02/06/2009 - 10:00h Meu próprio sentimento, na crônica de luto de Sandra Paulsen

Enviado por Sandra Paulsen -Blog de Noblat

1.6.2009

Cartas de Estocolmo

Uma crônica de luto

Na semana passada, estive em Paris, a trabalho. Viajei com a Air France. Estava contente, porque, afinal, pegava um voo com direito a almoço decente a bordo.

É que, nas frequentes viagens a Paris, nos últimos dois anos, fiquei sem almoço. A classe econômica da SAS inaugurou, há algum tempo, um novo conceito de serviço, para as viagens de curta duração: quem quiser comer, tem de pagar. E o menu disponível é, na melhor das hipóteses, um sanduíche. No pior dos casos, os sanduíches acabam antes de a equipe de bordo chegar com o carrinho à sua poltrona.

Por que conto tudo isso?

Porque havia escrito uma crônica para hoje, falando sobre minha curta viagem a Paris e as fofoquinhas relacionadas ao cancelamento da visita, há muito agendada, de Sarkozy a Estocolmo. Aparentemente, de bronca pelas opiniões diferentes que os dois países sustentam a respeito da entrada da Turquia na União Europeia.

Também contava sobre o show do Quinteto Novo, na sede da embaixada brasileira. Matei a saudade da bossa nova e ainda tomei algumas caipirinhas, em excelente companhia.

Tudo isso foi pras cucuias, com a leitura das notícias de hoje…

Porque publicar um texto sobre “dar um pulinho a Paris”, diante da dor pelo sumiço de um avião inteiro, cheio de brasileiros e franceses, adultos e crianças, justamente a caminho de Paris… não dá, né?

Aqui, como aí, todos os jornais online só falam do avião acidentado. O Ministério das Relações Exteriores da Suécia teme que também havia suecos no avião, ainda que poucos, três ou quatro.

Só que, quando cai um avião, além das dores individuais e coletivas das famílias envolvidas ou diretamente afetadas pelo acidente, um monte de gente fica de luto. Pelas notícias daqui, havia 228 brasileiros, franceses, alemães, marroquinos, portugueses, noruegueses, dinamarqueses, entre outras nacionalidades, a bordo.

O desaparecimento de 228 seres humanos assim, sem mais nem menos, vítimas de um raio ou de uma turbulência forte, deixa a todo mundo triste e assustado.

De repente, a tragédia afeta mais de duas centenas de pessoas que estão bem de saúde, contentes por um há muito desejado passeio à Europa, a caminho de uma reunião de negócios que promete, ou de volta para casa, para os braços dos seres queridos…

A identificação é inevitável. A tragédia chegou muito perto. Só nos resta nos recolher à nossa insignificância, à nossa incapacidade de controlar nossas vidas, à imprevisibilidade que rege nosso caminho neste mundo. Ou, para aqueles que creem, rezar…

Leitora do blog de Noblat, Sandra Paulsen, casada, mãe de dois filhos, é baiana de Itabuna. Fez mestrado em Economia na UnB. Morou em Santiago do Chile nos anos 90. Vive há quase uma década em Estocolmo, onde concluiu doutorado em Economia Ambiental. Escreve no Blog de Noblat sempre às segundas e sextas.