleição de deputado e de senador, e nós temos de ter tempo na televisão. Como nós temos um bom governo, precisamos de palanques estaduais e tempo na televisão para falar bem desse governo. Se o PT não tem nome competitivo, deve ceder espaço para os aliados de maneira programática.

AE – A prioridade de eleger grandes bancadas no Congresso já é preventiva ante eventual dificuldade de governar no caso de a ministra Dilma ser eleita?

Genoino – Ter uma boa e grande bancada é importante para garantir a manutenção, com avanços, dos programas do governo Lula. E nós aprendemos e vivemos essa experiência que a governabilidade no Congresso Nacional tem de avançar para uma governabilidade programática. Qual o caminho que nós temos? Fazer alianças em primeiro turno de maneira transparente. Nós temos de ter bancadas mais unidas, tanto na Câmara quanto no Senado, e o PT tem de priorizar isso. Onde o PT tiver chance de eleger senador, é melhor abrir mão de governador.

AE – Para evitar o que aconteceu com o governo Lula, que precisou compor para montar a base?

Genoino – O governo Lula fez uma experiência de governabilidade que viabilizou esse projeto que está mudando o Brasil. Esse caminho que, no fundamental, foi vitorioso, nos indica a necessidade de ter bancadas mais programáticas. Principalmente, porque nós queremos continuar com avanços e nós temos de ter mais unidade no programa que vai eleger deputado e senador.

AE – Se a prioridade é eleger uma grande bancada para dar sustentação ao governo, como será a atuação do PT no caso de o PSDB ganhar a disputa para Presidência da República?

Genoino – Eu quero ganhar a eleição com a Dilma e ter maioria no Congresso Nacional, portanto eu só falo sobre esse cenário.

AE – E se o PT voltar a ser oposição?

Genoino – Eu não discuto essa possibilidade porque estou 100% empenhado em continuar sendo governo e continuar transformando o Brasil.

AE – Como fechar as alianças nos Estados?

Genoino – Para ter palanques estaduais unificados, o PT deve reivindicar a cabeça de chapa onde tiver nome competitivo e onde o PT já está governando. Onde não tiver condições, o PT deve ceder espaço para os partidos aliados, para o PMDB, para o PSB, para o PDT, para o PR. O melhor caminho é fazer essa coalizão no voto, nas urnas e na rua. Nós estamos mostrando nossa candidata, nosso programa e estamos dizendo que vamos eleger a Dilma com essas bancadas de senadores e de deputados porque nós temos de ter maioria no Congresso Nacional.

AE – O deputado Ciro Gomes (PSB-SP), que pretende se candidatar à Presidência, é um problema para a estratégia de campanha plebiscitária?

Genoino – Ciro Gomes é um parceiro, uma pessoa muito importante na defesa do governo Lula e está no nosso projeto. Nós temos de dialogar com o Ciro e com o PSB para ele somar nesse projeto estratégico. O melhor caminho é Ciro formar um grande palanque no Estado de São Paulo, junto com o PT, com o PSB, como PDT, com o PCdoB e com o PR. O PT, abrindo a possibilidade de ter Ciro como candidato ao governo, dará uma grande demonstração de que prioriza a eleição nacional e mostrará que o caminho é eleger uma bancada forte para o Congresso. Defendo uma aliança ampla com Ciro na cabeça de chapa e com Chalita (ex-tucano, o vereador Gabriel Chalita é do PSB) e Mercadante para o Senado.

AE – Como convencer os petistas paulistas a abrirem mão de um candidato próprio ao governo?

Genoino – No debate. Mostrando que o decisivo e o determinante é a aliança nacional. O que contribuir para a aliança nacional o PT dos Estados tem de ceder. Onde o PT não tem viabilidade política eleitoral, nós temos de ceder para os aliados. Em São Paulo, por exemplo, a pré-candidatura de Ciro Gomes conforma um bloco de partidos. O PT pode ter um nome próprio, desde que seja cumprida a condição de esse nome reunir a aliança com os demais partidos, PSB, PCdoB e PDT. O PT sair sozinho em São Paulo é ruim para o projeto nacional de eleger a Dilma.

AE – E no Rio de Janeiro? (A cúpula petista apoia a reeleição de Sérgio Cabral, do PMDB, aliança considerada fundamental para o acordo nacional, mas o prefeito de Nova Iguaçu, o petista Lindberg Farias, se lançou na disputa pelo cargo do peemedebista).

Genoino – Nós temos uma aliança de governo com Sérgio Cabral. Se nós participamos do governo, temos de ajudar a reeleição de Sérgio Cabral, compondo a chapa majoritária com candidatos ao Senado. Se Garotinho (ex-governador do Rio Anthony Garotinho, que está no PR) for candidato a governador, nós não podemos hostilizá-lo nem criticá-lo na medida em que ele é de um partido da base e vai apoiar Dilma. Garotinho não pode se transformar em um adversário nosso. Ele terá autonomia para apoiar a Dilma, e é bom que isso aconteça. Agora, o PT ter candidato próprio no Rio de Janeiro é um grande equívoco. Nós temos um triângulo político do colégio eleitoral: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas. Nós não podemos errar nestes Estados.

AE – O que fazer em Minas Gerais? (São pré-candidatos os ministros das Comunicações, o peemedebista Hélio Costa, e do Desenvolvimento Social, o petista Patrus Ananias, e o petista e ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel).

Genoino – Em Minas, o PT passa por uma disputa interna (Processo de Eleição Direta que vai escolher a nova direção do partido em 22 de novembro) e precisamos esperar o seu resultado. Com o peso de Minas e com a responsabilidade dos protagonistas envolvidos nesta disputa, nós temos de apelar para que haja bom senso e juízo. Os tucanos são fortes em Minas, com Aécio Neves (governador do Estado), e em São Paulo, com José Serra (governador do Estado), e nós não podemos errar. Portanto, a precondição é concretizar a aliança com o PMDB e nós temos de avaliar quem estará na cabeça de chapa.

AE – Qual é o critério para a escolha do candidato em Minas, estar na frente das pesquisas de intenção de voto?

Genoino – O critério é estar na frente da pesquisa. Segundo critério, quem tem melhores condições de ganhar. Terceiro critério, quem soma mais apoio político, aliança e voto para a candidatura nacional. Toda a análise está amarrada na prioridade da eleição nacional com a companheira Dilma, que é o projeto estratégico nosso. Esse projeto estratégico orienta, decide e induz as alianças estaduais.

AE – E na Bahia? (O ministro da Integração Nacional, peemedebista Geddel Vieira Lima, vai disputar com o governador petista Jaques Wagner, que busca reeleição).

Genoino – Na Bahia, se forem dois palanques, nós temos de ter uma relação respeitosa. Onde tiver dois palanques apoiando a Dilma, ela e Lula terão de estar nesses dois palanques.

AE – Pará? (O PMDB do deputado Jader Barbalho está de olho no cargo da governadora petista Ana Júlia Carepa, candidata à reeleição).

Genoino – No Pará, nos somos governo. O PT tem candidatura e temos de viabilizar a reeleição de Ana Júlia. Para isso, temos de negociar a composição da chapa majoritária, para o Senado. Tanto na Bahia quanto no Pará, nós temos candidatos competitivos.

AE – E em Mato Grosso do Sul? (O governador peemedebista André Puccinelli quer a reeleição, mas o petista e ex-governador Zeca do PT quer concorrer).

Genoino – O PT tem de fazer uma discussão nacional com o PT de Mato Grosso do Sul e buscar uma negociação com o PMDB. O PT não deve ficar sozinho na disputa nesse Estado. Se o PT quer reeleger um governador em Estado que está governando e quer o apoio do PMDB, o mesmo deve acontecer no inverso. O PMDB em Mato Grosso do Sul tem governador e está nos chamando para apoiá-lo, como chamamos os peemedebistas do Pará e da Bahia. O PT tem de ser mais flexível e fazer uma aliança com (André) Puccinelli.

AE – Ceder nesse caso?

Genoino – É. Qual o critério que estou defendendo? O partido tem governador, é um nome competitivo e apoia Dilma? O raciocínio serve em todos os Estados. É uma boa aliança para o PT apoiar Puccinelli e priorizar a composição para o Senado.

AE – Em quais Estados o PT já considera inviável o acordo com o PMDB?

Genoino – São Paulo, Acre, Rio Grande do Sul, que já têm definições em curso. Agora, em outros Estados com problemas, devemos criar o consenso processual. Unir o possível e deixar algumas questões para depois. Vamos construindo o acordo.

AE – Um eventual governo de Dilma será mais petista do que o de Lula, que tem o perfil mais conciliador?

Genoino – O Lula é petista, e o PT é lulista. Essa tentativa de tratar o Lula separado ou diferente do PT é de marqueteiro que não conhece a história do PT nesses quase 30 anos. São cinco elementos que constroem essa maioria: Lula, PT, movimento social, governo e alianças. Isso nos dá condição de construir maioria. O PT é um elemento central para a campanha da Dilma, porque as alianças serão costuradas pelo PT no plano nacional e em cada Estado. O PT será uma força central na governabilidade do próximo período. Por isso, temos de definir alianças para a Câmara e para o Senado.

22/10/2009 - 09:02h Para Lula, empresários decepcionaram na crise; leia íntegra da entrevista

Alan Marques/Folha Imagem

O presidente Lula dá entrevista à Folha, no CCBB, em Brasília


da Folha de S.Paulo – Kennedy Alencar

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu entrevista para o repórter especial da Folha, Kennedy Alencar. Leia abaixo íntegra da entrevista:

FOLHA – É correto classificar de marolinha uma crise que gerou desemprego, redução de investimentos e derrubou o crescimento da economia de 5% ao ano para 1% em 2009 no cenário mais otimista?
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Foi correto. Temos que separar a crise em dois momentos. Até setembro de 2008, discutíamos a crise do subprime quando ainda não havia o problema dos bancos. Até esse momento, o Brasil sentiria muito pouco a crise por várias razões. A economia estava sólida. Havíamos diversificado nossas exportações. Os bancos brasileiros tinham maior solidez e havia maior controle do Banco Central. Quando veio o Lehman Brothers [quebra do banco americano de investimentos em setembro de 2008], aconteceram duas coisas graves. O dinheiro desapareceu. Uma empresa como a Petrobras passou a pegar empréstimos na Caixa que seria destinado a pequenas empresas brasileiras.

FOLHA – Ali não houve um tsunami?
LULA – As coisas não aconteceram aqui como em outras partes do mundo porque nós tomamos medidas imediatas. Liberamos R$ 100 bilhões do depósito compulsório para irrigar o sistema financeiro. Fizemos com que o Banco do Brasil e a Caixa agilizassem mais a liberação de crédito. Fizemos o Banco do Brasil comprar carteiras de bancos menores que estavam prejudicados. Fizemos o Banco do Brasil comprar a Nossa Caixa em São Paulo e comprar 50% do Banco Votorantin. Era preciso que os bancos públicos entrassem em outras fatias do mercado, em que não tinham expertise, como financiar carro usado.

Nos debates com empresários, a minha inconformidade é que houve no mês de novembro e dezembro uma parada brusca desnecessária de alguns setores da economia.

FOLHA – Em outubro de 2007, o sr. disse que tinha aprendido que era importante governar também para a burguesia, que possuía uma visão diferente de quando era dirigente sindical, pois tinha um lado claro. Como presidente, precisava governar para todos, pobres e ricos.

Disse também que a burguesia brasileira era a “burguesia que sempre foi, a burguesia que está sempre querendo mais”. Falou ainda: “Da minha parte, não existe preconceito. Tenho consciência de que estão ganhando dinheiro no meu governo como nunca”.

FOLHA – Durante a crise econômica internacional, o que o sr. achou do papel do empresariado brasileiro?
LULA – Alguns setores empresariais resolveram colocar o pé no breque de forma muita rápida, a começar do setor automobilístico, que seguia a orientação das matrizes, que estavam em situação muito delicada. Tinha um estoque razoável. Estavam numa situação privilegiada de produção e venda de carros. De repente, a indústria automobilística parou. Quando ela para, para uma cadeia produtiva que representa 24% do PIB industrial brasileiro. E outros setores que já tinham empréstimos assegurados com o BNDES pararam porque ninguém sabia o que ia acontecer.

Aí, fizemos desonerações, liberação de financiamentos, o Meirelles colocou dinheiro das reservas para facilitar nossas exportações. Depois, descobrimos outra coisa grave, os derivativos, feitos por empresas que não pareciam que faziam derivativos. Foi outro problema. Tivemos de conversar com empresa por empresa. Discutir como financiar, como evitar que algumas quebrassem, e colocamos o BNDES em ação.

FOLHA – No auge da crise, os bancos privados secaram o crédito. A Vale e a Embraer demitiram de imediato. Foi um comportamento à altura do país naquele momento?
LULA – Não foi. Foi precipitação do setor empresarial, que deveria ter tido tido a tranquilidade que o governo teve. Deveriam ter ouvido o pronunciamento de 22 de dezembro em que fui à TV contraditar a tese de que as pessoas não iam comprar com medo de perder o emprego. Fui dizer que iam perder emprego exatamente se não comprassem.

FOLHA – O sr. comprou algo?
LULA – Lógico. Comprei geladeira nova.

FOLHA – E a sua opinião hoje sobre a burguesia, pós-crise?
LULA – Não utilizo mais a palavra burguesia.

FOLHA – Sobre o grande capital nacional?
LULA – Tem setores diferenciados. Não pode colocar todo mundo no mesmo barco. Tem o setor automobilístico que é dinâmico, mas depende de orientação da matriz. Como a matriz, estava numa situação muito delicada, a orientação recebida aqui era para colocar o pé no breque. Tinha o setor siderúrgico, com 60% da produção para exportação, que, de repente, minguou. A Vale exportava quase tudo o que produz de minério. Na hora em que caiu a demanda da China, houve um breque. O que me deixou decepcionado é que as pessoas deveriam ter tido a paciência para ver o tamanho do buraco. Quando dizíamos que o Brasil seria o último a entrar na crise e o primeiro a sair, nós estávamos convencidos do potencial do Brasil e do mercado interno. Há anos venho dizendo: o problema do Brasil não é o custo final do carro, o problema é saber se a mensalidade que o trabalhador vai pagar cabe no seu holerite.

Hoje é um fato consagrado no mundo inteiro: o Brasil hoje é o país mais bem preparado e o que melhor enfrentou a crise.

FOLHA – O sr. vai prorrogar a isenção de IPI para a linha branca? Total ou parcialmente?
LULA – Essas coisas a gente não diz sim ou não com antecedência. Se eu disser agora que vai ser prorrogado, as pessoas que iam comprar agora deixam de comprar.

FOLHA – O sr. tem simpatia pela prorrogação?
LULA – Tanto que tenho simpatia que fiz a desoneração.

FOLHA – Com o dólar no patamar de R$ 1,70 e juros ainda altos na comparação com outros países, o sr. não teme viver uma crise cambial em 2010 ou deixar uma bomba-relógio para o sucessor?
LULA – Nunca trabalhei com juros altos tendo como parâmetro outros países.

FOLHA – Mas os juros no Brasil são altos, e o sr. reclama.
LULA – Sei. Mas trabalho na comparação com o que era. Em vez de ficar achando que a calça do outro é apertada, eu vejo a minha de manhã. O Brasil tem a menor taxa de juros de muitas décadas.

FOLHA – A taxa básica não poderia estar menor?
LULA – Poderia. Mas, descontada a inflação, temos 4%, 4,5% de juro real. Há muitas décadas o Brasil não tinha esse prazer. O problema hoje é o spread bancário, que ainda está alto, e o governo tem trabalhado para reduzir.

FOLHA – O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), tem uma crítica…
LULA – Deixa eu falar do câmbio. Depois respondo à crítica do Serra, que é menos importante para mim, para você e para o povo brasileiro. O câmbio sempre foi uma preocupação nossa. Se um dia você for presidente da República e sentar naquela cadeira, vai entrar na sua sala uma turma reclamando que o dólar está baixo, porque ele é exportador e está perdendo. Quando sai, entra a turma dos compradores, importadores, que acham que o dólar está maravilhoso, que é preciso manter assim. Aí entra o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central e dizem que é maravilhoso o dólar baixo porque controla a inflação.

Agora, antes que aconteça, uma superentrada de dólares no Brasil, reduzindo muito o valor do dólar em relação ao real, criando problema na balança comercial, e com algumas empresas exportadores tendo problema, nós demos um sinal com o IOF [Imposto sobre Operações Financeiros, que passou a ser cobrado no ingresso de capitais]. Demos um sinal para ver se a gente equilibra.

FOLHA – Especialistas dizem que o IOF será inócuo?
LULA – Se for inócuo, mudamos. Há uma disputa. O setor produtivo totalmente favorável, e o financeiro totalmente contrário. Isso é importante, porque significa que o governo está no caminho do meio, e aí é mais fácil a gente acertar.

FOLHA – A crítica básica do Serra é a seguinte: o Banco Central jogou fora na crise um bilhete premiado, que seria a oportunidade de baixar mais os juros sem custo. Agora, a crise acabou, a taxa está alta, pode ter que aumentar e jogou fora o bilhete premiado?
LULA – Vivi os dois lados. Quando se é oposição, você acha, pensa, acredita. Quando é governo, faz ou não faz. Toma decisão. O Serra participou de um governo oito anos. Tiveram condições de tomar decisões e não tomaram. Obviamente, qualquer um que for presidente, tem o direito de tomar a posição que bem entender. É como jogador bater pênalti. Brincando todo mundo marca gol. Na hora do pega para capar, até pessoas como o Zico e o Sócrates perderam pênalti.

FOLHA – Uma crítica de especialistas e da oposição é o aumento dos gastos públicos no segundo mandato. Além da elevação temporária de gastos na crise, há despesas permanentes que pressionarão o caixa no futuro e tornarão mais difícil baixar os juros. O sr. estaria deixando uma herança maldita.
LULA – As contas do governo nunca estiveram tão boas na história deste país. A política anticíclica na crise fez com que o governo deixasse de arrecadar uma enormidade de dinheiro. Mas é o preço que a gente tem de pagar. Compare o que colocamos de dinheiro na crise, com desoneração, com o que os países ricos tiveram de colocar. Foram trilhões de dólares colocados para ajudar o sistema financeiro, coisa que não precisamos fazer.

FOLHA – Saiu barato?
LULA – Eu acho. Em setembro, recuperamos os empregos que perdemos na crise e muito mais. Vamos chegar a um milhão de empregos no final do ano. Veja o mundo desenvolvido.

FOLHA – Qual é a sua previsão de crescimento do PIB para este ano?
LULA – Positivo, entre 1% e 1% e pouco. Se não houvesse a brecada brusca entre dezembro e janeiro, poderíamos ter crescido 2,5%, 3% com certa tranquilidade. O importante é o sinal para 2010.

FOLHA – Aquela brecada do empresariado sacrificou crescimento econômico?
LULA – O empresário brasileiro foi vítima de uma circunstância. O pânico criado no mundo fez com que todo mundo acordasse de manhã achando que ia acabar o mundo. O pânico precipitou decisões de recuo de setores empresariais. Eu chamei empresários, disse que tínhamos de aproveitar a crise, que tínhamos dinheiro no BNDES, que as empresas com dinheiro em caixa tinham de fazer investimento agora porque, quando a crise acabasse, estaríamos preparados para ocupar outro patamar no mundo. O momento não é de medo, é de investir. Eu jamais demoraria o tanto que foi demorado nos Estados Unidos para salvar a GM.

FOLHA – Aécio Neves ataca o inchaço da máquina e diz que o sr. faz um governo para a companheirada. Como o sr. responde?
LULA – Tem duas concepções de ver o Brasil. Tem pessoas que governam o Brasil para o imaginário de uma pequena casta. E tem pessoas que governam pensando em envolver 190 milhões de brasileiros. Quebramos o preconceito de primeiro tem que enxugar a máquina, fazer o país crescer e, então, dividir. Vivi isso durante quatro décadas. Quando resolvemos fazer política social, dissemos que era possível crescer concomitantemente e criamos uma nova casta de consumidores que está ajudando a indústria e o comércio.

FOLHA – O sr. recuou no envio de um projeto para cobrar IR de poupança acima de R$ 50 mil e mandou normalizar a devolução da restituição do IR. A lógica eleitoral, com temor de desgaste, autoriza a conclusão de que o sr. não pretende tomar medidas impopulares até o final do governo?
LULA – (Risos). Não faça injustiça, querido. Não adiamos o envio do projeto de lei. Decidimos o que íamos fazer em março, por unanimidade. A oposição que imaginava pegar a poupança como cavalo de batalha, ficou sem discurso. Em vez de a Fazenda mandar em março, como era algo que só valeria para 2010, esperou para mandar agora.

FOLHA – Vai enviar ao Congresso?
LULA – Vai mandar. Obviamente, poderemos discutir outras bases. Vai mandar, vai mandar.

FOLHA – E sua ordem para normalizar o pagamento da restituição do IR?
LULA – Não havia nada de anormal. No Brasil, já tivemos momentos em que a devolução atrasou. No nosso governo, tivemos momentos em que adiantou.

FOLHA – O ministro da Fazenda disse que estava atrasado, e o sr. deu a ordem para acelerar.
LULA – Lógico, porque tem que pagar. Nós precisamos de consumo. Precisamos que o povo tenha dinheiro para comprar. Falei com o Guido [Mantega]: Guido, nós precisamos que o povo tenha dinheiro para comprar. O povo tem de ter o dinheiro em dezembro.

