25/08/2009 - 11:21h China supera a Alemanha como maior exportador

Comércio: Dados do 1º semestre mostram pequena vantagem chinesa

Ralph Atkins, Financial Times, de Frankfurt – VALOR

As exportações chinesas abriram uma ligeira dianteira em relação às da Alemanha no primeiro semestre deste ano, segundo novos dados divulgados ontem, em mais uma indicação de que a posição da Alemanha, de principal país exportador do mundo, está ameaçada.

A China exportou mercadorias em valor equivalente a US$ 521,7 bilhões no primeiro semestre do ano, enquanto o total da Alemanha foi US$ 521,6 bilhões, conforme anunciou a Organização Mundial do Comércio (OMC), com sede em Genebra.

Estes números de exportação são acompanhados de perto na Alemanha, a maior economia da Europa, que terá eleições nacionais no próximo mês. As vendas dos seus produtos industriais têm impulsionado em grande parte o crescimento econômico nos últimos anos e, durante toda a crise econômica, o governo da premiê conservadora Angela Merkel tem defendido firmemente o modelo econômico do país, voltado às exportações.

Foto Destaque

A Alemanha há muito tempo vem se preparando para que a economia chinesa, de crescimento muito mais acelerado, assuma o seu título de “campeã mundial de exportações”.

O valor provável das exportações alemãs e chinesas para o ano cheio continua, porém, incerto e dependerá decisivamente das oscilações das taxas de câmbio nos próximos meses.

Um euro forte poderia ajudar a reduzir as vendas da Alemanha. Os setores exportadores do país mostraram sinais de recuperação nos meses recentes.

“Está apertado demais para podermos extrapolar para o ano todo e, quem dirá, para o próximo ano”, afirmou Patrick Low, economista-chefe da OMC.

As exportações alemãs foram duramente abaladas pela queda na confiança mundial que se seguiu à derrocada do banco de investimentos americano Lehman Brothers, no ano passado.

Mas surgiram sólidos sinais de uma sólida retomada no crescimento. Em junho, mês mais recente para o qual há dados disponíveis, as exportações alemãs deram um salto de 7% na comparação com o mês anterior. Apesar disso, elas ainda ficaram 22,3% abaixo do nível do ano anterior. As exportações chinesas seguiram um padrão semelhante.

O aumento repentino nas exportações ajudou a explicar porque a Alemanha conseguiu registrar um aumento no PIB no segundo trimestre, na comparação com o trimestre anterior – dando a entender que o país teria saído da recessão antes dos EUA, Reino Unido e da maioria das demais grandes economias da UE.

Por sua vez, a recuperação na Alemanha está ajudando a elevar o desempenho global da zona do euro. As encomendas à indústria na zona do euro dispararam, numa alta de 3,1% em junho, na comparação com o mês anterior (leia texto ao lado), segundo dados da Eurostat, a agência oficial de estatísticas da União Europeia.

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Para Pequim, estímulo ainda é necessário

Agências internacionais – VALOR

O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, disse que a economia de seu país “ainda enfrenta muitas novas dificuldades e problemas” e que o governo manterá suas políticas de estímulo uma vez que recuperação ainda carece de bases sólidas.

Wen disse que apesar de melhoras nas condições da economia chinesa, não se pode ser “cegamente otimista”. As declarações foram feitas ontem durante visita ao sul do país e veiculadas pelo site do gabinete do premiê.

“Ainda há muitos fatores de instabilidade e de incerteza pela frente e a situação econômica futura é ainda muito grave, embora tanto a economia mundial quanto a economia nacional estejam passando por mudanças positivas neste momento.”

O premiê advertiu também que os efeitos de algumas das medidas do governo podem começar a perder força enquanto outras levarão algum tempo até apresentarem resultados. No comunicado do gabinete com as declarações de Wen não há mais detalhes dos problemas mencionados por ele.

A cautela do líder chinês contrasta com um otimismo crescente entre muitos analistas que dizem que a China está fazendo progressos impressionantes para deixar para trás os efeitos da crise. Muitos têm repetido que a China será a primeira grande economia a sair da maior retração mundial desde os anos 30.

Wen prometeu que Pequim continuará aplicando suas políticas para incrementar a demanda doméstica, ampliar o crédito e melhorar eficiência. O país está pondo em prática a um plano de estímulo de US$ 586 bilhões previsto para durar dois anos. O objetivo é injetar recursos do Estado na economia para estimular o consumo doméstico por meio de maiores gastos públicos em obras e ampliação de crédito.

O Banco da Construção da China afirmou ontem, no entanto, que há o excesso de recursos no sistema bancário está criando uma bolhas do mercado, o que deu asas a temores de que autoridades chinesas estejam preparando – ao contrário da promessa de Wen – um aperto no crédito.

“Há incerteza na economia e bolhas no mercado de capitais”, disse Guo Shuqing, presidente do banco, o segundo maior do país. “O sistema bancário chinês ainda tem excesso de liquidez.”

No primeiro trimestre, bancos do país concederam um valor recorde de US$ 1,1 trilhão em novos empréstimos para ajudar a por em prática o pacote de estímulo do governo.

Foi o pacote que contribuiu para que a economia chinesa tivesse um crescimento de 7,9% no último trimestre – ante os 6,1% do trimestre anterior. O premiê e outras autoridades chinesas têm alertado, no entanto, que muitas empresas no país ainda registram resultados ruins e que outras áreas mostram que a fase de recuperação ainda não está bem fundada.

“A fundação da recuperação econômica não está estável, não está firme, não está equilibrada e certamente não podemos ser cegamente otimistas”, disse Wen.

A meta de crescimento do governo para este ano é de 8%. Estimativas de analistas privados variam de 7% a 9,4%.

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Demanda chinesa puxa o Japão

Bloomberg – VALOR

A demanda da China, a economia que mais cresce entre as principais do mundo, está contribuindo para tirar o Japão de sua mais grave recessão do pós-guerra, disse uma destacada economista do governo japonês.

“Não há dúvida de que a recuperação econômica da China está contribuindo para uma reação no Japão e em outras economias da região”, disse Tomoko Hayashi, diretora para economias externas da Secretaria de Governo em Tóquio.

Indústrias, da Honda à Komatsu, se beneficiaram no trimestre passado com o pacote de incentivo econômico da China, de 4 trilhões de iuan (US$ 585 bilhões), o que ajudou a economia do Japão a crescer pela primeira vez em mais de um ano. As exportações para a China superaram as vendas para os Estados Unidos e fizeram com que o país se tornasse o maior mercado externo do Japão este ano. O mercado chinês está compensando a fragilidade dos gastos do consumidor e das empresas no mercado japonês.

A “recuperação [do Japão] seguirá dependendo muito da demanda externa e do pacotes de estímulo no segundo semestre de 2009 e início de 2010″, disse Tetsufumi Yamakawa, economista-chefe para Japão do Goldman Sachs.

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Imóvel comercial dispara na China

Bloomberg – VALOR

A China superou os EUA e o Reino Unido juntos em vendas de imóveis comerciais no primeiro semestre do ano, disse a empresa de pesquisa Real Capital Analytics, sediada em Nova York.

As transações chinesas totalizaram US$ 31,2 bilhões, depois da disparada de vendas propiciada pelo boom de crédito patrocinado pelo governo chinês. As vendas nos EUA somaram US$ 16,2 bilhões no primeiro semestre, segundo o relatório, e as do Reino Unido, US$ 13,7 bilhões.

“Não há dúvida que de a China será um participante mais significativo no cenário mundial de transações de imóveis comerciais”, disse Dan Fasulo, diretor-executivo da Real Capital.

Cerca de US$ 62,8 bilhões em imóveis comerciais foram negociados mundialmente no segundo trimestre, 17% a mais que nos três meses anteriores, o que representa o primeiro aumento em 18 meses, disse a Real Capital.

Esse crescimento indica uma recuperação mundial. O total mundial de vendas no primeiro semestre foi de US$ 116,4 bilhões, 65% a menos que no mesmo período do ano passado e US$ 500 bilhões a menos que no pico no primeiro semestre de 2007. Espera-se que as vendas cresçam neste semestre.

14/08/2009 - 09:49h China deve liderar saída da crise na Ásia

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RETOMADA

O Estado SP

Todas as grandes economias da Ásia vão crescer no próximo ano, lideradas pela China, conforme a região sai da crise global, afirmou ontem a agência de classificação de risco Standard & Poor?s. O economista-chefe para Ásia Pacífico da agência, Subir Gokarn, disse que a China vai crescer entre 7,5% e 8% este ano – perto das estimativas do governo chinês – e entre 8% e 8,5% em 2010, com a Índia também contribuindo fortemente para a recuperação asiática. Por outro lado, a economia do Japão poderá ter contração entre 6% e 6,5% este ano, e deve crescer só em 2010, entre 0,8% e 1,3%.

17/03/2009 - 09:41h Brasil capta recursos, mas América Latina tem saques

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Por Eduardo Campos, Valor Online, de São Paulo

Os fundos de ações voltados para a América Latina marcaram a segunda semana seguida de perda de recursos. No acumulado do ano até a o dia 11 de março, no entanto, essas carteiras ainda registram captação líquida de US$ 773 milhões. O total pode não parecer muito, mas, quando comparado a igual período do ano passado, a cifra ganha outra proporção. Naquele período, o resultado era negativo em US$ 1,4 bilhão.

Ainda entre os emergentes, segundo números da EPFR Global, consultoria que acompanha a movimentação dos fundos globalmente, houve ingresso de US$ 92 milhões nos fundos de ações dedicados à Ásia (sem contar com o Japão) na semana encerrada no dia 11. Já a categoria dos diversificados Mercados Emergentes Globais (GEM, na sigla em inglês) registraram captação de US$ 340 milhões no período. No acumulado do ano, os fundos da Ásia marcam saques líquidos de US$ 1,74 bilhão, enquanto os GEMs apresentam entradas de US$ 1,62 bilhão.

Os mercados emergentes da Europa, Oriente Médio e África (EMEA, na sigla em inglês) voltaram a ser alvo de saques dos investidores na semana encerrada no dia 11. No ano, a categoria já perdeu US$ 1,26 bilhão.

Na avaliação por país, os fundos de ações voltados ao Brasil e para o México receberam dinheiro novo, assim como as aplicações destinadas à China. Já as carteiras que apostam na Rússia marcaram a quarta semana consecutiva de retiradas.

Segundo o diretor-gerente da consultoria, Brad Durham, os mercados emergentes têm mostrado maior resistência em termos de fluxo de recursos desde o começo do ano se comparados a seus pares desenvolvidos. Uma explicação seria a crença de que esses países apresentam um melhor perfil fiscal quando comparados aos países de centro.

Embora os resgates tenham predominado em fundos de ações durante a segunda semana de março, a EPFR Global afirma que já foi possível perceber alguma melhora no apetite por risco. Isso porque os “money market funds”, categoria que reúne carteiras de curto prazo e de baixo risco, registraram saídas de US$ 381 milhões.

