21/07/2008 - 12:58h Olimpíadas com arte

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Conhecido como 798, este é o bairro de Pequim que reúne o maior número de artistas, estúdios e galerias e parece praticamente imune à rígida censura do país

Cláudia Trevisan - O Estado de São Paulo


A meteórica ascensão econômica da China se replica no mundo das artes plásticas, no qual a produção contemporânea do país bate sucessivos recordes de preços no mercado internacional. O bairro que reúne o maior número de estúdios e galerias de Pequim se transforma em um dos principais pontos turísticos da cidade, depois da Grande Muralha e da Cidade Proibida.

Conhecido como 798, o distrito artístico da capital chinesa é um enorme território livre de criação - ou pelo menos mais livre que seu entorno, submetido à estrita censura chinesa. O local era um parque industrial construído nos anos 50 com ajuda de arquitetos da ex-Alemanha Oriental, que conceberam os edifícios no melhor estilo Bauhaus, simples e funcionais.

Várias fábricas identificadas por números se dedicaram durante anos à produção de equipamentos eletrônicos para as Forças Armadas. Desativadas nos anos 90, muitas delas começaram a ser ocupadas por artistas no fim da década, o que transformou a região em uma versão chinesa do SoHo nova-iorquino.

A que tinha o número 798 foi recriada como um dos primeiros locais de exposição e acabou emprestando seu nome a todo o distrito. Em suas paredes, ainda estão os slogans da Revolução Cultural (1966-1976), que pediam longa vida ao comandante Mao Tsé-tung (1893-1976), escritos em ideogramas vermelhos.

As galerias seguiram os artistas e atrás deles foram restaurantes, bares, livrarias e lojas. No ano passado, o distrito 798 recebeu 1,5 milhão de visitantes, número três vezes maior do que em 2005. Livre das amarras ideológicas do passado, a arte contemporânea chinesa floresceu a partir de meados dos anos 80, pelas mãos de artistas que nasceram ou cresceram durante a Revolução Cultural, o movimento que levou ao extremo a idéia de que a criação deveria estar submetida aos interesses da construção do socialismo.

A arte contemporânea chinesa começou a ganhar o mundo na década atual, com exibições na Europa e nos Estados Unidos e colecionadores dispostos a pagar preços cada vez mais altos por seus trabalhos.

O caso mais emblemático da ascensão meteórica dos chineses no mercado internacional é a obra Execução, de Yue Minjun, de 46 anos. Inspirado no massacre de estudantes na Praça Tiananmen, em 1989, o quadro foi pintado em 1995 e vendido em seguida por US$ 5 mil ao marchand de Hong Kong Manfred Schoeni. No ano seguinte, o investidor Trevor Simon desembolsou US$ 32 mil pela pintura, com a condição de não exibi-la em público durante dez anos em razão de seu tema ‘’sensível”. Em outubro de 2007, Execução foi arrematada por US$ 5,9 milhões em um leilão da Sotheby’’s de Londres, tornando-se a mais cara obra contemporânea chinesa vendida até então.

O recorde logo foi quebrado por Zeng Fenzhi, de 44 anos, e seu quadro Série Máscaras,1996, nº 6, vendido em maio de 2008 por US$ 9,7 milhões, o mais alto preço já pago por uma obra de arte contemporânea asiática.

A cifra foi o triplo da estimativa inicial de US$ 3,2 milhões feita pela Christie’’s, responsável pelo leilão. O quadro mostra oito jovens de braços dados, com máscaras sorridentes e os lenços vermelhos no pescoço, típicos da Revolução Cultural.

Os artistas chineses que nasceram na década de 60 tentam captar o turbilhão de mudanças no qual o país mergulhou nos últimos 30 anos e refleti-lo de diferentes maneiras em suas criações. Muitos deles sofreram influência decisiva do massacre de estudantes na Praça Tiananmen, em 1989, que enterrou as aspirações por mudanças democráticas e mais liberdade alimentadas desde o início daquela década.

O resultado foi o movimento ”Realismo Cínico”, do qual fazem parte Yue Minjun e Fang Lijun, outro artista que usa figuras carecas em suas pinturas. A escola é marcada pela ironia, o desencanto e o fim do idealismo dos primeiros anos do processo de reforma e abertura da China, iniciado por Deng Xiaoping em 1978.

A memória do passado socialista está presente nos quadros de Zhang Xiaogang, que realiza séries inspiradas na estética de fotografias de família do início do século passado, mas com a maioria dos personagens vestidos com o guarda-roupa que imperou durante o maoísmo.

”Os retratos familiares mudos de Zhang Xiaogang parecem ter capturado a verdadeira essência do drama histórico, ou mesmo trauma, da construção de uma sociedade contemporânea próspera a partir das brasas de uma revolução”, diz o catálogo da Sotheby’’s sobre sua obra.

O impacto das transformações econômicas na vida de milhares de chineses é refletido nas criações de Liu Xiaodong, pintor figurativista, autor de uma longa série sobre a construção da gigantesca hidrelétrica de Três Gargantas, que inundou um trecho de 600 km de extensão e 1,1 km de largura e forçou a realocação de pelo menos 1,4 milhão de pessoas. Xiaodong estabeleceu um novo nível de preço para a arte contemporânea chinesa em 2006, quando sua obra Pessoas Recentemente Deslocadas foi vendida por US$ 2,7 milhões.

ESTRELAS CHINESAS

AI WEIWEI
Ano de nascimento: 1959

Misto de artista e agitador cultural, Ai Weiwei já realizou trabalhos de design, arquitetura, escultura, instalações, performances e foi consultor da dupla Jacques Herzog e Pierre de Meuron, arquitetos responsáveis pelo desenho do Estádio Olímpico de Pequim, batizado de Ninho de Pássaros. Ai Weiwei é diretor do China Art Archives and Warehouse, galeria voltada para a arte conceitual e experimental

ZENG FENZHI
Ano de nascimento: 1964

Bateu o recorde de preço de arte contemporânea asiática depois que seu quadro Série Máscaras, 1996, nº 6 foi arrematado por US$ 9,7 milhões em maio deste ano. A série ”máscaras” é seu mais célebre trabalho e mostra personagens dos anos 90 usando máscaras com olhos bem abertos e expressões ensaiadas e artificiais

YUE MINJUN
Ano de nascimento: 1962

Sua marca registrada são auto-retratos sorridentes (foto acima)que aparecem em todos os seus trabalhos, sejam pinturas ou esculturas. Inspirado pelo massacre de estudantes na Praça Tinanmen, em 1989, seu quadro Execução foi vendido por US$ 5,9 milhões em outubro de 2007, o mais alto preço pago por uma obra contemporânea chinesa até então. Yue integra o movimento Realismo Cínico, que surgiu depois do massacre na Praça Tiananmen, em 1989

ZHANG XIAOGANG
Ano de nascimento: 1958

Inspirados no estilo de fotos de família do início do século passado, seus quadros mostram figuras tristes e silenciosas, que evocam com suas roupas ‘’socialistas” a memória do período maoísta que a China começou a abandonar em 1978 em favor do crescimento econômico. Zhang é um dos artistas chineses preferidos pelas galerias internacionais

FANG LIJUN
Ano de nascimento: 1963

Um dos líderes do movimento Realismo Cínico, que surgiu com o sentimento de desencanto provocado pelo massacre de estudantes na Praça Tiananmen, em 1989. Seus personagens costumam ser homens carecas, com expressões ambíguas, apresentados sobre paisagens infinitas

LIU XIAODONG
Ano de nascimento: 1963

Pintor figurativista que se destacou com uma série sobre o custo humano e ambiental da hidrelétrica de Três Gargantas, que forçou a realocação de pelo menos 1,4 milhão de pessoas. Seu quadro Pessoas Recentemente Deslocadas foi vendido por US$ 2,7 milhões em 2006 e estabeleceu um novo patamar de preço para a arte contemporânea chinesa

Melhor da produção contemporânea, fora das quadras

Durante os jogos olímpicos, estão programadas exposições, performances, instalações e arte digital

Cláudia Trevisan, Pequim


Os estrangeiros que forem a Pequim para os Jogos Olímpicos terão a chance de ver a mais completa mostra de arte contemporânea chinesa já realizada em todo o mundo. Apenas no distrito 798, 27 galerias vão realizar 103 exibições no período próximo ao das competições, que começam dia 8 e terminam dia 24 de agosto.

A mostra mais representativa foi organizada pela Ullens Center for Contemporary Art (Ucca), começou no sábado e segue até 12 de outubro. Fundada no mês de novembro de 2007, a galeria reúne a coleção de arte contemporânea chinesa que o casal belga Guy e Myriam Ullens começou a construir em meados dos anos 80 e é o maior centro de exposições do 798, com uma área de 8 m². A exibição da Ucca reúne 92 trabalhos de 60 artistas e inclui performances, instalações e arte digital.

