24/07/2009 - 11:30h Existe uma Nova Luz para a cracolândia?

ANÁLISE

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LÚCIO GOMES MACHADO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Não há como não se chocar com a degradação urbana e humana da cracolândia. Relativamente poucas pessoas frequentam a região, além dos moradores tradicionais (sim, há muita gente que procura morar dignamente em Santa Efigênia), dos lojistas e de seus clientes do vibrante setor de eletrônicos.
A pergunta óbvia: como o primeiro bairro planejado de São Paulo, com enorme quantidade de testemunhos arquitetônicos de sua antiga pujança, pode chegar a esse ponto?
São Paulo ficou décadas sem Plano Diretor e, o que é pior, sem qualquer esforço de planejamento sistemático. Não houve esforços para gerir a cidade com a técnica e a cultura correspondentes ao nosso desafio metropolitano: quase 20 milhões de habitantes, 80 km de urbanização contínua de leste a oeste!
Ao longo do século 20, a economia transformou-se drasticamente, mas a cidade não se preparou para dar o correspondente suporte. Por omissão ou por ação, tanto do Poder Executivo quanto do Legislativo, o crescimento da cidade foi deixado nas mãos do “mercado”.
Diferentemente do que se propala, a degradação urbana não foi causada só pelo transporte individual, incentivado por decisões macroeconômicas de industrialização a qualquer custo, com o automóvel como protagonista. Mais decisivos foram a verticalização descontrolada e o incentivo à obsolescência acelerada do espaço urbano organizado, em busca de novas áreas com baixo custo para incorporação imobiliária.
Em menos de seis décadas, as atividades mais sofisticadas saíram do centro histórico para novos centros em torno da marginal Pinheiros, passando por República, Paulista, Faria Lima, Berrini e Socorro.
A cada novo horizonte, uma área urbanizada e parcialmente edificada era abandonada e era glorificada uma nova Meca imobiliária. Nada mais compreensível que o primeiro bairro implantado fora do centro histórico tenha se tornado o mais notável exemplo de degradação. Como nos outros casos, não se olhou para trás. Abandonado, o espaço foi ocupado pelos excluídos da vida urbana.
Encontra-se em fase de consulta pública um edital para contratação de um grande projeto urbanístico, pela prefeitura, para a região. Trata-se de um passo importante, mas que nasce viciado pela cultura neo-colononizada dos administradores que acreditam existir know-how de ponta somente nos países “desenvolvidos”.
De fato, embora tendo tido poucas reais oportunidades, é no Brasil que estão os urbanistas com experiência em enfrentar problemas na escala de dezenas de milhões de habitantes e com a diversidade cultural característica de São Paulo.
Pode haver uma Nova Luz.

Professor da FAU-USP e coordenador do Plano Diretor da Subprefeitura da Lapa (2003-04)

17/05/2009 - 15:20h Bauhaus

Exposições e livros discutem legado da escola de arquitetura e design mais influente do século 20, fundada na Alemanha há 90 anos por Walter Gropius

Reprodução do livro BAUHAUS, Judith Carmel-Arthur, Cosac Naify, 2001
Walter Gropius, edifício da Bauhaus, em Dessau, de 1925 a 1926

Reprodução do livro BAUHAUS, Judith Carmel-Arthur, Cosac Naify, 2001
A poltrona Wassily, de 1925, feita em tubos de aço cromado; cadeira de autoria de Marcel Breuer, feita em homenagem ao pintor russo e professor da Bauhaus, Wassily Kandinsky

Antonio Gonçalves Filho – O Estado SP

Por mais que o irrequieto jornalista e escritor norte-americano Tom Wolfe, criador do termo “radical chique”, fale mal da Bauhaus, a histórica escola alemã de arquitetura e design acaba de completar 90 anos ainda jovem e celebrada com lançamentos de livros e exposições nos principais museus do planeta – do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York (Bauhaus 1919-1933: Workshops for Modernity, a partir de 8 de novembro) ao museu da Universidade de Artes de Tóquio (Bauhaus Experience, em cartaz até julho). Tom Wolfe é autor do polêmico livro sobre a escola criada por Walter Gropius, Da Bauhaus ao Nosso Caos (Rocco), em que lhe atribui a culpa pelos desastres arquitetônicos do mundo moderno.

Wolfe insiste que a escola alemã foi a responsável pela uniformização arquitetônica que fez das metrópoles americanas e asiáticas enfadonhas réplicas do modelo europeu bauhausiano. Segundo ele, por causa do primeiro mandamento da Bauhaus – “forma segue a função” -, toda a ornamentação externa dos edifícios desapareceu. Como consequência, diz, o chamado “estilo internacional”, funcionalista, só pode ser apreciado por arquitetos, e não pelos operários que constroem esses prédios, contrariando a filosofia da escola de Gropius, que pregou a democratização e o acesso do bom design a todas as categorias sociais, até ser fechada pelos nazistas em 1933, acusada de ser um antro de comunistas.

De certo modo, o livro que acaba de ser lançado no Brasil sobre a escola, ABC da Bauhaus, organizado pelos designers Ellen Lupton e J. Abbott Miller (Cosac Naify, tradução de André Stolarski, 72 págs., R$ 55), é igualmente crítico quanto ao legado da instituição, mas, ao contrário de Wolfe, seus autores estão interessados em investigar os princípios teóricos que fizeram os professores de lá – artistas como Kandinski, Paul Klee, Albers e arquitetos como Mies van der Rohe – criarem a noção de linguagem visual.

A obra parte de uma pesquisa feita por Kandinski dentro da Bauhaus, em 1923. Com ela, o pintor russo criou uma gramática visual poderosa e menos ambígua que a verbal, reduzindo a sintaxe a três figuras geométricas – um triângulo, um quadrado e um círculo – e às cores primárias. O triângulo amarelo seria o elemento dinâmico, o quadrado vermelho representaria o estático e o círculo azul seria um signo da serenidade. Foi com essa gramática que muitos artistas construíram sua obra – e até hoje formulam novas propostas visuais.

Reprodução do livro BAUHAUS, Judith Carmel-Arthur, Cosac Naify, 2001
Folha de rosto de Staatliches Bauhaus Weimar (1919-1923); desenho de László Moholy-Nagy, de 1923

 

A herança da Bauhaus é discutida também em outros livros programados para este ano: Bauhaus Women, de Ulrike Müller, sai em outubro pela Random House, que lança no mesmo mês The Bauhaus Group, de Nicholas Fox Weber. Bauhaus Women será a primeira monografia a tocar num ponto nevrálgico, a participação das mulheres na elaboração da linguagem visual, mostrando que foram vistas como uma “ameaça” pelos mestres da escola, a ponto de ser criado na Bauhaus um departamento só para elas, de onde saíram grandes designers como Anni Albers. A mulher do pintor Josef Albers foi amiga de Nicholas Fox Weber, que traça em sua obra o retrato íntimo de seis dos principais criadores envolvidos com o ensino na instituição – Paul Klee, Kandinski, Mies van der Rohe, Gropius e o próprio casal Albers.

A respeito das mulheres da escola alemã, a organizadora do livro ABC da Bauhaus, Ellen Lupton, em conversa telefônica com o Estado (leia texto na próxima página), observa que, se não foram exatamente discriminadas, elas tampouco chegaram a ter alguma projeção como arquitetas. Essa é uma questão importante quando se considera que a lendária Bauhaus, inicialmente projetada como uma escola de arte, virou a Meca da arquitetura moderna quando Gropius lançou, em abril de 1919, seu primeiro manifesto. Nele, o arquiteto define sua principal meta: criar uma escola sem distinção de classe social ou barreiras entre artesãos e artistas. Evoque-se que seu panfleto é lançado um ano depois do fim da 1ª Guerra, pretendendo anunciar uma nova era, condizente com a industrialização e produção de massa. Gropius sonhou com uma escola pluralista, em que a unidade arquitetônica seria atingida graças a mestres de várias disciplinas. Parecia utópico, mas a história provou o contrário.

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O eterno fascínio da velha escola

Freud e Lacan usaram linguagem visual dos modernos alemães e até a física bebeu nessa fonte

Antonio Gonçalves Filho – O Estado SP

A Bauhaus sobreviveu não apenas como uma histórica escola de arquitetura e design, mas um movimento artístico independente, que deixou frutos em toda parte – e isso tanto por seu purismo estético como pela força que involuntariamente os conservadores deram a ela, expulsando as melhores cabeças da Alemanha e obrigando-as a buscar asilo nos Estados Unidos, após a ascensão de Hitler. O livro ABC da Bauhaus, organizado por Ellen Lupton e J. Abott Miller, reúne textos de especialistas que tratam justamente de episódios nebulosos da escola de Gropius, sobretudo a incômoda conexão entre o apelo à ordem feito pela Bauhaus e a evocação do caráter mítico germânico pelo Terceiro Reich, que perseguiu e fechou a instituição.

Esse é um dos capítulos mais polêmicos do livro agora lançado, na realidade mais uma obra referencial sobre a teoria e a atividade pedagógica da Bauhaus do que propriamente um ensaio político. Designer, Tori Egherman se encarrega de traçar na obra um panorama da República de Weimar à época da fundação da Bauhaus, mostrando como um país em estado de desintegração moral e ética como a Alemanha, que evocou o espírito germânico para incendiar a massa, viu nascer uma escola capaz de produzir um estilo internacional de arquitetura. E foi justamente esse feito de Gropius, o de afirmar o poder político e moral da arquitetura – capaz de definir condições de vida de uma sociedade -, que fez de sua escola uma instituição revolucionária e ameaçadora.

A organizadora do livro, Ellen Lupton, em conversa com o Estado, diz que selecionou o texto não com o propósito de provocar controvérsia, como a obra de Tom Wolfe a respeito da escola, sobre o qual não tem opinião favorável. “Ele despreza o impacto provocado pela emergência da Bauhaus num mundo em ruínas, após a 1ª Guerra, e minimiza a modernidade que ela levou a outros continentes com a subsequente emigração de ex-alunos e professores da escola”, diz, lembrando que conceitos como funcionalidade e artista-artesão eram impensáveis no começo do século passado. Além disso, a influência da “nova Bauhaus” fundada por Moholy-Nagy em Chicago, no ano de 1937, ou as atividades de Gropius, Albers e Mies van der Rohe nos EUA, ajudaram a criar uma outra mentalidade artística entre os americanos, levados a deglutir a obra dos abstratos de forma menos traumática.