Pela quarta semana seguida, todos os grandes grupo voltados aos países desenvolvidos perderam dinheiro. Os fundos de ações voltados para os Estados Unidos registraram resgates pela sexta semana consecutiva. Mas esse quadro já pode ter mudado, pois o Dow Jones, principal índice de ações do país fechou a semana encerrada no dia 11 com valorização de 9%.

Na Europa, a retirada de recursos continuou em meio às perspectivas de piora adicional no quadro econômico e maior dificuldade em arquitetar um trabalho de recuperação envolvendo todas as nações da região. No Japão, a saída de dinheiro somou US$ 456 milhões, elevando o total perdido no ano para cima dos US$ 2 bilhões.

Entre os fundos setoriais, o grupo finanças teve a melhor performance semanal entre as nove categorias acompanhadas. No período, as carteiras receberam mais de US$ 200 milhões.

Dinheiro novo também foi enviado na semana do dia 11 para os fundos de tecnologia e energia, de acordo com os dados da consultoria. Commodities e imóveis/construção também receberam aportes. “Isso pode ser interpretado como um posicionamento para uma retomada no crescimento ou uma forma de proteção contra um cenário de inflação”, disse o analista-sênior da EPFR Global, Cameron Brandt, em comunicado.

13/03/2009 - 11:21h O Brasil que incomoda

Ruy Baron / Valor
O presidente Lula, que se encontra com Barack Obama neste fim de semana em Washington, reflete a imagem de um país que já não é confundido com republiquetas

Por Marta Barcellos, para o Valor, do Rio

É pouco provável que Barack Obama cometa gafes ao referir-se ao Brasil no encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Washington, neste sábado. Os tempos em que um presidente americano podia confundir o país com a Bolívia, como fez Ronald Regan em 1982, parecem fazer parte de um passado distante, especialmente quando um líder de reconhecido porte intelectual chega à Casa Branca. No entanto, pode-se afirmar que o mérito de distinguir o Brasil, agora, não é apenas de Obama. Ao ganhar relevância econômica e política, nos últimos anos, o país deixou para trás a difusa imagem de mais uma “república das bananas” para ganhar contornos nítidos no noticiário internacional. Nas últimas semanas, por exemplo, os correspondentes estrangeiros não tiveram muito tempo para reportagens pitorescas sobre verão ou carnaval: precisavam também analisar o impacto da crise financeira internacional no país e explicar a estratégia adotada pelo governo para enfrentá-la.

Mas a ideia de que bastaria nos livrarmos dos olhares preconceituosos, folclóricos ou desinformados para cairmos nas graças da opinião pública internacional revelou-se uma falácia. Estar em evidência pode significar também contrariar interesses e dar munição para que apontem, com embasamento, nossas mazelas. É o que mostra uma pesquisa do instituto GlobeScan, de Londres, realizada em 21 países. Mesmo bem cotado em relação aos demais, o Brasil viu aumentar a percepção negativa sobre sua influência no mundo justamente em quatro países ricos: Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e França.

Segundo o levantamento, a visão predominantemente negativa dos americanos em relação ao Brasil aumentou de 19% para 23% no último ano. No caso da França, essa percepção subiu de 23% para 33% dos entrevistados, e no Reino Unido, de 31% para 35%. O resultado negativo mais surpreendente veio da Alemanha, onde 40% das pessoas disseram que o Brasil exerce má influência no mundo, proporção que estava em 28% na pesquisa anterior. Na perspectiva alemã, ao contrário dos outros três países, a visão negativa passou a superar a positiva, de apenas 30%. O quadro é bem diferente, por exemplo, do radiografado nos Estados Unidos, onde, embora maior, a visão negativa do Brasil corresponde à metade das opiniões favoráveis, de 47%.

O Brasil segue o padrão verificado na avaliação da China, Rússia e Índia, seus companheiros no grupo de principais economias emergentes (o chamado Bric) – com o detalhe de que os dois primeiros foram destacados na pesquisa divulgada globalmente pelo instituto, pois a visão negativa sobre ambos passou de uma média de 33% para 40%, e de 34% para 42%, respectivamente. Na avaliação feita pelos alemães, China, Rússia e Índia registraram pioras na imagem mais expressivas do que no caso brasileiro.

Para Sam Mountford, diretor de pesquisas da GlobeScan, os efeitos da crise econômica na pesquisa são difíceis de mensurar, já que a maior parte das entrevistas aconteceu no final do ano passado, quando a dimensão real da turbulência ainda não fora percebida pelo público. Mesmo assim, ele acredita que a avaliação mais negativa recebida pelo Brasil nos Estados Unidos, Alemanha, França e Reino Unido deve estar relacionada ao desenvolvimento econômico do país. “O Brasil é cada vez mais notícia”, diz Mountford. “Há muita discussão sobre o crescimento do Brasil, China, Rússia e Índia na mídia desses países e é bastante provável que essas pessoas estejam começando a se sentir ameaçadas – do ponto de vista econômico, não político”, ressalta.

“Existe um preço para a maior exposição internacional”, concorda o cientista político Amaury de Souza, consultor da MCM Associados. “Na América do Sul, por exemplo, já somos vistos como os novos yankees.”

O publicitário Nizan Guanaes, presidente do Grupo ABC, acredita que a imagem do Brasil não poderia estar melhor no exterior, por consequência das conquistas econômicas e institucionais dos últimos anos, e atribui qualquer variação nessa percepção ao incômodo causado pela competição internacional. “Talvez fosse mais fácil gostar do Brasil do mulato faceiro do que do gigante”, diz. “Não dá para querer ser sempre o queridinho, ainda mais quando se está travando embates de mercado, em um mundo cada vez mais protecionista.”

A maior visibilidade do país aconteceu principalmente em função de a sigla Bric ter caído no gosto popular, lembra Amaury de Souza. Ao surfar na promissora onda das nações que seriam os “tijolos” (”bricks”, em inglês) a sustentar o crescimento global, o Brasil conseguiu projeção e distinção, mas também passou a ser visto como parte de um bloco. É justamente a imagem desse conjunto de países que pode estar em questão, diz Matias Spektor, doutor em relações internacionais pela Universidade de Oxford e coordenador do MBA de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo ele, os países do Bric tendem a perder espaço com a crise econômica, enquanto os Estados Unidos veem aumentar sua própria importância – o que estaria implícito na pesquisa da GlobeScan. Na média, a visão negativa sobre os Estados Unidos caiu de 47% para 43%, enquanto a positiva aumentou de 35% para 40%, refletindo também a eleição de Barack Obama. “A opinião pública espera que a solução da crise venha por meio da liderança americana, e não que passe pelo Bric, cuja imagem agora está mais próxima da de tijolos desmoronando”, compara Spektor. Ele destaca que a situação da economia internacional hoje é mais hostil, e o clima de tormenta aumenta a tensão entre os países.

Mas a imagem do Brasil vai além de sua identificação como integrante do Bric, o que é evidenciado pela sexta posição ocupada na média de avaliações feitas sobre 15 países, atrás apenas de Alemanha, Canadá, Grã-Bretanha, Japão e França. Essa é a boa notícia do levantamento, diz o professor da FGV. Spektor observa que, nesse ranking geral, o Brasil está acompanhado justamente por países que também pleiteiam uma cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas: Alemanha, Japão, Índia e África do Sul. A pretensão brasileira, ressalta, não pode ser vista apenas como uma forma de aumentar o status ou a visibilidade do país. “Ganhar influência e poder nas relações internacionais sempre vem junto com um custo.”

Um exemplo de responsabilidade que aparece com a conquista de status internacional é a questão ambiental, apontada como uma das fragilidades da imagem brasileira por uma pesquisa qualitativa paralela ao estudo, na qual os entrevistados explicaram sua opinião sobre o país. Nessa pequena amostra, conta Mountford, foi detectada uma forte preocupação com as perdas da floresta amazônica e a percepção de que o governo brasileiro, apesar do desenvolvimento econômico, não combate o problema como deveria. Nesse grupo de pessoas, entrevistadas pela BBC, também foram mencionados problemas como a corrupção e a desigualdade na distribuição da riqueza no país. A democracia e o desenvolvimento econômico foram os destaques positivos.

Os comentários mostram um conhecimento da realidade brasileira impensável algumas décadas atrás, quando os correspondentes estrangeiros tentavam explicar planos econômicos estapafúrdios, nas reportagens, enquanto seus leitores imaginavam índios andando pelas ruas das cidades. “Isso mudou radicalmente”, diz Mery Galanternick, que começou a trabalhar na sucursal brasileira do “New York Times” na década de 1960. “O Brasil agora chama a atenção pelo que está fazendo de relevante. Passou a ser considerado um ‘player’ global.”

Jens Glüsing, correspondente da “Der Spiegel”, acredita que a redução do Brasil a um país de mulheres bonitas e futebol ocorre na mesma proporção em que muitos brasileiros veem os alemães apenas como bebedores de cerveja. “As pessoas com mais formação são bem informadas sobre o Brasil, conhecem detalhes da economia e da política. A imagem do presidente Lula, entre os formadores de opinião, é melhor lá fora do que aqui, até porque há uma comparação com o [presidente da Venezuela] Hugo Chaves.”

O calcanhar de Aquiles brasileiro, que poderia explicar a virada na visão alemã do país na pesquisa GlobeScan, é a política ambiental. “Nesse aspecto, e acredito que somente nele, a imagem do país deve estar realmente piorando na Alemanha”, diz Glüsing. O jornalista foi a Brasília no ano passado para cobrir a visita da primeira-ministra Angela Merkel, e recorda-se da “saia justa” que representou a coincidência entre a chegada da governante alemã e a renúncia da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Para o cientista político Amaury de Souza, a sensibilidade ao tema ambiental extrapola os limites da Alemanha, berço do primeiro partido verde do planeta. “Não nos damos conta da reação que as notícias negativas sobre ambiente geram no exterior”, afirma Souza. “O que para nós é tolerável, para eles é execrável.”

Preocupado com a imagem externa, o governo brasileiro contratou no fim do ano passado a Companhia da Notícia (CDN) para trabalhar de forma integrada à Secretaria de Comunicação Social (Secom) em ações voltadas principalmente aos Estados Unidos, Europa e Ásia. “Faremos um trabalho de divulgação dos esforços do governo para combater o desmatamento”, diz Rodrigo Baena, diretor internacional da Secom. Em um primeiro momento, o trabalho na área ambiental será direcionado para o monitoramento do que é publicado pela imprensa internacional, explica Andrew Greenlees, vice-presidente da CDN. “Percebemos que existem muitos equívocos em relação a dados, que são divulgados ou interpretados de forma incorreta.”

Na licitação para a contratação da agência, em abril do ano passado, o governo demonstrou preocupação com duas áreas, que deveriam ser alvo de propostas detalhadas por parte das candidatas: etanol e tecnologia da informação (TI). Vencedora da concorrência, a CDN constatou em seus estudos um alto grau de conhecimento do etanol brasileiro, ao contrário do setor de TI. A crise internacional, porém, acabou por mudar o foco e a agenda econômica do país, tornando o assunto menos relevante. “Estamos discutindo agora quais temas serão prioridade”, diz Greenlees. “Mas já percebemos algumas oportunidades de divulgação, como na área de energia, na qual há muito interesse e veículos especializados.”