O interesse do casal surgiu quando ninguém fora da China prestava atenção à produção artística do país. Ao longo de duas décadas, eles reuniram cerca de 1.700 obras, que representam os trabalhos de diferentes gerações de artistas, em vários momentos de suas carreiras.

Desde março, a Ucca é dirigida pelo francês Jérôme Sans, co-fundador e ex-diretor do museu de arte contemporânea Palais de Tokyo, em Paris. “As exibições têm o melhor da arte contemporânea chinesa e os visitantes podem ver os artistas de milhões de dólares, mas também os talentos emergentes”, observa Robert Bernell, dono da livraria e editora Timezone8, especializada em livros de arte e criador do site www.chinese-art.com.

O 798 é o mais badalado endereço da arte contemporânea de Pequim, mas está longe de ser o único. A pioneira nessa área foi a galeria Red Gate, fundada em 1991 pelo australiano Brian Wallace em uma antiga torre de observação que integrava a Muralha de Pequim - quase toda destruída depois da Revolução Comunista de 1949. No ano passado, a Red Gate emprestou seu prestígio ao distrito 798 e abriu uma filial no local.

Na medida em que os aluguéis começaram a subir no antigo distrito industrial, alguns artistas se mudaram para uma área a cinco quilômetros de distância, chamada Caochangdi. O primeiro endereço do local foi a China Art Archives and Warehouse, dedicada à arte experimental e conceitual.

A galeria é dirigida por Ai Wewei, um dos mais importantes artistas chineses, com talento para design, arquitetura, performances, instalações e escultura. Filho do poeta Ai Qing, enviado para o campo durante a Revolução Cultural, Ai trabalhou como consultor dos arquitetos Jacques Herzog e Pierre de Meuron na concepção do Ninho de Pássaros, o Estádio Olímpico de Pequim que sediará as principais competições dos Jogos de agosto.

10/07/2008 - 18:50h Volta de Paraty

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CONTARDO CALLIGARIS - FOLHA SP


Um romance interior, diferente para cada um, responde às perguntas que surgem na infância


DE QUARTA a domingo passados, participei da Festa Literária Internacional de Paraty -a Flip.
De alguns escritores presentes, eu já tinha lido um livro ou mais. Quanto aos outros autores, nas últimas semanas, encurtei minhas noites para conhecer ao menos o sabor de sua ficção. A bancada de meu escritório se cobriu de volumes inchados pelas orelhas das capas, com as quais eu marcava o progresso da leitura, e, ao redor de minha cama, espalharam-se em permanência dez livros abertos.
A essas leituras fragmentárias, acrescentaram-se, ao longo da Flip, os trechos lidos por cada autor.
Não sei quantas dessas histórias acabarei lendo por inteiro. A vida continua, e novos livros me levarão consigo. Mas, até das obras que não terminarei de ler, algo permanecerá -sem que eu saiba necessariamente o quê.
Os livros folheados, sondados, lidos às pressas e apenas em parte, os trechos ouvidos e mesmo os relatos de quem me contou de suas leituras -tudo isso alimentará (já alimenta), de uma maneira ou de outra, meu “livro interior”. O que é meu “livro interior”? Um pouco de paciência.
Essa bonita expressão é de Pierre Bayard, cujo recente “Como Falar dos Livros que Não Lemos?” (Objetiva) foi o objeto de uma mesa da Flip, na qual, aliás, servi de mediador entre o próprio Bayard e Marcelo Coelho, colunista da Folha. O livro de Bayard é, à primeira vista, uma sátira (muito divertida) dos costumes (universitários e mundanos) pelos quais todos falamos de livros que não lemos como se os tivéssemos lido. Digo “à primeira vista”, porque, de fato, o livro de Bayard é muito mais do que isso: é uma investigação sobre os caminhos misteriosos pelos quais os livros passam a fazer parte da gente, mesmo que os tenhamos apenas folheado ou nem isso.
Há os livros dos quais só ouvimos falar; há os muitos que compramos e ficam para sempre virgens em cima do criado-mudo; há os que apenas iniciamos e os que lemos aos trancos. Sem contar aqueles dos quais não sabemos mais se os lemos ou apenas acreditamos conhecê-los à força de falar como se os conhecêssemos. Fragmentos, re- latos, resumos de ficções, de uma maneira ou de outra, passam a fazer parte de nós, tanto quanto nossas leituras exaustivas. Como assim?
Num capítulo de seu livro, Bayard faz uma distinção entre o livro interior de quem pertence a uma sociedade tradicional (que seria um livro coletivo, repleto de representações, lendas e histórias que são fundamentalmente as mesmas para todos) e o livro interior dos modernos, único e diferente para cada um. É o romance que vamos aprimorando a partir das primeiras ficções que inventamos para responder às perguntas que se colocam desde nossa infância.
Para nós modernos, por exemplo, o parentesco sem amor não é garantia de nada, e o berço não dita o destino; só podemos, portanto, tentar imaginar: “Somos amados ou não?”, “Será que nossos pais se amam?”, “Eles amam mais a gente ou o irmão e a irmã?”, “Qual será nosso futuro?”, e por aí vai nossa tarefa de romancistas.
Aos poucos, as histórias que lemos, que ouvimos ou às quais assistimos (no cinema ou na televisão) enriquecem nossa ficção originária. E, como escreve Bayard: “Os livros interiores individuais formam um sistema de recepção de outros textos (…) constituem uma grade de leitura do mundo e particularmente dos livros, dos quais organizam a descoberta”.
Ou seja, talvez nossa apreciação crítica seja isto: as exigências de nosso livro interior nos fazem gostar (ou não) de uma história porque ela pode (ou não) se enquadrar na ficção de nossa vida.
E as histórias que integramos à nossa ficção podem ser trechos, fragmentos, resumos, relatos de segunda mão.
Anos atrás, na Suíça, ensinando literatura a imigrantes italianos que preparavam o exame final do ensino básico, eu gostava de resumir os clássicos para eles. Eles escutavam, comentavam e liam pequenos trechos que eu tinha, quase sempre, simplificado. Os maiores sucessos eram a “Odisséia” e “Moby Dick” - o que não é surpreendente, tratando-se de homens que eram separados de suas famílias e corriam atrás de um sonho impossível.
Hoje, se alguém perguntasse a meus ex-alunos se eles leram esses dois livros, talvez eles dissessem que sim. Mentira? Pode ser. Mas aposto que Homero e Melville os reconheceriam como bons leitores de suas obras.

ccalligari@uol.com.br

06/07/2008 - 15:11h Um Escritor na Periferia: a Argentina em Borges

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Beatriz Sarlo e Jorge Luis Borges

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de São Paulo


Os críticos, de forma geral, quase sempre ignoraram que a questão da literatura argentina é central na obra de Jorge Luis Borges, mas não a ensaísta Beatriz Sarlo, uma das vozes mais lúcidas de seu país. Segundo a professora de Literatura, que lança no Brasil seu livro Jorge Luis Borges: Um Escritor na Periferia (Editora Iluminuras, tradução de Samuel Titan Jr., 160 págs., R$ 35), não existe escritor mais argentino que Borges. Cosmopolita e universal, sua obra, segundo Beatriz Sarlo, é perturbada pela tensão entre a mistura e a nostalgia por uma literatura européia que ele não poderia viver integralmente. Como ler Borges sem remetê-lo a Martín Fierro, a Sarmiento ou a Lugones?, pergunta Beatriz Sarlo, que concedeu ao Estado a entrevista abaixo e faz amanhã, às 19h30, uma palestra no encontro Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem, em Porto Alegre.

Mais forte que a literatura argentina, Borges quase perdeu a nacionalidade. Não ocorreria a nenhum crítico dissociar Balzac e Baudelaire da literatura francesa. Borges, ao contrário, navegou, segundo Beatriz Sarlo, na corrente universalista da ”literatura ocidental”. Qualquer citação biográfica de Borges passa necessariamente pelo fascínio por Chesterton ou Kipling ou pela influência da literatura de Kafka, mas quase nunca por nomes como os de José Hernández, Evaristo Carriego, Macedonio Fernández ou Sarmiento, como se Borges tivesse ignorado sua dívida com a tradição literária argentina. O livro da professora argentina lembra que Borges não apenas escreveu ensaios sobre o Martín Fierro, obra maior da literatura argentina, como foi obcecado pelo poema de José Hernández. E, sobretudo, foi um autor que construiu sua originalidade por via da citação, da cópia.