*

“No Brasil, Jesus teria de fazer aliança com Judas”

FOLHA – Por que o sr. escolheu Dilma como candidata, uma cristã nova no PT e pessoa que nunca disputou eleição, sem fazer uma discussão no partido e levar em conta os nomes de governadores, como Jaques Wagner (BA) e Marcelo Déda (SE), e de ministros, como Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) e Tarso Genro (Justiça)?
LULA – Não estava em discussão quem era PT mais puro sangue, menos puro sangue. Era uma questão de viabilidade política. Dilma é a mais competente gerente que o Estado brasileiro já teve. A capacidade de trabalho da Dilma, a competência, o passado político e o presente, me faz garantir que a Dilma é uma excepcional candidata a presidente da República.

FOLHA – O sr. nunca havia sido gestor, era político, virou presidente e faz um governo bem avaliado. Seu argumento não é muito tucano, essa coisa de gerente.
LULA – Não é tucano, não. Além de extraordinária gestora, a Dilma é um extraordinário quadro político. Tem firmeza ideológica, tem compromisso, tem lealdade, sabe de que lado está.

FOLHA – O sr. a acha preparada para presidir o Brasil?
LULA – Muito preparada.

FOLHA – Já há faixas na rua dizendo que Dilma eleita equivale ao terceiro mandato de Lula.
LULA – É exatamente o contrário. Uma mulher que tem a personalidade que a Dilma tem. Conheço bem a personalidade dela. Isso vai exigir que eu tenha o bom senso de quando elegi o Jair Meneguelli presidente do sindicato de São Bernardo, o José Dirceu presidente do PT. Rei morto, rei posto. A Dilma no governo tem de criar a cara dela, o estilo dela, o jeito dela de governar.

FOLHA – Falando do estilo, ela é retrata por pessoas do governo como muito dura no trato pessoal, que falta habilidade política, que massacra algumas pessoas. Isso não é ruim para um presidente?
LULA – O Brasil já teve muitos governantes maleáveis, e não deram certo? Você tem de ser bom, afável, duro, em função de cada circunstância. Uma mulher por si já tem a necessidade de ser mais retraída, pelo preconceito que existe contra a mulher. A Dilma vai surpreender esse país. Quem pensa que a Dilma é uma mulher grosseira, é uma mulher dura, está errado. Na sua casa, se você for com uma gracinha para o lado de sua mulher, ela vai lhe dar um tranco. Se a conversa for séria, não vai dar. E a Dilma tem toda a clareza disso.

FOLHA – Dilma precisará refazer sua imagem, tomar um banho de loja, semelhante ao que o sr. fez em 2002?
LULA – (Risos) Por esse aspecto, não precisa. Não mudei minha cara. Comprei apenas um terno novo para 2002. Não é possível mudar a cara. A pessoa pode aprimorar. Em 2002, fizemos uma pesquisa em que 85% diziam que a reforma agrária tinha de ser pacífica. Levei mais de 15 dias para que minha boca pudesse proferir reforma agrária tranquila e pacífica. Essas mudanças têm de ter. Algumas que a gente fala, pensando que está agradando, não batem com o que povo pensa.

FOLHA – O sr. defende uma coalizão e uma disputa plebiscitária. Se a coalizão é tão importante, por que faz tanta questão que o candidato seja do PT e não de um partido aliado?
LULA – Porque seria inexplicável para grande parte da sociedade brasileira o maior partido de de esquerda do país, que tem o presidente da República atual, não ter um sucessor. Apenas por isso.

FOLHA – Fechou ontem a aliança ontem com o PMDB?
LULA – Patrocinei uma reunião de líderes do PT com o PMDB, que fizeram uma nota. Haverá um acordo nacional, e a chapa será PT-PMDB.

FOLHA – Michel Temer é o nome para vice?
LULA – Não posso dar palpite. Quem discute vice é o candidato a presidente.

FOLHA – O sr. ainda tem o desejo de que Ciro seja vice de Dilma e que o PMDB apoie?
LULA – Um presidente não tem desejo. Faz o que é possível.

FOLHA – É possível?
LULA – Na política, tudo pode acontecer. O Ciro tem todas as condições de ser candidato a presidente. Sou um homem feliz. Feliz desse país, que tem o Ciro, a Dilma, o Serra, o Aécio, a Marina, a Heloísa Helena. Nesse espectro, não tem ninguém de extrema-direita ou conservador ao extremo. Todos tem história. Não acho que é mérito meu, não. Fernando Henrique Cardoso tem importância nisso, pelo fato de ter feito comigo uma transição excepcional.

FOLHA – Se Ciro se mantiver emparelhado ou à frente de Dilma em março, quando o sr. e ele combinaram de tomar uma decisão final, que argumento o sr. pode usar para convencê-lo a desistir da Presidência e concorrer em São Paulo?
LULA – Não vou tentar convencê-lo.

FOLHA – O sr. patrocina a articulação para ele ser candidato a governador de São Paulo.
LULA – Não é verdade. Não patrocino. O Ciro pertence a um partido pelo qual tenho profundo respeito. O PSB tem os mesmos direitos do PT. Sou o único cidadão que não tem autoridade moral para pedir para alguém não ser candidato. Fui candidato a vida inteira. Só cheguei à Presidência porque teimei. Muita gente achava que eu tinha de desistir. Jamais farei isso [pedir para Ciro desistir].

FOLHA – Como o sr. explica ter um governo popular e a oposição liderar nas pesquisas sobre sucessão?
LULA – Ainda não temos candidatos

FOLHA – Os motivos? Recall?
LULA – Lógico que é recall. O fato de ter um candidato da oposição que é governador de São Paulo, já foi candidato a presidente, que já foi senador, que já foi ministro, tem uma cara muito conhecida no Brasil inteiro.

Obviamente, a transferência de voto não é como passe de mágica. Vamos trabalhar para que a gente possa transferir todo o prestígio angariado pelo governo e pelo presidente para a nossa candidatura.

FOLHA – O sr. diz que ainda não há candidatos. Mas todo dia a Dilma aparece com o sr. no noticiário, viajando. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, classificou de vale-tudo as viagens que viram comícios.
LULA – Você passa o tempo inteiro plantando a sua rocinha. É justo que, quando ela ficar no ponto de colher, você vá colher. Foi grande o sacrifício que fizemos para o Brasil voltar a investir em infraestrutura. A gente não tinha dinheiro. Se olhássemos o saldo de caixa do governo para fazer o PAC, a gente não teria feito. Foi uma decisão de faríamos e arrumaríamos dinheiro onde fosse necessário.

A Dilma trabalha das oito, nove da manhã às três da manhã. Quando era ministra das Minas e Energia, ela ficava, às vezes, três e meia da manhã, ficava comendo lanche com os assessores para fazer as coisas andar. Ninguém pode ser contra a Dilma ir às obras comigo. Até porque, se ela for candidata, a lei determina quem tem prazo em que ela não poderá mais ir. Até chegar lá, ela é governo. É um debate pequeno.

FOLHA – Mendes disse que o governo testa o limite da Justiça Eleitoral.
LULA – É um debate pequeno. Cada brasileiro, seja ele presidente da suprema corte ou o mais humilde, tem o direito de falar o que bem entender, mas tem uma lógica. Nós vamos continuar inaugurando obra. Tudo que a oposição quer é mostrar na TV tudo o que eu não fizer. O que eu fizer eu tenho obrigação de inaugurar, porque sei qual foi o sacrifício para chegar aonde chegamos.

FOLHA – O sr. teme uma chapa Serra-Aécio?
LULA – Não [com voz firme].

FOLHA – O sr. pediu a Aécio para não ser vice de Serra?
LULA – [Riso] Não, não.

FOLHA – O sr. não subestimou Marina, que deixou o PT para, segundo ela, construir uma nova utopia no PV?
LULA – Se ela acredita nisso, não sou que vou desmentir. Nunca subestimei a Marina, porque a adoro como pessoa humana. Tenho carinho por ela. Fomos militantes juntos por 30 anos. Ela me pediu demissão em janeiro do ano passado, eu não dei. Na medida em que quis sair do governo e do partido, é um direito dela. Só tenho que desejar sorte, que Deus ajude. É uma pessoa boa.

FOLHA – Por que o sr. não abandonou Sarney na crise do Senado?
LULA – Por uma razão muito simples. O PT teve candidato a presidente do Senado, derrotado [Tião Viana, do Acre]. Não entendi porque os mesmos que elegeram Sarney, um mês depois, queriam derrubá-lo. Coincidentemente, o vice não era uma pessoa [Marconi Perillo, do PSDB de Goiás] que a gente possa dizer que dá mais garantia ao Estado brasileiro do que o Sarney. A manutenção do Sarney era questão de segurança institucional. O Senado está calmo. Está funcionando. Qualquer cidadão pode perder a cabeça, um presidente da República não pode perder a cabeça.

FOLHA – Se Sarney caísse, acabaria sua sustentação política no Senado?
LULA – A queda do Sarney era o único espaço de poder que a oposição tinha. Aí, ao invés de governabilidade, iam querer fazer um inferno neste país. Foi correta a decisão de manter o Sarney no Senado.

FOLHA – Falando do seu papel como presidente da República, o sr. chegou a dizer que Sarney não poderia ser tratado como um cidadão comum. Não é incorreto numa democracia, onde ninguém está acima da lei? Um presidente falar isso não transmite mensagem ruim?
LULA – É verdade que ninguém está acima da lei, mas é importante que a gente não permita a execração das pessoas por conveniências eminentemente políticas. Sarney foi presidente. Os ex-presidentes precisam ser respeitados, porque foram instituições brasileiras. Não pode banalizar a figura de um ex-presidente. O que vem depois da negação da política é pior do que a gente tinha. O mundo está cheio de exemplos.

A negação do socialismo, feita pela Gorbatchov, deu quem? O que tomava vodca lá, o [Bóris] Iéltsin. A relação com a política tem de ser mais séria. Não adianta falar mal do Congresso Nacional, porque ele é a cara do que foi votado pelo povo. O importante é que a democracia garante que a cada 4 anos haja troca.

FOLHA – O sr. apoiou Sarney, reatou relações com Collor, é amigo do Renan Calheiros, do Jader Barbalho e recebeu o Delúbio Soares recentemente na Granja do Torto. Todos eles são acusados de práticas atrasadas na política e até de corrupção. Ao se aproximar dessas figuras, o presidente não transmite ideia de tolerância com desvios éticos?
LULA – O dia que você for acusado, justa ou injustamente, enquanto não for julgado, terá de ser tratado como cidadão normal. Não tenho relações de amizade, mas relações institucionais. As pessoas ganharam eleições e exercem seus mandatos.

FOLHA – O cidadão que admira o Lula e o vê abraçado com essas figuras…
LULA – O cidadão que admira o Lula tem de saber que essas pessoas foram eleitas democraticamente. E o eleitor dessas pessoas é tão bom quanto ele.

FOLHA – O sr. trabalhou tanto pela reabilitação política de Palocci. O episódio do caseiro não é insuperável do ponto de vista eleitoral para um candidato majoritário?
LULA – Estranho a malandragem da pergunta: “O sr. trabalhou pelo Palocci”. Deixa eu lhe falar uma coisa, desejo que todos os que foram acusados, e acho que tem muita gente acusada injustamente, que todos sejam julgados. Palocci teve um veredicto. Não tem mais nenhuma pendência com a Justiça. Portanto, o Palocci pode ser o que ele quiser ser.

FOLHA – E [pendência] perante o eleitorado?
LULA – Aí terá de ser construído.

FOLHA – Ele pode ser candidato a governador de São Paulo?
LULA – Ele tem inteligência suficiente para saber se o momento é de ter uma candidatura ou não.

FOLHA – Qual é sua opinião?
LULA – Não tenho opinião. Se fizer a pergunta em março, terei opinião. Palocci pode reconstruir a vida dele. Durante os primeiros anos do meu governo, ele era considerado a pessoa mais respeitada no mundo empresarial, no mundo financeiro. Ele está quase perto de ser um gênio político e vai saber tomar a decisão.

FOLHA – Seu aliado Ciro Gomes diz que há “frouxidão moral” na hegemonia da aliança PT-PMDB, da qual o sr é o principal avalista. Sobre o encontro com o PMDB, disse: “Espero que o PMDB entregue o que prometeu. E espero que os argumentos dessa aliança sejam confessáveis publicamente”. Como o sr. responde a essas críticas?
LULA – A aliança com o PMDB e os demais partidos permitiram uma governança muito tranquila. Tive a governança mais tranquila que FHC e Sarney. Se for confirmada a aliança com o PMDB, será feito um documento público explícito para saber qual são os compromissos assumidos. Pra mim, as coisas têm de ser explícitas.

FOLHA – E a frouxidão moral?
LULA – É um conceito do Ciro.

FOLHA – Não quer responder.
LULA – Estou respondendo. É uma opinião do Ciro.

FOLHA – Não o incomoda?
LULA – Não. O Ciro esteve no meu governo. A única que não tem aqui é frouxidão moral.

FOLHA – Ciro disse que o sr. e FHC foram tolerantes com o patrimonialismo para fazer aliança no Congresso. Ou seja, aceitaram a prática política de usar os bens públicos como privados. “No governo Lula, vi um pouco de novo a mesma coisa”, ele disse em entrevista em fevereiro de 2008. Como responde a essa crítica?
LULA – Qualquer um que ganhar as eleições, pode ser o maior xiita deste país ou o maior direitista, ele não conseguirá montar o governo fora da realidade política. Entre o que se quer e o que se pode fazer, tem uma diferença do tamanho do oceano Atlântico. E o eleitor escolheu seus representantes. Quem ganhar a Presidência amanhã, terá de fazer quase a mesma composição, porque este é o espectro político brasileiro. Não é o espectro do Ciro, do Lula, do FHC, do Serra, da Dilma. Coloque tudo isso na frigideira e perceberá que são os ovos que a galinha botou. São com eles que terá de fazer o omelete.

FOLHA – Nunca se sentiu incomodado por ter feito alguma concessão?
LULA – Nunca me senti incomodado. Nunca fiz concessão política. Faço acordo. Uma forma de evitar a montagem do governo é ficar dizendo que vai encher de petista. O que a oposição quer dizer com isso. Era para deixar quem estava. O PSDB e o PFL (hoje DEM) queriam deixar nos cargos quem já estava lá. Quem vier para cá não montará governo fora da realidade política. Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão.

FOLHA – É isso que explica o sr. ter reatado com Collor, apesar do jogo baixo na campanha de 1989?
LULA – Minha relação com o Collor é a de um presidente da República com um senador de um partido que faz parte da base da base. Os senadores do PTB têm votado sistematicamente com o governo.

FOLHA – Do ponto de vista pessoal, não o incomoda? Não lhe dá aperto no peito?
LULA – Não tenho razão para carregar mágoa ou ressentimento. Quando o cidadão tem mágoa, só ele sofre. A pessoa que é a razão de ele ter mágoa vive muito bem, e só ele sofre. Quando se chega à Presidência da República, a responsabilidade nas suas costas é de tal envergadura que você não tem o direito de ser pequeno. Tem de ter as atitudes de chefe de Estado. Fico sempre olhando quando a Alemanha e a França resolveram criar a União Européia. A grandeza daqueles dirigentes políticos, ainda com o gosto de sangue da Segunda Guerra Mundial.

FOLHA – O sr. cobrou um esclarecimento da ex-secretária da Receita, Lina Vieira. Ela achou a agenda e a data, 9 de outubro, em que teria se encontrado com Dilma e ouvido o pedido para acelerar as investigações da Receita sobre Sarney. A ministra e o governo não devem esclarecimentos que o sr. mesmo cobrou?
LULA – É fantástico. O engraçado é que quando se levanta uma tese, essa tese fica sendo martelada todo santo dia para ver se ela vinga. Ora, o governo mesmo disse que a Lina tinha vindo aqui em outubro. Isso foi nós que dissemos. Acho estranho tirar tantos dias de férias para depois encontrar sua agenda.

FOLHA – Não é preciso mais explicações da Dilma?
LULA – Não tenho dúvida nenhuma. Também não tenho dúvida de que a Lina também deve ser uma grande funcionária pública. Muitas vezes as pessoas são vítimas de uma palavra a mais ou a menos. Quando as pessoas viram vítimas de utilização política, quando fulano procura alguém, e ninguém fala diretamente, sempre alguém fala por eles, aprendi a não levar muito a sério.

FOLHA – O sr. acha que Lina está sendo usada?
LULA – A dona Lina é dona da sua consciência. A dona Dilma é dona da sua consciência.
p(star). *

“Papel da imprensa não é fiscalizar, é informar”

LULA – Não faz mal porque aprendi, ao longo da minha vida, cair e levantar, cair e levantar. A pesquisa de opinião pública é como medir a pressão.

FOLHA – Quando o Rio foi escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016, o sr. disse que simbolizava a entrada do Brasil no primeiro mundo político e econômico. O episódio de derruba de um helicóptero no último sábado não mostra que aquele Rio vendido lá é fantasia e que seu discurso é irrealista?
LULA – Pelo contrário. Disse que o Brasil tinha conquistado sua cidadania internacional. E reafirmo. Foi um momento glorioso ter a maior votação que um país já teve na história das Olimpíadas. Não foram escondidos os problemas sociais do Rio.

FOLHA – O secretário da Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, diz que “o Rio precisa que o governo federal assuma a responsabilidade legal pelo combate à droga”. Empurrou a responsabilidade para o governo federal.
LULA – O governador [Sérgio Cabral] contraditou o secretário. O secretário é uma figura da Polícia Federal muito respeitada, muito amigo do diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa. Em momentos de medo, de insegurança, as pessoas falam qualquer coisa. Converse com o governador para ver a parceria na área de segurança que estamos construindo.

FOLHA – O sr. assistiu ao filme “Lula, o filho do Brasil”?
LULA – Não. Estou sendo convidado. Quinhentas ofertas. Quero sentar com a minha família e ver o filme.

FOLHA – Com financiamento de grandes empresários e ajuda das centrais sindicais na distribuição, não é um instrumento de propaganda personalista?
LULA – Se isso prevalecer, não sei o que fazer. Vou entrar numa redoma de vidro, mandar cobrir e não apareço mais em lugar nenhum. Tem um livro sobre a minha vida que é pública. O cidadão resolve fazer um filme. A única condição que impus foi não ter dinheiro público, e eu não quero que fale do governo. Do governo, só quando acabar.

FOLHA – O sr. não teme a repercussão negativa entre os judeus do encontro com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad?
LULA – Muito pelo contrário. Não estou preocupado com judeus nem com árabes. Estou preocupado com a relação do estado brasileiro com o estado iraniano. Temos uma relação comercial, queremos ter uma relação política, e eu disse ao presidente Barack Obama (EUA), ao presidente Nicolas Sarkozy (França) e à primeira-ministra Angela Merkel (Alemanha) que a gente a não vai trazer o Irã para boas causas se a gente ficar encurralando ele na parede. É preciso criar espaços para conversar.

FOLHA – Ações recentes da política externa na América Latina foram de contraponto a Washington. O Brasil tem de ser um contrapeso à força dos EUA na região?
LULA – Não quero ser um contraponto a Washington. Quando propus a criação do Conselho de Defesa e de combate ao narcotráfico, tinha duas coisas na cabeça. Nós precisamos nos transformar numa zona de paz. E, enquanto América do Sul, a gente assuma a responsabilidade de combater o narcotráfico. Porque aí vai permitir que os países consumidores cuidem dos seus consumidores.

FOLHA – Zelaya completou completou um mês na embaixada brasileira fazendo política interna. Não foi longe demais?
LULA – Só tem um exagero em Honduras. É o golpista.

FOLHA – O sr. diz que a imprensa internacional elogia o Brasil e a nacional puxa o Brasil para baixo. Nos EUA, o Obama apanha da imprensa, e é elogiado na imprensa internacional. Isso não acontece porque a imprensa nacional conhece o país melhor?
LULA – [Risos] Quisera Deus que fosse verdade. Estou convencido de que a imprensa nacional conhece melhor o país, até porque tem obrigação de conhecer. Mas, às vezes, vejo um comportamento de um setor da imprensa muito ideologizado. Sou amante da democracia e da liberdade de imprensa. A maior alegria que tenho é que os leitores, ouvintes e telespectadores são os únicos censuradores que admito nos meios de comunicação. Portanto, cada um paga pelo que faz.

FOLHA – Um dos papéis da imprensa é fiscalizar o poder. O sr. não está incomodado com a imprensa cumprindo o seu papel?
LULA – Não incomoda.

FOLHA – O sr. disse que tem azia quando lê jornais.
LULA – Como presidente, nunca fico incomodado. Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar. O papel é informar.

FOLHA – A imprensa não tem de ser fiscal do poder?
LULA – Para ser fiscal, tem o Tribunal de Contas da União, a Corregedoria-Geral da República, tem um monte de coisas. A imprensa tem de ser o grande órgão informador da opinião pública. Essa informação pode ser de elogios ao governo, de denúncias sobre o governo, de outros assuntos. A única que peço a Deus é que a imprensa informe da maneira mais isenta possível, e as posições políticas sejam colocadas nos editoriais.

FOLHA – O sr. acha legítimo o governo interferir na gestão de uma empresa privada como o sr. faz em relação à Vale?
LULA – Não interferi na Vale.