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Tom Wolfe, ao contrário, acha que a modernidade arquitetônica da Bauhaus foi uma praga que se alastrou pelas cidades dos Estados Unidos e contaminou o senso estético americano com o “dicionário visual” criado por Kandinski e outros artistas europeus defensores da abstração – geométrica ou não. A designer Ellen Lupton, a esse respeito, diz que a Bauhaus não só teve de conviver no passado com uma comunidade hostil como tem de suportar, no presente, conservadores como Wolfe, avessos à ideia de que a escola é a origem mítica do modernismo. A Bauhaus foi, defende a designer, um lugar onde se reuniram diversas vertentes da vanguarda europeia para explorar uma “linguagem da visão”, e não para dominar o mundo. “A reação contra os mandamentos estéticos da Bauhaus é mais ou menos uma resposta ao pai que censura a criança transgressora, que quer se expressar com autonomia”, analisa a autora. Ela classifica Wolfe de “injusto” por não reconhecer o quanto essa linguagem abriu caminho para ferramentas como a internet, “impensável se os pioneiros da Bauhaus não tivessem abolido as fronteiras das expressões artísticas e promovido a interconexão entre a escrita visual e verbal”.

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A escola alemã deu ao mundo tanto torres como a da Seagram de Nova York, assinada em 1954 por Mies van der Rohe, como ensinou o mundo a ver de novo com olhos de criança-artista – e, nesse aspecto particular, o texto do teórico Abbott Miller sobre a influência do movimento alemão do Jardim da Infância (Kindergarten) é um dos pontos altos de ABC da Bauhaus. A linguagem visual de formas elementares e cores básicas que seria adotada pela escola já estava em teste nos reformistas “jardins” da infância alemães no século 19, que se espalharam pela América e países asiáticos, fazendo com que artistas se sentissem liberados para recorrer à criança e acessar uma janela para a infância da arte – o que fica transparente tanto nas pinturas “infantis” de Paul Klee como nas obras de Kokoschka.

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Ellen Lupton diz mais: ela submeteu o teste de Kandinski sobre as formas geométricas elementares e cores primárias a historiadores, teóricos e escritores. Os resultados foram inesperados. Antes de todos esses, Freud, assumidamente pouco capaz de visualizar relações espaciais, elegeu o triângulo bauhausiano para desenvolver um gráfico do sujeito psicanalítico. Já a escritora Frances Butler escolheu essa forma geométrica “porque o triângulo é a forma mais pontuda, menos volumosa e mais leve e o círculo é o centro na cultura ocidental, a vitalidade sangrenta”. A conjunção entre psicanálise e geometria não era exatamente impensável quando Kandinski aplicou o teste. Freud elegeu o triângulo como o “edípico”, condição básica da sexualidade humana, porque na base estão o pai e a mãe e no topo do triângulo domina a criança na posição masculina, podendo trocar de lugar com os pais. Frances Butler apenas confirmou Freud. E o que seria do estruturalismo de Lacan sem a figura do triângulo bauhausiano?

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Pintura de Kandinsky 

 

Nem mesmo o fundador da Bauhaus, Walter Gropius, ou seus primeiros professores seriam capazes de prever que a escola viria a se tornar objeto de fascínio entre tantos profissionais distantes da arquitetura, da pintura, do desenho e do design. “Hoje, os médicos usam os mesmos princípios para desenhar diagramas de identidade cerebral”, lembra a autora de ABC da Bauhaus, enfatizando a necessidade de valorizar o legado da escola alemã. “Gropius previu uma nova era com o fim da 1ª Guerra e queria que um novo estilo arquitetônico fosse o espelho desse novo tempo, defendendo sobretudo a funcionalidade e a economia de meios, tudo o que precisamos também agora nesta época de crise econômica, marcada pelo individualismo.”

A linguagem “universal” da visão bauhausiana, resumida a três figuras geométricas e três cores primárias, diz ela, já levou físicos como Alan Wolf a imaginar como seria viver em um espaço com mais ou menos de três dimensões e a considerar, segundo Ellen Lupton, a estrutura fractal do mundo. Se isso não serve para atestar a importância da escola, é só abrir a janela e imaginar um planeta sem a poltrona Wassily de Marcel Breuer. Conseguiu?


Estante

Além do livro ABC da Bauhaus, lançado pela Cosac Naify, as estantes das livrarias têm alguns bons títulos sobre a escola de arquitetura e design alemã que ajudam a entender seus princípios e história. A Taschen, por exemplo, publicou no Brasil o livro Bauhaus, de Magdalena Droste. Na mesma linha, pode-se citar Bauhaus, de Judith Carmel-Arthur, lançado há algum tempo pela Cosac Naify. O livro Bauhaus: Nova Arquitetura (Perspectiva) é um estudo assinado por seu fundador. Gropius é analisado com muita propriedade pelo historiador e crítico italiano Giulio Carlo Argan em Walter Gropius e a Bauhaus, editado pela José Olympio e até hoje, passados 58 anos de sua publicação, o mais respeitado trabalho sobre o criador da escola. Gropius é objeto de um outro livro, Bauhaus, Dessau – Walter Gropius, escrito por Dennis Sharp e lançado pela Phaidon Press. Outra boa indicação é Bauhaus Ideal – Then and Now, de William Smock, publicado pela Academy Chicago Publishers.

07/12/2008 - 16:16h Cracolândia com sotaque suíço

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Carta Capital nº 525, 11 de dezembro de 2008 – Coluna Estilo

O baile-solo do cardeal Serra

Pelo preço de seis Aerolulas, ou seja, em torno de 300 milhões de reais, o presidente eleito José Serra decidiu – com o beneplácito da mídia amiguinha – entregar, sem concorrência e sem barulho, o projeto da futura São Paulo Companhia de Dança à consagrada dupla de arquitetos suíços Herzog & De Meuron, Prêmio Pritzker de Arquitetura de 2001.

O projeto visa dar certa graça urbanística, bem defronte da já bem-sucedida Sala São Paulo, na Estação Júlio Prestes, aquele horror que foi a velha rodoviária do Dr. Octávio Frias, ex-dono da também nada fotogênica Folha de S. Paulo. A imprensa se omite, claro, mas a discussão prossegue, nas mídias alternativas, entre arquitetos intrigados, primeiro, com o valor da obra e, depois, com a secreta opção pelos suíços.

Tudo bem que Herzog & De Meuron estão surfando na onda, depois de terem colhido bilhões de olhares com o impactante Estádio Olímpico de Pequim – o Ninho de Pássaro. É deles também o Allianz Stadium de Munique, de triste memória para os brasileiros (lá, o timinho canarinho foi desclassificado pela França na Copa de 2006).

Não é o caso de se propor reserva de mercado para arquiteto nativo. Mas a turma do camarote, sempre tão ansiosa em discutir até os gastos com o Fome Zero e com um avião presidencial que não pretende cair, talvez merecesse saber se o custo de uma escola de dança é esse mesmo, se vem a ser uma prioridade dramática para a cidade e para o Estado e se a escolha vai além de um mero capricho pessoal.

A São Paulo do privilégio não quer nem saber: vai de olhos fechados com o cardeal Mazarino, perdão, com José Serra. Despesas contraídas pelo presidente eleito são investimentos no futuro. Desse outro Presidente da República em exercício desde 2002, contas a pagar configuram sempre uma gastança inútil.

06/12/2008 - 10:40h Urbanistas debatem soluções ao lado do crack

Na Sala SP, estrangeiros relatam boas experiências em suas cidades

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Palestras acontecem na Sala São Paulo e reúnem                 gente do mundo todo (Foto: Carolina Iskandarian / G1)
Palestras acontecem na Sala São Paulo e reúnem gente do mundo todo (Foto: Carolina Iskandarian / G1)

Bruno Tavares e Evelson de Freitas – O Estado de SP

Do lado de dentro da Sala São Paulo, alguns dos mais renomados arquitetos do planeta discutiam propostas para tornar as metrópoles mais aprazíveis. Lá fora, numa das regiões mais degradadas da capital, mais de uma centena de homens e mulheres deitados na sarjeta consumiam crack à luz do dia. As cenas antagônicas ocorreram simultaneamente, na tarde de ontem, durante o segundo e último dia do Urban Age – conferência internacional sobre urbanismo promovida pela London School of Economics e pelo Deutsche Bank. Tão irônico quanto ver aqueles dois mundos distintos, separados apenas por um muro, era ouvir de palestrantes estrangeiros como seus países conseguiram, em poucos anos, reverter situações idênticas.

Exemplos não faltaram. A diretora do Departamento de Planejamento de Nova York, Amanda Burden, contou como o poder público conseguiu revitalizar duas áreas da cidade – uma nas imediações de Wall Street, o centro financeiro da cidade, e outra à oeste, num antigo reduto de frigoríficos. “Pouco antes do 11 de Setembro, percebemos que havia uma fuga de moradores de Wall Street, e isso se acentuou ainda mais após os ataques”, disse Amanda. “Com investimentos pontuais em melhoria da qualidade de vida e arquitetura, conseguimos atrair 45 mil novos habitantes para o bairro nos últimos anos.” O arquiteto Brandon Haw, sócio do escritório Foster + Partners, de Londres, também defendeu intervenções para tornar as grandes cidades menos inóspitas. “Só que isso demanda planejamento, o que nem sempre vemos nas metrópoles”, assinalou.

Anfitriã do evento, São Paulo também tem seu plano de “requalificação urbana”. Trata-se do Projeto Nova Luz, cujo objetivo é revitalizar o centro velho por meio de desapropriações e incentivos fiscais para a instalação de empresas – sobretudo do ramo de tecnologia e computação. Mas, em vez de pôr fim à venda e ao consumo de crack na região, houve apenas uma migração de viciados para outros pontos.

Assim que chegou à Sala São Paulo, a reportagem do Estado flagrou usuários trocando socos e pontapés nas imediações da Rua Helvética, a poucos metros de onde ocorriam as palestras do Urban Age. “Isso aqui não tem jeito”, dizia uma policial militar. “A gente faz operação, leva para a delegacia, mas, como eles não têm passagem, são liberados horas depois.” A soldado contou que, na semana passada, um sargento dos bombeiros esteve no posto de policiamento com uma foto do filho nas mãos. “Ele contou que o rapaz é usuário de crack e estava sumido há alguns dias. Queria saber se tínhamos visto o moleque circulando. Uma tristeza.”

