22/08/2009 - 09:09h Crise encolhe bancos pequenos e médios


Instituições de menor porte perderam espaço e tiveram lucros mais apertados no primeiro semestre, aponta estudo

Ativos totais dos maiores tiveram crescimento de 21,5% nos 12 meses até junho, mas os dos médios e pequenos encolheram 1,7%

FABRICIO VIEIRA – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

A crise mostrou sua face nos balanços do setor bancário recém-divulgados. E os bancos de menor porte foram os que sentiram mais fortemente os efeitos nocivos da deterioração econômica. No primeiro semestre, as instituições de menor tamanho mostraram, na média, evolução pior de seus números do que as de grande porte. Em vários tópicos -crédito, lucro, depósitos, ativos- seus resultados foram piores.
O reflexo desse movimento tende a ser uma maior concentração bancária -ou seja, os bancos maiores dominando uma parcela mais expressiva do sistema financeiro.
Um exemplo são os ativos totais. Enquanto os maiores registraram crescimento médio de 21,5% nos 12 meses encerrados em junho, os médios e pequenos encolheram 1,7%.
“Algumas instituições menores chegaram a ter pequenos problemas de insolvência, mas isso acabou resolvido após medidas tomadas pelo governo”, afirma Luis Miguel Santacreu, analista financeiro da consultoria Austin Rating. “E, dentre os menores, há casos diferentes. Os que dependiam mais de oferta de crédito à pessoa jurídica foram os que mais sentiram a crise. Outros, que tinham uma base forte no consignado e mesmo em veículos, saíram-se melhor”, afirma.
O estudo feito pela Austin Rating a pedido da Folha considerou instituições que já apresentaram seus balanços. Entraram no levantamento 7 dos maiores bancos do país e outros 19 de menor porte.
A evolução das carteiras de crédito ilustra bem o impacto da crise nas instituições financeiras. Para os bancos maiores, a carteira total de crédito se expandiu em 24,1% em 12 meses. No caso dos menores, houve recuo de 3,3% no período.
“Nesses períodos de crise, é quase inevitável o aumento da concentração no sistema bancário. Os bancos menores, que não têm exposição no segmento de varejo, com uma ampla carteira de clientes, acabam sendo os que mais sentem a crise e encolhem mesmo nesses momentos”, avalia Luiz Antonio Vaz das Neves, analista da KNA Consultores.

Lucro menor
Um bom exemplo do que ocorreu no segmento é o BicBanco. A instituição viu seu lucro recuar 20,5% entre o primeiro semestre de 2008 e o mesmo período de 2009 -caiu de R$ 197 milhões para R$ 156 milhões. As pessoas físicas, que ajudaram os grandes bancos a manter o ritmo de concessão de crédito, representam apenas 5,6% da carteira de crédito do BicBanco.
No Banco do Brasil, que voltou a ser a maior instituição financeira do país após os últimos balanços conhecidos, o crédito concedido à pessoa física cresceu 8,5% entre o primeiro e o segundo trimestres deste ano. Para a pessoa jurídica, a expansão foi de apenas 1,9% nesse período.
Há também o caso de bancos menores, como o BMG, que se saíram melhor que seus pares. Focada no empréstimo consignado (que tem baixo risco e manteve a demanda aquecida em meio à crise), a instituição financeira teve resultado crescente nos últimos meses. O lucro do banco cresceu 16,3% no primeiro semestre sobre o mesmo período de 2008, alcançando R$ 175,7 milhões.
“O retrato mais feio do sistema financeiro é esse que vimos no fim do primeiro semestre. Daqui para a frente, a tendência é de a expansão do crédito retomar ritmo e o provisionamento [dinheiro reservado para calotes] diminuir”, avalia Santacreu.

28/03/2009 - 14:25h A mística do mercado

ARTIGO

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” - FOLHA SP

NA SEGUNDA-FEIRA, Lawrence Summers, o chefe do Conselho Econômico Nacional, respondeu às críticas ao plano do governo Obama para subsidiar a compra privada de ativos tóxicos. “Não conheço nenhum economista que não acredite que mercados de capitais funcionando melhor, nos quais os ativos possam ser negociados, não sejam uma boa ideia.”
Deixe de lado por um momento a questão de se um mercado em que os compradores têm de ser subornados para participar pode realmente ser descrito como “funcionando melhor”. Mesmo assim, Summers precisa sair mais. Alguns economistas reconsideraram sua opinião favorável sobre os mercados de capitais e a negociação de ativos à luz da crise atual.
Mas ficou cada vez mais claro nos últimos dias que autoridades graduadas do governo Obama ainda estão presas à mística do mercado. Elas ainda acreditam na magia do mercado financeiro e na proeza dos magos que a executam.
A mística do mercado nem sempre dirigiu a política financeira. A América saiu da Grande Depressão com um sistema bancário rigidamente regulamentado, que fez das finanças um negócio sóbrio e até aborrecido. Os bancos atraíam os depositantes fornecendo localizações convenientes de agências e talvez uma ou duas torradeiras de brinde; usavam o dinheiro assim captado para fazer empréstimos, e era isso.
E o sistema financeiro não era apenas aborrecido. Também era, pelos padrões de hoje, pequeno. Mesmo durante os “anos go-go”, o mercado altista da década de 1960, finanças e seguros juntos representavam menos de 4% do PIB. A relativa desimportância das finanças se refletia na lista de ações que formavam a Média Industrial Dow Jones, que até 1982 não continha uma única companhia financeira.
Tudo parece primitivo pelos padrões de hoje. Mas aquele sistema financeiro aborrecido e primitivo serviu a uma economia que duplicou os índices de padrão de vida no período de uma geração.
Depois de 1980, é claro, surgiu um sistema financeiro muito diferente. Na era Reagan, de mentalidade desregulamentadora, a banca à moda antiga foi cada vez mais substituída pela especulação em grande escala.
O novo sistema era muito maior que o antigo regime: à véspera da crise atual, finanças e seguros representavam 8% do PIB, mais que o dobro de sua participação nos anos 60. No início do ano passado, o Dow Jones incluía cinco companhias financeiras -entre elas gigantes como AIG, Citigroup e Bank of America.
E as finanças tornaram-se nada aborrecidas. Atraíram muitas de nossas mentes mais agudas e fizeram algumas pessoas imensamente ricas. Sob o novo mundo glamouroso das finanças estava o processo de securitização. Os empréstimos não ficavam mais com o credor. Em vez disso, eram vendidos para outros, que cortavam em fatias, picavam e faziam purê das dívidas individuais para sintetizar novos ativos. Hipotecas “subprime”, dívidas de cartão de crédito, empréstimos para carros -tudo entrava na processadora do sistema financeiro.
Do outro lado, supostamente, saíam doces investimentos AAA. E os magos financeiros foram generosamente recompensados pela condução desse processo.