Borges considerava infundada a opinião de que os escritores argentinos estavam desconectados do passado, ou seja, que houvesse uma ruptura entre eles e a Europa, porque, justamente por ser um país novo, haveria um grande sentido de tempo na Argentina. Por que a crítica insiste em tratar Borges como um escritor que nada deve à tradição literária argentina?

Não é essa a posição da crítica nas últimas décadas. Ricardo Piglia, anteriormente, sublinhou a conexão borgiana com a tradição nacional, num ensaio publicado na revista Punto de Vista. Por essa época também escrevi um artigo cujo título era Borges no Sul, um Episódio do Formalismo Criollo, acentuando a localização argentina de alguns temas de teoria literária suscitados por textos de Borges e publicados nos primeiros anos da revista que dirigia com Victoria Ocampo. Mas, mesmo antes, a professora María Teresa Gramuglio tratou da questão na leitura do livro de Borges sobre Evaristo Carriego, poeta menor que o primeiro usa quase como pretexto para expor uma teoria do bairro de Palermo. De modo que o Borges ocupado com labirintos e espelhos, ou seja, o Borges da primeira leitura crítica e das leituras européias, desde o fim dos anos 1970, adquire um novo rosto, como leitor e reescritor de alguns textos fundamentais da tradição argentina.

A senhora define Borges como escritor da periferia, um cosmopolita à margem, mas, nos capítulos finais de seu livro, apresenta o lado político-filosófico do escritor em termos universais. Há algum projeto de desenvolver esse aspecto particular num próximo livro sobre ele?

Creio, com efeito, que meu propósito de reinscrever criticamente Borges na literatura argentina, como matriz formal e ideológica dessa mesma literatura, como o escritor que inventa ou descobre a centralidade do marginal, só quase no final do livro que está sendo lançado no Brasil considera as figurações borgianas com respeito à ordem, em especial no capítulo sobre O Informe de Brodie. Nesse momento, já acertadas as contas com o Borges fundador das margens ”criollas” de Buenos Aires, parece-me que poderia voltar a contos como O Imortal para ver de que modo outras imagens da cidade, mais abstratas e universais, podem ser representadas na literatura. Precisamente é esse o conto que estou relendo neste momento, ao lado de Abenjacán, el Bojari Muerto en Su Laberinto.

Um dos temas mais interessantes de seu livro é a construção da originalidade de Borges, paradoxalmente por meio da cópia, da reescrita de textos alheios. Essa seria uma insinuação de que a veracidade literária representaria uma ficção para Borges, considerando seu pouco apreço pela literatura realista?

A idéia de veracidade é, em si mesma, uma idéia a que estamos acostumados a encontrar nas poéticas realistas, vale dizer, nos textos que se propõem uma representação cujas origens seriam exteriores à literatura: ou seja, uma representação heterônoma. Borges, ao contrário, está profundamente convencido da autonomia do literário, de sua independência a respeito dos referentes sociais diretos. O literário, em Borges, entra em relação com o social por meio da própria literatura, numa cadeia que vai de texto a texto. A dimensão social da literatura não provém de sua relação direta com uma exterioridade social, mas de uma trama social de discursos, geralmente literários, mas não apenas literários. Ou seja, para ele, a relação é sempre entre discursos, ficções. A verdade dessas ficções não responde nem a uma lógica da verossimilhança realista nem à lógica da acumulação de referências ”verdadeiras”, mas a uma lógica mais abstrata, por um lado de grandes categorias e, por outro lado, de argumentos cuja estrutura seja perfeita e fechada. Nesse sentido, a literatura fantástica de Borges é sempre racionalista, diferentemente, por exemplo, da literatura de Cortázar.

A representação de Buenos Aires por Borges, a partir de sua invenção da periferia, é um aspecto pouco analisado pela crítica internacional. Por que a descrição de Borges tende a retratar Buenos Aires com ares do passado, uma cidade impermeável à modernidade, ao contrário da Buenos Aires de Arlt?Borges pretendia fazer uma nova leitura da tradição ou simplesmente tinha nostalgia do século 19?

Borges lembra da cidade de sua infância e, quando volta a Buenos Aires no começo dos anos 1920, frente a uma cidade real em processo de modernização, coloca em seu lugar uma cidade lembrada e imaginária sem vestígios dessa modernidade. Sabe, contudo, que essa cidade está desaparecendo e que, portanto, há que buscá-la nas figuras do bairro e da periferia urbana. Como muitos modernos, Borges não tem vocação futurista, diferentemente de Roberto Arlt. A tecnologia, que para Arlt define a época, não desperta o menor interesse em Borges. Ele, ao contrário de Bioy Casares em A Invenção de Morel, jamais escreveu algo que pudesse evocar as tramas da ficção científica. São sensibilidades diferentes. É mais provável que um escritor da elite tivesse uma perspectiva nostálgica; e que um escritor filho de imigrantes como Arlt seguramente pudesse se ligar melhor ao radicalmente novo. É admissível essa hipótese sociológica, mas, de todas as maneiras, não explicaria o gosto de Borges por ficções cujo motor narrativo fossem as invenções técnicas.

02/07/2008 - 14:40h Os anos de chumbo

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Martín Kohan e Nathan Englander falam na Flip, que começa hoje, sobre a ditadura argentina

Ubiratan Brasil - O Estado de São Paulo


Os anos de chumbo sofridos pela sociedade argentina nos anos 1970 e 80 inspiraram dois autores de origem distinta, que estarão juntos na Festa Literária Internacional de Paraty, que começa hoje - de um lado, o argentino Martín Kohan, autor de Duas Vezes Junho (Amauta, tradução de Marcelo Barbão, 148 páginas, R$ 25) e Ciências Morais (Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 192 páginas, R$ 38), obras que retratam a pesada atmosfera que imperava no país; e, de outro, o americano Nathan Englander, cujo Ministério de Casos Especiais (Rocco, tradução de Paulo Reis) conta a história de uma família de judeus nada ortodoxos às voltas com os desaparecimentos ocorridos na “Guerra Suja” na Argentina, em 1976.

Adolescente durante a ditadura, Kohan observa aquele momento sempre a partir de um ponto de vista aberto. Em Duas Vezes Junho, ele se prende à única derrota sofrida pela Argentina na Copa do Mundo de 1978 para mostrar que também o país perdia com a própria situação. E, em Ciências Morais, o trabalho de inspeção de alunos do Colégio Nacional é o ponto de partida para reproduzir os momentos em que o regime totalitário agonizava. Sobre isso, ele conversou com o Estado.

A ditadura militar argentina tem um peso fundamental em suas obras Duas Vezes Junho e Ciências Morais. Que importância a política tem na literatura e, mais especificamente, nos seus escritos?

Tenho minhas reservas a respeito de certa convenção do romance político que, em geral, tende ao realismo ou à explicitação de sentidos. Busco afastar-me dessas formas. No entanto, encontro em alguns aspectos da história política recente alguns elementos que me interessam questionar. Não faço para dar conta de uma realidade, tampouco para fixar um sentido como “mensagem”. Utilizo a política como um campo de significação do que me interessa questionar a partir de outro campo de significação, o da literatura.

Em Duas Vezes Junho, a Copa do Mundo de 1978 é lembrada a partir da única derrota da Argentina no torneio, contra a Itália. No momento em que são lembrados os 30 anos daquele Mundial, você acredita que a Copa foi o primeiro símbolo de aprovação popular da ditadura?

Não, não foi. A ditadura utilizou evidentemente o Mundial para se prestigiar, sobretudo diante dos olhos estrangeiros. Os festejos populares não implicaram necessariamente uma adesão política ao regime. Em todo caso, expressaram, segundo meu ponto de vista, a eficácia do fervor nacionalista, do triunfalismo pátrio, todas essas mitologias. Daí minha decisão de narrar, não uma vitória, mas uma derrota argentina.

A história de Ciências Morais se passa no Colégio Nacional, onde você estudou. Mas você aprofunda o mundo das autoridades e não dos estudantes. Por quê?

Nada poderia me interessar menos que uma obra autobiográfica, do tipo “memórias de estudante”. Minha motivação foi justamente contrária: imaginar a vida das autoridades, pessoas que pareciam não ter uma vida íntima. Conceber essas vidas, inventá-las, construí-las e narrá-las, justamente porque em minha passagem pelo colégio era o detalhe mais opaco e mais insondável - isso me interessou. Como já conhecia o mundo dos estudantes, não tive nenhum desejo de descrevê-lo.

Sua intenção foi criar, no colégio, um microcosmo do ambiente então vivido na época pela Argentina? Os preceptores e sua função de delatar erros dos alunos representam o poder que era tão enigmático e violento naquela época?

