27/04/2009 - 11:49h Reforçar a estabilidade regional é essencial para integração sul-americana e para o Brasil

Lula marca data para o real sul-americano

Sergio Leo – VALOR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já marcou data para anunciar seus planos ambiciosos para o uso do real nas transações da América do Sul. Esses planos avançam além da campanha feita por ele para estender aos sócios sul-americanos o mecanismo de comércio em moeda local, já lançado com a Argentina – embora sem muito sucesso até agora, como noticiaram Raquel Landim e Janes Rocha, em reportagem do Valor, na semana passada. Na próxima reunião da Unasul, que agrega os países da região, ainda neste semestre, Lula quer apresentar aos parceiros uma proposta que pode ampliar o uso do real nas relações entre os vizinhos.

O mecanismo ainda não está pronto, e passa por discussões na equipe econômica, onde, jura-se no Palácio do Planalto, já existe concordância do reticente Banco Central. Sem dar detalhes da proposta, os assessores de Lula descrevem uma proposta que se assemelha à linha de swap em dólares aberta pelos EUA ao Brasil e outros países, no ano passado, pela qual os beneficiados por trocar no Federal Reserve suas moedas por dólares, até um limite e por um tempo limitado, que se esgota nesta semana. Mas terá diferenças, ao incorporar mecanismos de compensação de moedas.

Os países sul-americanos serão autorizados a sacar, do BC, uma quantia em reais, que poderão usar para o comércio com o Brasil ou até repassar a outros países no continente (que, por sua vez, poderiam usar a moeda para pagar compromissos no mercado brasileiro). Falta ainda, segundo um graduado assessor de Lula, definir o total que será posto à disposição dos vizinhos. Lula quer que seja uma quantia significativa.

O mecanismo em elaboração difere do sistema de pagamentos em moeda local já adotado com a Argentina porque ele permite o uso do real em outros pagamentos, além de operações comerciais. E permite também aos países beneficiados usar os reais adquiridos para transações com outros países. Além da óbvia vantagem para o Brasil, por permitir a maior circulação da moeda brasileira entre os países do continente, o novo sistema, segundo se argumenta no Planalto, ajudaria aos outros governos da América do Sul a reduzir sua dependência de dólares em transações internacionais na região – em um período de escassez de moeda americana no continente.

O Brasil tem superávits no comércio com todas as nações da América do Sul, à exceção da Bolívia. Os bolivianos tem déficits no comércio com os outros países, e um enorme superávit com o Brasil, graças à venda de gás ao mercado brasileiro. A cessão de dólares aos vizinhos permitira a esses países reduzir seus problemas de balanço de pagamentos em dólar, inclusive na Bolívia, que poderia usar os reais para comprar produtos de outros países andinos, ou da Argentina, por exemplo. Esses são os argumentos que Lula levará à reunião da Unasul, em junho.

Lula conversou sobre o assunto, na semana passada, em Buenos Aires com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner. Foi um dos principais assuntos levados por ele para a conversa privada com a presidente. O tema também foi abordado ligeiramente durante a reunião dos ministros com os chefes de Estado.

A ampliação do uso do real é um desdobramento natural da série de iniciativas que vem sendo tomada na relação bilateral, na tentativa de, progressivamente, permitir à Argentina menor dependência do dólar, já que o país, desde a decretação da restruturação unilateral de sua dívida, em 2005, tem acesso muito limitado ao mercado de capitais internacional. O Brasil, na visita, ampliou, de US$ 120 milhões para US$ 1,5 bilhão o valor das operações que podem ser firmadas sob amparo do Convênio de Crédito Recíproco (o CCR, espécie de mecanismo de compensação em moedas locais acoplado a um seguro de exportação). Firmou acordo, ainda, para que compromissos como compra e venda de energia elétrica e pagamentos previdenciários possam ser realizados em moeda local, real ou peso.

Não é a única iniciativa no continente, de redução da dependência em relação ao dólar para transações com vizinhos. Atento aos movimentos brasileiros, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, reuniu seus associados na Alternativa Bolivariana das Américas (Alba), pequenos países centro-americanos e do Caribe, além da Bolívia, e com Equador e Paraguai firmou um acordo para um mecanismo de compensação regional a que denominaram “sucre”, embrião, segundo o venezuelano, de uma futura moeda regional.

