27/04/2009 - 14:31h Bactérias proliferam após uso de antibióticos

ensaio

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Clostridium difficile

TARA PARKER-POPE

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A C. difficile criou imunidade a drogas e ficou mais perigosa

No início deste ano, Harold e Freda Mitchell, de Mississipi (EUA), tiveram uma séria doença no estômago. A princípio os médicos não sabiam o que estava errado, mas os sintomas gastrointestinais se tornaram tão graves que Freda, 66, ficou hospitalizada por duas semanas.
Um médico local reconheceu sinais da Clostridium difficile, uma bactéria contagiosa e potencialmente mortal. Embora a doença seja difícil de identificar, autoridades estimam que nos EUA a bactéria cause 350 mil infecções por ano somente em hospitais, com dezenas de milhares de outras ocorrendo em lares de idosos. Enquanto a maioria dos casos é encontrada em ambientes hospitalares, 20% ou mais podem ocorrer na comunidade. A doença mata de 15 mil a 20 mil pessoas anualmente.
“É a pior coisa que já tive de superar na vida”, disse Freda Mitchell, ainda enfraquecida pela doença. “Eu realmente pensei que fosse morrer.”
O mais assustador da C. difficile é que muitas vezes ela é estimulada pelos antibióticos. As drogas eliminam a doença-alvo, mas também matam grande parte das bactérias saudáveis que vivem no aparelho digestivo. Se uma pessoa entra em contato com a C. difficile ou já a tem, o distúrbio das bactérias benéficas cria uma oportunidade para que bactérias nocivas floresçam.
Especialistas em saúde pública vêm alertando há anos sobre o uso excessivo de antibióticos e o surgimento de “supermicróbios” -bactérias que criaram imunidade a diversos antibióticos.
“Aconselhamos aos consumidores que tenham certeza de que um antibiótico é necessário”, disse Dale N. Gerding, especialista em doenças infecciosas na Universidade Loyola, em Chicago. “Há muitos bons motivos para tomar um antibiótico, mas sinusite ou bronquite acabam sendo tratadas com remédios mesmo que possam desaparecer sozinhas.”
O tratamento típico da C. difficile é outra bateria de antibióticos, geralmente da droga vancomicina. Mas a situação pode rapidamente se tornar trágica. Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA registraram vários casos de mulheres grávidas e no pós-parto que desenvolveram infecções de C. difficile potencialmente fatais após serem tratadas de pequenas infecções. Em alguns casos, uma infecção de C. difficile requer uma cirurgia de emergência para retirar o cólon do paciente.
Médicos dizem que muitos relatam surtos regulares de diarreia mesmo depois que a infecção se foi. Cerca de 20% dos pacientes com infecção sofrem recaída. No caso da família Mitchell, o marido havia tomado antibióticos para outro problema de saúde, e o tratamento aparentemente levou à infecção de C. difficile. Freda provavelmente contraiu a doença de seu marido. Médicos dizem que a doença dela é incomum porque a maioria das pessoas é protegida por sua própria flora bacteriana e não seria vulnerável à C. difficile se não tivesse tomado antibióticos.
O risco de contrair a bactéria fora de um hospital continua baixo, cerca de 7 casos por 100 mil pessoas, segundo estudos. O índice de infecção por C. difficile entre pacientes de hospital dobrou entre 2001 e 2005, segundo um relatório de abril de 2008 do CDC. O aumento de casos em todo o mundo está ligado ao crescimento do uso de todos os antibióticos, especialmente a droga chamada fluoroquinolones, que se popularizou em 2001.
A C. difficile também está mais mortal. Anos atrás, o índice de mortalidade de uma infecção pela bactéria variava de 1% a 2%. Mas hoje vários estudos estimam que o índice de mortes é de 6%. O motivo é o surgimento de uma variedade ultravirulenta que emite níveis mais altos de toxinas.
Pacientes e visitantes de hospitais devem lavar as mãos, e os visitantes deve evitar sentar-se no leito de um paciente ou usar o banheiro dele. Os pacientes devem relatar sintomas de diarreia grave ao médico.
“Até cerca de 2002 essa era uma doença muito branda e pouco mortal”, disse Perry Hookman, gastroenterologista e professor de medicina na Universidade de Miami. “Mas, nos últimos anos, os micróbios se tornaram hipervirulentos, mais severos, e viraram uma ameaça global.”

27/02/2009 - 09:54h Kassab vai manter lago poluído

Gabriela Gasparin do Agora

Sob descontentamento dos frequentadores do parque da Aclimação, a prefeitura voltará a encher o lago da área verde amanhã sem a retirada do lodo e lixo acumulados no fundo do ex-lago. O material, além de malcheiroso, transmite doenças à população.

O lago esvaziou na segunda-feira após o vertedouro (equipamento que controla o nível de água do lago) ter a base rompida durante um temporal. Animais morreram.

O Prefeito Gilberto Kassab (DEM) disse que o motivo da tragédia não foi falta de manutenção, mas a pressão que a água da chuva provocou no equipamento.

O reparo da base do vertedouro deve ser finalizado hoje pela empresa contratada emergencialmente por cerca de R$ 160 mil. Será feito o encaixe de um tubo de concreto na base rompida e o lago voltará a ser enchido.

Kassab disse anteontem que não haverá a necessidade de retirar o lodo antes de encher. Segundo o prefeito, o material será removido com o lago já cheio, quando será colocado um novo vertedouro e as galerias da região serão revistas. A previsão do prefeito é que essa etapa esteja concluída em até 10 meses por causa da licitação. Kassab disse que a obra já estava prevista antes da tragédia e estava orçada em R$ 20 milhões.

Descontentamento
A ideia de colocar água sobre o lamaçal que restou do que era um lago, entretanto, não agradou nem um pouco os frequentadores do parque.

Indignada, a população quer que o material seja retirado antes de encher o lago de novo. Além de peixes mortos que provocarão mal cheiro, há pneus, bacias, entulho, pedaços de madeiras e garrafas no lodo.

A Assuapa (Associação dos Usuários e Amigos do Parque Aclimação) fará um movimento amanhã exigindo a retirada do lodo antes de o lago encher. “Aconteceu uma tragédia, a prefeitura não tem que ficar fazendo licitação para a retirada do lodo”, disse o diretor da entidade, Roberto Casseb. A associação pretende montar um conselho para a recuperação do lago.

Ontem pela manhã, a sujeira do lago seco prendia a atenção visitantes do parque, que paravam para assistir à cena. “Eu queria saber como que essa sujeira entrou aqui. Podia aproveitar que o lago secou para tirar a lama”, disse a atendente Solange Guimarães, 28 anos, que visitava o parque na tarde de ontem.

O lodo do parque pode transmitir doenças, como hepatite e leptospirose, às pessoas, segundo o infectologista Paulo Olzon. O zootecnista da Unesp (Universidade do Estadual Paulista) disse que, apesar de não fazer mal aos peixes, é correto retirar o lodo do fundo do local onde havia o lago.

27/02/2009 - 09:42h 4 anos mais tarde…

Ontem formulei aqui algumas perguntas sobre os problemas de manutenção do lago do Parque da Aclimação. O lago seco do engenheiro Kassab

“Em 2005, o então prefeito José Serra soltou um decreto autorizando as empresas privadas a “assumirem” a manutenção dos lagos dos parques municipais. Os quatro parques visados pelo decreto eram: Ibirapuera, Aclimação, Carmo e Cidade de Toronto. As empresas deveriam, segundo o decreto de Serra, cuidar de poluição da água, erosão ribeirinha, vegetação local, assoreamento dos lagos, fauna aquática, avaliação de qualidade da água e campanhas que estimulem a participação da população na conservação dos lagos. Em troca fariam a publicidade nos locais.

Que fim recebeu o decreto? Quais empresas assumiram “cuidar” do lago?

Segundo a Folha de São Paulo da época “Um relatório com a atual condição desses lagos e as medidas de manutenção e recuperação necessárias em cada um deles deve ser publicado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) em 120 dias.” (Folha SP 10/8/2005).

O relatório foi feito? Quais foram suas conclusões?”

Segundo o jornal O Estado SP a prefeitura produziu um relatório em 2006 identificando os problemas. Aparentemente a lista é a mesma que figurava no decreto de Serra em 2005. Segundo o Estado SP nenhuma empresa assumiu cuidar do lago e o jornal não consegue saber se a prefeitura cuidou do que seu próprio diagnostico considerava problemas à resolver.

Como para evitar que estes e outros elementos provantes do desfuncionamento da administração demo-tucana veiam a luz do dia, Kassab quer encher o lago rapidamente sem proceder a remoção do lodo contaminado, nem a limpeza da sujeira acumulada e isto contrariando opinião de técnicos ouvidos pela imprensa.

Kassab está preocupado com o cheiro de podre que emana do lago seco. Para esconder o cheiro, quer pressa para pôr água encima.

O acidente deveria servir para passar a limpo o tratamento dado pela prefeitura durante estes 4 anos, questão de pelo menos alguma coisa ficar limpa depois do ocorrido, já que aparentemente o lago continuará com o lodo contaminado e o fundo sujo. LF

Prefeitura identificou problemas na área em 2006

Vitor Sorano – O Estado SP

Um relatório da Prefeitura de São Paulo divulgado em 2006 apontava a necessidade de cinco “intervenções” no Lago da Aclimação – que se esvaziou na segunda-feira. Dentre elas estava a promoção de “mecanismos de manutenção do volume de água”. A Secretaria do Verde e Meio Ambiente não informou quando e como esses serviços foram realizados nem quanto foi gasto.

O Relatório Preliminar do Estado dos Lagos dos Parques Municipais de São Paulo – no qual constam as intervenções necessárias – foi elaborado pela atual gestão para subsidiar convênios com entidades públicas e privadas. O objetivo do prefeito Kassab (DEM) era passar a responsabilidade por cuidar dos lagos de parques públicos a terceiros. Nenhuma parceria, porém, foi fechada para o caso da Aclimação.

Além da manutenção do volume de água, o relatório ainda cita a necessidade de recomposição da flora à beira do lago. “Em áreas ao redor ocorre ausência da vegetação, provocando erosão”, diz o documento. Também são previstos o diagnóstico da profundidade do lago e das características do lodo ao fundo.

As obras de melhoria no lago são feitas há cerca de um ano, segundo a Prefeitura. A primeira e a segunda etapas – que incluem a despoluição do Córrego Pedra Azul e a retomada da circulação de água – já foram concluídas. A terceira etapa, que entrará em fase de licitação, prevê a retirada do lodo e a construção de um novo vertedouro. Após a licitação, a obra deve ser concluída até o fim do ano. Dessa forma, a capacidade vai aumentar de 70 milhões para 110 milhões de litros.