O Colégio Nacional sempre foi visto como uma versão concentrada do que havia de melhor na Argentina. Não digo que fosse assim, mas era o que se dizia a respeito. Ou seja, faz parte de uma mitologia da argentinidade, que me interessa interrogar pela literatura. Como funciona esse mito, como se fortalece e também como se enfraquece. Durante os anos de repressão, o colégio, o mais tradicional do país, funcionou igualmente a partir dessa relação de correspondência ou de metáfora.

A ditadura e a questão com as Malvinas aparecem, em geral, separadas nos livros de história. Você, ao contrário, preferiu mostrar a relação entre elas. A derrota de uma implicaria também a derrota da outra?

Parece evidente que o final da ditadura militar está diretamente ligado à derrota na guerra das Malvinas. Não vejo como se poderia separar um fato do outro. Por isso que a tal derrota nos deva parecer positiva e proveitosa: uma sorte ter perdido. O que implica uma verdadeira rachadura nos fundamentos do fervor do nacionalismo. Mas para ninguém esse conflito é tão terrível como para os ex-combatentes: eles arriscaram suas vidas em uma guerra que nem sequer convinha ganhar. Não era um conflito perdido, resultado que poderia ser suportável, mas uma guerra que era melhor perder e não ganhar.

Os detalhes com que mostra os mecanismos de controle disciplinar da escola são impressionantes. Por que eles lhe interessam tanto?

Minha escrita tende à lentidão, obrigando uma leitura com minuciosidade. Por isso, os detalhes me atraem: são objeto privilegiado da minha maneira de escrever, que tende mais à cadência e à pausa que à ligeireza. No caso particular desse romance, creio que tal característica sustenta um traço concreto: a obsessão maníaca de quem quer exercer o controle total, aquele que não deixa nada escapar.

Há, também, o falso moralismo do “cumprimento do dever” dos preceptores, em que os fins justificam os meios. Qual sua opinião sobre isso?

Eu me interesso mais pelos fatos comuns do que por aqueles aberrantes, cometidos não em nome do mal mas em nome do bem. Os valores aparentemente mais sólidos e rígidos, o moralismo proclamado a toda voz, estão sempre à frente de coisas abomináveis. Eu me questionei sobre isso e alguns de meus romances se devem a isso: como funciona a obediência, como se forma um obediente e como os dispositivos que ativam as piores causas necessitam dessa classe de mecanismos.

Os preceptores mostravam-se como sinistros mas eram, na verdade, pobres tipos. O mesmo poderia ser dito do general Jorge Videla?

Essa superposição me parece reveladora: ele é, ao mesmo tempo, um criminoso e um infeliz. Sem que o segundo isente o primeiro, nem o debilite em absoluto. Parece-me um aspecto da criminalidade política a considerar: o substrato do miserável. Não digo que funcione sempre, mas sim em alguns casos. Videla pareceria ser um. Às vezes, penso como seria uma tarde na vida de Videla, na prisão domiciliar de sua triste região. Buscar a maneira em que essa imagem completamente patética não amorne a do criminoso, mas o inverso: que o revele em sua verdade mais profunda.

A crise familiar durante o horror da ditadura

Em Ministério dos Casos Especiais, Nathan Englander mostra os efeitos de um momento de exceção

Ubiratan Brasil - O Estado de São Paulo


Foram dez anos de preparação, cuidados, reescrita. Nesse período, o escritor americano Nathan Englander montou um paralelo entre a Buenos Aires martirizada pela ditadura militar (1976-1983)e Jerusalém, cidade onde esse jovem nova-iorquino nascido em 1970 viveu durante alguns anos. O resultado é O Ministério de Casos Especiais, seu primeiro romance (o anterior, Para Alívio dos Impulsos Insuportáveis, reúne contos de admirável firmeza) que acompanha a trajetória de Kaddish Poznan, judeu de temperamento difícil, que ganha a vida apagando lápides de prostitutas e cafetões de um cemitério, a pedido das famílias. A ditadura militar o afeta diretamente com o ”desaparecimento” de seu filho Pato.

”Minha idéia foi criar uma história sobre uma família que é forçada a se unir por conta da dor comum”, conta Englander, que conversou com o Estado por telefone. ”Também me interessei em falar de uma comunidade na qual certos membros encaram os demais como párias.” Foi com o passar do tempo, aliás, que o escritor notou que O Ministério de Casos Especiais era, na verdade, uma metáfora sobre o período em que viveu em Jerusalém. ”Quando me mudei para lá, buscava a paz, mas logo conheci momentos de grande tensão. O mesmo se parece com os cidadãos de Buenos Aires - eles gostam de sua cidade, se dedicam a ela, mas decisões do governo nem sempre colaboram para seu bem-estar.”

Englander passou uma pequena temporada, em 1991, na capital argentina, período em que começou a fermentar tal semelhança. Época também em que descobriu alguns meandros do período de ditadura militar, que aparece no livro sob seu aspecto mais terrível - em uma passagem, por exemplo, Poznan conversa com o piloto de avião que confessa ter jogado jovens prisioneiros no Rio da Prata.

Tal detalhe explica o longo tempo de gestação do romance - Englander cuidou de cada frase, encadeando-as de forma a compor um relato seco mas eletrizante. ”Não posso negar que gosto de relatos sobre paranóia”, conta ele, lembrando-se do mistério envolvendo Pato que, de resto, ainda deixa obscura uma série de assassinatos cometidos a mando dos militares. ”Seria ele realmente um revolucionário ou apenas teria aprendido algumas idéias subversivas na escola? Eis uma questão sem uma resposta definitiva.”

Englander, no entanto, faz questão de frisar que não pretendeu escrever um livro político - tampouco uma história sobre a relação entre pai e filho. ”Trata-se de um relato que acontece durante uma fase obscura da Argentina e que, por acaso, trata de dificuldades familiares.”

A passagem pela Argentina, aliás, contribuiu para a veracidade da história narrada por Englander. Lá, ele conheceu o desespero sem-fim das Mães da Praça de Maio, que ainda clamam por notícias de seus filhos desaparecidos. ”Ainda fico chocado com a persistência dessas mulheres, que visitam repartições do governo, que fazem testes de DNA, em busca de seus entes. É quando se observa a que caos uma sociedade pode chegar.”

15/06/2008 - 10:40h Abc da pátria

+ Livros - FOLHA DE SÃO PAULO

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ENTRE O IÍDICHE E O INGLÊS, O NOBEL DE LITERATURA ISAAC SINGER REAVALIA SEU PASSADO NAS CRÔNICAS DE “NO TRIBUNAL DE MEU PAI”

CRISTOVÃO TEZZA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Um traço marcante da obra de Isaac Bashevis Singer (1904-1991), escritor judeu nascido na Polônia, e que em 1935 emigraria para os EUA, é o fato de escrever em iídiche -uma língua da família germânica grafada com caracteres hebraicos que, durante séculos, foi o idioma das comunidades judaicas ashkenazis da Europa Central.
Com o Holocausto, o iídiche praticamente desapareceu. Isaac Singer, entretanto, jamais abandonou a língua materna nos mais de 50 anos em que viveu nos EUA, o que cria a singularidade de um autor com “dois originais” -as traduções de Singer, Prêmio Nobel de Literatura de 1978, são feitas a partir do inglês, que por sua vez estabelece o texto “oficial” de sua literatura.
Esse detalhe ilustra um dos aspectos centrais da história do romance -sua linguagem é a confluência e tradução de muitas línguas que são a um tempo códigos e concepções específicas de mundo.

Consciência plurilíngue
E, do ponto de vista biográfico, a vida de Singer, com a infância mergulhada no tenso encontro de línguas, culturas e religiões, pode ser lida como ilustração cristalina do que o teórico russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) chamava de “consciência plurilíngue do mundo”. Os textos de “No Tribunal de Meu Pai” são exemplares nesse sentido. Trata-se de um conjunto de crônicas autobiográficas em que a formação do autor é retomada em episódios apresentados mais ou menos em ordem cronológica e que se encerra nos seus 12 anos (quando conhece “uma garota morena com olhos escuros como carvão e um sorriso indescritível”).
O tribunal a que o título faz referência é a instituição judaica do “Bet Din”, o tribunal rabínico. Filho de um rabino de Varsóvia, o futuro escritor passou a infância impregnado de um senso de justiça religiosa em que se atravessam a pobreza, a onipresença da palavra escrita como fonte de referência da “verdade”, a disputa das várias correntes conflitantes que marcam o judaísmo, a consciência de quem está, do ponto de vista político, em lugar nenhum -e, sobretudo, o peso da idéia de lar se confundindo com a idéia de tribunal.
Se nas mãos de Kafka esse último ingrediente daria a síntese aterrorizante que conhecemos em obras como “O Processo” e “O Castelo”, em Isaac Singer -um escritor de raiz substancialmente popular, imerso na oralidade e no humor vivaz, comunitário, do mundo da aldeia- o resultado é outro.
A diferença central talvez seja esta: no mundo das memórias infantis de Isaac Singer, as coisas ainda não estão estratificadas na forma de Estado, não são regulamentos inalterados por mãos humanas.

