16/08/2012 - 10:16h Cristina Kirchner adota estilo ’stand up’ de discurso e surpreende argentinos


Presidente argentina consolida cadeias nacionais de televisão como principal forma de comunicação.

16 de agosto de 2012

BBC Brasil – Agência Estado

A presidente Cristina Kirchner adotou um estilo de fazer discursos que vem sendo chamado de “stand up” na Argentina, consolidando as cadeias nacionais de televisão como sua principal forma de comunicação e surpreendendo os argentinos.

O novo estilo da presidente, reeleita em 2011, tem sido motivo de comentários na imprensa local e entre diplomatas que já deixaram a carreira.

“Votei na presidente na sua primeira eleição, mas não na segunda. Agora, porém, não perco nenhum de seus discursos em rede nacional. É a única forma de saber o que ela, portanto todo o governo, está pensando”, disse um ex-embaixador argentino sob a condição do anonimato.

A definição “stand up” foi destacada, esta semana, em um artigo da ensaísta Beatriz Sarlo, publicado no jornal La Nación, e em um artigo do colunista Roberto García, publicado no jornal Perfil. A expressão também tem sido usada nos bastidores do mundo empresarial e dos analistas econômicos, segundo contaram à BBC Brasil um analista do comércio bilateral e um ex-embaixador argentino nas Nações Unidas.

Um analista econômico que pediu para não ser identificado disse que pede aos assistentes que gravem e anotem o que diz a presidente. “Ela é praticamente a única que fala publicamente. Ninguém do governo dá entrevistas ou recebe a oposição. Então, é essencial saber o que ela está dizendo”, afirmou.

Cristina não costuma conceder entrevistas à imprensa, e seus discursos passaram a ser, no entendimento dos analistas, a principal fonte de informações sobre seu governo.

Polêmica

O estilo mais descontraído nos discursos da presidente tem sido observado principalmente nos últimos meses. Nas falas, ela aborda desde questões cotidianas como internacionais.

“Se o Brasil for mal, a Argentina irá mal. Mas se a Argentina for mal, o Brasil irá pior ainda, porque tem (com a Argentina) um de seus principais superávits comerciais”, afirmou na ultima segunda-feira, num discurso transmitido pelo canal oficial de TV.

No entanto, declarações da presidente têm gerado polêmica por serem definidas como “politicamente incorretas”, como analisou Sarlo. “A presidente usou a palavra ‘mota’ para se referir ao cabelo e a origem étnica do comandante (presidente) Chávez”, escreveu.

“Mota” (equivalente a cabelo Bombril) é definição usada popularmente, mas pouco simpática, para definir o cabelo dos que têm raízes negras.

Em outro discurso, no mês passado, no lançamento da nova cédula de cem pesos, com o rosto da ex-primeira dama Eva Perón, Cristina disse que o “Estado não é mongo”.

Mongo é o termo politicamente incorreto usado pelos argentinos para se referir a portadores da Síndrome de Down. A declaração foi comentada nas redes sociais e seu discurso reproduzido no Youtube com o título:”"Cristina usa ‘mongo’ como sinônimo de estúpido”.

Na segunda, ao discursar sobre a saúde da economia mundial, ela criticou os que falsificam números públicos. E disse: “Se é para falsificar, falsifiquemos todos”.

Em junho, a presidente se referiu a um argentino como “amarrete” (pão duro) porque ele quis comprar dez dólares para cada neto e, como foi impedido pela AFIP (Administração Federal de Ingressos Públicos, a Receita Federal argentina), decidiu apelar à Justiça.

“É um vovozinho meio pão duro. Ele quis presentear os dois netos com 45 ou 49 pesos (equivalente na época a dez dólares). Eu teria feito um esforço maior”, disse a presidente, em rede nacional.

O advogado Julio César Duran, o avô citado pela presidente, disse à imprensa local que se sentia mal com a definição de pão duro. “Eu sou um avô que quis comprar dólares para os netos. É o que posso comprar. Agora todos vão me chamar de pão duro”, reclamou em entrevista à rádio Mitre, de Buenos Aires.

Fisco

Em outra rede nacional, a presidente citou o nome de um empresário do setor imobiliário que tinha dado entrevista ao jornal Clarin, opositor ao governo, dizendo que as vendas tinham caído a partir do controle de dólares, no fim do ano passado.

A presidente revelou, na cadeia nacional de rádio e de televisão, que ele tinha dívidas com o fisco. “Li domingo uma matéria em um jornal que vocês já sabem qual é (Clarin) na qual um senhor de uma conhecida imobiliária dizia que agora não entra ninguém na sua loja por causa do dólar. Liguei para o presidente da AFIP e ele me disse que esta firma não apresentava declaração de impostos desde 2007″, disse Cristina.

Os que participaram da cerimônia a aplaudiram diante das câmeras. “Cristina acusou de evasão fiscal um empresário do setor imobiliário que criticou o controle ao dólar”, informou a rádio Cadena 3, da província de Córdoba.

Deputados da oposição e representantes das imobiliárias declararam “solidariedade” ao empresário acusado e sua imobiliária foi suspensa por falta de pagamento de impostos, segundo a imprensa local.

Em um comunicado, a Adepa (Associação de Entidades Periodistas Argentinas, que reúne as empresas de jornais) disse que “o exercício da liberdade de expressão está sujeito à represália estatal com fim de estigmatizar e silenciar, o que está cada vez mais frequente”.

Na semana passada, Cristina sugeriu que um jornalista de economia do Clarin tinha publicado que o presidente da YPF teria ameaçado renunciar, mas a informação não era verdadeira e estaria ligada, de acordo com a presidente, ao fato de familiares do jornalista terem tido contratos suspeitos suspensos pela empresa.

Cristina disse que deveria ser criada “uma lei de ética pública” para os jornalistas. Ela afirmou que usa as redes nacionais porque de outra forma “ninguém saberia” o que ocorre.

Medição

O novo estilo de Cristina já foi comparado ao do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Segundo cálculos da ONG venezuelana “Monitoreo Ciudadano”, que criou o “cadenometro” (forma de medir as cadeias nacionais), Chávez teria realizado mais de 50 redes nacionais este ano.

As cadeias nacionais são frequentes também no Equador e na Colômbia e, em menor medida, no Chile e no Brasil, no governo da presidente Dilma Rousseff. Num dos mais recentes, no dia das mães, a presidente lançou o programa “Brasil carinhoso”.

Nos primeiros oito meses deste ano, Cristina realizou 13 discursos em redes nacionais, superando os cerca de 11 convocados em 2010 e em 2011.

O cientista político Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nova Maioria, disse que Cristina “não está imitando o Alô Presidente, de Hugo Chávez”, mas ressalvou: “À medida que o modelo cristinista se parece mais ao modelo de Chávez, a forma com a qual se comunicam também se parece, e essa semelhança aumentou nos últimos meses”, disse.

13/08/2012 - 09:12h Briga política deixa Buenos Aires sem metrô

Cristina e prefeito da capital não se entendem e greve dos metroviários entra em seu décimo dia causando muita dor de cabeça para os argentinos
13 de agosto de 2012

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES – O Estado de S.Paulo

A greve do metrô de Buenos Aires completa hoje dez dias, deixando cerca de 1 milhão de pessoas sem transporte na maior cidade da Argentina. Em razão da paralisação, o caos tem tomado conta da cidade, com o trânsito da capital entrando em colapso. Além das reivindicações salariais, a crise é causada pela briga entre a presidente Cristina Kirchner e Mauricio Macri, prefeito portenho, que tem aspirações presidenciais para 2015.

Os sindicalistas afirmam que a paralisação é por “tempo indeterminado”, enquanto Macri admite que a greve pode durar ainda “várias semanas”. “A duração da greve dependerá da presidente Cristina. Ela já decidiu que não haverá metrô”, disse Macri. Segundo ele, os sindicalistas do metrô, que se reuniram com Cristina na Casa Rosada, são kirchneristas.

O governo está retaliando as críticas de Macri com uma série de publicidades na TV direcionadas contra o prefeito. O clima de tensão, afirmam os assessores de Macri, pode se estender até 2015, quando haverá novas eleições presidenciais.

“Há muito tempo que essa briga não tem a ver com o metrô. Já virou um assunto 100% político. Ela não quer um acordo. Ela deseja submeter. É uma questão de valores. Está em jogo a liberdade, o pluralismo e a possibilidade de divergir. A presidente quer levar o país a um modelo chavista”, acusa Macri.

Reeleição. Segundo o prefeito, a presidente está por trás de uma reforma constitucional para permitir sua reeleição indefinida, como ocorre na Venezuela. Mais magro, exibindo profundas olheiras, Macri diz que se “enganou” ao acreditar que seria possível negociar de forma racional com o governo Kirchner.

Há poucos dias, os sindicalistas pediram 28% de aumento salarial, mas obtiveram 23%. No entanto, quando o acordo estava quase fechado, uma dissidência colocou o pacto à pique ao insistir nos 28%.

O imbróglio vem desde 1989, quando o então presidente Carlos Menem decidiu privatizar o metrô. O serviço passou a ser administrado pela empresa Metrovías a partir de 1994, que venceu a licitação feita pelo Estado. No entanto, a cidade ficou com a propriedade das linhas, suas instalações e material de transporte. Além disso, o governo da capital ficou a cargo das obras para a expansão do metrô.

Nos últimos anos Macri pediu ao governo a transferência do controle do metrô para a cidade. Em janeiro, o governo federal e a prefeitura assinaram uma ata de entendimento. No entanto, o prefeito foi pego de surpresa pela decisão de Cristina de reduzir os subsídios fornecidos ao metrô, fato que levaria a cidade a graves problemas financeiros.

Popularidade. Sem os subsídios, afirma Macri, o preço da passagem subiria em mais de 100%. O prefeito afirma que não pode assumir um metrô “falido”. O ministro do Interior e Transporte, Florêncio Randazzo, respondeu, garantindo que Buenos Aires tem dinheiro para assumir o serviço.

Os analistas políticos dizem que os portenhos ficaram “reféns” da disputa entre Cristina e Macri. Embalada pela crise do metrô, as pesquisas de opinião indicam uma queda da popularidade de ambos.

29/07/2012 - 17:52h Evitamania


A imagem da mulher do presidente Juan Domingo Perón está mais viva do que nunca

29 de julho de 2012

ARIEL PALACIOS – O Estado de S.Paulo

BUENOS AIRES – “Evidentemente, a vida de Evita acaba de começar.” Com essas palavras irônicas, a escritora mexicana Alma Guillermoprieto definiu há alguns anos o revival da imagem de Eva Duarte de Perón, popularmente chamada de “Evita”. Também designada de “A porta-estandarte dos humildes”, a “Mãe dos Pobres” e “Protetora dos trabalhadores”, a mulher do presidente e general Juan Domingo Perón transformou-se desde sua morte, há exatos 60 anos, em um mito político que foi usado pela direita e a esquerda peronistas. Assim como nos anos 90 a realização do filme Evita, de Alan Parker – protagonizado pela cantora Madonna e baseado no musical da Broadway -, gerou um boom “evitista” em todo o planeta, a chegada da presidente Cristina Kirchner ao poder, em 2007, fez o mesmo na Argentina.

Nos últimos cinco anos Evita consolidou-se como ícone pop ao decorar com sua efígie canecas de café, chaveiros, camisetas, posteres, adesivos e bonecas de pano. No ano passado a “Mãe espiritual da pátria” – como preferia chamá-la oficialmente o governo de Perón nos anos após sua morte – transformou-se em desenho animado, com o lançamento “Eva da Argentina”. E também protagoniza um videogame junto com seu marido Juan Domingo Perón, enquanto combate e aniquilam “oligarcas”. A própria marcha “Los muchachos peronistas”, sacrossanto hino partidário do peronismo, hoje pode ser vista no YouTube em ritmo de rap e heavy metal.

De quebra, Evita – que era abstêmia – virou marca de cerveja. Uma cerveja loira, comme il faut, seguindo o estilo da platinada tingida que foi a primeira-dama mais famosa da História da Argentina. E os argentinos podem adquirir todos esses produtos usando notas de 100 pesos com a efígie de Eva Perón, lançadas oficialmente na quinta-feira por Cristina, na Casa Rosada.

Há Evitas para todos os gostos e padrões de consumo. Da elegante frequentadora de galas do Teatro Colón – com vestidos levados exclusivamente em avião desde Paris, feitos por Christian Dior, que dizia que Evita havia sido “a única verdadeira rainha que havia vestido” -, à Evita de discursos incendiários na sacada da Casa Rosada, adorada pela esquerda peronista, inclusive pela guerrilha montonera. “Neste mundo virtual, o fato de que o peronismo ocupe todos os espaços disponíveis, inclusive na web, em coisas como um videogame, é uma ponta de lança a mais na batalha cultural”, afirmou ao Aliás o historiador peronista Pablo Adrián Vázquez, diretor do Arquivo do Museu Evita.

A imagem de Evita tem sido “desconstruída” por artistas peronistas ou filo-peronistas. Um deles é a artista plástica Marina Olmi, que mostrou Evita remando em um dia de sol ao lado de Cristina Kirchner ou vestida como uma sexy vizinha. O cartunista Rep exibiu no Museu Evita uma caricatura dela nua, disposta ao sexo. A revista satírica Barcelona publicou um número especial sobre os 60 anos des sua morte com uma fotomontagem na qual a “Protetora dos Trabalhadores” aparece caracterizada como a personagem Mulher Maravilha. Nas páginas internas, a revista ousa algo inimaginável há poucos anos ao propor uma enquete com a pergunta: “Evita era gostosona?”

“No marco dos séculos 20 e 21, da comunicação de massa, todo elemento ou personagem que adquire fama pode ser um ícone pop. O peronismo é antropofágico e devorou, digeriu e ressignificou uma série de elementos. Por isso, hoje é possível que uma canção de um musical transformado em filme que conta de forma errada a vida de Evita, seja utilizada pelos peronistas a seu favor. É o caso de Não chores por mim Argentina. Mas isso é possível porque a ortodoxia peronista é laxa nas novas gerações. E porque o peronismo é muito adaptável às épocas. Ideologias de esquerda na Argentina teriam dificuldade para exibir um bonequinho, um chaveiro ou um videogame do Che Guevara. Nós, peronistas, não”, afirma Vázquez.

Evita está presente na própria geografia argentina. O traçado urbanístico de Ciudad Evita – um distrito do município de Ezeiza, na Grande Buenos Aires – constitui-se em verdadeira “ego-cartografia”: vista de cima, a área, criada como um bairro modelo operário, é uma reprodução proposital do perfil de Eva Perón, incluindo seu tradicional coque. Casos semelhantes foram transitórios, como o da província de La Pampa, cujos deputados, nas últimas semanas de vida de Evita, em 1952, decidiram homenageá-la com a modificação do nome para “província Eva Perón”. Na mesma época, a capital da província de Buenos Aires, La Plata, transformou-se em “Ciudad Eva Perón” – após a queda de Perón, em 1955, voltou a ser La Plata. As denominações referentes a Evita também foram suspensas pelo golpe militar que derrubou o viúvo Perón em 1955.

Evita também salta aos olhos de portenhos e turistas que visitam a cidade em dois megamurais de ferro de seis andares de altura afixados nas paredes do ministério da Ação Social, em plena avenida 9 de Julio, no centro da capital argentina. Esta obra foi criticada pela oposição por ter um “look stalinista”. Inaugurada ano passado por Cristina, os imensos retratos de Evita tornam quase impossível fazer uma foto da principal avenida da cidade, onde está o Obelisco, sem imortalizar junto a imagem da “Porta-estandarte dos humildes”.

26/07/2012 - 17:00h Mitos e fatos de Eva ‘Evita’ Duarte de Perón (e um pouco de epígrafes e ego-cartografia)

Ariel Palacios – Os Hermanos – O Estado SP

Capa desta semana da revista satírica “Barcelona”, retratando Evita como a “Mulher Maravilha”. Na tiara, o escudo peronista.