Como muitos dos anúncios de Chávez, o “sucre” tem muito de intenção e pouco de realidade, por enquanto, já que iniciativas de livre trânsito cambial na Venezuela esbarram no rígido controle de pagamentos internacionais feitos pelo governo. Chávez, no fim de semana, recebeu o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, e como outros governantes do continente, mostrou interesse no mecanismo de comércio em moeda local entre Brasil e Argentina. A conversa não foi além de perguntas interessadas do venezuelano. Não se sabe como compatibilizar o mecanismo com o controle cambial imposto no país.

A iniciativa brasileira de expandir a circulação do real no continente pode ser interpretada por dois ângulos. Um deles, se adotada a retórica com que o venezuelano Chávez cerca medidas do gênero, pode ser vista como uma medida antiamericana – o que não é – destinada a botar a colherzinha do Brasil na sopa da desconstrução dos Estados Unidos como emissor da moeda de troca mundial.

Outra interpretação, mais do agrado do governo brasileiro, é a de que a crise financeira e de confiança nos mercados mundiais ameaça fortemente as contas externas dos países da região, com quem o Brasil tem uma parcela substancial de seu comércio. Se quiser reduzir as fontes de pressão sobre as políticas comerciais dos parceiros sul-americanos e minimizar seus efeitos sobre as vendas de produtos brasileiros na região, o governo brasileiro tem de buscar mecanismos criativos e menos dependentes do fluxo de dólares para esses países. Lula mandou seus técnicos encontrarem esses mecanismos e conta tê-los em mãos, até junho.

Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

03/06/2008 - 17:52h Crise alimentaire : comment produire plus et vite

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Selon les projections du Food and Agricultural Policy Research Institute (Fapri), un centre de recherche américain, le monde aura besoin de 200 millions de tonnes de céréales supplémentaires dès 2015 – il en a produit 2,1 milliards en 2007.

Le Monde

Comment le monde assurera-t-il sa sécurité alimentaire, alors que la demande explose, que les prix s’affolent et que le réchauffement climatique complique toute volonté d’augmenter la production ? La question est discutée lors de la conférence internationale de l’Organisation des Nations unies pour l’alimentation et l’agriculture (FAO), du 3 au 5 juin à Rome.

Selon les prévisions, il sera nécessaire de doubler la production agricole d’ici à 2050, au regard de la croissance démographique et de l’évolution des habitudes alimentaires. Avec l’élévation du niveau de vie, la consommation de viande augmente, et donc les besoins en céréales pour nourrir le bétail également.

Les émeutes contre la “vie chère” ont fait prendre conscience qu’il fallait produire plus et vite. Selon les projections 2007 du Food and Agricultural Policy Research Institute (Fapri), un centre de recherche américain, le monde aura besoin de 200 millions de tonnes de céréales supplémentaires dès 2015 – il en a produit 2,1 milliards en 2007.

Pour produire plus, deux leviers existent : l’augmentation des surfaces et celle des rendements. Selon la FAO, il y a 1,5 milliard de terres cultivées à l’échelle mondiale, et 4 milliards de cultivables. Avec plus ou moins de potentiel néanmoins, car celles cultivées aujourd’hui sont les meilleures et les plus accessibles.

“Il est certes possible d’augmenter le nombre de terres cultivées, mais cela se fera au détriment des forêts ou des pâtures, des surfaces importantes pour le stockage du carbone et la biodiversité”, explique Bruno Dorin, chercheur au Centre de coopération internationale en recherche agronomique pour le développement (Cirad).

Tout cela est donc question d’arbitrages. “Les pâtures servant à l’alimentation animale, ne vaut-il pas mieux laisser brouter le bétail que de cultiver des céréales pour le nourrir?”, interroge l’économiste. Deux autres points font également question : le développement des agrocarburants et la culture des OGM.

Le niveau élevé des prix agricoles devrait constituer l’une des principales incitations à produire davantage, estime l’institut technique Arvalis. Dans sa revue Perspectives agricoles, cet organisme vient de publier une carte des marges de manœuvre pour augmenter rapidement la production mondiale. Si les potentiels existent, il pointe les limites spécifiques à chaque région.

