21/11/2009 - 22:00h Boa noite


Jascha Heifetz – Tchaikovsky Concerto para Violino em D Major, Op. 35: I. Allegro moderato. Versão reduzida para filme.

21/11/2009 - 19:28h Don Giovanni! a cenar teco m’invitasti


“Don Giovanni! a cenar teco m’invitasti”, da ópera Don Giovanni de Mozart. Filme dirigido por Joseph Losey. Ruggero Raimondi (Don Giovanni), John Macurdy (Il Commendatore), Jose van Dam (Leporello).

21/11/2009 - 17:21h Pouso

*

adoro sentir calor

no inverno

fome na ceia

água na toalha

gelo no café

adoro sentir

que tudo é possível

na medida

do improvável.

onde

quero uma casa em Belo Horizonte,

c/ vista para Sabará,

1 corredor que dê em São Paulo

e porta dos fundos

para o mar.

caldo de mandioca

beba, coma, morda

a sopa no seu prato.

vou abrir pra você

a sardinha na lata.

”quero caldo de bar”

eu disse

”quero você”.

me beija que não amolo

nem a faca, nem a palavra.

branco no branco,

língua lambendo língua.

a narina no seu rosto,

superfície suave e áspera.

seus pêlos calados…

um, dois, 3, quatro,

cinco.
sua pele faz sentido(s)

quando me toca.

me cala a boba

e fabrique uma casa amarela

debaixo de nossas solas.

pro seu baile à fantasia

subo escadas pra cuspir do alto

do mais alto que puder

e não sou homem,

e não masco tabaco

escavo a descida escarrando alturas

até doer

até ser delícia

amarro meu pé em minhas meias

passo boca no meu batom

pra cair na sua piscina

de terra seca e azul

Detrás do traço

Quando começam, estou perdida. Quando acabam, já se perderam. Talvez seja o tempo ou as idéias. Ou a respeito dos dois, numa dimensão qualquer. Talvez seja sobre nada e eu não saiba o que digo. Corro o risco e assumo o fardo — ainda que fadado. O novo já envelheceu. Eu também. E é incrível quanta coisa cabe em um parágrafo. E como aspas podem ser tão mal fechadas. E como poesia pode virar prosa. E quanta coisa se perde entre o ponto e o traço. Inclusive o tempo. Até a graça. Voam aviões, traçam em vão. Que me diz dos riscos no céu? Digo que as coisas e eu somos um. E os riscos também. Nunca e a todo tempo. Agora já não sei onde foram parar. No fim? Ou no tempo. Quem sabe no ponto — frágil, único e mal traçado.

Paulo e o lago

À esquerda de Hilda, havia a água. Seus pés já tinham se libertado das sandálias e arriscavam mergulhos. O vento batia em seu vestido largo e a empurrava pra frente e pra trás, como se ela fosse um barco. Já à sua direita, havia gente, muita gente – rostos que tentava guardar, mas que escapavam tão rápidos quanto vinham. Dentre eles, apenas um era fixo: o de Paulo. Fixo até demais. Não sorria, não falava e, principalmente, não tirava os olhos de H.. Tanto que, diante dum pequeno tremor de queixo:

— Vamos sair daqui, essa água gelada…

— Quero ficar mais — respondeu, sublinhando o ponto final:

P. compreendeu que não deveria insistir, que não devia fazer nada além de olhar. Porém, se quando se equilibrava numa perna só, segurava o corpo inteiro fixando a vista num ponto, sabia que mirar H. era muito mais que um gesto à distância.

Sentindo a nuca arrepiada, H. se voltou para P. e se espantou com o despudor com que era observada. Conferiu, aliviada, que ao redor ninguém mais dava atenção à cena. Pouco depois, se achou uma boba. Não fazia nada de errado e não devia se importar com o que pensavam os rostos voláteis. Abaixando a cabeça, se viu refletida e envergonhada naquela poça enorme. Afinal, o lago não passava disso, como ela não passava de uma menina grande. Tinha a impressão de que, se o vento viesse mais forte, todo o seu disfarce de moça voaria. Pelos ares iria a postura, o vestido, as sandálias. Restaria, então, apenas ela e aquilo de que mais gostava.

neste lago, H.

hoje em dia não existe mais isso de lugar longe, H. e não sei porque sinto sua falta. você deveria estar sempre perto de mim, sua mão sempre ao meu alcance. mas é possível a distância, desde que se queira — e eu quis, jurando que a vontade não era minha. logo eu, que há poucos dias fui tão alegre e genuinamente feliz; logo eu, que aprendi que te olhar (como eu te olho) não é um gesto sem efeito. verdade que nosso afastamento é produto do meu desejo teimoso e da sua sonsice, des’seu jeito de barco de sem leme, e nada mais. e essa é toda a verdade que tenho debaixo das mangas, faltando apenas o que nenhum de nós pode esquecer: quero estar sempre ao seu lado.

A aranha

, de 78 patas, arranha 1900 vezes a minha jarra. Com suas agulhas, risca também o disco de vinil. Sombras tristes dançam sob o lustre de duas décadas. Tudo é esquecimento. Vestidos azuis tornaram-se peça de luto; peles douradas, grafite; olhos de ciúme, negros. O batom vermelho-vivo que borrava a boca de Roberta também não escapou — não passa agora de tinta escura.

Só das teias eu me lembro, sem perder detalhe, pois são as mesmas e sempre vão ser. Então perguntei à aranha: era isso que pretendia me mostrar? que vocês resistem? Não tive resposta. Claro, era uma aranha. Que podia fazer? Transformar-se em moça e me beijar pra dizer que sim? Bebi o último gole e brindei de taça vazia. Quis esmagar o bicho, mas correu às minhas mãos e me olhou com cara dócil: me diz o que faço, por onde começo. Devia ser digitadora. Tem muitas mãos e é capaz de ouvir indefinidamente sem entender. Estou brincando, sei que me compreende, só é tímida. Já é hora de ir. Grato pela companhia.

Não há de quê — respondeu-me, para meu espanto; mas a voz era de Roberta, que ouvia a conversa como se fosse com ela. De sobressalto, pediu que esperasse um segundo — o que já estava fazendo só de susto. Correu, pegou minha mão e disse: começa assim. E, antes que me desse conta, Roberta me dizia, 1987 vezes, que sim.

Arranha-céu

Quando estou brava, pinto minhas unhas de vermelho. Hoje não é o caso: estou à francesa, indisposta para despedidas. Infelizmente, lá vem a caçamba e tenho de dizer adeus à cidade miúda onde moro: mil ruas se desdobram nos cômodos de meu apartamento e cada porta é uma esquina. Toda manhã, no trânsito voraz da copa, minhas cadeiras colidem com a mesa. Em protesto, os sapatos organizam-se em passeata. Desesperado, o chuveiro chora sem cessar. Já a cama faz o que sempre fez: dorme com qualquer um, a qualquer hora. E eu, pelo espelho de meu esmalte, observo-os todos.