27/02/2009 - 09:12h Lodo contaminado de lago vaza para as ruas da Aclimação

Lama e peixes mortos vieram de bueiros; prefeito admite que sujeira pode até fazer mal

Marcela Spinosa e Mônica Cardoso – O Estado SP

Pelo menos três ruas vizinhas do Parque da Aclimação, na região central de São Paulo, amanheceram ontem com lama e peixes mortos. A sujeira subiu pelos bueiros, por onde passa a galeria de água pluvial. A tubulação sai do vertedouro, que rompeu segunda-feira e sugou, em menos de uma hora, a água do lago. Sem a “tampa”, a sujeira escoou pela estrutura, com a chuva de anteontem. Segundo a Prefeitura, o refluxo da água pelo bueiro pode ter sido causado pela própria galeria, que não suportaria o volume de água.

Os moradores receiam pegar algum tipo de doença se entrarem em contato com o lodo, uma vez que o lago recebeu esgoto até 2007, quando foram fechadas 42 ligações clandestinas. O prefeito Gilberto Kassab admitiu que o material está contaminado. Para o professor de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo, Paulo Ozon, é preciso evitar o contato. “As pessoas que entraram em contato com o lodo podem desenvolver leptospirose e salmonelose (doenças causadas por bactérias). Elas devem procurar o médico e fazer uso de antibióticos.”

Os sintomas da leptospirose incluem febre alta, dor de cabeça forte, calafrio, dor muscular, vômito, olhos e pele amarelada, dor abdominal, diarreia e erupções na pele. Os sintomas mais comuns da salmonelose são diarreia, febre, cãibras estomacais, náusea, vômitos e dores de cabeça.

Apesar de estarem acostumados com enchentes, os moradores das Ruas Oscar Guanabarino, Maracaí e Albina Barbosa nunca imaginaram que veriam as vias com lodo. “Jorrava pelo bueiro. Parecia um poço de petróleo de tão escura que a água estava”, afirmou a aposentada Neide Moraes Fera, de 63 anos. Ela disse que a chuva durou cerca de 20 minutos, mas foi suficiente para deixar marcas de quase 1 metro de altura nas paredes. E pelo menos 17 rachaduras abriram no asfalto da Albina Barbosa, por onde passa a tubulação.

OBRA

Para evitar que o lodo do lago da Aclimação caia no vertedouro, a empresa Épura, responsável pelo conserto da estrutura, cercou ontem com pedaços de madeira o buraco por onde a água do lago escoa. A reconstrução da parte danificada deve começar hoje. No interior da estrutura será colocado um tubo de concreto, que pesa 2.300 quilos.

12/02/2009 - 18:12h As bactérias da boca




Agencia Estado

Vídeo produzido com técnicas de última geração para captação de imagens microscópicas alerta para os riscos das bactérias existentes na boca humana

08/02/2009 - 11:24h Darwin 200 anos depois

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Herton Escobar – O Estado SP

“No futuro distante, vejo campos abertos para pesquisas muito mais importantes. A psicologia será baseada num novo fundamento, baseado na necessária aquisição de cada poder e capacidade mental via gradação. Luz será lançada sobre a origem do homem e sua história.”

Charles Darwin, em A Origem das Espécies, 1859

Na semana em que Charles Darwin completaria 200 anos, a atual crise financeira-econômica mundial oferece um cenário ideal para estudar o legado do grande naturalista. Assim como o asteroide que caiu sobre a Terra há 65 milhões de anos alterou radicalmente o clima do planeta, levando os dinossauros à extinção e permitindo a ascensão dos mamíferos (até então pequenos animais noturnos que viviam à sombra dos grandes répteis), o colapso de Wall Street detonou uma sequência de eventos que alteram profundamente o ambiente econômico mundial.

Empresas, bancos e modelos de negócios que não conseguirem se adaptar às novas condições correm o risco de desaparecer da face da Terra, tal qual os dinossauros. Alguns gigantes do setor financeiro já foram extintos. Novos negócios sustentáveis, antes sufocados pelo ambiente especulativo e de consumo desenfreado, agora têm uma chance para florescer, tal qual os pequenos mamíferos do cretáceo.

Esse é o princípio da evolução por seleção natural, descoberto por Darwin em meados do século 19, após sua viagem de volta ao mundo a bordo do H.M.S. Beagle e publicado em 1859, no livro A Origem das Espécies – para muitos, a obra mais importante da história da ciência. Darwin enxergou algo fundamental e revolucionário sobre o funcionamento da natureza: um mecanismo pelo qual espécies podem evoluir, diferenciar-se e originar novas espécies por meio de forças exclusivamente biológicas, sem necessidade de intervenção divina ou atos sobrenaturais. Um mecanismo tão poderoso que, como Darwin bem previu, abriu caminho para novos – e polêmicos – campos de estudo a respeito da existência humana.

Que o homem evoluiu de um ancestral comum com os primatas já é uma certeza científica universal, confirmada por um batalhão de informações genéticas produzidas desde a descoberta do DNA. Mas será que a espécie humana ainda está evoluindo? E até que ponto a seleção natural poderia explicar não apenas a evolução de características físicas do ser humano, como a postura ereta e o cérebro grande, mas também de características comportamentais, como o altruísmo, o egoísmo, o racismo ou uma propensão à infidelidade conjugal? Essas são algumas das perguntas darwinianas com as quais cientistas e filósofos de um “futuro distante” se digladiam no presente.

BASE CIENTÍFICA

O primeiro passo de Darwin para chegar a sua teoria foi perceber que todos os indivíduos – inclusive os membros de uma mesma espécie – são anatomicamente e fisiologicamente diferentes entre si. Alguns nascem com pernas um pouco mais longas, com a visão um pouco mais aguçada, com antenas mais sensíveis ou com a capacidade de digerir alimentos melhor do que seus pais e irmãos.

Se alguma dessas características calha de ser vantajosa no ambiente em que aquele organismo vive – por exemplo, a capacidade de viver mais tempo sem água em um ecossistema árido ou uma coloração de asa que se camufla melhor com a cor da casca de uma árvore -, esse indivíduo terá melhores chances de sobreviver e, consequentemente, de deixar descendentes com características genéticas iguais às dele para compor as geração futuras (chamada seleção positiva). Já os indivíduos menos adaptados sofrem o efeito contrário: em média, vivem menos e deixam menos descendentes (seleção negativa).

Deixe a seleção natural agir por tempo suficiente e as variedades menos aptas tenderão a desaparecer da população, substituídas pelos descendentes das variedades mais bem adaptadas. É o que Darwin chamou de “luta pela sobrevivência”, mas que ficou conhecido pelo apelativo (e enganoso) título de “a lei do mais forte”. Novas espécies surgem quando uma variedade se separa da população original e segue um caminho evolutivo diferente, tal como as linhagens do homem e do chimpanzé divergiram de um ancestral comum.

Quando as condições ambientais mudam, as espécies precisam mudar também. Características que eram benéficas ou irrelevantes podem se tornar deletérias e vice-versa. É um processo contínuo, porém lento e gradual, que pode levar de algumas dezenas a muitos milhões de anos, e por isso é tão difícil de ser observado diretamente. Em um evento extremo, como a queda de um asteroide ou a explosão de uma crise financeira global, porém, a seleção atua de maneira óbvia e implacável. No lugar de um bando de répteis gigantes, pode-se acabar com um bando de mamíferos pequenos e peludos.

UNIVERSALIDADE

Por mais polêmica que ainda seja do ponto de vista religioso, a teoria da evolução por seleção natural é hoje um pilar central das ciências biológicas, tão indispensável para explicar o desenvolvimento de uma joaninha quanto a resistência de bactérias a antibióticos ou a resposta de uma floresta ao efeitos do aquecimento global. Como disse o geneticista ucraniano Theodosius Dobzhansky, em 1973: “Nada na biologia faz sentido, a não ser sob a luz da evolução.”

“O que está implícito nessa frase é que a biologia só se consolidou como ciência após a teoria da evolução”, diz o biólogo Diogo Meyer, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Antes havia apenas o estudo dos seres vivos; não havia uma teoria que integrasse tudo numa ciência comum. Hoje sabemos que os processos que moldam o genoma de uma bactéria e de um elefante são parte da mesma família.”

A analogia sobre a crise financeira serve para mostrar que as teorias de Darwin – agrupadas no que se convencionou chamar de “darwinismo” – foram mais longe ainda: extrapolaram os limites da biologia e colonizaram outras áreas da ciência, influenciando várias esferas do pensamento humano.

Mais até do que uma analogia, a evolução por seleção natural é um elemento crucial da teoria econômica moderna, segundo o economista José Eli da Veiga. “A ideia é que qualquer sistema evolutivo obedece às leis do darwinismo. E a economia é certamente um sistema evolutivo”, afirma Veiga, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP. “Um economista que não entende Darwin é um economista totalmente ultrapassado.”

Visto por uma ótica puramente evolucionista, vale a pena perguntar: ao financiar a salvação de empresas que, de outra forma, iriam à falência, estariam os governos indo contra a seleção natural? Vale a pena salvar os dinossauros?

“Darwin fez uma teoria biológica, mas construiu uma linha de raciocínio tão abstrata que acabou transcendendo a biologia”, diz o pesquisador Charbel El-Hani, coordenador do Grupo de Pesquisa em História, Filosofia e Ensino de Ciências Biológicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

SOCIOBIOLOGIA

No que se aplica à evolução de plantas, besouros, peixes e sabiás, a teoria de Darwin já é ponto pacífico na ciência. É quando se tenta aplicar a seleção natural aos seres humanos que a coisa fica complicada. Darwin desenhou uma árvore da vida na qual o homem é um galho tal como outro qualquer – uma espécie dotada de inteligência superior, porém gerada pelos mesmos mecanismos de diferenciação e seleção que produziram as plantas, besouros, peixes e sabiás. “Devo inferir por analogia que, provavelmente, todos os seres orgânicos que já viveram nesta Terra descenderam de uma única forma primordial, na qual a vida foi soprada pela primeira vez”, escreveu Darwin, no capítulo final de A Origem das Espécies.

Ele poderia ter deixado o ser humano fora dessa história, mas não deixou. As semelhanças entre os homens e os primatas já eram óbvias demais para serem ignoradas, mesmo no século 19, antes da genômica. A mera sugestão de que o Homo sapiens era uma forma evoluída de macaco e não um ser especial criado por Deus foi suficiente para detonar uma batalha entre ciência e religião que persiste até os dias de hoje. Darwin até tentou ficar de fora dessa briga no início, deixando o tema de fora de A Origem das Espécies (”Luz será lançada sobre a origem do homem e sua história” é a única referência que ele faz à espécie humana no texto). Mais tarde, porém, publicaria um livro específico sobre o assunto, chamado A Origem do Homem e a Seleção Sexual, de 1871.