24/11/2008 - 17:57h França e Brasil: trocando ”figurinhas”

Grande mostra idealizada para o ano da França no Brasil, em 2009, reunirá 250 trabalhos de fotógrafos veteranos e novos

Simonetta Persichetti – O Estado SP

 


História e memória do e sobre o Brasil serão os eixos da exposição que entre abril e junho do próximo ano estará na Pinacoteca durante a programação do ano França no Brasil. Pensada e elaborada por Diógenes Moura, curador da Pinacoteca, em parceria com a CulturesFrance e o Consulado Geral da França de São Paulo, a exposição pretende ser um bate-papo entre os diversos artistas selecionados: “Como se eles estivessem numa mesa de bar trocando fotografias entre eles”, exemplifica Diógenes.

O primeiro eixo, histórico, será composto pelas imagens de Pierre Verger, Marcel Gautherot, Jean Manzon e Claude Lévi-Strauss, três franceses que têm em comum o fato de terem vivido no Brasil e registrado o País do ponto de vista humanista, do cotidiano da arte e religiosidade. Nas palavras do curador, o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908) aparece como uma epígrafe da mostra, visto que, enquanto seus conterrâneos terão a oportunidade de mostrar seu olhar com 30 imagens, o antropólogo, um dos fundadores e professores da USP, onde lecionou sociologia de 1935 a 1939, aparece com poucas imagens: “É apenas uma pontuação. Poucas e eficientes imagens.”

Isso se deve ao fato de os três primeiros terem – em épocas, momentos e intencionalidades diferentes – fotografado os mesmos lugares. Coincidentemente, os três autores tiveram suas fotografias publicadas na revista O Cruzeiro numa época em que essa publicação era o sonho de vários fotógrafos e ajudou a criar entre nós a idéia do que era realmente a estética fotojornalística.

Jean Manzon (1915-1990), mais que seus colegas, foi determinante para trazer para o Brasil a modernização do fotojornalismo que nos anos 40 ainda engatinhava entre nós. Devemos a ele – que na Europa já havia trabalhado para as mais importantes revistas ilustradas da época, como por exemplo, a Paris Match – a introdução das câmeras mais ágeis para o trabalho do repórter, e trouxe também o respeito e o reconhecimento da profissão.

Já Marcel Gautherot (1910- 1996) chega ao Brasil em 1939. Na França, ele estava ligado à antropologia visual, sendo um dos responsáveis, em 1936, pela criação do Musée de L?Homme, em Paris. No Brasil, seu interesse se voltou sobretudo para o folclore, arquiteturas e festas brasileiras. Alguns desses seus trabalhos foram publicados na revista O Cruzeiro.

A vida e a obra de Pierre Verger (1932-1996) é há muito nossa conhecida. Seus estudos e viagens sobre o homem, que o levaram a percorrer de 1932 a 1946 o mundo todo, são bastante conhecidos. Desembarca no Brasil em 1946, mais precisamente na Bahia, pela qual – como não podia ser diferente – se encanta e onde decide se estabelecer pelo resto de sua vida. Procurou conhecer em detalhes a vida dos descendentes africanos, seus ritmos, sua religiosidade. Para tanto, durante anos fez a ponte aérea África-Brasil. Em 1948, passou a se dedicar ao estudo do candomblé. E foi na África, onde também estudou a religiosidade, que em 1953 recebeu o título de Fatumbi “nascido de novo graças ao Ifá”.

São essas visões de Brasil, dos marinheiros no porto, dos cultos e do cotidiano, que ele também registra e publica: “Esses nomes, com um período de atuação que atravessa as décadas de 1940 e 1980, reafirmam a importância e a sensibilidade de como um olhar estrangeiro seria incorporado aos mais diferentes temas da nossa cultura, podendo traduzi-la num documento sem precedentes para o entendimento da fotografia no Brasil”, conta o curador. A foto como descoberta do mundo.

Para que esta conversa se amplie e atualize, a Pinacoteca do Estado escolheu três brasileiros que, de alguma forma, décadas depois, também caminharam pelos mesmos lugares fotografados pelo olhar europeu. Luiz Braga, de Belém; Tiago Santana, de Fortaleza; e Mauro Restiffe, de São Paulo, contribuem com seu olhar moderno, ou pós-moderno, sobre o cotidiano brasileiro para o diálogo com o registrado nos anos 40 e 50 em especial, quando o ufanismo se fazia presente e a identidade nacional precisava ser reafirmada.

O olhar dos jovens – em relação aos colegas franceses – fotógrafos muito mais do detalhe, do pequeno, do aprofundamento e da interpretação dos locais desvelados pelos antecessores: “Trinta anos depois, três fotógrafos brasileiros parecem andar e registrar as mesmas imagens realizadas por Pierre Verger e Marcel Gautherot”, explica Diógenes. Claro que não são as mesmas imagens, mas as mesmas necessidades de encontro.

O fotógrafo Tiago Santana está realizando um novo ensaio para essa exposição: panorâmicas realizadas no interior do Ceará. Luiz Braga comparece com seu olhar particular sobre o cotidiano amazonense e Mauro Restiffe, o mais urbano de todos, coloca um ponto final nesta deliciosa conversa.

Mas é então que mais uma surpresa se faz presente: três fotógrafos contemporâneos franceses foram convidados para nos mostrar imageticamente como entendem e imaginam o Brasil. Já estão por aqui Antoine D?Agata, Bruno Barbey e Olivia Gay. Os três fazem parte da agência Magnum e cada um está realizando um ensaio específico para a mostra. D?Agata, preferiu fixar-se em São Paulo, mais precisamente no entorno da própria Pinacoteca, mas também vai trazer imagens do Rio e de Salvador. Ele trabalha sempre com as situações-limite do ser humano, buscando humanidade em lugares onde há muito ela foi esquecida ou abandonada. Barbey resolveu flutuar por São Paulo, Rio, Maranhão e Belém, enquanto que Olivia Gay fixou-se na Bahia, resolveu seguir famílias baianas e acompanhar seu dia-a-dia, em especial no que diz respeito à culinária.

Todas essas imagens – aproximadamente 250 – ocuparão cinco salas da Pinacoteca. Um diálogo franco-brasileiro que deverá viajar por todo o Brasil durante o ano de 2009 para aportar em 2010 na França, em Paris e no festival de Fotografia de Arles.

23/11/2008 - 16:04h La vie est dure: des milliardaires réaménagent les hôtels particuliers parisiens

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Le Monde

Au 14, rue de l’Université, dans le 7e arrondissement de Paris, l’immeuble emmailloté de bâche grise est une verrue bien disgracieuse aux côtés des hôtels particuliers de la même époque – le XVIIe siècle – aux porches cintrés et balcons à encorbellement, qui l’entourent.

Placardé sur l’échafaudage, le permis de construire date du 30 janvier 2004. Le toit a disparu. La façade aux fenêtres à chapiteau semble “tenir” en trompe-l’oeil. Le chantier est arrêté pour infraction : les travaux de démolition engagés outrepassent le permis octroyé. Le procès de l’Etat contre le propriétaire, qui doit débuter lundi 24 novembre, au Palais de justice de Paris, devrait servir de cas d’école, à l’heure où les transactions sur le patrimoine historique de Paris sont en plein boom.

Les hôtels particuliers en vente, pour la plupart construits entre cour et jardin aux XVIIe et XVIIIe siècles, souvent cédés par l’Etat pour faire rentrer de l’argent dans les caisses, font le miel, depuis 2006, des milliardaires du monde entier. “Des bâtiments à usage privé et extrêmement luxueux, dont les acquéreurs viennent des grandes familles princières du monde arabe, du Golfe, du Maghreb, de Russie ou des pays émergents. Ce ne sont ni les Anglais, ni les Américains, ni les Français, même s’ils pèsent des milliards”, précise Charles-Marie Jottras, président du groupe immobilier Féau (Belles Demeures de France, Christie’s Great Estates), dont une vente a dépassé, avant l’été, les 60 millions d’euros. Parmi les offres du jour chez Féau, l’hôtel du Grand-Veneur, d’époque Louis XIII, inscrit aux Monuments historiques, rue de Turenne (3e), est mis à prix 29 millions d’euros.

France Domaine, institution dépendant du ministère des finances, affiche sur son site Internet les offres immobilières de l’Etat, photos à l’appui. Le 21 novembre, à la rubrique “L’Etat vend à Paris”, l’hôtel de Montesquiou, façade Louis XVI sur jardin, au 20, rue Monsieur (7e), anciennement occupé par le ministère de la coopération, portait la motion “vendu”. Il serait cédé à un promoteur russe. Autre affaire à saisir : l’hôtel de Seignelay, 80, rue de Lille (7e), dépendant du ministère de l’économie et dont la date de dépôt des offres était fixée au 20 novembre… L’Etat, très discret, n’affiche pas les prix pour vendre au plus offrant.

Une fois le contrat signé commencent les difficultés. L’acquéreur veut bénéficier des dernières commodités et mettre au goût du jour sa propriété. La tendance est au gain d’espace. Puisque, à Paris, on ne peut construire en hauteur, creusons les sous-sols, pour installer piscines, garages, climatisation.

Les requêtes sont déposées à la direction de l’urbanisme de Paris qui transmet les dossiers aux Architectes de bâtiments de France (ABF), lesquels délivrent les autorisations et contrôlent les travaux. Les règles sont strictes lorsqu’il s’agit de bâtiments classés ou inscrits aux Monuments historiques, ou simplement situés dans le 7e arrondissement et le Marais, deux zones régies par le Plan de sauvegarde et de mise en valeur de la capitale (PSMV) établi en 1996 et en cours de révision. Ou encore, lorsque l’immeuble est préservé au titre du Plan local d’urbanisme (PLU) qui, depuis 2006, protège 5 000 immeubles intra-muros.

Les demandes de permis de construire sont révélatrices. Une dizaine de gros dossiers sont étudiés. Dont celui de l’hôtel de Bourbon-Condé, classé Monument historique, 12, rue Monsieur (7e), acheté par la famille royale du Bahrein, qui inclut la création en sous-sol de parking et salle de cinéma.