Quando escutei os pés do senhorio, no corredor do 20º andar, a chave já estava com os dentes cravados em minha mão. Sem nada a dizer, a entreguei. O homem também não mexeu os lábios. Em silêncio, desci as muitas escadas, fui até a porta giratória e a empurrei. Finalmente, dei de cara com a grande cidade, que há muito eu evitava encontrar. Pelas unhas, vi carros e meretrizes se juntarem a mim. Depois, homens de barba, velhos descalços, crianças de mochila, uma pessoa e mais outra e mais outra e mais outra. E o mundo, a partir de então imenso, não coube mais na ponta dos meus dedos.

Meu prato cheio

O que me atormenta é o não dito. Torturo o meu eu para depois escrever em primeira pessoa. A fuga é o mergulho. A água é azul, mas só enxergo o cinza. Não adianta praguejar contra as memórias em preto e branco. Não vejo cores agora. Maldito Almodóvar. Maldita atenção que presto, imprestável. Uma formiga cinza parece feliz com o suco cinza derramado. Uma formiga aparece morta. Ainda cinza. Inveja abastada. Persistência da daltonia psicológica, contudo. Com tudo pronto. Nem todos os feitos. Fiz o dito, mas não disse o ditado. Mas que importa tudo, todos, eu? Que importa a formiga, o cinza, o Almodóvar? Benditos sejam. Mas que sejam ditos.

(imagem ©tomooka)

Valquíria Rabelo (Belo Horizonte/MG). Editora do Jornal A Parada, ao lado de Daniel Bilac. Tem poemas publicados no jornal Dezfaces, na Revista Ato e no folheto Barkaça. Estuda Comunicação na UFMG e Design Gráfico na UEMG. Edita o blogue Formalguma. Fonte germina

20/11/2009 - 22:00h Boa noite


Stern – Introdução e Rondo Caprichoso de Saint-Saens


Jascha Heifetz, versão filme da mesma música de Saint-Saens

20/11/2009 - 18:48h Ah! chi mi dice mai


“Ah! chi mi dice mai”, da ópera Don Giovanni, de Mozart, no filme de Losey – Kiri te Kanawa no papel de Dona Elvira

20/11/2009 - 17:54h Sarah Forte

Possibilidade

Maria Luisa sai do banho de sais aromáticos às doze horas e trinta minutos. De roupão de seda bege, dirige-se à penteadeira de mogno. Abre o roupão. Está nua. Delicadamente, passa creme francês de tartarugas centenárias pelo corpo. Desliza as mãos pelos seios. Acaricia o ventre. Massageia os braços e o pescoço. Adora passar creme no pescoço. Dá uma vontade de rir! Senta-se na cama e massageia as pernas com óleo de amêndoas. Tão perfumada! Sente-se uma rosa do jardim.

A lingerie: branca, simples. Rendada. De marca italiana. O vestido é de pequeninas flores vermelhas, com um suave laço de seda atrás. As sandálias são de couro entrançado, com uma fivela dourada. Está quase na hora do encontro! Ah, que felicidade, todos os dias, de segunda à sexta, das quatorze às dezoito horas, ele a visitava. Tão interessado!!! Era muito silencioso aquele rapaz, mas com o tempo… Ora, com tempo, tudo se resolve. Além do mais que todo mundo sabe: os calados são os mais perigosos! Os melhores! “Melhores para quê?”. Perguntava-se Maria Luisa. E enrubesceu com a resposta que pensou e despensou em segundos. Enrubescer… “Hoje em dia ninguém mais enrubesce…”. Olha-se ao espelho. São treze horas e trinta minutos. Está linda! Uma belezinha! Olhando-a assim, ninguém lhe diz a idade: oitenta e dois anos.

Som da campainha. Três toques. Maria Luisa demora-se. Não quer que o rapaz suponha que ela está atrás da porta, a esperá-lo. “Boa tarde, D. Ma…”. “Dona não, você já está vindo aqui tomar lições há um mês, já pode me chamar de você”. [....] O rapaz nada responde. Maria Luisa solta um risinho. Marcel. O nome do rapaz é Marcel. Viajará para Roma. Precisa melhorar o italiano. A sua avô, hospitalizada, dissera-lhe: “procure a Maria Luisa, a Lú Lú, minha amiga”. E ele fora em busca da Maria Luisa. Surpreendera-se: oitenta e dois anos! E facilmente passava por sessenta. A Lú Lú não era de se jogar fora. Cada pensamento imundo que o sujeito às vezes tem. Uma senhora… com idade para ser sua avó. Acontece que Maria Luisa não era sua avó. Era amiga da sua avó. Casara-se três vezes, romances infelizes, desordenados. Os homens sempre reclamavam que ela não compreendia os sentimentos. Chamavam-na de fria, insensível. Marcel gostava de Maria Luisa. Achava-a bela, mas, mas, ora mais! Pelo amor de Deus, era amiga da sua AVÓ… Maria Luisa era uma bela senhora. Um retrato antigo. Um retábulo. Marcel, sorrateiramente, pensava: se eu der um abraço, ela se quebra. Ou não.

As “lições” eram animadíssimas. Maria Luisa era muito bem informada. Marcel, em silêncio, escutava: “Se vorrei imparare, devi parlare, ragazzo!”. “Ma io già so parlare signorina, mi piace ascoltare”. Dizia, entre risos, o Marcel. Quando sorria, umas covinhas apareciam nas bochechas do Marcel. Maria Luisa adorava. E o perfume dele, então… Que marca seria aquela? Era francês. “Tuo proffumo, di dov’è?”. “Francese, signorina”. Signorina… hum, sentia-se ensolarada quando lhe chamavam de signorina.

Dezessete horas e quarenta e cinco minutos da sexta-feira. Última aula. A viagem de Marcel, agendada para a segunda-feira. Maria Luísa, contidamente emocionada, derramando-se por dentro, uma antiga energia atiçava-lhe as rugas, movimentava-lhe a alma. Marcel estava ansioso. Era sua última aula. Estava fluente. Escolhera uma camisa cor vinho, pois Maria Luisa dissera que essa cor lhe caía bem. “Com essa cor, meu filho, você fica mais forte, suas costas parecem mais largas”. Marcel fazia-se de distraído, balbuciava algum “você acha?”. Ela sorria repartida, meneava a cabeça, alongava o olhar, corava: “Acho… mais largo…”. E as lições prosseguiam. Maria Luisa encomendava delícias da culinária italiana e dava na boca de Marcel. Falava sobre filmes, artistas, música, perfumes, curiosidades. Gostaria de ter Maria Luisa sempre à disposição, na sua estante. Um dia, mandara rosas vermelhas, em outro, uma caixa de bombons. Gravara um CD com músicas antigas, somente para ter o que conversar com ela. Tudo em vão. Ela fingia não compreender? Ele sofria. Em casa, ficava longas horas calado, melancólico. Seus olhos em constante inverno.