FOLHA – Houve interferência pública.
LULA – É preciso parar com essa mania de entender que só o presidente da República tem responsabilidade com o Brasil. Os 190 milhões têm. E, mais ainda, os empresários têm. E aqueles que receberam benefício do governo têm mais ainda. O que eu disse ao companheiro Roger foi pedir para a Vale colocar todo o seu poder de investimento em investimentos internos. Não apenas na exploração de minério, mas também na transformação desses minérios em aço.

Os trabalhadores da Vale sabem do carinho que tenho por ela. Tenho feito esforço em vários países do mundo, ajudando a cavar espaço para que a Vale seja empresa multinacional. Agora, não pode acontecer, quando deu um sinal de crise, mandar tanta gente embora como mandou. O Roger já sabe que houve equívoco nisso.

FOLHA – Na fusão da Oi com a Brasil Telecom, o sr. mudou a regra para favorecer um negócio em andamento de um empresário que é seu amigo e contribui para suas campanhas, Sérgio Andrade. Foi um benefício do Estado a um grupo privado. Isso não ultrapassa o limite ético?
LULA – Vocês são engraçadíssimos. Temos uma agência reguladora.

FOLHA – Mas o sr. assinou um decreto mudando a regra.
LULA – A legislação brasileira permite que a agência faça a regulação que melhor atenda ao mercado brasileiro. Estou convencido de que foi correta a decisão do governo.

*

Lula elogia Dunga e diz quem tem vaga garantida na seleção

O presidente Lula diz ser “excepcional” o saldo de Dunga na seleção brasileira. Acha que o Corinthians não tem mais chance de ganhar o Campeonato Brasileiro. O título, crê, está em disputa entre Palmeiras, São Paulo, Atlético Mineiro e Flamengo, que vem “despontando”.

Fala que Robinho “faz motocicleta” em campo. “Nem bicicleta é.” Conta que aconselhou Ronaldo a se preparar para ser convocado. Recusou-se a escalar seus onze titulares, mas opinou sobre quem teria vaga garantida para a Copa de 2010 na África do Sul.

“Dunga ganhou o que a gente não imaginava que ele ia ganhar”. Diz que o técnico foi “demonizado” como jogador em 1990, com “o fracasso da seleção” na Alemanha. Mas saiu como “herói” na Copa de 1994, nos Estados Unidos. “É casca de ferida.”

Falou que, se a seleção jogar a Copa de 2010 com “o espírito” da Copa das Confederações, “já está bom”. “Ganhar a Copa ou não, é consequência. Para o torcedor, o que é a gente quer, além de ganhar, é muita raça”, disse.

Para ele, Luís Fabiano “está excepcional” e será titular. Os outros titulares seriam Júlio Cesar, Maicon, Lúcio, Júan, Felipe Melo, Gilberto Silva e Kaká.

Apesar da irregularidade, Lula levaria Robinho para a África do Sul: “Às vezes, o cara é convocado porque o técnico tem afinidade com as pessoas que cumprem as tarefas do técnico. E o Robinho é aquele moleque de explosão. Tem dia que a gente fica nervoso porque ele não faz nada. Tem dia que a gente vê ele fazer lá uma motocicleta, nem bicicleta é, e marcar um gol espetacular”.

O presidente colocaria no grupo André Santos, Daniel Alves e Nilmar. “Se fosse técnico, levaria o Nilmar. Tenho de convocar 22 e só vou colocar 11 em campo. O Nilmar é um moleque de uma explosão extraordinária. Muito esperto, muito ligeiro”, opina.

Conta que disse a Ronaldo para se preparar fisicamente para “ser convocado” e ser reserva de Luís Fabiano. “O Ronaldão é sempre o Ronaldão”. Sobre Gilberto Silva, diz; “Sinto que é uma das figuras de confiança do Dunga”.

*

PINGA FOGO

Vale, a maior empresa privada do país
A cara do Brasil lá fora.

Roger Agnelli, presidente da Vale
Grande executivo.

Eike Batista, o homem mais rico do Brasil
Grande executivo.

Dona Lindu, mãe
Junto com a Marisa são as duas melhores mulheres do mundo.

Sr. Aristides, pai
Tenho boa lembrança do meu pai. Quando era pequeno, tinha muita bronca, porque ele era muito severo. Depois que fiquei politizado, tenho compreensão do motivo de meu pai ser rude.

Frei Chico, irmão
Figura excepcional

Lurdes, primeira mulher, que já morreu
Extraordinária

Marisa Letícia, primeira-dama
Uma das responsáveis pelo que eu sou

José Alencar, vice-presidente
O melhor vice do mundo

José Sarney, presidente do Senado
Grande republicano

Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã
Não conheço bem

Barack Obama, presidente dos EUA
Grande esperança. Um bem para os EUA e para o mundo

Michele Obama, primeira-dama dos EUA
Muito simpática

Nicolas Sarkozy, presidente da França
Surpreendentemente extraordinário.

Carla Bruni, primeira-dama da França
Sei que é muito bonita

Cristina Kirchnerr, presidente da Argentina
Grande presidente. Vai terminar fazendo grande governo

Michelle Bachelet, presidente do Chile
Muito competente

Angela Merkel, primeira-ministra
Figura séria. A Alemanha está em boas mãos

Lula
Sempre procuro me comportar com a maior humildade possível. Gosto de falar com o povo. Odeio intermediário com o povo. Esse negócio de gente falar por mim, eu não gosto. Por isso, falo muito.

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19/10/2009 - 09:28h Nos encontros com partidos aliados, Dilma surpreende parlamentares com humor e descontração

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Pré-candidata do PT quer temperar o perfil de ”gerentona” com estilo ”ternurinha”

Christiane Samarco, BRASÍLIA – O Estado SP

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, vem aos poucos deixando de lado o figurino da “gerentona” do governo e do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e assumindo o estilo “candidata ternura”.

Em encontro com as bancadas do PDT e do PR, no início do mês, a pré-candidata surpreendeu os parlamentares por seu nível de bom humor e descontração. Acostumados a uma ministra sisuda e cerimoniosa, os parlamentares se depararam com uma anfitriã sem formalismos. “O mais surpreendente foi o estado de espírito dela, em alto astral”, descreveu o deputado Mário Heringer (PDT-MG). “Tem outra Dilma no cenário. Ela está mudando a imagem”, reforçou o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP).

Depois de conversar também com parlamentares do PT, do PRB e do PC do B, Dilma agendou encontro com o PP do deputado Paulo Maluf (SP) e do ministro das Cidades, Márcio Fortes. A reunião será no próximo dia 27, em Brasília.

Além disso, o PMDB deve declarar apoio formal à candidatura de Dilma ainda nesta semana. A ministra desencadeou forte ofensiva para atrair os partidos da base de sustentação do governo. Quer evitar que eles apoiem a provável campanha presidencial do deputado Ciro Gomes (PSB-CE).

No encontro com o PDT e o PR, a ministra deixou claro que é candidata para valer e que, nessa condição, rejeita o figurino de “gerentona” porque ele reforça a ideia de uma pessoa desprovida do jogo de cintura, que os políticos consideram essencial em uma campanha eleitoral. Para Dilma, a oposição quer reforçar a imagem de “gerente” como forma de desqualificá-la. Ao argumentar que não é apenas executora, mas formuladora de políticas, a ministra destacou que elaborou todos os projetos relacionados ao pré-sal enviados ao Congresso.

“Agora vai aparecer uma moça simpática, humana, uma bailarina”, ironizou o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE). “Acredite quem quiser. Quem trabalha com ela tem um medo que se pela.”

Para a oposição, a ministra está renegando o título de “gerentona” porque o PAC “empacou”. Sérgio Guerra diz que a ministra só está criando a ” versão simpatia” porque a primeira não deu certo. “Se ela fosse gerente da Vale do Rio Doce, poderia montar uma campanha dizendo isso. Mas gerente do PAC não recomenda ninguém.”

SÃO PAULO

O PT trabalha para desidratar a candidatura de Ciro ao Palácio do Planalto e empurrá-lo para a disputa pelo governo de São Paulo, onde os petistas não têm candidato natural. Recém-filiado ao PSB e interessado na disputa pela sucessão de José Serra, o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, foi vetado pelo PT como candidato em uma eventual coligação.

Na avaliação de lideranças nacionais do PT, o apoio formal do PDT e do PC do B a Dilma acabará asfixiando as movimentações de Ciro.

Representantes do PT paulista, entre os quais a ex-prefeita Marta Suplicy, já criticaram a estratégia de Lula de unificar a base aliada em São Paulo em torno de Ciro. Mas petistas da direção nacional disparam telefonemas a aliados, dizendo que a opinião de Marta não tinha respaldo oficial.

COLABOROU JULIA DUAILIBI

19/10/2009 - 09:07h Prioridade é eleger Dilma, diz novo articulador de Lula

Ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, defende candidatura única

Para atender ao projeto nacional, Padilha afirma que o PT poderá ter de abrir mão de lançar candidatos em alguns Estados em 2010


Alan Marques/Folha Imagem
alexandre_padilha
O novo ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha


VALDO CRUZ E LETÍCIA SANDER – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Novo articulador político do governo Lula, o ministro Alexandre Padilha disse à Folha que a eleição presidencial caminha para “termos uma candidatura única” da base governista e que a prioridade do PT em 2010 será tentar eleger a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) e construir bancadas fortes no Senado e na Câmara. Petista, Padilha deixou claro que isso significa o PT abrir mão de candidaturas em alguns Estados em favor dos aliados, sugerindo que pode haver uma determinação nesse sentido em caso de resistências. Sexto ministro de Relações Institucionais do período Lula, ele afirmou também que o governo não tomará nenhuma iniciativa para apoiar a volta de uma nova versão da CPMF e indicou que a taxação de Imposto de Renda sobre a poupança foi engavetada -temas impopulares e que podem ser usados pela oposição em 2010.

FOLHA – Havia a expectativa de que o governo Lula quebraria a tradição de utilizar a negociação de cargos e emendas para ter uma base aliada forte no Congresso. É possível quebrar esta corrente?
ALEXANDRE PADILHA
- Tanto acho possível que estamos quebrando esta engrenagem.

FOLHA – Lula foi muito criticado pelo apoio a José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor. Para governar é preciso ser assim tão tolerante?
PADILHA
- Primeiro, nós governamos com as características do sistema político brasileiro e estamos promovendo mudanças. A ideia de um governo de coalizão é um avanço nisso.

FOLHA – O sr. acha possível aprovar uma nova versão da CPMF, a Contribuição Social, voltada para a saúde?
PADILHA
- Isso não é um tema nem uma iniciativa do governo. Acho que só é possível se existisse um processo de mobilização de governadores, prefeitos, da sociedade. Isso não se demonstrou até o momento.

FOLHA – O governo lutou para prorrogar a CPMF, agora o sr. diz que este não é um tema de governo. Houve também um recuo na tributação da poupança. O governo está refém da eleição?
PADILHA
- Não. O único cálculo que o governo faz é da importância das medidas para o momento que o Brasil vive, para a superação da crise. O que avaliamos como importante encaminhamos para o Congresso, enfrentando inclusive o debate que é promovido por ele.

FOLHA – Será enviado o projeto de taxação da poupança de IR?
PADILHA
- Teve um debate no fim do primeiro semestre no âmbito do conselho político, a Fazenda apresentou uma proposta. Depois, o próprio ministério não deu continuidade à apresentação do projeto.

FOLHA – Qual deve ser o lema do candidato do PT em 2010?
PADILHA
- A única coisa que acho sobre a eleição de 2010 é que vai ser polarizada, que confronta dois projetos para o país.

FOLHA – Mas o sr. não acha que o eleitor estará mais preocupado com o futuro do que com o passado?
PADILHA
- O eleitor vai decidir sobre o futuro a partir dos ganhos que ele teve no presente.

FOLHA – Na sua avaliação, como será a escolha do eleitor em 2010?
PADILHA
- Confio plenamente que o governo do presidente Lula terá todas as condições de fazer a sua sucessora.

FOLHA – A ministra Dilma?
PADILHA
- A ministra Dilma, não tenho dúvida, é a pessoa que expressa isso dentro do governo, quem mais acumulou os conhecimentos sobre aquilo que o governo Lula mudou na vida da população.

FOLHA – A ministra, que até então era vista como a mais técnica, tem agora dividido sua agenda de trabalho com ações políticas. Não temem ser acusados de abuso da máquina?
PADILHA
- Não, não tem nenhum procedimento feito pelo governo que caracterize isso.

FOLHA – O sr. acha que o vice dela deve ser do PMDB?
PADILHA
- Vejo com muita simpatia o desejo do PMDB de compor e de apoiar Dilma e acho que ele tem quadros políticos que podem contribuir.

FOLHA – Como avalia as candidaturas da ex-ministra Marina Silva (PV) e do ex-ministro Ciro Gomes (PSB)?
PADILHA
- São dois quadros extremamente valiosos. O ministro Ciro teve um papel fundamental de contribuição ao governo no primeiro mandato. Sem dúvida alguma pode contribuir muito para o embate eleitoral que vamos ter em 2010, numa eleição que vai ser polarizada. Ela caminha para termos uma candidatura única.

FOLHA – Só uma?
PADILHA
- Caminha para isso. Por ser uma eleição polarizada, caminha para ter uma candidatura por parte do governo.

FOLHA – A tendência então é o Ciro ser candidato em SP?
PADILHA
- Você tem de perguntar para ele.

FOLHA – Ele pode ser vice da ministra Dilma?
PADILHA
- Acho que não existe nenhuma tendência para se fechar essas situações hoje.

FOLHA – Muitos defendem que o PT ceda nos Estados pela aliança nacional. Isso pode acontecer?
PADILHA
- O PT está bastante comprometido com o projeto nacional, bastante convencido de que a prioridade para o PT é a eleição da ministra Dilma como sucessora do presidente Lula. A outra prioridade é constituir uma forte bancada no Senado e na Câmara.

FOLHA – Mas até agora nenhum pré-candidato do PT abriu mão.
PADILHA
- O fato de a gente já ter, em vários Estados, um conjunto de forças políticas em torno de outros candidatos é uma demonstração de que o PT prioriza o projeto nacional.

FOLHA – Cite um exemplo?
PADILHA
- Tem vários Estados em que o PT não lançou pré-candidato. É uma situação única no PT essa não sinalização de candidatos, apoiando desde o início outros partidos.

FOLHA – Quando tiver dois candidatos da base aliada, como na Bahia, significa que Lula vai subir no palanque dos dois?
PADILHA
- Faço minhas as palavras do governador Jaques Wagner, que disse que a prioridade dele é o projeto nacional. Aquilo que puder contribuir e ajudar para a candidatura de Dilma ele vai fazer. Se for a existência de dois palanques, ele vai conviver com isso.

17/10/2009 - 10:40h PT e PSDB buscam aliados para fortalecer candidatura presidencial

Senado vira moeda de troca em alianças

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Orestes Quercia, candidato de Serra ao senado. A segunda vaga está em disputa no PSDB

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Chalita e Mercadante, uma das alternativas cogitadas no PT

Clarissa Oliveira – O Estado SP

Palco da principal crise política deste ano, o Senado foi transformado em moeda de troca para a negociação de alianças no maior colégio eleitoral do País. Para assegurar um palanque forte na corrida presidencial de 2010, os partidos que tendem a polarizar a eleição decidiram empurrar seus integrantes para o sacrifício e apoiar potenciais aliados para uma das vagas que serão abertas na Casa no ano que vem.

Em 2010, entram em jogo duas das três cadeiras a que cada Estado tem direito no Senado. A renovação ocorrerá pouco mais de um ano após o Estado revelar o escândalo dos atos secretos, que colocou na mira o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

Em São Paulo, serão disputadas as posições de Aloizio Mercadante (PT) e Romeu Tuma (PTB). Candidato à reeleição, Mercadante é tido como presença certa na disputa. Mas o PT já definiu que a segunda vaga servirá apenas para atrair apoiadores para a candidatura presidencial da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.

A ex-prefeita Marta Suplicy (PT) estava de olho na vaga, mas isso não impediu o PT de apresentar ao vereador Gabriel Chalita, ex-tucano recém-filiado ao PSB, uma proposta de composição. O PT vê a oportunidade de ganhar um puxador de votos tradicionalmente dirigidos ao PSDB. Também quer fortalecer o palanque religioso de Dilma, graças à relação de Chalita com a Renovação Carismática Católica.

Evitando bater de frente com o PSB, Mercadante vem defendendo internamente que o PT dê atenção ao PC do B, que ventila os nomes do deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) e do vereador Netinho de Paula (PC do B-SP). Ele investe ainda na tese de que o melhor é apostar em quadros experientes. “Precisamos de senadores com competência e, de preferência, boa experiência legislativa”, diz.

O PDT também cobra apoio para o Senado, numa manobra para aumentar seu passe. “Meu nome está colocado e nós queremos ser contemplados”, diz o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT), o Paulinho da Força, avisando que é candidato.

ANTECIPAÇÃO

Entre os tucanos, a decisão de abrir mão de uma das vagas foi tomada ainda em 2008. Com a chancela do governador José Serra, potencial candidato tucano à Presidência, o bloco PSDB-DEM prometeu apoio ao ex-governador Orestes Quércia (PMDB), numa manobra para trazer o PMDB paulista para a aliança que reelegeu o prefeito Gilberto Kassab (DEM) e pavimentar um acordo para 2010.

Quércia ficou com a cadeira que caberia ao DEM na aliança. Mas a sigla já tinha ao menos um interessado na vaga, o secretário do Trabalho, Guilherme Afif Domingos (DEM). Em 2006, Afif perdeu para Eduardo Suplicy (PT) por apenas 770 mil votos. O acerto com Quércia deixou livre a segunda vaga da aliança PSDB-DEM-PMDB, que, até segunda ordem, ficará com o tucanato. Na lista dos cotados, estão os deputados José Aníbal (PSDB-SP) e Mendes Thame (PSDB), além do secretário da Educação de Serra, Paulo Renato de Souza (PSDB).

Na prática, a vaga pode acabar com o ex-governador e secretário do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, caso ele não consiga se viabilizar para o Palácio dos Bandeirantes. Dizendo ter “muito interesse” em concorrer, Aníbal admite que a negociação será decidida para facilitar a composição federal. “Não é sacrificar o partido, mas temos consciência de que o mais importante é dar densidade à candidatura presidencial.”

O tucanato ligado a Alckmin provavelmente ouvirá cobranças do PTB. A sigla, que apoiou o ex-governador em 2008, diz querer ajuda para reeleger Romeu Tuma (PTB). “É no mínimo justo, considerando a relação de lealdade que temos há anos com o PSDB”, diz o presidente do PTB paulista, deputado estadual Campos Machado (PTB). Já o PV da senadora Marina Silva (AC) ainda não definiu quem vai lançar. Mas, reservadamente, dirigentes dizem já ter decidido o ex-deputado Fábio Feldmann (PV) como alvo das investidas.


FRASES

Aloizio Mercadante
Senador (PT)

“Precisamos de senadores com competência e, de preferência, boa experiência legislativa”

Paulinho Pereira da Silva
Deputado (PDT)

“Meu nome está colocado e nós queremos ser contemplados”

José Aníbal
Deputado (PSDB)

“Não é sacrificar o partido, mas temos consciência
de que o mais importante é dar densidade à candidatura presidencial”

05/10/2009 - 19:12h Quem tem pressa, come cru

Luis Favre

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A reunião do Diretório Estadual do PT aprovou um calendário para começar o processo de designação de seu candidato a governador, sem fechar a porta para o diálogo com os partidos da base aliada e nem recusar o eventual apoio a candidatura de Ciro Gomes.

A decisão é sábia, permitindo que o partido possa se movimentar no plano estadual, levando em conta as manifestações repetidas de Ciro Gomes de sair candidato a presidente pelo PSB, mas sem rejeitar a procura de alianças amplas para alavancar uma candidatura de oposição aos demo-tucanos no Estado.

Existem elementos importantes em favor da candidatura Ciro Gomes ao governo estadual, tanto do ponto de vista da campanha presidencial em favor de Dilma Rousseff, como do ponto de vista estadual, na disputa contra o continuismo tucano em São Paulo.

Ciro tem todas as credenciais para ser um candidato forte aqui no Estado e sua contribuição ao debate político estadual é bem-vinda. Isto não significa que seja necessariamente a melhor opção para o campo da Dilma, aqui. Mas a discussão está aberta e não existe qualquer ultimato ou decisão imperativa, segundo as declarações do presidente estadual do PT.

O presidente Lula tentará ainda convencer Ciro a sair da disputa nacional? Ou tendo registrado a vontade várias vezes reafirmadas do candidato socialista, jogará em favor da candidatura Palocci, a favor da qual manifestou-se meses atrás?

Não tendo pressa para essa escolha, Lula aguarda que o processo se decante, até porque os próprios demo-tucanos estão longe de ter definido se terão Alckmin, Aloysio, Kassab ou o próprio José Serra como candidato ao Palácio dos Bandeirantes. Lula tem razão. Neste caso a pressa é inimiga da sabedoria. LF

02/10/2009 - 10:42h Ciro muda título para São Paulo e amplia leque de opções do PSB

Deputado prefere disputar a Presidência ao governo do Estado, mas aliados dizem que ele pode ser vice de Dilma

Mudança de endereço eleitoral do pré-candidato será assinada nesta sexta-feira

Julia Duailibi e Angela Lacerda – O Estado SP

O pré-candidato à Presidência da República pelo PSB, o deputado Ciro Gomes (CE) anunciou ontem que vai transferir o seu domicílio eleitoral do Ceará para São Paulo, o que abre a possibilidade de concorrer ao governo paulista. Apesar da decisão, que acata desejo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o parlamentar reforçou a disposição, até o momento, de concorrer ao Palácio do Planalto.