A versão mais moderna desse debate se dá no campo da “sociobiologia”, uma ciência controversa que busca integrar conceitos biológicos ao estudo do comportamento humano. Umas de suas disciplinas, como previu Darwin, é a chamada “psicologia evolutiva”.

O raciocínio básico da sociobiologia é o de que, se o comportamento dos animais resulta de processos evolutivos, e os seres humanos são animais que evoluíram como todos os outros, então seu comportamento social deve ser, também, influenciado por processos biológicos – e não apenas culturais.

O tema é extremamente polêmico entre biólogos, antropólogos e sociólogos. “Não há nada no ser humano que não seja explicado por leis biológicas”, diz o biólogo Mário de Pinna, vice-diretor do Museu de Zoologia da USP. “A cultura tem origem biológica e, sendo assim, está sujeita também às leis da evolução.” Para ele, o ser humano continua a ser moldado pela seleção natural, tanto culturalmente quanto biologicamente. “Evolução nada mais é do que uma mudança na frequência de genes ou suas combinações ao longo do tempo numa população”, afirma Pinna. “Se você morre sem deixar filhos, geneticamente, é como se você nunca tivesse existido. Isso é seleção.”

O geneticista Sérgio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), discorda. “A evolução humana, do ponto de vista biológico, acabou”, diz. “Temos uma cultura que vai diretamente contra a seleção natural. Temos a medicina: pessoas que deveriam morrer não morrem.” Hoje, segundo Pena, a única seleção relevante é a cultural. “Evoluímos tanto que um dos produtos da nossa própria evolução é uma nova maneira de evoluir”, diz. “Tomamos as rédeas do nosso próprio destino como espécie.”

O dilema, segundo a antropóloga Gláucia Silva, da Universidade Federal Fluminense (UFF), surge de uma separação equivocada entre homem e natureza, enraizada nas culturas ocidentais. “Os seres humanos são radicalmente distintos de todos os outros animais, mas não deixam de ser animais”, afirma ela. A sociobiologia, segundo Gláucia, tem o mérito de tentar reconstruir essa unidade – porém, sem oferecer respostas satisfatórias, reduzindo tudo a uma questão genética. “Os sociobiólogos não sabem nada de antropologia social. Eles têm respostas tão simples que dá vontade de rir.”

Gláucia defende a tese de que a espécie humana continua a evoluir biologicamente – “Basta estar vivo para ser passivo de seleção”, diz ela -, mas que o comportamento social humano não tem nenhuma relação com isso. Nem mesmo o comportamento sexual. “Os seres humanos não têm instinto sexual”, diz a antropóloga. “A regulação da nossa atividade sexual é 100% cultural.”

As discordâncias mostram que a obra de Darwin está longe de virar história e que muitas das questões levantadas por ele continuam tão importantes no século 21 quanto eram no século 19. “É realmente notável que um naturalista daquela época pudesse fazer perguntas que permanecem relevantes tanto tempo depois”, diz o ecólogo Thomas Lewinsohn, da Universidade Estadual de Campinas.

Ele discorda de outros cientistas que prefeririam abandonar o título “teoria” e apresentar a evolução por seleção natural como um “fato” consumado. “Chamar uma teoria de fato é como transformá-la num fóssil”, diz. “A palavra de Darwin não é uma palavra sagrada, que não pode ser questionada. É uma teoria viva, em constante desenvolvimento, que pode e deve ser sempre reexaminada.”

25/11/2008 - 11:04h Soberania tecnológica às avessas

http://www.cib.org.br/imagens/basico/ft_lavoura.jpg

* por Rui Falcão

http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2008/04/129_2921-rui%20falcao.JPGA compra das empresas brasileiras Alellyx e CanaVialis pela norte-americana Monsanto, anunciada no início de novembro, arrancou críticas do ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Resende, e sugere uma reflexão sobre o sentido do financiamento público da pesquisa em ciência e tecnologia (C&T) no Brasil. Certamente, o ministro teria permanecido calado se se tratasse de um negócio comum. Em declaração ao jornal “O Estado de S. Paulo”, Resende afirmou que “a venda (da Alellyx e CanaVialis) para qualquer grupo estrangeiro é decepcionante. Como é que eles foram vender duas jóias como essas, tão importantes para o País?”.

Ambas as empresas pertenciam à Votorantim Novos Negócios, fundo de capital de risco do grupo Votorantim, que as criou e financiava desde 2002, e têm a sua origem associada à pesquisa pública e a forte subvenção por parte do Estado na forma de investimento a fundo perdido, por se tratar de empresas brasileiras voltadas para pesquisa de interesse estratégico nacional. Segundo Rezende, nos últimos três anos a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), do Ministério da Ciência e Tecnologia, havia aprovado a destinação de R$ 49,4 milhões para pesquisas nas duas empresas, dos quais R$ 6,4 milhões já foram desembolsados. “São duas empresas que receberam investimento do governo e, justo quando esses investimentos amadureciam, foram vendidas por um preço bastante módico”, afirmou – cerca de US$ 290 milhões, segundo informa o jornal.

Como observou o físico Joelmo Oliveira, diretor de Políticas de C&T do Sindicato dos Pesquisadores de São Paulo (SinTPq) e colaborador do Grupo de Análise de Políticas de Inovação (GAPI – UNICAMP), Alellyx e CAnaVialis eram vistas até então como ícones de uma bem-sucedida política de Estado que visa a incentivar a pesquisa em C&T dentro das empresas brasileiras e fomentar o espírito empreendedor entre os cientistas da Academia. “É em momentos como esse que vem à tona a importância das unidades públicas de pesquisa; são elas que de fato garantem a apropriação nacional do conhecimento tecnológico desenvolvido a partir de investimentos públicos”, escreveu Oliveira.

Com sede em Campinas, ambas as empresas foram criadas por pesquisadores acadêmicos que participaram dos primeiros grandes projetos de genômica no País, financiados em sua totalidade por recursos públicos. Sua história, na verdade, é indissociável dos resultados de investimentos públicos em pesquisa, e tem origem na esteira do primeiro seqüenciamento genético de um organismo vivo no Brasil, em 1999, anunciado como o “maior feito científico brasileiro dos últimos tempos”. Tratava-se da finalização do mapeamento genético da Xylella fastidiosa, a bactéria causadora da praga conhecida como “amarelinho”, que ataca os laranjais paulistas. O projeto Genoma-Xylella custou aos cofres públicos US$ 13 milhões, parte financiados pelo governo Federal, parte pelo governo paulista, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp).

A partir do conhecimento gerado pelo seqüenciamento do “amarelinho”, foi fundada em 2002 a empresa Alellyx Applied Genomics. Os sócios da empresa, lembra Oliveira, eram professores e pesquisadores da Unicamp, da USP e da Unesp, três das principais instituições acadêmicas do País. Por indicação do professor do Instituto de Química da USP, Fernando Reinach, à época já diretor-executivo da Votorantim Novos Negócios, a Votorantim Novos Negócios tornou-se sócia da nova empresa. Havia sido o próprio Reinach quem propôs o projeto Genoma-Xylella ao então diretor-científico da FAPESP, José Fernando Perez, em 1997. Ou seja, os professores que fundaram a Alellyx eram os mesmos que exerciam funções de coordenação na FAPESP, uma das principais financiadoras das pesquisas que levaram à criação da empresa.

No ano seguinte, foi fundada a CanaVialis S.A., também com participação da Votorantim Novos Negócios. Diferentemente da Alellyx, a pesquisa da CanaVialis prende-se ao melhoramento clássico de variedades da cana-de-açúcar, o que não envolve ainda alterações genéticas a partir de técnicas oriundas do seqüenciamento genético da cana.

Não é novidade o interesse de países como os EUA na tecnologia brasileira de produção de álcool de cana-de-açúcar em grande escala e na obtenção de variedades transgênicas da cana adaptadas às suas condições climáticas. Assim se explica a compra da Alellyx e da CanaVialis pela Monsanto, negócio que se tornou público em 2007, quando a Votorantim anunciou uma “parceria tecnológica” com a multinacional. Então, o diretor-executivo da Votorantim Novos Negócios, Fernando Reinach, afirmou: “Esta parceria tecnológica permitirá à Alellyx e CanaVialis disponibilizarem para o setor sucroalcooleiro tecnologias desenvolvidas pela Monsanto. Além disso, possibilitará à Monsanto utilizar tecnologias desenvolvidas por nossas empresas”.

Porém, o desfecho da “parceria” foi outro. Como observa o diretor do sindicato dos pesquisadores de São Paulo: “o ‘maior feito científico brasileiro dos últimos tempos’, que provavelmente se tornaria também o mais lucrativo negócio do século XXI, já não é brasileiro”, em que pesem os recursos públicos, o engenho e o esforço nacionais nele empenhados.

A curta trajetória da Alellyx e da CanaVialis sob controle nacional assume caráter emblemático do que vem a ser o destino dos resultados da C&T em países que ainda não acordaram para a dimensão estratégica de C &T como elemento central do poder nacional. A capacidade científica e tecnológica é na atualidade o grande ordenador do poder mundial nos seus desdobramentos político, econômico e militar. Dos assim chamados fatores de produção – capital, mão-de-obra, matéria-prima e tecnologia – o último predomina sobre os demais em valor estratégico. Países dotados de capital, mão-de-obra, matérias-primas abundantes mas sem tecnologia encontram-se em desvantagem frente a países detentores de tecnologia, mesmo carente dos demais fatores. É a disponibilidade de tecnologias que abre as portas para o domínio sobre os demais fatores onde quer que estejam eles.

Por isso, C &T tornaram-se preocupação política primordial dos países desenvolvidos. Ali, não se dissocia C&T da disputa entre empresas pela hegemonia em mercados ou da disputa pelo poder entre nações ou blocos de nações. Estão aí para atestá-lo a atualidade e a candência das questões internacionais referentes a investimentos, propriedade intelectual e ao comércio de serviços técnicos. De um lado da trincheira, os países desenvolvidos, tecnologicamente avançados, em busca da abertura de mercados para suas empresas e fechamento das possibilidades de acesso por terceiros às tecnologias por eles geradas. Do outro, países em desenvolvimento, tentando proteger seus mercados, para a expansão de empreendimentos nacionais, em busca de assegurar o acesso às tecnologias de que necessitam para o seu desenvolvimento.

De acordo com os fundamentalistas do mercado, ora em debandada no mundo, o veículo principal de transferência de tecnologia das economias avançadas para as sociedades periféricas seria o investimento direto estrangeiro. O conhecimento científico e tecnológico estaria, como qualquer mercadoria, disponível no mercado, bastando pagar o seu preço para adquiri-lo, ou bastando atrair a empresa que o detêm para fazer com que tal conhecimento se incorpore ao sistema econômico nacional. A atração de capitais estrangeiros permitiria a um país periférico, como o Brasil, dispensar investimentos vultosos em C&T, “queimar etapas de desenvolvimento” e não “reinventar a roda”.