Na sexta-feira, Marcel levantou-se bruscamente da poltrona, interrompendo a lição: “Pois é, D. Maria Luísa, já vou”.”Mas tão cedo?”. “É… tenho que organizar as malas…”. Marcel, desconcertado, silenciara. Maria Luisa dissera claramente que ele ficava bem com aquela camisa, mas agora não comentava nada. Parecia desprezá-lo. Sentia-se esquecido. Indignava-se mudamente. Quem ela achava que era? Ríspido, afirmou: “A senhora foi uma boa professora”. Aquele “senhora” deveria mortificá-la. Mas o rosto de Maria Luisa estava indiferente, imparcial. Marcel baixou o olhar. Velhinha mais inusitada aquela. Ela sorriu, agradeceu o elogio, que não era tão boa assim, que já fora bem melhor em outras épocas. Tudo em tom informacional. A velhinha cumpria um ofício… o de envelhecer. “Mas então a senhora não entende?”. Maria Luisa assustou-se com a pergunta, jogada em seu rosto, quase um tapa. “Entender o que, meu filho?”. Filho? Seu filho? Marcel baixou a cabeça, mordeu os lábios, extremamente envergonhado. Resolveu ir embora dali. Estava platônica e irremediavelmente apaixonado.

Depois que Marcel saiu, Maria Luisa olhou-se ao espelho, procurou o batom, para retocar o desenho dos lábios. Gostava de deixá-los carnudos, suculentos. Sorriu, deitou-se: “Mas o que foi que eu não entendi, meu Deus?”. Entender era tão custoso. Pensou fixamente em seus três falecidos maridos. Eles afirmavam que ela não entendia. Rosas vermelhas, bombons, músicas, elogios. Mas, súbito, a mão tremeu, a vista turvou-se, o coração, aos galopes, apertou-se contorcionista num muscular abraço. Maria Luisa entendera! E se arrependera de ter pensado tanto. Homens… Irritada, com o ar que respirava a pesar-lhe no peito, dormiu em estado de perdição. Porém, de tão cansada, esquecera de acordar, para sempre.

Açúcar

Chocolate. Barras de chocolate ao leite, com flocos de arroz. Brigadeiro. Leite condensado escorrendo. Bananas caramelizadas. Bombons. Trufas. Cerejas ao licor. Chocolate derretido. Churrasco. Carne gorda, mal passada, o sangue pingando. Mesmo que comer um boi todo. O grosso do sal. A coca-cola estupidamente gelada com rum. Cerveja. Vinho. Tantas comidas para tão curta vida. O mundo oprime de tanta vontade de comer. Escorre pela boca o sangue do porco. Tão imponente o porco dourado com a derradeira maçã a distingui-lo dos suínos comuns. A maçã era o que menos interessava. Tenro, o porco oferecia-se, pleno. Enigmático, sussurrava casualmente: “decifra-me ou te devoro”. Restava devorá-lo. Sem remorsos. Comê-lo como se fosse o último porco da terra. Depois, abandoná-lo. E comer arroz, feijão, grossas lingüiças vermelhas. A gema do ovo sobre o queijo derretido incitava loucuras. O macarrão encarnado e rico em cebolas atraia irresistivelmente. E os bolos. Os brigadeiros. Os infinitos salgadinhos sobre brancas bandejas. E o desmanchar-se das comidas por entre os dentes. A sutileza do peixe frito e suas espinhas. Lutaria com todas as forças para destrinchá-lo. Guerrearia com aquele robalo, até que um dos dois vencesse!

Em cada esquina, um pastel de frango, de queijo, de carne. Em cada rua, um pouco de caldo com pão de ontem. Na geladeira, muito doce, que é o que salva. Torta de leite condensado, coco ralado e chocolate. Durante o trabalho, bombons variados. Não importava a marca, deveria ser doce, extremamente doce. Então descobrira o incurável problema. Deveria usar expressa e eternamente aspartame.

Mas como é que pode… logo ele? Ele que vivia para os doces, e também para os salgados? Que passara dois quartos de século mais todos os dedos de uma mão a comer? A viver os alimentos intensamente, como que procurando o melhor sabor? Não… isso era um pesadelo. Ainda não achara o sabor dos sabores. A vida tem um cerne crocante, ele ainda não conquistara o que havia de mais delicioso.

E continuou a comer. Agora, escondido. Um marginal das comidas. As pessoas vigiavam-no. E os tempos áureos dos churrascos haviam acabado. Somente alimentos pálidos e sem gosto. Alimentos tristes. Chuchus antipáticos. Pepinos depressivos. Ele reclamava. Dizia que preferia a morte. Que sonhava com uma existência entre doces. As pessoas lembravam que no mundo há quem passe fome e que ele deveria dar graças a Deus. Deus? Que Deus é esse que nega ao seu filho o açúcar? Oh, como sofria aquele homem.

Então, numa chuvosa noite, ele saiu. Todos dormiam. Metodicamente, abriu a porta. Tomou as ruas. Livre, enfim livre. Num mercado 24 horas, comprou doces, o que de mais doce havia. Doces crocantes. Salgados de toda a espécie. Bebidas adocicadas. Sentou-se na calçada. E devorou tudo. Depois, saiu correndo no meio do temporal. Estava no ápice da felicidade. Tão feliz. E tonto. Terrivelmente tonto. Desmaiou no meio-fio.

Pastosamente, acordou. Sentia-se como argila despedaçada, massa de pão sem fermento. Cometera um grande crime. O terrível pecado. Comera. Mas não estava arrependido. Faria tudo outra vez. E que não o vigiassem mais. A vida não pode ser insossa. A vida é doce. É caramelizada. É crocante. Por favor, parassem de chateá-lo! Arranjassem logo uma bandejinha de brigadeiros ou ao menos um saco de pipocas. Não tinha tempo a perder. Não tinha doces a perder. As pessoas, sempre as pessoas, olhavam-no incrédulas. Aquele homem queria morrer. Oh, sim, ele morreria por uma causa justa, por um ideal honrado. Se morresse, morreria sem fome. Satisfeito.