A movimentação, que teve como avalista o presidente do PSB, Eduardo Campos (PE), ampliou o poder do partido nas negociações para 2010 e amarrou o PT paulista, que sem candidato natural em São Paulo tem de aguardar o PSB decidir seu futuro. Além de ter nas mãos a possibilidade de concorrer à Presidência e ao governo de São Paulo, a articulação do partido para transformar Ciro num “candidato paulista” reforça seu nome como uma alternativa a vice da candidata de Lula, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, num cenário em que o PT não consiga fechar uma aliança nacional com o PMDB.

O deputado anunciou a decisão após almoço em Recife com Campos, governador de Pernambuco. Ciente de que a transferência do título causa “ruído” nas articulações, ele ligou para o presidente da Fiesp, Paulo Skaf. Disse pretender disputar a Presidência, não o Palácio dos Bandeirantes. O empresário se filiou ao PSB anteontem, após ter a sinalização de que poderia sair para o governo estadual.

Ciro, que trocará o domicílio hoje, em São Paulo, voltou a afirmar que “o instinto era de não fazer” a transferência, mas não descartou a corrida ao Bandeirantes. “Vamos deixar todas as portas abertas. Vamos fazer essa homenagem, com muito prazer, a uma das análises que o presidente Lula faz”, disse. “Desde que ninguém vá me pedir que tenha intimidade com a rotina de São Paulo”, completou. Lula defende Ciro como candidato em São Paulo por ser contra lançar dois nomes governistas na corrida presidencial. Apoiando o projeto de Ciro em São Paulo, e amarrando o PT paulista a essa estratégia, Lula desmobiliza também os planos do PSB de indicar o vice.

Aliados do parlamentar sustentam que a candidatura a vice seria o melhor caminho para o PSB e Ciro estaria disposto a abrir mão da corrida solo por um voo conjunto com a candidata do PT. A pedra no caminho é o PMDB. A mudança do domicílio, no entanto, não só não compromete os planos do partido, como ajuda a receber ainda mais exposição ao criar outro “fato midiático”. A direção da legenda pretende alçar Ciro para além dos 20% nas pesquisas de intenção de voto até o começo do ano que vem.

“O PSB está com uma posição política correta. Tem uma perspectiva de poder de curto prazo, com Ciro. E de longo prazo, com Eduardo Campos”, afirmou Rodrigo Rollemberg (DF), líder do PSB na Câmara. O partido estima que na eleição ampliará o número de deputados federais de 29 para, no mínimo, 45.

“Nós temos um trio em São Paulo preparado para disputar a eleição”, declarou o presidente estadual do PSB, Márcio França, numa referência a Skaf e ao vereador paulistano Gabriel Chalita. Questionado sobre a decisão de Ciro, o presidente estadual do PT, Edinho Silva, afirmou que o partido se reúne na segunda-feira para discutir a questão no Estado. “O PSB é um parceiro importante para o PT”, afirmou.

CRÍTICAS

No anúncio da transferência do domicílio, Ciro voltou a atacar o governador de São Paulo, José Serra, nome mais forte no PSDB para disputar a Presidência. “Nosso adversário José Serra era ministro durante oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, que quebrou o governo três vezes”, afirmou.

Ao abordar sua preocupação com “a ameaça que o passado volte”, tentou associar Serra a números do governo FHC. Disse nada ter de pessoal contra Serra e tentou minimizar o fato de tê-lo recentemente chamado de feio.

18/05/2009 - 15:30h Aliança PT/PMDB é inviável em 1/3 dos Estados

Rumo a 2010: Pemedebistas alegam que sem os acordos locais, não conseguem aprovar chapa nacional com Dilma

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Raquel Ulhôa e Paulo de Tarso Lyra, de Brasília – VALOR

A cúpula do PMDB aguarda o retorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva da viagem que está fazendo a China, Turquia e Arábia Saudita, para cobrar uma solução – e rápida – para os principais confrontos estaduais do partido com o PT, sob pena de estar ameaçado o apoio nacional dos pemedebistas à candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) à Presidência da República.

O problema considerado mais emblemático é o de Minas Gerais, onde o PMDB tem o candidato até agora mais competitivo, segundo as pesquisas, mas o PT rejeita apoiá-lo, mesmo sendo ministro do governo Lula – Hélio Costa (Comunicações). A situação de Minas é relevante, porque o Estado tem o maior número de delegados do PMDB que irão decidir, na Convenção Nacional de junho de 2010, se o partido fará aliança com Dilma, com o candidato do PSDB ou terá candidato próprio.

“Sem os votos de Minas, a gente não ganha a convenção”, afirma o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), um dos defensores do apoio à candidatura do governo. Por isso mesmo, é ele quem faz a cobrança mais dura por uma ação efetiva de Lula sobre os diretórios regionais do PT que se negam a apoiar candidatos do PMDB nos Estados, ainda que mais competitivos.

“O PT terá que decidir se a prioridade para o partido é ou não a eleição da ministra Dilma presidente. Para nós, o fundamental são as nossas bases estaduais. Queremos estar no projeto nacional com o presidente Lula, mas não podemos sacrificar nossas bases”, diz Alves. Ele diz que Lula antecipou o processo eleitoral, ao lançar a candidatura de Dilma, e que o PT e o PMDB são os partidos que mais têm candidatos a governador. “Não podemos brigar em tudo que é canto”, afirma.

O líder está se reunindo com os deputados pemedebistas mais representativos de cada Estado para analisar a relação com o PT. É o resultado desse levantamento que a direção do PMDB levará a Lula, segundo Alves, tão logo ele retorne da viagem. “Teremos uma conversa muito séria e sincera”, diz.

O presidente nacional do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), calcula que, dos 27 Estados, a aliança entre PT e PMDB é certa em nove, “bem encaminhada” em outros nove e praticamente impossível no restante. Para o secretário de comunicação do PT, Gleber Naime, uma grande aliança nacional com o PMDB vai sempre esbarrar nas particularidades regionais dos dois partidos. “Mas precisamos nos esforçar, para dar continuidade aos avanços do governo Lula”.

O embate entre PT e PMDB em Estados eleitoralmente estratégicos – como Rio Grande do Sul, Bahia e Rio de Janeiro, além de Minas – também preocupa petistas que consideram a aliança entre as duas legendas fundamental para a construção da candidatura da ministra.

A avaliação é que a cúpula nacional do PT não está agindo com energia sobre os diretórios estaduais, que, em sua maioria, preferem lançar candidatura própria a apoiar o PMDB. A queixa estende-se a Lula, que, segundo petistas e pemedebistas, estaria deixando os problemas avançarem demais.

Com isso, tanto petistas quanto pemedebistas estão avançando nas articulações de seus próprios interesses, e o afastamento pode se tornar irreversível. “É igual pasta de dente: depois que sai do tubo não volta mais”, afirmou um observador do processo.

Como em 2010 não estará em vigor a regra que obrigava os partidos a repetirem nos Estados a aliança nacional (verticalização), o PMDB, em tese, pode se compor livremente em cada local e, ainda assim, estar na chapa de Dilma. O problema, como alertam os próprios petistas, é que a candidatura da ministra precisa ser construída e, para isso, é fundamental ter palanques fortes, especialmente nos maiores colégios eleitorais.

Em alguns Estados onde os aliados estarão separados poderia até render dois palanques a Dilma, o que pode levar a outro problema: há locais em que a relação é tão conflituosa que pode obrigar a ministra a optar por um dos candidatos aliados ou ignorar comícios no Estado.

Por esses fatores, manter os aliados unidos deve interessar mais ao PT que ao PMDB, que não tem candidato próprio à Presidência e prioriza a eleição de governadores.

A falta de alianças consistentes causaria outro problema ao PT: comprometeria a quantidade de deputados e senadores a serem eleitos pelo partido. E uma boa base parlamentar é fundamental a qualquer projeto de governo nacional.

Uma das razões dessa aparente falta de conexão entre a Executiva nacional e os diretórios estaduais do PT pode estar no vazio político instalado na cúpula. A atual direção, com Berzoini (SP) à frente, está em fim de mandato. Em novembro, o partido realiza o PED (Processo de Eleições Diretas) para a troca dos comandos nacional e estaduais. E há indefinição quanto à nova presidência.

O mais cotado, Gilberto Carvalho, não pode assumir as rédeas do processo pré-eleitoral, porque continua exercendo função de chefe de gabinete da Presidência. Além disso, Lula ainda não decidiu se libera Carvalho para a missão partidária. O resultado é um vácuo de comando, que começa a preocupar petistas atentos ao jogo eleitoral.

Apesar da resolução aprovada no dia 8, estabelecendo que as alianças estaduais só podem ser feitas depois da definição da aliança nacional, a mensagem parece não ter chegado aos Estados. Continuam prevalecendo os interesses locais, em detrimento da aliança nacional.

Um dos locais onde há mais atrito é o Rio Grande do Sul. A determinação nacional é de apoio ao candidato do PMDB, provavelmente José Fogaça. Mas os petistas locais não aceitam. O ministro Tarso Genro é o pré-candidato do partido. “Eu sou da segunda geração do PT. O Genro é fundador. Não é possível que ele não tenha juízo suficiente para ver que seus gestos estão atrapalhando”, reclamou um integrante do diretório nacional.

O PSDB, por sua vez, tenta montar uma estratégia pré-eleitoral nos Estados mais programática. Pretende formar palanques fortes para seu candidato a presidente – os governadores José Serra (SP) ou Aécio Neves (MG) -, mas não está jogando todas as fichas numa aliança nacional com o PMDB. “Não vamos fechar projetos regionais incoerentes com o projeto nacional. O desespero é deles [PT]“, disse o deputado Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB-ES), presidente do Instituto Teotonio Vilela, ele próprio candidato a governador para garantir palanque a Serra.

Uma preocupação é comum a PT e PSDB: não querem depender de pemedebistas que estão “em cima do muro” e, mais à frente, podem mudar de lado. Essa é uma das explicações dos petistas para a resistência em apoiar Fogaça no Rio Grande do Sul. Como o PMDB também conversa com o PSDB, o PT teme ficar isolado e, consequentemente, deixar Dilma sem palanque consistente no Estado. Entre Dilma e Serra, o PMDB do Rio Grande do Sul escolhe nenhum dos dois. Defende candidatura própria.

Nesse jogo, há outras peças sobre a mesa. Por exemplo: pemedebistas temem que a doença de Dilma a tire do jogo e o PT fique sem opção. Avaliam, ainda, que se a candidatura de Dilma não decolar e Serra se mantiver na liderança, o tucano terá maior poder de atração. Um ministro próximo do presidente afirma que não será o número de cargos que garantirá fidelidade do PMDB a Dilma. “Se entregarmos a Esplanada inteira e Serra disparar nas pesquisas, eles mudam de lado”, diz.

08/05/2009 - 11:55h PT ratifica apoio a Dilma, pressiona por Carvalho e negocia palanques estaduais

Ruy Baron/Valor – 15/9/2005

Gilberto Carvalho: chefe de gabinete é o único nome de consenso para comandar partido, mas Lula resiste a cedê-lo

 

Paulo de Tarso Lyra, de Brasília – VALOR

estrela_sobe.jpgO Diretório Nacional do PT reúne-se hoje e amanhã em Brasília para discutir a sucessão de 2010 e a eleição interna para a presidência da legenda em novembro deste ano, que terá 1,35 milhão de filiados aptos a votar. O encontro vai ratificar o apoio à candidatura da chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff, e espera avançar na escolha do chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, como candidato de consenso para presidir o partido pelos próximos dois anos. O problema é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não quer ceder tão facilmente seu assessor pessoal.

Segundo apurou o Valor, três razões reforçam a resistência de Lula: a primeira, oficial, é que Carvalho exerce um papel importante no governo, filtrando conversas e visitantes e falando em nome do presidente, autorização concedidas a poucos na administração federal. A segunda, já expressada pelo próprio Lula a Carvalho, é que ele é “por demais cordato, cavalheiro”, o que poderia torná-lo presa fácil da máquina partidária. O terceiro, uma vingança pelo fato de o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, ter sido presidente interino em 2006 e, quando houve a eleição interna de 2007, ter sido massacrado por diversas correntes petistas.

Nenhuma das razões significa que Carvalho não possa tornar-se o presidente da legenda, como sonha a maioria do partido. Mas significa que muito há por se desenrolar daqui até novembro. “O jogo ainda está verde”, resumiu um dos mais próximos colaboradores do presidente Lula. Mas o PT está cada vez mais angustiado com a demora.

“Se o Carvalho lançar-se candidato, ele terá 70% de apoio assegurado. Não que não tenhamos outros nomes qualificados para o cargo. Mas sem ele, haverá disputa interna e o partido perderá um tempo enorme posteriormente reconstruindo alianças internas”, justificou o ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel.

Uma pessoa próxima do presidente Lula lembra que este é o mesmo discurso de 2006, quando Garcia foi obrigado a assumir interinamente a presidência da legenda. Na época, o atual presidente do partido, Ricardo Berzoini (SP), foi obrigado a licenciar-se por “escândalo dos aloprados”, a montagem e compra de um suposto dossiê contra a candidatura de tucanos em São Paulo. Lula cedeu Garcia, que era seu assessor especial para assuntos internacionais – cargo que voltou a ocupar posteriormente -, para presidir o PT.

“Foi um presidente excepcional, que liderou o partido em um momento complicado”, recorda um ministro. “Ele não apenas consolidou a vitória de Lula como costurou uma aliança com o PMDB, viabilizando a eleição de Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a presidência da Câmara, embrião da entrada do PMDB no governo”.

Veio a eleição interna do partido no ano seguinte e Garcia foi boicotado publicamente por diversas correntes, alegando que ele era atrelado ao governo e que o partido precisava de um nome mais independente. Na cabeça de Lula, o cenário pode se repetir. “Naquela época o problema também não era do presidente, mas ele acabou ajudando. Tornou-se um problema dele quando Garcia foi queimado internamente. Lula quer que o PT queime um pouco a cabeça em busca de soluções”, repetiu um ministro.

Internamente, a cada dia que passa, o PT se convence cada vez mais de que Carvalho é o melhor candidato. “Só precisamos convencer o Lula”, enfatiza o líder do partido na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP). Internamente, eles até fazem uma analogia com a candidatura Dilma.

Pleiteada por diversos nomes, num leque que passa pelos ministros Tarso Genro (Justiça), Fernando Haddad (Educação) e Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), a vaga de pré-candidato do PT foi entregue a Dilma por uma decisão pessoal do presidente. E o partido calou-se. Há seis meses, ela nem sequer era um nome viável, muitos alegavam que Dilma não tinha vida partidária. Hoje, aparece como um nome consensual, que paira sobre todas as tendências.

Da mesma maneira, Lula, na visão dos petistas, poderia se convencer de que não há alternativas a Carvalho e ceder de uma vez o auxiliar. O ex-governador do Acre Jorge Viana entende as razões do presidente Lula. Segundo ele, quem foi do Executivo sabe a importância de algumas peças na estrutura de governo. Mas, lembra que, apesar da eleição interna ser em novembro, o futuro presidente do PT só assumirá o cargo no início do ano que vem. “Não podemos ficar até o fim do ano discutindo outros nomes. Precisamos unir forças para construir e consolidar a candidatura Dilma”, declarou.

Um petista que conhece bem o presidente Lula intui que todos os caminhos levarão a Carvalho. Mas acredita que o feeling político do presidente Lula fará com que ele só libere seu auxiliar mais para frente. “A eleição será em novembro, as regras gerais serão divulgadas apenas em agosto. Por que Lula se anteciparia lançando o Carvalho agora”? questionou.

Fontes do governo e do PT citam pelo menos outros oito nomes que estão na agenda da sucessão petista, mas há restrições a todos, entre eles Luiz Dulci, Fernando Pimentel, José Eduardo Dutra, José Eduardo Cardozo, Marta Suplicy, Ideli Salvatti, José Fillipi Júnior, nome pouco conhecido da legenda, ex-tesoureiro do partido.

O futuro presidente terá a tarefa de consolidar as alianças estaduais, com a maior parte dos aliado mas, principalmente, com o PMDB, considerado parceiro preferencial. Em pelo menos quatro estados, esta parceria está praticamente descartada: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Pernambuco. Nos demais, apesar de algumas rixas sérias – como Bahia, Rio de Janeiro, Pará e Maranhão – a atual direção petista acha viável a dobradinha, desde que as conversas sejam bem conduzidas.

27/04/2009 - 09:13h Dilma pode sair antes da hora para campanha. Prioridade agora deve ser acerto nos Estados

Otimista, ela acha ideal desacelerar agora e deixar cargo logo em janeiro

Vera Rosa, BRASÍLIA – O Estado SP

Pré-candidata do PT à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, está tão otimista em relação ao tratamento para combater o tumor detectado em seu sistema linfático que investe nos planos políticos e admite até mesmo a possibilidade de antecipar a saída do governo para janeiro de 2010 para se dedicar exclusivamente à campanha eleitoral. Em conversas reservadas com amigos, no fim de semana, Dilma disse que, se tudo correr bem como preveem os médicos, o ideal será reforçar a maratona eleitoral a partir de janeiro, mesmo porque agora ficará difícil acumular as atividades.

Apesar do ânimo demonstrado por Dilma, tudo dependerá de seu estado de saúde e o assunto é tratado com extrema cautela tanto no Palácio do Planalto como no PT. O afastamento antecipado da ministra, porém, não é consenso. Enquanto alguns avaliam que ela ficará sobrecarregada se tiver de “carregar” as funções de gerente do governo com a candidatura logo após passar por um tratamento delicado de saúde, com quimioterapia, outros acreditam que sua permanência na Casa Civil até o prazo-limite ainda é a melhor vitrine para a campanha. Pela lei, a ministra deve deixar o cargo até 3 de abril de 2010, seis meses antes do primeiro turno da eleição presidencial.

Lula considerou “abominável” a especulação sobre a mudança de candidato do PT. Ficou ainda mais contrariado ao saber que a oposição vislumbra o PT ressuscitando a tese do terceiro mandato para ele, sob o argumento de que o partido não conta com outros nomes eleitoralmente fortes. Para o presidente, análises assim são “infundadas e desrespeitosas”.

LICENÇA

No Planalto e na cúpula do PT não há, por enquanto, nenhum plano para troca de candidato. Na quinta-feira, quando foi informado por Dilma sobre a descoberta do linfoma – tumor no sistema linfático -, Lula chegou a perguntar a ela se gostaria de tirar licença para o tratamento. A ministra respondeu que não seria necessário. Garantiu que pode manter o ritmo de trabalho e até mesmo as viagens, intercalando os compromissos com acompanhamento médico durante quatro meses.

“Não exagere. Cuide-se!”, recomendou o presidente à chefe da Casa Civil. Considerada “caxias”, Dilma trabalha em média 14 horas por dia. Cuida de assuntos tão variados como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o plano nacional de habitação e a camada do pré-sal. Hoje, por exemplo, ela terá agenda cheia em Manaus, ao lado de Lula. Amanhã, também na capital do Amazonas, comandará mais uma reunião de balanço do PAC.

“A nossa preocupação inicial não é com a campanha, mas, sim, com o lado humano”, afirmou o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP). “De qualquer forma, todos os prognósticos médicos indicam que ela tem condições não só de manter sua atividade no governo como a candidatura e, no momento apropriado, vamos formalizar isso.”

Amigo de Dilma, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos disse não ter dúvidas de que a chefe da Casa Civil vai superar a adversidade e ser candidata do PT. Thomaz Bastos almoçou no sábado com Dilma e com o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, logo após a entrevista coletiva concedida por ela no Hospital Sírio-Libanês.

Num restaurante da Rua Amauri, nos Jardins, a ministra recebeu a solidariedade de vários eleitores e posou para fotos até com crianças. “Fiquei com a melhor impressão dela sob o aspecto psicológico e físico. Achei que Dilma está muito animada”, contou Thomaz Bastos, que em 2007 enfrentou um câncer no pulmão e hoje está completamente curado.

Nos bastidores, auxiliares de Lula avaliam que a divulgação da doença não só é importante para pôr fim às especulações como vai aproximar Dilma da população, “humanizando” a candidata. Mesmo enfrentando percalços nas negociações com o PMDB para compor as alianças de 2010, o governo espera que a chefe da Casa Civil atinja 20% da preferência do eleitorado até dezembro.

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Prioridade agora deve ser acerto nos Estados

Diretórios vêm reclamando que Lula tem ignorado os problemas das candidaturas a governador do PT

Vera Rosa, BRASÍLIA – O Estado SP

A freada que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, dará nos próximos meses em sua campanha para cuidar da saúde deverá garantir o tempo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa para desfazer os nós políticos regionais que a candidatura enfrenta. Antes da descoberta dos problemas de saúde da ministra, Lula decidira procurar os principais líderes do PT para debelar focos de incêndio provocados pela falta de definição dos processos sucessórios nos Estados. O presidente decidiu agir ao perceber que importantes diretórios do partido ameaçam fazer uma espécie de “corpo mole” no apoio à divulgação da candidatura de Dilma.

Nos últimos 15 dias, Lula contatou o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e o governador da Bahia, Jaques Wagner, na tentativa de reverter esse cenário. Diretórios petistas importantes, como os de Minas, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul, reclamam que o governo tem priorizado a disputa à Presidência e ignorado os problemas das candidaturas do partido aos governos. Mais: acham que o Planalto até incentiva concorrentes de outros partidos da base, em detrimento dos nomes apresentados pelos petistas.