Essa foi a recomendação feita pelos EUA ao Brasil nas décadas 1960/70, quando da decisão brasileira de criar uma empresa estatal de pesquisa agropecuária tropical (a Embrapa), para atender às peculiaridades de um país com biomas localizados nessas latitudes. Sabe-se hoje que o Brasil somente é independente e líder mundial em tecnologia agropecuária tropical porque não deu atenção e não cedeu à pressão norte-americana. Obstáculos semelhantes se interpuseram na decisão brasileira de proceder com autonomia na pesquisa nuclear.

O fato é que cada país confere à sua política de C&T grau de importância correspondente ao que atribui à utilização do conhecimento científico para o desenvolvimento, autonomia e defesa nacionais. Em princípio, não existe diferença entre o Brasil e os EUA no que se refere ao interesse de um físico pela estrutura nuclear, ou de um geneticista pelo genoma de um vegetal. Mas, quando se trata de saber quais pesquisas físicas ou genéticas podem tornar-se economicamente úteis em cada um dos países, a experiência do outro país é relativamente de pouca relevância. Cabe à política de C&T, orientada pela estratégia e soberania nacionais, fazer a escolha adequada das áreas de pesquisa de interesse, com vistas a atingir os objetivos econômicos e sociais desejados pela nação.

Numa conjuntura histórica em que o velho mundo bipolar se desfez, assiste-se hoje ao surgimento de nova espécie de divisão internacional do trabalho, com a emergência da polarização tecnológica entre países dotados de alta tecnologia e países consumidores forçosamente dependentes. A posse de um monopólio tecnológico permite ao país dinâmico extrair renda tecnológica dos países dependentes, daí resultando perdas sociais, já que estes são (e, presumivelmente, permanecerão) importadores líquidos de tecnologia.

Os Estados Unidos, e com eles outros países avançados, aprenderam a se tornar ciosos do controle sobre tecnologias sensíveis. País que nada tem fixado em leis referente ao capital estrangeiro ou ao controle sobre tecnologias, os EUA arbitrariamente não autorizam, por período de anos ou décadas, a venda ao exterior de tecnologias consideradas sensíveis. A revisão em curso no sistema de propriedade intelectual na Organização Mundial do Comércio, sob a hegemonia dos países ricos, aponta para o estabelecimento de severas limitações à transferência de tecnologia, de forma a dificultar ou retardar ainda mais o surgimento de novos competidores.

A primeira conseqüência prática para países como o Brasil seria um incremento na conta de remessa de royalties para o exterior, que já é alentada. Mesmo quando a pesquisa se realiza aqui, no caso de empresa estrangeira a patente será registrada em nome da companhia, e sua utilização no Brasil, ou em qualquer país gerará pagamentos e remessas para a sede da empresa, detentora da patente. Ou seja, os direitos de propriedade intelectual pertencem à empresa matriz, independentemente da localização da pesquisa. Outro custo social associado à dependência externa em C&T é a perda efetiva para os consumidores acarretada pelos altos preços que resultam do processo de monopolização.

A desnacionalização, como ocorreu no caso da Alellyx e da CanaVialis, tende ainda a acarretar, num contexto mais amplo, a transferência para o exterior dos centros de decisão da atividade econômica, do investimento, da alocação de recursos em geral e da P&D em especial – e, na sua extensão, dos centros de decisão política. Essa transferência afeta a capacidade do Estado de cumprir com suas funções referentes ao desenvolvimento, à defesa e à soberania nacionais e amplia, portanto, o hiato entre o país periférico e os países avançados, numa espiral perversa e recorrente. Há quem acredite que, em princípio, as forças de mercado poderiam também cumprir com essas funções. Porém, nada indica em parte alguma do mundo que isso esteja ocorrendo ou que venha a ocorrer.

A desnacionalização da Alellyx e da CanaVialis serve, assim, de lição para lembrar que a produção do conhecimento cria ela própria novas vulnerabilidades e novas ameaças, para as quais um país grande, que tem muito a proteger, como o Brasil, não pode deixar de estar preparado. É dizer que a construção de uma base de C&T condizente com as nossas aspirações e possibilidades depende do que sejamos capazes não somente de desenvolver mas também de manter “em casa”, sem prejuízo de parcerias internacionais que venham a fortalecer a soberania nacional em suas dimensões política, econômica, social e democrática.

O Estado brasileiro carece de uma definição do que se pretende com o financiamento público de pesquisa em C&T.

Rui Falcão, 64 anos, advogado e jornalista, é deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores. Foi deputado federal, presidente do PT e secretário de governo na gestão Marta Suplicy.

23/11/2008 - 15:17h A nova superbactéria

Caption: Scanning electron microscope image of A. baumannii, with maps of its genome (outer circle) and alien island sequences (inner circle – red).
Credit: Courtesy of J.Carr/CDC; T.Gianoulis and D.Massa/Yale

Comunidade internacional divulga alerta para infecções resistentes a remédios

Normalmente encontrada no solo e na água, uma perigosa e resistente bactéria se alastra por hospitais de todo o mundo, inclusive do Brasil, alertaram especialistas em doenças infecciosas em artigo publicado esta semana na revista médica “The Lancet”. De acordo com os médicos, a Acinetobacter baumannii seria ainda mais ameaçadora do que a MRSA (uma variante muito resistente de Staphylococcus aureus) e a Clostridium difficile: ela já responde por pelo menos 30% das infecções hospitalares resistentes a drogas.

— Há um crescente aumento de infecções por A baumannii em vários hospitais em todo o mundo — afirmou, em entrevista à Reuters, Matthew Falagas, da Universidade de Tufts, em Boston, e do Instituo Alfa de Ciências Biomédicas, na Grécia, co-autor do artigo ao lado de Drosos Karageorgopoulos. — E são infecções muito difíceis de tratar porque as bactérias são resistentes à maioria dos medicamentos disponíveis.

Brasil já registrou casos de infecção

Especialistas em infecção hospitalar no Brasil já estão cientes da ameaça da bactéria e de sua presença em centros de saúde no país há algum tempo.

— Do mesmo modo que em outros países, não somente as Staphylococcus aureus resistentes à meticilina, conhecidos como MRSA, têm preocupado nossa comunidade médicocientífica.

Surtos de infecções hospitalares causadas por A. baumannii, sensíveis somente ao antibiótico colistina, têm sido descritos, há alguns anos, no Brasil — diz Agnes Marie Sá Figueiredo, diretora do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

De acordo com o artigo da “Lancet”, o papel da A. baumannii em graves infecções diagnosticadas em pacientes criticamente doentes é cada vez mais claro. “Esse patógeno está associado a surtos de infecção muito difíceis de serem controlados”, destaca o texto.

Alguns médicos estão lançando mão de uma classe de antibióticos conhecidos como polimixinas para combater a infecção.

Essas drogas não são usadas há 20 anos para esta finalidade, em parte por causa dos efeitos colaterais que apresentam, entre eles problemas renais. “Isso significa que os médicos precisam de novas drogas para combater a bactéria”, sustentou Falagas. “Mas a melhor arma para deter o avanço da A. baumannii ainda é lavar bem as mãos. Essa é a medida mais importante de prevenção para os que trabalham em hospitais.” Mas não apenas. A limpeza das instalações hospitalares e dos equipamentos utilizados é ainda mais importante, sustentam especialistas em infecções resistentes.

A A. baumannii compartilha muitas das piores características da MRSA e da Clostridium difficile, como a sobrevivência em superfícies secas e a resistência à maioria dos desinfetantes. A A. baumannii sobrevive na poeira e até na roupa de cama por meses.

Ela também pode ser transportada na pele de pessoas saudáveis. Tudo isso torna muito difícil a erradicação da bactéria depois que ela se instala em alguma instituição, explicam os especialistas, e revelam a importância da limpeza rigorosa na prevenção.

A A. baumannii provoca infecções sangüíneas e pneumonia, entre outros problemas.

Especialistas dizem que a bactéria não representa uma ameaça às pessoas saudáveis e que mesmo para as linhagens mais resistentes ainda existem drogas eficazes. No entanto, dizem, a questão é preocupante.

17/11/2008 - 13:41h Saúde: os números ocultam

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célula cancerosa vista ao microscópio eletrônico

AGNES MARIE SÁ FIGUEIREDO – O GLOBO

É inegável as conquistas obtidas em nosso país com relação a certas doenças infecciosas, principalmente aquelas cujas medidas de prevenção e/ou controle são mais conhecidas e efetivas, como a diarréia, a tuberculose, a malária e outras, conforme indicam as publicações recentes do Ministério da Saúde (Saúde Brasil 2007). Entretanto, o vasto universo das doenças causadas por microrganismos não se resume às doenças geralmente agrupadas como “infectocontagiosas” ou “infecciosas e parasitárias”.

Os microrganismos, sejam os protozoários, os fungos, as bactérias e, ainda, os vírus, estão envolvidos em diferentes tipos de afecções.

Por exemplo: há alguns anos, jamais poderíamos imaginar que certos tipos de cânceres estariam associados a tais seres microscópicos.

No entanto, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina 2008, Dr. Harald zur Hausen, foi agraciado com essa honraria, justamente, por ter relacionado o câncer de colo de útero, o segundo mais freqüente em mulheres, com o papiloma vírus humano (HPV). Mas não pensem que a associação entre microrganismos e câncer se encerra aí.

Uma bactéria conhecida como Helicobacter pylori, a qual é encontrada no estômago de cerca de 2/3 da população mundial, é o principal fator de risco de úlcera péptica e duodenal, aumenta, segundo estudos, o risco de câncer gástrico, linfoma de tecido linfóide associado à mucosa, conhecido como linfoma de MALT, e, ainda, de câncer pancreático.

Portanto, parece-me fundamental que a sociedade seja alertada sobre o papel das doenças infecciosas em determinados tipos de cânceres e, conseqüentemente, sobre sua influência “silenciosa” nas taxas de óbtidos. Além disso, em certas circunstâncias, o câncer por si só pode predispor o paciente a severas e recorrentes infecções. Por outro lado, a neutropenia (que reflete um comprometimento do sistema imunológico) é reconhecida há décadas como importante fator de risco para o desenvolvimento de infecções em pacientes submetidos a certas quimioterapias.

Portanto, é fato amplamente conhecido, pela comunidade médica, que as doenças infecciosas são importantes causas de mortalidade entre pacientes com diversos tipos de neoplasias malignas.