Hoje completam-se 60 anos da “passagem à imortalidade de Eva Perón” (essa é a expressão usada, inclusive oficialmente, pelos peronistas para referir-se à morte de Evita). A denominada “Porta-estandarte dos humildes” morreu no dia 26 de julho de 1952, às 20:25 horas. Seis décadas depois de sua morte ela é usada como símbolo político pela direita e a esquerda. Veremos aqui uma série de mitos e fatos sobre a primeira-dama mais famosa da História da Argentina.

NASCIMENTO

- Evita dizia, quando estava viva, que havia nascido no dia 7 de maio de 1919

- Mas, a partir dos anos 70, historiadores peronistas descobriram que ela havia nascido, na realidade, no dia 7 de maio de 1922.

MORTE

Evita morreu oficialmente às 20:25 horas do dia 26 de julho de 1952 no Palácio Unzúe, a residência presidencial, localizada no bairro da Recoleta, onde hoje está a Biblioteca Nacional. Durante muitos anos os argentinos acreditaram que ela havia morrido com 30 anos. Mas, na realidade, morreu com 33.

TÚMULO

Evita está enterrada desde 1976 no cemitério da Recoleta, no mausoléu da família. Na realidade, o mausoléu pertencia a um cunhado seu, o major Arrieta. Ali, além de Evita e sua mãe, estão Arrieta e outros cinco parentes. Além desses caixões, duas urnas funerárias com as cinzas de duas empregadas da família.

NOMES

Eva Maria Ibarguren: nome de nascimento de Evita, com o nome de solteira de sua mãe.

Maria Eva Duarte: nome da certidão da nascimento falsa que ela forjou em 1945, poucos dias antes de casar com Perón (os historiadores peronistas confirmam), onde aparece o nome do pai, que nunca a reconheceu.

Maria Eva Duarte de Perón: o nome que passou a usar depois do casamento com Juan Domingo Perón.

APELIDOS oficiais usado pelo governo de Perón na época

- “Mãe dos pobres”.

- “Protetora dos trabalhadores”

- “Porta-estandarte dos humildes”

- “Mãe espiritual da pátria”

APELIDOS não-oficiais

“Evita” – Nome com o qual era chamada carinhosamente

“La Señora” – A senhora. Forma como era chamada pelos integrantes do governo

“Esa Mujer” – Essa mulher. Forma despectiva como era chamada por seus críticos

“La Yegua” – A égua. Forma despectiva como era chamada por seus críticos

“La Perona” – Forma como era chamada por seus críticos. No entanto, na Espanha essa expressão tinha um tom positivo sobre Evita.

MITOS

Ao longo da vida de Evita Perón – e especialmente após sua morte – surgiram uma série de lendas sobre a “Porta-estandarte dos humildes”. Além dos próprios militantes, os principais mitos foram divulgados por intermédio do musical de Andrew Lloyd Weber e Tim Rice, sucesso na Broadway a partir de 1976 que transformou-se em filme de Hollywood. Entre as principais falhas e lendas estão…

1 – Classe social: A lenda mostra Evita como uma menina de uma família que vivia na miséria. Ao contrário, a mãe de Eva tinha um pensionato na cidade de Junín e eram integrantes de uma austera classe média.

2 – Partida para a cidade grande, na cara e na coragem: Aos 15 anos Evita partiu dali rumo à cidade grande, Buenos Aires. Mas, ao contrário do filme, não foi nem com o cantor Agustín Magaldi e sequer transformou-se em sua amante. Magaldi, que era solteiro, nunca havia visto Evita. A jovem foi à capital com sua mãe e foi morar com seu irmão mais velho, Juan.

3 – Expulsa do velório: Evita era filha extramatrimonial de Juan Duarte. Mas, quando morreu em 1926, não foi expulsa do velório do pai por sua viúva oficial, Estela Grisolía, já que a mulher havia morrido em 1922. Segundo o historiador Pablo Vázquez, chefe do Arquivo do Museu Evita, as duas famílias – a oficial e a paralela – “se davam bastante bem. Não houve expulsão alguma do velório”.

4 – Líder revolucionária: Outra falha do musical e do filme é mostrar Evita como a pessoa que liderou os trabalhadores para liberar seu namorado – e posterior marido – Juan Domigo Perón. Ao contrário, Evita saiu de Buenos Aires e foi pra casa da mãe, em Junín. Só depois da liberação de Perón é que ela voltou à capital. Ela não tinha protagonismo político na época. Só com a posse de Perón como presidente no ano seguinte, ela começou a ter uma acelerada atividade política, transformando-se no no braço-direito do marido.

5 – Che Guevara, pé de valsa: Outro erro é o de colocar Ernesto “Che” Guevara como narrador da História. Che Guevara, na época em que Evita chegou ao poder tinha 18 anos e estava iniciando seus estudos de Medicina. E o Che – que jamais encontrou-se com Eva ou com Perón – considerava Evita e seu marido uns “representantes do fascismo”. E, evidentemente, nunca ocorreu a cena de Evita dançando com o Che Guevara. Ele, que a partir de 1956 foi um dos protagonistas da guerra de guerrilhas na Sierra Maestra contra o regime de Batista, admitia que dançava péssimo.

6 – As pichações “Viva o câncer”: A lenda diz que os inimigos de Evita picharam os muros de Buenos Aires – e da própria residência presidencial – com os dizeres “Viva o câncer” quando ela agonizava com um devastador câncer de útero. No entanto, isso nunca teria passado de uma única parede no bairro da Recoleta com a frase supracitada. “Só temos o registro da existência de uma. Seria quase impossível fazer uma pichação do gênero nas redondezas da residência presidencial, com toda a segurança da época”, explica Vázquez.

Eva Perón visita o ditador espanhol Francisco Franco em Madri. O respaldo dado pelo casal Perón ao “generalíssimo” permitiu a sobrevivência de seu regime autoritário. Quando Perón teve que fugir para o exílio, depois de passar pelo Paraguai de Alfredo Stroessner, o Panamá e a Venezuela, foi à Madri, onde ficou até 1973. Um dos braços-direitos de Perón, John  William Cooke, propôs a Perón em 1960 que fosse à Havana, Cuba, onde Fidel Castro havia tomado o poder, derrubando Batista. No entanto, entre Fidel e Franco, Perón optou por Franco, com quem tinha mais afinidade.

POSIÇÕES POLÍTICAS, MEDIDAS, ATITUDES

- Evita sempre detestou a esquerda e o marxismo. Ela perseguiu os militantes do partido Comunista e expulsou os sindicalistas comunistas

- Evita respaldou ativamente o regime do ditador espanhol Francisco Franco. O respaldo foi político e também em alimentos, que permitiram que o generalíssimo conseguisse driblar o bloqueio feito pelos aliados. Assim, sua ditadura que prolongou-se por mais tempo.

- Evita usava vestidos da Casa Dior, que importava – em avião – direto de Paris. Segundo Dior, “a única rainha que vesti em minha vida foi Evita”.

- Evita promoveu o voto feminino

- Evita opunha-se ao divórcio

- Evita dizia que as feministas eram “feias e ressentidas”

- Evita colaborou ativamente com Perón, especialmente em sua viagem à Europa, na entrada de milhares de criminosos de guerra nazistas. Nesta vinda dos nazistas participou o Vaticano, na época comandado pelo papa Pio XII, com quem Evita se reuniu em Roma.

El Descamisado: o funéreo e anabolizado mega-mausoléu onde seria colocado o corpo de Evita. O plano de Perón começou a ser executado…mas suas obras foram paralisadas quando ele foi derrubado por um golpe.

CORPO

- Morre, passa por um tratamento de embalsamamento inicial e é levada ao Ministério do Trabalho, atual Assembléia Legislativa de Buenos Aires.

- Depois, é levada o Congresso Nacional, onde é velada por 14 dias. Dois milhões de pessoas dão seu últimos adeus.

- Na seqüência é levada à sede da central sindical CGT, onde continua com o tratamento de embalsamamento realizado pelo doutor Pedro Ara.

- Em 1955 Perón é derrubado. Os militares seqüestram o corpo.

- Até 1957 peregrina por vários lugares do exército e a casa de oficiais.

- Em 1957 é levado pelo governo de Aramburu, em conjunto com o Vaticano para Milão, onde é enterrado no Cemitério Maior com o nome de Maria Maggi de Magistiris.

- Em 1971, depois de um acordo entre o ditador argentino Alejandro Lanusse e Perón, que estava no exílio, o corpo é exumado: dia 1 de setembro. No dia 3 de setembro o caixão vai a Madri. Ali, fica na casa de Perón no bairro de Puerta de Hierro.

- O corpo é levado a Buenos Aires no dia 17 de novembro de 1974. Evita é colocada em uma sala na residência presidencial de Olivos ao lado do corpo de Perón.

- Quando o general Videla derruba Isabelita Perón (a última esposa de Perón, que havia assumido a presidência depois da morte do marido e presidente), os dois corpos são separados. Evita é enviada ao cemitério da Recoleta, onde um cunhado seu, o Major Arrieta, tinha um mausoléu. Nesse lugar estão enterrados Arrieta, a mãe de Evita, a própria Evita, e outros cinco parentes, além de duas urnas com cinzas de duas empregadas da família.

O DESCAMISADO - Quarenta e cinco metros mais alto que a Estátua da Liberdade, três vezes maior que o Cristo Redentor. Assim teria sido “El Descamisado”, um anabolizado funéreo monumento que contaria com um total de 137 metros de altura, divididos entre 70 metros da colossal base e 67 metros da estátua que representaria um operário peronista.

Seria uma espécie de “Colosso de Rodes” que em vez de estar à beira do mar Egeu, seria instalado à beira do Rio da Prata. Seu objetivo, que variou ao longo de anos de projetos e idas e vindas, foi o de ser o lugar de descanso do sarcófago de Evita, feito com 400 quilos de prata.

Seria um misto de pirâmide de Quéops com altura quase equivalente à Catedral de Notre Dame. Tudo isso com um look característico das esculturas fascistas na moda na Europa dos anos 30 e 40.

No entanto, todos os verbos relativos ao “Descamisado” ficaram no condicional. Este monumento começou a ser construído mas nunca passou de suas bases de concreto no bairro da Recoleta, em Buenos Aires.

“Voltarei e serei milhões”. Espártaco, de Howard Fast (e Evita Perón, supostamente). Aqui, Kirk Douglas interpreta o ex-escravo de Roma, na hora em que é crucificado, no fim do filme.

FRASES

“Gracias por existir” (Obrigado por existir): A suposta frase teria sido pronunciada em 1944 durante o encontro de Eva e Perón no Luna Park em um festival para arrecadar fundos para as vítimas do terremoto de San Juan. Mas, na realidade, foi inventada pelo escritor Tomás Eloy Martinez, que a colocou na boca de Evita no romance “Santa Evita”. A cena: Evita, uma atriz de rádio e cinema, foi apresentada a Perón e disse como forma de impactá-lo a frase “Obrigado por existir”. “Nos últimos três anos, essa frase piegas foi aceita como verdade. Mas Eu a inventei”, me explicou Martinez em 1999. “Mas quando expliquei isso, alguns sindicatos não acreditaram que era falsa. Protestaram, me perguntando como ousava macular a memória de Eva Perón…”, disse rindo.

“Volveré y será millones” (Voltarei e serei milhões) foi a apócrifa frase de Eva Duarte de Perón – chamada de “Evita” pelo povo – supostamente pronunciada poucos minutos antes de sua morte, ocorrida na noite do dia 26 de julho de 1952. A lenda sustenta que Evita, que estava morrendo por um devastador câncer de útero, indicava com essa frase que voltaria da morte como milhões de trabalhadores “descamisados” para tomar o poder total. Mas, na realidade, é uma frase posteriormente atribuída a ela. A oração é parte de um poema do peronista Castiñeira de Dios e também era uma das frases pronunciadas pelo personagem de Espártaco quando é crucificado. O livro é de Howard Fast, de 1951, um anos antes de Evita morrer.

Best-seller na primeira metade dos anos 5o, tornou-se leitura obrigatória para estar por dentro das máximas de Eva Perón

LIVROS

“La Razón de mi Vida”: livro que é uma espécie de apologia ao governo de Perón. Publicado postumamente em setembro de 1951. A 1ª tiragem foi de 300 mil exemplares.

“Mi Mensaje”: este livro parecia que era apócrifo. Suas irmãs diziam que era falso. Mas, recentemente – depois de um processo de dez anos – a Justiça considerou que era mesmo de autoria de Evita. É uma segunda parte de “La razón de mi vida”

Um exemplo de ego-cartografia. Neste mapa, de 1953, La Plata aparece como “Eva Perón”. Mas, em 1955 os ‘evaperonenses’ voltaram a ser chamados de ‘platenses’

TOPOGRAFIA

Onde morou:

- Los Toldos, quando era bebê

- Junín, quando era criança e adolescente

-Buenos Aires,fim da adolescência e vida adulta

Onde trabalhou, como primeira-dama (sem posto oficial no governo):

- 1946-48 Palácio de Correios, 4ª andar, e em um escritório no Ministério da Economia

- Em 1948, no prédio da Assembléia Legislativa. Ali ela tinha os escritórios da Fundação Eva Perón

- Mas, o edifício oficial da Fundação, na avenida Paseo Colón, onde atualmente está uma das duas faculdades de engenharia da UBA, ainda não havia sido totalmente concluído quando ela morreu.

Ciudad Evita, na zona oeste da Grande Buenos Aires, ao lado do caminho entre Ezeiza e a capital argentina. O bairro foi construído com o perfil da Mãe dos Pobres.

A ego-cartografia

- Ciudad Evita é um distrito do município de Ezeiza, na Grande Buenos Aires. Vista de cima, a área (criada originalmente como um bairro-modelo operário) é uma reprodução proposital do perfil de Eva Perón, incluindo seu tradicional coque. “Nos encontramos no nariz?” pode ser uma pergunta ali no bairro. “Não, antes tenho que passar pelo coque para ver minha tia”, poderia ser a resposta.

- Deputados da província de La Pampa, nas últimas semanas de vida de Evita em 1952, decidiram homenageá-la com a modificação do nome para “província Eva Perón”.

- Na época de sua morte, a capital da província de Buenos Aires, La Plata, transformou-se em “Ciudad Eva Perón”. A cidade, após a queda de Perón, em 1955, voltou a ser La Plata.

La Pampa, no centro do país, passou a ser Provincia Eva Perón em 1955. Depois, voltou a ter seu nome histórico de La Pampa.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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23/07/2012 - 11:27h Sob Cristina, Argentina diminui pobreza e indigência

Por César Felício | VALOR

De Buenos Aires

A Argentina reduziu as suas taxas de pobreza e indigência durante os quatro primeiros anos de governo da presidente Cristina Kirchner. A melhora foi atestada por uma fonte insuspeita: o Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA), uma pesquisa financiada pelo banco Galicia e pelo jornal “La Nación”, de oposição.

De acordo com o levantamento, a taxa de pobreza caiu de 26,9% em 2007 para 21,9% em 2011 e a de indigência regrediu de 8,1% para 5,4% no período. Essas foram as faixas de população que no último trimestre de 2011 eram incapazes de comprar com seus ganhos mensais uma cesta individual de produtos de 720 pesos (cerca de US$ 167), no primeiro caso; e de 360 pesos (US$ 83) no segundo.

“Foi o melhor ano em termos de indicadores desde 2002″, comentou o editor da pesquisa, Agustín Salvia, que minimizou a regressão da pobreza e da indigência. “O percentual das famílias que considera seus rendimentos insuficientes para manter o padrão de consumo oscilou apenas de 32,2% para 31,1%, o que indica estabilidade.”