É o caso da Bahia, onde o PT gostaria que Lula reduzisse o poder do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), e priorizasse o trabalho para reeleger o governador petista Jaques Wagner. Na avaliação da cúpula do PT, Geddel poderá até ser adversário direto na sucessão do Estado ou concorrer ao Senado contra o PT. Com esse argumento, entendem que não faz sentido o governo permitir que um adversário em potencial comande um ministério importante como o de Integração Nacional.

Em Minas, a intervenção do presidente começou a provocar algum resultado. Depois que Lula entrou em campo para conter as cotoveladas entre os aliados, principalmente na seara petista, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel combinou com Patrus fazer um gesto público para indicar que o PT de Minas está unido.

A preocupação com Minas, o segundo maior colégio eleitoral do País, tem motivo: enquanto Pimentel e Patrus brigam pela indicação do PT, o racha na base aliada se aprofunda, tornando cada vez mais difícil a construção de um palanque forte para a chefe da Casa Civil.

O ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB), até agora líder das pesquisas para o governo mineiro, ameaça se aliar a Aécio caso o PT não o apoie na corrida ao Palácio da Liberdade. Aécio também é pré-candidato à Presidência e promete enfrentar o governador de São Paulo, José Serra, numa prévia para a escolha do concorrente tucano ao Planalto.

Para Lula, os estilhaços da briga entre as duas alas do PT e o PMDB de Hélio Costa podem atingir Dilma e acabar beneficiando os tucanos. Coordenador da campanha da ministra em Minas, Pimentel procurou Costa, na semana passada, para fazer-lhe um afago. Em público, todos falam em acordo, desde que eles próprios sejam cabeça de chapa.

“O PT tem de saber fazer concessão porque mais de um palanque dá curto-circuito. Sai faísca”, afirma o deputado José Genoino (SP). “O objetivo central é administrar os efeitos da crise econômica e eleger o sucessor do presidente Lula, em 2010. Isso condiciona tudo.??

SEM APOIO

Há Estados, porém, onde o PT e o PMDB são inimigos ferrenhos e irreconciliáveis, como São Paulo e Rio Grande do Sul. Para compensar a falta de apoio do PMDB no principal Estado da Federação, governado pelo PSDB, Lula planeja oferecer a vaga de vice na chapa de Dilma ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP).

Presidente nacional do PMDB, Temer se aproximou bastante do Planalto nos últimos meses. Também tem conversado com frequência com Dilma sobre as dificuldades para a montagem dos palanques estaduais. Nega, porém, que sua candidatura a vice já esteja acertada.

“O PMDB tanto pode ter candidato próprio como apoiar Dilma ou Serra. Temos três caminhos”, diz ele, diplomático. Na prática, o partido quer aguardar até o fim do ano para observar o desempenho da ministra da Casa Civil nas pesquisas e definir seu rumo. “Nós sabemos que o PMDB nunca estará unido e sempre terá um pezinho em cada canoa”, ironiza a senadora Ideli Salvatti (PT), de Santa Catarina, onde os dois partidos também vivem às turras.

Em São Paulo, Lula apelou pessoalmente para a ex-prefeita Marta Suplicy: pediu a ela que ajudasse a divulgar Dilma no Estado. Lula também pediu ao PT e à CUT que aproximem Dilma da área social, principalmente do Movimento dos Sem-Terra (MST).

08/04/2009 - 11:21h Disputa entre Pimentel e Patrus expõe fratura do PT em MG

Charles Silva Duarte/O Tempo – 2/7/2004

Fernando Pimentel e Patrus Ananias almoçam em restaurante popular no bairro de Venda Nova, de BH, onde o diretório nacional determinou recontagem de filiações em massa

 

César Felício, de Belo Horizonte – VALOR

Disputa entre Pimentel e Patrus expõe fratura em palanque de Dilma em MG

Protagonistas da mais acirrada luta interna do PT para definir os candidatos majoritários em 2010, o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel começam a se preparar para a possibilidade de decidirem a candidatura a governador por meio de prévias. Diminui, de um lado e de outro, a possibilidade de êxito nas estratégias para impedir a disputa pelo voto dos filiados.

Entre os aliados de Pimentel, ainda há a convicção que um bom resultado dos apoiadores do ex-prefeito na escolha das direções municipais e da direção estadual no processo de eleição direta dos dirigentes petistas (PED), no fim deste ano, pode fazer com que o ministro desista da pré-candidatura. Mas a ala que apoia Patrus Ananias articula composições internas nos municípios para impedir que o resultado do PED seja um mapeamento sobre qual dos dois lados têm o domínio do partido.

Os aliados de Patrus contam com interferências externas para debilitar Pimentel: apostam que podem conseguir a preferência do PMDB, do PCdoB e do vice-presidente José Alencar (PRB) para a montagem de um palanque mais amplo do que o que poderia ser o de Pimentel. E lembram do melhor trânsito do ministro no meio sindical e nos movimentos sociais, em grande parte ação de um aliado em Brasília, o secretário-geral da Presidência, ministro Luiz Dulci. Mas o ex-prefeito acredita que o pragmatismo irá prevalecer: os partidos da base aliada de Lula tenderiam a se alinhar com o candidato mais bem colocado nas pesquisas de intenção de voto. No último levantamento publicado pelo instituto Datafolha, Pimentel oscilou entre 24% e 25%, conforme a lista de candidatos. Patrus patinou entre 11% e 13%.

Na disputa pelas preferências dos filiados, o primeiro obstáculo que Pimentel terá que superar é a ofensiva dos aliados de Patrus para reduzir a base de votantes em Belo Horizonte, onde a hegemonia do ex-prefeito é completa. Termina no dia 17 de abril o prazo para a revalidação ou não de 6 mil filiações feitas em 2008, tendo como principal região eleitoral o bairro de Venda Nova, na zona norte da capital. De acordo com a Justiça Eleitoral, a capital mineira concentrava 16 mil dos 139 mil filiados ao PT no Estado em fevereiro deste ano, mas tanto aliados de Pimentel quanto de Patrus estimam que o total de aptos a votar no processo interno em Belo Horizonte, incluindo as filiações contestadas, chegue a, no máximo, 13 mil.

O grupo que apoia Patrus conseguiu questionar estas filiações em uma reunião do diretório estadual da sigla em 2 de dezembro, sob o argumento de que foram feitas em massa. Caso as 6 mil inscrições fossem anuladas, seria um golpe decisivo no ex-prefeito: elas correspondem a quase 40% do colégio eleitoral da cidade. Os aliados de Pimentel recorreram ao diretório nacional, que concedeu um prazo para que as filiações questionadas fossem recadastradas pela direção nacional. Até 31 de março, foram feitos 90 recadastramentos.

“A opinião de muitos é que o processo de crescimento do partido em Belo Horizonte no ano passado seguiu um padrão diferente do que o de anos anteriores, que estava amparado na articulação do partido com movimentos sociais e comunitários”, disse o deputado estadual André Quintão (PT), que foi aluno de Patrus na universidade, coordenador de sua campanha para prefeito de Belo Horizonte em 1992, chefe de gabinete do atual ministro na prefeitura e seu secretário municipal de Desenvolvimento Social.

Com cerca de 200 mil eleitores, Venda Nova é um dos maiores e mais pobres bairros de Belo Horizonte e o PT na região é comandado pelo deputado federal Miguel Corrêa Júnior. Ex-líder estudantil, Corrêa montou entidades assistenciais na região e ingressou na política filiado ao PPS. Chegou ao partido trazido por Fernando Pimentel. Para Corrêa Júnior, “a revalidação está sendo feita porque alguns setores do partido ficaram em minoria nas instâncias partidárias”. O parlamentar afirma que articulou as milhares de filiações por orientação de uma campanha promovida pela direção nacional da sigla. E diz que não está sozinho nesta prática. “Em Betim, são 4 mil filiados. Cerca de 1,2 mil entraram no ano passado. Lá não é nossa base e estas filiações não estão sendo contestadas”, disse. Segundo a Justiça Eleitoral, em Betim o PT está com 2.937 filiados.

Em caso de prévias, Patrus Ananias conta com um eleitorado pulverizado em pequenos e médios municípios, muitos dentro dos bolsões de pobreza que foram beneficiados pelas políticas assistenciais coordenadas por ele no governo federal, como o programa Bolsa Família.

Com o apoio da esquerda petista, Patrus deve ter o apoio do prefeito de Coronel Fabriciano, Francisco Simões (1,5 mil filiados, segundo o TSE). Sua base ainda deve estender-se por Betim, Teófilo Otoni , da prefeita Maria José Haueisen (809 filiados), Varginha, do prefeito Eduardo Carvalho (579 filiados), Janaúba, administrada por José Benedito (354 inscritos), além de cidades onde o PT não governa como Montes Claros (700 filiados), Uberaba (1.009 inscritos), Uberlândia (3,7 mil militantes) e Juiz de Fora (1,5 mil integrantes), entre as mais importantes.

Já Pimentel está mais presente nos grandes centros. Deve ter, além de Belo Horizonte, a hegemonia sobre o segundo maior colégio eleitoral petista em Minas, Ipatinga, onde a Justiça Eleitoral registrava em fevereiro 12,9 mil filiações. E disputa em situação de favoritismo em Governador Valadares (1,6 mil inscritos), Nova Lima (420 filiados) e Contagem (3,6 mil integrantes).

Depois das eleições municipais, Patrus reforçou a sua agenda de viagens dentro do Estado. Procura fazer encontros todos os sábados. Já esteve nas cidades de Betim, Luz, Montes Claros, Itaobim e Teófilo Otoni. Neste mês, irá a Ponte Nova, Caratinga, Governador Valadares, Coronel Fabriciano e cidades do sul e do Triângulo Mineiro.

Articulando sua candidatura a partir de um pequeno escritório no centro de Belo Horizonte, Pimentel gastou os últimos dias procurando aumentar seu espaço na direção nacional do PT, que tentou impedir no ano passado a aliança informal com o PSDB costurada por ele para apoiar o secretário estadual Márcio Lacerda, do PSB, que terminou eleito. No fim de março, encontrou-se na capital mineira com o ex-deputado e ex-presidente do PT, José Dirceu. E cultiva a antiga relação com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, com quem militou na luta armada nos anos 60 no Comando de Libertação Nacional (Colina).

A virtual candidata do PT à Presidência, que é natural de Belo Horizonte, procura se manter longe da briga em seu Estado de origem. Em fevereiro, cancelou de última hora a sua participação em um evento organizado pelo PT mineiro em Venda Nova, o reduto dos pimentelistas recém-filiados à sigla. O encontro era boicotado pela ala do partido que defende a candidatura de Patrus e havia o receio de que se tornasse um instrumento a favor de Pimentel na disputa interna. No início de fevereiro, Pimentel concedera uma entrevista à revista “Veja” em que defendera a candidatura de Dilma à Presidência e criticara adversários internos petistas como vinculados a práticas políticas de esquerda ultrapassadas. A entrevista até hoje irrita os aliados do ministro do Desenvolvimento Social.

Neste mês, no dia 17, Dilma irá finalmente a Belo Horizonte, em um evento com perfil completamente diferente. A pré-candidata irá a um seminário organizado pela Fundação Perseu Abramo, órgão de estudos do partido, formalmente para debater a crise econômica global. Também farão parte da mesa Patrus Ananias e Fernando Pimentel. O primeiro, na condição de gestor da área social do governo. O segundo, por ser um dos poucos quadros dirigentes do partido com formação específica em economia. O evento será em um hotel no centro da cidade, que não é reduto de nenhum dos dois postulantes.

13/03/2009 - 15:00h Lula, um ator em 27 palcos

César Felício – VALOR

Não é apenas em relação à própria sucessão presidencial que a ação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se faz notar neste ano de pré-campanha. Além de consolidar o nome da sua preferida, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, dentro do partido, Lula começa a agir em um raio de Porto Alegre a Salvador, de Curitiba a Fortaleza.

A sombra do lulismo paira sobre cada unidade da federação. O presidente é polo aglutinador em alguns Estados e o ponto de equilíbrio em outros, onde há a disputa entre o PT e algum aliado. Serão raras as sucessões estaduais que não terão a sua ação decisiva. Um observador atento da cena petista aponta que até mesmo uniões tidas em passado recente como impensáveis começam a se desenhar, como a aproximação entre o PT e o PMDB no Rio Grande do Sul. Na arena gaúcha, os dois partidos jamais se coligaram em suas histórias. Agora esta aliança entra pela primeira vez no terreno da hipótese, em um cenário onde a governadora tucana Yeda Crusius sofre um desgaste avassalador. O ministro da Justiça, Tarso Genro, pelo PT, e o ex-governador Germano Rigotto, pelo PMDB, podem ser os protagonistas de uma coligação inédita, que, se surgir, nascerá no Planalto Central, e não no Guaíba. É com Lula, e não com líderes regionais petistas, que o PMDB poderá se coligar.

A ação de Lula também desenha uma grande frente no Paraná, onde o governador Roberto Requião (PMDB) e os petistas já tiveram várias aproximações e rompimentos. No ano passado, sob recomendação expressa de Lula, o governador paranaense nomeou o técnico Valter Bianchini para a Secretaria Estadual de Agricultura. Na ocasião, empossou outro petista, Enio Verri, para a Secretaria do Planejamento. É um aliado do ministro do Planejamento, o petista Paulo Bernardo. Não está claro quem poderá ser o candidato ao governo paranaense que una Requião e o petismo, mas é evidente a ofensiva lulista para isolar o PSDB, que caminha para uma divisão entre o senador Álvaro Dias e o prefeito de Curitiba, Beto Richa. O próximo lance do Planalto poderá ser a atração do irmão de Álvaro, o também senador Osmar Dias (PDT) para o governismo, rachando a família.

A depender das conversas com o PSB, o Planalto também poderá ser a chave para uma aliança que isole o senador tucano Tasso Jereissati no Ceará. No desenho imaginado, o governador Cid Gomes poderia disputar a reeleição, apoiado por PT e PMDB, que lançariam respectivamente para o Senado o ministro da Previdência, José Pimentel, e o deputado Eunício Oliveira. Em Pernambuco, o pacto envolveria o apoio petista à reeleição do governador Eduardo Campos e a candidatura do ex-prefeito do Recife João Paulo, ao Senado. Tanto em um caso como no outro, são equações que necessariamente envolvem a desistência do deputado Ciro Gomes (PSB) em tentar a Presidência pela terceira vez.

O quadro é mais delicado na Bahia, onde Lula já começou a agir para diminuir a competição entre o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB) e o governador petista Jaques Wagner. Aos petistas baianos, o presidente pediu que a escalada verbal fosse interrompida. Na disputa pela prefeitura de Salvador, no ano passado, o PMDB baiano aproximou-se muito dos tucanos e dos integrantes do DEM. O lado oposicionista já ofereceu a Geddel o apoio para concorrer ao governo estadual, em troca de seu empenho para impedir que o PMDB apoie o PT na eleição presidencial. Não está claro o que pode ser oferecido a Geddel para que permaneça na trincheira governista.

As maiores dificuldades de atuação presidencial estão nos dois grandes colégios eleitorais. Em Minas Gerais, a divisão do PT entre as possíveis candidaturas do ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e do ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel impede uma movimentação por cima. O provável é que se aguarde o resultado da eleição direta dos dirigentes petistas, no fim do ano passado. Um resultado claro a favor de um dos adversários internos em Minas poderá destravar a ação de Brasília. Ao longo dos últimos meses, a atuação do presidente em Minas visou apenas a enfraquecer Aécio: com sucesso, Lula impediu que o governador mineiro tentasse enredar Pimentel na construção de uma candidatura ao governo estadual fora da órbita do PT.

Em São Paulo, está a pior situação. Diante da provável candidatura do governador José Serra à Presidência, é o PT que está isolado. O governador paulista monta uma aliança com lugar para o PMDB de Orestes Quércia e o DEM de Gilberto Kassab, além de todas as alas e subalas do tucanato. Já o PT oscila entre duas possibilidades, inviáveis eleitoralmente cada uma a seu modo: o deputado federal Antonio Palocci e a ex-prefeita paulistana Marta Suplicy. Fato novo, que poderá representar uma saída para o bloco governista, é a articulação de partidos aliados ao Planalto em torno de uma hipotética candidatura do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. A construção de um cenário de dois turnos para a eleição paulista atenua a fraqueza do palanque regional para a virtual candidata presidencial do PT, Dilma Rousseff.

César Felício é correspondente em Belo Horizonte.

E-mail cesar.felicio@valor.com.br

02/03/2009 - 11:04h O Jarbas hoje é mais PSDB que PMDB, diz Sarney

Ruy Baron/Valor

Pela primeira vez, Sarney responde às críticas feitas por Jarbas Vasconcelos: “Jarbas é mais PSDB do que PMDB”

PT e PSDB disputam apoio do PMDB, mas querem o partido fraco, diz Sarney

Raquel Ulhôa, de Brasília – VALOR

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), afirma que a pecha de corrupto colada ao seu partido resulta de uma “campanha organizada” que teria como principais interessados o PT e o PSDB – que buscam o apoio da maior legenda do país para seus projetos presidenciais de 2010. O ex-presidente da República que, como presidente do Senado, tem a função de comandar as sessões do Congresso Nacional, sintetiza o que considera ser o objetivo do PT e PSDB: “Querem o PMDB fraco”.

O ataque mais duro ao PMDB, de prática de corrupção e fisiologismo, partiu de um histórico filiado da sigla, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). A avaliação partidária feita por ele pode se resumir ao fato de ser esta uma legenda essencialmente corrupta, em atos e atitudes, segundo Jarbas.

Jarbas explicou para quê, segundo seu entendimento, o PMDB quer cargos no governo: “Para fazer negócios e ganhar comissões”. A maioria do partido, avaliou, “se move por manipulação de licitações e contratações dirigidas”. Citou nominalmente, nesta análise, apenas o líder do partido no Senado, Renan Calheiros (AL), e o presidente da Casa, José Sarney (AP). Sobre Sarney, disse que sua eleição “foi um processo tortuoso e constrangedor, um completo retrocesso”. De acordo com a crítica do senador pernambucano, Sarney apareceu como candidato, “sem nenhum compromisso ético, sem nenhuma preocupação com o Senado, e se elegeu. A moralização e a renovação são incompatíveis com a figura do senador Sarney”.

Em entrevista ao Valor, concedida na manhã de sexta-feira, em Brasília, o senador José Sarney respondeu, pela primeira vez objetivamente desde que eclodiu a crise, aos comentários de Jarbas Vasconcelos. O revide de Sarney definiu, em uma só frase, sua opção para 2010 e a opinião que dará ao ser consultado sobre que rumo deve tomar o PMDB na sucessão presidencial: “Jarbas é mais PSDB do que PMDB”.

O presidente do Senado, no entanto, não nega esses maus hábitos políticos do seu partido, mas – assim como fez o senador Pedro Simon (PMDB-RS) da tribuna – estende o comportamento à vida política em geral. “O homem não nasceu anjo”, justifica.

Eleito há um mês para seu terceiro mandato como presidente do Senado, Sarney teve, até agora, pouco a comemorar. Nenhuma das 11 comissões técnicas foi instalada, por causa da disputa entre partidos, nada foi votado em plenário e a adesão da Venezuela ao Mercosul – processo ao qual é totalmente contrário – foi aprovada pela comissão de parlamentares que representam o Brasil no bloco.

A partir desta semana, o presidente do Senado espera livrar-se dessa agenda negativa que só lhe tem causado dissabores. Pretende criar, junto com o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), uma comissão mista para analisar todas as propostas de reforma política que tramitam no Congresso e, no fim, elaborar um substitutivo que, acredita-se, teria tramitação mais fácil.

O senador também quer instalar a comissão de senadores que vai monitorar a crise econômica. Crise que, na sua opinião, influenciará a posição do seu partido na sucessão presidencial de 2010. Sarney defende a manutenção da aliança com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, resultando no apoio dos pemedebistas à candidatura governista. Mas ele diz que é cedo para o partido tomar a decisão. “Isso vai depender da crise econômica”, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor:

Valor: A pecha de corrupto que seu partido tem não incomoda?

José Sarney: Essa é uma campanha organizada, estruturada, que realmente não tem profundidade. Acho que o partido está pagando por ter ganho as eleições e ser o partido mais forte. Ele está debaixo de um fogo cruzado de todos os outros partidos, inclusive os dois grandes, PT e PSDB, que querem o apoio do PMDB, mas querem, ao mesmo tempo, o PMDB fraco.

Valor: O senhor concorda com Pedro Simon, quando ele diz que o PMDB não é mais corrupto que o PT ou o PSDB? São todos iguais?

Sarney: O Simon está falando o que é a realidade. A sociedade é o que é. Tem gente boa, tem gente má em todos os lugares. O primeiro documento que existe sobre política, democracia no mundo é o discurso de Péricles aos mortos na guerra do Peloponeso, no qual ele já acusa o adversário de ter roubado o ouro da estátua de Fídias. Então, essa é uma maneira de desqualificar o adversário. Em todo lugar, em toda a campanha, a todo momento, esse é um tema que não falha, porque faz parte de uma das ideias fundamentais políticas do mundo ocidental.

Valor: É arma de campanha porque existe…

Sarney: Claro que existe. Corrupção existe em todos os setores, em todo lugar do mundo. O homem não nasceu anjo. Mas o Brasil avançou demais no combate à corrupção, com os controles de Tribunais de Contas, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal, por meio do qual é possível acompanhar os gastos públicos), a transparência legislativa, o controle geral de verbas, os controles internos, enfim, tudo isso existe e funciona.