Realmente, por muitos e muitos anos, a tuberculose foi a principal causa de morte entre as doenças respiratórias de adultos. Porém, apesar de os óbitos por essa doença ter diminuído, outras infecções respiratórias, as de natureza aguda, estavam em 2005 na 5ª ou 6ª posição entre as 10 principais causas de morte em nosso país, segundo dados do Saúde Brasil 2007. Cabe acrescentar que, através de um estudo recente do Unicef/OMS intitulado “Pneumonia: the forgoten killer of children, 2006”, ficou constatado que essa doença mata mais crianças do que qualquer outra, e estimase que seja responsável pela morte de cerca de 2.000.000 de crianças a cada ano, em todo o mundo, sendo as espécies bacterianas Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae as principais responsáveis. Porém, infelizmente, pouca atenção tem sido dada para essa doença. Nesse mesmo estudo foi estimado que 150.000.000 de episódios de pneumonia devam ocorrer a cada ano, sendo que o Brasil estaria em 5o lugar, junto com a Etiópia, com 4.000.000 de casos. É preciso salientar que não somente as crianças estão mais susceptíveis às pneumonias; os indivíduos idosos também estão entre a população susceptível e, portanto, com elevado risco para a doença e conseqüente mortalidade.

Vale lembrar, aqui também, outros importantes “matadores” que ficaram esquecidos nesta estória, as doenças hoje conhecidas como “infecções associadas a serviços de saúde” (IASS), em que se incluem as infecções hospitalares. Essas doenças acometem pacientes, durante o curso de um tratamento que receberam para debelar outra doença, em um estabelecimento que presta serviço de saúde. Segundo os Centers for Diseases Control (CDC), nos Estados Unidos, as IASS estão entre as 10 principais causas de mortalidade.

Não devemos, em hipótese alguma, sob pena de estarmos causando um erro grave, subestimar o impacto de tais doenças em nosso meio.

Estudos têm demonstrado que os índices dessas infecções são maiores em países da América Latina e da África. Agrava-se a essa triste estatística o fato de que muitas dessas infecções, como as que ocorrem nos hospitais, são causadas por bactérias resistentes a múltiplos antibióticos. Tal fato dificulta, significativamente, a pronta prescrição pelos médicos de uma terapia antibiótica eficaz, contribuindo assim para o aumento do número de óbitos.

Aos profissionais da saúde cabem estar atentos para os fenômenos resultantes da evolução adaptativa dos microrganismos, os quais culminam, algumas vezes, no surgimento de novas doenças (conhecidas como emergentes) e, em outras vezes, no aumento da incidência de doenças antigas, porém com características epidemiológicas singulares, únicas, as quais, quando não reconhecidas, podem mascarar os índices dessas infecções e da mortalidade associada.

Aos nossos políticos cabe o ônus da necessidade de aplicarem mais recursos para o desenvolvimento de laboratórios e sistemas cada vez mais sofisticados, visando à coleta e posterior análise de dados, sobre tais doenças, de maneira que os números possam nos apontar, de forma mais reveladora, esse mundo micro, porém da maior importância para a saúde global.

AGNES MARIE SÁ FIGUEIREDO é diretora do Instituto

21/09/2008 - 14:30h Da boca para dentro

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Novas pesquisas relacionam boa saúde oral à prevenção de várias doenças

Antônio Marinho* – O GLOBO

Imagine despejar todos os dias a maior parte de seu lixo no manancial de um rio. Com o tempo, lagos e fontes que recebem seu fluxo serão poluídos e podem morrer. É mais ou menos isso que ocorre ao negligenciarmos a higiene bucal. O acúmulo de bactérias em estruturas que envolvem os dentes causa inflamações e aumenta o risco de infecções em todo o corpo. Agora, novos estudos confirmam que cuidar da saúde oral protege contra infarto e derrame. Há quem afirme que a prevenção vai além. Pessoas que escovam mal os dentes e raramente visitam o dentista correm maior risco de cânceres, demência e até de parto prematuro.
O problema começa com o acúmulo de bactérias ao redor dos dentes, formando placas que atacam as gengivas e outras estruturas.
Aos poucos, os germes invadem tecidos e produzem substâncias tóxicas que inflamam as gengivas (gengivite), e alguns chegam à corrente sangüínea. Daí pegam carona para o coração e outros órgãos. Em casos graves (periodontites), os tecidos de suporte são afetados — com destruição de colágeno e de ligamentos — , responsáveis por manter os dentes nos ossos. De 7% a 15% da população mundial sofrem desse mal.

— Mais pesquisas sugerem associação entre infecções orais e doenças sistêmicas — diz a dentista americana Sally Cram.
Um exemplo é o estudo da Universidade de Bristol, de Howard Jenkinson. Na reunião da Sociedade Geral de Microbiologia, ele disse que centenas de cepas de bactérias vivem na boca e algumas entram no sangue. Isso pode causar problema cardíaco, mesmo em saudáveis. Elas produzem agrupamento de plaquetas, formando escudo contra o sistema imunológico e antibióticos.

Sem tratamento, risco de parto prematuro aumenta

Maurizio Tonetti, chefe da Divisão de Periodontologia da Universidade de Connecticut, investigou se um tratamento para anular a produção de bactérias e toxinas da boca seria benéfico em pacientes com aterosclerose.
Os resultados foram animadores. Em artigo na revista “New England Journal of Medicine”, ele mostrou que indivíduos submetidos por seis meses a intenso tratamento de doença das gengivas não apenas se livraram desse mal, mas melhoraram a função do endotélio (a camada interna dos vasos).
E pesquisa na Grã-Bretanha, com 366 gestantes, publicada no “Journal of Periodontology”, indicou que o tratamento de infecção de tecidos da gengiva reduziu o índice de nascimentos prematuros em 84%. Segundo os autores, essa doença eleva a produção de prostaglandina, substância que pode induzir ao parto. As grávidas que receberam cuidados dentários antes da 35ª semana tiveram menor chance de dar à luz antes da hora. Em outro trabalho, na revista “The Lancet Oncology”, autores associaram doenças das gengivas a maior chance de tumores de pulmão, fígado, rim e pâncreas, além de Alzheimer.
Porém não souberam explicar essa relação.

— Dados apontam risco adicional de até 2,8 para infarto em pessoas com periodontites.

Já encontraram traços de bactérias das gengivas em placa ateromatosa retirada em cirurgias. A forte resposta imune estimulada por periodontites parece ser o principal mecanismo na relação com doenças sistêmicas, como diabetes, artrite, a doença pulmonar obstrutiva crônica, úlceras, pneumonias, além de indução a parto prematuro e problema cardiovascular — diz Luciano Oliveira, doutorando em periodontia pela Uerj e membro da Sociedade Brasileira de Diabetes.
Mau hálito, retração e sangramento gengival podem ser os primeiros sinais, explica a dentista Cristiane Vivacqua. Ela diz que pessoas com gengivas doentes são duas vezes mais susceptíveis a queixas cardíacas.

— Doença periodontal pode piorar males cardíacos já existentes. Às vezes é necessária a profilaxia antes de tratamentos dentários, como uso de antibióticos. Isso é avaliado pelo dentista e médico — alerta.
Já a dentista Flávia Rabello de Mattos, especialista em implantes, lembra que diabetes, síndrome de Down, doença de Crohn e Aids favorecem a periodontite: — Habitualmente, doença da gengiva não causa dor, até que dentes se afrouxem ao mastigar ou se forme abcesso. Em fumantes, sinais iniciais são mascarados e eles só percebem o problema quando a perda óssea é grave. Sem tratamento, a perda óssea poderá ser de 1mm/ano.

* Com ‘The Washington Post’ e agências de notícias Existem cerca de 700 cepas de diferentes bactérias (como estafilococo e estreptococo) em uma boca saudável, metade ainda não classificada. Em agosto foi descoberta uma nova espécie, Prevotella histicola, que pode estar relacionada a cáries e doenças da gengiva. Se as bactérias entrarem na corrente sangüínea, podem causar problemas cardíacos e até derrame, mesmo que a pessoa esteja em boa forma física.

Há cerca de cem milhões de bactérias em cada mililítro de saliva. Vírus, fungos e protozoários também vivem na boca. Segundo cientistas, microorganismos procedentes de gengivas infectadas interagem com as plaquetas (elas participam do processo de coagulação, evitando hemorragias) provocando a inflamação das artérias, levando a seu estreitamento.

As bactérias também se unem aos depósitos de gorduras presentes nas artérias, o que pode facilitar a formação de coágulos. Outra explicação é que, ao se movimentar pelo corpo por meio do sangue, a bactéria estimula o sistema imunológico, causando inflamações que entopem as artérias.

Estudos americanos dizem que doenças das gengivas e outras infecções na boca estão associadas à maior incidência de câncer de pulmão, de sangue e de rim, além de pancreatites.

Exame da saliva ajuda a prevenir perda de dentes


Alteração no fluido pode ser sinal de doença, mas dentistas ignoram avaliação

Prestar atenção na saliva ajuda a melhorar a qualidade de vida já que o fluido pode revelar alterações no organismo. No entanto, estudo coordenado pela dentista Denise Falcão, do Departamento de Odontologia da Universidade de Brasília (UnB), diz que apenas 7% dos dentistas costumam fazer o exame, que é simples. E pelo menos 69% dos profissionais entrevistados disseram não ter assistido à aula sobre saliva em cursos de especialização e/ou mestrado.
A saliva desempenha funções no equilíbrio da orofaringe. A falta desse fluido torna o pH bucal ácido e favorece a cárie.
Além disso, a saliva contém uma substância que estimula a cicatrização da mucosa bucal e do esôfago. Portanto, sua deficiência predispõe a esofagites e aftas.

— Em outro estudo na UnB, vimos que a pessoa com saliva viscosa tem mais chances de sofrer mau hálito. Verificamos que portadores de doença periodontal costumam apresentar pH alcalino e saliva viscosa — disse Denise. — Não há como estabelecer relação de causa/efeito, mas as alterações dos padrões da saliva são indicadores de riscos para doenças.
Ela cita, por exemplo, a doença autoimune síndrome de Sjögren, que se caracteriza pela redução de saliva e lágrimas, entre outros sintomas. Geralmente é diagnosticada após anos, o que compromete muito a saúde. Entretanto, se o exame da saliva fosse feito rotineiramente, a doença seria detectada precocemente.

— Outro exemplo é que a saliva muito fluida e/ou a falta de saliva pode ser uma das causas de ardência bucal, situação muito comum principalmente nas mulheres na pós-menopausa, e isso costuma causa depressão. Mudança na coloração pode indicar descamação excessiva da mucosa, inflamações e infecções — alerta Denise.
Até mesmo o sono é ruim quando há pouca saliva. Isso porque a pessoa tende a se levantar com freqüência para beber água.
Outros problemas são a maior chance de ter aftas e outras lesões em mucosa da boca; menor fixação de restaurações dentárias, alteração de paladar e até dificuldade para falar. Segundo Denise, o teste — mostra a quantidade, a cor, a viscosidade e o pH — dura 30 minutos e deve ser feito uma vez ao ano, ou a critério do dentista. A coleta e a seqüência de avaliação deverá ser repetida em um outro dia e no mesmo horário para verificar a média dos valores.