O alcance de ações de divulgação, no entanto, tornou-se motivo de controvérsia desde que o governo anunciou o gasto anual de R$ 15 milhões no projeto. “O Brasil não vai conseguir controlar o que é publicado sobre a Amazônia, onde estão muitos pesquisadores estrangeiros”, diz Glüsing, da “Der Spiegel”, lembrando do impacto das reportagens sobre a região feitas pela “Nature”, uma das revistas científicas mais conceituadas do mundo. “Mais importante do que melhorar a imagem, é melhorar a realidade”, diz ele. Nesse sentido, a próxima reunião das Nações Unidas sobre mudança climática, marcada para o fim do ano em Copenhagen, poderia ser uma oportunidade efetiva para o Brasil, diz Matias Spektor. “Mas somente se houver uma mudança de atitude”, ressalta. “Para ser um ‘player’ importante, é preciso assumir um custo, fazer coisas que não são necessárias quando se é um jogador secundário.”

No caso do ambiente, o Brasil não tem como fugir do papel de líder, acredita o professor Celso Lafer, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e ministro das Relações Exteriores durante o governo Fernando Henrique Cardoso. A floresta, a matriz energética limpa, a biodiversidade e o etanol tornam as decisões do país fundamentais para o resto do planeta, independentemente do desejo de assumir essa liderança. “É um caso em que se mistura o ’soft power’ e o ‘hard power’ “, afirma, referindo-se aos conceitos celebrizados pelo cientista político americano Joseph Nye, e que também servem para classificar as formas de inserção internacional de um país.

Quando ministro, Lafer teve uma conversa com o jornalista americano Larry Rohter transcrita no livro “Deu no New York Times”, no qual o correspondente conta histórias de sua experiência no Brasil. Nela, ambos concordavam com vocação do Brasil para exercer atração e influência por meio do “soft power”, mais relacionado à cultura, ao esporte e aos valores. O outro caminho, o “hard power”, seria o do poder militar ou econômico – impensável naqueles anos, em que a estabilidade da moeda ainda não se traduzira em crescimento. Para Lafer, as duas formas de poder são cada vez mais complementares. “A eleição de Obama representou a recapitalização do ’soft power’ para os Estados Unidos”, exemplifica.

Da mesma forma, governantes que deveriam discutir questões bilaterais de impacto acabam pautados por casos que mobilizam a opinião pública de seus países, como o da brasileira Paula Oliveira, que afirmou ter sido agredida por neonazistas na Suíça, ou do menino Sean Goldman, cuja guarda é disputada pelo pai americano e avós brasileiros.

Casos assim são importantes na construção da imagem de um país? Para Matias Spektor, assuntos dessa natureza são passageiros, e não dominam de fato as agendas dos países. Já Lafer acha que essas questões são relevantes, e os governos não têm como fugir delas. “É a velha história: todo presidente quer pautar a imprensa, e toda imprensa quer pautar o presidente.”

09/03/2009 - 10:06h Mudanças climáticas e biocombustíveis

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Alysson Paulinelli e Antonio Licio – O Estado SP

O mundo parece finalmente reconhecer o fenômeno do aquecimento global, embora ainda discuta as proporções de suas origens, entre antrópicas e naturais, e suas reais dimensões. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima em 28 bilhões de toneladas as emissões de gases de efeito estufa – GEE – em 2006, enquanto o Departamento de Energia dos EUA (DoE) mensura de 11 bilhões a 12 bilhões. A primeira diz que o Brasil emite 303 milhões de toneladas, o DoE estima em 294 milhões e nosso Ministério do Meio Ambiente fala em 1,02 bilhão, diferença supostamente atribuída às queimadas de matas. Provavelmente as primeiras não consideram os GEE derivados de queimadas porque esses vegetais já sequestraram CO2 quando em crescimento, e a queimada simplesmente zera a contabilidade das emissões.

Se as origens e dimensões do fenômeno mostram-se tão controvertidas, maior ainda é a confusão sobre como atacar o problema que poderá, nas hipóteses mais pessimistas, aquecer a Terra em até 3°C, com consequências imprevisíveis. Ninguém aponta perspectivas concretas de solução, nem mesmo o respeitado Al Gore. Somente agora os EUA concordam em fazer algo, não se sabe exatamente o quê. A União Europeia anunciou uma política de 3 vezes “20%?s”: 20% de aumento de eficiência da matriz energética, 20% de redução de emissões de CO2 e 20% de participação de energia limpa até 2020. Será isso possível?

A matriz energética mundial tem a seguinte distribuição, em termos de energia primária: 34% de petróleo, 26% de carvão mineral, 21% de gás natural, somando 81% de combustíveis fósseis, ou “sujos”. Os demais 19% “limpos” originam-se em nuclear (6,2%), hidrelétrica (2,2%), 10,1% de combustíveis renováveis (lenha e biocombustíveis) e somente 0,6% de “outras limpas” (eólica, solar, geotérmica, etc.). Na geração de eletricidade, 41% advêm do carvão; 20% do gás natural; 15% de hidráulica; 15% de nuclear; 6% do petróleo; e 2% de outras fontes, segundo a mesma AIE.

A simples observação desses dados revela a enorme rigidez para se alterar esta matriz, de “suja” para “limpa”. Mais: nos grandes países emergentes – Índia e China – e nos EUA só restarão fontes sujíssimas de carvão mineral no futuro. As fontes hidráulicas já estão comprometidas em 70% de seu potencial, o restante é inviável econômica e ambientalmente. Em suma, a perspectiva concreta de geração elétrica virá, infelizmente, de usinas nucleares e a carvão mineral, cujas fontes ainda serão abundantes por mais de uma centena de anos, e do gás natural, menos sujo, mas fóssil e finito.

Por sua vez, o petróleo, principal fonte de energia para transportes, nos oferece o seguinte dilema: ou se extingue na metade deste século – e nesse caso sua contribuição para o aquecimento global é um falso problema – ou continuará “sujando” a matriz. Em qualquer situação há que se viabilizar substitutos.

Despontam aqui os biocombustíveis, curiosamente pouco estudados, tratados mesmo por alguns como inviáveis como solução de larga escala, tal como foi no início do Pro-álcool há 34 anos. Achamos que falta conhecimento agrícola-econômico sobre o assunto, pois a partir do preço do petróleo de US$ 40 a US$ 50 o barril, os biocombustíveis, álcool de cana e biodiesel de dendê são absolutamente viáveis mesmo sem programas ambientais de governo de utilização compulsória.

O mundo consome hoje 1,2 trilhão de litros de gasolina e 1,3 trilhão de litros de diesel anualmente (DoE, 2005), que requereriam, respectivamente, ao redor de 180 milhões e 220 milhões de hectares de cana-de-açúcar e dendê, únicas plantas atualmente com tecnologias capazes de produzir álcool e biodiesel em volumes significativos e competitivamente. Existiriam essas áreas disponíveis no mundo?

No caso da cana, grosso modo, somente com substituição de atuais áreas de pastagens ou de grãos, considerando seu especial requerimento de clima: tropical, sem excessos nem déficits hídricos. No Brasil há mais de 100 milhões de hectares neste clima, inclusive áreas impróprias, como Pantanal, e montanhosas. Parte desses pastos poderá ser empurrada para regiões mais secas. Internacionalmente, a exceção fica por conta de regiões da África Meridional onde ainda há terras ociosas com clima adequado (savanas), mas de difícil mobilização empresarial.

Não se considerou aqui o uso do etanol de milho nem a biomassa de capim para queima e geração termoelétrica, dado o alto custo de oportunidade em desviar áreas alimentícias, nem as perspectivas de etanol de celulose, incógnita bioquímica e econômica, que uma vez equacionada resolverá também o problema alimentar mundial: folhas, galhos e capins poderão ser comidos pelo homem.

No caso do dendê, as perspectivas são bem mais promissoras, pois o clima exigido é o equatorial superúmido (latitudes 10° norte e sul) onde a produção mecanizada de grãos é inviável e sobram áreas com baixo ou nenhum aproveitamento agrícola (somente na Amazônia brasileira há 73 milhões de hectares desmatados, 17 dos quais degradados). Enquadram-se aí toda a Amazônia (450 milhões de hectares), a África úmida (350 milhões de hectares) e partes da Ásia (Indonésia, Filipinas, Bornéu e Papua-Nova Guiné, com 300 milhões hectares), onde certamente os atuais subaproveitamentos agrícolas darão lugar a florestas energéticas. Milhões de empregos poderão ser gerados em áreas pobres.

Dessas regiões virão os necessários combustíveis líquidos do futuro, além de ser a única perspectiva concreta para ajudar a “limpar” a atual matriz energética mundial, alterando ainda profundamente a geografia econômica e a geopolítica mundial.

*Alysson Paulinelli, engenheiro agrônomo, foi ministro da Agricultura e Antonio Licio, economista, foi diretor do Ministério da Agricultura. Ambos participaram da concepção e implantação do Proálcool entre 1975-79

08/03/2009 - 12:09h O mundo precisa de mulheres livres


Desafios atuais são grandes e complexos demais para serem resolvidos sem a participação delas

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Hillary Clinton* – O Estado SP

Há 11 anos, em viagem à China, encontrei ativistas que me relataram seus esforços para melhorar a situação da mulher no país. Elas me apresentaram os desafios enfrentados pelas mulheres: discriminação no emprego, assistência médica inadequada, violência doméstica, leis antiquadas.

Reencontrei algumas delas há poucas semanas, durante minha primeira viagem à Ásia como secretária de Estado. Desta vez, ouvi sobre progressos obtidos na década passada. No entanto, mesmo após alguns avanços importantes, essas mulheres chinesas não deixaram dúvidas de que ainda existem obstáculos e injustiças, como ocorre em muitas partes do mundo.

Tenho ouvido histórias como as delas em todos os continentes. Em 8 de março, ao comemorarmos o Dia Internacional da Mulher, temos a chance de avaliar tanto os avanços conquistados quanto os desafios remanescentes – e de pensar sobre o papel vital que as mulheres devem desempenhar na solução dos desafios globais do século 21.

Os problemas que enfrentamos hoje são demasiadamente grandes e complexos para serem resolvidos sem a plena participação das mulheres. Fortalecer os direitos das mulheres não é somente obrigação moral, é também uma necessidade, no momento em que enfrentamos uma crise econômica global, disseminação do terrorismo e das armas nucleares, conflitos regionais e mudanças climáticas, com seus respectivos perigos para a saúde e a segurança mundiais. Esses desafios exigem tudo o que temos. Não os resolveremos com meias medidas. Mas com frequência metade do mundo é deixada de fora dessas e muitas outras questões.

Atualmente, mais mulheres chefiam governos, empresas e ONGs do que nas gerações anteriores. Mas essa boa notícia tem outro lado. As mulheres ainda constituem a maioria dos pobres, desnutridos e não escolarizados do mundo. Ainda estão sujeitas a estupro como tática de guerra e ainda são exploradas em âmbito mundial por traficantes, em atividades criminosas que rendem bilhões.