Valor: Uma das acusações feitas por Jarbas é que “o comportamento do governo Lula contribui para a banalização” da corrupção. Até que ponto o relacionamento do Executivo com o Legislativo estimula essas práticas?

Sarney: São acusações que foram feitas ao Fernando Henrique Cardoso, estão sendo feitas ao Lula, foram feitas ao Juscelino Kubitschek e são feitas a todos os presidentes. É o jogo político. É uma arma de jogo político.

Valor: Além das críticas ao PMDB, o senador Jarbas Vasconcelos afirmou que sua eleição foi um “retrocesso” e que o senhor não fará as mudanças políticas necessárias na Casa. Como a convivência será possível?

Sarney: O Jarbas hoje é mais PSDB que PMDB. Hoje, Jarbas tomou uma posição que o aproxima mais do PSDB do que do PMDB.

Valor: Mas isso não impede que ele continue no partido.

Sarney: Hoje tem a cláusula da fidelidade partidária, que tornou muito difícil a saída do partido.

Valor: E o senhor acha que é possível alterar essa regra dentro da reforma política que se pretende?

Sarney: Eu e o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), vamos criar uma comissão para consolidar todas as propostas de reforma política que existem dentro do Congresso e fazer um substitutivo, com vários projetos que serão submetidos às duas Casas. Até o fim do ano temos que dar uma solução a isso.

Valor: Mas essa reforma nunca avança. O que pode ser mudado de fato? A tal “janela” para que um político mude de partido sem perder o mandato? Pode ser o fim da reeleição?

Sarney: Não quero discutir os casos em si, porque não quero provocar discussões que possam interromper, prejudicar a comissão que estamos criando agora. Vamos fazer tudo para votar neste ano. Um ponto que considero fundamental é acabar com o voto proporcional. Sem mexer nisso não há reforma política. Só existe no Brasil. Não existe em lugar nenhum no mundo. É uma reminiscência do século 19. O mundo mudou e nós ficamos no século 19.

Valor: E quanto à reeleição?

Sarney: Sempre fui contrário. Acho que deve ter um mandato mais longo, de cinco ou até seis anos. Quatro anos é um prazo muito curto para realizar. Mas não quero entrar no mérito do que pode ou não ser votado.

Valor: A paralisia do Senado está sendo criticada. Como o senhor responde a isso?

Sarney: Quero dizer que as últimas reformas de profundidade no país foram aprovadas na última vez em que fui presidente do Senado: as reformas do Judiciário e da Previdência Social. Deu muito certo a do Judiciário, os efeitos estão sendo colhidos pelo povo brasileiro. E vou me dedicar a justamente votar a reforma política, a reforma tributária e a mudança nas regras das medidas provisórias.

Valor: Há dias o senhor chegou a defender o fim da verba indenizatória (R$ 15 mil mensais que os parlamentares podem gastar com despesas relacionadas à atividade legislativa), que a Mesa Diretora da Câmara decidiu divulgar na internet. É possível extingui-la?

Sarney: Vou fazer a mesma coisa que a Câmara fez. Vou propor à Mesa do Senado a publicação de tudo, com a maior transparência com relação à verba indenizatória. De minha parte, acho que essa não foi uma solução das mais felizes encontradas pelo Congresso.

Valor: O senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) tem uma proposta que acaba com a verba indenizatória, mas aumenta o salário do parlamentar. É uma solução?

Sarney: É uma das propostas, mas tem que ser decidida pelo Congresso. Não é matéria a ser decidida pela Mesa Diretora. É um caso delicado, porque todos os deputados e senadores têm que apoiar e votar.

Valor: Uma questão que deve ser decidida na sua gestão é o pedido de adesão da Venezuela ao Mercosul, que o senhor sempre foi publicamente contra. O senhor acha que o Senado pode barrar?

Sarney: Não vou colocar minha posição pessoal para bloquear uma proposta pelo Senado. Não vou fazer com essa nem com nenhuma. Sou presidente da Casa, senão perco a autoridade. Mas minha posição continua a mesma. Não entendi até agora o que é “democracia bolivariana”. E tem a cláusula do Mercosul, que estabelece a plena vigência das instituições democráticas como condição essencial para a adesão de um país. E toda democracia adjetivada para mim passa a ficar sob contestação. Era o que acontecia com as democracias populares. Acho que a entrada da Venezuela, neste momento, vai ser um elemento perturbador no Mercosul, que hoje atravessa uma fase muito difícil. Não podemos transformar o Mercosul num fórum político.

Valor: E com Hugo Chávez (presidente da Venezuela) isso seria inevitável?

Sarney: Tenho a impressão que, se Chávez ingressar, vai querer transformá-lo num fórum político. É do temperamento político.

Valor: O PSDB também é contra. Como a oposição é forte no Senado, há chance de rejeição?

Sarney: Pelo que sinto, pelo movimento dentro da Casa, tenho a impressão de que terminam aprovando. Pode encontrar resistência, mas a minha impressão é que vai passar.

Valor: Voltando ao PMDB, o senador Simon afirmou que em 2010 o partido estará com quem pagar mais. Lula poderá contar com o partido na chapa de seu candidato, seja ou não a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil)?

Sarney: Eu, pelo menos, defendo a posição de que o PMDB deve manter a aliança que tem com o PT, porque as afinidade que o partido tem com o PT são maiores do que as que tem com outros partidos. Mas é cedo para falar nisso.

Valor: Qual é o momento da decisão?

Sarney: Vai depender da crise econômica, de como ela vai surgir e de que modo ela vai influenciar a campanha no Brasil. O lado econômico vai ter reflexo na área política.

18/01/2009 - 11:14h Lula quer lançar Dilma já em 2009 para fazer alianças

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KENNEDY ALENCAR colunista da Folha Online

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem dito a ministros, aliados e petistas que deseja lançar publicamente até o final deste ano a candidatura ao Palácio do Planalto da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. A eleição presidencial acontecerá em outubro de 2010.

Legalmente, o PT deve esperar até junho de 2010, o mês para realização das convenções partidárias que oficializam as candidaturas. Mas Lula pretende ganhar um semestre para articular alianças.

O raciocínio do presidente é o seguinte: o PT deve terminar 2009 ungindo Dilma como candidata. O presidente tem até data: durante as eleições internas petistas marcadas para o final de novembro deste ano.

Na sequência, Lula acha que o PT deve buscar uma ampla aliança com PMDB, PSB e a penca de outras legendas que sustentam seu governo no Congresso.

Se o partido ficar esperando até junho de 2010, Lula avalia que será mais complicado viabilizar a aliança para uma candidatura única das atuais forças governistas.

O presidente insiste na tese da candidatura única para fazer disputa plebiscitária com a oposição na campanha de 2010. Crê que mais de um candidato do campo lulista inibirá sua ação a favor de sua favorita.

A primeira opção do Planalto é por um entendimento com o PMDB. Lula e Dilma gostariam que o governador do Rio, Sérgio Cabral, fosse o candidato a vice da ministra. No entanto, ele já disse a Lula e a Dilma que deseja tentar a reeleição no Rio e sugeriu um nome do Nordeste: o atual ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima.

Caso não consiga a aliança com o PMDB, partido dividido e também cortejado pelo PSDB para a disputa presidencial, o PT deveria tentar um acordo com o PSB. O deputado federal Ciro Gomes (CE) ou o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, seriam opções de vices nordestinos para a mineira Dilma que fez carreira política no Rio Grande do Sul.

Mas Ciro ainda não desistiu de ser candidato, apesar de seu caminho ficar mais estreito a cada dia. Campos tem a alternativa de concorrer à reeleição.

*

8 anos para mudar o Rio

O governador Cabral acha que precisa governar o Rio por oito anos para se credenciar a voos mais altos. Ele começou a implementar uma política de ocupação “social” de favelas para enfrentar o crime organizado. Se o projeto pegar e se ampliar significativamente num eventual segundo mandato, ele se credenciaria para tais voos.

*

Paixãozinha

Dilma e auxiliares chamam o ministro Geddel de “paixãozinha”. O relacionamento entre eles é muito bom. Lula gosta do desempenho administrativo do peemedebista e criou com ele uma relação pessoal boa, apesar das críticas duras de Geddel ao presidente no primeiro mandato.

Na avaliação do Palácio do Planalto, a eventual indicação de Geddel para vice de Dilma mataria três coelhos com uma cajadada.

Daria a ela um vice peemedebista do maior Estado do Nordeste. Diminuiria a chance de o partido fechar oficialmente com os governadores tucanos José Serra (SP) ou Aécio Neves (MG), ambos potenciais candidatos em 2010. E resolveria a briga entre PT e PMDB na Bahia, facilitando a candidatura à reeleição do governador petista Jaques Wagner.

Kennedy Alencar, 41, colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos. É comentarista do telejornal “RedeTVNews”, de segunda a sábado às 21h10, e apresentador do programa de entrevistas “É Notícia”, aos domingos à meia-noite.

E-mail: kalencar@folhasp.com.br

08/12/2008 - 12:30h Rio: “Finanças da prefeitura obrigarão a um decretão de ajuste fiscal”

 

Leo Pinheiro / Valor

Eduardo Paes sobre sua futura administração: “Não será um governo, no primeiro ano, de grandes obras”

Do Rio – VALOR


Valor: O prefeito Cesar Maia acha que o 2º turno da disputa entre o senhor e o deputado federal Fernando Gabeira (PV) foi no campo maísta, de seus ex-aliados, e que isso o cacifa para 2010. Como o senhor vê esse raciocínio?

Eduardo Paes: Já dizia minha avó que pretensão e água benta cada um serve quanto quer. Ele é político, tem três mandatos de prefeito, dois de deputado federal e todo o direito de pretender o que quiser. O que eu vi muito no 2º turno foi uma candidatura claramente posicionada contra o Cesar Maia, que era a minha, e outra que, apesar de ter o apoio (do prefeito), o escondia. Então, eu não diria que era do campo maísta. Os dois candidatos, na verdade, negavam a possibilidade de parceria com ele.

Valor: Pelo que já levantou como o senhor encontrará a Prefeitura?

Paes: Muito mal. São dados nos quais nos aprofundamos, mas vamos receber a prefeitura muito mal, a capacidade de investimento praticamente zerada, um orçamento superestimado, transformado em peça de ficção. Não tivemos acesso ao caixa, mas sabemos que existe um déficit operacional.

Valor: Então, o primeiro ano da gestão do senhor será um período de ajustes, de aperto?

Paes: Está cada vez mais claro que teremos que tomar medidas para conter despesas e, de alguma forma, aumentar receitas. Já nos primeiros dias de governo, devemos ter um decretão de ajuste fiscal-orçamentário para que possamos governar com tranqüilidade, sem que isso signifique, necessariamente, prejuízo aos serviços públicos. Ao contrário. Agora, vamos ter que priorizá-los, mas não será um governo, no primeiro ano, de grandes obras.

Valor: O senhor está trabalhando com expectativa de quebra de receita em decorrência da crise?

Paes: A prefeitura usa os mesmos parâmetros do governo federal para a definição do seu orçamento: inflação, taxa de crescimento etc. O orçamento já havia sido enviado à Câmara e não foram feitos ajustes. São R$ 12 bilhões, mas com uma grande margem de remanejamento. Vamos trabalhar para aumentar a receita sem aumentar a carga tributária.

Valor: O senhor vai reduzir pessoal?

Paes: Cargos em comissão. A prefeitura não tem uma máquina inchada. O Cesar (Maia) não perdeu completamente o controle disso. Agora, a gente quer trabalhar com metas de desempenho, queremos mandar o orçamento de 2009 já com metas, e vamos introduzir elementos de meritocracia.

Valor: Como harmonizar esse discurso de ênfase na gestão com o caráter político da administração pública? O senhor está formando uma equipe com pessoas de vários partidos…

Paes: Se você olhar, sem preconceito, a composição do meu governo, verá que é essencialmente técnico, embora tenha política. Acabei de designar uma técnica para a Fazenda, eleitora, inclusive, do meu adversário (a economista Eduarda La Rocque). Na Casa Civil coloquei um deputado federal (Pedro Paulo) que também é do PSDB, mas da minha cotíssima pessoal, não é negociação política. Então, nas funções essenciais, temos quadros essencialmente técnicos. E em algumas áreas, há quadros políticos, como é o caso da competente deputada federal Jandira Feghali (PSDB), na Cultura. Você tem quadros políticos sim, mas na gestão, todos são essencialmente técnicos. Acho até que exagerei no técnico.

Valor: Sua eleição fortalece a candidatura própria do PMDB para a Presidência em 2010?

Paes: Em primeiro lugar, o grande vitorioso aqui foi o governador Sérgio Cabral. Ele saiu fortalecido como personagem político do PMDB nacional.

Valor: O senhor acha que ele é um potencial candidato à Presidência?

Paes: Não estou dizendo isso. Nem acho que deva ser. O projeto dele, na minha opinião, é ser candidato à reeleição. Depois, se fizer um bom governo, pode pensar em tudo que quiser. Mas acho que ele sai fortalecido nessa coisa interna do PMDB nacional. E que o partido se fortalece, a partir de vitórias como a do Rio. O encaminhamento que imaginamos é uma aliança com o presidente, com o PT.

Valor: O senhor acha então que o partido não deve ter candidato próprio?

Paes: O ideal é que a gente permaneça em um projeto político único. É uma aliança de muito sucesso. Mas isso o tempo dirá, não quero me aventurar muito na política nacional.

Valor: O nome que neste momento o PT está colocando…

Paes: É a candidata do presidente Lula, do Sérgio Cabral e do Eduardo Paes, (a ministra) Dilma Rousseff. Nós vamos defender dentro do PMDB.

Valor: Nessas obras do PAC ela é fundamental para o Rio…

Paes: Não é por isso. Acho que o presidente pautou o nome dela para sua sucessão e acho que é um quadro muito competente.

Valor: O 2º turno da eleição do Rio não foi um lado apoiado pelo governador e outro, que votou no Gabeira, reagindo ao Cabral?

Paes: Não, acho que foi uma adesão ao Gabeira. Acho que ele foi muito competente em transmitir essa coisa da negação da política, embora seja político desde o tempo que eu não tinha título de eleitor. Eu faço o contrário, faço questão de dizer que sou político e que acredito no poder de transformação da política. Comecei na política aos 22 anos sem ser filho de político. Optei pela política.

Valor: Na sua visão, o que deve ser feito para resgatar a confiança da população nos políticos?

Paes: Acho que é trabalhar direito e prestar o serviço. Ao mesmo tempo, isso (o discurso da rejeição) é coisa até certo ponto festiva. Se você for pedir para a pessoa organizar seu raciocínio, sobre a razão pela qual está pensando daquela maneira, ela não consegue concatenar. Mas, enfim, houve essa coisa aí… pelo jeito, não chegou a ser uma onda. Perdeu! Foi difícil, porque o Gabeira, além de ser uma pessoa que eu adoro e respeito, faz o tipo frágil. E brigar com uma pessoa que faz o tipo frágil é duro! Eu gosto de uma boa briga política.

Valor: O Lula que o diga…

Paes: Não tenho nenhum tipo de restrição aos embates que travei na política. Há horas que se adjetiva demais. Foi a correção de rumo que fiz na campanha em relação à agressão ao filho do Lula. Agora, os mensaleiros, tirando a adjetivação, está tudo comprovado no relatório que escrevi.

(HM e CS)

28/11/2008 - 11:55h “Partido terá que buscar os aliados do PSDB no Estado”


Davilym dourado/valor

Marinho: “Não excluiria Marta, Palocci, Mercadante ou Haddad, mas o mais importante agora é definir o arco de alianças e falta ousadia no PT para isso”

De São Bernardo do Campo – VALOR

Eis os principais trechos da entrevista do prefeito eleito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, ao Valor, concedida em seu escritório de campanha:

Valor: A Prefeitura de São Bernardo do Campo terminou sendo a principal vitória do PT em São Paulo, em uma eleição em que o partido não teve grande sucesso no Estado. Que papel o senhor jogará na eleição em 2010?

Luiz Marinho: A chance de eu ser candidato é zero, porque não faço milagre em dois anos. Não tenho como assumir uma prefeitura em 2009 e arrumá-la em 2010. Minha candidatura é impossível. Já avisei ao partido que não serei candidato. Este debate já foi feito. Se fosse para eu disputar o governo do Estado, teria continuado ministro. Discordo ainda que o PT tenha tido um resultado ruim em uma eleição em que cresceu 10% no número de prefeitos em São Paulo.

Valor: Ainda que o senhor não seja candidato ao governo estadual, será um grande eleitor. Por onde o senhor acha que o partido deve seguir em São Paulo?

Marinho: O importante agora é definir alianças. O PT já perdeu eleições passadas em São Paulo por falta de ousadia em estabelecer alianças. Deixou escapar algumas eleições pelos dedos. Isto é muito mais importante do que definir o candidato agora. Em algum momento vamos ter que trabalhar para romper o amplo arco de alianças que o PSDB montou aqui, que vai do DEM ao PMDB, ao PTB.

Valor: Então o PT teria que procurar fazer o que Serra fez este ano: armou uma aliança PSDB-DEM-PMDB antes de definir o candidato ao governo estadual?

Marinho: Mais ou menos. E como candidato não excluiria ninguém: a ex-ministra Marta Suplicy, o senador Aloizio Mercadante, o deputado Antonio Palocci ou o ministro da Educação, Fernando Haddad. Importante é ter aliança.

Valor: Em 2006, o partido definiu o candidato em prévias e depois buscou alianças. Isto é o que não pode se repetir?

Marinho: Se o partido entra em disputa de prévias, fica discutindo nomes, para depois fazer alianças, faltando três meses para a eleição, a gente já sabe o que acontece. É a derrota. Se partir para disputa interna, não se constroem as alianças.

Valor: São Bernardo tende a sofrer o maior impacto da crise econômico, pelo peso do setor automotivo nas finanças do município. A ajuda do governo federal tende a ser uma válvula de escape de sua administração, diante da expectativa de frustração de receita?

Marinho: Há um certo alarmismo na avaliação da crise. Não há descontinuidade nas decisões de investimento. Cortes de investimentos não podem ser confundidos com ajustes de produção, com calibragem do mercado interno diante da queda de exportações. Agora, com certeza virão muito mais recursos federais para a cidade, já que a administração atual não se esforçou para apresentar projetos. Já estamos tentando carrear recursos federais por meio do Orçamento da União. Uma das emendas articuladas pelo PT destina R$ 70 milhões a um hospital municipal. Vamos tentar assegurar a liberação deste valor. Este é apenas um exemplo. Também espero estabelecer uma ponte com o governador José Serra. Ele ligou para me cumprimentar após o resultado eleitoral e prometeu uma relação “republicana”.

Valor: O fato dele ser o principal presidenciável da oposição não pode prejudicar este relacionamento?

Marinho: O primeiro gesto dele apontou na direção contrária. Estive recentemente com o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, para começar a tratar disso. Falei que os prefeitos da região metropolitana precisavam colocar para o governador a necessidade de um planejamento estratégico na área de transportes. O governo estadual está investindo nos municípios que já são servidos por trilhos dos trens metropolitanos, o que não é o caso de São Bernardo do Campo e de Diadema.

Valor: E porque Kassab precisa ser o intermediário desta demanda? Por que o senhor não tratou do tema diretamente com o governador?

Marinho: Porque ele é o prefeito da capital e deve comandar este processo.

Valor: O senhor saiu do ministério para uma disputa eleitoral em São Bernardo do Campo, em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em seu palanque por várias vezes. Por que o presidente se empenhou tanto assim nesta eleição?

Marinho: Não se trata de um projeto vertical. Ser candidato a prefeito aqui estava em meu planejamento desde 2003. O partido reivindicava minha candidatura agora. O Lula disse que, no meu lugar, não seria candidato. Mas muitos viam em mim uma liderança que permitiria desconstruir as alianças do outro grupo, que comandava a cidade há duas décadas. Este grupo em 2004 montou uma aliança de 21 partidos. Agora, conseguiram o apoio de sete.

Valor: O senhor fez uma campanha extremamente bem sucedida do ponto de vista financeiro, conseguindo uma arrecadação milionária. Porque sua campanha atraiu tantos doadores?

Marinho: O apoio financeiro que recebi é produto de minha trajetória. Eu nunca fiz negócios enquanto estive nos ministérios que ocupei ou nos cargos sindicais que exerci, e isto me deu um certo reconhecimento natural. Nesta campanha, me surpreendeu o fato de as pessoas me procurarem para oferecer colaborações, não precisou ir atrás. A campanha foi toda montada com recursos captados aqui, não veio dinheiro de fora, da direção nacional do partido. Esta história de que eu fiz a campanha mais cara do país precisa de pingos nos is. A campanha do meu adversário declarou gastos muito menores do que o meu, mas tinha um volume de mobilização e de presença física nas ruas absolutamente igual. (CF)

26/11/2008 - 11:40h PT: reflexões de Gleisi Hoffman

Por onde o PT se renova

http://ptcuritiba.org.br/files/2008/07/gleisi7.jpg

Rosângela Bittar – VALOR

Aguerrido, como se sabe, no presente, mesmo sem muitas opções à escolha, o PT, ao contrário de seus principais adversários, preocupa-se, sim, com o futuro, e tem permitido que novas lideranças, insinuadas nas duas últimas eleições majoritárias, desenvolvam suas chances. Exemplo puro desta situação é o da paranaense Gleisi Hoffman, 43 anos, dois filhos, duas campanhas eleitorais – candidata a senadora, teve 2,3 milhões de votos (começou com 2%) quando o vencedor ganhou com 2,5 milhões, e candidata a prefeita de Curitiba, recebeu 18% porcento dos votos – é atualmente presidente do PT do Paraná.

