04/03/2012 - 17:00h Dujardin e o sonho americano
Oscar de ator por O Artista tinha tudo para não brilhar fora da França
04 de março de 2012
ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS – O Estado de S.Paulo
Afirmar que O Artista (The Artist) é uma homenagem ao cinema americano tornou-se lugar comum desde antes do sucesso estrondoso na cerimônia de entrega do Oscar 2012. Esse tributo é verdadeiro, foi frisado um sem-número de vezes pelo diretor do filme, Michel Hazanavicius, e está evidente no nome do filme – produção europeia com título em inglês mesmo na França. Mas também na escolha do melhor ator há uma referência, desta vez involuntária, a um dos pilares da cultura dos Estados Unidos. Jean Edmond Dujardin vive uma espécie de sonho americano.
A construção da “América” é prolífica em exemplos de desafortunados que conquistam o sucesso, a fama e a fortuna contra todas as expectativas. Hollywood é um dos instrumentos de divulgação do ideal de que em solo americano é possível superar todas as adversidades e alcançar a realização. Em 1977, a Academia louvou com dez indicações e três prêmios o filme Rocky, de John G. Avildsen, uma ficção inspirada na história real de um lutador desconhecido, Chuck Wepner, que resistira ao multicampeão Mohamed Ali até o 15.º round em 1975.
Dujardin também é uma espécie de lutador que tem o destino chacoalhado pelo inesperado. Em um país fascinado pelas aristocracias e pelas dinastias, ele se tornou uma prova de que existe uma versão francesa do sonho americano. Nascido em 19 de junho de 1972, em Rueil-Malmaison, cidade de 79 mil habitantes na periferia de Paris, ele era filho de serralheiro que vivia de sua pequena empresa. Nela, o jovem começaria sua vida profissional, logo após se formar no Ensino Médio voltado à filosofia e às artes plásticas. Em vez de seguir para a universidade, inscreveu-se nas Forças Armadas. E foi lá que descobriu seu talento como ator.
Estimulado pelos colegas, que apreciavam seus personagens nos sketchs de comédia que improvisava, decidiu se aventurar na carreira. Uma vez em Paris, começou a abrir terreno em apresentações improvisadas em bares e em pequenos teatros sem expressão, até parar em uma trupe, La Bande du Carré Blanc, ao lado de comediantes um pouco mais conhecidos no cenário parisiense, como Éric Collado, Emmanuel Joucla, Éric Massot e Bruno Salomone.
No fim dos anos 90, enveredou pela TV, participando de programas como Fiesta, da rede pública France 2, e vencendo três vezes como melhor ator de comédia no Graines de Star – Sementes de Estrelas -, um concurso promovido por outra emissora, a até então pouco prestigiosa M6. Nessa época, conseguiu suas primeiras participações em seriados de TV até chegar a Un Gars, Une Fille – Um Cara, Uma Menina -, quando contracenou com sua futura mulher, Alexandra Lamy, uma sequência de 486 sketchs de sete minutos de duração sobre as neuroses vida de casal, seu primeiro sucesso de peso numa grande emissora.
Fortalecido pela repercussão do trabalho, conseguiu papéis medianos de cinema a partir de 2002, com Ah! Si, J’Étais Riche, de Gérard Bitton e Michel Munz, produção de € 7,5 milhões. Em paralelo, seguia desenvolvendo personagens, entre eles um de excelentes resultados: Brice de Nice – um jogo de palavras entre o nome da cidade da Côte D’Azur e da expressão “the nice” ou “o bacana”.
Brice, surfista burro e megalômano de um balneário não exatamente marcado por suas ondas, tornou-se hit na internet nos anos 2000, a tal ponto de transformá-lo em sucesso de bilheteria no cinema. Em 2006, gravou nova comédia, OSS 117, paródia de 007 e dos filmes de espionagem dirigida por um certo Hazanavicius e vista por 2,2 milhões de pessoas. Aí seu desempenho se fez mais marcante, levando-o a uma indicação ao prêmio César de melhor ator de 2007.
Sua carreira seguiria entre comédias, filmes policiais e alguns dramas, consolidando-o como uma das personalidades preferidas dos franceses. Sobre a fama, afirmou: “O sucesso é só um luxo, um luxo bonitinho que nos permite ter mais tempo”. Com o tempo, porém, usou o sucesso para escolher papéis mais complexos. Em 2008, contracenou com Jean-Paul Belmondo – com o qual foi comparado por alguns críticos. Há dois anos, participou do excelente Les Petits Mouchoirs, de Guillaume Canet, em que faz uma aparição breve, mas central para o desenrolar da história. Então já tinha uma trajetória consolidada na França não apenas como comediante, mas como ator dramático, roteirista, produtor e agora diretor, na comédia recém-lançada Les Infidèles.
Mas Dujardin tinha tudo para ser uma das grandes estrelas que ninguém jamais ouve falar fora da França, como o ultrarockstar Johnny Hallyday. Isso porque ele não é fluente em inglês, o que o privaria de tentar a carreira em Hollywood como outros atores de sua geração – Canet e Marion Cotillard. Foi aí que o milagre se produziu, transformando o mérito em consagração. Por meio de um improvável – e providencial – filme mudo, parceria com Hazanavicius e sua mulher, Bérénice Bejo, Dujardin, de 38 anos, antítese de George Valentin, o astro do cinema mudo que interpreta, poderia, enfim, mostrar seu talento no exterior. “O mudo me convinha bem, porque sempre trabalhei muito com o corpo. No início, era um complexo de não ter tido formação de ator”, disse ele à revista L’Express em 2011, quando do lançamento do filme. “Eu me dizia que não tinha profundidade suficiente, nem proposta de atuação intensa e precisava convencer com o corpo.”
Ao receber o projeto do filme, Dujardin disse ter repensado sua carreira e os caminhos que escolhera até então. “Entrei num universo muito diferente e me perguntei se não estava esquecendo quem eu era. O Artista era exatamente o gênero de projeto que me excita. Tenho medos na vida, mas não no cinema.”
O resultado da mistura de sua coragem e talento foi conhecido nos últimos meses, quando o artista rompeu a barreira da língua e conquistou prêmios em Cannes, no Golden Globes, Screen Actors Guild Award, Bafta e no Oscar. Na cerimônia, ao deixar escapar um palavrão não condizente com o ambiente de refinamento da festa, Dujardin – como sempre faz -, ironizou: “Creio que não tenha sido feito para ser conhecido”. É verdade. E é também mais uma prova de que a vida real às vezes parece imitar a ficção.
DE ORIGEM HUMILDE, SUA VIDA TEM SIDO MARCADA PELO INESPERADO














A primeira vez que seu nome foi mencionado no Brasil vivíamos ainda nos tempos da ditadura, isto é, nos anos 1970, quando Ruth Escobar convidou-o para encenar aqui Time and Life of Joseph Stalin, que teve seu título trocado para enganar a censura da época. Qual foi, então, sua primeira impressão do país?