Crimes em nome da honra, mutilação genital, além de outras práticas violentas e degradantes cujo alvo são mulheres, continuam a ser toleradas em muitos lugares. Há poucos meses, uma jovem do Afeganistão estava a caminho da escola quando um grupo de homens jogou-lhe ácido no rosto, causando-lhe danos permanentes à visão, só porque se opunham à sua busca por instrução. A tentativa de aterrorizar a moça e sua família fracassou. “Meus pais disseram para eu continuar na escola, ainda que possa ser morta”, disse ela.

A coragem e a determinação dessa jovem servem de inspiração para que todos nós – mulheres e homens – continuemos a trabalhar com o maior empenho possível para garantir que meninas e mulheres consigam seus merecidos direitos.

Especialmente em meio a esta crise financeira, devemos lembrar o que um conjunto crescente de pesquisas nos diz: o apoio a mulheres é um investimento de alto retorno, que resulta em economias mais fortes, sociedades civis mais vigorosas, comunidades mais saudáveis e mais paz e estabilidade. Investir nas mulheres é um modo de apoiar futuras gerações, pois elas gastam a maior parte de sua renda em alimentos, remédios e escolas para os filhos.

Mesmo em países desenvolvidos, o pleno poder econômico das mulheres está longe de ser alcançado. Mulheres de muitas nações continuam a ganhar menos que os homens para fazer o mesmo trabalho – uma lacuna contra a qual o presidente Barack Obama deu um passo adiante nos Estados Unidos este ano, ao assinar a Lei Lilly Ledbetter de Pagamento Justo, que fortalece a capacidade das mulheres de contestar salários desiguais.

É necessário dar às mulheres a oportunidade de trabalhar com salários justos, ter acesso a crédito e abrir negócios. Elas merecem igualdade na esfera política, acesso igual à urna eleitoral, liberdade para apresentar reivindicações ao governo e candidatar-se a cargos públicos. Elas têm direito à assistência médica para si e suas famílias e o direito de enviar os filhos e filhas à escola. Elas desempenham um papel vital no estabelecimento da paz e da estabilidade no mundo inteiro. Em regiões arrasadas pela guerra, são frequentemente mulheres que dão um jeito de superar diferenças e descobrir interesses comuns.

Ao viajar pelo mundo em minha nova função, não me esquecerei das mulheres que já encontrei – mulheres que lutaram contra adversidades extraordinárias para mudar leis de modo a poder possuir bens, ter direitos no casamento, frequentar escola, apoiar a família e até atuar como pacificadoras.

Serei uma defensora veemente, trabalhando com meus pares de outras nações, assim como com ONGs, empresas e indivíduos, para continuar a promover o avanço dessas questões. Reconhecer o pleno potencial e o comprometimento das mulheres não é apenas questão de justiça. Trata-se de fortalecer a prosperidade, o progresso e a paz global para as próximas gerações.

* Hillary Clinton é secretária de Estado dos Estados Unidos

07/03/2009 - 11:04h Indústria cai em todo o mundo

EUA, Japão, Argentina, Chile e Coreia tiveram retração

Patrícia Lara – O Estado SP

Os resultados da produção industrial em janeiro no Brasil foram decepcionantes. Ainda assim, com seus 2,3% de crescimento, o Brasil é um dos poucos países que conseguiram sair do campo negativo após a paralisia produtiva que se espalhou pelo mundo no fim de 2008.

Entre os países que já divulgaram dados de janeiro, apenas a Coreia do Sul conseguiu apresentar um número positivo. A produção industrial sul-coreana cresceu 1,3% em janeiro em relação a dezembro de 2008 e despencou 25,6% no primeiro mês de janeiro, ante igual mês de 2008. Em dezembro, a produção na Coreia havia recuado 9,6% em relação a novembro.

Entre os países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), apenas a Rússia já divulgou dados de janeiro. Com a economia altamente ligada às exportações de petróleo, a produção industrial despencou 19,9%, em janeiro contra dezembro, e 16% ante igual mês de 2008. Em dezembro, a produção russa, no entanto, havia subido 3,8% no comparativo mensal.

Na região, a Polônia mostrou que a sua produção encolheu no primeiro mês do ano 5,8%, ante dezembro, e 14,9%, no comparativo anual.

A Argentina registrou um tombo no seu ritmo produtivo em janeiro. Houve queda de 6,1% em relação a dezembro, em bases sazonalmente ajustadas. No resultado anual, a contração foi de 4,6%, após ajustes sazonais.

No Chile, a queda da produção se acelerou para 8,9% em janeiro, na comparação anual, após recuar 3,7% em dezembro.

ÁSIA

Com economia fortemente orientada pelo desempenho de suas exportações, o quadro produtivo de Taiwan mostrou deterioração acentuada. Houve queda recorde da atividade fabril de 43,11% em janeiro ante o mesmo mês de 2008, de acordo com dados ainda preliminares. O desempenho vem na sequência de um declínio de 32,04%.

Ainda na região asiática, mas inserido no grupo dos chamados desenvolvidos, o Japão viu sua produção cair 10,0% em janeiro, ante dezembro, mês que já havia mostrado queda de 9,8%. Nos EUA, a produção industrial cedeu 1,8% em janeiro, no mês, após queda de 2,4% em dezembro.

03/03/2009 - 09:50h Aumento das exportações em fevereiro e queda das importações: balança comercial tem superávit

http://www.transaex.com.br/img_noticias/20090202122915_noticias.jpg

Importação cai e balança fecha mês com superávit

Arnaldo Galvão, de Brasília – VALOR

A forte queda nas importações levou a balança comercial a um superávit de US$ 1,76 bilhão em fevereiro. De acordo com o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, o mês passado foi marcado pelo aumento das médias diárias das exportações em relação a janeiro, queda acentuada das importações e tendência de maior participação dos países em desenvolvimento – principalmente da Ásia, que saiu de 15,5% (fevereiro de 2008) para 21,5% – nos destinos das exportações brasileiras.

Para Barral, depois de um janeiro muito ruim para a balança comercial, fevereiro foi melhor, apesar do cenário de crise e do menor número de dias úteis. O saldo de US$ 1,76 bilhão é resultado de vendas de US$ 9,58 bilhões e compras de US$ 7,82 bilhões. A comparação com fevereiro de 2008, por meio das médias diárias, revela quedas de 20,9% nas exportações e 30,9% nas importações. Levando em conta os dois primeiros meses do ano, as diminuições são de 21,9% (exportação) e 21,6% (importação).

A desvalorização do real e o menor ritmo de crescimento da economia reduziram as importações. Por outro lado, a crise mundial diminui a demanda por produtos brasileiros. Segundo o governo, a queda das importações em fevereiro também foi marcada pela retração dos preços do petróleo e derivados. Esse movimento foi responsável por uma redução de US$ 461 milhões nas compras do mês em relação a fevereiro de 2008.

O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, afirma que os números da balança em fevereiro mostram uma velocidade maior dos impactos da crise. Ele explica que o ritmo de queda das importações (30,9%) era esperado para março. “Atualmente, isso é mais provocado pelo câmbio que pela demanda, mas esses dois efeitos tendem a ter pesos iguais”, diz.

No lado das importações, as médias diárias de fevereiro mostram que todas as categorias de produtos tiveram reduções em relação a fevereiro de 2008. As maiores foram de petróleo (44%), matérias-primas e intermediários (34,3%), bens de capital (16,7%), bens de consumo duráveis (9,9%), automóveis (8,8%) e não duráveis (5,4%).

Na análise da quantidade importada, a queda foi de 42,9% em relação a fevereiro de 2008. A categoria mais afetada foi a de matérias-primas e intermediárias (47,7%). A maior redução, 85,4%, foi no segmento de matérias-primas para agricultura. Combustíveis perderam 40% em quantidade. As demais quedas ocorreram em maquinaria industrial (0,3%), bens de consumo duráveis (7,6%), não duráveis (12,9%), produtos alimentícios primários (41,7%) e produtos minerais (41,2%).

A perspectiva da balança comercial é “turbulenta”, segundo o dirigente da AEB. Para ele, as exportações continuam fracas e os países emergentes vão reduzir importações por falta de divisas. Quanto aos principais parceiros comerciais do Brasil, o cenário previsto por Castro também é desanimador. Em 2009, ele acredita que vai haver déficit com os EUA, pela primeira vez desde 1999, o que revela “a fraqueza da pauta de exportações com o maior mercado do mundo”. O saldo negativo com a China vai permanecer e o superávit com a Argentina vai diminuir.

Barral detalhou os números do comércio com China e EUA em fevereiro. Nas importações, o comércio com os EUA teve, na comparação com o mesmo mês de 2008, aumentos de 3,4% no valor e 6,2% nos preços, mas queda média de 7,1% nas quantidades. As maiores diminuições de quantidade foram em químicos orgânicos (53,4%), plásticos (40%), químicos diversos (32,1%), eletroeletrônicos (14,5%), máquinas e equipamentos (7,2%) e instrumentos óticos (2,2%).

Com relação às importações da China, fevereiro teve, em média, quedas de 12,4% no valor e 37,9% na quantidade, mas aumento de 34,3% nos preços. Os maiores aumentos de quantidade foram para têxteis (80,6%), ferro fundido (11,6%), calçados (9,6%) e químicos orgânicos (4%). As maiores quedas foram para combustíveis minerais (40,5%), máquinas/equipamentos (38,4%), siderúrgicos (28,3%), instrumentos óticos (22,5%), eletroeletrônicos (20%) e automóveis (12,4%).

21/02/2009 - 10:08h Roach prevê contração de 1% na economia global

Para o presidente do Morgan Stanley na Ásia, em 2010 poderá haver expansão de 2,5% a 3%, haverá nova retração no ano seguinte

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Cláudia Trevisan – O Estado SP

A economia global deverá encolher 1% este ano, na primeira queda desde o fim da 2ª Guerra Mundial, enquanto o o crescimento da China ficará em torno de 5,5%, o menor em 19 anos. Essas previsões foram feitas ontem pelo presidente do Morgan Stanley na Ásia, Stephen Roach, célebre por alertar para o potencial devastador dos desequilíbrios globais muito antes de a crise atual ter início.

Para ele, a situação poderá melhorar em 2010, com expansão mundial entre 2,5% a 3%, impulsionada principalmente pelos investimentos em infraestrutura previstos nos pacotes de estímulo de Washington e Pequim.

Mas a economia poderá perder fôlego novamente no ano seguinte. O resultado serão três anos (2009-2011) com crescimento médio mundial de 2%. “Teremos contrações simultâneas em todos os grandes países ricos e recessão ou desaceleração no mundo em desenvolvimento”, disse Roach, durante encontro com um grupo de jornalistas em Pequim.

Segundo ele, a economia chinesa está em pior situação que o crescimento de 6,8% no quarto trimestre de 2008 leva a crer. Na comparação com o trimestre anterior, o ritmo de expansão ficou próximo de zero e deverá permanecer assim no início de 2009, acredita.

Pelo menos desde 2004, o economista sustentava que o modelo de crescimento norte-americano, amparado no consumo e no endividamento excessivos, era insustentável e terminaria em uma severa recessão. Seu cenário demorou a se concretizar, mas seus efeitos se espalharam com rapidez impressionante pelo mundo a partir de setembro de 2008.