Vestida com elegância clássica, bastante articulada e pensamento organizado para o perfil do meio em que vem galgando degraus, Gleisi, depois de transitar dois dias em Brasília para contatos no governo e no partido, exibiu, docemente mas firme, uma avaliação resumida e realista sobre a política, tal como praticada no seu Estado e no seu partido, mostrando como vê o futuro e as tarefas mais urgentes.

“Não estou pensando em mim ou em 2012, o foco é 2010, para construirmos um bom palanque para a Dilma no Paraná”, afirma, referindo-se ao objetivo imediato, a candidatura da ministra chefe da Casa Civil a presidente da República, com apoio do presidente Lula. Neste palanque a que se refere há, para governador do Estado, dois nomes também em processo de construção. Um, Jorge Samek, presidente de Itaipu Binacional, e o outro o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, seu marido. Não está definido qual deles será o candidato do PT nem as alianças que serão firmadas com outros partidos para as demais candidaturas, mas é o trabalho a partir de agora

“Vamos fortalecer o projeto local com a consciência de que precisamos dar muita atenção ao projeto nacional”, assinala, indicando qual é a sua expectativa política, no momento: “Ter feito o Presidente da República, ter mudado tanto o país, e não conseguir manter isto”…Não pode, subentende-se de suas reticências.

Há algo com que Gleisi convivia mal, uma estranheza imposta a uma técnica formada na política pela prática eleitoral, mas que agora, como presidente do partido, terá que enfrentar, além de procurar formas de mudar as regras não escritas de que não gosta: a articulação política, interna, no PT, e com partidos aliados. “Estas articulações são conversações sem nenhum resultado concreto, articulações abstratas, e a vida está correndo”, traduz. Se há algo que a mobiliza é o desejo de levar a vida real para a política, interferir de forma direta no seu conteúdo. Destaca, por exemplo, que recentemente o Paraná registrou o assassinato brutal de cinco meninas, e o assunto ficou confinado à segurança. “Temos que trazer isso para a política, não adianta ficar só na polícia”.

Outro exemplo de quem reconhece ser a articulação política seu papel, mas pretende reinventá-la, é a questão agrícola. “O Paraná é um estado agrícola, o futuro da economia e da solução da crise está no agronegócio. Enfrentamos problemas sérios, como a crise do álcool, temos grandes produtores no Paraná, precisamos dar respostas”.

Gleisi se volta também para seu partido, o PT, que, segundo identifica, sofre um vácuo no planejamento do futuro. “Éramos um partido de esquerda, ganhamos as eleições em um país continental, passamos a administrar com uma coalizão de forças que não tinham a mesma visão dos problemas, isto gerou uma crise no partido. Quando nos preparávamos para viver este debate, veio outra crise, a do mensalão, e gastamos nossa energia nisto em vez de discutir os grandes temas. Chegou a reeleição do presidente, e nós não paramos para pensar”.

Afastando o conformismo com o que está posto, Gleisi dá indicações de que vai mudar, a começar do discurso. Política substantiva, não usa adjetivos para o governo, para a oposição, nem mesmo para os adversários locais. A análise é objetiva: “Beto (Richa) fez mais que (Cássio) Tanigushi, capitalizou bem os investimentos federais e nós não conseguimos capitalizar para o PT”. Ou: “As pessoas estavam indiferentes, não estavam querendo discutir política e não conseguimos politizar a campanha”. Richa, do PSDB, foi reeleito com quase 80% dos votos no primeiro turno, e Gleisi diz que, quem via a campanha de perto, imaginava que a disputa estava equilibrada. As pessoas me cercavam e diziam: ‘Estou em dúvida, gosto muito de você, mas gosto muito do Beto, por que te colocaram nisso logo agora?’ Na campanha para o Senado, Gleisi viajou todo o Estado, saiu mais conhecida mas com idéias mais diluídas. Na campanha municipal acredita ter sido possível expor melhor as idéias e explicar quem é, de onde veio e para onde quer ir.

Militante do PT desde 1989, Gleisi, formada em Direito, Administração Financeira e Gestão Pública, fez sua carreira, em alguns momentos, de forma paralela à de Paulo Bernardo. Foi Secretária de Reforma do Estado no Mato Grosso do Sul quando ele assumiu lá a Secretaria da Fazenda. Em outra fase, transferiram-se para Londrina, onde Paulo Bernardo foi Secretário de Fazenda e, ao deixar o governo para ser candidato a deputado, Gleisi se viu compatibilizada a assumir a Secretaria de Administração e Gestão. No Congresso, em Brasília, onde viveram outro período, trabalhou com Orçamento, área em que permaneceu quando integrou a equipe de transição para o governo Lula. Foi, no primeiro mandato do presidente, Diretora Financeira de Itaipu, de onde saiu para as recentes candidaturas.

Hoje, é presidente do PT no Paraná, e tem muitos planos. “Estamos fazendo uma intervenção política conjuntural. Isto nunca foi do PT”. Seu desafio é levar o partido à reflexão sobre seu papel meio a campanhas, eleições e sucessão. “Esta análise é que aproximará o partido da sociedade”. O que acha mais que necessário, principalmente em se tratando de um estado conservador, berço do MST onde, até por isto, o PT ainda inspira alta rejeição e onde, em 2006, o popularíssimo Lula foi derrotado no primeiro turno e só conseguiu empatar com seu adversário no segundo.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

E-mail rosangela.bittar@valor.com.br

18/11/2008 - 13:45h Encontro sela divisão de petistas em campanha ao governo de Minas

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Fernando Pimentel e Patrus Ananias

Ivana Moreira, de Belo Horizonte – VALOR

Abrigado na tendência majoritária Construindo um Novo Brasil, o grupo petista que não apoiou a aliança informal com o PSDB para a eleição de Márcio Lacerda (PSB) como prefeito de Belo Horizonte, já entrou em campanha para 2010, lançando o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, como candidato ao governo do Estado. Embora as principais lideranças do PT de Minas falem em reunificação da legenda, o que o encontro do grupo mostrou, no último fim de semana, em Contagem, foi um distanciamento cada vez maior entre os aliados de Patrus e do atual prefeito da capital, Fernando Pimentel.

Para os membros do grupo, como o ministro Luiz Dulci, da Secretaria Geral da Presidência, o PT mineiro precisa liderar uma aliança com partidos da base do presidente Lula, oferecendo à população mineira uma alternativa “antineoliberal”. É o oposto do que vem propondo o prefeito Pimentel, um aliado do governador tucano Aécio Neves na tese da convergência entre PT e PSDB.

O apoio de Aécio Neves a uma eventual candidatura de Pimentel ao governo do Estado sempre foi o pano de fundo das discussões que levaram à aliança para eleição do socialista Márcio Lacerda. A avaliação do grupo próximo a Pimentel é que Aécio, um governador com altos indíces de aprovação, tem tudo para fazer seu sucessor. Dificilmente o PT conseguiria chegar ao Palácio da Liberdade com uma candidatura de confronto.

Em Contagem, durante o encontro da Articulação, Patrus Ananias procurou ser cauteloso ao falar de uma possível candidatura ao governo. Mas deixou claro que está “disponível” e “preparado” para ser o candidato se esta for uma construção coletiva. “Estou me colocando sim para construirmos um projeto político alternativo e de desenvolvimento econômico vinculado a um projeto democrático popular para Minas.”

Sobre as rugas que ficaram do polêmico processo eleitoral na capital, que acabou por rachar a legenda, o ministro afirmou que é assunto encerrado. É momento de “passar a borracha”. Segundo ele, não cabem punições a nenhum dos lados. Nem ao grupo de Pimentel que teria desrespeitado uma determinação da executiva nacional contra alianças com o PSDB, nem ao grupo ligado ao Construindo um Novo Brasil que se envolveu com a campanha do pemedebista Leonardo Quintão, contra Márcio Lacerda. “Um bom ponto de partida para a unificaçao do PT em Minas é zerarmos esse processo difícil, equivocado”, declarou Patrus.

Enquanto o ministro do Desenvolvimento Social era lançado candidato em Contagem, Fernando Pimentel acompanhava Aécio Neves em agenda na França, onde o Estado celebra convênios para as comemorações do ano da França no Brasil, em 2009. O governador já disse publicamente que gostaria de ter Pimentel em sua equipe de secretários, o que serviu para alimentar boatos sobre o prefeito ter intenção de deixar o Partido dos Trabalhadores. Fontes próximas ao prefeito duvidam dessa possibilidade e acham que a fala de Aécio serviu apenas para colocar o nome de Pimentel, em destaque, na mídia. O nome do prefeito continua cotado para assumir uma pasta na reforma ministerial.

05/11/2008 - 10:54h A verdade incomoda

Juarez Rodriguez/Estado de Minas/Folha Imagem e Luiz Costa/Hoje em Dia/AE

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/foto/0,,12871077,00.jpg

Aécio e Serra: atuação dos governadores de Minas e São Paulo na campanha municipal gera tensão interna no PSDB agravada pela certeira etiqueta colada por Márcio Lacerda, prefeito de BH na aliança paulista: centro-direita

PSDB contesta declarações de Lacerda sobre apoio da legenda a Quintão

Raquel Ulhôa, de Brasília – VALOR

A declaração do prefeito eleito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), sobre suposta interferência de “correntes políticas de São Paulo” na campanha eleitoral mineira para favorecer o candidato do PMDB, Leonardo Quintão, serviu como um alerta para a cúpula tucana. Setores do PSDB viram no gesto sinal de uma campanha de bastidor para enfraquecer a pré-candidatura do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), à Presidência da República.

Lacerda, em entrevista ao “Estado de S.Paulo”, afirmou ter notícias de que a campanha do seu adversário teve “apoio financeiro muito forte de São Paulo” e de “correntes que não queriam o sucesso” do governador Aécio Neves (PSDB), de Minais Gerais. Serra e Aécio são os dois nomes do PSDB cotados para encabeçar a disputa presidencial de 2010. Lacerda foi apoiado por Aécio e pelo prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT).

Lacerda disse, ainda, que Aécio e o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) – seu padrinho político – não têm “aquela fome de ser presidente que Serra tem”. Setores do PSDB preferem achar que Ciro Gomes – e não Aécio – está por trás das acusações de Lacerda. Querem evitar uma crise interna no PSDB. O prefeito eleito foi secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional em 2003, na gestão de Ciro.

“Pato novo, quando mergulha fundo, corre perigo”, afirmou ontem o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), referindo-se às declarações de Lacerda, vistas como tentativa de atingir Serra. “É bom ele (Lacerda) se preocupar com seu partido e não opinar sobre o meu. Se quiser, que o faça. Mas sem torcer os fatos. O governador Serra não se intrometeu na eleição de Minas. Disse, apenas, que o modelo adotado em Belo Horizonte (aliança do PT com o PSDB) não é fácil repetir”, disse Virgílio.

O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), foi o primeiro a reagir ao que considerou “insinuações” do prefeito eleito, negando que Serra tenha atuado durante a campanha a favor da candidatura de Quintão. Em São Paulo, o candidato de Serra – o prefeito Gilberto Kassab (DEM), que foi reeleito – disputou em aliança com o PMDB.

“A atuação dos dois governadores, Serra e Aécio, foi coordenada pelo partido”, disse Guerra. Segundo ele, “não há nenhuma chance” de Serra ter interferido na campanha de Belo Horizonte para prejudicar o candidato de Aécio. Assim como, segundo ele, o governador mineiro não atuou em São Paulo sem o conhecimento do partido. Guerra lembrou que o apoio de Aécio à candidatura de Lacerda, numa aliança com o PT, foi aprovada por unanimidade pela Executiva Nacional do PSDB – o que não ocorreu no PT.

O líder do PSB no Senado, Renato Casagrande (ES), não viu problemas na declaração de Lacerda – a não ser para o PSDB. “Se a colaboração financeira (para a campanha de Quintão) foi legal, lícita, não vejo problema nenhum, a não ser a repercussão política das relações internas do PSDB”, disse. O que chamou a atenção de Casagrande, na entrevista, foi a definição que Lacerda fez da aliança ocorrida em Belo Horizonte – “de centro-esquerda” – e a de São Paulo – “centro-direita”. Para Casagrande, o prefeito eleito tem razão, porque a aliança feita em São Paulo é de “direita, conservadora”.

Ele considerou natural que Lacerda se posicione claramente com relação aos projetos colocados para o Brasil hoje. Segundo o líder, o projeto do PSB é fortalecer a candidatura de Ciro Gomes em 2010.

04/11/2008 - 11:11h Subserviências

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A jornalista Dora Kramer, na sua coluna de hoje no Estadão, acusa o prefeito eleito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, de “subserviência”. O motivo é a afirmação de Lacerda caracterizando a coligação de José Serra em São Paulo, de “centro-direita”.

Diferentemente do prefeito de São Paulo, que como todos sabem é um político com brilho e personalidade própria, que nunca manifestou qualquer “subserviência” para com seu “grande comandante”, o de BH e Eduardo Paes, de Rio, não podem manifestar uma opinião política tão manifestamente ultrajante.

Onde se viu tratar de “centro-direita” a aliança demo-tucana pro-Serra?

Políticos despojados até do rótulo de políticos, administradores que agem para serem bons administradores, defendendo os interesses de todos, acima dos partidos, serem etiquetados como… partidários e acima de “direita”? (centro ainda tudo bem, mas a etiqueta vem com “centro-direita”, aí é demais).

O curioso é que não é avançada nenhuma argumentação contra. Vejam o que Dora Kramer escreve:

“Marionete

Os prefeitos eleitos do Rio e Belo Horizonte andam precisando de um bom amigo que lhes informe a diferença entre a fidelidade e a subserviência desmedida.

Para se eleger, Eduardo Paes seguiu a cartilha do governador Sérgio Cabral; correu literalmente atrás de uma palavra amiga do presidente Lula, foi humilhado por Marisa Letícia, pegou na mão de quem antes jamais pegaria.

Depois de eleito, Márcio Lacerda já se fez duas vezes porta-voz de provocações ao governador de São Paulo, José Serra: comparou em tom pejorativo a tendência paulista de “centro-direita” à ação mineira de “centro esquerda” e acusou a existência de “apoio financeiro vindo de São Paulo” na campanha de seu adversário, Leonardo Quintão.

Compreende-se que ambos sejam gratos aos governadores de seus Estados, sem os quais nem sonhariam em chegar à frente das respectivas prefeituras.

Mas, considerando que provocações e bajulações são atos pessoais e intransferíveis, o prestador de serviços corre riscos. Um deles é perder o respeito do público; outro é contratar inutilmente inimigos para o dia de amanhã.”

Ainda bem, volto a repetir, que Kassab não corre esse risco. Ele até ganha mais respeito do público quando declara, como ontem, que “o clamor dos cidadãos pedia para Serra deixar a prefeitura” no meio do mandato e que o “grande comandante” fará o “trabalho de preenchimento de cargos será coordenado pelo governador Serra. Ele é o líder. Então caberá a ele indicar os candidatos às outras vagas, para governador, vice-governador, senador…Quando existe uma aliança, a aliança faz o papel dos diversos partidos.” (entrevista de Kassab ao Correio Braziliense).

Democracia nas decisões e manifestação clara de independência que não merecem qualquer porém da mídia, muito chocada com o rótulo estampado por Márcio Lacerda na testa do grande comandante de Kassab, o de “centro-direita”.

Luis Favre

03/11/2008 - 12:22h “Capacidade de liderança de Lula define impacto de crise na eleição”

 

Marcelo Déda: governador de Sergipe teme o afastamento entre PMDB e PT em função de disputa no Senado

César Felício, de São Paulo – VALOR

A eleição das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado no começo do ano influenciará mais as articulações para a disputa presidencial de 2010 do que as eleições municipais que aconteceram neste outubro. Para o governador de Sergipe, Marcelo Déda (PT), será a escolha do futuro presidente da Câmara e do Senado que ditará a relação entre o PT e o PMDB no âmbito eleitoral. Petista com trânsito livre no PSDB, Déda não descarta o apoio do partido ao fim da reeleição, desde que no contexto de uma reforma política mais ampla.

Derrotado na sua primeira incursão em eleições majoritárias, ao tentar a Prefeitura de Aracaju em 1985, Déda foi eleito e reeleito prefeito da capital em 2000 e 2004 e eleito governador em 2006, sempre com maioria absoluta. Para prefeito de Aracaju este ano apoiou o sucessor, Edvaldo Nogueira (PCdoB), que foi eleito em uma coligação que juntava PT e PSDB, um caso único entre capitais estaduais. E acredita que o cenário de crise econômica torna incerto o favoritismo do governo para ganhar as próximas eleições presidenciais.

A crise econômica surpreende o governador no momento em que sua administração se preparava para um salto em investimentos. Depois de executar um Orçamento de apenas R$ 28,1 milhões em 2007 e de projetar gastos de R$ 200 milhões este ano, o governo de Sergipe pretendia gastar em obras e novos serviços R$ 376 milhões no próximo ano.

A receita, que foi de R$ 3,6 bilhões em 2007 e deve passar para estimados R$ 4,5 bilhões este ano, tinha sido prevista em R$ 5,2 bilhões em 2009.

A crise pode ainda afetar a dívida consolidada do Estado. Para efeitos de cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, a dívida caiu de R$ 1,3 bilhão no começo do governo para R$ 530 milhões no mês de agosto, o que corresponde a 14,7% da receita corrente líquida. Quando Déda assumiu, o nível de comprometimento era de 46,28%. O contrato de consolidação da dívida é corrigido pelo Índice Geral de Preços (IGP), fortemente impactado pelo câmbio. Segundo o secretário sergipano da Fazenda, Nilson Lima, contudo, um aumento da dívida não seria preocupante. “O nível de endividamento é muito baixo. A situação está sob controle”, afirmou.

Por telefone, Marcelo Déda concedeu a seguinte entrevista ao Valor:

Valor: Governador, o fim da reeleição tende a voltar a ser discutido agora. Dirigentes da oposição acreditam que podem chegar a um acordo com a base governista para aprovar o fim deste instrumento, com base na necessidade de composição interna do PSDB e do possível interesse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em retornar ao cargo com o término do seu mandato. Há horizonte para este tipo de discussão?

Marcelo Déda: Sou por convicção muito crítico do instituto da reeleição. Defendo o mandato de cinco anos sem reeleição. Mas me preocupa esta discussão com viés utilitário, uma clara tentativa de adequar o calendário eleitoral com interesses de candidaturas. O fim da reeleição teria que estar dentro de uma reforma política, em que se discuta uma série de iniciativas. Debater o tema tendo em vista candidaturas é um erro de origem. É claro que este debate busca resolver o problema interno do PSDB, mas este é um assunto muito sério. Um dos institutos da reforma política não pode ser instrumento de um acordo circunstancial.

Valor: Que temas o senhor acha que poderiam ser agregados à discussão do fim da reeleição?

Déda: Naturalmente a fidelidade partidária no Brasil não pode se dar por uma sentença judicial, como acontece hoje. E acho que o calendário eleitoral precisa ser revisto. O sistema bienal de eleições é ruim, porque o governador precisa se envolver no processo eleitoral no meio de seu mandato. O governador precisa compor as alianças e arrisca-se a perder sua base na Assembléia Legislativa. Na hora em que se unificar eleições o sujeito não pode sair de uma prefeitura para ser deputado e os palanques regionais irão se consolidar. As alianças deixarão de ser fugazes.

Valor: O PMDB venceu estas eleições municipais. Que decorrências o senhor vê deste resultado para a eleição de 2010?

Déda: O PMDB tem mais peso relativo pela sua força no Senado e na Câmara. As eleições não aumentaram o peso dos pemedebistas na negociação de 2010. Mas a disputa pelas Mesas Diretoras da Câmara e do Senado me preocupa.

Valor: Por que?

Déda: Quem mais quer uma disputa entre PMDB e PT no Senado é a oposição. Um acordo entre os dois partidos que leve o Michel Temer (deputado pemedebista de São Paulo) à presidência da Câmara e o Tião Viana (senador petista do Acre) ao comando do Senado equilibraria as forças e aproximaria bastante as duas legendas em 2010. Ultrapassa a simples questão partidária, é um arranjo que terá relevância institucional. O PMDB não construiu projeto de poder ou vocação de governo. Cumpre o papel fundamental de oferecer maioria aos governos eleitos.

Valor: E que maioria o PMDB construirá se ficar com a presidência da Câmara e do Senado?

Déda: Não sei. Por isso é que o jogo de alianças para 2010 é uma obra em andamento. A disputa pelas Mesas Diretoras é um risco institucional e um erro político.

Valor: Dentro do PT, o horizonte de crise econômico pode levar a uma revisão de quem terá a candidatura do partido?

Déda: O processo eleitoral tornou o partido coeso e ninguém erra se, analisando a conjuntura do momento, acreditar que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, é o nome mais forte de que dispomos. Sou um apoiador de seu nome dentro do partido. Não vejo mais ninguém no horizonte. Mas a definição precisa passar por avaliações que ainda não foram aprofundadas. Entre elas a do espaço do PT e da liderança pessoal do presidente Lula.

Valor: Dilma é a gerente do Programa de Aceleração do Crescimento. A crise deve provocar a desaceleração do crescimento. Isto não pode comprometer a sua candidatura?