O levantamento mostra que os programas de transferência de renda criados por Cristina em 2009, financiados com recursos da Anses, o órgão local de previdência social, foram fundamentais para se obter tal resultado. Segundo a pesquisa, feita com 5,7 mil entrevistas, 26,4% das famílias na Argentina recebiam algum benefício sem contraprestação, ainda que de maneira pouco focalizada: os benefícios eram pagos para 58% das famílias pobres e 66,5% das indigentes, mas também chegavam a 21,1% dos lares de classe média.

A pesquisa mostrou que a redução da pobreza tem bases frágeis, já que o ambiente de trabalho permaneceu precário nos últimos quatro anos. Apenas 44,8% da população empregada gozava de todos os direitos previstos pela legislação, um percentual que representou uma piora de um ponto percentual em relação a 2007.

O levantamento mostrou, por outro lado, ligeiras melhorias de infra-estrutura. As casas sem água se reduziram de 14,7% para 13,6%. As residências sem rede de esgoto caíram de 37,8% para 34%. As ruas sem pavimentação se reduziram de 22% para 20,6%.

A expansão das políticas sociais de Cristina Kirchner, entretanto, está em cheque em razão da reviravolta no cenário econômico. Em 2011, de acordo com empresas de consultoria independentes, o crescimento do PIB foi de 7%. Segundo o instituto oficial de estatísticas, o Indec, foi de 8,9%. Neste ano, o crescimento econômico poderá ser de zero ou até mesmo negativo, segundo consultores.

O próprio governo reconhece uma forte desaceleração. Na sexta-feira, o Indec divulgou que a economia retroagiu 0,5% em maio e acumula nos primeiros cinco meses do ano uma expansão de apenas 3%. Foi a primeira redução mensal do PIB divulgada pela Casa Rosada nos últimos três anos.

O caso argentino não é comparável com o de outros países latino-americanos, devido à volatilidade dos indicadores de pobreza e indigência. A crise econômica na virada do século fez com que as taxas disparassem até chegarem a 45,4% de pobres e 20,9% de indigentes neste último ano, percentuais só superados pela Bolívia, de acordo com a Cepal.

20/07/2012 - 02:46h Evita, sempre um mito duplo

Hulton Archive/Getty Images / Hulton Archive/Getty Images
Evita discursa para mulheres em 1951: “É evidente [sua] influência nas dirigentes que atualmente desempenham funções em nosso país, entre elas a presidente”, diz diretora de museu


Por Marina Mota | Para o Valor, de Buenos Aires

Uma jovem Evita, interpretada pela atriz Julieta Díaz, afirma que “a morte prematura eterniza os romances”, surpreendendo um Juan Domingo Perón, no início da carreira política, vivido por Osmar Núñez. A cena do filme “Juan y Eva”, que estreou na Argentina no ano passado, mostra o início do relacionamento que acabaria por marcar a vida e a história política do país.

Às vésperas do 60º aniversário de sua morte, com apenas 33 anos, em 26 de julho de 1952, a frase não podia ser mais atual. Evita permanece viva como ícone nacional e recebe homenagens por toda parte na capital argentina. No marco de sua morte, será realizada uma missa no cemitério da Recoleta. O túmulo de Evita é um dos locais mais visitados pelos turistas.

Evita tornou-se o que nunca foi em vida: uma unanimidade. “Há seis décadas, ela era a divisora da sociedade em dois setores. Hoje é um fenômeno político e social compreendido, valorizado e reinterpretado por quase todos”, afirma o analista político e diretor do Centro de Estudos Nova Maioria, Rosendo Fraga.

No Museu Evita, há uma sala dedicada aos dois mitos criados em torno da sua figura no passado: o mito negro – fruto da rejeição da classe alta a uma filha ilegítima que começou a vida como atriz de cinema – e o branco – de uma mulher benevolente vista como santa pelos humildes. O acervo também reúne fotos, discursos, objetos pessoais e até livros e cartilhas escolares com frases como “Evita é nossa mãezinha”, num prédio que foi sede de um abrigo mantido pela Fundação Eva Perón para mães e crianças carentes. É o museu mais visitado por estrangeiros na Argentina e, a partir de agora, pode ser conferido também pela internet por meio de um tour virtual.

Tanto o kirchnerismo quanto a oposição estimulam o culto. Neste ano, foram inaugurados mais dois espaços dedicados à memória de Evita. O Salão Eva Perón, na Casa Rosada, e o Vestidor de Evita, na Câmara de Vereadores de Buenos Aires, controlada pelos opositores. O local foi recuperado nos moldes em que era usado – com quarto de vestir, guarda-roupa e três banheiros -, quando ali funcionava a sede da fundação que ela presidia.

Ao fazer pronunciamentos na Casa Rosada, a presidente Cristina Kirchner usa como cenário maquetes de dois murais em homenagem a Evita, inaugurados no edifício do Ministério do Desenvolvimento Social, na avenida 9 de Julho, umas das principais artérias de Buenos Aires. Do lado sul do prédio, virado para a região mais pobre da cidade, o rosto de Evita aparece sorridente e sereno. Do lado norte, em direção à área nobre, a imagem é de uma Evita combativa. Dependendo do tom do discurso de Cristina, aparece uma outra imagem ao fundo, substituindo o quadro de Evita com Perón usado no primeiro mandato.

Nos pronunciamentos na Casa Rosada, a presidente Cristina Kirchner usa como cenário maquetes de dois murais em homenagem a Evita

“Cristina é muito mais ‘evitista’ que peronista. Ela destaca o caráter mais radical e popular de Evita em oposição ao conservadorismo de Perón”, disse o pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet) e diretor do Centro de Investigações Políticas (Cipol), Marcos Novaro. Perón era um coronel que tinha apoio da Igreja Católica ao chegar ao poder e se aliou a caciques do interior. “Cristina se afasta de Perón, enquanto seus adversários dentro do oficialismo o reivindicam, mas todos coincidem com a figura de Evita”, afirma Rosendo Fraga.

“É evidente a influência de Evita nas dirigentes mulheres que atualmente desempenham funções em nosso país, entre elas a presidente”, afirma a diretora do Museu Evita, Natalia Nierenberger.

A historiadora e diretora do Conicet, Dora Barrancos, prefere descartar as constantes comparações entre Evita e Cristina. “Uma não tem nada a ver com a outra. Evita não existiria sem Perón. Cristina pode viver sem Nestor ou sem outra figura masculina”, diz. Mas acredita que “a hostilidade de alguns setores da sociedade contra Cristina é um ‘revival’ da hostilidade contra Evita”.

A influência de Evita é marcante também na vida cultural argentina. Atualmente, está em cartaz a peça “Inevitables, Pasión y Muerte de Eva Perón”. Só no segundo semestre do ano passado, seis obras teatrais eram inspiradas na biografia dela. No cinema, além do já citado “Juan y Eva”, esteve nas telas em 2011 a animação “Eva da Argentina”. Entre os mais recentes lançamentos editorias, pelo menos três versam sobre Eva Perón: “Eva y Cristina”, de Araceli Bellotta; “Evita”, de Felipe Pigna; e “La Carne de Evita”, de Daniel Guebel, que mistura ficção com fatos históricos. Na biblioteca do Museu Evita, estão catalogados cem livros sobre ela, além de cerca de mil que tratam do peronismo e a citam.

Para Guebel, o peronismo, do qual Evita faz parte, é o grande relato argentino, por isso continua servindo de inspiração. “Aqui as coisas se convertem em mitos. E os mitos duram mais do que deveriam”, observa. E acrescenta: “Evita foi uma má atriz que encontrou na cena pública espaço para encenação. Seu papel foi de lutadora, benfeitora e de alguém que deu o sangue por amor ao povo. Ela encarnava o sonho das domésticas”.

“Evita morreu muito jovem, numa atitude de hostilidade à oligarquia. Por isso, e pela sua biografia, os setores populares se veem mais espelhadas nela que em Perón”, diz Dora Barrancos.

O rosto de Evita está nos suvenires vendidos aos turistas, em cartazes de movimentos sociais, nas manifestações públicas. No último congresso da principal central dos trabalhadores argentinos, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), no dia 12, um grande “banner” com o rosto de Evita enfeitava o palco onde os dirigentes discursaram. E altares de Evita fazem parte da decoração de bares e restaurantes temáticos peronistas em Buenos Aires.

Evita conheceu Perón em 1944, durante um show que reuniu diversos artistas para arrecadar fundos para a cidade de San Juan, destruída por um terremoto. Até sua morte por câncer no útero, em 1952, se converteu na primeira-dama mais popular do país, mantendo uma fundação de ajuda social com o próprio nome. Foi protagonista na conquista do voto feminino na Argentina e chegou a ser lançada como candidata a vice-presidente na chapa à reeleição do marido, em 1951. Mas renunciou, pouco depois.

O funeral de Evita durou duas semanas e levou milhões de pessoas às ruas. O seu cadáver embalsamado foi sequestrado após um golpe militar no país, enterrado na Itália e só 24 anos depois colocado no túmulo da família paterna na Recoleta. A cidade de La Plata – capital da província de Buenos Aires – chamava-se Eva Perón, quando ali nasceu Cristina Kirchner, em 1953.

05/07/2012 - 09:11h Será que o Mercosul bateu no teto?

Por Humberto Saccomandi – VALOR

Quando o Mercosul suspendeu o Paraguai, muitos paraguaios reagiram com ameaças de deixar o bloco, acusando-o de contribuir pouco ao desenvolvimento do país. E eles têm razão. O Mercosul, como está hoje, é principalmente uma reserva de mercado para a indústria local. Mas só o Brasil e, em escala muito menor, a Argentina têm indústria a proteger. Isso aliena os demais países da América do Sul e ameaça deixar o bloco menos atraente e menos dinâmico que a embrionária Aliança do Pacífico.

O Mercosul “não trouxe os resultados esperados ao Paraguai”, disse na semana passada Hugo Saguier, o embaixador paraguaio na OEA, acrescentando que “90% da população paraguaia optaria pela saída do Mercosul”.

Em blocos regionais com grandes assimetrias entre os sócios, países pequenos vão se integrando à estrutura produtiva dos grandes, formando assim uma única área econômica maior. Isso aconteceu na União Europeia (UE), onde Áustria ou República Tcheca, por exemplo, gravitam em torno da poderosa Alemanha. Mas, após mais de 20 anos, pouco, quase nada, disso aconteceu no Mercosul.

“O Mercosul não funciona para países pequenos”

E por que uma empresa se instalaria num país pequeno, distante dos grandes mercados consumidores? Em geral, esses países oferecem vantagens, como benefícios fiscais, impostos menores, uma administração pública mais ágil, menos burocracia, custo de vida menor do que nas grandes metrópoles e, portanto, salários mais baixos.

Nesse sentido, pode-se dizer que o Paraguai é vítima de si mesmo. O processo relâmpago que levou ao impeachment do presidente Fernando Lugo, afastado há duas semanas, escancarou a fragilidade institucional do país. Com insegurança jurídica, corrupção elevada, baixa escolaridade e infraestrutura ruim, o Paraguai não é um lugar convidativo para fazer negócios.

Mas, no caso do Uruguai, é bem diferente. O país é estável e seguro, tem instituições sólidas, população com boa formação escolar, boa infraestrutura e uma política ativa de atração de investimentos. E, ainda assim, é possível contar nos dedos o número de empresas que lá se instalaram visando os mercados de Brasil e Argentina.

“Não houve a entrada de indústrias. Pensávamos que isso iria ocorrer, mas não aconteceu, pois tanto o Brasil como a Argentina adotam uma série de barreiras não tarifárias. Por que uma empresa vai vir para o Uruguai? Para ter dor de cabeça para exportar?”, disse María Dolores Benavente, economista da Câmara Nacional de Comércio e Serviço do Uruguai e presidente da Academia Nacional de Economia do país.

Um caso emblemático é o da chinesa Chery, que monta um veículo utilitário no Uruguai com peças importadas da China. A empresa já ameaçou várias vezes deixar o país devido às barreiras às suas exportações. Segundo a Câmara das Indústrias Automotivas do Uruguai, a Argentina não respeita o acordo automotivo bilateral e restringe a entrada de veículos. A Chery optou por abrir uma fábrica no Brasil, que deve estar pronta em 2013. A empresa diz que manterá a operação no Uruguai, mas os uruguaios estão pessimistas.

“O Mercosul não funciona para países pequenos. Nós não conseguimos atrair investimento de terceiros países. É muito diferente da UE, onde os países grandes se preocuparam com os pequenos”, disse Benavente. “As exportações do Uruguai se multiplicaram por cinco desde a criação do Mercosul. As da Argentina e do Brasil se multiplicaram por sete ou oito. Já as exportações do Chile, parâmetro para quem está fora do bloco, se multiplicaram por nove nesse período. Isso quer dizer que o Mercosul desviou comércio do Uruguai, mas não criou comércio novo.”

Segundo ela, as empresas brasileiras e argentinas que se instalaram ou compraram operações no Uruguai o fizeram não por causa do Mercosul, mas de olho no mercado global, pois atuam em geral em setores nos quais o país é tradicionalmente competitivo, como soja e carne.

“Abrir-se para a região é bom, mas só se a região não se fechar para o mundo, senão estaremos importando ineficiência”, conclui Benavente.

O Chile percebeu há tempos essa armadilha, decidiu ficar de fora do Mercosul e abrir a sua economia ao mundo, em vez de se fechar para proteger uma indústria que não tinha, beneficiando os vizinhos.

O raciocínio é simples: o Chile sabe que nunca vai produzir automóveis, pois não tem escala, mercado nem cadeia de fornecedores. Veículos, porém, são um insumo importante para a economia. Por que, então, entrar numa associação comercial que obrigaria o país a taxar veículos asiáticos, mais baratos e sofisticados, ou a comprar veículos brasileiros, mais caros e menos sofisticados? É melhor permitir a entrada de veículos asiáticos e, com isso, favorecer assim o investimento das empresas locais, buscando estimular o desenvolvimento de setores não tradicionais da economia, como o de laticínios, que vem crescendo bastante.

O Peru há dez anos começou a emular o modelo chileno, de abertura agressiva da economia, e hoje é o país que mais cresce na América Latina. A Colômbia, que tem um setor industrial relativamente importante, já fechou tratados comerciais com os EUA e a UE. Esses três países, junto com o México, criaram a Aliança do Pacífico, que pretende ser um bloco regional alternativo ao Mercosul, caracterizado por suas economias abertas.

Ainda é incerto o impacto que esse bloco terá para o comércio dos países-membros. Mas, para os países menores do Mercosul, o bloco tem tido peso declinante. No ano passado, as exportações uruguaias cresceram 18,1%. Mas as vendas para os principais sócios do Mercosul subiram menos (11,9% para o Brasil e 16,7% para a Argentina).

É discutível se a estratégia de abertura comercial agressiva favoreceria o Brasil. Mas parece cada vez mais evidente que ela beneficia os países sem base industrial forte. Isso deixa o Mercosul num dilema. A falta de competitividade da indústria brasileira e argentina inibe a abertura do bloco, que acaba atraindo apenas países como a Venezuela, cujo presidente prioriza seus interesses políticos ao interesse econômico do país. E, mesmo assim, não atrai nem todos os aliados políticos da região, já que a Bolívia e o Equador cortejam, mas ainda não aderiram. Com a Venezuela, o Mercosul, como está, pode ter atingido o seu teto.

Humberto Saccomandi é editor de Internacional. Escreve mensalmente às quintas-feiras

E-mail – humberto.saccomandi@valor.com.br

19/06/2012 - 10:08h Brasil e Argentina vão ampliar protecionismo


Mercosul lança na semana que vem lista de mercadorias que terão alíquota de importação elevada; Brasil fala em 200 produtos, Argentina pede o dobro

19 de junho de 2012

RENATA VERÍSSIMO/ BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

O Mercosul deve aprovar na próxima semana mais uma medida para proteger os mercados locais da concorrência dos importados. Os técnicos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai discutem a ampliação do número de produtos que terão o Imposto de Importação elevado.