“TRAVAUX PHARAONIQUES”

Une demande similaire de construction d’un garage souterrain émane de l’hôtel Lambert (1639-1644), construit par Louis Le Vau, qui agrandira Versailles. Ancré à la pointe de l’île Saint-Louis, avec son jardin suspendu et sa rotonde sur la Seine, il a logé, un temps, l’actrice Michèle Morgan : c’était l’attraction des bateaux-mouches. Avec ses décors peints par Le Brun, ce joyau a été cédé, en 2007, par le baron Guy de Rothschild à la famille de l’émir du Qatar (autour de 80 millions d’euros), lequel, amateur de vieilles pierres, possède l’hôtel d’Evreux, place Vendôme, et l’hôtel de Coislin, place de la Concorde.

Le PSMV, établi en 1996 et en cours de révision, protège très mal les sous-sols de ces hôtels. “Pratiquement tous les bâtiments que je connais, repris récemment, envisagent des travaux pharaoniques dans les caves ou sous les cours pavées”, précise Christine Fabre, de l’association SOS-Paris. Au 81, rue de Grenelle (7e), le chantier sur le petit hôtel d’Estrées est spectaculaire, comme l’état de la cour, trou béant garni d’échafaudages. Deux permis de construire ont été délivrés. Le premier autorisait, en octobre 2006, trois niveaux de sous-sol (avec piscine, sauna, parking), le second, de septembre 2008, accepte un ascenseur à voiture.

“Il faut stopper cet élan pour éviter les excès. Le petit hôtel d’Estrées fait partie des polémiques”, indique Jean-Marc Blanchecotte, architecte en chef des bâtiments historiques, à Paris. Etudier au cas par cas, en hiérarchisant les hôtels particuliers, telle est l’actuelle démarche. Pour le spécialiste, “il ne faut pas tout bloquer, l’esprit de reconquête est l’occasion de restauration des bâtiments historiques”.

Un point sensible pour les ensembles de grande valeur vendus par l’Etat, souvent mal protégés par la loi. La problématique des sous-sols est au coeur des discussions. Colombe Brossel, adjointe au maire chargée du patrimoine, parle des réunions qui s’enchaînent, entre Etat, mairie, experts et associations, afin d’établir une “doctrine” avant fin 2008.
Florence Evin

14/11/2008 - 18:33h Quem come quem

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Cena do espetáculo de Marta Soares
Um Corpo que Não Agüenta Mais. Foto de João Caldas

NELSON MOTTA – O GLOBO

Em inglês, francês, espanhol, italiano, alemão ou japonês não existe uma expressão equivalente a “comer”, significando relação sexual.

Só em português, mais especificamente em brasileiro.

Aqui, o macho predador não faz amor ou apenas sexo: devora a sua presa. Mas depois do feminismo as brasileiras modernas também adotaram a expressão para suas conquistas.

Surpresos e intimidados, os homens ouviram a temida e desejada ameaça: vou te comer! Certamente essa expressão tão brasileira está em sintonia com o conceito de “antropofagia cultural”, lançado por Oswald de Andrade em 1928 e retomado no transe de 1968.

Na época, acreditamos fervorosamente que o nosso destino e vocação— desde 1556, quando o bispo Sardinha foi comido pelos caetés — era devorar a cultura colonizadora, digeri-la e transformála em brasileira e revolucionária.

Em 2008, no mundo globalizado e interligado, com as culturas nacionais interagindo e se misturando, com a fusão de linguagens e gêneros, com os samplers, a computação gráfica e todas as maravilhas da era da informação e das comunicações, não há nada mais anacrônico do que a idéia de antropofagia cultural. Porque hoje qualquer cultura nacional come e é comida, querendo ou não: a “antropofagia” é inevitável e óbvia.

Quanto tempo perdido teorizando sobre Villa-Lobos ou Tom Jobim “comendo” Bach, Debussy ou Cole Porter para produzir uma música brasileira internacional.

Ou Niemeyer degustando Le Corbusier para inventar a arquitetura moderna. Ou Nelson Rodrigues pumamando em Dostoiévski para criar uma dramaturgia tijucana e universal.

A pobre cultura nacional, provinciana e colonizada, ou “antropofágica e antiimperialista”, não tem nada com isso: os méritos são exclusivamente do talento individual desses raros criadores nativos.

Poucos acreditaram tanto nessa bobagem de “antropofagia” como eu. Levamos a sério a piada do velho Oswald, por ela aceitamos muita empulhação. Quantas vezes diverti amigos estrangeiros, embora falasse a sério, exaltando essa esdrúxula teoria como um diferencial da arte brasileira. Como se pode ser tão bobo tanto tempo?

03/08/2008 - 13:06h A 1° macrometrópole do hemisfério sul

Uma macrometrópole de R$ 475 bilhões

A mancha urbana cresceu a ponto de emendar São Paulo a Campinas, uniu 65 municípios e hoje abriga 12% da população brasileira.


São Paulo e Campinas formam a maior mancha urbana do Hemisfério Sul, responsável por 22% do PIB brasileiro

A imagem “http://www.estadao.com.br/megacidades/img/sp_home.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

Diego Zanchetta – O ESTADO DE SÃO PAULO


Em 1722, o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, que herdou o nome do pai, o lendário Anhangüera, deixou a cidade de São Paulo com uma tropa de 152 homens armados, 2 religiosos e 39 cavalos.Por cinco dias, embrenhou-se na mata fechada até achar um lugarejo que virou ponto estratégico para tropeiros ávidos em chegar ao sertão das minas de ouro de Goiás e Mato Grosso. Essa parada, 23 anos depois, foi batizada de Campinas. Hoje o antigo “Caminho dos Goiases”, a trilha de 102 quilômetros aberta pelo bandeirante, virou uma coisa só: a primeira macrometrópole do Hemisfério Sul, uma mancha urbana de 22 milhões de habitantes.

São 300 mil veículos que circulam todo dia pelo complexo rodoviário mais movimentado de São Paulo, as Rodovias Anhangüera e Bandeirantes. No entremeio fica o parque industrial mais rico do País, que responde por 65,3% do Produto Interno Bruto estadual ou 22,1% do nacional, uma economia de R$ 475 bilhões. Estudo da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa), com base em imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e obtido com exclusividade pelo Estado, indica que entre os dois aglomerados urbanos não há mais que meros 14 km entre bairros com o mínimo de 72 moradias, conceito mundial para definir uma macrometrópole, a junção de duas regiões metropolitanas.

(mais…)

21/07/2008 - 12:58h Olimpíadas com arte

Veja também aqui no blog
Conhecido como 798, este é o bairro de Pequim que reúne o maior número de artistas, estúdios e galerias e parece praticamente imune à rígida censura do país

Cláudia Trevisan – O Estado de São Paulo


A meteórica ascensão econômica da China se replica no mundo das artes plásticas, no qual a produção contemporânea do país bate sucessivos recordes de preços no mercado internacional. O bairro que reúne o maior número de estúdios e galerias de Pequim se transforma em um dos principais pontos turísticos da cidade, depois da Grande Muralha e da Cidade Proibida.

Conhecido como 798, o distrito artístico da capital chinesa é um enorme território livre de criação – ou pelo menos mais livre que seu entorno, submetido à estrita censura chinesa. O local era um parque industrial construído nos anos 50 com ajuda de arquitetos da ex-Alemanha Oriental, que conceberam os edifícios no melhor estilo Bauhaus, simples e funcionais.

Várias fábricas identificadas por números se dedicaram durante anos à produção de equipamentos eletrônicos para as Forças Armadas. Desativadas nos anos 90, muitas delas começaram a ser ocupadas por artistas no fim da década, o que transformou a região em uma versão chinesa do SoHo nova-iorquino.

A que tinha o número 798 foi recriada como um dos primeiros locais de exposição e acabou emprestando seu nome a todo o distrito. Em suas paredes, ainda estão os slogans da Revolução Cultural (1966-1976), que pediam longa vida ao comandante Mao Tsé-tung (1893-1976), escritos em ideogramas vermelhos.

As galerias seguiram os artistas e atrás deles foram restaurantes, bares, livrarias e lojas. No ano passado, o distrito 798 recebeu 1,5 milhão de visitantes, número três vezes maior do que em 2005. Livre das amarras ideológicas do passado, a arte contemporânea chinesa floresceu a partir de meados dos anos 80, pelas mãos de artistas que nasceram ou cresceram durante a Revolução Cultural, o movimento que levou ao extremo a idéia de que a criação deveria estar submetida aos interesses da construção do socialismo.

A arte contemporânea chinesa começou a ganhar o mundo na década atual, com exibições na Europa e nos Estados Unidos e colecionadores dispostos a pagar preços cada vez mais altos por seus trabalhos.

O caso mais emblemático da ascensão meteórica dos chineses no mercado internacional é a obra Execução, de Yue Minjun, de 46 anos. Inspirado no massacre de estudantes na Praça Tiananmen, em 1989, o quadro foi pintado em 1995 e vendido em seguida por US$ 5 mil ao marchand de Hong Kong Manfred Schoeni. No ano seguinte, o investidor Trevor Simon desembolsou US$ 32 mil pela pintura, com a condição de não exibi-la em público durante dez anos em razão de seu tema ‘’sensível”. Em outubro de 2007, Execução foi arrematada por US$ 5,9 milhões em um leilão da Sotheby’’s de Londres, tornando-se a mais cara obra contemporânea chinesa vendida até então.

O recorde logo foi quebrado por Zeng Fenzhi, de 44 anos, e seu quadro Série Máscaras,1996, nº 6, vendido em maio de 2008 por US$ 9,7 milhões, o mais alto preço já pago por uma obra de arte contemporânea asiática.

A cifra foi o triplo da estimativa inicial de US$ 3,2 milhões feita pela Christie’’s, responsável pelo leilão. O quadro mostra oito jovens de braços dados, com máscaras sorridentes e os lenços vermelhos no pescoço, típicos da Revolução Cultural.

Os artistas chineses que nasceram na década de 60 tentam captar o turbilhão de mudanças no qual o país mergulhou nos últimos 30 anos e refleti-lo de diferentes maneiras em suas criações. Muitos deles sofreram influência decisiva do massacre de estudantes na Praça Tiananmen, em 1989, que enterrou as aspirações por mudanças democráticas e mais liberdade alimentadas desde o início daquela década.