Déda: A crise embute uma rara oportunidade de consolidar um perfil de liderança. Lula pode revelar um Brasil com capacidade de resistência maior que a média. A crise sempre tem um potencial desestabilizador. Nos Estados Unidos, estimulou uma onda de mudanças, que pode levar à vitória do candidato da oposição. É claro que preferiríamos ter em 2010 o cenário que havia até o primeiro semestre deste ano, mas tudo irá depender da qualidade da liderança do Lula. Ele poderá passar à história como o homem que venceu a mãe de todas as crises. Mas, agora, há um certo grau de imprevisibilidade, explorado com ansiedade pela oposição.

Valor: O resultado eleitoral e a crise econômica tendem a reforçar a polarização entre PT e PSDB em 2010, eliminando a possibilidade de uma terceira via competitiva?

Déda: O fator que falta definir é qual será o papel do governador Aécio Neves (PSDB-MG). Ele levará uma candidatura presidencial até as últimas consequências? O campo dele se restringe ao PSDB ou o ultrapassa? Se Aécio de fato tem pretensões, o relógio está em contagem regressiva e o tempo dele procurar outro partido está se esgotando. Sem Aécio, fica difícil pensar que a polarização será quebrada, porque o poder agregador de Lula é muito forte sobre os partidos que atualmente compõem a base.

Valor: No âmbito dos Estados, que impactos a crise econômica já provoca?

Déda: Há alguns recuos de investidores privados em certas áreas na indústria de alimentos e na indústria de transformação em Sergipe. Mas não quero me aprofundar, até pelo risco que representa a guerra fiscal com os Estados vizinhos.

Valor: A guerra fiscal entre os Estados foi impulsionada no início dos anos 90 por outra crise econômica. A crise atual pode relançá-la?

Déda: Sem dúvida alguma. A guerra fiscal ganha impulso em circunstâncias de crise. Farinha pouca, meu pirão primeiro.

Valor: Isto diminui as chances de a reforma tributária ser aprovada no Congresso?

Déda: Vai ser muito difícil tocar a reforma tributária, porque isto envolve convencer entes federativos a assumir perdas e todos vão resistir a fazer isto neste momento.

Valor: Do ponto de vista orçamentário, a crise já chegou em seu Estado?

Déda: A crise envolve medidas de precaução e prudência. Estamos trabalhando com a perspectiva de revisão completa do Orçamento do Estado, para ver o que poderemos controlar no custeio. Em 15 dias, devo receber uma proposta de redução de gastos. A meta é conseguir o que foi obtido no primeiro ano de governo, que foi um corte de custeio de 20%. Isto significa um corte de R$ 600 milhões. Nosso Orçamento global é de R$ 4 bilhões.

Valor: E o peso da questão cambial sobre a dívida do Estado?

Déda: Sergipe está enquadrado nos termos da Lei de Responsabilidade Fiscal, nossa dívida é pequena. Mas a questão cambial está afetando a nossa política de tomada de crédito. Temos um projeto quadrienal, o Sergipe Cidade. É um conjunto de ações de apoio a arranjos produtivos locais e educação profissionalizante. Iríamos começar investindo R$ 350 milhões, complementando os recursos restantes com empréstimos do Banco Mundial e do BID. A proposta soma R$ 700 milhões. Agora dividimos o programa em módulos e vamos começar investindo R$ 250 milhões de recursos próprios e o restante do BNDES.

03/11/2008 - 08:27h ”Campanha do meu adversário teve apoio forte vindo de São Paulo”

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Márcio Lacerda: prefeito eleito de Belo Horizonte;

segundo ele, ajuda financeira para Quintão veio de correntes que não queriam o sucesso de Aécio na eleição

 

 

Eduardo Kattah, BELO HORIZONTE – O Estado SP

O prefeito eleito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), afirma que a campanha de Leonardo Quintão (PMDB), seu adversário no segundo turno, recebeu forte apoio financeiro “vindo de São Paulo”. Em entrevista ao Estado, o prefeito disse que esse apoio veio de correntes “que não queriam o sucesso do governador (Aécio Neves)”, em alusão velada ao governador José Serra (PSDB).

Lacerda disse que seus padrinhos Aécio e o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) trabalham por um projeto de centro-esquerda, em contraponto à aliança de centro-direita de PSDB e DEM, simbolizada pela eleição de Gilberto Kassab (DEM) em São Paulo. Aécio e Ciro, diz, não demonstram “aquela fome de ser presidente que Serra tem”.

Não ganhar no primeiro turno comprometeu a aliança que o elegeu?

A vitória no primeiro turno aconteceu por falhas da nossa estratégia, não por falhas de concepção da aliança. Mas no Sudeste eu tive a maior votação (no primeiro turno) entre os candidatos mais bem colocados. Dizer que houve vitórias do Serra e do Sérgio Cabral (governador do Rio), porque os seus candidatos foram para o segundo turno, e uma derrota porque eu não fui (eleito no primeiro turno), é forçar um pouco a barra. Não houve derrota da aliança.

Que influência a eleição de Belo Horizonte teve sobre 2010?

Ela sinalizou que é possível tendências social-democratas dentro do PT e dentro do PSDB se unirem. E se uniram num projeto eleitoral para uma cidade. Não significa que isso aconteceria em outras eleições. Pode acontecer. O mínimo que deveria acontecer é os social-democratas dos grandes partidos se unirem para ter um projeto para o País. Qualquer que seja o novo presidente, o ideal seria que ele tivesse uma ampla coalizão de forças de centro-esquerda o apoiando, tanto na eleição quanto no governo.

O sr. classificou a vitória de Gilberto Kassab em São Paulo como uma aliança de centro-direita…

E é.

Ela não ajudou a desgastar a aliança do governador Aécio e do prefeito Pimentel, de PSDB com PT?

Não estou dizendo que (a aliança) tenha essa importância toda. Estou dizendo que ela sinaliza algo novo na política nacional, pelo ineditismo. O papel do Kassab será municipal, embora a máquina de uma prefeitura como a de São Paulo – Belo Horizonte muito menos – seja importante no apoio para eleição de governador e presidente. Mas eu digo que é de centro-direita na medida em que reflete uma aliança que o PSDB de São Paulo já tinha com o PFL (atual DEM) há mais tempo. O governador (Aécio) falou isso para ele. Ele disse: “Já falei para o meu amigo Serra que se ele quiser ser presidente tem de criar uma ampla coalizão, um movimento de opinião.”

Como assim, um movimento de opinião?

Para que ele possa governar com a base social-política necessária capaz de gerar as transformações de que o País precisa. Ele precisa ganhar essa base ampla de opinião. Mostrar que é capaz de aglutinar. Ninguém pode ser candidato de si mesmo ou de um partido. Se você pensar bem, o Lula não foi eleito pelo PT. A votação dele foi o dobro da capacidade do PT de gerar votos. Acho que o centro do debate é este: que projeto o novo presidente terá para o País e qual a ampla coligação de forças e movimento de opinião que vai ajudá-lo a governar depois.

O sr. disse que a sua aliança enfrentou resistências vindas de fora, de São Paulo. De onde partiram essas resistências?

A cúpula do PT foi amplamente contrária, isso é conhecido. O PSDB nacional apoiou. Mas a gente tem notícias de que a campanha do meu adversário teve um apoio muito forte vindo de São Paulo.

Que tipo de apoio? Dado por quem?

Prefiro não dizer, porque eu tenho notícias de que o apoio financeiro vindo de São Paulo foi muito forte. Apoios ao candidato do PMDB e de correntes que não queriam o sucesso do governador (Aécio) nessa empreitada.

Qual a participação de Ciro na escolha do seu nome? Que tal a dobradinha Aécio-Ciro para 2010?

Ele participou da articulação aqui. Eu soube da participação dele nas articulações em outubro de 2007. Eu não vejo nem Ciro nem Aécio com aquela fome de ser presidente. Eles são até desapegados da idéia. Não têm aquela gana de ser presidente que parece que o governador José Serra tem. Eles querem um projeto para o País. Os dois querem um projeto de centro-esquerda.

31/10/2008 - 11:22h Por trás do sorriso

Por Gustavo Krieger – coluna Nas Entrelinhas do Correio Braziliense (30/10/2008)

Até que ponto dá para confiar nos discursos da ressaca eleitoral? É bom ficar de pé atrás, especialmente no caso do PMDB


gustavokrieger.df@diariosassociados.com.br

A quarta-feira foi dia de fotografias no Palácio do Planalto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o seu melhor sorriso para receber um pequeno desfile de vencedores das eleições municipais. E seus padrinhos. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), levou o candidato que elegeu na capital, o companheiro de partido Eduardo Paes. Os três posaram de mãos dadas, num gesto pensado para dar uma demonstração de união. Na saída, Cabral deu uma entrevista na qual verbalizou o alinhamento. “Em 2010, eu espero que PT e PMDB estejam unidos com o presidente Lula e em uma candidatura única à Presidência da República”, declarou. Bonito, mas até que ponto dá para confiar nesses discursos da ressaca eleitoral? É sempre bom ficar de pé atrás, especialmente no caso do PMDB.

Ao mesmo tempo em que Eduardo Paes dedicava sua vitória ao presidente Lula, o prefeito reeleito pelo PMDB em Porto Alegre, José Fogaça, adotou um discurso diferente. Questionado sobre o possível apoio do partido a um candidato do PT à sucessão de Lula, desconversou: “O PMDB não pode ficar a reboque de ninguém em 2010”, disse. Quando lhe perguntaram o que ele achava da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que vem sendo preparada pelo presidente como sua sucessora, foi irônico. “Dilma é uma excelente candidata”, disse. “Mas a deputada Maria do Rosário (candidata do PT à prefeitura de Porto Alegre) também era e eu concorri contra ela. E votei em mim”, provocou.

Qual o PMDB que sai fortalecido das urnas? O de Fogaça ou de Paes e Sérgio Cabral? A resposta não é simples. Os dois ganharam, mas é cedo para saber qual será a cara do partido em 2010. Até porque será necessário incluir na conta outros PMDBs. Como o de Geddel Vieira Lima, que pilotou a reeleição de João Henrique em Salvador. E cada seção regional tem seus próprios enigmas.

Geddel sintetiza essa metamorfose ambulante. No primeiro mandato de Lula, foi um dos principais críticos do governo no Congresso. Dirigiu ao presidente adjetivos que não fica bem lembrar. No segundo mandato é ministro. E ministro importante. A conversão de Geddel ao lulismo se deu por razões locais. Em 2006, alinhou-se ao PT para eleger Jaques Wagner ao governo do estado e derrotar seu arquiinimigo, Antônio Carlos Magalhães (DEM). “A Bahia é meu mundo”, costuma dizer. Valorizado pela aliança e em lua-de-mel com Wagner, ganhou o Ministério da Integração Nacional. No comando da pasta, foi fundamental para atrair os deputados do PMDB para a sombra do governo.

Mas o mundo mudou na Bahia. O PT, que havia entrado na administração de João Henrique em Salvador como um efeito colateral do acordo de 2006, rompeu com o prefeito e lançou candidatura própria. Geddel ficou fulo. Passou a xingar os petistas em geral e o governador em particular. Os dois partidos se enfrentaram no segundo turno. O PMDB venceu, com o apoio do DEM do deputado ACM Neto, herdeiro político do grande rival da eleição anterior. Agora, passada a briga, Geddel e Wagner ensaiam uma reaproximação.

Que apito Geddel tocará em 2010? Pela lógica, um ministro deveria fechar com as articulações do presidente. Mas Lula deixará de ser presidente após as eleições e o peemedebista é conhecido por pensar no futuro. Ele nunca interrompeu as boas conversas com o governador de São Paulo, José Serra, que deve ser o candidato tucano à Presidência. Como estarão as relações políticas na Bahia em dois anos? Tudo está em aberto.

Sérgio Cabral disse ontem que o PMDB nunca esteve tão bem como partido e associou o momento positivo à aproximação com o governo Lula. É verdade. O partido vinha perdendo prefeituras a cada eleição. Este ano reverteu a tendência, cresceu e se reafirmou como a maior legenda do país. É claro que na lista de eleitos há nomes como Fogaça, que venceu mesmo com o presidente Lula tendo gravado uma mensagem pedindo votos para sua adversária. Mas há centenas de outros, eleitos ou reeleitos nos grotões do país, impulsionados pelo Bolsa Família ou pelo crescimento da economia.

O governo Lula fez bem ao PMDB. Mais bem a alguns como Cabral que, alinhados publicamente ao Planalto, foram bem aquinhoados com verbas e projetos federais. Mas o partido como um todo beneficiou-se da popularidade do governo que apóia. O problema, como já disse, é que o governo Lula tem prazo de validade e esse prazo se encerra com as eleições de 2010. Se quiser manter o PMDB unido e a seu lado, Lula terá de oferecer à legenda mais do que fatias do poder. Terá de garantir a possibilidade de continuar no poder depois das eleições.

29/10/2008 - 12:30h PMDB quer de Kassab a CET, que controla R$ 700 milhões

Getúlio Hanashiro, ex-secretário de Pitta e Maluf, é sugerido para estatal ou SPTrans

Silvia Amorim, Ricardo Brandt e Roberto Almeida – O Estado SP

http://oglobo.globo.com/fotos/2008/01/04/04_MVG_sp_motocet.jpg

O PMDB, peça decisiva na reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM), está de olho no comando de duas grandes empresas da prefeitura na próxima gestão: a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) ou a São Paulo Transporte (SPTrans), que terão orçamentos de R$ 700 milhões ou R$ 1,3 bilhões, respectivamente, em 2009. Os peemedebistas já apontam Getúlio Hanashiro, ex-secretário de Transporte nas gestões Celso Pitta e Paulo Maluf, como um indicado a assumir qualquer uma delas.

A aliança com o PMDB, que indicou a vice Alda Marco Antônio na chapa, garantiu a Kassab o maior tempo de propaganda no rádio e na TV no primeiro turno, 8 minutos e 44 segundos, o que facilitou o trabalho do marketing na tarefa de transformar a aprovação de governo em votos.

Apesar do acordo feito com o ex-governador Orestes Quércia, de que a aliança seria condicionada ao apoio a seu nome como candidato ao Senado em 2010, o plano inicial do PMDB era conseguir a Secretaria de Transportes. Mas após a declaração de anteontem de Kassab confirmando a permanência do titular, Alexandre de Moraes, na pasta os peemedebistas já pensam num plano B.

Ontem, uma das lideranças da sigla procurou agendar uma primeira conversa oficial com o prefeito sobre a participação do PMDB no governo. A expectativa é de que a reunião seja marcada para esta semana.

O presidente municipal do PMDB em São Paulo, Bebeto Haddad, disse que “nada foi pedido e nem será” a Kassab, mas não escondeu o interesse do partido em atuar em áreas onde possam pensar “políticas para a cidade”. “Claro que o partido tem expectativas. Ninguém entra para uma eleição sem vontade de estar junto numa administração”, afirmou. “Não vinculamos nosso acordo de aliança a isso. Mas temos, sim, expectativas de sermos convidados para alguma coisa.”

O nome da vice de Kassab também tem sido mencionado para a pasta de Assistência e Desenvolvimento Social, mas Alda, que comandou a mesma secretaria no governo Pitta, teria dito ao partido que não tem interesse em reassumi-la.

MAIS FATURAS

Outro aliado, o PV, também apresentará a fatura da eleição quando for chamado por Kassab. O partido, que já tem a Secretaria do Meio Ambiente, pede agora a pasta de Esportes, hoje comandada pelo tucano Walter Feldman.

Quer ainda maior controle na Subprefeitura da Lapa, com a troca do subprefeito, uma vez que perderá a Subprefeitura de Parelheiros. Mira também a Subprefeitura da Mooca. Kassab teria ficado descontente com o desempenho do atual subprefeito de Parelheiros, Walter Tesch, filiado ao PV, por causa da inexpressiva votação que teve na região. Marta Suplicy (PT) recebeu 76% dos votos válidos e ele, 23%. Essa é a primeira movimentação dada como certa para a próxima administração. Vereadores que atuam na zona sul, como Goulart (PMDB) e Milton Leite (DEM), esperavam a mudança.

O PPS, que já integra o governo comandando a Secretaria de Serviços e ocupando cargos no segundo escalão, espera uma posição de Kassab sobre a entrada da candidata derrotada à prefeitura Soninha Francine no governo. Vereadora, ela ficará sem cargo público a partir de janeiro.

O presidente municipal do PPS, Carlos Fernandes, espera um movimento do prefeito, mas não apresentará pedidos específicos de pastas. “Ainda não fomos procurados por ninguém, mas acreditamos que, até a próxima semana, seja marcada uma conversa.”

Kassab nega que tenha acertado qualquer mudança em seu secretariado. Mas sabe que terá um desafio pela frente para acomodar os aliados que embarcam agora na prefeitura (PMDB e PR) e os antigos parceiros (PV e PPS) que esperam uma maior participação.

Para abrigar todos, Kassab terá que trocar algumas cadeiras dentro do primeiro escalão. Isso significa que o PSDB, o seu aliado mais importante, deverá perder espaço.

Hoje os tucanos controlam 10 das 22 secretarias municipais. O DEM, partido do prefeito, tem apenas 5.

Dois nomes que devem deixar suas pastas são Ricardo Dias Leme, Negócios Jurídicos, e Andrea Matarazzo, Subprefeituras. No caso do segundo, porém, a troca estaria condicionada ao aval do governador José Serra (PSDB).

Para Negócios Jurídicos ainda não se fala em nomes, mas no caso da Secretaria de Subprefeituras, um dos possíveis substitutos seria o atual secretário de Esportes, Walter Feldman – um dos maiores defensores da reeleição de Kassab dentro do PSDB. Há especulações de que ele poderia assumir a Secretaria de Saúde, no lugar de Januário Montone, que iria para a mesma pasta no governo do Estado. Do aeroporto, minutos antes de embarcar para uma viagem de 10 dias ao Japão, Feldman negou a pretensão de trocar de pasta e disse não ter ouvido qualquer palavra do prefeito sobre o assunto.

29/10/2008 - 11:45h Aliança para 2010 pode de novo isolar Alckmin

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Tendência é PSDB atrair PMDB de Quércia, que ex-governador rechaçou

Christiane Samarco, BRASÍLIA – O Estado SP

A engenharia eleitoral do arco de alianças que conduziu Gilberto Kassab à reeleição em São Paulo já desenha um novo projeto político que – mais uma vez – escanteará o ex-governador tucano Geraldo Alckmin do palco principal. Fiador da aliança do DEM com o PSDB e negociador do ingresso do PMDB de Orestes Quércia na aliança vitoriosa de Kassab, o secretário de Emprego e Relações de Trabalho, Afif Domingos, ganhou musculatura para ambicionar dois projetos, ambos conflitantes com os interesses de Alckmin.

Na primeira hipótese, o DEM quer fazer de Afif o candidato ao Palácio do Bandeirantes. No segundo cenário, que o PSDB considera mais provável, Afif seria vice de um tucano indicado pelo governador José Serra (PSDB). A aposta geral nos dois partidos é de que este tucano não será Alckmin.

Líderes e dirigentes do DEM avaliam que, ao deixar o caminho ao Senado livre para Quércia, o secretário de Serra, que por pouco não venceu o PT do senador Eduardo Suplicy (SP) em 2006, pode ser o ungido para disputar o Palácio dos Bandeirantes.

A cúpula do DEM está certa de que, na pior hipótese, Afif já é, hoje, o candidato a vice na chapa do PSDB. Ninguém tem dúvidas de que, estando fora da prefeitura da capital, o PSDB vai pôr empenho máximo no projeto de manter o governo de São Paulo sob seu comando.

Isto, é claro, no cenário de Serra trocar o projeto da reeleição pela disputa presidencial.

PERFIL SOB MEDIDA

No entanto, o entendimento geral é de que o PSDB vai investir em um perfil que possa facilitar a composição nacional com o PMDB, a partir de São Paulo. Neste caso, o DEM acredita que não haveria lugar para um Alckmin, que recusou aliança com Quércia. A opção estaria mais para Aloysio Nunes Ferreira, o chefe da Casa Civil de Serra que, em 1992, foi candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PMDB.

Seja qual for o cenário, tucanos e representantes do DEM paulista que acompanharam de perto a eleição municipal crêem que a maior pedra no caminho de Alckmin daqui a dois anos será o próprio Kassab.

O raciocínio neste caso é de que o prefeito terá se fortalecido ainda mais até se sentar à mesa de negociação para compor o xadrez de 2010. A seu favor, pesa o fato de que ele poderá ser o único negociador com mais dois anos de mandato pela frente.

Mais do que isso, pesa a animosidade entre Kassab e Alckmin, que é bem anterior à eleição. Tucanos e membros do DEM mais próximos do prefeito comentam hoje, nos bastidores, que Kassab quer “ver o diabo”, mas não Alckmin à sua frente.

Lembram que os problemas começaram quando o deputado estadual Rodrigo Garcia, do então PFL, foi eleito presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo, ainda em março de 2005. Em conversas reservadas, Kassab jura que o governador Alckmin participou da articulação para eleger Garcia, sem lhe dar conhecimento, e ainda o acusou de traição.

Até hoje o prefeito se queixa da “falsidade”. Diz que foi traído e, pior, saiu do episódio com fama de traidor.

Um dirigente do DEM que acompanhou aquele momento avalia que Kassab usará toda a sua força política para evitar uma candidatura Alckmin ao governo.