Certo dia, para a surpresa de poucos, não mais acordara. Para o velório, a esposa encomendou dois centos de docinhos e salgados sortidos. Quentinhos, fumegantes, no ponto em que gritam: “devore-nos, porém, antes, mergulhe-nos no molho”.

Secretamente, todos sorriram, íntimos, irmãos, numa volúpia de sabores. O morto, reflexivo, concentrado, encontrara o cerne crocante da vida.

O Homem

Na fila do exame médico, ele esperava. Era moreno. Aquele sim que era homem para se ter numa guerra. Homem que de cara podia se dizer: “Esse sim! Esse eu quero!”. Moreno bronzeado, alto, costas largas, uns braços e pernas fortes. Abdômen definido por quatro séries de trezentos abdominais três vezes por semana. E aquele peitoral. Meu Deus, aquele peitoral de pêlos negros, bem divididos e a tatuagem de serpente. Aquele peitoral forte, maciço, orgulhoso. Aquele rapaz inteiro era maciço, duro, forte. Cavanhaque escuro, olhos castanhos, dentes brancos e lábios grossos. Lindo. Corpo de homem, rosto de homem. Mãos fortes e quentes. E beijava de um jeito impossível, uns beijos que arrancavam a alma de tão intensos. Seus beijos pareciam ondas quebrando na areia. Todas as mulheres ficavam tontas. E ele adorava aquela excitação, a loucura que provocava. Sorria. Nunca falhara. No momento certo, lá estava ele: inteiro, uma lança. Ah, as mulheres enlouqueciam! Ele é que não enlouquecia muito.

Verdade seja dita, gostava, sentia prazer, mas definitivamente… definitivamente, ele talvez desconfiasse que as mulheres não sabiam agradá-lo. Mas isso era segredo que ele mesmo não aceitava.

Na fila, muitos rapazes, de cueca. Trajes sumários. Estilo box. O moreno surpreendia por sua altura. Um metro e noventa. Fora de cueca branca. Ele mesmo lavava as cuecas. Não tinha mãe, nem irmã, nem avó. Fora criado por homens: pai, avô, tio. Todos que nem ele: morenos, altos e fortes. Meio envergonhado, o moreno mordia o lábio inferior e olhava para os lados, com um jeito muito sério. Quando parava de morder os lábios, surgia uma marquinha branca, que durava uns três segundos. Era a pressão dos dentes no lábio. Ele cruzara os braços e, mudo, esperava sua vez. Olhou para sua cueca, suas pernas fortes e pensou: “Mas tu é bonito”. À sua frente, uma fila de gatos secos, uns pretos, outros brancos, alguns amarelos. As nádegas dos outros nem se comparavam com a dele. Aquilo sim que era bunda! A dos rapazes da fila eram murchas, pequenas, umas tinham até pêlos. “Que porcaria, o cara deixar pêlo na bunda!”. Outra coisa que ele achava nojenta: pêlo nas costas. Graças a Deus que ele nascera lisinho, lisinho. Somente os pêlos necessários. As mulheres adoravam. Sentiu uma pontada no ombro direito. Olhou. Havia uma marquinha roxa. “Porra, aquela cachorra me mordeu…”. A cachorra era uma menina que ele havia conhecido no bar. “Sei lá, parece que tem mulher doida…”. Pensava. A cachorra era desse tipo. Era uma coisa de morder a orelha, o lábio, morder o ombro, arranhar as costas e sussurrar: “Me come, me come”. Imundície, aquilo. O moreno gostava das mais tímidas. Então quem mordia, apertava e sussurrava era ele. Mas nada que fosse real. Ele fazia essas coisas mais para fazer mesmo… “Mulher é cheia de frescura, não gosta de nada”. Sinceramente… Ele, às vezes, achava as mulheres um saco. Bom mesmo era jogar bola com os caras da rua!

A fila andava muito devagar. Atrás dele tinha um loirinho: baixo, magro, uns cabelos finos, fininhos, desmaiados sobre a cabeça. E uns olhinhos azuis, de um azulzinho fraco. O moreno então lembrou da ex-namorada. A ex era uma santinha: toda delgada e loirinha e educadinha. Mas um dia, há uns dois meses, beliscou a bunda dele. O moreno se enraiveceu!!! “Na minha bunda ninguém pega!”. A ex fez cara de choro, tomou coragem e disse: “Eu acho que você é bicha”. Ele deu uma tapão na cara da ex. E foi embora. “Bicha, eu…”. Aquele ali não era bicha não! Aquele era homem. E homem MACHO!

A maioria dos rapazes conversava, mas nada de se olharem fixamente. Todos pareciam bem desconfiados uns dos outros. “Cara, eu quero que me dispensem… negócio de exército…”. “Mas é dinheiro, rapaz… dinheiro é bom”. Diziam. O moreno queria muito ser selecionado. Ele e o exército combinavam. Começaria cabo, mas com paciência conseguiria postos mais elevados. Era bom corredor, excelente nadador e, não se pode esquecer, lindo. Mas estava meio perturbado. Por ser o mais bonito da fila, o único, de fato, inteiramente homem, começou a pensar: “Esses cara tão me olhando. Tão me olhando mesmo”. Inicialmente, ficou tímido, mas depois… depois sentiu um prazer estranho em pensar que estava sendo observado. Olhado por outros rapazes. “Já pensou, se eu pegasse esse loirinho aqui de trás, eu matava ele numa noite…”. MEU DEUS! O que ele estava pensando??? Que tipo de pensamento era aquele? Ele, homem macho, atleta, bonitão, que enlouquecia as mulheres… Não, ele devia estar era com fome. Saíra muito cedo de casa. O sol estava quente. Estava mesmo com fome e sede. Queria ir embora correndo, sumir dali. Queria comer e beber até desmaiar. “Comer e beber outro macho!!!”. Sentiu-se nauseado, vulgar, obscuro. Um calor subia-lhe pelo corpo. Latejava. Endurecia. Procurou acalmar-se.

A paz não durou muito. Do nada, nem ele sabe porque motivo, virou-se impetuosamente para o loirinho que estava atrás. O rapaz assustou-se. O moreno olhou-o profundamente nos olhos, um olhar de devorador, e puxando-o para si deu-lhe um beijo na boca. A fila, em suspenso, olhava os dois. O beijo durou cinco minutos e trinta e dois segundos. O moreno saiu correndo. Alguns dizem que ele ria, outros afirmaram que ele chorava, mas todos confirmam: ele estava excitado, muito excitado. E saíra louco, a correr, e o seu volume denunciava o quanto ele era homem. Excessivamente homem. Um verdadeiro macho.