O Brasil defende uma relação com 200 itens, segundo informou ao Estado a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Tatiana Prazeres. A Argentina quer uma lista com 400 produtos.

No segundo semestre do ano passado, em meio ao agravamento da crise internacional, o bloco anunciou a implementação de uma lista com até 100 itens para cada País que teriam aumento do Imposto de Importação para produtos provenientes de mercados fora do bloco. Nestes casos, o imposto que, em média, é de 12% a 13%, pode chegar a 35%, a alíquota máxima permitida pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

Tatiana acredita que a ampliação da lista será aprovada durante a reunião de cúpula do Mercosul, que será realizada entre os dias 26 e 28 de junho na província de Mendoza. Segundo ela, o Brasil concorda chegar a 200 itens, conforme já tinha defendido no passado, quando a criação da lista foi aprovada.

Critério. Outro ponto de discordância com a Argentina é sobre o critério de definição dos produtos. O Brasil defende que cada país tenha autonomia para fazer a própria lista. O governo argentino quer uma lista única, com os mesmos produtos e alíquotas para os sócios do Mercosul.

A medida dá mais fôlego aos setores afetados pela concorrência dos importados, mas é menos radical que a proposta apresentada pela Argentina no mês passado. Buenos Aires defendeu uma elevação generalizada da Tarifa Externa Comum (TEC) até o limite permitido pela OMC. O Brasil foi contra.

A ideia da lista com até 100 produtos foi anunciada em agosto do ano passado, como uma das medidas do Plano Brasil Maior. A ação, no entanto, não foi colocada em prática até hoje. Paraguai e Uruguai ainda não incluíram (internalizaram, no jargão técnico) na legislação local o novo mecanismo, embora o protocolo assinado pelo Mercosul estipulasse um prazo de 60 dias.

Emprego. O coordenador geral de Imigração do Ministério do Trabalho, Paulo Sérgio de Almeida, disse ontem que as barreiras impostas pela Argentina ao comércio bilateral não só prejudicam as exportações, mas também têm reflexo no mercado brasileiro de trabalho.

Segundo ele, que participou de audiência pública no Senado, a indústria de calçados, abate de suínos, fabricação de tratores, caminhões, autopeças, motocicletas e de equipamentos de transportes ampliaram em 29.682 os postos de trabalho de janeiro a maio de 2011.

Em cinco meses, estes setores fecharam 3.892 vagas, sendo que o País continua gerando novos empregos formais. “De maneira geral, todos os setores estão gerando emprego. A indústria também e estes setores têm sofrido prejuízo no emprego”, disse.

11/06/2012 - 08:18h A arrogância campeia tanto lá quanto cá

Por Pedro Cafardo – VALOR

Há muito tempo, é moda achincalhar a Argentina. Pudera, o governo de lá é dado a trapalhadas. Estatiza empresas, impõe barreiras contra importações, controla o mercado de câmbio, manipula estatísticas sobre a inflação, tenta amordaçar a imprensa, mete-se em confusões sem fim e cultiva sua costumeira arrogância.

Com um pouco de tolerância, porém, é possível olhar para os vizinhos do sul sem visões preconcebidas ou vieses conservadores. O Valor tem feito isso desde o início de sua circulação, em maio de 2000.

Uma década atrás, a Argentina foi ao fundo do poço. A população se revoltou com a crise que tornava o país cada vez mais pobre, foi à rua e derrubou dois governos em um único mês.

É possível olhar para a Argentina com menos preconceito

Durante os dois primeiros anos deste século, o país viveu seu inferno astral. Aplicou um calote nos credores da dívida externa, o maior da história da economia mundial até aquela data, e foi colocado de castigo no mercado financeiro internacional. Depois de ser a garota prodígio, incensada pelos economistas do FMI, a Argentina virou a menina terrível.

É bom não esquecer que o FMI teve grande culpa na crise argentina. Apoiou e incentivou durante longos anos, na década de 90, a política de câmbio fixo adotada pelo ministro da Economia Domingo Cavallo e depois, quando isso desequilibrou as contas externas do país, receitou medidas recessivas para estabilizá-las.

Deu tudo errado. Nos dois anos em que foi ao “inferno” – 2001 e 2002 – a Argentina teve recessões de 4,4% e de 10,9%. A renda per capita do país, que havia chegado a US$ 7,7 mil em 2000, caiu para US$ 2,7 mil em preços correntes. A taxa de desemprego subiu para 22% da força de trabalho e a inflação para 40% ao ano em 2002.

A partir daí, a Argentina se recuperou. Durante seis anos, de 2003 a 2008, conseguiu apresentar taxas chinesas de crescimento econômico. Com a crise americana, reduziu sua expansão para 0,8% em 2009, mas nos dois anos seguintes retomou seu ritmo de 9% ao ano.

Antes de achincalhar a Argentina e sua política econômica, é bom dar uma olhada nas estatísticas do país nesses anos de crescimento chinês. Mesmo tendo permanecido praticamente fora do mercado financeiro internacional, a economia dobrou de tamanho em dez anos – o crescimento acumulado atingiu 102%, considerando-se uma expansão prevista de 3,5% neste ano.

Com isso, o índice de desemprego caiu para 6,6%, um dos mais baixos da América Latina. Puxado pela demanda interna, o nível de investimentos subiu para 25% do PIB, performance nada brilhante, mas muito distante dos míseros 10% dos tempos do “inferno”.

Sem pagar dívidas externas e ajudada pelo boom dos preços das commodities, mas também por conta de seus avanços na produção agrícola, o país conseguiu seguidos superávits no balanço de pagamentos que somaram cerca de U$ 30 bilhões em dez anos.

Mas os problemas voltaram e se agravaram com os reflexos da crise europeia e a queda das commodities. Em 2011, pela primeira vez em quase uma década, o balanço de pagamentos apresentou déficit (de US$ 2,2 bilhões), tendência que se mantém em 2012. Sem poder contar com crédito internacional para financiar seus déficits, o país começa a fazer estripulias cambiais e comerciais, sem poupar seu grande parceiro, o Brasil. Na verdade, nunca deixou de fazê-las nesses anos todos, embora como menos assiduidade.

Nesse ponto, porém, convém observar no gráfico abaixo como se inverteram as linhas que mostram os saldos comerciais no relacionamento entre Brasil e Argentina. Desde o início do Mercosul, em 1995, até 2003, o Brasil teve déficits que, acumulados, atingiram quase US$ 10 bilhões. A partir de então, a tendência se inverteu e o Brasil passou contabilizar superávits que já somam US$ 30 bilhões.

A Argentina não é um parceiro qualquer. É especial, porque compra do Brasil quase exclusivamente produtos manufaturados. No ano passado, comprou US$ 20 bilhões, enquanto os Estados Unidos compraram apenas US$ 11 bilhões. Em dez anos, as vendas brasileiras de manufaturados para o mercado argentino somaram impressionantes US$ 111,6 bilhões.

Fica difícil, ao examinar esses números, sustentar a tese de que a Argentina deve ficar quietinha em seu canto, sem pedir mudanças nas estruturas que regulam o comércio com o Brasil. Seria muita arrogância, defeito que os brasileiros normalmente atribuem aos vizinhos do sul.

Até os empresários exportadores brasileiros já se movimentaram para tentar alterar essa situação. A Fiesp, em colaboração com industriais de Buenos Aires, fez recentemente um estudo envolvendo 38 produtos manufaturados que o governo argentino considera estratégicos para suas exportações. E constatou que o Brasil importa US$ 12 bilhões por ano desses produtos, mas apenas US$ 2 bilhões da Argentina. Ou seja, seria possível aumentar as compras brasileiras desses itens sem nenhum ônus para o superávit da balança comercial.

Há inúmeras críticas que podem ser feitas aos governos argentinos nas últimas décadas, ora pelo neoliberalismo exacerbado ora pelo peronismo que loteia o poder público. Nenhuma delas, entretanto, autoriza conclusões que subestimem a parceria do Mercosul.

Pedro Cafardo é editor-executivo do Valor. Sergio Leo, que escreve às segundas-feiras, está em férias.

E-mail: pedro.cafardo@valor.com.br

07/06/2012 - 08:35h Disputa com governo divide imprensa argentina entre ‘opositora’ e ‘governista’


Agressões com motivações políticas se tornaram frequentes no país, e jornalistas reclamam da falta de entrevistas por parte de integrantes do governo.

07 de junho de 2012

BBC Brasil – O Estado SP

O jornalismo independente na Argentina parece estar em baixa. A disputa entre o governo da presidente Cristina Kirchner e a imprensa acabou dividindo, perante a opinião pública, as empresas de comunicação e jornalistas do país entre “governistas” e “opositores”.

Na véspera do dia do jornalista, comemorado nesta quinta-feira, Cristina criticou as agressões a uma equipe da emissora estatal Canal 7, durante um “panelaço” contra o governo em Buenos Aires.

Os repórteres foram identificados como “governistas” pelos manifestantes. E o ataque foi mais um capítulo na tensa relação entre grupos políticos distintos na Argentina.

As agressões, no entanto, também são direcionadas a jornalistas considerados “oposicionistas”.

Nas últimas semanas, apareceram em vários pontos de Buenos Aires cartazes com o rosto de Daniel Santoro, editor de política do jornal Clarín, o de maior tiragem do país e identificado como “opositor”. No cartaz, Santoro era chamado de “espião russo”.

Segundo a organização Foro de Periodismo Argentino (Fopea), em 2011 foram registrados 122 casos de agressão a empresas de comunicação e jornalistas, incluindo denúncias de antenas de rádio derrubadas por serem criticas do governo.

A tensa relação entre governo e imprensa também foi apontada no recente relatório de direitos humanos do Departamento de Estado americano.

Clarín

Para o jornalista e escritor Ceferino Reato, editor da revista Fortuna, do grupo Perfil, “as definições e a divisão (de empresas de comunicação e jornalistas governistas e opositores) existem e são alimentadas pelo próprio governo a partir de sua briga com os jornais Clarín e La Nación”.

Santoro, por sua vez, afirmou que “não existem santos” nesta discussão, que envolve governo, empresas e jornalistas, mas ressalvou: “O papel do jornalista é ser crítico, é investigar e estar atento às medidas do governo. Mas o governo não vê o jornalismo dessa forma”.

Para os entrevistados pela BBC Brasil, a disputa ganhou impulso após o suposto apoio, em 2008, do jornal Clarín aos produtores rurais, durante os protestos do setor agrário contra o governo.

O jornal acabou virando alvo da nova Lei de Audiovisual, que obrigará o grupo a se “desfazer” de parte de suas empresas a partir de dezembro, como lembrou a presidente em um discurso, na semana passada.

Cartazes com os dizeres “Clarín mente” também já se tornaram corriqueiros e são ostentados até mesmo por ministros e pelo vice-presidente, Amado Boudou, ou nos muros do país.

Defensores da causa

Profissionais de imprensa apontam a existência de um jornalismo militante no país, nos dois lados, o que aparentemente contradiria os princípios de independência jornalística.

Um funcionário da emissora estatal Canal 7, que não quis se identificar, atribuiu a divisão à defesa das políticas do governo.

“Os da situação apoiam a causa (do governo), e os da oposição, não”, disse.

Outro jornalista, que também não quis revelar o nome, defende sua opção “governista”.

“Seria uma loucura não apoiar projetos do governo, como a reabertura dos processos de crimes contra direitos humanos cometidos na ditadura, assim como o casamento das pessoas do mesmo sexo e a oposição aos organismos internacionais, principalmente o FMI”, disse.

“Queremos perguntar”

Outra reclamação dos jornalistas é sobre a falta de acesso da imprensa a ministros e à presidente. Desde que assumiu o governo, há cinco anos, Cristina deu uma única entrevista coletiva.

E fatos de rotina em outros países, como a divulgação da agenda das autoridades da administração central, não existem na Argentina.

Para a senadora opositora e jornalista Norma Morandini, “o governo prefere os discursos às entrevistas à imprensa” e “vê os jornalistas independentes como opositores”.

Na sua opinião, a presidente vê o jornalista independente como um “inimigo” e tem a mesma visão em relação ao “opositor político”.

“O governo entende que críticas correspondem aos inimigos e divide a sociedade de forma perigosa”, disse Morandini.

Há poucos dias, Cristina justificou a preferência por discursos e a ausência de entrevistas coletivas dizendo que não falaria mal dela mesma.

A comunicação unilateral da presidente motivou um protesto pouco comum por parte da imprensa. Há duas semanas, dezenas de jornalistas de diferentes meios formaram um coro no programa Periodismo Para Todos (Jornalismo Para Todos), do jornalista Jorge Lanata, para dizer: “Queremos perguntar”.

Apesar da polarização, especialistas, jornalistas e políticos ouvidos pela BBC Brasil disseram que existe liberdade de expressão na Argentina.

“Sempre me perguntam se existe liberdade de expressão. Digo sim, apesar de coisas complicadas, como a distribuição arbitrária da publicidade oficial, a escassez de entrevistas coletivas, a falta de uma lei de acesso à informação pública”, disse o diretor executivo do Fopea, Andrés D’Alessandro.

05/06/2012 - 09:30h Paralelo volta à Argentina com cerco ao dólar

05 de junho de 2012

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES – O Estado de S.Paulo

A cruzada antidólar da presidente Cristina Kirchner intensificou-se ontem com a entrada em vigência da obrigatoriedade da permissão da Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip, sigla da Receita Federal argentina) para as pessoas que – para a aquisição de um imóvel – quiserem comprar dólares com pesos obtidos por um empréstimo hipotecário.

A medida promete esfriar ainda mais o mercado imobiliário argentino, cujas operações há quatro décadas são feitas exclusivamente em dólares. Em abril, segundo o Colégio de Tabeliães de Buenos Aires, as operações imobiliárias despencaram 25% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Esta e as outras medidas que o governo Kirchner vinha aplicando desde novembro contra a moeda americana (o refúgio preferido dos argentinos para as épocas de crise e também nos tempos de vacas gordas) provocaram nos últimos meses o ressurgimento do dólar paralelo, que há duas décadas havia deixado de existir.

Na última sexta-feira, o dólar oficial estava em 4,49 pesos, enquanto que o paralelo passava dos 5,80 e chegava aos 6 pesos. Mas, para complicar, no fim de semana o senador Aníbal Fernández, braço direito da presidente Cristina no Senado, causou confusão ao afirmar que as casas de câmbio teriam um dólar paralelo a 5,10 pesos nesta segunda-feira, já que o governo negociaria com os doleiros uma cotação informal mais baixa.

Mas apesar das promessas de negociar com os cambistas, ontem, depois de um fim de semana de intensos rumores, a moeda americana ostentou a cotação oficial de 4,49 pesos. O dólar “blue” (paralelo), oscilou entre 5,50 e 5,97 pesos.

Retiradas. No início da semana passada, Aníbal Fernández declarou que os argentinos teriam de se acostumar a “pensar em pesos”. Isso levou ao aprofundamento dos boatos sobre uma iminente “pesificação”. Mas a medida foi categoricamente desmentida pelo vice-ministro da Economia, Axel Kicillof. A saída de depósitos, no entanto, persistiu.

Segundo dados do Banco Central, desde as primeiras medidas do governo Kirchner contra a moeda americana em novembro, os bancos perderam 25,3% de seus depósitos em dólares. Isso indica que o volume caiu dos US$ 14,7 bilhões em outubro para US$ 11,03 bilhões em maio. Com a intensificação dos controles, a saída teria alcançado US$ 1,6 bilhão no mês passado.

Os bancos, sem dólares suficientes para entregar, estão fazendo listas de espera para seus clientes, fato que causa mais nervosismo entre os argentinos.