O resultado foi o movimento ”Realismo Cínico”, do qual fazem parte Yue Minjun e Fang Lijun, outro artista que usa figuras carecas em suas pinturas. A escola é marcada pela ironia, o desencanto e o fim do idealismo dos primeiros anos do processo de reforma e abertura da China, iniciado por Deng Xiaoping em 1978.

A memória do passado socialista está presente nos quadros de Zhang Xiaogang, que realiza séries inspiradas na estética de fotografias de família do início do século passado, mas com a maioria dos personagens vestidos com o guarda-roupa que imperou durante o maoísmo.

”Os retratos familiares mudos de Zhang Xiaogang parecem ter capturado a verdadeira essência do drama histórico, ou mesmo trauma, da construção de uma sociedade contemporânea próspera a partir das brasas de uma revolução”, diz o catálogo da Sotheby’’s sobre sua obra.

O impacto das transformações econômicas na vida de milhares de chineses é refletido nas criações de Liu Xiaodong, pintor figurativista, autor de uma longa série sobre a construção da gigantesca hidrelétrica de Três Gargantas, que inundou um trecho de 600 km de extensão e 1,1 km de largura e forçou a realocação de pelo menos 1,4 milhão de pessoas. Xiaodong estabeleceu um novo nível de preço para a arte contemporânea chinesa em 2006, quando sua obra Pessoas Recentemente Deslocadas foi vendida por US$ 2,7 milhões.

ESTRELAS CHINESAS

AI WEIWEI
Ano de nascimento: 1959

Misto de artista e agitador cultural, Ai Weiwei já realizou trabalhos de design, arquitetura, escultura, instalações, performances e foi consultor da dupla Jacques Herzog e Pierre de Meuron, arquitetos responsáveis pelo desenho do Estádio Olímpico de Pequim, batizado de Ninho de Pássaros. Ai Weiwei é diretor do China Art Archives and Warehouse, galeria voltada para a arte conceitual e experimental

ZENG FENZHI
Ano de nascimento: 1964

Bateu o recorde de preço de arte contemporânea asiática depois que seu quadro Série Máscaras, 1996, nº 6 foi arrematado por US$ 9,7 milhões em maio deste ano. A série ”máscaras” é seu mais célebre trabalho e mostra personagens dos anos 90 usando máscaras com olhos bem abertos e expressões ensaiadas e artificiais

YUE MINJUN
Ano de nascimento: 1962

Sua marca registrada são auto-retratos sorridentes (foto acima)que aparecem em todos os seus trabalhos, sejam pinturas ou esculturas. Inspirado pelo massacre de estudantes na Praça Tinanmen, em 1989, seu quadro Execução foi vendido por US$ 5,9 milhões em outubro de 2007, o mais alto preço pago por uma obra contemporânea chinesa até então. Yue integra o movimento Realismo Cínico, que surgiu depois do massacre na Praça Tiananmen, em 1989

ZHANG XIAOGANG
Ano de nascimento: 1958

Inspirados no estilo de fotos de família do início do século passado, seus quadros mostram figuras tristes e silenciosas, que evocam com suas roupas ‘’socialistas” a memória do período maoísta que a China começou a abandonar em 1978 em favor do crescimento econômico. Zhang é um dos artistas chineses preferidos pelas galerias internacionais

FANG LIJUN
Ano de nascimento: 1963

Um dos líderes do movimento Realismo Cínico, que surgiu com o sentimento de desencanto provocado pelo massacre de estudantes na Praça Tiananmen, em 1989. Seus personagens costumam ser homens carecas, com expressões ambíguas, apresentados sobre paisagens infinitas

LIU XIAODONG
Ano de nascimento: 1963

Pintor figurativista que se destacou com uma série sobre o custo humano e ambiental da hidrelétrica de Três Gargantas, que forçou a realocação de pelo menos 1,4 milhão de pessoas. Seu quadro Pessoas Recentemente Deslocadas foi vendido por US$ 2,7 milhões em 2006 e estabeleceu um novo patamar de preço para a arte contemporânea chinesa

Melhor da produção contemporânea, fora das quadras

Durante os jogos olímpicos, estão programadas exposições, performances, instalações e arte digital

Cláudia Trevisan, Pequim


Os estrangeiros que forem a Pequim para os Jogos Olímpicos terão a chance de ver a mais completa mostra de arte contemporânea chinesa já realizada em todo o mundo. Apenas no distrito 798, 27 galerias vão realizar 103 exibições no período próximo ao das competições, que começam dia 8 e terminam dia 24 de agosto.

A mostra mais representativa foi organizada pela Ullens Center for Contemporary Art (Ucca), começou no sábado e segue até 12 de outubro. Fundada no mês de novembro de 2007, a galeria reúne a coleção de arte contemporânea chinesa que o casal belga Guy e Myriam Ullens começou a construir em meados dos anos 80 e é o maior centro de exposições do 798, com uma área de 8 m². A exibição da Ucca reúne 92 trabalhos de 60 artistas e inclui performances, instalações e arte digital.

O interesse do casal surgiu quando ninguém fora da China prestava atenção à produção artística do país. Ao longo de duas décadas, eles reuniram cerca de 1.700 obras, que representam os trabalhos de diferentes gerações de artistas, em vários momentos de suas carreiras.

Desde março, a Ucca é dirigida pelo francês Jérôme Sans, co-fundador e ex-diretor do museu de arte contemporânea Palais de Tokyo, em Paris. “As exibições têm o melhor da arte contemporânea chinesa e os visitantes podem ver os artistas de milhões de dólares, mas também os talentos emergentes”, observa Robert Bernell, dono da livraria e editora Timezone8, especializada em livros de arte e criador do site www.chinese-art.com.

O 798 é o mais badalado endereço da arte contemporânea de Pequim, mas está longe de ser o único. A pioneira nessa área foi a galeria Red Gate, fundada em 1991 pelo australiano Brian Wallace em uma antiga torre de observação que integrava a Muralha de Pequim – quase toda destruída depois da Revolução Comunista de 1949. No ano passado, a Red Gate emprestou seu prestígio ao distrito 798 e abriu uma filial no local.

Na medida em que os aluguéis começaram a subir no antigo distrito industrial, alguns artistas se mudaram para uma área a cinco quilômetros de distância, chamada Caochangdi. O primeiro endereço do local foi a China Art Archives and Warehouse, dedicada à arte experimental e conceitual.

A galeria é dirigida por Ai Wewei, um dos mais importantes artistas chineses, com talento para design, arquitetura, performances, instalações e escultura. Filho do poeta Ai Qing, enviado para o campo durante a Revolução Cultural, Ai trabalhou como consultor dos arquitetos Jacques Herzog e Pierre de Meuron na concepção do Ninho de Pássaros, o Estádio Olímpico de Pequim que sediará as principais competições dos Jogos de agosto.

06/06/2008 - 17:02h Brasil e Argentina juntos pela arte

Sucesso de feira em Buenos Aires, com destaque dos brasileiros, ilustra potencial do mercado vizinho

Maurício Moraes, Buenos Aires – O Estado de São Paulo


É um homem que come. Foi assim que Tarsila do Amaral definiu O Abaporu, sua obra-prima e ponto de partida do pensamento moderno brasileiro. Comer a cultura estrangeira, degluti-la e criar o equivalente nacional foi a utopia modernista, com ecos que ressoam até hoje. Comprada em 1995 pelo colecionador argentino Eduardo Costantini, a tela é um dos destaques do Malba – Museu de Arte Latino Americano de Buenos Aires e o grande chamariz da mostra Tarsila Viajera, a mais badalada desta temporada portenha. Nesta semana, o Brasil ainda foi destaque na ArteBA, por ter a maior representação na principal feira de arte latino-americana, com galeristas brasileiros ávidos por arte argentina. Se nos tempos de Tarsila o cardápio cultural era eminentemente europeu, o menu atual cada vez mais inclui os vizinhos, e vice-versa. A diferença de idioma já não importa. A exemplo do que fez o Brasil com o espanhol, o ensino de português está prestes a ser adotado em todas as escolas da Argentina.

”O Brasil, seguramente, é o país mais bem representado no Malba. A coleção também é identificada com o País”, diz o curador-chefe do museu, Marcelo Pacheco. Cândido Portinari, Lygia Clark, Di Cavalcanti e Hélio Oiticica e outros grandes artistas brasileiros têm obras nas galerias do museu, fundado e presidido por Eduardo F. Constantini, que em 1995 arrematou O Abaporu por U$S 1,25 milhão. A obra que inspirou o movimento antropofágico, de Oswald e Mário de Andrade e companhia, fez Tarsila tornar-se conhecida no país vizinho. Tanto que a mostra Tarsila Viajera, que esteve na Pinacoteca do Estado de São Paulo sob o título Tarsila Viajante, atraiu mais de 80 mil visitantes em oito semanas. O museu já recebeu retrospectivas de Alfredo Volpi e Lasar Segall e mandou para o Brasil um mostra do argentino Xul Solar e co-produziu uma outra de Leon Ferrari com a Pinacoteca, além de manter parcerias com várias instituições brasileiras.

”O aprofundamento do intercâmbio é uma retomada de uma forte relação que existiu nos anos 20, 30 e 40”, diz Pacheco, explicando o hiato posterior como resultado de questões políticas do pós-guerra. Segundo o curador, argentinos e brasileiros se encontravam na Europa, onde estudavam, e na volta aos seus países mantinham contacto. A própria Tarsila teria planejado uma malograda exposição em Buenos Aires, em 1931. Já Cândido Portinari fez sucesso na cidade com uma exposição em 1947. Mas esses intercâmbios, ressalta Pacheco, se deram muito mais pelas relações pessoais entre os artistas que por políticas de fomento governamentais.

Pelo menos na ArteBA deste ano, que ocorreu entre os dias 29 de maio e 2 de junho, o fomento da Embaixada do Brasil foi preponderante para o destaque do País na feira. O incentivo diplomático fez crescer de quatro, em 2005, para nove, em 2008, o número de galerias nacionais, num total de 31 estrangeiras. A feira é a segunda mais visitada do mundo, com mais de 110 mil pessoas, perdendo apenas para a espanhola Arco. A SP Arte recebeu cerca de 15 mil visitantes em sua última edição, com apenas sete galerias internacionais. Os números ilustram o grande potencial do mercado vizinho, que ainda se recupera dos recentes abalos em sua economia.