— Carregada de imunoglobulinas ou anticorpos, a saliva tem participação decisiva em algumas doenças — diz o dentista Luciano Oliveira. — Embora seja um bom método auxiliar de diagnóstico, é pouco difundido em consultórios.
A dentista Flávia Rabello afirma que o aumento da produção de saliva, quando necessário, poderá ser conseguido com técnicas para estimulação e uso de medicamentos.
Há ainda a possibilidade de receitar substitutos desse fluido.
Outro estudo na UnB investiga a possibilidade de usar células-tronco na regeneração de tecidos com infecções bacterianas.
E cientistas do King’s College, de Londres, tentam produzir dentes a partir de células-tronco e realizaram pesquisas em camundongos. As células seriam programadas para se transformar em dentes e depois transplantadas para a mandíbula.

17/09/2008 - 18:34h Salsa pode mesmo “afinar” o sangue, diz estudo da UFRJ

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Extrato de erva aromática previne trombose em ratos com 100% de sucesso

Grupo pretende agora isolar princípio ativo envolvido no processo; estudo partiu de indício que teve origem na sabedoria popular

EDUARDO GERAQUE – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Vem da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) mais um motivo para comer salsa. A erva, além do tradicional aroma, também pode funcionar contra a trombose, mostram pesquisas feitas pela pesquisadora Russolina Zingali.
“Em testes in vivo [em animais], o extrato de salsa mostrou 100% de atividade contra a formação de trombos [coágulos]“, afirma a cientista, do Laboratório de Hemostase e Venenos do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ. O grupo conta com várias colaborações.
Segundo Zingali, a pesquisa mostra que a erva tem um potencial grande contra a trombose, mas ainda existe um caminho grande a ser percorrido para que a salsa possa realmente ser classificada como um alimento funcional (recomendado para uso constante).
“Isso já é válido, por exemplo, para um grupo de alimentos feitos com bactérias vivas, que ajudam no funcionamento do trato gastrointestinal do ser humano”, diz a pesquisadora.

Sem cura
No caso específico da salsa, diz a cientista, os testes feitos em ratos mostraram que a planta -os nordestinos, que preferem o coentro, talvez tenham de rever suas escolhas- tem uma ação apenas de prevenção da trombose.
“O extrato não curou o trombo; ele teve apenas uma ação preventiva”, afirma.
As análises laboratoriais começavam pela administração via oral do extrato de salsa aos animais. Depois de uma a duas horas da ingestão ocorria o estímulo para a formação dos coágulos, estruturas típicas da trombose (um tipo de entupimento dos vasos sangüíneos).
Como a salsa tem substâncias químicas com efeito inibidor de agregação plaquetária, já sabem os cientistas, é que ela age com sucesso contra a trombose. “Um das vertentes, agora, é exatamente tentar isolar essas substâncias químicas presentes na salsa”, diz a cientista.

Dito popular

De acordo com Zingali, a salsa usada na pesquisa é a conhecida pela classificação “lisa”. Mas, agora, o grupo de pesquisa também vai avaliar o potencial preventivo de outros tipos da erva. “O estudo também mostrou que essa planta tem uma atividade tóxica baixa, o que é muito importante”, diz.
O indício de que a salsa poderia ter uma atividade de prevenção da trombose vem exatamente da sabedoria popular. É conhecido o ditado de que essa planta “afina” o sangue.
Inclusive, vários tipos de chá são feitos com a salsa em certas partes do Brasil exatamente para prevenir a trombose.
Mas, segundo Zingali, se as pesquisas comprovarem a importância funcional da salsa no futuro, um controle rigoroso sobre a produção dessa planta deverá ser feito.
Como qualquer alteração climática muda a composição química da planta -e, por conseqüência, pode alterar sua atividade biológica- o princípio ativo da salsa pode também deixar de ter efeito.
Talvez, neste caso, isolar os compostos da salsa e fazer com eles uns comprimidos possa ser a saída mais rápida.

22/08/2008 - 13:05h Novo “antibiótico” trata doença sem matar bactéria

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Brasileira nos EUA é co-autora de descoberta

 

 

IGOR ZOLNERKEVIC – COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Uma equipe de 15 pesquisadores publica hoje na revista “Science” a descoberta do que promete ser um tipo revolucionário de “antibiótico”. Entre aspas, porque, a rigor, a substância é um antiinfectivo.

“O nosso “antibiótico” não é tóxico para a bactéria”, explica uma das autoras do estudo, a brasileira Vanessa Sperandio, da Universidade do Texas (EUA). Em vez de envenenar bactérias, como todo antibiótico faz, as moléculas do estudo grudam na superfície delas, evitando que percebam que estão dentro de um organismo e que está na hora de atacá-lo.

Algumas bactérias são como cães; atacam quando “farejam o medo”. Elas percebem que estão dentro do corpo de um hospedeiro quando sentem a presença dos hormônios responsáveis pelo estresse, a adrenalina e a noradrenalina, que também controlam a imunidade.

“Já ouviu falar que quando estamos estressados é mais fácil ficarmos doentes? Quanto mais adrenalina e noradrenalina no corpo, mais rápido a bactéria produz suas toxinas ou penetra as células”, diz Sperandio. “Se a bactéria não sente os hormônios, o sistema imunológico consegue se livrar dela tranqüilamente.”

Esse “farejador de hormônios” existe em pelo menos 25 bactérias que atacam humanos. “São todas as bactérias que causam diarréias sanguinolentas”, explica Sperandio.

Ela investiga o mecanismo do “olfato” dessas bactérias desde 1997. Em 2003, Sperandio e seus colaboradores notaram que era possível “entupir o nariz” dos microrganismos com uma molécula apropriada.

Depois de três anos analisando 150 mil moléculas, uma por uma, encontraram a molécula chamada de LED209 -que “enganou” três espécies em laboratório. “Também conseguimos tratar animais -coelhos e camundongos- infectados com pelo menos duas das bactérias que estudamos”, diz.

O fato da LED209 impedir as bactérias de provocarem doenças sem eliminá-las é “um marco importantíssimo”, comenta a microbióloga Roxane Piazza, do Instituto Butantan.

Resistência

Segundo Sperandio, as bactérias resistem hoje a quase todos os antibióticos que existem. Isso por causa da maneira como agem esses remédios. “Suponha que um antibiótico mate 10 bilhões de bactérias do seu corpo, mas dez delas sobrevivam. Essas bactérias resistentes serão a maioria na próxima geração”, explica Sperandio.

“Passamos 40 anos sem fazer progresso em pesquisa de antibióticos, até concluirmos que precisamos usar mecanismos de ação diferentes.”

O LED209 também anima os pesquisadores porque não é tóxico às células de mamíferos. “É promissora para se usar em humanos”, diz Piazza. Ainda falta muito o que fazer, porém, para chegar a um novo remédio. Espera-se obter uma droga segura para testes clínicos em cinco anos. “Aí tem de vir uma indústria farmacêutica grande para tomar o projeto e levar para frente”, diz a brasileira.

20/08/2008 - 19:49h Sangue de laboratório

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Americanos produzem hemácias a partir de células-tronco embrionárias humanas

O Globo

Pela primeira vez, células vermelhas do sangue foram produzidas em laboratório. Cientistas americanos conseguiram desenvolver hemácias de proveta a partir de células-tronco embrionárias humanas. A experiência abre caminho para produzir sangue com facilidade e eliminar a necessidade de doações.
Publicado na revista científica “Blood”, o estudo é o primeiro em que hemácias funcionais são obtidas: as células de laboratório são plenamente capazes de transportar oxigênio.
O trabalho foi realizado por um grupo integrado por cientistas da empresa americana de biotecnologia Advanced Cell Technology (ACT) em parceria com a Clínica Mayo e a Universidade de Illinois.

— Você não teria mais que se preocupar com a falta de sangue para transfusões porque poderia criar quantas precisasse — disse o líder do trabalho, Robert Lanza, diretor científico da ACT.
Lanza tem trabalhos pioneiros em clonagem e células-tronco. Em 2001, o grupo dele produziu os primeiros embriões humanos clonados para a extração de célulastronco embrionárias.
A experiência abre caminho para a produção em massa de hemácias do tipo sangüíneo O negativo, doador universal porque pode ser usado em transfusões para pacientes com qualquer tipo.
Normalmente, esse tipo sangüíneo está em falta — estimase que apenas 8% dos brancos e só 0,3% dos asiáticos o tenham. No entanto, bastariam poucas linhagens de células-tronco embrionárias para desenvolver uma quantidade praticamente ilimitada de hemácias O negativo.
Na experiência, os pesquisadores chegaram a criar 100 bilhões de hemácias.
Outra vantagem é que o sangue de laboratório poderia ajudar a deter a propagação de epidemias. É muito mais fácil garantir que o sangue artificial, obtido de forma controlada, está livre de parasitas, vírus e bactérias.
O grande salto da experiência foi identificar que substâncias fazem as células-tronco embrionárias originarem hemácias. Células-tronco extraídas de embriões de poucos dias podem dar origem a qualquer tipo de tecido humano.
No entanto, o grande mistério é saber como obrigá-las a fazer o tipo de célula almejado.
No estudo da “Blood”, Lanza e seus colegas dizem ter cultivado as células-tronco extraídas de embriões com menos de dez dias num meio de nutriente e fatores de crescimento.
Esses últimos são compostos produzidos pelo próprio organismo humano para estimular as células-tronco a se diferenciar.
Numa primeira fase, os cientistas obtiveram hemangioblastos. Estes são células precursoras das células vermelhas. Os hemangioblastos então foram amadurecidos em laboratório. Um passo crítico foi conseguir que as precursoras das células vermelhas expelissem seu núcleo, pois as hemácias não têm núcleo.

— Muitos especialistas diziam ser impossível.
Por isso, ficamos muito surpresos quando conseguimos — afirmou Lanza à revista britânica científica “New Scientist”.
Testes mostraram que as hemácias artificiais podem transportar oxigênio com eficiência. Porém, mais experiências serão necessárias.

09/08/2008 - 08:09h Anvisa dá alerta sobre bactéria hospitalar

Para a agência, país vive epidemia de infecção por micobactéria; médicos sugerem adiar intervenção que não seja urgente

Desde 2003, foram registrados 2.102 casos em 14 Estados; doença afeta cicatrização de feridas e causa perda de tecidos

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CLÁUDIA COLLUCCI – Folha de São Paulo

DA REPORTAGEM LOCAL

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) disse ontem que o país vive uma “emergência epidemiológica” causada por uma bactéria presente em equipamentos de cirurgia -chamada micobactéria. Há ao menos duas hipóteses para explicar os surtos dessas infecções: sujeira dos aparelhos e resistência da bactéria aos produtos de esterilização.