José Manuel de la Sota, governador de Córdoba – segunda maior província do país -, alertou sobre os controles cambiais: “Quando as pessoas veem restrições à livre comercialização dos dólares, começam a pensar que algo anda mal”.

Cláudio Loser, ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a Argentina, afirmou que o acordo entre o governo e as casas de câmbio para moderar a alta do dólar paralelo não é a solução: “Esse problema não será curado com uma negociação entre ambos. As pessoas se assustam e retiram seus dólares. E continuarão fazendo isso. Elas são tão espertas quanto os agentes do governo, pois encontrarão a forma de continuar comprando e vendendo dólares.”

Para Loser, o dólar no câmbio oficial deveria estar em um patamar de 7 pesos.

04/06/2012 - 19:16h “Para integrar nuestros países se deben privilegiar las políticas estructurales”

03.06.2012 | Entrevista a Pedro Silva Barros, economista y funcionario de Brasil

Desde 2010 encabeza la misión de integración productiva del Instituto de Pesquisa Económica Aplicada en Venezuela. Considera que la integración debe ser una política de Estado que no puede depender del “voluntarismo empresario”.

Alfonso Villalobos – Tiempo Argentino

En perfecto castellano, aunque con una leve tonada caribeña, el licenciado en Economía y Derecho de la Universidad de San Pablo opina sobre los límites que plantea una política de integración acotada a lo estrictamente comercial. Considera que la integración regional debe surgir de una intervención estatal “Si los empresarios son los que controlan la agenda serán solo medidas de corto plazo.” Para eso, asegura, es necesario complementar la estructura productiva, el financiamiento y la innovación tecnológica a nivel regional. Por eso, en junio, adelanta, el Instituto inaugurará sus oficinas en Buenos Aires.

–¿Cómo evaluás la situación de tu país frente a las señales de recesión industrial? ¿Son correctas las medidas de estímulo que tomó Dilma Rousseff?
–En 2008, frente a la crisis internacional, Brasil adoptó políticas contra cíclicas con aportes a la banca pública y bajando las tasa de interés. A fin de los ‘90 teníamos la tasa de interés más alta del mundo, un 40% anual. Ahora, por primera vez en la historia, hay tasas de un dígito (8,5%). Se ha decidido aumentar el protagonismo del Estado en el desarrollo fortaleciendo la banca pública y el financiamiento de la producción a través del BNDES. También, con limitaciones, se ha intentado aumentar la inversión en infraestructura y medidas de estímulo a la producción y el consumo. Otro tema es el impulso a la construcción civil con el programa de viviendas “Mi casa, Mi vida”.

–¿Qué impacto tuvieron?
–La economía reaccionó muy bien. En 2010 llegó a crecer un 7,5% como no sucedía en 20 años. La respuesta a la inflación fue una política fiscal restrictiva que desaceleró mucho la economía.

–¿El objetivo de las medidas fue estimular el consumo o achicar el diferencial con las tasas de interés europeas y frenar el carry trade y el revalúo del real?
–Por un lado, estimular y por el otro bajar las rentabilidades bancarias, un sector que le fue demasiado bien. El gobierno llevó la relación entre deuda y PBI a apenas un 50% y tiene más reservas internacionales que deuda externa.

–¿Qué opinás sobre las exenciones impositivas a empresarios? ¿No profundizan el carácter regresivo de la estructura tributaria y no comprometen la situación fiscal?
–Las exenciones en general son regresivas. Incluso las que son al consumo porque afectan al 50% más rico que compra autos y productos industriales. Pero si se estimula el consumo se benefician los más pobres. La recesión podría provocar desempleos. No es una medida distributiva pero sirve para mantener la actividad económica. Las restricciones fiscales que se están viendo en Europa, no hacen más que agravar la recesión.

–¿Cómo explicás que, teniendo una moneda más débil con relación al real, la Argentina tenga déficit?
–Un manual de economía dice que si se valora el cambio entonces viene el déficit comercial. Es la estructura productiva y las políticas de estímulo lo que explica el comercio exterior. Brasil revaluó su moneda varios años y sin embargo el superávit se incrementó. Diversificamos las exportaciones, hubo políticas específicas. Hay una ley que se llama ley Candif que descuenta el IVA para los productos de exportación.

–¿Como un tipo de cambio diferenciado?
–Sí. Todos los países hacen eso. Brasil hace sólo diez años que lo aplica. Hay casos donde el tipo de cambio no afecta porque existe un comercio intrafirma o intrasectorial.

–La misión comercial argentina a San Pablo fue la más grande que jamás se haya hecho entre la Argentina y Brasil. ¿Cómo ves la relación comercial?
–En estos momentos de crisis mundial América Latina reaccionó bien. Existe una tendencia mundial de políticas proteccionistas y aumento en la intervención de los Estados. Esto no tiene porqué ser malo. En algunos casos, como en Brasil, puede ser positivo. La nacionalización de YPF permite recuperar la producción de hidrocarburos y articular la política de créditos con la innovación de toda la cadena productiva y de suministros, como hizo Brasil con Petrobras. Hay una posibilidad de emplear componentes nacionales en la cadena de petróleo y gas en la Argentina.

–Pareciera que no hay márgenes para acordar políticas generales y que la macroeconomía toma la forma de múltiples acuerdos micro…
–Lo que se debe privilegiar son las políticas estructurales. El voluntarismo empresarial puede ser beneficioso pero, sin una planificación, una articulación y una política macro de infraestructura y articulación productiva, innovación y financiamiento puede traer problemas. Un producto puede ser sustituido de un día para otro por China mientras que un encadenamiento productivo no se cambia en una semana.

–En Brasil se produjo una devaluación del real y un principio de una recesión industrial. ¿Esto no hace pensar que cualquier acuerdo comercial en realidad es en función de los intereses brasileros de salir de la crisis?
–Es así. Para la industria brasilera estos encuentros buscan restablecer el nivel comercial de 2011 aumentando las exportaciones a la Argentina. Pero es una preocupación de corto plazo que puede asociarse a una política de largo plazo. Eso es tarea de los gobiernos. Si los empresarios son los que controlan la agenda serán solo medidas de corto plazo. <

Petróleo e industria naval

–¿Avanza la integración regional?
–Existe un fuerte sentimiento de integración que se ha profundizado. Con la Argentina hay un gran comercio a través del Mercosur pero concentrado en las multinacionales del sector automotriz. Hay que complementar en otros sectores como el petróleo y el gas. Venezuela tiene una de las reservas de hidrocarburos más grandes del mundo. La Argentina y Brasil también. Se puede producir un polo tecnológico y de innovación en temas de hidrocarburos y en industria naval. Se podrían integrar también Bolivia y Ecuador.

–¿Cómo entra cada país en esa cadena?
–Tiene que haber una política regional. Los tres países deben implementar una política que incremente los componentes nacionales. Esto debe llevar a que la producción regional sea considerada como nacional. Venezuela carecía de industria naval pero está construyendo un astillero con recursos del BNDES brasilero con asesores de ese país. Van a producir 12 buques petroleros por año. El Banco del Sur sería decisivo.

Un paso concreto
El IPEA nació en lo sesenta dos años después del Ministerio de Planificación de Brasil fundado por Celso Furtado en el apogeo del desarrollismo del Brasil. Actúa para ayudar en la formulación y la evaluación de las políticas públicas del Brasil. IPEA en 2008 se propuso abrir delegaciones fuera de Brasil. La primera fue en Venezuela en 2010. En 2012 abrirán delegaciones en Paraguay y en la Argentina que funcionará en las oficinas de CEPAL. En Venezuela se analiza la integración entre el norte de Brasil y el sur de ese país en la cuenca del Orinoco-Amazonia asociados a biodiversidad, hidrocarburos y energía. En la Argentina harán estudios para evaluar la integración de ambos países.

18/05/2012 - 10:04h Queda na produção aponta para ‘frenazo’ da economia argentina

Por César Felício | VALOR

De Buenos Aires

A economia argentina já evidencia uma freada brusca, ou “frenazo”, como se diz no país, segundo dados de fontes independentes que mediram a atividade nos primeiros quatro meses do ano. O ritmo do PIB do país, que sustentou uma taxa de crescimento de 7% em 2011 (ou 9%, segundo dados oficiais), poderá ficar entre zero e 2% em 2012, ante as previsões feitas em novembro que arriscavam até 5% de expansão.

A Argentina desacelerou por dois fatores: o desaquecimento do mercado brasileiro, que diminuiu a demanda por produtos industrializados argentinos, e as barreiras ao câmbio e às importações que se intensificaram entre novembro e fevereiro. Esta última variável é a que está agindo com mais força. Há uma escassez de insumos para a indústria.

“Se descontarmos as importações de energia, a situação no primeiro quadrimestre projeta uma queda de 10% nas compras de bens acabados, matérias-primas e bens intermediários. Caso o governo não flexibilize o regime, a produção irá se deprimir até uma variação zero do PIB em 2012″, disse Jorge Vasconcellos, vice-presidente do Ieral, um instituto de pesquisas da Fundação Mediterrânea, organização mantida por cerca de 400 indústrias em Córdoba, principal polo automotivo do país.

Na hipótese de o governo da presidente Cristina Kirchner soltar as rédeas da importação e se contentar com um superávit comercial semelhante ao do ano passado, da ordem de US$ 10 bilhões, o crescimento poderá ir a 2%, segundo Vasconcellos.

“É o cenário mais provável, uma vez que o resultado comercial obtido até agora, projetado para o fim do ano, proporcionaria um saldo de US$ 14 bilhões, o que está acima da necessidade de financiamento do governo. Mas uma recuperação das importações no segundo semestre não compensaria totalmente a desaceleração que ocorreu até agora”, disse.

Segundo uma estimativa do próprio governo argentino, 97% das indústrias do país utilizam insumos importados. No caso da indústria da construção civil, as vendas de materiais como cimento, esquadrias e telhas mostraram recuo nos últimos meses em razão dos controles cambiais.

Quase todas as transações imobiliárias no país são dolarizadas. Como desde 1° de novembro há grande dificuldade de pessoas físicas em adquirirem a moeda pelo câmbio oficial, as transações no setor diminuem.

Em Córdoba, é grande o receio de que a liberalização das importações não seja suficiente para a retomada do ritmo. Ontem, sete indústrias de autopeças ingressaram com um “procedimento preventivo de crise”, uma exigência legal na Argentina para empresas que têm interesse em fazer demissões em massa em razão de dificuldades econômicas. Após o procedimento, as empresas têm 30 dias para tentar uma solução negociada com governos e sindicatos.

“O que nos preocupa é que são sete empresas de segmentos diferentes do mercado, ou seja, não é algo pontual”, disse Ruben Urbano, secretário-adjunto em Córdoba da UOM, o sindicato nacional dos metalúrgicos na Argentina. “A grande razão é que o Brasil não está comprando mais. É parecido com o que aconteceu no fim de 2008. Mas naquela época o governo agiu, dando incentivos”, disse.

Um traço de muitas empresas afetadas é que são fornecedoras da Fiat, que é de todas as montadoras argentinas a que tem a produção mais integrada com o Brasil. Segundo dados da Adefa, a associação patronal do setor no país, enquanto a produção automotiva na Argentina recuou 5,7% no primeiro quadrimestre, na Fiat a queda foi de 31,4%. A montadora justifica a retração alegando a existência de altos estoques no Brasil e a dificuldade de liberar componentes importados para a fabricação do Palio, um dos principais modelos.

De acordo com dados da brasileira Anfavea, por sinal comandada pelo presidente da Fiat para América Latina, o brasileiro Cledorvino Bellini, a produção de automóveis no Brasil caiu 10,1% entre janeiro e abril e os licenciamentos, considerando nacionais e importados, recuaram 3,4%.

15/05/2012 - 16:20h Cartas de Baires: Durar não é o mesmo que viver

by Gisele Teixeira – Aqui me quedo

A Argentina – para um grande jornal brasileiro um país “parado no tempo” – avança a passos largos em temas muito contemporâneos.

Aprovou semana passada a chamada lei de “morte digna”, que permite ao paciente terminal ou em estado irreversível rejeitar tratamentos médicos que possam prolongar seu sofrimento ou “vida artificial”, conectada aos aparelhos.

Quem já viu uma pessoa querida sendo submetida a uma verdadeira tortura apenas para “durar” mais entende perfeitamente do que se está falando.

Aconteceu comigo em 2005, com a minha avó. Tive o privilégio – porque despedir-se de um ser querido o é – de estar com ela na véspera de sua morte, durante toda a noite, de mãos dadas.

Há dias ela não comia, por decisão própria, e isso foi causando uma série de falências em outros órgãos. Nessa reta final, ela não conseguia nem tomar água. Eu ficava molhando seus lábios com um paninho úmido para não ressecarem.

Sabíamos que ela tinha optado por não viver mais. Não estava doente, estava apenas cansada. Queria ir. Meu pai, que é médico, decidiu não interná-la. Seria cuidada em casa por ele e enfermeiras, rodeada do nosso amor.

Após esta noite de vigília, justo quando estava amanhecendo, ela abriu os olhos, olhou para o soro e me pediu: me desliga? Ela queria que eu tirasse a única coisa que a mantinha viva. Na hora me pareceu o mais certo a fazer, mas a gente não podia. Para nosso alívio, morreu naquela mesma manha.

A medida aprovada na Argentina permite isso e era pedida espacialmente por familiares de pessoas que se encontram em estado vegetativo. Játinha sido aprovado pela Câmara dos Deputados, e agora recebeu votação unânime do Senado.

A lei dá a palavra final ao paciente, que deve deixar por escrito uma autorização de suspensão destes cuidados (inclusive o soro). Um familiar próximo também está habilitado a autorizar a interrupção do tratamento, nos casos em que a pessoa hospitalizada não esteja consciente.

Mas a legislação também permite que o paciente ou o familiar possam voltar atrás, se mudarem de ideia e optarem pela continuidade do tratamento. A nova lei adverte, porém, que “fica expressamente proibida a prática de eutanásia” e inclui que nenhum profissional de saúde será punido por atender a vontade do paciente ou da orientação dada por um familiar da pessoa internada.

Este é apenas um dos temas considerados “delicados” que a Argentina resolveu encarar. Mas há outros. Além de ser um dos países pioneiros no matrimonio igualitário e na condenação de repressores da ditadura militar, aprovou esta semana uma lei que permite escolher livremente, sem intervenção médica ou judicial, a identidade sexual.

O conceito de “desenvolvimento”, por sorte, não tem apenas o viés econômico.

08/05/2012 - 17:00h Morreu Caloi, pai de Clemente, o alter ego dos portenhos

Os Hermanos – Blog de Ariel Palacios

Clemente e sua inexorável azeitona

O cartunista argentino Carlos Loiseau, mais conhecido pelo nome artístico “Caloi”, morreu ontem (terça-feira) em Buenos Aires, após vários dias de internação hospitalar por “grave doença”, segundo informaram amigos da família do artista. Caloi, que tinha 63 anos, foi o criador de “Clemente”, um peculiar pato com listas pretas e amarelas no corpo – tal como uma abelha – que não tinha asas nem braços. No entanto, Clemente era um rapaz de um bairro portenho, bom-vivant que amava o futebol, o tango, a política e as mulheres. E fazia psicanálise.

O personagem, que com frequência protagonizava situações surrealistas e delirantes, sempre tinha algum comentário sutilmente irônico na ponta da língua. Clemente era considerado o “alter ego” dos portenhos.

Nas eleições parlamentares de outubro de 2001, quando começava o “que se vayan todos” (que todos vão embora) contra a classe política, dezenas de milhares de votos foram destinados – a modo de protesto – a favor de Clemente.

Em 2004 a prefeitura portenha designou Clemente – publicado ininterruptamente desde 1973 – “patrimônio cultural da cidade de Buenos Aires”.

Clemente tornou-se um sucesso nacional quando, durante a Copa do Mundo de 1978, convocava os argentinos a jogar papel e confete nos estádios. A convocação ia de encontro ao pedido do locutor oficial do regime militar que governava a Argentina na época, que fazia campanha contra o confete nos estádios por ser algo “sujo”.