“Os consumidores norte-americanos gastaram muito além do que podiam nos últimos 14 anos e o consumo atingiu o recorde de 72% do PIB em 2007″, ressaltou. Agora, Roach espera um período de 3 a 5 anos de “redução significativa” no crescimento do consumo nos Estados Unidos.

Washington e Pequim estarão no centro dos ajustes necessários para a superação da crise, observou o economista. “Os Estados Unidos precisam poupar mais e consumir menos, enquanto a China precisa poupar menos e consumir mais.”

PROTECIONISMO

O grande risco é que a recessão nos Estados Unidos leve o Congresso e o governo a adotarem medidas protecionistas, algo já insinuado na cláusula do pacote de US$ 787 bilhões que exige que o aço e o ferro utilizado em projetos governamentais sejam produzidos nos Estados Unidos. A China reagiu e disse que a medida poderá minar o relacionamento entre os dois países.

Na terça-feira, Roach, em depoimento no Congresso americano, sustentou que medidas protecionistas vão agravar os problemas dos Estados Unidos e do restante do mundo. “Nenhuma relação bilateral é mais importante para o mundo do que a existente entre os Estados Unidos e a China e será trágico se esse relacionamento for prejudicado”, disse Roach.

No Congresso, ele lembrou que a China é o principal financiador do colossal déficit em conta corrente americano e afirmou que Pequim poderia retaliar, se ausentando dos leilões de venda de títulos do Tesouro.

“Essa não é uma consideração trivial para um país que precisa de cerca de US$ 3 bilhões de fluxo de capital a cada dia para financiar seu déficit. Se a China deixar de prover sua parcela de capital para a América, a cotação do dólar poderá despencar e a taxa de juros real de longo prazo, subir.”

No fim de 2009, a China tinha US$ 696,2 bilhões em papéis do Tesouro dos EUA, uma participação de 22,3% na dívida total, de US$ 3,12 trilhões.

23/01/2009 - 09:28h De como a especulação sem limites quebrou até os especuladores

Reuters

Pânico atinge países emergentes, como a Argentina: para Krugman, será preciso realizar uma recapitalização maior e mais ampla dos bancos e afirmar com mais firmeza o controle do governo, algo que estará mais próximo da plena estatização temporária de uma parcela significativa do sistema financeiro

 

José Roberto Campos, de São Paulo – VALOR

Os poderosos bancos americanos foram dizimados pela farra com os empréstimos “subprime” e o mundo agora caminha rumo à recessão. Como foi possível que créditos irresponsáveis concedidos na periferia do sistema imobiliário americano – clientes que não obteriam crédito em situações normais – se tornassem tão destrutivos a ponto de ameaçarem a economia global? Já vimos isso antes, lembra o economista Paul Krugman, Nobel de 2008, em seu novo livro “A Crise de 2008 e a Economia da Depressão” (Editora Campus/Elsevier). Houve circunstâncias parecidas e alguns dos mesmos atores na crise mexicana de 1995, no vendaval que se abateu sobre Coréia do Sul, Malásia, Tailândia e Indonésia em 1997, na crise russa de 2008, nos fins traumáticos dos sistemas cambiais de Brasil e Argentina e no pânico com a quebra do fundo de hedge americano LTCM, em 1998.

Heterodoxo e pragmático, Krugman reescreveu partes de seu livro de 1999, em que aborda essas crises, e atualizou-o até o mergulho na insolvência dos grandes bancos americanos. Ao longo do tempo, há uma continuidade em todos os desastres econômicos recentes, e alguns padrões de comportamento repetidos em países muitos distintos entre si. “Parcela considerável do aumento da globalização financeira decorre de investimentos de instituições financeiras altamente alavancadas, que faziam vários tipos de apostas transfronteiriças arriscadas”, escreve Krugman. “Quando as coisas davam errado nos Estados Unidos, esses investimentos transfronteiriços atuavam como ‘mecanismos de transmissão’, pelo qual uma crise que eclodiu no mercado habitacional dos Estados Unidos desencadeou sucessivas outras no exterior.”

Um número grande de instituições financeiras, como bancos de investimentos e fundos de hedge, não era regulado por ninguém e reuniu tamanho poder e apetite por risco que se tornou um fator global de desestabilização das economias. Depois que elas semearam o pânico em países emergentes, implodiram junto com apostas excessivas na bolha de imóveis. É ilustrativa a descrição do poder de fogo atual dessas instituições traçado por Timothy Gethner, ex-presidente do Federal Reserve de Nova York e indicado para secretário do Tesouro do presidente Barack Obama, citado por Krugman. No início de 2007, conta, havia US$ 2,2 trilhões em coisas exóticas como “asset-backed commercial papers conduits”, “structured investment vehicles”, “auction-rate preferred securities”, “tender options bonds” e “variable rate demand notes”. Os ativos dos fundos de hedge eram de US$ 1,8 trilhão e os dos cinco maiores bancos de investimento, US$ 4 trilhões. Já os cinco maiores bancos comerciais detinham US$ 6 trilhões.

“A crise, em boa parte, não envolveu problemas com instituições desregulamentadas, que assumiram novos riscos. Ao contrário, girou em torno de riscos assumidos por instituições que, para começar, nunca foram regulamentadas.” Elas tinham tanto cacife financeiro quanto os bancões comerciais sob a vigilância do Federal Reserve, e uma ousadia que chegava quase que fatalmente à imprudência.

A história da atual recessão começa então com o estouro da bolha habitacional, que, para Krugman, deverá destruir US$ 8 trilhões em riquezas – US$ 7 trilhões de perdas para os donos dos imóveis e US$ 1 trilhão para os investidores. Esse trilhão de dólares é o rabo que acabou balançando o cachorro. Espalhados em títulos tóxicos pelo resto do mundo, forçaram uma espiral de vendas para cobrir posições e prejuízos que derrubou os preços de praticamente todos os ativos, em todos os mercados, em todo o mundo – e, casualmente, quebraram até a Islândia.

Uma retrospectiva das crises anteriores e das idéias na moda mostram como isso se tornou possível. A crença nos poderes mágicos do mercado levou os economistas a quase decretar o fim dos ciclos econômicos. O presidente do Fed, o todo-poderoso Alan Greenspan, que reinou de 1987 a 2006, e que “conseguira substituir a bolha de ações pela bolha habitacional”, disse em 2004 que o sistema bancário estava mais “resiliente”, uma afirmação só menos temerária que a do secretário do Tesouro de George Bush, Henry Paulson, que afirmou a mesma coisa em 2007, quando os bancos estavam caindo no abismo.

A mesma crença impulsionou a desregulamentação, que escancarou os mercados a investidores audazes e aventureiros, especialmente aos fundos de hedge, que, como qualifica bem Krugman, não buscam hedge e sim seu oposto, “extrair o máximo das flutuações de mercado”. O irmão gêmeo da desregulamentação foi o “risco moral”, a percepção, que se tornou verdadeira, de que qualquer estripulia financeira que desse errado seria consertada com dinheiro público, desde que fosse suficientemente grande para isso.

O crescente poder de fogo de instituições financeiras alavancadas patrocinou o “pânico auto-realizável”, que vitimou, por exemplo, os países asiáticos em 1997. Essas economias eram vulneráveis, diz Krugman, mas “não em razão do capitalismo de compadres, nem de políticas públicas que, sem dúvida, eram consideradas inadequadas”. Essa fragilidade aumentou com a abertura de seus mercados financeiros, pelo fato de, “na verdade, se tornarem melhores economias de mercado, não piores”, avalia.

Krugman considera que os US$ 700 bilhões do programa de alívio de ativos problemáticos são pouco para levantar os bancos, que poderão não estar dispostos a emprestar o dinheiro que recebem como ajuda. A recapitalização deverá ser maior e mais ampla, com maior controle do governo, “algo mais próximo da plena estatização temporária de parcela significativa do sistema financeiro”.

Ele acha que os gastos públicos são a melhor forma de estímulo econômico, superior às isenções fiscais. As vantagens: o dinheiro é realmente gasto, e não poupado, e, depois, com obras públicas “algo de valor seria construído”. A receita de um pragmático como ele é fazer tudo o que for preciso para reverter a crise, sem amarras ideológicas. Depois de afastado o perigo, deve-se consertar a bagunça. Sua posição sobre a reforma do sistema financeiro é igualmente simples. “Qualquer coisa que necessite de socorro durante a crise financeira, por desempenhar papel essencial no sistema financeiro, deve ser submetida à regulamentação, quando a crise tiver sido superada, para que não envolva riscos excessivos”, explica.

Conceitualmente, a economia da depressão parece um termo amplo demais, que abarca fenômenos distintos. Krugman a define a partir de falhas no lado da demanda da economia como “fator limitativo inequívoco à prosperidade econômica em boa parte do mundo”. Mas, pelo menos em alguns aspectos essenciais, as crises descritas surgiram durante um dos períodos de maior prosperidade da economia mundial, quando a demanda brotava em todos os lados, regada a crédito farto. A história de Tailândia, Malásia, Indonésia e Coréia é a de países bem-sucedidos, pelo menos pelo padrão das taxas de crescimento econômico.

Krugman chega a oscilar em seu diagnóstico, em geral muito preciso. A vulnerabilidade das economias da Ásia, do México e Brasil ao “pânico auto-realizável” torna-se quase inexplicável. Em um momento, acumular dívidas em moeda estrangeira é um dos principais suspeitos da catástrofe. Em outros, como no caso da Ásia, a repentina, e quase imotivada, é perda de confiança nos mercados que dá o sinal para o colapso. E chega a ser obscura a ligação entre a crise argentina e mexicana e a hecatombe atual dos bancos internacionais. “Sinto-me tentado a afirmar que essa crise não se assemelha a nada que tenhamos visto antes”, confessa. “Porém, eu seria mais exato se afirmasse que ela se parece com qualquer outra que já presenciamos em diferentes épocas, só que agora é como se todas estivessem acontecendo de uma vez, ao mesmo tempo.” A primeira hipótese, também bastante sugestiva, bem que poderia resultar em um outro ótimo livro de Paul Krugman.

20/01/2009 - 11:51h Papel e Celulose: Saldo comercial cresce 21% e chega a US$ 4,1 bi

André Vieira, de São Paulo – VALOR

http://www.eca.usp.br/nucleos/njr/voxscientiae/img/eucaliptos.jpgA produção brasileira de celulose fechou 2008 com um crescimento de 7,7% sobre o ano anterior, segundo estimativas divulgadas ontem pela Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), entidade que reúne as principais companhias do setor.

As empresas produziram 12,85 milhões de toneladas de celulose no ano passado. Deste total, o setor industrial exportou 7 milhões de toneladas da matéria-prima para a fabricação de papel – o que equivaleu a US$ 3,91 bilhões em vendas externas, uma alta de 23,5% sobre 2007.

A Europa continua sendo o principal destino das exportações brasileiras de celulose, representando 2,02 milhões de toneladas, uma alta de 25%, seguido pela América do Norte, que comprou 791 milhões de toneladas (alta de 27%). A Ásia foi a região onde houve a maior taxa de crescimento das exportações, com 63%, atingindo 690 mil toneladas de celulose.