Nos últimos cinco anos, a micobactéria, uma “prima” da tuberculose, fez 2.102 vítimas em 14 Estados brasileiros, a maioria em hospitais privados. Em São Paulo, foram notificados 43 casos -os últimos em 2004. Neste ano, houve 76 novas ocorrências no Distrito Federal, em Goiás e no Rio Grande do Sul. Duas mortes estão sob investigação no Paraná.

Em razão dessas infecções, que causam perdas de tecidos, nódulos e feridas que não cicatrizam, o governo do Espírito Santo decidiu na última terça suspender as lipoaspirações.

Os infectologistas classificam a situação como “grave” e orientam que as pessoas adiem cirurgias eletivas (que podem esperar), como lipoaspiração e implantes de silicone, até que a situação esteja sob controle.

“A nota da Anvisa é positiva porque alerta as pessoas que vão fazer uma cirurgia que não tenha emergência e que possa ser postergada para que aguardem um tempo até a normalização da situação”, diz a infectologista do hospital Sírio Libanês Beatriz Souza Dias.

O infectologista David Uip também avalia que as pessoas devam adiar cirurgias que não tenham urgência. Ele reforça que os órgãos de vigilância precisam explicar as razões que levaram o país a registrar esse alto número de infecções que, na sua avaliação, seriam evitáveis se houvesse um mecanismo de controle eficaz. “Esse é um processo complicado, que envolve perdas e é prolongado.”

Segundo a Anvisa, as infecções estão “fortemente relacionadas às falhas nos processos de limpeza, desinfecção e esterilização de produtos médicos”.

Na maioria dos serviços de saúde investigados pela agência, os instrumentos cirúrgicos foram submetidos somente ao processo de desinfecção, e não à esterilização, como é preconizado na legislação para a eliminação da bactéria.

Ontem, a Anvisa sugeriu, como medida cautelar, que os hospitais deixem de usar um dos produtos mais empregados na esterilização de equipamentos, o Glutaraldeído a 2%.

Resultados preliminares de um estudo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) mostraram que uma das cepas da bactéria -M. massiliense- envolvida nos surtos apresentou resistência ao produto mesmo após dez horas de exposição. O produto foi eficaz para combater outras duas cepas.

A orientação da Anvisa é que a esterilização seja feita com outros produtos. Para a agência, as infecções pela micobactéria são uma “doença emergente”, que “não tem registro aqui e nem em outros países”.

Outra medida estudada pela Anvisa é limitar o número de videocirurgias (que usam cânulas e câmeras que adentram o corpo do paciente por meio de buracos na pele) feitas por dia em hospitais e clínicas. A medida seria para garantir que haja tempo suficiente para que os equipamentos cirúrgicos sejam adequadamente esterilizados.

EFEITOS

VÍTIMAS TÊM DE FAZER NOVAS CIRURGIAS PARA CORRIGIR CICATRIZES

Muitas vítimas da micobactéria estão tendo de fazer novas cirurgias para retirar tecidos atingidos ou para corrigir cicatrizes, segundo associações de pacientes. Elas também sofrem com os efeitos colaterais do coquetel de antibióticos. Há casos em que a terapia fracassou e outros em que as vítimas correm risco de amputação de membros, especialmente as que tiveram infecções ósseas. Os sintomas da infecção podem surgir até dois anos após a cirurgia. O Ministério da Saúde fornece os remédios usados contra a infecção.

26/06/2008 - 19:52h Que culpa tem o tomate?

Fruta pode ‘sugar’ a salmonela

Mudança de temperatura em lavagem com água fria gera contaminação

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JB Online

Se antes de ser entregue ao supermercado um tomate que passou certo tempo sob o sol escaldante for mergulhado logo em seguida em água fria, ele poderá ser contaminado. A mudança brusca de temperatura pode fazer o tomate literalmente sugar a água através de sua casca. Se, por acaso, esta estiver contaminada com a bactéria salmonela, ela se alojará dentro da fruta e poderá ainda ter tempo para se reproduzir até que a fruta seja consumida. Isto não significa que as pessoas não devam mais lavar os tomates, mas não deveriam fazê-lo usando água gelada.

Enquanto o FDA, agência americana que controla drogas e alimentos, investiga o porque do novo “boom” de casos de contaminação por salmonela presente nos tomates, o exemplo da água gelada mostra que os riscos de contaminação não estão apenas nas fazendas que produzem a fruta.

Vilões

Frutas e vegetais crus são cruciais para uma dieta saudável. Mas também são vistos como réus em uma lista crescente de alimentos que podem ser fontes de contaminação. A nova “epidemia” de salmonela é a 14ª dos EUA, desde 1990.

A prevenção de novos casos depende do conhecimento a respeito de como a salmonela penetra nos tomates, que pareciam ser frutas muito bem protegidas por suas cascas. Há muitos temas em comum a respeito da produção de frutas contaminadas com salmonela – bactérias que vivem nos tratos intestinais de humanos e diversos animais. Fontes de água, trabalhadores sem higiene ou a presença de animais domésticos perto dos campos de produção podem explicar alguns casos de contaminação.

Lavar as frutas em água corrente é um hábito consagrado entre os consumidores.

– Sabemos que, desta forma, podemos eliminar também boa parte da própria salmonela, mas não toda – diz o microbiologista Robert Williams – que acompanhou cientistas da FDA por fazendas da Virgínia, nos EUA.

Suspeita

A água, normalmente, é uma das primeiras suspeitas de contaminação pela bactéria, pois as porções usadas para irrigar a plantação, diluir os pesticidas e lavar os equipamentos que participam da produção e lavar as mãos dos agricultores podem não estar completamente livres de contaminação.

Para se protegerem da salmonela e fazer com que ela seja realmente eliminada – ao invés de sugada pela própria fruta – produtores devem manter a água cerca de 10 graus mais quente que a temperatura ambiente, de acordo com a cientista Keith Schneider, da FDA.

Estudos anteriores nunca haviam mostrado que a salmonela pode ser sugada pelas frutas. A presença da bactéria é difícil de ser evitada em diversas plantações por causa da presença de pássaros, répteis e anfíbios que carregam a salmonela.

O departamento de agricultura da Flórida começará a adotar, a partir de 1º de julho, medidas que visam melhorar os hábitos de produção e transporte de tomates, o que deve padronizar os procedimentos entre os produtores na região. O FDA pretende encaminhar ao Congresso americano sugestões de medidas que tornem as novas recomendações sobre a produção das frutas uma regra a ser seguida a nível nacional.

29/05/2008 - 09:18h Os seres vivos e as máquinas

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Fernando Reinach* – O Estado de São Paulo

Para explicar como funcionam os seres vivos é comum compará-los com máquinas. É fácil explicar como funciona o olho usando a analogia de uma câmera fotográfica ou como funciona o sistema circulatório comparando o coração a uma bomba. O problema é que a utilização dessas analogias criou um solo fértil para um dos argumentos mais utilizados pelos modernos criacionistas. Os defensores do “desenho inteligente”, ressaltando a enorme sofisticação do olho, afirmam que um sistema tão perfeito só pode ter surgido com o auxílio de um ser inteligente. Da mesma maneira que uma máquina fotográfica foi criada pela inteligência humana, um olho, que é tão superior, teria que ser o resultado da ação de um ser superior.

Entretanto, existem diferenças importantes entre as máquinas e os seres vivos. A primeira e mais conhecida é que os seres vivos constroem a si mesmos, como é o caso do desenvolvimento de um ser humano a partir do óvulo fecundado. O homem não foi capaz de construir máquinas com essa capacidade. Que tal encontrar um embrião de carro no porta-malas? Em vez de comprar um carro novo, bastaria esperar que o novo carro prosseguisse no seu processo embriológico até “parir” um carro novinho em folha. Mas há outra propriedade dos seres vivos que os separa definitivamente das máquinas. É a plasticidade de seu desenho funcional. A característica, que havia sido postulada de maneira teórica e detectada em diversos seres vivos, agora foi demonstrada experimentalmente de modo rigoroso.

As máquinas são construídas com uma arquitetura rígida. Imagine o que acontece com um computador se você cortar alguns fios e os conectar ao acaso. É praticamente certo que a máquina deixa de funcionar. Ela é rígida porque foi desenhada com base em princípios por um ser inteligente. Foi para verificar se o mesmo ocorria com seres vivos que os cientistas fizeram 600 alterações distintas nos mecanismos de regulação de uma bactéria, os “fios” que conectam as diversas partes do seu metabolismo. Após cada alteração, os cientistas verificaram se o funcionamento do organismo era prejudicado.

O resultado é surpreendente. A grande maioria das alterações não provoca nenhum efeito no funcionamento da bactéria. Isso demonstra que elas têm um nível de redundância nos seus mecanismos de controle muito grande. É como se você cortasse o tubo que leva gasolina ao motor e descobrisse que o motor continua a funcionar porque tem diversas maneiras de mandar gasolina para os cilindros. Em um computador, seria o equivalente a reconectar ao acaso diversos componentes e descobrir que tudo continua a funcionar como antes.

É essa redundância presente nos seres vivos que permite que evoluam por seleção natural. Isso permite que uma mutação altere parte da “máquina viva” sem matá-la. Se essa alteração levar a uma melhora de seu funcionamento, ela vai sobreviver e o ser vivo terá evoluído. As máquinas, por terem sido desenhadas por um ser inteligente, não têm essa flexibilidade e não podem evoluir por seleção natural. A demonstração experimental em larga escala dessa plasticidade funcional nos seres vivos reforça a idéia que a evolução darwiniana é realmente o mecanismo que está por detrás do surgimento da vida.

*Biólogo – fernando@reinach.com

27/05/2008 - 15:50h Machismo faz mal a saúde… do homem

SAÚDE
Contra o machismo


Governo federal prepara política específica para doenças masculinas. Especialistas apontam preconceito e falta de tempo como os principais fatores alegados para que os homens não adotem medidas de prevenção

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Hércules Barros – Correio Braziliense

Os últimos meses não têm sido fáceis para o taxista Hélio da Silva Barbosa (na arte ao lado), 40 anos. Complicações por conta de uma pedra na vesícula no final do ano obrigaram o morador da Estrutural a ir ao hospital com uma freqüência nunca praticada. A dolorosa experiência resultou em duas cirurgias, três meses de internação e uma lição: “Mais vale a pena perder um dia de serviço para cuidar da saúde do que deixar para procurar o médico só quando a situação piora”, avaliou Hélio.

Ao ser questionado sobre a última vez em que conferiu os níveis de colesterol e glicose, respondeu com naturalidade. “Não faz tanto tempo assim. Foi aos 21 anos, quando eu estava no Exército”, disse. O primeiro e último exame de toque de próstata foi há 17 anos e por acaso, quando procurou um urologista porque estava com hemorróidas. O histórico de falta de prevenção se repete com o irmão do taxista, Lélio Barbosa, 41 anos, e o pai, Luís Fernandes Barbosa, 68, que nunca consultaram um especialista.