Além do olhar argentino, os marchands e o governo brasileiro se interessam pelo olhar dos curadores de importantes instituições como a Tate, de Londres, o Lacma (Los Angeles Country Museum of Art), da Califórnia, e o MoMA (Museum of Modern Art), de Nova York, presentes no evento, a maior vitrine de arte latino-americana. O Brasil já é destaque nas coleções destes museus e a porta de entrada para os acervos pode estar em Buenos Aires.

O marchand Oscar Cruz, da galeria paulistana Baró Cruz, participa da feira há três anos. ”É uma ótima oportunidade não apenas para mostrar arte brasileira, mas sobretudo para prospectar artistas argentinos”, conta. Segundo Cruz, o mercado vizinho é muito fechado e por razões diversas, inclusive pelo contexto econômico, as galerias argentinas não participam das grandes feiras internacionais. Daí a pouca proeminência da Argentina no circuito internacional. ”Nós acabamos fazendo esse papel, levando-os para fora”, explica Cruz. Sua galeria representa dez artistas do país vizinho e é a segunda que mais comercializa argentinos no exterior. Ele vê uma perspectiva de bons negócios no país de Jorge Luis Borges, destacando a alta qualidade da produção e os preços baixos se comparados aos do Brasil.

Um destes artistas é Hérman Salamaco. ”Minha primeira exposição individual foi em São Paulo, na Galeria Thomas Cohn, de modo que o Brasil me abriu as portas”, diz. Muitos artistas locais também adentraram o mercado brasileiro pela Bienal do Mercosul, de Porto Alegre, que desde 1997 serve como grande ocasião de intercâmbio dos circuitos regionais, também em termos de linguagem. Há várias diferenças na postura adotada pelos artistas dos dois países. Os argentinos são em geral mais figurativos, narrativos e dramáticos que os brasileiros, quase sempre mais conceituais.

Por muito tempo, tanto Brasil quanto Argentina tiveram os olhos voltados para o Norte, à Europa e aos Estados Unidos. Embora a relação entre os dois principais sócios do Mercosul esteja longe de ser ideal, é cada vez mais intensa no setor cultural. ”Inclusive porque temos problemas semelhantes”, diz Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Antes de dar esta entrevista, Araújo esteve no Museo de Bellas Artes de Buenos Aires, onde assinou um protocolo de intenções com o museu portenho. A iniciativa pioneira visa ao intercâmbio entre profissionais das duas instituições, além de ser um laboratório para projetos conjuntos no futuro. Araújo salientou que as instituições argentinas têm prioridade nas relações estrangeiras da Pinacoteca. Segundo ele, houve uma grande aproximação de museus latino-americanos nos anos 70, por questões de ordem ideológica, nos tempos da Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe). ”Hoje o contexto é de necessidade”, diz, afirmando que muito dessa relação se dá mais pela boa vontade das instituições que por mecanismos governamentais que facilitem essa articulação.

RELAÇÃO INEVITÁVEL

Uma boa forma de medir o intercâmbio cultural entre os dois países é o crescimento de cursos de português na Argentina. Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou uma lei que determina a oferta obrigatória da língua em todas as escolas de ensino médio do país. O projeto aguarda votação no Senado, o que pode acontecer nos próximos meses. Neste ínterim, o Congresso abriu o primeiro curso de português para os assessores parlamentares. Buenos Aires, por sua vez, se antecipou e hoje a língua do Brasil é o principal idioma estrangeiro ensinado em 11 escolas da cidade.

”A lei é uma decisão política muito séria para a integração entre os países”, diz Camilla do Vale, diretora da Fundação Centro de Estudos Brasileiros, Funceb. Maior responsável pela difusão do português na Argentina, a instituição ligada à embaixada possui 1.100 alunos em cursos regulares e dispõe de concorridos cursos de capacitação para professores. Uma oficina na distante província do Chaco, por exemplo, reuniu 70 interessados e ”a demanda é muito grande”, segundo a diretora.

Localizado numa rua estreita do centro de Buenos Aires, ladeado por edifícios de arquitetura clássica, o centro possui programação de cinema e literatura e uma biblioteca, além de convênios com várias outras instituições como a Cátedra Livre de Estudos Brasileiros, criada em novembro do ano passado pela Universidade de Buenos Aires. O Brasil também fez sucesso na Feira do Livro, realizada em maio; o estande do País vendeu mais de 3 mil obras em português. O embaixador do Brasil na Argentina, Mauro Vieira, classifica como ”estratégico” o fomento para intercâmbio entre brasileiros e argentinos. Fora do circuito oficial, cartazes nas ruas de Buenos Aires anunciavam shows de Lenine e Maria Bethânia, na mesma semana. Concertos brasileiros são freqüentes, com casa sempre lotada. A fronteira está aberta, é só passar.

10/05/2008 - 08:02h Ponte Estaiada é obra de arte urbana que alia técnica e estética

Em construção
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Benedito Lima de Toledo* – O Estado de São Paulo

Obras de arte, assim costumam ser designadas as intervenções no tecido urbano destinadas à melhor articulação de diferentes setores. São obras produzidas “segundo o conceito de arte”, isto é, respeitadas suas qualidades estéticas e as normas da boa técnica.

Algumas deixam marcas indeléveis e constituem referenciais urbanos fundamentais, independentemente de suas dimensões. Quem não se lembra da Ponte dos Suspiros em Veneza, ou do primor que é a Ponte Carlos em Praga, na República Checa?

Nas primeiras plantas da cidade de São Paulo figura uma pequena ponte cruzando o Riacho Anhangabaú. Para esse local, convergiam cinco ruas: do lado do centro antigo, no Triângulo Histórico, as Ladeiras de São Francisco, do Ouvidor e Doutor Falcão. Do outro lado, a Ladeira do Piques e a Rua da Palha, atual Rua 7 de Abril. Uma pequena ponte de madeira foi condicionante na formação do quadro viário local.

Na base da Ladeira do Acu, atual Avenida São João, havia uma ponte de tabuleiro circular, denominada da Abdicação, que mereceu um belo desenho de Debret. No dia 1º de janeiro de 1850, chuvas torrenciais causaram o rompimento do assim chamado Tanque do Bexiga, o qual ficava no local onde, posteriormente, viria a ser edificado o Viaduto Martinho Prado. A inundação que se seguiu destruiu essa ponte.

O Viaduto do Chá tem longa história. O primeiro empreendedor a ter idéia de sua edificação foi o litógrafo Jules Martin, francês radicado em São Paulo. Depois de muita polêmica, a obra foi concluída e inaugurada a 6 de novembro de 1892. Como projeto, era rudimentar: uma treliça metálica com piso de tabuado. Os usuários pagavam pedágio, extinto em 1897.

Prestes Maia, no seu Plano de Avenidas, apresentou uma aquarela, técnica em que era exímio artista, com a imagem de um novo viaduto. Optou-se, posteriormente, por concurso para o qual concorreram Rino Levi, Flávio de Carvalho e Elisiário Bahiana, cujo projeto foi o escolhido. Na biblioteca da FAU/USP estão arquivadas as magníficas peças gráficas do vencedor.

As obras do Viaduto Santa Ifigênia tiveram início em 1910 e foram concluídas em 1913. Fundações e estrutura de concreto exigiram cuidados especiais, dada a natureza do solo e a proximidade de residências. A segunda etapa veio a ser a instalação da estrutura metálica projetada e construída na Bélgica.

São Paulo ganha neste momento uma ponte designada por sua técnica construtiva, a utilização de estais, termo tomado de empréstimo às embarcações, aqueles cabos destinados a sustentar a mastreação.

Ficou simpática a eufonia “a ponte estaiada da Água Espraiada”. Os políticos, porém, insistem em descaracterizar os nomes tradicionais e a cidade corre o risco de se tornar um conglomerado sem história. Que o apóstolo São Paulo proteja a cidade que leva seu nome.

* É professor titular da FAU- USP e autor de vários livros sobre a história de São Paulo, como ‘Anhangabaú’; ‘Prestes Maia e As Origens do Urbanismo Moderno em São Paulo’; ‘São Paulo: Três Cidades em um Século’

10/05/2008 - 07:46h Ponte Estaiada: Obra é a primeira da América Latina

Só o mastro da ponte, na forma da letra ‘X’, tem 138 metros, a altura de um prédio de 46 andares

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Vitor Hugo Brandalise e Diego Zanchetta – O Estado de São Paulo

Dentro ou fora das pistas, o que mais chama a atenção na primeira ponte estaiada da América Latina é exatamente o que a define: os 144 “estais” – conjuntos de cabos de aço, revestidos de uma proteção de polietileno amarelo, que suspendem as duas vias da ponte e, embora não se toquem, parecem se entrelaçar. No projeto do arquiteto João Valente, por causa da curvatura das pistas suspensas, nenhum cabo tem o mesmo comprimento que o outro – medem de 79 a 195 metros. “As duas vias em curva, conectadas ao mesmo mastro, fazem da nossa ponte algo inédito no mundo”, comemora o coordenador de obras da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Omar Ayub.

Durante o mês de abril, foram acertados os detalhes estéticos e de iluminação da ponte – como os três frisos de aço inox e os dois círculos prateados, colocados nas laterais do mastro, além dos 142 projetores capazes de colorir a ponte de verde, azul ou vermelho. A instalação dos sinais de trânsito e a aplicação de uma camada de verniz antipichação, realizadas na semana passada, foram os passos finais na execução da complexa obra, que durou quase cinco anos e mobilizou 430 trabalhadores nas fases de maior movimento.

“Mas os principais desafios começaram a aparecer durante a construção do mastro”, disse Ayub, que acompanhou o projeto desde o início. O mastro, na forma da letra “X”, de 138 metros, altura de um prédio de 46 andares, realmente impressiona. Iniciado em março de 2006, por meio de um processo de construção chamado “formas trepantes” – concreto colocado em etapas, com “gomos” de 3 metros de altura encaixados a cada vez, separadamente – demorou um ano e meio para ficar pronto. “Em um prédio você faz o esqueleto e depois trabalha de dentro para fora. Numa ponte, é o contrário. A complexidade do processo de construção e a altura do mastro representaram realmente um grande desafio”, afirma o gerente de obras da Emurb, Norberto Duran.