Eram fraudes
Mas os magos eram fraudes, quer eles soubessem disso quer não, e sua magia veio a ser nada mais que uma coleção de truques baratos. Acima de tudo, a promessa chave da securitização -que tornaria o sistema financeiro mais robusto ao espalhar mais os riscos- veio a ser uma mentira. Os bancos usaram a securitização para aumentar seu risco, e não para reduzi-lo. Nesse processo tornaram a economia mais, e não menos, vulnerável aos distúrbios financeiros.
Mais cedo ou mais tarde as coisas tinham de dar errado, e acabaram dando. O Bear Stearns faliu; o Lehman faliu; mas principalmente a securitização faliu. O que nos traz de volta à abordagem do governo Obama para a crise financeira.
Grande parte da discussão sobre o plano de ativos tóxicos se concentrou nos detalhes e na aritmética, e com razão. Além disso, no entanto, o que é marcante é a visão manifestada tanto no conteúdo do plano financeiro como em declarações de autoridades do governo. Na essência, o governo parece acreditar que quando os investidores se acalmarem a securitização e os negócios financeiros poderão retomar de onde pararam um ou dois anos atrás.
Para ser justo, as autoridades estão pedindo mais regulamentação. Na verdade, na quinta-feira Tim Geithner, o secretário do Tesouro, explicou planos para aumentar a regulamentação que teriam sido considerados radicais pouco tempo atrás. Mas a visão subjacente permanece a de um sistema financeiro mais ou menos igual ao que havia dois anos atrás, embora um pouco mais controlado por novas regras. Como você pode adivinhar, eu não compartilho essa visão.
Não acho que isso seja apenas um pânico financeiro; eu acredito que representa o fracasso de todo um modelo de banca, de um setor financeiro que cresceu demais e causou mais dano que bem. Não acho que o governo Obama seja capaz de trazer a securitização de volta à vida, e não acredito que deva tentar isso.

PAUL KRUGMAN , economista, é colunista do jornal “The New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA).

Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES

25/03/2009 - 14:06h Plano dos EUA é “roubo” para o contribuinte, diz Prêmio Nobel

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Joseph Stiglitz

DA REUTERS – Folha SP

O plano do governo americano para se livrar dos ativos “tóxicos” dos bancos é um “roubo” ao contribuinte dos EUA, por expô-lo a risco excessivo, e dificilmente irá funcionar enquanto a economia continuar enfraquecida, disse o Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz.
“O plano do [secretário do Tesouro, Timothy] Geithner, está repleto de falhas”, disse em Hong Kong. Para Stiglitz, o plano apresentado anteontem por Geithner para retirar até US$ 1 trilhão em ativos problemáticos dos balanços do bancos oferece “incentivos perversos”.
Segundo ele, o governo dos EUA está usando o contribuinte como garantia caso esses ativos se desvalorizem, ao mesmo tempo em que cede a possível alta, ou lucros em potencial, para os investidores privados.
“De forma bem sincera, isso equivale a um roubo do povo americano. Eu não acredito que isso vá funcionar porque acredito que haverá muita revolta contra colocar tantas perdas sobre os ombros dos contribuintes americanos.”
Mesmo que o plano limpe os balanços dos bancos de gigantescas dívidas “tóxicas”, as preocupações com o cenário econômico podem fazer com que as instituições continuem a não se mostrar dispostas a novos empréstimos, ao mesmo tempo em que as perspectivas de uma maior carga tributária para pagar os planos de estímulo do governo podem afetar ainda mais os consumidores americanos, disse Stiglitz.
Alguns legisladores republicanos também demonstraram preocupação com os incentivos oferecidos pelo governo, que pode dar aos investidores privados quase 93% dos fundos para comprar ativos problemáticos. Mas o presidente dos EUA, Barack Obama, disse que o plano é fundamental para a recuperação da economia.
Stiglitz, que é professor da Universidade Columbia e ex-economista-chefe do Banco Mundial, também pediu que os líderes do G20 se comprometam na reunião da semana que vem a fornecer mais recursos aos países em desenvolvimento e disse que a China deve ter mais poder no FMI.