(imagem ©giselle salas)


Sarah Forte (Fortaleza/CE). Estudante de Literatura Brasileira. Gosta de escrever contos. Uma iniciante. Fonte Germina

19/11/2009 - 22:00h Boa noite

3ero. movimento do Concerto para violino Nº 3, de Camille Saint-Saens Maxim Vengerov. Regente: Antonio Pappano

19/11/2009 - 19:51h Questo e dunque


Juan Diego Florez “Questo e dunque” de Nina

19/11/2009 - 19:07h Em verso

DELICATESSEN

preciso de um doce

que me dê prazer

e me preencha a boca

com furtivas de anis

prefiro saborear

provar sal nas costas

derreter chocolate na tarde

pra esquecer do frio da vida

dá-me muitos e faz-me pouca

a avalanche de abraços apertados,

cura-me esses choros suspirados

de quem ama e nunca diz.

ENCONTRO DE POESIA

ele era poeta

escrevia como se pudesse tê-la

sentindo a vontade no seu olho ao lê-lo

como se ela ousasse ser a única.

ela era poeta

escrevia arrebatada, incompleta

e lia, e mais avidamente o lia

como se ainda pudesse

despir a vida

entender o silêncio

pesar sussurro.

TANGO

ainda guarda distâncias

a boca ainda se reserva

como se houvesse algo a desvendar

ela é involuntária, hesitante, arisca

a desconfiança a deixa arredia

apesar de tanto carinho

a despeito de tanto cuidado

ela come na mão dele

mas não sem rodeios.

QUASE

o sorriso dela foi largo

cheio de certezas

dessas que voam leves no vento

sentiu o aconchego na distância de seu abraço

a ansiedade apertada de um beijo

sempre soube agradar com poesia

não, não era amor

mas era quase.

CATECISMO

inferno é perder a vida por medo.

o paraíso é presente.

te convido para o fogo.

(imagem @czek)

Paula Cajaty. Carioca, nascida em 1975, iniciou a carreira no Direito, mas encontrou na literatura o caminho para alcançar os próprios sonhos e prazeres. Em 2008, lançou o primeiro livro, Afrodite in verso, que tem como principais componentes a sensualidade, o romantismo e a poesia. O livro ganhou orelha do poeta Fabrício Carpinejar, e elogios de diversos escritores já consagrados por crítica e público. Outras informações em seu site (clique aqui).

Fonte germina literatura

18/11/2009 - 22:00h Boa noite


La Ronde des Lutins Op. 25, de Bazzini – Itzhak Perlman

18/11/2009 - 20:25h Poetrix

SOLO
lílian maial


violoncelo plangente
(o arco arranca sustenidos)
: sinfonia pelo chão

18/11/2009 - 19:42h Lontana da te…


Lontana da te. Ária da ópera Nina, o sia La pazza per amore, de Paisiello – Anna Caterina Antonacci

18/11/2009 - 18:44h La seda se desliza entre dos mujeres

Carmen Pascual – Carmensabes

  • Queridos amigos, siguiendo con el tema que en este blog tiene un especial protagonismo: mujeres en el arte, hoy os mostraré a una escritora que cultivó la poesía, casi diría que como un milagro, dada la dura vida que le fue impuesta.

  • Nació en China hace unos dos mil años, cuando las mujeres no tenían ninguna oportunidad de expresarse ni de demostrar su talento, éste, era dado solamente a los hombres, los cuales en su educación y en su cultura, concebían la poesía como algo esencial y obligatorio.
  • Y en ese tiempo, en la antigua china, una mujer llamada Yü Hsüan-Chi, se atrevió a escribir, expresó a través de su poesía sutil su sexualidad y sus sentimientos.
  • Fue concubina abandonada a su suerte y sacerdotisa del Tao.
  • Viajó por todo el país chino para posteriormente acusada de asesinato, morir ejecutada.

  • Os dejo una muestra de su poesía, lírica delicada e intensa que nos hace volar con ella y sentir algo de su esencia y su talento.
  • Por otra parte, para ilustrar los poemas de Yü Hsüan-Chi, una pintora, china también, llamada Xi Pan, joven y brillante que nos recuerda con sus trabajos a Matisse, klimt y a Schiele, nos deleita con un erotismo fresco, delicioso y lleno de guiños a Oriente y a Occidente.
  • Qué disfrutéis.

  • Sus hermosos poemas reposan
  • en la sombra del verano.
  • En una visita al templo taoista de Ch’hung Chen, veo
  • en la sala sur la lista de los candidatos triunfadores
  • en las examinaciones imperiales
  • Picos coronados de nubes llenan los ojos
  • en la luz de primavera.
  • Sus nombres están escritos en hermosos caracteres
  • y colocados por orden de mérito.
  • Levanto mi cabeza y leo sus nombres
  • con envidia impotente.
  • Cómo odio este vestido de seda
  • que oculta a un poeta.

  • Despierto
  • y el pequeño bote, a cuya proa
  • la Serpiente del Poder
  • navega,
  • ciega e inmóvil, me conduce
  • al mar de arena. Un sol nos derrite
  • mientras vuela
  • el pájaro de las rocas
  • y soberbia
  • cruza su sombra
  • sobre la fresca fuente de nuestras manos.
  • Se desliza la seda.
  • Por un largo camino
  • más allá del crepúsculo
  • van nuestros rostros enlazados.

  • Húmeda y fresca la noche.
  • Un suave viento del este
  • trae y disipa bancos de niebla.
  • Sueño que veo tu rostro
  • frente a las lámparas.
  • Me sonríe tras el leve maquillaje,
  • mientras tu mano reposa en mi mano.
  • Amiga mía,
  • millones de años a través de los cuales el Universo
  • asciende y declina,
  • y tú allí,
  • en tu vestido transparente de seda
  • viendo caer
  • las flores de ciruelo sobre la hierba.

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17/11/2009 - 22:00h Boa noite


estudo de virtuosismo 72-6 de Mozkowski, por Nelson Freire

17/11/2009 - 20:50h SEXTYNAMANTE E SEXTYNARREGANHADA

A página a seguir pode apresentar conteúdo erótico impróprio para menores de 18 anos e outras determinadas audiências.

