Quinze horas depois de atentado contra comandante, criminosos atiraram contra o quartel do batalhão. Polícia redobrou vigilância
Matar Telhada seria para a facção como erguer um troféu
Bastidor: Marcelo Godoy – O Estado de S.Paulo
As novas ações imputadas ao PCC tiveram como alvo um dos principais instrumentos do governo de combate ao crime organizado: a Rota. Ela foi responsável pela apreensão recente de quase R$ 2 milhões em dinheiro, dezenas de fuzis, metralhadoras e carabinas e de mais de uma tonelada de drogas da cúpula da facção. Seus homens se envolveram em tiroteios em que importantes membros do PCC foram mortos ou presos. O uso da Rota é uma estratégia que ganhou força em 2009. Sua fórmula passa pela busca, processamento e análise de informações do sistema prisional e das ruas realizados pela Inteligência da PM. Quando tudo está apurado, esta aciona a Rota.
A cúpula da Segurança Pública não tem dúvida de que o sucesso dessas ações está por trás da reação do PCC. A facção escolheu os alvos a dedo. O tenente-coronel Paulo Telhada não é um policial comum. Além de chefiar a mais famosa unidade da PM, ele é desses oficiais carismáticos que gostam de comandar da linha de frente – não faz muito tempo, matou com um tiro um ladrão que roubava um hotel nos Jardins. Assassiná-lo permitiria à facção erguer um troféu. Já o ataque ao quartel da Rota, para o governo, foi uma ação de propaganda da facção. Os disparos contra o prédio não causaram danos relevantes. E os responsáveis se expuseram de tal forma que um deles foi baleado e morto pela guarda. Assim, seu único propósito seria a repercussão que o fato teria na sociedade. Essa, aliás, era uma das principais preocupações do governo. Pegas de surpresa pelas ações do PCC – nenhum dos órgãos de inteligência detectara a preparação dos ataques -, as Polícia Civil e Militar tentam agora demonstrar eficiência no esclarecimento desses crimes.
Diego Zanchetta, Eduardo Reina, Josmar Jozino, Marcelo Godoy e Tiago Dantas – O Estado de S.Paulo

Homem que atirou contra sede da Rota, na Avenida Tiradentes, foi morto
As Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), unidade de elite da Polícia Militar, transformou-se no alvo dos mais graves ataques praticados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) neste ano em São Paulo. Um suspeito de integrar a facção criminosa foi morto quando disparava contra o prédio do quartel da Rota, no centro de São Paulo.
Quinze horas antes, o comandante do batalhão, tenente-coronel Paulo Adriano Telhada, escapara ileso de um atentado à bala. Em seus 40 anos de existência – ela foi fundada em 1970 – essa é a primeira vez que a sede e o chefe da Rota são alvos de um ataque. A polícia ainda investiga a possibilidade de incêndios criminosos que destruíram 13 carros na madrugada de ontem na zona leste terem ligação com as novas ações da facção criminosa.
O governador Alberto Goldman (PSDB) afirmou ontem que “não existe nenhum perigo que possa colocar em risco a segurança do povo paulista”. O Centro de Inteligência Policial da PM e três departamentos da Polícia Civil estão apurando os ataques. Suspeita-se que eles são uma retaliação dos bandidos às ações da Rota que atingiram as finanças da liderança da facção, com a apreensão de armas, drogas e dinheiro e a prisão de homens da organização. “Pode ser uma reação a eles”, disse Goldman.
As ações do PCC começaram às 11 horas de anteontem, na Vila Penteado, zona norte. O tenente-coronel Telhada retirava sua picape de casa quando percebeu a aproximação de um carro com dois homens. Ao ver o passageiro abaixar o vidro e colocar a mão para fora da janela, Telhada se deitou no banco da picape. Os criminosos dispararam cerca de dez tiros e fugiram.