A produção de papel se expandiu apenas 1,9% ao longo do ano passado, atingindo 9,18 milhões de toneladas por ano. Houve um crescimento de 17% nas importações de papel, de 1,32 milhões de toneladas, das quais mais de 1 milhão se destinaram para a produção de papéis para imprimir e escrever.

No saldo comercial, a indústria de papel e celulose com base no país foi responsável por um superávit de US$ 4,126 bilhões – um crescimento de 21,2% sobre o resultado líquido anterior. As exportações do setor somaram US$ 5,83 bilhões e as importações, US$ 1,71 bilhão.

Os papéis corresponderam a 83% do total das compras externas, principalmente em razão da valorização do real frente ao dólar nos primeiros nove meses do ano passado.

O levantamento da Bracelpa também mostra um ligeiro crescimento no consumo brasileiro de aparas de papel. Em 2008, a entidade estima que o consumo alcançou 3,7 milhões de toneladas, um aumento de 1,6%, abaixo das taxas de crescimento da produção (1,9%) e das vendas internas (2,2%) de papéis.

Apesar dos efeitos da crise depois de setembro não terem abalado as projeções para 2008, a produção de celulose do ano passado colocou o Brasil na quarta posição entre os maiores fabricantes, superando a Suécia e Finlândia, tradicionais produtores.

Especialistas indicam as condições climáticas favoráveis para o desenvolvimento do eucalipto no Brasil como um dos principais fatores para construção de novas fábricas de celulose. Mas no curto prazo, a indústria está pressionada pela queda nos preços da celulose que fez as empresas paralisarem temporariamente parte da produção. Nas primeiras semanas deste mês, as compras voltaram a ser intensas, mas os preços continuam quase 40% mais baixos. Na semana passada, a Suzano confirmou a demissão de 180 pessoas, somando a outras dispensas já anunciadas pela VCP e Aracruz.

10/11/2008 - 11:28h China lança pacote de quase US$ 600 bilhões

http://epoca.globo.com/edic/459/china_01.jpghttp://jean-oliveira.zip.net/images/china.jpg

Governo tenta conter crise investindo em infra-estrutura e bem-estar social. Medida é saudada por G-20 e FMI

Gilberto Scofield Jr.* Correspondente – O Globo

PEQUIM e SÃO PAULO. Num comunicado breve publicado em sua página na internet e reproduzido pela agência de notícias estatal Xinhua, o Conselho de Estado da China anunciou ontem um pacote de estímulo ao setor produtivo que chegará a quatro trilhões de yuans — US$ 586 bilhões — em 2010, focado em investimentos públicos, políticas de estímulo fiscal, além do relaxamento da política monetária (com prováveis novas reduções nas taxas de juros), para garantir um crescimento da economia chinesa entre 8% e 9% a partir do ano que vem.

O pacote inclui dez programas com alvos específicos, como projetos de infra-estrutura, microcrédito e crédito para pequenas e médias empresas, construção de casas para baixa renda, infra-estrutura rural, logística, estímulo à inovação tecnológica, à adoção de tecnologias de geração de energia limpa e a aceleração na reconstrução das áreas destruídas pelo terremoto na província de Sichuan.

Mas a medida mais esperada pelos chineses será mesmo a redução das alíquotas do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) que incide sobre tudo que é fabricado e comercializado no país. A medida ainda não foi explicada, mas estima-se que, com a redução do imposto em determinados setores, a economia só para as empresas seja de 120 milhões de yuans por ano (US$ 17,5 milhões).

— A melhor maneira que a China possui de ajudar nesta crise internacional é manter o seu nível de crescimento — afirmou o presidente do Banco Popular da China, o BC do país, Zhou Xiaochuan, que prevê que as medidas ajudarão a China a crescer entre 8% e 9% a partir de 2009.

Operações de fusões e aquisições terão mais crédito Foi suspenso o teto para empréstimos dos bancos estatais para determinados projetos, como infra-estrutura rural, abertura de empresas em setores de tecnologia, fusões e aquisições e compra de equipamentos de proteção ao meio-ambiente. Os integrantes do Conselho de Estado da China, liderado pelo primeiro-ministro Wen Jiabao, esteve reunido durante todo o fim de semana elaborando o pacote.

Em São Paulo para a reunião do G-20 (grupo que reúne países ricos e emergentes), o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, afirmou que a situação fiscal da China é forte para sustentar o crescimento do país e, desta forma, ajudar o planeta a sair da espiral de crise que vem empurrando para a recessão alguns países da Europa e os EUA. Zoellick afirmou que os investimentos em infra-estrutura feitos pela China nos últimos anos foram uma decisão “muito sábia” e agora estes investimentos ajudarão o país a responder mais rapidamente ao pacote de estímulo anunciado em Pequim.

Banco central de Taiwan corta juros novamente Também presente ao fórum do G-20, o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique StraussKahn, afirmou que o pacote chinês é “uma boa notícia”.

— O FMI vinha argumentando há algum tempo que a China deveria deslocar o eixo de sua economia de um crescimento baseado em exportações para um baseado no crescimento interno. Estou muito feliz por ver que essa decisão foi tomada — disse ele, acrescentando que o pacote beneficiará não só a China, mas a economia mundial também.

David McCormick, vice-secretário do Tesouro dos EUA para Assuntos Internacionais, também festejou o pacote, afirmando em São Paulo que ajudará a Ásia a sair da crise financeira.

Na esteira de ações contra a crise, o banco central de Taiwan cortou ontem, sem aviso prévio, sua taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 2,75% ao ano. O objetivo é estimular a economia. Trata-se da quarta redução em um mês.

07/11/2008 - 11:42h Exportações do campo já somam US$ 62 bi no ano

http://www.revistaportuaria.com.br/arquivos/noticia_1211810441483ac28966cfb.jpg

Mauro Zanatta – VALOR, de Brasília

Empurrado pela boa performance das vendas do complexo soja, complexo carnes, produtos florestais, açúcar, álcool e café, o agronegócio brasileiro embarcou US$ 62 bilhões ao exterior nos primeiros dez meses de 2008, um resultado 26,8% superior ao período entre janeiro e outubro de 2007. Como as importações cresceram 41,8% neste intervalo, para US$ 9,9 bilhões, o superávit comercial do setor atingiu US$ 52,1 bilhões.

Os mercados que mais contribuíram para o crescimento das exportações do agronegócio estão situados na América Latina, Ásia, Europa Oriental, Mercosul e União Européia. Os maiores compradores foram os europeus ocidentais (33%), asiáticos (24%), norte-americanos (10%) e europeus orientais (8%).

A forte elevação das vendas para China (78%) colocou o país asiático no topo do ranking de destinos nos primeiros dez meses do ano com uma fatia de 12,2% de participação. A China ultrapassou os 9% dos Países Baixos e os 8,6% dos Estados Unidos. As vendas tiveram forte aumento para Venezuela (129%), Tailândia (71%), Arábia Saudita (51%), Japão (41%) e Rússia (41%).

Em outubro, as exportações do agronegócio brasileiro totalizaram US$ 6,6 bilhões, um crescimento de 9,8% em relação a outubro de 2007. Como resultado, houve superávit de US$ 5,5 bilhões. Em soja, foram vendidos US$ 1,1 bilhão. As vendas externas de carnes cresceram 31,4%, somando US$ 1,4 bilhão. As exportações do complexo sucroalcooleiro chegaram a US$ 870 milhões, 40,5% acima de outubro do ano passado.

As vendas de fumo cresceram 56,2%, chegando a US$ 406 milhões. As exportações de café cresceram 29,7%, para US$ 524 milhões. As importações de outubro cresceram 27,5%, para US$ 1,1 bilhão. Os mais importados foram trigo e borracha natural, mas as compras de milho (- 43%) e arroz (- 55,5%) recuaram bastante na comparação com igual período do ano passado.

Nos últimos 12 meses encerrados em outubro, as exportações do agronegócio alcançaram a marca histórica de US$ 71,5 bilhões, ou 24,6% acima dos 12 meses anteriores. O superávit comercial acumulado bateu em US$ 59,8 bilhões. Nesse caso, os setores mais dinâmicos foram: carnes (+37%), produtos florestais (+11%), café (+19%), fumo (+25,5%) e lácteos (+162%).

31/10/2008 - 17:40h Fenícios deixaram herança genética

Um em cada 17 homens do Mediterrâneo descende dos inventores do alfabeto

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John Noble Wilford Do New York Times

NOVA YORK. Os fenícios, o antigo povo do leste do Mediterrâneo, deixaram sua marca na história marítima, mas agora uma pesquisa revelou que eles legaram também uma herança genética. Cientistas anunciaram ontem que um em cada 17 homens que vivem hoje nas regiões costeiras do norte da África e do sul da Europa descende em linha direta de um ancestral fenício.

Esses homens têm uma espécie de assinatura genética cuja origem está nos quase mil anos em que os fenícios dominaram todo o comércio marítimo do Mediterrâneo, uma era que só acabou com a derrota para Roma, no século II a.C.

Os fenícios fundaram Cartago, grande rival de Roma. Eles inventaram o alfabeto, exportaram cedros do Líbano para a construção naval (uma revolução no comércio marítimo), e espalharam pelo mundo antigo a paixão por púrpura, pigmento que obtinham das conchas do múrex. O nome Fenícia significa terra da púrpura.

Os fenícios entraram em declínio após a derrota para os romanos nas Guerras Púnicas e desapareceram como cultura.

As ruínas monumentais de Cartago, na moderna Túnis, são a única lembrança visível de sua grandeza.

Em busca de genes que guardam História O estudo é parte do Projeto Genográfico, uma parceria de National Geographic e IBM, e foi publicado na “American Journal of Human Genetics”.

— Quando começamos, nada sabíamos sobre a genética dos fenícios. Nos orientamos pela História, buscamos os lugares onde os fenícios viveram — Chris Tyler-Smith, do Instituto Sanger Wellcome Trust, na Inglaterra, um dos coordenadores da pesquisa.

Amostras do cromossomo sexual masculino Y (usado como marcador de ancestralidade) foram coletadas de 1.330 homens que vivem em localidades de Chipre, Malta, Marrocos, Palestina, Síria e Tunísia, no passado habitadas pelos fenícios.

Cada um dos participantes tinha ancestrais há pelo menos três gerações na mesma região. Os resultados foram somados aos de dados já coletados no Líbano e em 56 localidades mediterrâneas, totalizando 6 mil homens.

Os pesquisadores depois compararam os dados com de homens de regiões não-fenícias do Mediterrâneo. Da pesquisa emergiu uma assinatura genética fenícia distinta, em contraste com outros traços genéticos espalhados por outras migrações, como a dos primeiros agricultores, dos colonos gregos e da diáspora dos judeus. Os cientistas concluíram, por exemplo, que pelo menos um menino de cada turma de todas as escolas do Chipre e da Tunísia é descendente dos fenícios.

— O fato de assentamentos fenícios ficarem muito próximos a outros sem sua presença facilitou a identificação de padrões genéticos — disse o principal autor do estudo, Pierre A. Zalloua, geneticista da Universidade Americana do Líbano, em Beirute.