Caso você seja maior de idade, prossiga. Se for pudibundo, melhor não…

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17/11/2009 - 20:04h NO BALANÇO DO METRÔ

Lílian Maial

Roberto acordou bem cedo, como de costume. Tomou seu banho, barbeou-se, tudo de sempre – a rotina de um homem comum, beirando os 40 anos, já com algumas “entradas”, alguma barriguinha, na verdade, já gostou bem mais de sua imagem no espelho. Mas até que ainda estava conservado, para um funcionário burocrata de uma empresa de informática. Bem casado, com uma mulher adorável, bonita, culta, um casal de filhos adolescentes, uma vida estável e invejada pela maioria dos amigos.
Naquela manhã abafada, saiu de casa apenas com o suco de laranja – não quis comer – o calor o incomodava.
Foi à pé até o metrô, meio desligado, pensando na vida e no alívio do vagão refrigerado. A plataforma já estava cheia e o trem logo chegou, lotado, ocupado por ternos, bolsas, celulares… Não havia muita escolha, segurou no suporte de teto, num canto do vagão, espremido entre um jovem mascando chicletes (logo pela manhã?) e uma mulher de média altura, de costas pra ele, cabelos em seu rosto, cheirosa.
O trem saiu da estação e o ar condicionado mal dava a perceber que estava ligado.
Em seu terno impecável, Roberto era um belo homem, notado por algumas secretárias aqui e acolá.
Na parada da estação seguinte, devido a uma freada brusca, Roberto segurou a mulher à sua frente, que desequilibrou-se e soltou a pasta de executiva que carregava sob o braço. Ao abaixarem-se, entreolharam-se, e ele pôde observar o olhar alegremente surpreso, de aprovação, da mulher ao fitá-lo. Ela corou suavemente, agradeceu e voltou à posição inicial, para a partida do comboio.
Ele ficou embevecido com a delicadeza dos olhos amendoados, que o fitaram de relance, bem maquiados, adornados por longos cílios e uma cabeleira negra, que lhe caía aos ombros. Mulher de uma morenice discreta e elegante, com olhos de feiticeira.
Mais uma estação, o vagão não comportava mais ninguém, mas as pessoas continuavam a entrar. Aquele cheiro de flores que emanava dos cabelos morenos tornou-se mais intenso, e ele percebeu que a moça estava mais perto. Sentiu-se subitamente excitado com a proximidade e passou a observar seus contornos.
De súbito, a mulher deu um passo para trás e seu corpo roliço tocou o de Roberto e, silenciosamente, assim permaneceram no balanço do metrô.
Na estação seguinte, ninguém desceu e, ao contrário, vários entraram, diminuindo ainda mais o espaço entre ele e a mulher.
Ao partir o vagão, a mulher, inesperadamente, encosta-se completamente em Roberto, e acomoda a cabeça em seu peito, afastando os cabelos, deixando a nuca e o pescoço livres. Sem pudores, ela começa a roçar seu traseiro arredondado em Roberto que, entre surpreso e maravilhado, sente crescer o volume nas calças. O balanço do trem aumenta o atrito, e ninguém consegue perceber nada, de tão imóveis que estão todos.
Roberto atreve-se e beija aquele pescoço perfumado, sussurra naquela orelhinha delicada, perfurada por uma singela pérola. Introduz a língua naquele pequeno lóbulo e sente a respiração alterada da mulher, que aceita as carícias sem nada dizer.
Naquele balanço, com o sexo resvalando no traseiro provocante da executiva, sente a mão pequena, porém firme, tocar-lhe as partes mais íntimas, apertando e soltando.
Ele estava deliciado, sua estação ainda demoraria, e ela não fazia menção de saltar.
Num ímpeto de valentia e desejo, com sua mão livre acaricia as coxas da morena e foi subindo o quanto pudesse. Ela consente, afastando ligeiramente as pernas, e ele alcança, protegido pelo anonimato da multidão, a umidade abundante daquela desconhecida. Sente seu calor, sente seu pulsar, sente seu cheiro inebriante. Aproxima-se mais e, apoiando-se nela, solta a outra mão, para acarinhar discretamente aqueles seios de pêras suculentas.
E vão assim, nessa sofreguidão disfarçada e gostosa por toda a viagem.
Aquele corpo quente, junto ao seu, aquela mãozinha buscando seu sexo, aqueles seios… Ele podia ouvir seus suspiros calados, seus gemidos mudos, seu arfar contido, e isso o excitava ainda mais.
Chegava sua estação, teria que saltar, queria poder falar com ela, trocar telefones, marcar no outro dia, mas não teve coragem. Ajeitou-se como pôde, ela também e, curiosamente, saltaram na mesma estação, mas pegaram direções opostas. Ele pensou em segui-la, mas tinha horário rigoroso no trabalho… Assim, apenas ficou a observá-la afastar-se, saia justa, sapatos altos, bolsa, pastinha…
E ela nem olhou pra trás…

Fonte Blog de Lílian Maial

17/11/2009 - 19:38h Tu ch’hai le penne amore


Cecilia Bartoli – “Tu ch’hai le penne amore”, de Caccini

Tu ch’hai le penne amore
E sai spiegarle a volo,
Deh muovi ratto un volo Fin là
dov’è’l mio core,
E se non sai la via,
Co’ miei sospir t’invia

Va pur ch’il troverrai
Tra ‘l velo e ‘l bianco seno,
O tra ‘l dolce sereno
De’ luminosi rai,
O tra bei nodi d’oro
Del mio dolce tesoro.

17/11/2009 - 18:45h Cubismo Órfico

Sonia Delaunay-Terk – Blog O Século prodigioso

Portrait of Philomene, 1907
Oil on canvas
Height: 40.64 cm (16 in.), Width: 42.55 cm (16.75 in.)
Private collection

Platter, 1912
Earthenware with slip decoration
H: 2 1/4 x W: 15 13/16 x D: 12 5/16 in (H: 6 x W: 40 x D: 33 cm)
Carnegie Museum of Art, Pittsburgh, Pennsylvania

Contrastes simultáneos, 1913
Oil on canvas
55 x 46 cm
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid

La Prose du Transsibérien et de la petite Jehanne de France, 1913
Huile sur cuir / Oil on leather
h: 22.8 x w: 19.6 cm / h: 9 x w: 7.7 in

Prismes électriques, 1914
Oil on canvas
2,50 m x 2,50 m
Pompidou Center, Paris

Flamenco dancer, 1916
Oil on canvas
448×600 mm
Private collection

Marché au Minho, 1916
Wax painting on canvas
2,16 m x 1,97 m
Pompidou Center, Paris

Portugese Still Life, 1916
Oil and wax on paper, laid down on canvas
Height: 66.04 cm (26 in.), Width: 92.08 cm (36.25 in.)
Private collection

Projet de couverture pour Vogue, 1916
Aquarelle, crayon, crayon de couleur, gouache
0.345 x 0.235 m.
Musée National d’Art Moderne – Centre Georges Pompidou, Paris