Sinais escritos
O juiz é um homem de substância simples que tem de resolver questões miúdas do cotidiano, casos de divórcio ou dúvidas sobre a pureza de gansos abatidos. O senso de justiça é uma insegura escolha humana, a partir de alguns poucos sinais escritos, aos quais devemos dar um sentido.
O sentimento de mudança permanente, muito forte -mudança física e mental, política, social e econômica, ao deus-dará entre poloneses, russos, alemães, austríacos naquele sombrio limiar da Primeira Grande Guerra-, vai marcando cada passo da criança atenta, que pouco a pouco percebe o anacronismo da ortodoxia paterna e absorve a perspectiva transformadora de seu irmão mais velho, depois o poder da literatura, num tempo de utopias.
A força documental das crônicas, ao descreverem o mundo desaparecido, é temperada pela perspectiva literária -a história de Isaac Singer é a percepção de um escritor, não o documento frio de um historiador.
Em nenhum momento se perde a perspectiva da criança e a sensação de um mundo a descobrir e inventar; e, em cada crônica, está presente a afirmação absoluta do valor do indivíduo, princípio e fim de todas as dúvidas: “Como era vasto o mundo, e como abundavam nele todo tipo de pessoas e acontecimentos estranhos! (…) E onde estava Deus, de quem tanto se falava em nossa casa? Eu estava maravilhado, encantado, extasiado. Sentia que precisava solucionar esse enigma, sozinho, com meu próprio discernimento”.


CRISTOVÃO TEZZA é autor do romance “O Filho Eterno” (Record) e de “Entre a Prosa e a Poesia - Bakhtin e o Formalismo Russo” (Rocco).NO TRIBUNAL DE MEU PAI
Autor: Isaac Bashevis Singer
Tradução: Alexandre Hubner
Editora: Companhia das Letras (tel. 0/ xx/11/ 3707-3500)
Quanto: R$ 49 (360 págs.)

11/06/2008 - 21:43h Poesia


Charles Baudelaire


Amigo, amiga,

Você abre um livro de poesia e, logo no início, num poema chamado “Ao Leitor”, o autor avisa: “Na almofada do mal é Satã Trismegisto/ Quem docemente nosso espírito consola”. Para não deixar dúvida, mais adiante ele reafirma: “É o Diabo que nos move e até nos manuseia!”

Não, não adianta fingir que não é com você. O poeta assegura que você sabe do que ele está falando, e termina mandando mordazes e cordiais saudações: “Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!”

Claro, você já adivinhou: o livro é Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal) e o poeta, o francês Charles Baudelaire. Continue a folhear. O tom é sombrio. São textos cheios de tédio, morte, sepultura, melancolia, volúpia, luxúria, demônios, vermes, serpentes, maldições e até uma ladainha invocando o Demônio: “Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria”.

Não se assuste. Religioso a seu modo, pagão e satanista, Charles-Pierre Baudelaire (1821-1867) é considerado o pai do simbolismo francês, movimento cuja origem os críticos localizam exatamente no livro As Flores do Mal, de 1857. Na França, a obra de Baudelaire reverbera na poesia de outros poetas “malditos”, como Arthur Rimbaud, Paul Verlaine e Stéphane Mallarmé.

Celebrado como o primeiro poeta moderno e um dos escritores de mais forte influência nas gerações posteriores mundo afora, Baudelaire contrabandeou para a poesia de sua época, marcada pelo idealismo romântico, o mal-estar das cidades e o choque do feio, dos temas sujos e doentios.

Ao publicar As Flores do Mal, ele foi condenado por ofensa à moral pública. Além de pagar uma multa em dinheiro, a justiça obrigou-o a retirar seis poemas do volume. Os seis voltaram a integrar a obra onze anos depois, na primeira edição póstuma do livro, em 1868.

O primeiro texto ao lado é um desses poemas condenados, “A celle qui est trop gaie” (”A que está sempre alegre”). Ao comentar especificamente a censura a esse poema, Baudelaire diz: “Os juízes julgaram descobrir um sentido a um tempo sanguinário e obsceno nas duas últimas estrofes. A gravidade da coletânea excluía semelhantes gracejos. Mas veneno equivalendo a spleen ou a melancolia era uma idéia muito simples para criminalistas. Que sua interpretação sifilítica lhes fique na consciência!”

Segundo nota do editor francês, “a que está sempre alegre” é Apollonia Sabatier, animadora cultural pariense, cuja casa era freqüentada por figuras como Gustave Flaubert, Théophile Gautier e o próprio Baudelaire. A sorridente Madame Sabatier também teve um caso com o poeta.

Outra pequena amostra de Baudelaire vem de seu livro “Petites Poèmes en Prose”, de 1862. Trata-se do conhecido poema “Enivrez-vous” (”Embriaguem-se”). Uma curiosidade: esse texto é citado no “Poema da Necessidade”, de Carlos Drummond de Andrade:
“É preciso estudar volapuque/ é preciso estar sempre bêbedo,/ é preciso ler Baudelaire/ é preciso colher as flores/ de que falam velhos autores.” (In Sentimento do Mundo, 1940)

Por fim, “O Convite à Viagem”, uma simpática florzinha do mal que propõe uma fuga para um lugar onde “tudo é paz e rigor/ luxo, beleza e langor”. Enfim, uma proposta de sonho e fuga que hoje não tem nada de maldito. Até lembra o clima da canção de Gilberto Gil: “Vamos fugir/ Pr’outro lugar, baby/ (…) outro lugar ao sol/ Outro lugar ao sul/ Céu azul, céu azul/ Onde haja só meu corpo nu/ Junto ao seu corpo nu”.

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No Brasil, destacam-se dois tradutores d’As Flores do Mal. Um é o paulista Guilherme de Almeida (1890-1969), que verteu 21 dos poemas, reunidos no livro Flores das “Flores do Mal” de Baudelaire (Edições de Ouro). O outro é o carioca Ivan Junqueira (1934-), que cometeu a monumental proeza de passar ao português todos os 167 poemas do volume. Eles estão em: Charles Baudelaire, As Flores do Mal, edição bilíngüe, tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira (Nova Fronteira, 1985).

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Para ler online todos os poemas de As Flores do Mal, na tradução de Ivan Junqueira, visite o site Cumbuca Poética. Algumas recomendações: “O Albatroz” (”L’albatros”); “As Jóias” (”Les Bijoux”); “Lesbos”, “Uma Carniça” (”Une Charogne”); e “As Litanias de Satã” (”Les Litanies de Satan”). Se quiser conferir os poemas no original, vá ao site Poésie Française, que também tem antologias de vários outros poetas.

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



 

As flores do mal

Charles Baudelaire

 


A QUE ESTÁ SEMPRE ALEGRE

Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tua vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!


EMBRIAGUEM-SE

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

O CONVITE À VIAGEM

Minha doce irmã,
Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados
Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
Misterioso e cruel
Desse olhar infiel
Brilhando através do pranto.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Os móveis polidos,
Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
As mais raras flores
Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,

Tetos inauditos,
Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
Tudo aí à alma
Falaria em calma
Seu doce idioma natal.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
— Os sangüíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

poesia.net
Carlos Machado

Charles Baudelaire
“A Que Está Sempre Alegre” e “O Convite à
Viagem”
In As Flores do Mal
Nova Fronteira, 1985, 2a. ed.
Trad., introd. e notas: Ivan Junqueira
“Embriaguem-se”
In Pequenos Poemas em Prosa
Tradutor não identificado