Com o mastro quase finalizado, teve início a construção das pistas suspensas pelos estais, cada uma com 290 metros de extensão, sobre o Rio Pinheiros. O “tabuleiro estaiado” também representou desafio aos construtores – em processo chamado “balanços sucessivos”, o concreto também foi colocado separadamente, do centro do rio até as margens, com 76 “gomos” (chamados “aduelas”) de 7 metros e 174 toneladas cada. “Este momento também foi emocionante. Ver a ponte ficando pronta, pouco a pouco”, disse o gerente.

A iluminação das seis faixas, três em cada sentido, e das alças que ligam a ponte à Marginal será feita por 206 luminárias – com tecnologia chamada LED (diodo emissor de luz, na sigla em inglês), que, segundo a Emurb, representará economia de 53% em energia elétrica, se comparada aos sistemas convencionais. “É, sem dúvida, obra da mais fina engenharia, resultado de esforço de centenas”, derrete-se Ayub.

OPERÁRIOS

Na fase final da construção, poucos operários continuavam na ponte. Trabalhando no acabamento, Edmilson da Silva, de 38 anos, baiano de Feira de Santana, já pensava no que fazer com o fim da obra. Vai para outra construção, em Mogi das Cruzes. “Acho que tomei gosto pela coisa.”

31/03/2008 - 11:48h “No quiero hacer el edificio más bonito, sino el lugar más hermoso”

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Autor de edificios emblemáticos como la Fundación Cartier de París o la Torre Agbar de Barcelona, el arquitecto francés ha ganado el considerado Nobel de la Arquitectura por su “búsqueda continua”

ANATXU ZABALBEASCOA – Madrid – El País

Va a perder su aire de maldito. Jean Nouvel (Fumel, Francia, 1945) ha ganado el Premio Pritzker. Famoso desde que firmara un edificio junto al Sena, que abre y cierra sus ventanas como los objetivos de las cámaras fotográficas (el Instituto del Mundo Árabe, 1989) ha recorrido un largo camino inventando tipologías, como las viviendas Nemausus en Nimes, o construyendo iconos como la Torre Agbar de Barcelona o la exquisita Fundación Cartier de París. Una trayectoria tan insaciable a la hora de experimentar le ha reportado, naturalmente, proyectos más y menos acertados. Pero llama la atención que en plena expansión americana (tras el Teatro Guthrie en Minneapolis levanta la Tour Verre junto al MOMA) le haya llegado un premio al que parecía que iba a ser eterno candidato. Al otro lado del teléfono, un satisfecho Nouvel resta importancia a esa coincidencia. “No es EE UU, es mi edad. Cuando un arquitecto con ideas cumple 60 años, llega su edad de oro”. Desde ese momento dulce, se muestra incapaz de decidir qué edificio le ha dado el premio. “El jurado ha dicho que valoraba mi actitud: la búsqueda continua. Y yo me siento retratado. No soy capaz de destacar un edificio”, declara. Cuenta que un edificio es como una ciudad. “No sabría decir si es mejor Venecia, París o Nueva York. De las ciudades me gustan sus diferencias, como de las personas. Las hay con defectos, claro, pero si te gustan, te gustan en conjunto. Mi trabajo es como una familia, y una familia no es perfecta”.

Museu do Louvre em Abu Dabi

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Ha firmado casi 200 proyectos y sigue evolucionando porque, insiste, su único estilo es su actitud. “Cada proyecto es una aventura. Nunca sé si haré algo blanco o negro. Y esa incertidumbre me gusta”, asegura. Sin embargo, acostumbrados a sus negros metálicos, es difícil creer que vaya a pasarse al blanco… “Pues en el Museo Branly de París, he usado mucho el color”, bromea. “Claro que he hecho edificios sin color, como la Fundación Cartier, pero allí juegan los reflejos que ceden el protagonismo al contexto”. Lo que busca Nouvel investigando con sus edificios es “encontrar la pieza que le falta al puzzle. Mis edificios no quieren ser los más bonitos, quieren contribuir a formar el lugar más hermoso”. Lo llama la “política de la situación”: los vecinos son importantes. “Se debe aprender a convivir con ellos, aunque molesten. La arquitectura tiene que ser respetuosa con el contexto”.

Es el Pritzker número 30 y en 30 años de carrera ha dado muchos tumbos. La búsqueda no ha sido sólo profesional; personalmente, también ha sido un hombre revuelto: ha cambiado de socios, de estudio, de organización, y hasta de pareja tres veces. “Mi trabajo, por su naturaleza investigadora, está sujeto al cambio. Soy ambicioso, lo reconozco, pero uno debe serlo cuando construye. Un arquitecto debe trabajar a gusto. Y si me gustan las situaciones inesperadas debo aceptar los cambios que ofrece, o fuerza, la vida”.

Parque Central Diagonal Mar em Barcelona

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Si estuviera en sus manos conceder el Pritzker, apunta que se lo daría al minimalista suizo Peter Zumthor. Y, entre los premiados, cree que Frank Gehry fue el que más lo merecía. No sabe si Sarkozy se convertirá en el próximo Mitterrand. Pero cuenta que reunió a 12 arquitectos para contarles que quería a la arquitectura en el centro de su mandato. Y ya ha organizado un concurso de ideas para ordenar los suburbios del Gran París. “La clave es si considerará la arquitectura una cuestión política. Eso, más que las obras ostentosas, puede cambiar la ciudad y la vida de las personas. Veremos”. No responde a preguntas políticas. Dice estar a la izquierda, pero cree que la política se hace también diseñando.

En 2012 concluirá el Louvre de Abu Dabi. Construye en tres continentes. Ya era una estrella antes del premio. ¿Qué será después? “Siempre digo que es importante que mis edificios sean más famosos que yo. Si soy famoso no debe ser por ser calvo, sino porque he construido edificios que interesan a la gente y hacen preguntas. Quiero seguir investigando”.

30/12/2007 - 11:29h Concurso Nacional de Idéias – Ponte Pq. Cidade Jardim-Daslu

do Blog Capturas do Acaso

“O objetivo deste concurso foi discutir, de forma bem-humorada, a segragação social, o consumo e o neoclassicismo nas grandes metrópoles. O objeto do concurso era uma ligação entre o condomínio Parque Cidade Jardim e a loja Daslu, em margens opostas do Rio Pinheiros, em São Paulo. Trinta e três projetos foram enviados, com propostas para interligações terrestres, aéreas e aquáticas entre os dois locais. Entre 15 e 30 de setembro/2006 as propostas enviadas foram expostas em um blog ( http://www.flickr.com/photos/propostasponte/ ).” (site)

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30/12/2007 - 11:16h A feiúra concreta de São Paulo

No boom imobiliário há espaço para projetos que integrem a cidade, em lugar de isolar moradores

Hugo Segawa*

O Estado de São Paulo – Caderno ALIÁS

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15/12/2007 - 14:27h Oscar Niemeyer: Nosso mestre faz 100 anos

15/12/2007 - 14:18h Oscar Niemeyer: Nosso mestre faz 100 anos

16/11/2007 - 16:17h Uma obra: Sagrada Família de Gaudi

08/09/2007 - 09:56h Uma ponte para dois artigos

Assim é a vida. Nada como um dia depois do outro. Vejam só os dois artigos postados aqui embaixo. Uma lição de jornalismo.

Em 19 de agosto, O Estado de São Paulo publicou um artigo de Daniel Piza sobre a ponte estaiada que avança sua construção sobre o Rio Pinheiros, no bairro de Brooklin.

O cronista ficou entusiasmado, e com razão, pela bela obra e seu impacto no urbanismo de São Paulo.

Na época fiquei surpreso que Daniel Piza não fizesse nenhuma menção ao fato que o projeto desse “novo cartão-postal” era da administração Marta Suplicy, que seu financiamento não provém do orçamento da cidade e sim da venda de títulos do Cepac da “Operação Urbana”. Que a Prefeita foi violentamente atacada por seus adversários que pretendiam que o dinheiro da prefeitura estava sendo usada para obra em bairro rico e não na periferia. Que o PSDB disse que a ponte era desnecessária e que as prioridades eram outras.

Emfim, o artigo sonegava o credito da obra e o nome da Marta não aparecia nenhuma vez, mas reconhecia entusiasmado o mérito e a beleza da escolha.

Hoje, o Estado de São Paulo publica novo artigo mostrando o debate que a obra provoca entre arquitetos, urbanistas e engenheiros.

O artigo comporta numerosas criticas à ponte e entre elas…

Sim, é ela, você acertou !

Surge luminosa a menção a quem?

Ora bolas, à Marta Suplicy, quem mais?

Como era aquela frase, “o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”. A filosofia é a mesma, só que invertida. Parece ser: o que é bom para Marta a gente esconde e o que for ruim a gente mostra.

Não que a controvérsia sobre a ponte não exista, nem que algumas das críticas não possam ser justas. É normal a polêmica em projetos arrojados. Foi assim com a piramide de vidrio na frente do Louvre ou com a propria Tour Eiffel.

Mais perto de nós, basta lembrar a ferrenha oposição aos CEU’s e como hoje eles ganharam reconhecimento de boa parte de seus detratores. Com a ponte provavelmente será igual.

Luis Favre

Domingo, 19 de Agosto de 2007

Panorama visto de uma nova ponte

Obra sobre o Rio Pinheiros terá mastro com 138 metros de altura

Daniel Piza


No começo parecia que seria mais uma ponte em São Paulo, com o habitual aspecto de um minhocão de concreto suspenso sobre nossas cabeças. Mas agora já se vê que não é bem assim. Depois de desembocar na Marginal do Pinheiros ao contornar a curva sob a Ponte Ary Torres e acompanhar o “skyline” do outro lado, o que o cidadão encontra é uma obra atraente e enorme, que rapidamente avança para sua fase final: a Ponte Estaiada Jornalista Roberto Marinho.

linksrc=Veja galeria de fotos

O mastro dela é como um prendedor ou pinça gigante em pé, da qual desce como cordas de uma harpa uma série de cabos amarelos – os “estais” – que suspendem duas pontes em curva, as quais se cruzam como num laço sobre o Rio Pinheiros. A altura dessa obra inédita no Brasil, que deve ser inaugurada em março de 2008, chegará a 138 metros, equivalente à de um arranha-céu – e fará dela um marco urbano que perde em dimensão apenas para alguns edifícios de São Paulo, como o Mirante do Vale, o Itália e o Banespa (veja arte).