Projet de couverture pour Vogue, 1916
Aquarelle, crayon, crayon de couleur, gouache
0.345 x 0.235 m.
Musée National d’Art Moderne – Centre Georges Pompidou, Paris

Rythme sans fin, 1923
Aquarel en Oost-Indische inkt op papier
29 x 19 cm
Collection Charles Delaunay, Paris

Three women, 1925
Oil on canvas
146 x 114 cm
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid


“Robe-spirale”, Kledingontwerp voor het Carnaval van Rio de Janeiro, 1928
Aquarel
27,5 x 13 cm
Collection Bibliothèque National, Paris

Les filles en maillot de bain, 1928
Aquarel on paper
20×27 cm
Private collection

Rythme, 1938
Oil on canvas
1,49 m x 1,82 m
Pompidou Center, Paris

Untitled, 1945
Gouache and collage on paper
61 x 50 cm
Art Collection of the Biblioteca Luis Ángel Arango, Colombia

Composition, 1955
Oil on canvas
2,16 m x 1,60 m
Pompidou Center, Paris

Rythme couleur, 1958
Oil on canvas
143×100 cm
Musée National d’Art Moderne – Centre Georges Pompidou, Paris

Montjoie, July 25, 1968
Handmade book with oil on leather binding, and pages of pen & ink on paper
Book: 16 1/4 x 11 1/4 x 3/4 in (41.0 x 28.4 x 1.8 cm)
Box: 17 x 11 3/4 x 1 1/2 in (43.0 x 30.0 x 3.8 cm)
Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, Washington D.C.

Les Robes Poèmes, 1969
Lithographs
h: 11.2 x w: 8 in / h: 28.4 x w: 20.3 cm


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16/11/2009 - 22:00h Boa noite


Rapsódia Húngara n° 10 de Liszt – Nelson Freire

16/11/2009 - 20:50h Dominique Houyet

rhodesie rhodesia

rhodesie rhodesia

rhodesie rhodesia

rhodesie rhodesia

rhodesie rhodesia

NUS

Mais de Dominique Houyet aqui


16/11/2009 - 20:23h Luxúria

Lira pornoerótica inova a velha sextina

_______________________

Sendo a literatura investigação do humano, é apenas natural que a erotografia (sob qualquer forma) seja antiga como a civilização. Aliás, em seu Eros e Civilização, o filósofo Marcuse postulava que Eros, como princípio vital, rechaça a repressão e o controle.

Para deixar jorrar essa pulsão eruptiva, o poeta português Joaquim Estevez da Guarda retoma a sextina do século 12 em seu livro Llama de amor viva: Sextynas (Cadernos do Subsolo, Porto, Portugal, 2007). A sextina é uma complicada composição poética criada pelo trovador provençal Arnaut Daniel, que dela se serviu para bem cantar folguedos amorosos. Dante e Petrarca também praticaram a forma. Tecnicamente, a sextina consiste em seis sextilhas mais um terceto final, sendo que as rimas se repetem, de cabo a rabo, segundo uma ordem estrita, impondo uma circularidade ao discurso poético.

Neste Llama de amor viva — um verso tomado de empréstimo ao místico Juan de la Cruz —, Estevez da Guarda engaja-se na militância amatória de um Bocage clássico para louvar a “glória das feminis carnes” e o “lúbrico tormento” da cópula, chamando as partes ditas pudendas por seus nomes impróprios.

Numa era em que a pornografia eletrônica é um business bilionário, esta celebração do gozo carnal constitui, na verdade, uma transgressão às normas vigentes — a farta oferta de sexo virtual, a “neocaretice” pós-advento da Aids, as múltiplas formas de obscenidade em cartaz no mundo-mercado, no circo da mídia, na chamada sociedade do espetáculo e do controle. A surrada questão “arte ou pornografia” sequer se coloca aqui, pois o sextinário sexy de Estevez da Guarda — erudito e popular a um só tempo —, se filia a uma robusta tradição latina de letras lascivas, onde nada do que é humano é estranho à poesia. Em dez elaboradas “sextynas em medida velha e medida nova”, este liber libertinário exalta o gozo demasiado humano — o coito sem protocolo, sem repressão e sem preço.

O poeta põe as musas em pêlo, com pleno domínio da forma, do repertório clássico e da tradição portuguesa. Como assinala, no prefácio, o poeta galego Xosé Lois García, ao exaltar a liberdade instintiva, “doada pela própria natureza”, o sextinário compõe uma “liturgia laica” para espíritos livres. A língua franca de Eros reafirma, ainda e sempre, sua primazia.

O livro: Joaquim Estevez da Guarda. Llama de amor viva: Sextynas

(Porto, Portugal: Cadernos do Subsolo, 2007).

De feitura artesanal, é distribuído no Brasil pela Editora e Livraria Crisálida de Belo Horizonte.

Tel.: (31) 3222-4956 |  livraria@crisalida.com.br | Pode ser adquirido junto ao próprio autor, clicando aqui.


Luiz Roberto Guedes. Poeta, escritor e tradutor, nasceu e sobrevive em São Paulo. Publicou, entre outros, Calendário lunático — erotografia de Ana K (Ciência do Acidente, 2000), a novela O mamaluco voador (Travessa dos Editores, 2006), o infantil O Livro das Mákinas Malukas (Dubolsinho, 2007), Minima Immoralia/Dirty Limerix (Demônio Negro, 2007) e colaborou com Claudio Daniel nas antologias Íbis amarelo sobre fundo negro, poemas de José Kozer (Travessa dos Editores, 2005) e Jardim de Camaleões, poetas neobarrocos (Iluminuras, 2005). É letrista sob a identidade secreta de Paulo Flexa.

16/11/2009 - 19:40h Amarilli


A mezzo-soprano Cecilia Bartoli canta “Amarilli, mia bella”, de Giulio Caccini.

16/11/2009 - 18:59h O mítico Robert Capa será tema de três adaptações cinematográficas

Blog Images & Visions

© Foto de Cornell Capa / Magnum. O fotógrafo Robert Capa durante a cobertura da II Guerra Mundial, 1944.