Uma tarde de abril de 1997 fiz uma entrevista com o cartunista Caloi em sua casa localizada na frente do Parque Lezama, por ocasião dos 25 anos da criação de Clemente. Aqui segue a íntegra da entrevista.

Nasceu de uma chocadeira desligada, teve um filho com uma azeitona, voa sem asas e seu corpo é cheio de listras pretas. Ah, sim, jogou no Boca Juniors e fala com todos os erros inimagináveis de ortografia. Namora uma mulata e uma francesa. Foi diplomata na guerra entre as passas e as azeitonas.

O personagem em questão é Clemente, que está soprando 25 velinhas. É o mais portenho dos cartuns. Em sua tirinha do jornal “Clarín”, um olhar de canto de olho e uma perna cruzada, todas as manhãs, são suficientes para Clemente concluir uma análise arguta. Amplo repertório: dos clones ao presidente, de futebol à libido. Seu universo que vai do reles cotidiano ao onírico em poucos segundos. Ou melhor, em poucos quadrinhos.

Ele saiu do tinteiro do cartunista argentino Carlos Loiseau, alias, Caloi, que além de Clemente, dedica-se a apresentar um dos raros programas sobre desenhos animados de arte na TV latino-americana. Aos, domingos, em horário nobre, Caloi desfila la creme de la creme do traço polonês, húngaro, canadense e indiano. Admirador dos irmãos Caruso, Caloi nunca esquece quando os gêmeos mais arteiros do Brasil o levaram a um bar homônimo do filho predileto: “Clemente”. Não saberia dizer onde era. “Cidade confusa, São Paulo!” exclama.

Caloi recebeu o Estado em sua casa de cinco andares na frente do Parque Lezama em uma sala despojada de decoração, mas cheia de inusitados frascos entupidos de rolhas. Ali, ele contou com quantos Clementes se conspira.

Estado – O que é um Clemente?

Caloi – Não há muitos segredos. Trata-se somente de um personagem do absurdo, que tem definição na escala zoológica. Quando me encarregaram a tirinha, pensei criar um personagem que não me escravizasse. É esse o principal fantasma que um desenhista tem na tira diária: ficar prisioneiro de sua própria criação. Todos os personagens até o momento, tinham tido uma profissão ou uma característica psicológica fixa. Isso permitia muito pouco o absurdo. Na minha infância, os personagens de sucesso eram o Piantadino, um sujeito que vivia fugindo da prisão ; o Avivato, que era um espertalhão, que tirava partido de qualquer situação. Cada um com uma característica permanente. Mais tarde, isto mudou. Mafalda revoluciona o âmbito dos personagens. Mas ela mesma está presa à sua própria personalidade. Era uma menina contestatária, que se ligava a outros personagens como Manolito, que se interessava pelos negócios. Susanita, que pensava como uma senhora. Quino obtinha variedade misturando essas características. Eu achava que se tivesse que trabalhar com estas premissas, ia ficar doido. Então fiz algo absurdo, para poder entrar e sair da realidade quando eu quissesse, sem pedir licença a ninguém. E assim apareceu Clemente.

Estado – Mas o protagonista inicial da tirinha era Bartolo…

Caloi – Essa era a idéia inicial. Bartolo andava em um bonde muito especial, sobre uma única roda, pela ruas de Buenos Aires onde ainda existem trilhos. Mas logo percebi que Bartolo também estava ligado a uma visão limitada da realidade porque estava amarrado a uma coisa nostálgica: o bonde. Além disso, dava muito trabalho desenhar um bonde em cada quadrinho. Fui exitinguindo Bartolo em favor do crescimento de Clemente, um personagem secundário. Ele cumpria mais o jogo livre que havia proposto com a realidade e com as etapas que a Argentina ia atravessando. É difícil que uma tira diária se desprenda do peso que a informação tem, e assim, aparece ligado à política, economia, esportes, cultura…

Estado – Esse é um atributo que fez Clemente perdurar e Mafalda não?

Caloi – Quino dediciu terminar a Mafalda, e é incrível a vigência que tem. É tão genial que foi feita durante 10 anos. Há 20 não a desenha. Há outro tipo de tratamento com Clemente, que acompanha as pessoas no andar. Mafalda é uma filósofa.

Estado – Noto que com o passar dos anos, Clemente foi tomando formas mais arredondadas. O mesmo aconteceu com o Pato Donald e muitos outros personagens no mundo inteiro. Quando um personagem amadurece…

Caloi – (interrompendo)…Ele vai engordando (ri). Vamos conseguindo uma síntese. O comparo com a assinatura. Começamos escrevendo todas as letras e o nome compreende-se claramente. Até colocamos pingos nos “i”. Depois, tudo transforma-se no rabisco de algo que foi a escrita do nome. Acho que o personagem vai se aburguesando.

Estado – Para um personagem que tocava a política, como parte do cotidiano, como eram as restrições na época da Ditadura?

Caloi – Tive ameaças telefônicas de morte, e decidi desaparecer um pouco indo para a casa de minha mãe. Mas logo foi ela que começou a me ameaçar, para que fosse embora (ri). Tive restrições, como todo o jornalismo da época. Mesmo notícia de tempestades ou de granizo eram proibidas, por serem más notícias…

Estado – Houve um período onde Clemente era jogador de futebol, do time Boca Juniors…Como chegou a isso?

Caloi – Era seu sonho. Como aquelas crianças que estão jogando sozinhas com uma bola e vão falando como se estivessem transmitindo o jogo. Clemente usava uma camiseta grande demais, tropeçava nela. Mas driblava 10 jogadores e fazia o gol no último minuto. Era de Boca porque Bartolo era de River…como eu. Na Copa de 1978, adquiriu grande notoriedade, pois ultrapassou as fronteiras do jornal, com sua figura aparecendo nos tabuleiros eletrônicos dos estádios.

Estado – Criou a mania argentina de jogar papeizinhos no campo, ou a reforçou?

Caloi – Acho que a reforcei. O locutor oficial da copa, José Muñoz fazia uma campanha contra jogar papéis nos estádios, que era um costume nacional. Antes, tenho que explicar que nós, desenhistas, somos uma raça de sobreviventes, de conspiradores…tigres de papel. Como o “Pasquim” no Brasil, ou a “Codorniz”, na Espanha, estavamos sempre à espreita, para dar uma alfinetada nesse regime. E existia esta coisa tão inocente dos papéis. O governo tinha medo das multidões, que lembravam outros tempos políticos. Começaram então, uma campanha que tratava todo mundo como inadaptado social, para que déssemos a melhor imagem do país para os turistas. Munhoz dizia que os papeizinhos davam a impressão de sujeira. E Clemente começou a dizer que era para jogar mais papel do que nunca, já que essa era a forma que os argentinos tinham de se manifestar.

Estado – Como Clemente lidou com a Guerra das Malvinas ?

Caloi – Alheio. Existia um artificialismo triunfal no qual eu não acreditava e não fiz humor a respeito. Dois dias antes da invasão argentina havia sido realizada uma imensa manifestação contra os militares na Plaza de Mayo. A polícia botou todo mundo para correr, eu incluído. A invasão era um delírio de alguns generais.

Estado – Durante uma época, reduziu Clemente a poucos traços e sua fala era abreviada como anúcio classificado…Era o “Mundo da Síntese”. Como o público reagiu?

Caloi – As pessoas não estavam acostumadas. Mas o segredo de Clemente foi uma lenta elaboração de um código de entendimento com o público. Ele estabeleceu um código em que tudo é sugerido e nada é dito expressamente. O pensamento é completado pelo leitor. No momento mais duro da censura, Clemente fazia algo tão pueril como dar uma piscada, cruzava as perninhas e dizia algo de canto. As pessoas entendiam. Era popular como elas.

Estado – Na TV teve muito sucesso. Porque não permanceu lá ?

Caloi – A TV, para mim, era uma nova linguagem. Começamos timidamente, com bonecos desajeitados tentando ter o estilo Muppets. Eu estava preocupado pelos problemas estéticos, mas as pessoas já cantavam as musiquinhas de Clemente nas ruas. Ele incorporava um público que não era do jornal. Durou três anos, mas depois, acabou, pois aTV precisa renovar permanentemente seus personagens.

Estado – Clemente seria o portenho por excelência?

Caloi – Não era essa a idéia, embora ele possua idéias e pensamentos dos portenhos. É o torcedor de futebol, o pensador, é uma mistura de tudo, como os próprios portenhos.

Estado – De quem possui influências?

Caloi – Quino e Oski. Este era absolutamente original. Ele havia se encarregado de redesenhar toda a natureza em aberta competição com Deus. Seus pássaros, árvores e até o sol eram muito pessoais. Trabalhei nas revistas Patoruzú e Nicabur, onde havia caras que eram grandes construtores de personagens. Calé foi um desenhista que fez uma excelente radiografia da alma portenha dos anos 50 e 60. Quino foi o “joelho” na revolução desses comunicadores. Mafalda tinha mais preocupações além do bairro em que morava. Seu primeiro livro está dedicado ao secretário-geral da ONU, U Thant. Ela era uma garotinha que podia ter insônia por causa do “perigo amarelo”…!

Estado – Poderia contar sua experiência na “Hipotenusa”, uma revista que definiu como “surrealista com o subsídio do Estado”?

Caloi – A “Hipotenusa” surgiu na época da ditadura do general Onganía. Era uma revista arriscada em termos gráficos. Quanto mais ousado fosse o material, mais esquisito, eles publicavam. Durou 15 números, ou seja, bastante. Depois que foi fechada ficamos sabendo que era uma aposta cultural do Estado! (ri)

Estado – Há um desvario de personagens que contracenam com Clemente: pedras filosofais falantes, uma pardal-namorada francesa, uma mulata, o Clementossaurio, seu filho Jacinto, que nasceu de um affaire com uma azeitona…

Caloi – Uma das namoradas de Clemente, a “Mulatona”, é uma colombiana que dança a Cumbia, um ritmo latino. Ela é a coisa telúrica. Por outro lado, Mimi, a pardal francesa, tem a ver com aquele ideal antigo da mulher delicada. O Clementossaurio, o Clemente alado, são desdobramentos de sua personalidade. Lembrei de uma novela de Hermann Hesse, onde o personagem percorria as ruas da cidade com um cartaz onde dizia “Só para loucos”, e era seguido por outros que representavam sua múltipla personalidade.

Na tirinha publicada na manhã de sua morte, Clemente analisava com o filho Jacinto a morte do Universo.

Estado – O que aconselharia aos jovens cartunistas?

Caloi – Que trabalhem muito. Esta é uma época difícil para os jovens. Não existem tantas revistas de humor como quando comecei. Quase parece que têm que pagar para que publiquem seus desenhinhos.

Estado – É mais difícil fazer Humor hoje do que antes ?

Caloi – Pode-se fazer Humor nas piores circunstâncias, nas condições mais adversas, como durante a Ditadura. Nós, cartunistas, somos uma espécie de avis rara que sobrevivem e que ainda, além de tudo, conspiram um pouquinho.

Homenagem do cartunista Liniers a Caloi.

hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

04/05/2012 - 11:18h Popularidade de Cristina Kirchner cresce após nacionalização de petrolífera

Especialistas ouvidos pela BBC Brasil constatam que, depois de queda entre dezembro e abril, índices de aprovação de presidente argentina subiram.

04 de maio de 2012

BBC Brasil – Agência Estado

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, recuperou apoio popular após anunciar, em abril, a expropriação de 51% dos 57% das ações da petroleira Repsol-YPF, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.

O projeto de expropriação foi aprovado, nesta quinta-feira, por ampla maioria dos deputados e já tinha recebido forte respaldo dos senadores.

Cristina foi reeleita em outubro do ano passado com 54% dos votos e, na ocasião, contava com cerca de 62% de aprovação, como observaram Mariel Fornoni, da consultoria Management&Fit, e Roberto Bacman, do Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP).

Mas pouco depois de tomar posse, em dezembro, sua popularidade começou a cair. Entre dezembro e abril, antes do anúncio da estatização da petroleira, o apoio popular à presidente tinha retrocedido 17 pontos percentuais.

”O desgaste da gestão, o anúncio do fim dos subsídios para o setor público privatizado (com o fim do congelamento de tarifas), o acidente de trem (em Buenos Aires, que deixou 51 mortos), as barreiras comerciais que afetaram o abastecimento de alguns setores e as suspeitas de corrupção contra o vice-presidente do país (Amado Boudou) foram os motivos para esta queda”, disse Fornoni à BBC Brasil.

Mas após o anúncio de estatização da petroleira YPF, seu índice de aprovação voltou a subir. ”(A aprovação de) Cristina tinha caído para cerca de 55% e agora está em 61%”, afirmou Bacman.

Já os números citados por Fornoni são bem mais modestos – ela diz que o apoio à presidente estaria hoje em torno dos 48%.

”Houve uma recuperação após o anuncio da YPF. Esse apoio passou de cerca de 44% para aproximadamente 48%”, disse ela à BBC Brasil.

Símbolo

Para Fornoni, a preocupação com a insegurança pública, com o aumento da inflação e com os baixos salários, tornaram os argentinos mais críticos em relação ao governo.

”Aqui na Argentina, quando há festa para todos, os eleitores não prestam muito atenção à corrupção. Mas quando sentem a inflação e que o salário é insuficiente, passam a notar as denúncias de corrupção”, afirmou a especialista, em uma referência ao recente escândalo envolvendo o vice de Kirchner e ex-ministro da Economia Amado Boudou, acusado de tráfico de influência para tentar favorecer um amigo de infância na disputa pela impressão das cédulas de pesos argentinos.

As pesquisas de opinião indicam ainda que a maioria dos argentinos aprova a nacionalização da YPF e que o setor petroleiro seja ”controlado” pelo Estado.

Segundo o CEOP, este índice chegou a 74%. A consultoria Poliarquía, que realizou o levantamento para o jornal La Nación, chegou ao índice de 62%, e a Manegement&Fit, 50,2%.

”A YPF é um símbolo para os argentinos. Nos anos 90, os argentinos apoiaram as privatizações de telefones, de luz, gás, água e até de trens, mas não da YPF e da Aerolíneas Argentinas, que são consideradas questões estratégicas”, afirmou Bacman.

03/05/2012 - 10:11h Repsol analiza frenar embarques de GNL a Argentina, según fuente

Repsol ya habría comenzado a tomar represalias contra Argentina. (Foto: Reuters)

Repsol ya habría comenzado a tomar represalias contra Argentina. (Foto: Reuters)


Miércoles, 02 de mayo del 2012

GESTIÓN

La empresa española tenía planeado enviar al país sudamericano 10 cargmanentos del recurso este año. La suspensión de las exportaciones sería una respuesta a la expropiación de YPF.

Buenos Aires (Reuters).- El grupo español Repsol estudia cancelar el envío de nueve barcos con gas natural licuado (GNL) a Argentina tras la decisión del país sudamericano de tomar el control de su filial YPF, afirmó una fuente del mercado energético.

La medida podría causar desabastecimiento en el mercado local, que depende de las importaciones para compensar una fuerte caída en la producción de hidrocarburos, o disparar el costo de las compras del fluido.

Repsol suspendió días atrás el envío del primero de los 10 cargamentos de GNL comprometidos para este año argumentando que la petrolera estatal argentina Enarsa, encargada de las importaciones de combustible, no presentó una garantía de pago.

“Las posibilidades de que se cancelen todos los barcos son altas. Repsol está estudiando cancelar esas ventas. Es en respuesta a la nacionalización de YPF “, dijo la fuente del mercado energético bajo condición de anonimato.

El Congreso argentino se apresta a convertir en ley esta semana un proyecto enviado por la presidenta Cristina Fernández para que el Estado expropie el 51% de YPF en manos de Repsol.