31/05/2008 - 12:54h Irmãos contam histórias do fotojornalismo

Crítica/”Caçadores de Luz”

http://publifolha.folha.com.br/catalogo/images/cover-136210-600.jpg


EDER CHIODETTO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Ética, estética, originalidade, informação relevante e, de preferência, exclusiva são os atributos de uma boa imagem jornalística.
Cultura, noções de arte, intuição, persistência, um pouco de sorte e muito, muito suor são os pré-requisitos básicos para alcançar tal resultado, como demonstram os irmãos Marques no livro “Caçadores de Luz: Histórias de Fotojornalismo”, lançado pela Publifolha.
São mais de 60 anos dedicados ao fotojornalismo, somando o tempo das carreiras de Sérgio, Lula e Alan. Todos atuam em Brasília, fotografando e editando diariamente imagens dos bastidores da política, acompanhando todos os presidentes da República desde 1984, quando Sérgio chegou ao jornal “O Globo”. Lula atua na Folha há 21 anos e Alan há 11, depois de fotografar por cinco anos no “Jornal de Brasília”.
No livro, os irmãos narram em tom quase épico as agruras do dia-a-dia da profissão de repórter-fotográfico. Como a maior parte das pautas em Brasília se limita a políticos dando declarações, os Marques demonstram quão necessário é ter a habilidade de um caçador para conseguir uma imagem diferenciada e que simbolize de forma inteligente os freqüentes escândalos que envolvem os políticos.
O capítulo “A Luta pela Imagem” destaca histórias nas quais a busca obsessiva pela imagem exclusiva quase transformou o fotógrafo numa notícia fúnebre, como na cobertura realizada por Sérgio na guerra de Angola, em 1989, ou quando Lula teve um revólver apontado para a sua cabeça na comemoração dos 500 anos do Brasil, em 2000.
Alan, o mais literário dos irmãos, conta em pormenores inimagináveis a dificuldade da cobertura da queda do vôo 1907 da Gol, em 2006.
Nos outros dois capítulos, “Histórias de Presidentes” e “Celebridades do Mundo”, os Marques dosam narrativas saborosas sobre as ante-salas de Brasília, as esperas intermináveis por uma declaração, a frustração com as fotografias protocolares, o eterno embate com assessores, seguranças e policiais para furar o cerco e ter acesso a lugares onde nem sempre são bem-vindos, com histórias que demonstram a personalidade dos presidentes Sarney, Itamar, Collor e FHC e a forma como eles se portavam em relação às imagens.
Quanto ao governo atual, Lula Marques faz uma pesada crítica à forma como o presidente Lula e sua assessoria tratam a imprensa em geral e os fotógrafos em particular: “Existe ordem para manter a imprensa longe. Os seguranças se sentiram no direito de voltar a ter atitudes com as quais só nos deparamos em países com regime de governo ditatorial”, escreve.
A boa idéia do projeto e as narrativas em ritmo de seqüência de fotogramas, porém, foram bastante prejudicadas por um projeto gráfico burocrático, pela edição decepcionante de minguadas fotos de cada história e pela má impressão. Idéia certeira em forma equivocada.


CAÇADORES DE LUZ: HISTÓRIAS DE FOTOJORNALISMO
Autores: Alan Marques, Lula Marques e Sérgio Marques
Editora: Publifolha
Quanto: R$ 37 (240 págs.)
Avaliação: regular

21/05/2008 - 15:44h Antonio Candido é eleito intelectual do ano

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Crítico é o vencedor da 44ª edição do prêmio Juca Pato, da União Brasileira de Escritores

DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA SP

A UBE (União Brasileira de Escritores) escolheu o crítico literário Antonio Candido, 89, para receber o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano de 2007.

Em comunicado oficial, a UBE justifica a decisão ao afirmar que Candido é considerado “uma das inteligências mais completas e influentes da cultura brasileira contemporânea” e “autor de várias obras de análise, interpretação e avaliação crítica do principal acervo literário do Brasil e da herança européia”.

Em entrevista à Folha, Candido disse: “Para mim, o prêmio Juca Pato é uma honra, não apenas devido à sua importância, mas porque na sua base estão duas entidades que foram decisivas na minha vida literária: a Folha e a Associação Brasileira de Escritores, a ABDE, da qual a UBE é sucessora. A partir de 1943 eu me tornei realmente conhecido como crítico titular da Folha, e quando se fundou a ABDE, em 1944, fui segundo secretário na primeira diretoria da seção paulista, da qual fui presidente em 1949. Além disso, ao longo dos anos o Juca Pato vem sendo atribuído a intelectuais de grande qualidade. Estar ao lado deles é muito desvanecedor”.

O prêmio Juca Pato foi entregue pela primeira vez em 1963. Seu nome é uma homenagem ao personagem criado pelo cartunista Belmonte para a “Folha da Noite”, jornal que foi fundido com a “Folha da Tarde” e com a “Folha da Manhã” para dar origem à Folha de S.Paulo.

Livro mais recente

No ano passado, Candido relançou o livro “Um Funcionário da Monarquia - Ensaio Sobre o Segundo Escalão” (editora Ouro sobre Azul, R$ 31, 196 págs.). Para a UBE, o crítico, por meio da história de Antônio Nicolau Tolentino (1810-1888), filho de lavradores que se tornou conselheiro do Tesouro no Brasil imperial, conseguiu “caracterizar o tipo social do alto funcionário que extravasou da burocracia, sem, todavia, integrar o alto escalão oficial”.

Nascido em 24 de julho de 1918 no Rio de Janeiro, Antonio Candido de Mello e Souza se formou em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia da USP. Até 1978, foi professor titular de Teoria Literária e Literatura Comparada na mesma universidade.

É autor, entre outros, de “Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos” (1959). O livro foi estopim para uma polêmica com o escritor Haroldo de Campos (1929-2003) em relação à importância do barroco na história da literatura brasileira. Em 1962, Campos lançou o livro “O Seqüestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: o Caso Gregório de Matos”.

Candidato único, o crítico literário foi apontado por 50 associados à UBE, entre eles Lygia Fagundes Telles, Nelly Novaes Coelho, Sábato Magaldi, Claudio Willer e Edla van Steen. A data da cerimônia de entrega do troféu ainda não foi definida.

No ano passado, o vencedor do Juca Pato foi o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, secretário-geral do Itamaraty, por conta do livro “Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes” (Contraponto Editora, R$ 55, 456 págs.).

16/05/2008 - 18:12h “Bush é horrível demais para ser esquecido”, diz Philip Roth

Philip Roth

Blog Rosebud

O escritor americano Philip Roth falou à Spiegel sobre envelhecimento, sobre por que George W. Bush é o pior presidente americano da história, e revelou por que nunca dá o seu número de celular a ninguém.

Philip Roth, que vai completar 75 anos em março, é um dos autores norte-americanos vivos mais aclamados pela crítica. Seu livro “O Complexo de Portnoy”, de 1969, levou-o à fama, e ele deu continuidade ao sucesso, ganhando o prêmio Pulitzer com o livro “Pastoral Americana”, de 1997.

Muitos de seus livros têm o alter-ego ficcional de Roth, Nathan Zuckerman, como personagem principal. Zuckerman aparece novamente no último trabalho de Roth, “Exit Ghost”, em que o personagem volta a Nova York depois de muitos anos de exílio no interior da Nova Inglaterra.

A Spiegel conversou com Roth sobre “Exit Ghost”, as eleições americanas e os prazeres da vida no campo.

(more…)

15/05/2008 - 17:42h O ESCRITOR E SEUS FANTASMAS, de Ernesto Sabato

por Claudinei Vieira

Blog Desconcertos


Ernesto Sabato é o autor de “Sobre Heróis e Tumbas”, uma das três maiores obras da literatura latino-americana de todos os tempos (as outras duas são, obviamente, “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez e “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa), mesmo considerando que seu primeiro romance, “O Túnel”, também reeditado pela Companhia das Letras, já era um clássico. Junto com “O Túnel”, a editora publicou quase ao mesmo tempo o livro de memórias de Sabato, “Antes do Fim”, o amargo e poético testemunho deste velho senhor nascido em 1911, agora quase cego e que tem se dedicado à pintura por conta dos seus problemas de visão, pois uma tela exige menos dos seus olhos. Ainda assim, continua com uma lucidez impressionante e uma mentalidade afiada e instigante. (demorou um pouco para reeditar também seu terceiro romance, “Abadon, O Exterminador”, mas aconteceu)

“O Escritor e seus Fantasmas” são as reflexões de Sabato sobre o ofício de escrever. Publicado pela primeira vez na Argentina em 1963, fez parte de uma intensa discussão sobre a literatura e seus compromissos onde se misturavam, e se confundiam, propósitos políticos e ideológicos, além dos propriamente artísticos. A grande questão talvez fosse saber onde ficavam os limites, se é que existiam, entre arte e realização pessoal em contraponto a uma literatura desejosa de radicais transformações sociais. Hoje em dia, com a derrocada do mais poderoso expoente e sustentador da nefasta política de uma cultura proletária em oposição a uma cultura burguesa e decadente, esta discussão parece ter sido superada pela própria realidade.

Aparentemente, então, boa parte deste livro pode ser considerada como distante, antiga e ultrapassada, uma curiosidade quanto muito. No entanto, mesmo se Sabato se limitasse a um ataque a literatos marxistas, dos quais a História, com H maiúsculo, já tenha se encarregado de jogar na lata do lixo, só por isso já valeria a pena conhecer seu pensamento.

“O Escritor e seus Fantasmas” vai muito além da descrição de uma rixa entre literatos. Em primeiro lugar, porque Sabato não se coloca como um pensador profissional de literatura teórica. Ele não é um crítico ou um filósofo literário, muito menos um pesquisador. Ele é, acima e antes de tudo, um escritor.