Pouco antes das 4 horas, policiais da Rota que estavam de guarda no quartel na Avenida Tiradentes, na Luz, escutaram disparos. Eles pareciam vir da rua ao lado, a João Teodoro. Os policiais foram verificar o que estava acontecendo e surpreenderam um homem de pé atirando em direção às janelas da lateral do quartel. Eles revidaram e balearam o criminoso, que morreu.
Identidade. Ele foi identificado como Frank Ligieri Sons, de 33 anos. O acusado deixou em fevereiro a prisão em Guarulhos, na Grande São Paulo. Em sua ficha policial consta que ele foi acusado de dois roubos – um na região da Sé e outro na Lapa, em São Paulo -, um estupro e uma lesão corporal, estes em Guarulhos.
Um outro bandido, que o aguardava em um carro, fugiu. Com Frank os policiais afirmaram ter encontrado um coquetel molotov e uma pistola calibre 40, mesmo tipo usado no atentado fracassado contra o tenente-coronel Telhada. Ele é suspeito de integrar a facção criminosa.
O atentado contra a Rota está sendo investigado pelo Centro de Inteligência da PM e pelo Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic). Já o atentado contra Telhada é alvo de inquérito do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Uma das principais pistas neste caso é a placa de um carro que o tenente-coronel conseguiu anotar.
As ações colocaram a polícia em alerta – comandos foram orientados a redobrar a vigilância. Cones foram postos na frente de quartéis, como o da Rota. Por enquanto, a polícia não identificou os outros participantes dos ataques.
CRONOLOGIA
29 de fevereiro de 2008
Rota prende dois tesoureiros do PCC e apreende R$ 674 mil
16 de abril de 2009
Presos 18 membros na escola de samba Barroca Zona Sul
26 de agosto de 2009
Apreensão de 130 kg de cocaína
17 de maio de 2010
Fábio Fernandes da Silva, o Vampirinho, um dos líderes da facção, é morto
7 de julho de 2010
Oito homens do PCC na zona leste são presos e um é morto
Defesa
ALBERTO GOLDMAN, governador do Estado: “Existe um cuidado maior, é claro, mas nada fora do normal”
‘Expoentes do crime organizado estão mandando esses atentados’
Eduardo Reina – O Estado de S.Paulo
ENTREVISTA Paulo Adriano Telhada
COMANDANTE DA RONDAS OSTENSIVAS TOBIAS DE AGUIAR (ROTA)
Um dia depois de escapar de um atentado a tiros, o comandante da Rota, Paulo Adriano Telhada, de 47 anos, disse ontem que os ataques contra ele e contra o quartel da Rota são uma represália às ações enérgicas da PM contra o crime organizado. E destacou que as ações foram realizadas a mando de expoentes do crime organizado.
Os atentados têm alguma relação com o crime organizado?
É possível. A PM tem incomodado muito o crime organizado nos dois últimos anos. Prendemos muita gente, desarticulamos ações, apreendemos armas, dinheiro e drogas.
Esses dois ataques mais os carros queimados na zona leste foram feitos pelo mesmo grupo?
Sobre os carros queimados é difícil falar. Mas os tiros contra o quartel são um sinal de ação planejada do crime organizado. Quiseram provocar um impacto mais psicológico. Esse bandido (atingido após o atentado ao quartel) que morreu saiu da cadeia em fevereiro. Devia estar devendo para todo mundo. Aí, mandaram ele fazer tal coisa. Se não fizesse, iam quebrar ele.
Há uma guerra declarada do PCC contra a Rota?
Para mim está claro que esse partido, se um dia teve força, hoje já era. Uma facção que já foi desarticulada. Quem está mandando esses atentados são expoentes do crime organizado que estão aparecendo.
Os ataques podem continuar?
Que isso que aconteceu sirva de alerta para todo mundo. Estão atacando pai de família, autoridade. Está na hora de a sociedade mostrar sua força. Vamos dar uma resposta enérgica, dentro da lei. Todo mundo está sujeito a sofrer um atentado: polícia, jornalista ou político.