La mandataria peronista , cuyas políticas intervencionistas irritan a los inversores internacionales pero son respaldadas por una mayoría de argentinos, acusó a Repsol de no invertir lo suficiente en YPF para evitar el derrumbe de su producción y de mantener una agresiva política de dividendos.

YPF, que fue intervenida por el Estado hace dos semanas a la espera de su nacionalización, dijo en un comunicado el sábado que tenía la certeza de que Repsol cancelaría los envíos comprometidos de GNL. No había nadie disponible en Repsol para comentar sobre la información.

MÁS CARO

La suspensión de la venta obligaría a Argentina a comprar GNL más caro para compensar el faltante, poniendo presión sobre el superávit comercial del país. Las importaciones energéticas argentinas se dispararon el año pasado a casi 10,000 millones de dólares.

Pese a las importaciones, desde hace varios años son habituales los cortes de gas natural a industrias durante el invierno austral para garantizar el suministro a hogares, lo que ha afectado la producción manufacturera.

Enarsa preveía adquirir este año un récord de 80 cargamentos de GNL para cubrir entre el 20 y el 30% del consumo doméstico. Pero a fines de febrero sólo tenía asegurados 51 debido a que los altos precios que pedían los proveedores le obligaron a rechazar ofertas, según expertos de la industria.

Analistas proyectan que una eventual cancelación de los embarques de Repsol podría además provocar problemas con el abasteciento del combustible. “Es un golpe muy fuerte. Todos los barcos que se habían comprado, los 51 que se habían comprado, estaban entre 13.5 y 14 dólares por millón de btu”, dijo el analista energético Eduardo Fernández.

El experto agregó que Enarsa ahora está recibiendo ofertas por entre 16 y 20 dólares/mmBtu.

Enarsa vende el GNL en el mercado local a alrededor de 4 dólares/mmBtu para asegurar gas natural barato a industrias y hogares. El Estado financia la diferencia.

Algunos analistas han dicho que el sistema de precios energéticos regulados de Argentina desincentiva la inversión en exploración.

27/04/2012 - 09:53h Iniciativas tornam rios apropriados para a navegação

VALOR

A navegabilidade do sistema hidroviário Paraguai-Paraná, um dos principais projetos do Eixo Hidrovia Paraguai-Paraná, cumpre etapas cada vez mais concretas. Do lado brasileiro, por exemplo, as intervenções previstas para a melhoria de navegabilidade do rio Paraná, segundo Francisco Luiz Baptista da Costa, diretor de Planejamento do Ministério dos Transportes, entra agora na fase de estudos de viabilidade técnica e ambiental. A previsão é de que esses estudos se concluam até junho de 2013 e a licença para operação seja concedida ao longo do segundo semestre do ano que vem.

O mapa das intervenções no rio Paraná, que serão executadas pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), de acordo com Costa, prevê investimentos da ordem de US$ 70 milhões, e incluem obras de dragagem e sinalização que vão desde o trecho da Usina Hidrelétrica de São Simão até o trecho da Usina de Itaipu. “O objetivo é estabelecer um calado de 10 pés para que a hidrovia seja navegável durante todo o ano”, diz ele. A expectativa é que todas as obras estejam concluídas até 2014.

Um aspecto importante desse projeto, indica o técnico do Ministério dos Transportes, é o de tornar o sistema do rio Paraná compatível com a hidrovia do rio Tietê, fortalecendo o canal de escoamento para cargas transportadas através da hidrovia do rio Paraná até o porto de Santos.

O cronograma de investimentos para obras e projetos hidroviários do rio Tietê prevê um orçamento de R$ 1,7 bilhão entre 2012 e 2015. Trata-se de uma obra inserida no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que contará também com recursos do governo paulista. Desse montante, R$ 178,8 milhões estão previstos para este ano e R$ 312,9 milhões no próximo. Hoje a hidrovia Tietê-Paraná possui 2,4 mil km, dos quais 800 km estão em território paulista.

O investimento para a construção de eclusas e barragens no rio Tietê será de R$ 722 milhões até 2015. Em relação aos projetos de navegabilidade do rio Paraná, a questão de transposição da barragem de Itaipu por meio de eclusas, aliás, permanece indefinida, assinala Costa. Pelo menos os estudos do fluxo de cargas no segundo semestre do ano passado, realizados pelo Banco Mundial, sob encomenda do governo federal, concluíram pela não viabilidade econômica dessa transposição através da construção de eclusas.

Do lado paraguaio, um dos projetos mais avançados, segundo Luis Maria Pereira, vice-ministro dos Transportes do Paraguai, é o da melhoria da navegabilidade do rio Paraguai no trecho entre Assunção e Formosa, na Argentina, correspondente a 554 quilômetros. O objetivo é permitir condições de navegação até 11 pés de calado. Os estudos de viabilidade técnica estão em desenvolvimento, com apoio do Banco Mundial, e a previsão é de que nos próximos quatro anos sejam investidos cerca de US$ 104 milhões em obras de dragagem e balizamento para a navegação noturna.

O eixo hidroviário Paraguai-Paraná envolve ainda diversos corredores transversais, rodoviários e ferroviários. Ao todo, são quase 20 projetos estruturantes e individuais, que preveem investimentos com a participação do setor privado da ordem de US$ 1,5 bilhão. Um desses projetos é o da interconexão ferroviária Paraguai-Argentina-Uruguai, no valor total de US$ 268 milhões.

O objetivo dos vários projetos uruguaios, destaca Pablo Genta, subsecretario do Ministério de Obras Públicas do Uruguai, é ampliar e melhorar a infraestrutura disponível, utilizando todo o potencial de transportes e serviços conexos para consolidar o país como hub logístico.

“Temos uma situação privilegiada com as melhores conexões (Santiago do Chile, Buenos Aires, na Argentina, Assunção, no Paraguai, e Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, no Brasil) para estabelecer uma plataforma logística na porta de entrada da região com maior atividade económica e de riqueza do continente”, diz Genta.

24/04/2012 - 08:59h Acabou-se o tango

Por Javier Santiso – VALOR

Os países emergentes estão na moda. Ainda assim, nem todos são economias vibrantes ou têm sociedades estáveis. O desmoronamento das ditaduras no Norte da África e Oriente Médio em 2011 nos lembrou disso. Os mercados emergentes reservam, às vezes, riscos profundos, sendo que o primeiro deles é o risco político. De fato, seria possível definir um país emergente como uma economia em que os ciclos políticos e financeiros estão intimamente vinculados.

A estatização da YPF, filial da Repsol na Argentina, nos recorda isso. Esses mercados carregam risco político. A decisão unilateral por parte do governo argentino de ficar com os ativos da multinacional espanhola não é inédita na América Latina e em outros países emergentes. Na América Latina, a Venezuela e a Bolívia também se comportaram de forma similar nos últimos dez anos, tomando o controle de ativos energéticos em mãos de operadores estrangeiros. Isso não ocorreu há um século, mas na década passada. Igualmente, a petrolífera russa Yukos foi estatizada de maneira repentina pelo regime de Putin.

A história nos recorda que nesses assuntos há muito esquecimento. Apesar dos litígios e das estatizações na Venezuela, a italiana ENI que havia processado o Estado venezuelano não demorou em voltar a fazer negócios no país com a estatal PDVSA

A história nos recorda que nesses assuntos há muito esquecimento. Apesar dos litígios e das estatizações na Venezuela, a italiana ENI que havia processado o Estado venezuelano não demorou em voltar a fazer negócios no país com a estatal PDVSA. É possível que não demore muito para vermos desembarcar novos investidores na Argentina para ficar com os poços desocupados pela Repsol. Isso poderia ocorrer via estatais chinesas, em particular, a Sinopec. De fato, a China já havia se convertido em 2011 em um dos principais investidores estrangeiros no país sul-americano, especialmente no setor petrolífero, sendo seu segundo maior parceiro comercial, à frente de qualquer país europeu.

O que o caso da Repsol YPF ilustra precisamente é a mudança no equilíbrio de poder que vem ocorrendo nos países emergentes. O “Norte”, Europa incluída, pesa menos; os fluxos comerciais e industriais já se organizam na esfera “Sul-Sul”, da mesma forma que os fluxos de investimentos. Gostemos ou não, a Espanha já não pesa tanto na balança na hora de arbitrar entre Europa e Ásia.

De forma geral, as empresas espanholas se internacionalizaram de maneira ampla ao longo dos últimos 20 anos. A América Latina desempenhou e continua desempenhando papel central nessa acertada aposta. Em 2012, a Espanha é um dos países que mais se internacionalizou se mensurarmos esse processo pelo volume de investimentos voltados ao exterior, que representou nada menos do que 51% do Produto Interno Bruto (PIB) espanhol. O volume, 15 anos antes, era de 3,6%.

A aposta foi e é acertada. Em 2012, enquanto a Espanha continuará retrocedendo, com uma recessão que se aproximaria dos 2%, a América Latina crescerá mais de 4%, de forma que o diferencial em termos de crescimento entre o país e a região será de 6 pontos percentuais como um todo. O que o caso argentino nos faz lembrar é que os emergentes continuam sendo multifacetados e que, agora, mais do que nunca, é preciso ser seletivo na hora de fazer apostas.

Nas próximas semanas e meses, parte da equação argentina será resolvida não com o envolvimento da Europa ou dos Estados Unidos, mas com o de outros países emergentes. É interessante recordar que embora a instituição financeira espanhola Caixa seja a maior acionista da Repsol (com 13%), outro dos grandes acionistas é a petrolífera mexicana Pemex (com quase 10%). Ou seja, a Repsol tem aqui um grande aliado. De fato, o apoio morno dos europeus contrasta com o apoio incondicional mostrado pelo presidente Calderón, do México.

Também é interessante recordar que outro país-chave no desenlace na Argentina será a China, outro emergente. A chinesa Sinopec já é parceira estratégica da petrolífera espanhola no Brasil. Mais do que isso, o maior investimento já realizado pela China na América Latina e um dos maiores no exterior foi feito em aliança com a multinacional espanhola.

No passado, a Sinopec já mostrou interesse em entrar na YPF. Não será surpresa se, no futuro, ouvirmos de novo conversas a respeito. Mais do que nunca, o destino da Espanha está nas mãos dos emergentes… (Tradução de Sabino Ahumada)

Javier Santiso, é professor de economia na escola de administração Esade e diretor do Centro de Economia e Geopolítica Global da Esade (Esadegeo).

23/04/2012 - 16:27h Pleitos y protestas nublan las inversiones en los países de América Latina

GESTIÓN

Lunes, 23 de abril del 2012

Los inversores podrían buscar nuevos destinos para su dinero, según análisis de Reuters. Perú y Chile, considerados amigables con la inversión extranjera, mo escapan de estos problemas.

El intento de privatización de YPF en Argentina podría asustar a los inversores en ese país. (Foto: Reuters)
El intento de privatización de YPF en Argentina podría asustar a los inversores en ese país. (Foto: Reuters)

México DF (Reuters).- Cuando Argentina rompió las reglas de juego y ordenó la expropiación de la mayor petrolera del país, dejó al desnudo un camino que se pone cada vez más cuesta arriba para los inversores en algunas zonas de América Latina.

Nacionalizaciones a mansalva en Venezuela, rescisiones de proyectos de infraestructura en Bolivia, pleitos por contratos en Ecuador y protestas sociales que paralizan planes mineros en Perú dibujan un complejo panorama regional.

Argentina ya atemorizaba al capital extranjero con sus políticas intervencionistas, como las trabas a las importaciones y un heterodoxo control de cambios cuando aún los mercados tienen fresco la cesación de pagos por más de 100,000 millones de dólares del 2001-2002.

Dos décadas después de que Argentina privatizara desde servicios públicos hasta su aerolínea, la presidenta Cristina Fernández terminó de poner los pelos de punta de los inversores la semana pasada con el anuncio de que expropiará la filial de la española Repsol-YPF .

“Yo creo que genera un retroceso en una región que avanzó resueltamente las últimas décadas hacia a una integración a nivel mundial siendo muy respetuosa de la inversión y el capital extranjero”, dijo Pablo Longueira, ministro chileno de Economía, durante una reunión ministerial del G20 en Puerto Vallarta.

América Latina, con un crecimiento económico mucho mayor al del mundo desarrollado y el sostenido consumo de una creciente clase media, se convirtió en la última década en uno de los destinos favoritos para los inversionistas, después de superar años de crisis económicas e institucionales recurrentes.

Pero al patear el tablero, Argentina mostró que los inversores que buscan apostar en la región pero quieren dormir tranquilos tienen solo un puñado de opciones disponibles, lo que podría llevarlos a buscar nuevos horizontes .

“Con este tipo de medidas si bien es cierto que va a haber una reestructuración (de las inversiones) al interior de la región (…), también es cierto que puede beneficiar a otros países emergentes, específicamente a los asiáticos”, dijo Alfredo Coutiño, economista jefe para América Latina de Moody’s.com.

Algunos creen incluso que el capital extranjero podría temer que la actitud de Argentina comience a contagiar a otros vecinos generando un efecto dominó en una región dividida ideológicamente entre mandatarios de izquierda y conservadores.

Argentina justificó la medida en que necesita recuperar su autoabastecimiento de hidrocarburos porque las importaciones de combustible han lastimado su superávit comercial y Repsol-YPF no escuchó su demanda por más inversiones para incrementar la producción.

“El problema es que muchos inversores internacionales pueden pensar que lo que ha hecho el Gobierno de Argentina pueden adoptarlo otros gobiernos latinoamericanos en el futuro. Y esto va a ser un factor de disuasión de la inversión internacional en América Latina”, dijo el secretario de Estado de Comercio español, Jaime García-Legaz, en Puerto Vallarta.

Pero la realidad no es tan simple como eso. Latinoamérica tiene dos caras.

Las dos Latinoaméricas
La región quedó dividida entre los países que tienden la alfombra roja a la inversión extranjera directa y los que son más proteccionistas.

Venezuela lidera el último grupo junto con sus aliados Bolivia, Ecuador y la ahora fustigada Argentina. Del otro lado del paisaje se alinean México, Brasil, Chile, Colombia y Perú.

Desde que asumió el poder en 1999, el presidente venezolano Hugo Chávez ha nacionalizado vastos sectores del país, como las empresas de cemento internacionales Lafarge o Cemex, multimillonarios proyectos petroleros y hasta supermercados y frigoríficos.

Bolivia anunció hace menos de dos semanas la rescisión de un contrato con la empresa brasileña OAS para construir una carretera en la selva amazónica por supuesto incumplimiento de la compañía, en medio de protestas de grupos de indígenas.

Ya otra empresa de Brasil que construía una carretera troncal ya se había marchado del país sin concluir la obra.

En Ecuador, las condiciones impuestas por el presidente Rafael Correa -un aliado de Chávez y del mandatario boliviano Evo Morales- llevaron a la petrolera brasileña Petrobras y a la francesa Perenco a abandonar sus operaciones en el país andino.

“Los puestos de trabajo requieren inversión, no obtienes nuevos trabajos sin inversión asociada”, dijo el ministro de Comercio de Nueva Zelanda, Tim Groser, en Puerto Vallarta. “Y si la gente quiere poner su dinero, quieren asegurarse que hay un marco estable para ellos durante un número de años”, agregó.

Incluso en Perú y Chile, considerados amigables con la inversión extranjera, han surgido problemas.

Perú lucha por conciliar los intereses de las grandes empresas extranjeras con las protestas sociales por la explotación de recursos, que han dejado en pausa a Minas Conga, el mayor proyecto minero en la historia peruana.

En otro dolor de cabeza para el Gobierno, unos 36 operarios de la firma sueca Skanska y de la peruana Ramsa que trabajaban en un campo de gas natural fueron secuestrados por la guerrilla Sendero Luminoso en una localidad remota de Cusco, para ser liberados sanos y salvos después de cinco días.