É através de sua árdua experiência prática e cotidiana, que ele vai tecendo suas considerações. Afinal de contas, para que um escritor escreve? No prefácio, Sabato é bem claro: “Este livro se constitui de variações em torno de um único tema, o que tem me obcecado desde que comecei a escrever: por que, como e para que se escrevem ficções?”

Não há capítulos ou progressão geral para um pensamento único. São considerações que podem tomar várias páginas como quando discute o pretenso desaparecimento do romance como gênero literário ou quando combate o “subjetivismo” e o “cientificismo” na literatura. Ou, então, apenas um parágrafo, uma idéia, uma citação de algum outro autor.

Deste livro, algo que se impõe à primeira vista é o profundo comprometimento do artista com sua arte. Sabe-se como Sabato pode ser sério em suas convicções: sua primeira formação foi como físico. Deixou a Física, mesmo tendo fortes possibilidades de ganhar o Prêmio Nobel por suas pesquisas, porque ela não lhe completava como ser humano e nem respondia a suas angustiadas questões morais e pessoais. A literatura, sim, a arte em geral podem proporcionar respostas.

Esse engajamento na arte deve ser absoluto. Em um trecho intitulado “A condição mais preciosa do criador”, ele diz que essa condição é “O fanatismo. É preciso ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se a sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante pode ser feito”. Mais para frente, diz: “O homem de hoje vive em alta tensão, diante do perigo da aniquilação e da morte, da tortura e da solidão. É um homem de situações extremas, chegou aos limites últimos de sua existência ou está diante deles. A literatura que o descreve e o interroga só pode ser, portanto, uma literatura de situações excepcionais”.

L'image “http://desconcertos.files.wordpress.com/2008/05/sabato.jpg?w=150&h=211” ne peut être affichée car elle contient des erreurs.Para Sabato, a arte não pode ser prostituída: “Se recebemos dinheiro por nossa obra, tudo bem. Mas escrever para ganhar dinheiro é uma abominação. Essa abominação se paga com o abominável produto que assim se engendra”. Então, como viver? “De qualquer modo, desde que a criação não seja manuseada, abastardada, barateada: montando uma oficina mecânica, trabalhando de empregado em um banco, vendendo quinquilharias na rua, assaltando um banco”.

Partindo de Sabato, estas afirmações adquirem uma conotação que saem do meramente retórico. Afinal, ele é uma pessoa que teve a coragem moral de assumir suas convicções e de pagar por elas.

Fanatismo artístico, no entanto, não significa cegueira cultural. Ao lado de todo esse seu radicalismo artístico, há uma enorme dose de sobriedade e lucidez. Ao discutir a visão marxista de arte, por exemplo, Sabato critica, ataca e denuncia a falsidade dos quadros dogmáticos e esquemáticos dos marxistas de carreira tanto quanto a ignorância e preconceito dos que acreditam que o marxismo, e o próprio Karl Marx, se reduzem a um economicismo simplório.

Sua ironia fina, elegante e penetrante e a escrita direta e simples, marcas absolutas de toda sua literatura, estão presentes aqui em alto grau. Em um trecho intitulado “Sobre os perigos do estruturalismo”, ele comenta: “Quase tudo é estrutura. Como afirmou solenemente um professor: com a única exceção do que é amorfo, tudo apresenta uma estrutura. O que é mais ou menos como dizer que, com a única exceção dos animais invertebrados, todos são vertebrados”, isto é, uma “pomposa imbecilidade”.

A tentação de encher este texto com citações é quase incontrolável; quase a cada página, é possível encontrar uma pérola. O que não significa que não haja também momentos baixos ou afirmações óbvias e simplistas. Mas, elas não atrapalham nem o desmerecem. Afinal, “O Escritor e seus Fantasmas” são as palavras de quem sabe o que está fazendo e fez durante a vida inteira.

publicado agora também pelo blog de amigos e amigos de literatura, o Rosebud.

12/04/2008 - 05:38h POLÊMICA NO MOVIMENTO TEATRAL BRASILEIRO: Duas leis, divisão ou diversidade?

Mobilização se acirra e revela contradições internas e diferenças de visão sobre mecanismos de apoio

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Beth Néspoli - O Estado de São Paulo

Se o movimento da classe teatral ganhou os holofotes nas últimas semanas, ele não começou ontem. Representante da APTR, Andréa Alves enfatiza que a discussão teve início há cerca de cinco anos, nas câmaras setoriais. ‘Em outubro de 2005 conseguimos, numa audiência pública, incluir o teatro na Comissão de Educação e Cultura. Abrimos essa porta’, diz. O anteprojeto de lei do Redemoinho também é de 2005 e já rendeu reportagem no Estado ao ser apresentado no 2º encontro da rede, realizado em Belo Horizonte, no Grupo Galpão.

Por que a disputa parece mais acirrada agora? Em parte pelas diferenças de propostas nos anteprojetos (leia abaixo), em parte pela própria mobilização da classe teatral. No dia 27 de março, dia do teatro, manifestações foram feitas em 11 cidades de diferentes Estados, planejadas pelo movimento Redemoinho em parceria com a Cooperativa Paulista de Teatro. Na próxima quinta-feira, o conselho do Redemoinho, formado por diretores de São Paulo, Porto Alegre, Natal, Belo Horizonte e Salvador, tem encontro marcado com o secretário executivo do MinC, Juca Ferreira, para discutir o anteprojeto de Lei de Fomento. Em maio haverá outra reunião na comissão do Senado para debater a Lei do Teatro. ‘Com certeza o movimento está mais maduro, propõe projetos, coloca o teatro em pauta e isso é um avanço’, diz Andréa.

Mas não unificado. São contradições que se repetem ao longo da História. Se há debate, livre, democrático, as diferenças aparecem. Algumas radicais como se pode constatar pela leitura dos artigos da página ao lado. Por outro lado, se há maturidade, o debate resulta frutífero. ‘No Brasil, é erro comum a confusão entre distribuição de verba e política cultural. Sempre se discute o primeiro. Enquanto não houver esse entendimento, a discussão não avança’, já argumentava Eduardo Tolentino, do Grupo Tapa, em reportagem do Caderno 2 de 11 de março de 2005, sobre a concentração de renda na captação feita por meio da Lei Rouanet. As reportagens também se repetem agora.

É ponto importante - a lei de incentivo é apenas um mecanismo de financiamento. Que serve, bem ou mal, a uma parcela da produção artística. Para além dos grupos organizados e dos artistas cuja simples presença no Senado repercute na mídia, há uma maioria silenciosa lutando para produzir e aprimorar a arte teatral em todo o País. Para levar O Avental ao festival de Curitiba, o grupo baiano Teatro de Bastidores fez uma via-crúcis por órgãos públicos e, ao final, contou sobretudo com seu público. ‘Teve até um espectador que pagou uma das passagens’, diz a produtora Graça Regina Souto Silva. Viajaram sem cenário, que recompraram em Curitiba (R$ 270) e lá deixaram. ‘Nosso projeto foi aprovado na Rouanet, mas não captou.’ Um caso, entre muitos. E era um espetáculo de autor premiado, Marcos Barbosa.

‘Só vai mudar quando as escolas levarem seus alunos ao teatro e ao cinema’, diz Andréa. ‘Ainda há executivos da área de Marketing que não têm noção do que é teatro.’ Com qual freqüência empresários, médicos, engenheiros ou políticos vão ao teatro? Talvez uma pesquisa séria de público revelasse que sua ausência nas salas não é mera questão de poder aquisitivo. Uma cena teatral forte e diversa pede mapeamento, políticas públicas planejadas para desenvolver a atividade em toda a sua amplitude, inclusive na formação, no sentido mais profundo, de público.

Se há consenso nesse ponto, não há sobre quais mecanismos dariam conta dessa amplitude. Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, enfatiza: ‘É preciso conhecer para criticar. A lei federal que propomos, por exemplo, não é só para manutenção de grupos, mas para produção de espetáculos e circulação. O que considero importante pôr em discussão é que fundo público tem de ter destinação pública. Lei de incentivo, da forma como está, é loucura brasileira, não existe em país nenhum.’

‘O atual debate é bom porque pode servir para afiar o diagnóstico, única chance de se chegar a boas soluções. Reações acirradas costumam ser provocadas por diagnósticos precários’, diz o consultor cultural João Leiva Filho. ‘Um dos problemas é que o funcionamento da lei piorou’, diz o produtor Claudio Fontana. ‘Antes a análise de um projeto levava no máximo dois meses, agora leva seis. Teoricamente, a criação de uma secretaria não é uma boa idéia, mas se na prática melhorar o atendimento eu aprovo’, argumenta.