Amérique du Sud. La zone constitue un important potentiel des terres à mettre en culture, hors région amazonienne et prairies, principalement au Brésil. “Cependant, plus on y défriche, plus on se dirige vers le centre du pays, donc loin des zones de consommation et des ports. La logistique reste un frein puisqu’il y a peu d’infrastructures routières”, explique Crystel L’Herbier, économiste chez Arvalis. En Argentine, il existe plutôt une possibilité d’accroître les rendements, à condition que la trésorerie des agriculteurs puisse leur permettre d’investir.

Amérique du Nord. Un changement d’affectation des terres au profit des céréales est envisageable au Canada et aux Etats-Unis, selon les “Perspectives agricoles 2008-2017″ de l’Organisation de coopération et de développement économiques (OCDE) et de la FAO, publiées jeudi 29 mai.

Si les surfaces disponibles sont peu nombreuses, il s’agit de bonnes terres (13 millions d’hectares en jachères aux Etats-Unis). Côté rendements, des innovations sont escomptées pour le maïs. Mais, pour l’instant, les Américains misent sur les agrocarburants.

Union européenne.
Selon la Commission, l’UE pourrait dans les dix ans augmenter sa production de céréales de 50millions de tonnes (256 millions en 2007). Elle envisage d’en gagner 38 millions par une hausse de 1 % des rendements par an, le reste provenant d’hectares supplémentaires. La jachère pourrait être supprimée.

C’est dans les nouveaux Etats membres que les rendements peuvent réellement progresser. Dans les pays à forte productivité comme la France, l’Allemagne ou la Grande-Bretagne, ils plafonnent désormais. Selon une étude du ministère de l’agriculture publiée vendredi 30 mai, le blé s’est stabilisé depuis dix ans en France autour de 70 quintaux par hectare, contre moins de 30 au début des années 1960.

Russie et autour de la mer Noire.
Il existe là un important potentiel d’anciennes terres agricoles qu’il serait possible de remettre en culture. En Russie, selon Arvalis, plus de 20 millions d’hectares de céréales ont disparu ces quinze dernières années. Si les prix restent incitatifs, des investisseurs pourraient s’y intéresser. Les freins majeurs restent le délai et le coût de la remise en culture, ainsi que les problèmes de propriété foncière qui peuvent se révéler dissuasifs.

Afrique.
Près de 210 millions d’hectares sont cultivés, alors que plus de 1 milliard pourrait l’être, dont 400 millions de très bonnes terres. Mais les experts d’Arvalis ne comptent pas sur l’Afrique pour augmenter d’ici à 2015 la production mondiale. “Nous y imaginons certes un développement, mais escomptons des résultats plutôt pour la décennie suivante”, explique MmeL’Herbier.

“Nombreux sont ceux qui ont une vision catastrophiste de l’agriculture africaine. Pourtant, en vingt-cinqans, l’Afrique de l’Ouest a doublé voire triplé sa production en consommant des surfaces sur le mode de l’exploitation extensive”, plaide Roger Blein, coauteur d’une étude sur la question publiée en février par la Fondation pour l’agriculture et la ruralité dans le monde (FARM).

Il reconnaît cependant que les sols africains sont fragiles et peu fertiles. Selon lui, les freins au développement de la production résident dans le manque d’accès aux intrants, à la formation, au crédit, au stockage et aux marchés urbains du fait de l’inexistence de routes. “Si la production de riz augmente de 50 %, tout le monde aura sa marchandise sur les bras, ce sera catastrophique”, estime-t-il.

Asie et Australie.
Il y a peu de potentiel d’augmentation des rendements en Australie, sauf à trouver des variétés résistantes à la sécheresse. Le manque d’eau constitue aussi un problème en Inde et en Chine, où l’urbanisation grignote notamment les meilleures terres agricoles. C’est aussi en Asie que les rendements ont le plus progressé, notamment en Inde, grâce à la révolution verte. “Il sera difficile d’y intensifier la production, d’autant plus que l’on y pratique déjà plusieurs cultures par an sur une même terre”, explique M.Dorin.

Pour produire plus et vite, l’OCDE et la FAO tablent plutôt sur les gains de productivité que sur les terres. Mais le recours aux engrais sera moins avantageux qu’avant, car leurs prix flambent, emportés par l’envolée du pétrole. Et, surtout, l’intensification de la production a causé des dégâts sur l’environnement désormais bien connus. A moyen terme, l’espoir réside dans l’“intensification écologique” de l’agriculture, mais “la recherche en est encore à la préhistoire”, explique M. Dorin.

Laetitia Clavreul – Le Monde