En Chile, en tanto, un pueblo de artesanos y pescadores frenó la construcción de la mayor termoeléctrica de Sudamérica, un plan del millonario brasileño Eike Batista, por temores de daños al medioambiente.

Pero cuando llegan los grandes anuncios de inversiones quedan al desnudo las diferencias.

Volkswagen anunció esta semana que construirá una planta en México para ensamblar camionetas deportivas de su marca de lujo Audi a partir del 2016, con una inversión calculada en poco menos de 2,000 millones de dólares según el Gobierno.

En un intento por dejar en claro las diferencias dentro de la región -y retener las inversiones- algunos mandatarios de los países más abiertos no tuvieron pelos en la lengua para criticar la medida, aunque en sus propias naciones el sector petrolero está controlado por el Estado.

El presidente colombiano, Juan Manuel Santos, se apuró a aclarar que su país continuará respetando las reglas del juego para los inversores y no expropiará ningún activo, al igual que lo hizo el ministro de Economía de Perú, Luis Castilla, durante un evento con inversores en Londres.

Y el mexicano Felipe Calderon, que recientemente apostó a elevar su exposición en Argentina al doblar la participación de la petrolera estatal Pemex en Repsol, no pudo ser más directo.

“Nadie en sus cinco sentidos invierte en un país que expropia las inversiones, es una cuestión de comportamiento racional”, dijo el mexicano Felipe Calderón la semana pasada en referencia a la medida de Argentina.

23/04/2012 - 14:00h Argentina: El Gobierno acelera gestiones con las petroleras para que inviertan

Esta semana habrá reuniones con Exxon, Chevron y Conoco, entre otras firmas.

Clarín

Los interventores de YPF, el ministro de Planificación Julio De Vido y el viceministro de Economía Axel Kicillof, encabezarán desde la mañana de hoy reuniones con representantes de empresas petroleras. En su doble calidad de funcionarios y ahora gerentes de la principal petrolera del país, De Vido y Kicillof buscarán sumar a otras compañías como inversoras en proyectos de YPF o, como manifestó un comunicado de YPF que difundió ayer Télam, a “generar nuevas inversiones que permitan incrementar la producción de gas y petróleo”.

Los encuentros tendrán lugar apenas horas antes de que el Senado trate de convertir en ley, pasado mañana, el proyecto de expropiación del 51% de las acciones de YPF, que prevé que sean tomadas exclusivamente del 57,4% que actualmente están en poder de la española Repsol. Ni las acciones en poder de la familia Eskenazi (grupo Petersen) ni las que están en manos de inversores bursátiles (sobre todo de EEUU) forman parte de las acciones a expropiar.

La primera entrevista será a las 10, con la petrolera local Medanito, propiedad de las familias Grimaldi y Carosio, con presencia en explotaciones gasíferas y petroleras en la cuenca neuquina y un flamante contrato de asociación con otra empresa energética, la estadounidense EOG Resources, especializada en la explotación de recursos no convencionales, tales como los que Repsol YPF anunció haber descubierto el año pasado en la formación Vaca Muerta.

Apenas una hora más tarde, está agendado un encuentro con ejecutivos de ConocoPhillips, la tercera petrolera más grande de Estados Unidos. A las 17.30 recibirán a autoridades de otra empresa estadounidense, la californiana Chevron (ex-Standard Oil, de la familia Rockefeller). La otra gran petrolera de Estados Unidos, Exxon, también está agendada para mañana a las 11. La semana próxima, De Vido y Kicillof tienen previsto recibir ejecutivos de la petrolera Talismán, una compañía canadiense basada en Calgary, que hasta 1992 formaba parte de British Petrolleum.

La semana pasada, antes de viajar hacia Brasil, De Vido se había reunido con el vicepresidente de Exploración y Explotación de las Américas de la petrolera francesa Total, Ladislas Paszkiewicz.

“Esta ronda de reuniones se realiza en el marco del proyecto que recupera el control de la empresa YPF y está orientada a ampliar el nivel de inversiones, con la vista puesta en lo que será la administración de la nueva gestión”, agregó el comunicado de YPF.

De Vido estuvo el viernes en Brasila. En su nuevo doble rol de ministro y empresario, se reunió primero con su par brasileño de brasileño de Minas y Energía, Edison Lobao y luego con la presidente de Petrobras, María das Gracas Foster. “El desafío que tienen esta nueva YPF y Petrobras es el de trabajar en conjunto, en negocios conjuntos y finanzas conjuntas”. Cabe aclarar que ambas petroleras tienen contratos conjuntos de exploración en la cuenca marítima argentina.

22/04/2012 - 14:01h Mayoría de argentinos apoya expropiación de la petrolera YPF

Domingo, 22 de Abril 2012

RPP

Mayoría de argentinos apoya expropiación de la petrolera YPF

AFP

Dos encuestas publicadas hoy por medios argentinos dan cuenta del amplio apoyo de los argentinos a la decisión de Cristina Fernández.

Europa castiga a Argentina| EFE

Una amplia mayoría de los argentinos respalda la decisión del Gobierno de la presidenta Cristina Fernández de expropiar el 51 por ciento de las acciones de la petrolera YPF al grupo español Repsol, según dos encuestas que publica hoy la prensa local.

De acuerdo con el sondeo elaborado por el Centro de Estudios de Opinión Pública (CEOP), el 74 por ciento de los argentinos está de acuerdo con la decisión gubernamental.

Entre el 67,1 por ciento de los ciudadanos que dijo conocer los motivos de la expropiación, el 35,2 por ciento opinó que Repsol no hizo las inversiones necesarias y el 33 por ciento consideró que el Estado debe controlar los recursos nacionales estratégicos.

El sondeo, que publica el diario Página/12, afín al Gobierno, reveló que más del 60 por ciento de los argentinos cree que, en manos del Estado, la empresa “se va a administrar bien”, mientras que el 60,9 por ciento valoró “negativamente” la gestión de Repsol.

Otros datos de la encuesta reflejan que menos de un 3 por ciento cree que YPF debe estar en manos privadas, un 23 por ciento considera que podría ser administrada por capitales privados argentinos y el 70 por ciento piensa que la petrolera tiene que ser manejada por el Estado.

El diario La Nación, enfrentado con el Gobierno de Fernández, publica por su parte una encuesta de Poliarquía según la cual el 62 por ciento de los argentinos apoya la decisión del Ejecutivo y el 31 por ciento está en desacuerdo.

Sin embargo, el 44 por ciento de los sondeados, residentes en ciudades del país, responsabiliza a la administración nacional de la crisis petrolera.

También la opiniones están divididas sobre las repercusiones de la medida en la economía del país, porque un 49 por ciento consideran que tendrá un impacto positivo a en la economía frente al 47 por ciento que vaticina que será negativa para la imagen de Argentina en el resto del mundo.

El Senado argentino debatirá el miércoles próximo una ley que dispone la expropiación del 51 por ciento de las acciones Clase D de la petrolera en manos de Repsol, dueña de un paquete total del 57,43 por ciento, y también de tenencias de la empresa española en su controlada YPF Gas.

Se calcula que el jueves la iniciativa ya comenzará a ser debatida en la Cámara de Diputados.

EFE

20/04/2012 - 12:12h Gracias

Guillermo Giacosa – Perú 21

Viernes 20 de abril del 2012

Gracias, prensa libre. Me han sacado un enorme peso de encima.

Guillermo Giacosa,Opina.21
ggiacosa@peru21.com

Yo, que miraba aterrado el futuro, me he liberado de esa angustia al enterarme de que, de los problemas actuales, el único que merece ocuparse a fondo de él, y el que realmente amenaza el futuro del sentido común, es el vinculado a la expropiación de las acciones que Repsol tenía en YPF, decisión tomada por el Ejecutivo argentino.

Yo, que estaba preocupado porque Grecia se hubiese convertido de hecho en un protectorado, porque España rompa récords de desocupación, por la situación calamitosa que viven italianos, portugueses e irlandeses, por los resultados dramáticos que, según el Nobel Stiglitz, tendrán las medidas que aplica la Unión Europea para salir de la crisis, por las nuevas burbujas que estallarán según otros economistas, por las guerras en marcha y por las nuevas amenazas a la paz, etc. Todo eso no tiene nada que ver con un sistema que, admitámoslo, depredando ‘un poquito’ la naturaleza ha logrado enriquecer a un número de personas cuya felicidad no podemos compartir pero cuyo éxito admiramos.

Gracias a quienes me aliviaron la carga de pensar tan erradamente. Muchos de los que merecen mi agradecimiento opinaron en su momento a favor de la guerra contra Irak, de la invasión a Afganistán, de las amenazas a Irán y, a veces, no tienen tiempo de recordar a los presos de Guantánamo, las torturas de Abu Ghraib, los bombardeos sobre niños, etc. Acá, lo grave es que Argentina haya recuperado la petrolera estatal para su país con lo bien que le iba importando U$9,000 millones de dólares de petróleo al año. Gracias.

19/04/2012 - 09:02h Espanha ameaça guerra comercial com Argentina, mas faltam opções

Sem muitas opções, Madri tem pressionado seus pares na União Europeia (UE) a retaliar e ameaça cortar importações de soja e biocombustíveis

VALOR

A Espanha ameaça promover uma guerra comercial contra a Argentina após a estatização dos 51% das ações da YPF que estavam nas mãos da espanhola Repsol. Mas analistas dizem que isso poderia ser mais prejudicial para empresas europeias, incluindo espanholas, com interesses no país. Sem muitas opções, Madri tem pressionado a União Europeia (UE) a retaliar.

A cúpula do governo espanhol tem reunião marcada para amanhã para decidir que tipo de resposta pode ser dada à expropriação anunciada nesta semana pela presidente argentina Cristina Kirchner. O ministro da Indústria, José Manuel Soria, afirmou as medidas podem atingir o comércio e o setor energético.

Ontem, o porta-voz do Partido Popular (PP, governista) para assuntos exteriores, José María Beneyto, disse que a Espanha pode deixar de comprar soja e biocombustíveis da Argentina.

“O governo está vendo exatamente que consequências terão esse tipo de represálias comerciais e o que se pode fazer”, disse ele. “Já foi anunciada a possibilidade de que as importações importantes para a Argentina, como soja e bioetanol, sejam eliminadas, além de uma série de outras medidas.”

Em entrevista ao jornal “Financial Times”, o diretor do Centro Europeu para Economia Política Internacional, Fredrik Erixon, disse que quem tem mais a perder com uma guerra comercial seriam as empresas europeias. “Se a Europa adotar medidas de retaliação, quem vai perder mais são os importadores europeus de produtos argentinos”, afirmou. “Isso seria um tiro no próprio pé.”

A Espanha é o maior investidor estrangeiro na Argentina, à frente dos Estados Unidos. O investimento direto espanhol atingiu US$ 23,2 bilhões em 2010, ou 26,3% do total na Argentina. Os americanos ficam com uma fatia de 16,8%, segundo o Banco Central argentino.

O comércio bilateral também é favorável à Argentina, e não parou de crescer desde que Cristina Kirchner assumiu a Presidência, em 2007. Em 2011, no auge de sua crise da dívida, a Espanha importou US$ 2,745 bilhões em produtos argentinos. Isso representa mais que o dobro de suas exportações para o país sul-americano, que chegaram a US$ 1,313 bilhão.

Apesar do saldo amplamente favorável à Argentina, o país é sul-americano é responsável por apenas 0,8% das exportações totais da Espanha. Isso, em tese, dá margem de manobra a Madri para promover sanções sem prejudicar sua balança comercial.

Do lado argentino, apesar de a Espanha assimilar apenas uma pequena fração de suas exportações totais (US$ 86 bilhões em 2011), o país europeu é importante para compor o superávit comercial desejado pelo governo. Em 2011, o superávit com a Espanha somou US$ 1,42 bilhão, enquanto o saldo total da balança argentina ficou positivo em US$ 10,3 bilhões.

Ontem, a agência de risco Moody’s anunciou ter colocado a nota da Repsol em revisão, para possível rebaixamento, medida que a Fitch já havia anunciado anteontem. Isso se deve à perda de ativos e receita da filial argentina da Repsol.

19/04/2012 - 08:24h Brasil destaca diálogo com Argentina e minimiza os riscos para Petrobras

VALOR

O governo brasileiro conta com os mecanismos de cooperação e diálogo na área de energia para evitar danos aos interesses da Petrobras na Argentina; e há expectativas na diplomacia brasileira de que o governo argentino possa até ampliar oportunidades de atuação da empresa no país vizinho, apurou o Valor.

Na sexta-feira, como informou o Valor, o ministro de Minas e Energia, Édson Lobão, e a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, terão reunião com o ministro do Planejamento argentino, Júlio De Vido, marcada antes do anúncio de tomada das ações da espanhola Repsol na YPF.

O próprio de Vido havia anunciado a reunião, na semana passada, após reunião com executivos da Petrobras em que, segundo o ministério, foram discutidos “projetos de desenvolvimento” no setor de petróleo e gás. Em comunicado oficial, o ministro argentino previu a discussão de projetos de investimento com a Petrobras nessa próxima reunião de sexta-feira.

O governo brasileiro e a Petrobras querem, porém, explicações sobre a decisão do governo da Província de Neuquén, no sudoeste argentino, de retirar da empresa brasileira a concessão do campo de Veta Escondida, sob argumento de que não teria havido investimentos ou produção suficientes.

A “parceria” entre Brasil e Argentina no setor de energia vai além de petróleo e gás, e há projetos conjuntos em biocombustível, energia nuclear e hidreletricidade. O Brasil já garantiu a Argentina contra apagões, com “empréstimos” de energia no passado; essa relação é apontada no governo brasileiro como razão para que não haja muita preocupação com riscos de intervenção governamental da Argentina na Petrobras.

O ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, encarregado das conversas sobre o assunto com os argentinos, viajou recentemente ao país vizinho para discutir um dos empreendimentos conjuntos no setor energético, as hidrelétricas binacionais Garabi e Panambi, que terão 2.200 megawatts, e serão construídos pela brasileira Eletrobras e a argentina Emprendimientos Energéticos Binacionales S.A. (Ebisa) a um custo estimado oficiosamente em US$ 4 bilhões. Após a nomeação de Maria das Graças Foster para a Petrobras, o governo argentino tomou a inciativa de pedir uma reunião com ela, mostrando interesse em ampliar a atuação da empresa no país.

“Acompanharemos de perto o desenvolvimento dessa história”, disse o ministro de Relações Exteriores, Antônio Patriota, lembrando a reunião com De Vido, ao ser questionado sobre riscos à Petrobras. “As relações com a Europa são excelentes”, afirmou, ao comentar se o conflito em torno da nacionalização forçada da YPF não afetaria as relações do Mercosul com a União Europeia. Patriota confundiu-se, porém, ao informar que seria hoje a reunião com de Vido, em Brasília, marcada para amanhã.

O ministro de Relações Exteriores do Chile, Alfredo Moreno, que reuniu-se ontem com Patriota, também minimizou as consequências, para a região, da crise gerada pela decisão Argentina com governos e investidores europeus.

Após informar que iria à Espanha em seguida à viagem ao Brasil, Moreno disse que não comentaria a decisão do governo argentino, mas afirmou que o Chile defende respeito “às leis, o estado de Direito, as regras e normas internacionais”. O Chile presidirá a próxima reunião de cúpula dos países da América Latina e uma reunião paralela, dos latino-americanos, com a União Europeia, em janeiro.

O governo brasileiro fez um estudo do projeto de lei que determinou a nacionalização da YPF e avalia que o impacto sobre os interesses do Brasil e da Petrobras dependerá da maneira como o governo argentino exercerá os poderes a serem conferidos pelo Congresso ao Executivo. O alcance da lei, as intenções em relação à Petrobras e as medidas para garantir a atuação da empresa em Neuquén fazem parte da reunião de amanhã, em Brasília.