Robert Capa (1913-1954), o mítico fotógrafo da agência Magnum vai ser tema de três adaptações cinematográficas. A Columbia Pictures anunciou que o americano Michele Mann , realizador de Public Enemies, será responsável por um filme que conta a história do famoso fotógrafo, com especial incidência no romance que manteve durante dois anos com a também fotógrafa Gerda Taro. O estúdio adquiriu os direitos do romance “Esperando por Robert Capa”, da espanhola Susana Fortes, e contratou Jez Butterworth para fazer a adaptação ao cinema. Por outro lado, de acordo com o site The Hollywood Reporter a produtora Irish DreamTime, do ator Pierce Brosnan, está desenvolvendo um projeto sobre o fotojornalista húngaro. A produtora tem um contrato de avaliação com a MGM, porém ainda não está definida a participação do estúdio no projeto. A realização deve ser entregue a Paul McGuigan do filme “Push – O Outro Lado do Crime”. Por último o filme “Capa em Israel”, será interpretado e realizado por Yvan Attal, com argumento de Yaron Seelig e produção de Jean-Luc Van Damme. Retratará o envolvimento do fotógrafo na Guerra da Independência de Israel, em 1948. No argumento, Capa apaixona-se por Noa, uma jovem e bela aprendiz de fotografia.
Fonte: Blog A Luz Clara e Images&Visions

16/11/2009 - 17:31h Aquarela

Valeria_Lima

Aquarela de Waleria Lima (fonte Wallarte)

16/11/2009 - 17:02h Entre deux pluies d’or

L’exposition du Louvre titrée Rivalités à Venise (jusqu’au 4 janvier) est une splendeur. Non seulement elle met côte à côte des Titien, des Véronèse, des Bassano, des Tintoret et quelques autres, montrant leurs différences, leurs similitudes, leurs inspirations réciproques, leurs manières de traiter tel ou tel thème, mais de plus elle a l’intelligence de  replacer ces rivalités dans un contexte historique, social, économique, politique tout à fait pertinent (ainsi du mécanisme des commandes publiques). Certes, mieux vaut connaître déjà un peu l’oeuvre de chacun des peintres, ce n’est pas une exposition d’initiation à la peinture vénitienne, et mieux vaut éviter les comparaisons simplistes (Giorgione = Manet, Titien = Renoir et Bassano = Monet…). Et, trop souvent, l’oeil non érudit est bien en peine d’attribuer un tableau avant de lire le cartel.

titien_danae_naples1.1257692624.jpgtitien_danae_prado1.1257692638.jpg

On commence donc par une Danaé de Titien (1544/1546), pure et idyllique, sensuelle et étonnée, flanquée de Cupidon, qui nous vient de Naples, et on finira avec celle qu’il peint dix ans plus tard (1553/1554) avec la servante cupide (une autre forme de désir), venue du Prado.

veronese.1257692682.jpgtintoret.1257692545.jpgtitien.1257692585.jpg

Entre les deux, on a du mal à choisir parmi les merveilles, éclairées par des cartels fort intelligents. Prenons par exemple ces trois portraits féminins côte à côte : celui de Tintoret (1553/1555), frontal, montre une jeune aristocrate distante et impassible. Celui de Titien (1560), en trois quarts gauche, en présente une autre somptueuse et altière (serait-ce sa propre fille ?), alors que la femme de Véronèse (1570/1572), en trois quarts droite, dénuée de bijoux, semble plus réelle et mature, mais peu amène.

veronese_a-barbarigo_cleveland1.1257692709.jpgLe portrait de l’amiral Agostino Barbarigo par Véronèse (1571/1572) est posthume, l’amiral est mort à Lépante d’un trait de flèche qui a percé son armure et que le peintre pérennise : il nous regarde avec détachement, de par delà la mort, le temps est ici suspendu.

titien_f-venier_madrid1.1257692650.jpgQuant au doge Francesco Venier, Titien (1554/1556) ne nous épargne rien de sa laideur, de son visage buriné et marqué de taches rouges, de son corps voûté, écrasé par le poids de la conduite de la République, mais quelle majesté !

Sans entrer ici dans les débats savants sur le paragone – sculpture, il est l’occasion de présenter nombre de tableaux où le jeu des reflets dans des miroirs ou des armures est prétexte à une grande virtuosité : Tintoret peignant un reflet de la princesse dans l’armure de Saint Georges qui la délivre, et Titien jouant avec la multiplication des images dans sa Femme aux miroirs.

veronese_livia_baltimore4001.1257692734.jpgveronese_iseppo_uffizi4001.1257692722.jpgL’exposition réunit les deux portraits par Véronèse (1551) de la famille da Porto (l’un vient de Florence, l’autre de Baltimore), mais curieusement échoue à recréer le jeu des regards entre mère et fils, qui faisait originellement écho d’un tableau à l’autre.

Plus loin, on peut voir ensemble trois baptêmes du Christ, celui de Bassano nocturne et massif, celui de Tintoret surnaturel et chorégraphique, et celui de Véronèse doux et onctueux, cependant que la très sombre Prière du Christ au Jardin des Oliviers de Titien relègue le Christ en haut du tableau comme une vignette lumineuse au dessus d’une masse obscure où on peine à distinguer un soldat, son chien et sa lanterne : superbe distorsion des priorités picturales, forçant le regard.

tintoret_tarquin-lucrece_chicago1.1257692560.jpgtitien_tarquin-lucrece_cambridge.1257692670.jpgEncore une juxtaposition, de Lucrèce et Tarquin : chez Tintoret (1580), on pourrait croire Lucrèce quasi consentante; certes le collier de perles est brisé et la statue chute, mais sa résistante semble presque caressante. Titien, lui, dans deux tableaux du même viol (1568/1571, Cambridge, montré ci-contre, et surtout Bordeaux, plus sombre, plus sauvage) peint la violence, les yeux exorbités, l’appel à l’aide.

veronese-mars-venus_cheval_turin1.1257692695.jpgDans ce tableau de Mars et Vénus, Véronèse (1575/1580) représente les amants dans une joute sensuelle,  surpris non par Vulcain, mais par un cheval voyeur, une tête de cheval qui étrangement descend un escalier (prouesse difficile comme le savent tous les cavaliers). Cupidon le mène par un licol : cette grosse tête de cheval peut paraître surréaliste ou étrangement inquiétante (voir le petit livre d’Edouard Dor*), elle dérange et trouble la vision esthétique des corps des amants.

sustris_venus_louvre1.1257692522.jpgEnfin, avec un sujet voisin, voici Vénus et l’Amour attendant Mars de Lambert Sustris (1550/1555), hollandais vivant à Venise : voyez comme le corps féminin est ici différent, plus fin, plus nerveux, moins indolent. Ce tableau d’un homme du nord à demi converti aux grâces vénitiennes vient en contraste de toute l’exposition, dont il est un peu le contrepoint.

Le catalogue est excellent, et comprend plusieurs textes passionnants, dont celui de Guillaume Cassegrain sur la mort; il est disponible chez Dessin Original pour 39.90 euros.  Je vous conseille aussi de lire Nudités de Venise d’Alain Buisine, récemment décédé (chez Dessin Original pour 16.15 euros).

* livre disponible chez Dessin Original pour 14.25 euros.