21/11/2008 - 19:27h O bendito fruto do soul
Eli ´Paperboy´ Reed entre as mulheres
Arthur Dapieve – O Globo
Talvez alguém aí compartilhe comigo a impressão de que há mais mulheres do que homens cantando soul. Bem, se somos dois, estamos iludidos. Não há base estatística para isso. Basta folhear ou surfar qualquer enciclopédia dedicada a esse gênero de música negra dos EUA. Desde os anos 60, ambos os sexos se entregam por igual a temas profanos com fervor religioso. Rhythm’n’blues mais gospel. Essa confusão entre terra e céu é o soul.
Vamos pensar em Marvin Gaye. Quando ele cantava “What’s going on”, a música, o álbum, tratava do estado da sua nação circa 1971, da degradação imposta aos guetos negros, da Guerra do Vietnã e, antes de quase todo mundo, de ecologia. A interpretação se dilacerava entre a arraigada religiosidade (seu pai, que o mataria numa discussão, era pastor) e o erotismo chique (mais eficiente do que uma farmácia inteira de balinhas azuis).
Marvin Gaye “What’s Going On / What’s Happening Brother”
Se, depois de mentalizar em Gaye, fizermos uma listinha básica dos monumentos do gênero, logo também assomam à consciência Sam Cooke, James Brown e Otis Redding. Uau, que time… De mulheres, com o mesmo status, há somente Aretha Franklin (todos de joelhos à menção desse nome!) e, dependendo da cabeça, Etta James, ambas ainda vivas. No entanto, persiste aquela desconfiança de que mais e melhores mulheres cantam soul.
Bem, a hipótese de trabalho é a seguinte: as divas parecem dominar o palco porque soam mais convincentes na hora de cantar aquelas lindas letras, ou cheias de amor para dar ou tomadas pela mais lancinante dor-de-cotovelo. Mulheres se fazem — sim, se fazem — melhor de frágeis emocionais. Lembremos Cheryl Barnes cantando “Easy to be hard” na versão cinematográfica de “Hair” (1980), dirigida por Milos Forman. Cada vez que eu escuto ou vejo aquilo no YouTube, cara, eu quero casar com ela e assumir o garoto.
Claro, claro, há interpretações sentidíssimas de homens para clássicos do soul. James Carr, por exemplo, cantando “Dark end of the street”, também cantada por, entre muitos outros e outras, Aretha Franklin (todos de joelhos!) e Cat Power. Ou Otis Redding mandando ver na sua “Pain in my heart”: “A dor no meu coração não vai me deixar dormir/ Onde minha garota estará?/ Senhor, onde ela estará?” Da lavra do mesmo Redding, porém, “Respect” ganhou sua versão definitiva foi com Aretha Franklin (todos!). Respeito.
Aretha Franklin – Respect
Isso explica a perene devoção de jovens brancas da outra beira do Atlântico Norte ao soul. Desde a finada Dusty Springfield, esta é uma linguagem em que Amy Winehouse pode expressar e redimir sua existência miserável, uma levada sensual com a qual Joss Stone rebola descalça pelos palcos, uma esperança de identidade para quem até então não tinha nenhuma, como Duffy. Alguém aí sabe como a lourinha galesa chegou à contagiante “Mercy”? Seu produtor, Bernard Butler, ex-guitarrista do grupo de rock Suede, lhe deu de presente discos de Millie Jackson, Doris Duke, Bettye Swann, Candi Staton…
Nos EUA, há ainda a grande Sharon Jones. Esta negra de 50 anos emprestou, um pouco a contragosto, segundo consta, pedaços de sua banda de apoio, os Dap-Kings, para seis das dez faixas de “Back to black”, de Amy Winehouse, inclusive “Rehab”. Na verdade, os músicos não são de Sharon, e sim formam a banda residente da gravadora Daptones, de Nova York, especializada em soul e funk. Nos últimos anos, Sharon lançou três álbuns com os Dap-Kings. Dois são excelentes: “Dap dippin’ with Sharon Jones & The Dap-Kings” (2002) e “100 days, 100 night” (2007). Outro, bastante razoável: “Naturally” (2005).
E existe um soulman contemporâneo, capaz de fazer par com Sharon? Sim, existe. Chamase Eli Reed. É baixinho, branco, nascido em Boston, de ascendência judaica, criado no Mississippi e desde lá carrega, por ter usado um tipo de chapéu típico de jornaleiros da antiga, o apelido de “Paperboy”. O segundo disco do rapaz do jornal — o primeiro, de 2005, independente, é ruim de achar— foi lançado este ano nos EUA pelo selo Q Division e se chama “Roll with you”. Como Sharon, Eli “Paperboy” tem a sua banda, The True Loves.
Aos 25 anos, Reed não é um jovem rebelde do soul. Não moderniza o gênero, não faz um pastiche e nem tira onda de plantador de mandioca, aquele chato que gosta de raiz. Para ele, é como se as lendárias gravadoras Stax e Motown ainda estivessem parindo hits a todo vapor. Junto com os True Loves, ele se atira de cabeça naquele fascinante universo de mulheres dúbias e metais em brasa (ou viceversa) já na primeira das 11 faixas do CD, “Stake your claim”: “Pare de se roçar/ Em todo cara da cidade/ Se você me quiser/ Eu estarei por aí”. Lembra a situação de “Pain in my heart”, não lembra? Só que, aqui, no século XXI, o homem também se faz de gostoso, não fica aparando os cornos em casa.
Para os neófitos, “Roll with you” vale por um compêndio de soul. Reed ouviu tudo, sentiu tudo, entendeu tudo e, agora, tudo nos devolve, na pressão. Disco afora, ele soa como Redding, como Curtis Mayfield (na faixa “Am I wasting my time”), Chris Robinson (o vocalista da banda de rock sulista Black Crowes, encharcada de soul, em “It’s easier”), James Brown (“The satisfier”), Cooke (“Take my love with you”)… E, na derradeira música, a sacudida “(Doin’ the) Boom boom”, Reed se aproxima de seu par hipotético, Sharon Jones. Afinal de contas, o soul sempre foi uma história de meninos e meninas.
Eli ‘Paperboy’ Reed & The True Loves