No estudo, os pesquisadores destacaram que o uso do cromossomo Y se mostrou fundamental para investigar antigas migrações. “Nossa metodologia pode ser aplicada para estudar qualquer expansão histórica em que os locais de ocupação sejam conhecidos”, escreveram os autores da pesquisa.

Celtas e incas podem ser próximos alvos Zalloua disse que o prosseguimentos das pesquisas poderá refinar os padrões genéticos para revelar detalhes das diferentes fases da expansão fenícia.

— Primeiro para o Chipre, depois Malta e a África. Em seguida, a Espanha. Talvez, os genes possam nos dizer que cidades fenícias, como Biblos, Tiro ou Sídon, criaram quais colônias — observou Zalloua.

Projetos similares poderão investigar a expansão dos celtas pela Europa; a dos incas pela América do Sul; a marcha de Alexandre, o Grande, pelo Ásia central e sul; e o comércio multicultural da Roda da Seda.

31/10/2008 - 09:24h Economistas dizem que países mais ricos do mundo já estão em recessão

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Previsão é de retração no G-7 de até 2% nos próximos 3 a 4 trimestres

Bruno Villas Bôas – O Globo

O resultado do PIB americano divulgado ontem reforçou a avaliação entre economistas de que os países mais ricos do mundo — reunidos no G-7 — já entraram em recessão e que o pior da crise financeira internacional ainda está por vir. Embora o mercado tenha reagido bem à queda de 0,3% da economia americana no terceiro trimestre, menor que a média das previsões, analistas traçaram cenários mais sombrios para os efeitos da crise e estimaram uma retração de 1% a 2% nas economias desenvolvidas nos próximos três a quatro trimestres.

Para Dirceu Bezerra, diretor da Rosemberg Consultores, a queda de 3,1% nos gastos dos consumidores americanos — que responde por cerca de 70% do PIB do país — e a retração de 1,9% nos investimentos privados são os sinais mais preocupantes para a economia.

— A situação é muito mais grave do que uma primeira leitura indica. Essa queda no PIB de apenas 0,3% tem que ser lida como uma das últimas boas notícias. Vai piorar, antes de melhorar — avalia.

Ele lembrou que o resultado reforça a idéia de que os países do G-7 entraram em recessão.

Prova disso, disse Bezerra, está no desempenho do PIB da França (queda de 0,1%) e da Inglaterra (baixa de 0,5%) no último trimestre.

Exportação do Brasil sofrerá efeitos de EUA e Ásia Para Marcelo Nonnenberg, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a queda do PIB dos EUA não foi maior por três fatores: aumento de estoques, das exportações líquidas e gastos do governo. Ele afirma que esses resultados, porém, não devem se repetir daqui para a frente.

— Com a retração da economia mundial, as exportações americanas serão menores.

Já os estoques refletem a queda do consumo, o que é ruim, e os gastos do governo podem desacelerar.

Para o economista Ricardo Carneiro, professor do Instituto de Economia da Unicamp, uma piora ainda maior da crise afetará as exportações brasileiras.

Ele lembrou que os EUA respondem por 14,5% das exportações do país, o que tende a reduzir. Além disso, o comércio entre países asiáticos e o G-7 tende a desacelerar, o que vai reduzir a demanda por commodities brasileiras.

28/10/2008 - 11:30h Crise se aprofunda na Ásia e expõe vulnerabilidade de bancos do Japão

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Yuka Hayashi e Evan Ramstad, The Wall Street Journal, de Tóquio – VALOR

Os grandes bancos japoneses, considerados um bastião de estabilidade em meio à turbulência financeira mundial, estão de repente parecendo vulneráveis por causa da exposição às fortes quedas nas bolsas do país.

Duas semanas depois de investir US$ 9 bilhões por uma participação de 20% no americano Morgan Stanley, o Mitsubishi UFJ Financial Group, maior banco do Japão, informou ontem que vai captar até 990 bilhões de ienes (US$ 10,47 bilhões) por meio de uma emissão de ações preferenciais e ordinárias no próximo ano. Analistas esperam que o Sumitomo Mitsui Financial Group e o Mizuho Financial Group sigam o exemplo, embora os dois bancos tenham afirmado não ter tais planos.

As ações do Mitsubishi UFJ e do Mizuho caíram 15% ontem, enquanto as do Sumitomo Mitsui baixaram 11%. Isso ajudou a fazer com que o índice Nikkei de 225 ações atingisse o nível mais baixo em 26 anos, de 7.162,90 pontos, com uma perda de 6,4%.

A crise mundial está agora infligindo danos severos a partes da Ásia que pareciam até há pouco relativamente imunes. Na Coréia do Sul, onde os bancos estão sob pressão ainda maior que os japoneses por causa da alta alavancagem, o banco central anunciou ontem um corte dos juros de dimensão sem precedentes, baixando a taxa principal de 5% para 4,25%. Na Assembléia Nacional, o presidente do Banco da Coréia, Lee Seogtae, deu indicações de que outro corte pode ser feito no mês que vem, segundo noticiário local. A notícia fez com que a bolsa sul-coreana fechasse com modesta alta.

Em outros mercados da região, o pessimismo prevaleceu, ressaltando o crescente nervosismo dos investidores em relação às vulnerabilidades de uma região que agora sofre, principalmente, por causa da dependência de exportações às frágeis economias americana e européia. Em Hong Kong, a bolsa caiu 12,7%; em Manila, nas Filipinas, 12,3%; em Bancoc, Tailândia, 10,5%. Em Xangai a queda foi de 6,3%.

“A falsa premissa que havia era a de que a Ásia podia se descasar” das economias ocidentais, diz Stephen Roach, presidente do Morgan Stanley na Ásia. “Acho que estamos vendo que numa recessão global não há descasamento dos poderosos laços transnacionais de fluxos de comércio, fluxos de capital, fluxos de mão-de-obra e fluxos de informação.”

Além de preocupações com as exportações, outros temores afligiram os mercados asiáticos este mês. Perdas com posições cambiais alavancadas anunciadas pela Citic Pacific Ltd., um conglomerado registrado em Hong Kong com participação do governo chinês, deixou investidores nervosos com a possibilidade de outros passivos parecidos que não tenham sido anunciados nos balanços das empresas.

Além disso, a decisão de presidente da Argentina, Cristina Fernández Kirchner, de estatizar os fundos de pensão do país suscitou temores de que outros países pequenos sob pressão da crise financeira possam recorrer a medidas extremas para cumprir suas obrigações. “Pela primeira vez em muito tempo começamos a ouvir as pessoas falar de ‘contágio de mercado emergente’”, diz Steve Diggle, sócio do fundo de hedge Artradis Fund Management, de Cingapura, que administra US$ 4 bilhões.

No Japão, a queda das bolsas chamou atenção para uma área de fraqueza dos bancos: a forte dependência de investimentos acionários como componente de seu capital de risco. Essas aplicações, que representam cerca de 3% do valor do mercado acionário japonês, são um legado da prática dos bancos de possuir “participações cruzadas”, nas quais as instituições financeiras e seus financiados tinham fatias no capital uns dos outros.

Em junho, o Mitsubishi UFJ tinha uma carteira de ações japonesas avaliada em 6,1 trilhões de ienes, com ganhos não realizados de 1,8 trilhão. Com a queda de 40% do mercado desde então, estima-se que o portfólio tenha encolhido para menos de 3,7 trilhões de ienes, com uma perda contábil de 630 bilhões, segundo Kristine Li, uma analista de bancos da KBC Securities em Tóquio. Parte da perda precisa ser deduzida do patrimônio do banco.

“É um grande golpe na confiança dos investidores no Japão e em outros países, porque eles antes presumiam que os bancos japoneses eram relativamente seguros e não tinham necessidade imediata de aumentar o capital”, diz Li.

Preocupado com a deterioração das condições no mercado financeiro, o primeiro-ministro japonês, Taro Aso, determinou que seu gabinete elaborasse imediatamente medidas adicionais para estabilizar os mercados e fortalecer o sistema financeiro, como parte de um amplo plano econômico a ser anunciado esta semana. O governo já tem um plano de injetar 2 trilhões de ienes para fortalecer o capital de instituições financeiras menores, e o ministro econômico Karou Yosano disse no domingo que a quantia pode ser aumentada para 10 trilhões de ienes. Não está claro se os recursos serão alocados também para os maiores bancos.

Banqueiros e autoridades do governo dizem que as condições financeiras dos grandes bancos japoneses continuam sólidas e que a busca de capital adicional é uma medida de precaução, contra uma maior deterioração dos mercados financeiros. Diferentemente de muitos bancos ocidentais que tiveram de repor capital reduzido por enormes perdas com créditos de alto risco, nenhum dos grandes bancos japoneses deve registrar prejuízos líquidos no atual ano fiscal, que termina em 31 de março.

Na Coréia do Sul, a decisão de baixar os juros ocorreu um dia depois que o presidente Lee Myung-bak realizou uma reunião de autoridades econômicas para organizar medidas que impeçam que a crise financeira mundial provoque uma paralisação abrupta da economia do país. Os líderes do banco central apareceram com autoridades do governo em entrevistas coletivas ontem para descrever o corte dos juros como um primeiro passo.

Lee disse que vai propor um pacote de estímulo fiscal que envolve tanto cortes de impostos como novos gastos públicos. Em discurso no parlamento, ele disse que as medidas vão “expandir os gastos de maneira mais ousada e revitalizar o consumo interno”.

O esforço é um reconhecimento tardio do impacto que a crise mundial pode ter no país. Durante semanas, autoridades do governo culparam analistas estrangeiros e a mídia por adotarem uma visão pessimista dos fundamentos econômicos da Coréia do Sul, dizendo que eles são muito mais fortes do que na crise financeira de 1997 e 1998.

Investidores e economistas concentraram-se na forte tomada de empréstimos por parte dos bancos sul-coreanos como um indicador principal da vulnerabilidade do país. A pressão sobre a liquidez dos bancos ficou mais aparente depois que o Banco da Coréia cortou sua principal taxa de juros em 9 de outubro, de 5,25% para 5%, mas os bancos tiveram de aumentar os rendimentos dos depósitos para atrair recursos e sustentar o crescimento do crédito.

(Colaboraram Peter Stein e Laura Santini, de Hong Kong)

28/10/2008 - 09:30h Crise será revertida logo, diz especialista da OCDE

Mas reflexo nos bancos será maior, diz Schmidt-Hebbel

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Andrei Netto – O Estado SP

A manutenção da crise dos mercados financeiros na Ásia, com conseqüências nas bolsas de valores da Europa e das Américas, não afeta a confiança do economista-chefe da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), Klaus Schmidt-Hebbel. Em entrevista publicada pela revista OECD Observer, ontem, o expert previu que o derretimento dos mercados será revertido em curto prazo. Mas a crise financeira, entende, terá reflexos duradouros nos lucros e na capitalização dos bancos, assim como na confiança do sistema.

A equipe de Schmidt-Hebbel prepara o novo relatório da organização sobre a situação econômica de seus 30 países-membros e de outros 10 não-membros – Brasil incluso -, que será publicado em 25 de novembro.