No momento, a obra já está a 120 metros de altura. Daqui do alto, São Paulo parece moderna, bonita e até organizada. Dá para esquecer por uns momentos o implacável fedor do Rio Pinheiros, coberto por uma lâmina viscosa e escura que parece petróleo, na qual bóiam PETs e outras espécies de lixos. Dá até para não pensar na utilidade ainda parcial dessa ponte, cuja função maior será atenuar o tráfego da Avenida Bandeirantes, levando caminhões e carros para o litoral por meio da Avenida Roberto Marinho, ex-Água Espraiada – o que só acontecerá quando esta for estendida até a Imigrantes (leia nesta página).

Do alto desta ponte, 30 anos de ocupação nos contemplam. Foi 1978 que foi erguido pela construtora Bratke-Collet o primeiro prédio da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, paralela à Marginal (ou Avenida Nações Unidas), dando início a uma explosão imobiliária bem ao estilo da cidade, com rapidez e sem planejamento. Logo subiram dezenas de outros, todos grandes e arrojados, com arquitetura pós-moderna, da Bolsa de Imóveis (o “Robocop”) aos hotéis Hyatt e Meliá, da TV Globo a Nestlé e WTC, assinados por famosos como Ruy Ohtake e Júlio Neves; o mais alto é o do logo da Terra, de 110 metros.

Do topo do mastro é possível contar pelo menos seis prédios em construção deste lado do rio até a altura da Usina de Traição, 2,5 quilômetros adiante. Do outro, destaca-se mais uma obra ambiciosa, a do Cidade Jardim, um conjunto que reúne um shopping center, três torres residenciais e três comerciais. Tudo se espraiou por esta região da zona sul sem contar com infra-estrutura adequada de vias locais – muito estreitas e sinuosas -, serviços e urbanização. Aos poucos, porém, a necessidade foi gerando alguma ordem. Hoje é como se São Paulo tivesse ganhado um novo centro, uma versão “pontocom” do que a Avenida Paulista representou entre os anos 50 e 80 do século 20.

A construção da ponte, iniciada em 2003, tem esse sentido. Quando estiver pronta, vai somar muito a este novo cartão-postal da cidade – principalmente à noite, quando estiver iluminada por um fileira de holofotes que lançarão uma luz amarelada para cima, segundo o projetista da ponte, João Valente. Não por acaso, a TV Globo já construiu ali, no topo de um prédio recentemente erguido com dez andares e uma antena, um “glass studio”, um estúdio de vidro que usará a ponte estaiada e o “skyline” da Nações Unidas como cenário.

Um dos 407 funcionários que a OAS emprega na obra, João Liberato de Araújo, de 34 anos, não vê a hora de ver a obra na TV. Enquanto monta a armação da ferragem, ele conta que já fez viaduto de 50 metros de altura e trabalhou na barragem de Paulo Afonso, na Bahia, mas nada comparável com esta ponte. “Quando fui chamado, não sabia que ia subir tão alto.” Agora faz o turno das 8 às 17 horas a 120 metros de altura e diz não sentir cansaço nem medo.

Estamos numa das extremidades do mastro, constituído de duas estruturas que se erguem lado a lado, unidas por duas vigas na região inferior e por apenas mais uma laje na superior (veja ilustração). Aqui na ponta em “V”, aonde se chega por um elevador que sobe em diagonal e mais três lances de escada, trabalham nada menos que 36 homens. Tarcísio Monte, de 45 anos, e Gildo Carneiro, de 28 anos, são os responsáveis pela segurança do trabalho. Mostram todas as precauções tomadas, como a corda à cintura de Araújo, capaz de sustentar 7 toneladas caso a “mesa” – a plataforma de madeira presa a uma forma de ferro trepante – se desprenda. “Não tivemos nenhum acidente”, diz Tarcísio.

Quando terminarem o topo do mastro, esses trabalhadores vão descer para ajudar na continuação das pistas. O sistema de construção é chamado de “balanços sucessivos”: a ponte é feita em etapas, como se fossem gomos de concreto – as “aduelas” – acoplados por uma treliça metálica deslizante. Esta é avançada por macacos de pressão que a fazem correr por cima e por baixo. Na base dela os funcionários ficam em pé para puxar as ferragens e concretar o espaço todo. Em seguida, mais um par dos 144 cabos estais – um cilindro com um feixe de 15 a 25 cordoalhas e revestido com a bainha de polietileno amarela – é fixado nas bordas, para que haja sustentação para a aduela seguinte.

Cada pista tem 19 aduelas de cada lado a partir do mastro, num total de 76; até agora já foram concretadas 24. O engenheiro responsável pela obra, Edward Zeppo Boretto, e o gerente, Norberto Duran, ambos da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), afirmam que o cronograma está sendo cumprido. A única possibilidade de atraso está na licitação de uns cabos de tensão importados, mas até meados de 2008 a ponte estará concluída. A obra tem envolvido turnos de trabalho até as 3 horas da madrugada.

Outra curiosidade é que o design dela, que já é motivo de palestras e artigos, inclusive em ambiente acadêmico, nasceu do número grande de problemas a resolver. Era preciso escoar trânsito de um lado para outro da avenida e nos dois sentidos, mas sem avançar demais no ambiente urbano. João Valente teve então a idéia de fazer a ponte estaiada com duas pistas inclinadas em curva, um tipo de ponte ainda não executado na América Latina. É um desafio de engenharia porque a pista em curva exige cálculos diferentes para cada um dos cabos estais; e o fato de serem duas pistas exigiu o mastro alto e dividido longitudinalmente.

Assim a obra fugiu do padrão tradicional das pontes paulistanas, fixadas com pilastras no leito do rio e completadas por alças para ambas as direções em cada extremidade. Valente diz ter se inspirado numa passarela do grande arquiteto catalão Santiago Calatrava, entre outros, para deixar o desenho do mastro mais elegante e contemporâneo, como o entorno pedia. E a decisão de usar o amarelo decorreu também do entrelaçamento visual dos estais, em virtude do cruzamento entre as pistas: se fosse uma cor escura, a impressão que se teria ficaria meio “suja”; com o amarelo, cria-se uma espécie de névoa alegre.

Edmílson Feitosa de Oliveira, de 40 anos, encarregado da carpintaria no topo da obra – onde se estuda construir um mirante para acesso dos pedestres -, gostou do amarelo. Faltando 18 metros para concluir o mastro, ou menos de dois meses, ele já comemora o novo item do currículo. Para os quatro filhos, conta todo dia como vai a obra, que considera um trabalho de “coragem”. De macacão azul, luvas e capacete, explica o orgulho com uma frase que poderia ser de um atleta olímpico: “Minha meta era chegar ao topo.”

   
           

Sábado, 8 setembro de 2007
Arquitetos já criticam ponte no Brooklin

Engenheiros, porém, dizem que ponte estaiada será cartão-postal

Rodrigo Brancatelli

Numa cidade com poucas referências arquitetônicas e um senso estético dos mais discutíveis, qualquer obra que se propõe a virar um marco urbano acaba virando tema de debates acalorados, das mesas de bares às escolas de engenharia. Com a Ponte Estaiada Jornalista Roberto Marinho, que está crescendo a cada dia no bairro do Brooklin, zona sul, não é muito diferente. De um lado, projetistas e engenheiros consideram a construção belíssima, muito bem planejada e digna de aplausos. Do outro, arquitetos reclamam que a ponte é exagerada, tem concreto demais e tem tudo para virar um novo Minhocão. No meio de tudo isso, os moradores, que já estão preocupados com o aumento do tráfego.

“Sabe o que é pior? Ninguém foi consultado para erguer uma obra dessas. Quando nos demos conta, ela já estava tomando conta da paisagem da Marginal do Pinheiros”, diz a arquiteta Claudia Diamant, presidente da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas. Se a Ponte Estaiada virar um novo cartão-postal de São Paulo, muitos arquitetos prometem não comprá-lo. “Ela polui todo o skyline da região, é exagerada. Tem concreto demais. Pontes estaiadas são muito mais delicadas, delgadas. Só aqui temos esses exageros.”

Para a construção da Ponte Estaiada, incluindo os dois tabuleiros (estruturas das pistas) de 900 metros cada, estão sendo usados 5,5 mil metros cúbicos de concreto e 144 estais (cabos que suspendem a ponte) que utilizam 380 quilômetros de cabos de aço – num investimento de R$ 233 milhões. A altura dessa obra inédita na América Latina, que hoje está beirando os 120 metros, chegará a 138 metros quando for inaugurada em março de 2008.

Muitos profissionais da área, no entanto, perguntam se seriam necessários todos esses números para resolver o problema viário do bairro. “Ela é gigantesca e opressora”, diz o arquiteto Silvio Cappanari. “Gasta-se um bocado de dinheiro para fazer uma obra incompleta, que só vai ter utilidade sabe-se lá quando.” No início de 2005, o então prefeito José Serra (PSDB) afirmou oficialmente que não gostaria de construir o modelo por ser muito mais caro do que uma ponte tradicional – o projeto havia sido encomendado na gestão Marta Suplicy. No entanto, uma mudança no projeto obrigaria a Prefeitura a indenizar a empreiteira que venceu a licitação para a obra.

A Assessoria de Imprensa de Marta Suplicy foi procurada, mas não retornou as ligações da reportagem.

“Na verdade, a ponte é grande mesmo, é para ser vistosa”, diz o projetista João Valente, responsável pela obra. “Comentários sempre vão existir, claro, mas eu queria de fato criar um novo marco para São Paulo. Quando ela ficar pronta, você vai ver que vai ficar linda, além de ajudar a escoar o trânsito.”

A Ponte Estaiada terá, de fato, um resultado significativo para o trânsito de São Paulo apenas lá por 2011. Isso porque a ponte permitirá o acesso dos caminhões que vêm pela Marginal do Pinheiros à Avenida Jornalista Roberto Marinho, mas os veículos não poderão seguir até a Rodovia dos Imigrantes porque o trecho final, de 4,5 quilômetros, ainda não foi aberto. E não há recursos para a desapropriação de terrenos ocupados por 15 mil famílias. “A ponte, num primeiro momento, vai levar até o lugar nenhum. Isso quer dizer que os caminhões vão utilizar as ruazinhas do Campo Belo para voltar à Avenida dos Bandeirantes, o que só vai piorar ainda mais o trânsito”, diz o presidente da Associação de Moradores do Campo Belo, Antônio Pereira. “Esse estilingue gigante ainda vai nos trazer muitos problemas.”


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