‘Um dos problemas da Lei Rouanet é ser única’, diz o presidente da Funarte Celso Frateschi. ‘Cerca de 90% do que é aprovado não capta, é trabalho perdido’, diz. Claudio Fontana sugere que a dedução possa ser feita também sobre o lucro presumido - e não só sobre lucro real - o que facilitaria a captação e o investimento, nas pequenas empresas. ‘O Ministério da Cultura tem consciência de que mudanças vêm sendo solicitadas há cinco anos. Mas não se constrói política cultural com uma cartada. É preciso maturação. Acho que chegamos a esse ponto’, diz Celso Frateschi.

Recentes críticas de Frateschi à Lei Rouanet, segundo ele responsável pelo encurtamento das temporadas, provocaram uma reação em cadeia. ‘Estou convencido de que ainda vou convencer os produtores teatrais de que estou a favor deles’, diz ele. ‘Do jeito que está a Lei Rouanet não lhes serve.’

Produtores apontam a meia-entrada obrigatória para estudantes e idosos como uma das causas dos altos custos de produção. Onera e não atinge quem deveria. ‘Não é por ser estudante ou idoso que há carência financeira’, diz Beatriz Segall. ‘Sem contar que qualquer curso e até pizzaria dá carteira de estudante.’ Fontana aponta ainda os altos aluguéis das salas de espetáculo.

Celso Frateschi considera forte entrave no funcionamento da Rouanet o perfil dos captadores e a concentração de renda (leia quadro nesta página). ‘Não vou falar pelos outros, mas pela própria Funarte. Os prêmios Miriam Muniz, de teatro, e Klauss Vianna, de dança, foram realizados com captação pela Lei Rouanet. Como um produtor independente vai concorrer com Estados e com prefeituras?’ Uma lei geral para as artes vem sendo gestada no Ministério da Cultura. ‘No máximo em dois meses será posta em discussão com a classe’, diz Frateschi. Ele acredita que embora não seja uma lei específica para o teatro, vá servir entre outras coisas para desonerar a Lei Rouanet. ‘E terá especificidades que respeitam as diferenças de necessidades entre as áreas.’

Mais uma etapa dessa discussão certamente se dará no dia 5, quando Frateschi participa de um debate, aberto ao público, no Centro Cultural São Paulo, para discutir Políticas Públicas para o Teatro.

27/03/2008 - 05:00h Incentivo ao teatro?

TENDÊNCIAS/DEBATES

CELSO FRATESCHI e JUCA FERREIRA


Ao cabo de quase duas décadas de aplicação da Lei Rouanet, a atividade teatral diminuiu, pelo menos em termos relativos


O TEATRO no Brasil celebra o seu dia internacional unido na insatisfação quanto aos mecanismos de financiamento e dividido quanto às possíveis soluções desses impasses. Entre as soluções, tramita no Congresso um projeto de lei que cria a Secretaria Nacional de Teatro para apressar o fluxo de pedidos de financiamento via renúncia fiscal, que seria ainda mais facilitado por mecanismo semelhante à Lei do Audiovisual, que permite o abatimento de até 125% (sic) sobre o valor financiado.
Seguindo a máxima de que não devemos propor o novo sem entender o velho, sob o risco de o novo já nascer envelhecido, sugerimos a análise da eficiência e da eficácia dos mecanismos vigentes, uma vez que a nova proposta baseia-se nos mesmos princípios da Lei Rouanet, que todos querem mudar.
O principal objetivo da Lei Rouanet é estimular a economia da cultura, proporcionando aos cidadãos brasileiros maior acesso à cultura produzida em nosso país. No entanto, antes da lei, as temporadas de nossos espetáculos tinham de seis a oito seções semanais. Hoje são duas a três seções por semana. Por que percebemos essa radical redução?
Muitos alegam que não há mais público para longas temporadas. Se isso é verdade, como parece, é mais um motivo para questionarmos o mecanismo atual. Ao cabo de quase duas décadas de aplicação da Lei Rouanet, a atividade teatral diminuiu, pelo menos em termos relativos. O número de produções cresceu, mas elas estão cada vez mais concentradas na região Sudeste. Como explicar o aparente paradoxo?
Quase todos os recursos da Lei Rouanet para o teatro são aplicados na montagem do espetáculo e na manutenção de uma temporada cada vez mais curta. Por quê? Não seria porque o empresário, que visa o lucro -e é natural que seja assim-, foi induzido a produzir cada vez mais montagens, ao perceber que o seu lucro não vem da bilheteria, o que seria desejável numa economia saudável, mas está embutido no processo de produção?
Se a razão de ser do espetáculo não é mais o público, que sentido pode existir nesse teatro?
O teatro movimenta um número cada vez maior de recursos da Lei Rouanet: R$ 44.376.571 em 2000 e R$ 107.967.652 em 2007. O preço do ingresso é cada vez mais caro, chegando a custar um salário mínimo -e aí chegamos no limite de um espetáculo, financiado com dinheiro do cidadão, ter o ingresso mais caro que o salário de quem o subsidia.
Pode-se alegar que o teatro não se auto-sustenta economicamente e que sempre precisará de subsídios.
Um exemplo de que isso nem sempre é verdade é o caso de um proponente que, em cinco anos, captou mais de R$ 40 milhões. As montagens foram sucessos retumbantes e geraram lucros significativos. Não obstante, a companhia sempre requisitava, a cada montagem, mais recursos. O último pedido, negado pelo Conselho Nacional de Incentivo Cultural, chegava a R$ 27 milhões.
Isso sugere que o teatro pode dar lucro e que tal lucro pode estar sendo aplicado em outros setores da economia. Recentemente um empresário teatral carioca disse ao jornal “O Globo” que “o teatro é um ótimo negócio”. O teatro, ao menos para alguns, não é inviável economicamente.
Com a Lei Rouanet, os orçamentos públicos para a área de cultura escassearam, com exceção do federal e de raros casos estaduais e municipais. A distorção chega ao ponto de TVs públicas, orquestras sinfônicas, o Sistema S e até a Funarte precisarem se utilizar da Lei Rouanet.
Alguns produtores argumentam que os mecanismos vigentes protegem a produção dos humores do orçamento público, mas os valores aprovados para captação crescem ano a ano, e os valores captados, que dependem dos orçamentos das empresas, tiveram uma queda em 2007.
O teatro não é apenas uma atividade econômica. É uma forma de expressão e de construção de conhecimento, que engrandece o cidadão na sua humanidade e sociabilidade. É uma arte pública e possui na sua própria essência o ato político da cidadania. É um exercício de liberdade que expõe, pela representação, o homem em suas relações, num ato ao mesmo tempo individual e coletivo.
Comemoramos o Dia Internacional do Teatro com velhas angústias e velhas e novas esperanças, mas com ânimo renovado para o debate e para a busca de soluções mais estruturantes para a atividade, que atendam o teatro não apenas como atividade econômica, mas também na sua dimensão simbólica e, principalmente, como direito do cidadão.


CELSO FRATESCHI , 56, ator, diretor e autor de teatro, professor de arte dramática da USP (licenciado), é presidente da Funarte (Fundação Nacional de Arte). Foi secretário municipal de Cultura de São Paulo e diretor do Departamento de Teatros da secretaria (gestão Marta Suplicy). JOÃO LUIZ SILVA FERREIRA , o Juca Ferreira, 59, sociólogo, é secretário-executivo do Ministério da Cultura.Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

14/02/2008 - 17:57h Esos amores imposibles de olvidar

Por Loreley Gaffoglio

De la Redacción de LA NACION

Inefable en los meandros del amor, Adolfo Bioy Casares confesó alguna vez que uno de sus más instantáneos embelesos no lo provocó una mujer, sino un personaje de ficción. “Noche por medio soñaba con la duquesa San Severina, en la novela de Stendhal, La Cartuja de Parma”, reveló el escritor a LA NACION hacia el ocaso de su vida.

Borges, en cambio, gritó su autobiográfica desventura amorosa en El amenazado, legándonos uno de sus versos más estremecedores: “Estar o no estar contigo es la medida de mi tiempo”–escribió–, exhibiendo, a su vez, el propio cuerpo magullado por el desamor de una mujer.

La historia, la vida y la literatura no han ahorrado intimidades a la hora de desentrañar el amor y la pasión; caracterizada ésta última como “la visita de un dios que hace inteligentes a los idiotas e idiotas a los inteligentes”, según Séneca.

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Espejo tramposo, oscilante al momento de reflejar la realidad, la literatura puede ser también una fuente implacable de dicha y de tormentos para muchos escritores. Al zambullirse en la prosa romántica no son pocos los que asomaron a una doble revelación: vislumbraron en ese océano de tinta algo ignorado de sí mismos, y en el derrotero de sus lecturas hallaron las que consideran son las más eficaces historias de amor.

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