Em declaração à revista, o economista adiantou alguns pontos: “Nosso cenário de base parte da premissa de que a crise nas negociações de curto termo nos mercados financeiros será resolvida em curto prazo, mas o lucro e a recapitalização dos bancos, como a reconstrução da confiança nos mercados, demorará mais tempo”.

Schmidt-Hebbel acredita que “muitas economias da OCDE” entrarão em recessão “cedo ou tarde” em razão da “crise sistêmica”. “A questão é por quanto tempo”, disse, referindo-se ao tempo de recessão. “A retomada será mais lenta do que em desacelerações anteriores.” Segundo o especialista, o momento é propício para cortes em taxas de juros pelos bancos centrais e para estímulos fiscais temporários, que teriam como efeito reaquecer o consumo e a produção.

O economista-chefe da OCDE alerta que um dos riscos da crise atual é o custo orçamentário que as intervenções nos mercados causarão aos balanços dos governos. O ponto positivo é o controle indireto dos preços das commodities, como petróleo e alimentos, já em curso. O especialista considera, porém, que as medidas anunciadas pelos governos nos Estados Unidos, na Europa e, recentemente, na Ásia restauraram a confiança e reconstruíram instituições financeiras arruinadas. “Foram medidas sem precedentes de escala”, definiu, elogiando a coordenação internacional das decisões. “Agora veremos o quanto rápidas e efetivas serão essas ações.”

De acordo com um relatório da OCDE, a importação de produtos pelos países-membros do G-7 – Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Japão – caiu 1,4% no segundo trimestre de 2008, em relação ao primeiro. No mesmo período, as exportações cresceram 4,9%.

Na Alemanha, a balança comercial nos últimos 12 meses – encerrados em junho – variou positivamente: as exportações cresceram 7,1%, enquanto as importações, apenas 2,1%. Nos Estados Unidos, a tendência foi equivalente: crescimento de 3,9% no volume exportado e de 1,9% no importado. No Japão, exportações e importações caíram.

22/10/2008 - 08:01h Brasil é um dos emergentes menos vulneráveis, diz banco

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Segundo estudo do Dresdner, país só perde para a China e a Rússia

Fernando Dantas, O Estado SP

Em uma análise de 25 países países emergentes espalhados pela Europa, Ásia, Oriente Médio, América do Sul e América Central, o departamento de pesquisa do banco Dresdner Kleinwort aponta que o Brasil está entre os de menor vulnerabilidade econômica e financeira. Em termos de vulnerabilidade macroeconômica, o Brasil é o terceiro melhor, só perdendo da China e da Rússia. Na análise financeira, o Brasil é o segundo melhor, ficando atrás apenas da Indonésia (que tem uma vulnerabilidade econômica acima da média).

Segundo o relatório, que está voltado sobretudo para os riscos financeiros e bancários, a crise está levando os bancos dos países ricos a entrar em processo de desalavancagem (aumento da relação entre capital próprio e empréstimos), o que deve fazer com que foquem mais os seus mercados domésticos, e menos os dos países emergentes. Esse ajuste está reduzindo os fluxos de crédito, de compra de ações e de apostas especulativas dos ricos para os emergentes, colocando pressão nas economias e no setor financeiro desses últimos.

As conclusões do trabalho são que, entre os emergentes, as economias pequenas e abertas, com grande presença de bancos estrangeiros, são as mais expostas à turbulências financeiras derivadas da crise bancária global. E as nações com grande comércio exterior, com maior liberdade de fluxos de capitais e com menores reservas internacionais são as que podem perder mais por causa da desaceleração mundial. Finalmente, as que têm sistemas bancários mais profundos, e poucas reservas internacionais, são as que sofrem o maior risco de que suas próprias instituições financeiras sejam contaminadas pela crise bancária dos ricos.

Neil Dougall, economista-chefe para mercados emergentes do Dresdner Kleinwort, observa que os resultados do exercício que o banco fez sobre vulnerabilidade dos países é relativamente mecânico, já que deriva de um conjunto de indicadores. Dessa forma, ele ressalva, é preciso também fazer uma análise caso a caso. Dougall nota que a Argentina está bem situada naqueles indicadores, com o quinto lugar tanto no risco econômico quanto no financeiro, mas uma análise mais acurada indica que “é muito difícil que a Argentina esteja numa posição forte num quadro de maior redução de crédito, desaceleração global e queda do preço das commodities”.

No caso do Brasil, porém, Dougall acha que a boa posição do País na análise do relatório reflete a realidade. “É claro que o Brasil será afetado pela crise, como todos os emergentes, mas hoje o País está em condições muito melhores para enfrentar os problemas e ter condições de retomar o crescimento acelerado quando o cenário global melhorar”, diz o economista. Ele atribui essa vantagem à manutenção, por diversos anos, de políticas fiscais e monetárias conservadoras.

Entre os indicadores analisados no trabalho, o Brasil se destaca, por exemplo, como tendo empréstimos dos bancos internacionais (tanto em dólares como em reais, no caso daqueles que operam no País)que correspondem a cerca de 10% do PIB, e a 50% das reservas internacionais. O estudo mostra que vários emergentes do Leste europeu têm o indicador entre 50% e 100% (ou até mais), como porcentual do PIB, e entre 200% e 800%, como porcentual das reservas internacionais. Isso significa que, ao enxugarem seus ativos fora dos países onde têm suas sedes, os bancos internacionais estão provocando sérios abalos naqueles países.

Um caso extremo é o da Islândia: os empréstimos dos bancos internacionais aos islandeses correspondem a mais de 400% do PIB e a 1600% das reservas internacionais do país.

14/10/2008 - 08:50h ”Consertar o sistema financeiro não impede a recessão”

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Investidor diz que mercado não pode corrigir a si mesmo e que agora o poder econômico está pendendo para a Ásia

Nathan Gardels – O Estado de São Paulo

O investidor e filantropo George Soros conversou com o editor da Global Viewpoint sobre a crise financeira internacional. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Falemos sobre a natureza da crise.

Graças às baixas taxas de juros, à liquidez global e à desregulamentação, vivemos durante 25 anos numa bolha de expansão do crédito que aumentava a si mesma, o que levou à “exuberância irracional” nos mercados financeiros. Agora vemos uma quebra dos mercados de ações e de crédito que alimenta a si mesma – “desespero irracional” – sem encontrar justificativa nas leis fundamentais da economia real.

Como este padrão reflete seu novo paradigma para a compreensão das finanças?

A chave para a compreensão da crise é perceber que ela foi gerada dentro do próprio sistema financeiro. Não é o resultado de algum tipo de choque exógeno que tirou as coisas do seu equilíbrio, conforme sugeriria o paradigma mais difundido, que supõe a existência da capacidade do mercado de se autocorrigir. A realidade é que os mercados financeiros desestabilizam a si mesmos; ocasionalmente eles tendem ao desequilíbrio, e não ao equilíbrio. O paradigma que proponho difere da sabedoria convencional. Em primeiro lugar, os mercados financeiros não refletem as verdadeiras leis fundamentais da economia. As expectativas dos corretores e dos investidores estão sempre distorcendo essas leis. Em segundo lugar, essas distorções no mercado podem afetar as leis fundamentais – como vemos tanto nas bolhas quanto nas quebras. A euforia pode elevar os preços das moradias e das empresas ponto.com; o pânico é capaz de derrubar bancos sólidos. Essa conexão de mão-dupla – você afeta aquilo que você reflete – é o que eu chamo de “reflexividade”.

Qual deveria ser o “circuit-breaker” capaz de subverter as distorções que inevitavelmente desestabilizam os mercados?

Se as bolhas são endêmicas ao sistema, os reguladores têm de intervir para impedir que se tornem grandes demais. Os governos precisam reconhecer o fato de que os mercados não são capazes de corrigir a si mesmos. Não basta recolher os pedaços depois da crise.

O sr. acha que a presença de um ciclo de notícias econômicas de 24 horas amplifica e exagera as distorções nos mercados financeiros?

Sem dúvida isso acelera o processo. Ao mesmo tempo, eu não atribuiria a isso uma importância excessiva. No final do século 19, não havia transmissão de notícias durante 24 horas, mas ainda assim formava-se o mesmo tipo de bolha. Durante o século 19, quando a regulação era insuficiente, as crises aconteciam sucessivamente. Cada crise provocava alguma reforma. Foi assim que se desenvolveu a instituição do banco central.

Como é possível que todo o esforço do governo americano – incluindo o pacote de resgate de US$ 700 bilhões e a baixa taxa de juros – não tenha sido capaz de impedir a crise?

As autoridades americanas compraram uma ideologia de fundamentalismo de mercado. Elas pensaram que afinal os mercados iriam corrigir a si mesmos. O secretário do tesouro, Henry Paulson, representou a epítome deste raciocínio. Ele pensou que, seis meses depois da crise do Bear Sterns, o mercado teria se ajustado e, “Bem, se o Lehman Brothers quebrar, o sistema será capaz de suportar as conseqüências”. Ao invés disso, tudo começou a desabar. Por não compreender a natureza do problema não viram necessidade de intervenção por parte do governo. Eles não prepararam um plano B. Conforme o choque da falência do Lehman começou a se fazer sentir, Paulson foi obrigado a mudar de idéia e socorrer a AIG. No dia seguinte viu-se uma corrida aos mercados monetários e de papel de curto prazo, e então deu meia-volta novamente e disse que precisávamos de um pacote de resgate de 700 bilhões. Mas ele queria botar o dinheiro no lugar errado – tirando das mãos dos bancos os valores mobiliários tóxicos. Finalmente voltaram ao rumo certo – com o governo comprando participação nos bancos – porque percebem que o sistema financeiro está à beira do colapso.

Quais são os elementos-chave para a solução da crise?

Há cinco elementos principais. (1) Em primeiro lugar, o governo precisa recapitalizar o sistema bancário através da compra de participação nos bancos. (2) Os empréstimos interbancários precisam ser reiniciados com garantias. Esse processo está em andamento. (3) Precisamos reformar o sistema hipotecário dos EUA, minimizando as execuções e renegociando empréstimos para que as hipotecas não tenham valor superior ao das casas. (4) A Europa precisa consertar uma fraqueza do euro com a criação de uma rede de segurança para seus bancos. Eles resolveram este problema no seu encontro em Paris. (5) O FMI precisa lidar com a vulnerabilidade dos países da periferia do sistema financeiro global através do oferecimento de uma rede de segurança. Esse processo também está encaminhado. Essas medidas darão início à recuperação. Se as implementarmos com eficácia, teremos suportado o pior da crise financeira. Mas temo que sejam inevitáveis as conseqüências sobre a economia real.Consertar o sistema financeiro não impedirá uma grave recessão mundial.

Quando tudo terminar, teremos uma paisagem financeira muito diferente?

A influência dos EUA vai minguar. Já entrou em declínio. Durante os últimos 25 anos, estivemos sustentando um contínuo déficit em conta corrente. Os chineses e os países produtores de petróleo mantiveram lucros. Consumimos mais que produzimos. Enquanto aumentávamos as dívidas, eles obtiveram riqueza com suas poupanças. Cada vez mais, os chineses serão os donos do mundo, pois estarão convertendo suas reservas de dólares e seus títulos do governo americano em ativos e bens reais.