No Brasil, 38 milhões de homens entre 25 e 59 anos são como os familiares de Hélio: deixam para procurar o médico somente quando já não agüentam mais. Essa população corresponde ao grosso da faixa etária produtiva do país e representa toda a população da Argentina. Para tentar reverter o quadro, o Ministério da Saúde ouve representantes das áreas de urologia, cardiologia, psiquiatria, gastrologia e pneumologia — especialidades que concentram 72% das doenças mais comuns na população masculina.

O ministério espera receber sugestões de quem está na ponta. “Eles é que vão dizer quais são as necessidades para que a gente possa fazer uma política nacional de atenção à saúde do homem”, ressalta o médico e antropólogo Ricardo Cavalcanti, coordenador do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas da Área Técnica da Saúde do Homem. A medida está prevista para ser lançada em agosto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Se ele não tem tempo de ir ao médico, a gente tem que procurar agir por meio do serviço médico da empresa, nos sindicatos, nas Forças Armadas”, observa.


A distância do preconceito

De acordo com Cavalcanti, falta de tempo e machismo são apontados pelos especialistas como os principais motivos que distanciam a população masculina dos médicos. “Se você disser que vai ser um centro de referência para a saúde do homem, nenhum deles vai. Mas se você fizer a mesma coisa chamando isso de centro para check-up, a palavra vai ter um efeito bem diferente”, ensina. Cavalcanti adiantou que a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) fez uma solicitação para montar o primeiro pólo de atendimento que sirva de modelo para o país. “Eles vão dar o cardiologista, urologista, eletrocardiograma e esteira”, adiantou.

Com a colaboração das universidades, o ministério acredita ser provável que instituições sindicais e até hospitais das Forças Armadas, que já têm atendimento nessas áreas, invistam na especialização. “Qual é o presidente de sindicato que não vai abraçar uma coisa dessas?”, diz.

O encontro com a área de gastroenterologia está marcado para os dias 30 e 31 (sexta-feira e sábado) e com a pneumologia no primeiro fim de semana de junho, mas algumas ações que devem fazer parte da nova política já estão definidas. Segundo Cavalcanti, investir em profissionais do sexo masculino no atendimento aos homens é uma delas. “Qual é o homem que quer deixar o médico fazer um exame de próstata na frente de uma atendente?”, exemplifica. Cavalcanti também adiantou que a pneumologia e a urologia já se prontificaram a dar cursos para os profissionais do Programa Saúde da Família.

Sem recursos

Representante do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) nas discussões, o médico Antônio Carlos de Oliveira acredita que, mesmo com o treinamento, vai demorar para as equipes da Saúde da Família colocarem em prática uma política de atenção à saúde do homem. “Envolve um montante de recursos que os municípios não dispõem”, observa Oliveira, ao lembrar que a Saúde não conta mais com os cerca de R$ 40 bilhões da CPMF. “Se nós otimizarmos as medidas preventivas, a gente diminui as internações e também os gastos gerados por um paciente internado”, rebate Cavalcanti.

No encontro com os cardiologistas, realizado na semana passada, os especialistas pontuaram a necessidade de investimentos em prevenção contra colesterol alto, obesidade e hipertensão. “AVC (acidente vascular cerebral) e infarto do miocárdio são as duas principais causas de mortes de homens nas cidades de médio porte. Tudo por conta de hipertensão não controlada”, destaca o presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Antônio Palandri Chagas.

Ele acredita que a troca de informações entre as áreas e o ministério vai ser fundamental para que a política de atenção ao homem supere a perda da CPMF. “Demora-se muito tempo para criar posicionamentos que influenciem a sociedade. Sem ações estruturadas nas causas das doenças, como tabagismo e alcoolismo, não atingiremos os objetivos da política da saúde do homem”, acrescenta.


“Se você disser que vai ser um centro de referência para a saúde do homem, nenhum deles vai. Mas se você fizer a mesma coisa chamando isso de centro para check-up, a palavra vai ter um efeito bem diferente”. Ricardo Cavalcanti, coordenador do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas da Área Técnica da Saúde do Homem


Preocupações recorrentes

Os dois primeiros encontros para discutir a saúde do homem foram realizados há duas semanas, tratando das áreas de urologia e de psiquiatria. As doenças mais freqüentes ligadas à psiquiatria estão relacionadas a causas externas — conseqüências de acidentes de trânsito e agressões decorrentes de violência, geralmente provocadas por alcoolismo e uso de drogas. “Aqui não há que se combater bactérias nem doença infecciosa. Isso é campo que exige interface com o Ministério da Justiça e o Detran (Departamento de Trânsito)”, afirmou Ricardo Cavalcanti, coordenador do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas da Área Técnica da Saúde do Homem do Ministério da Saúde.

No caso da urologia, a preocupação maior é o câncer de próstata, mas os urologistas destacaram casos como o do Maranhão, onde é muito mais freqüente o câncer de pênis. “É quase uma média de 5 casos (de pênis) para 1 (de próstata)”, ressaltou Cavalcanti. Para o coordenador, a surpresa maior no encontro com os urologistas foi saber que um médico dá o diagnóstico de câncer de próstata e o paciente fica sem ser internado porque os hospitais fixam um teto de internação para as diferentes especialidades como forma de driblar a superlotação. “Isso é um absurdo. A gente não pode deixar uma pessoa com câncer de próstata esperando um ano. Câncer é emergência médica em qualquer parte do mundo”, esbravejou.

Cavalcanti afirmou que o Sistema Único de Saúde gasta, “desnecessariamente”, mais de R$ 5 milhões com vasectomias realizadas em regime hospitalar, pois na maioria dos casos a cirurgia demora 30 minutos e não exige internação. “Se fossem feitas como procedimentos ambulatoriais, a gente economizaria R$ 5 milhões para outras coisas. Em raros casos você pode precisar internar o paciente”, salientou.

A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) aproveitou o encontro com o ministério para reclamar do sucateamento da Saúde no país. De acordo com o urologista Pedro Cortado, diretor da SBU, falta material de endoscopia e endourologia — equipamento que serve para a retirada de cálculo do ureter sem a necessidade de fazer cirurgia aberta. “Muitas vezes é preciso fazer uma cirurgia aberta pois não há material para o procedimento minimamente invasivo, o que permitiria a recuperação muito mais rápida do paciente”, esclareceu. Muitas vezes o tratamento urológico é feito pelo clínico-geral ou cirurgião-geral por falta de especialistas.(HB)

15/05/2008 - 18:31h A arte do queijo em risco

Feito de leite cru em quatro microrregiões mineiras e de acordo com tradição secular, queijo artesanal corre risco de desaparecer

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JANAINA FIDALGO – FOLHA DE SÃO PAULO

ENVIADA ESPECIAL À SERRA DA CANASTRA (MG)

O dia nem bem clareou quando a labuta começa. É preciso levar o rebanho ao estábulo, abastecer os cochos com silagem e ir chamando, pelo nome, vaca por vaca à sala de ordenha.

Aí, vêm os bezerros, que não só atendem pelo nome da mãe como ainda acham a teta certa. Mamam o primeiro jorro de leite do dia, o mesmo líquido rico que há mais de dois séculos é empregado, da maneira como é ordenhado -cru e morno-, na fabricação de um queijo artesanal que, de orgulho mineiro, corre o risco de morrer.

O queijo curado, robusto, feito para aproveitar o excesso de leite e resistir ao sacolejo, no lombo dos burros, pelas serras mineiras, existe ainda hoje e é produzido praticamente da mesma maneira, embora não seja tão fácil encontrá-lo maturado como costumava ser.

“Queijo bom é queijo curado”, ouve-se, a todo momento, de um e de outro. Todos ali, nas regiões produtoras, herdeiros ou não da tradição atribuída aos colonizadores portugueses, guardam alguma relação com o queijo e, ao menor assentimento, discorrem, sem pressa, sobre o tema. Fica mais clara a ligação mineira com o queijo de leite cru quando se descobre que há cerca de 27 mil famílias envolvidas na produção em todo o Estado, segundo a Emater-MG (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural).

“Por que temos a tradição da indústria do laticínio? Porque ela nasceu nessa origem, na produção do queijo artesanal”, diz o historiador José Newton Coelho Meneses, 51, professor da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais e autor do dossiê de instrução do processo de pesquisa feito para o Iphan.

Por queijo artesanal, entende-se aquele feito de leite cru, que expressa a cultura e a tradição de determinadas regiões, e que em nada lembra o difundido “queijo minas”, mirrado e pobre de gosto, produzido com leite pasteurizado, encontrado (e fabricado) de norte a sul.

E não só. Ao leite cru ordenhado hoje, acrescenta-se o “pingo” de ontem -um fermento natural, repleto de bactérias lácticas, colhido do soro drenado dos queijos moldados no dia anterior. É o “pingo” que dá identidade ao queijo, sabor, textura e cor que diferencia um do Serro de um da Canastra; um de Araxá de um do Alto Paranaíba/Cerrado -microrregiões tradicionais e demarcadas pela Emater-MG.

No Serro, o queijo é menor, consumido mais fresco, tem maior acidez, coloração mais clara e consistência macia. Na Canastra, é maior e amarelado, além de ser consumido mais maturado. O do Alto Paranaíba/Cerrado e o de Araxá são parecidos com o da Canastra, porém mais suaves.


A concorrência do leite

Num cenário com tantos produtores, em geral organizados em pequenas propriedades e com produção fundamentada no trabalho familiar, parece improvável que a tradição possa definhar. Mas muitos a têm trocado por outras mais lucrativas e menos trabalhosas, como a venda direta do leite.

Nascido em Vargem Bonita, Antônio Teixeira de Souza, 67, o Antônio da Estelita, como é conhecido em São Roque de Minas, onde vive e trabalha, deixou de fabricar queijo, apesar de ser um dos poucos registrados pelo IMA (Instituto Mineiro de Agropecuária). O órgão fiscaliza se os produtores atendem às exigências da lei estadual, como o uso de água clorada e filtrada, exames de brucelose e tuberculose e normas de higiene, entre outras. “Fui lutando, fiz empréstimo para construir a casinha [queijaria] e arrumá-la conforme a lei. Pelejei, mas não consegui um preço bom”, conta Souza.

O valor recebido pelo quilo do queijo artesanal oscila o ano todo. Na última semana, quando a Folha visitou São Roque de Minas e Medeiros, havia produtores cobrando de R$ 6,30 a R$ 12, de acordo com o tempo de cura e de fatores como a dificuldade de escoar o alimento. É aí que entram em cena os “queijeiros”, como são chamados os atravessadores que levam o queijo, nem sempre em boas condições, para outros Estados. A legislação federal permitir o comércio fora de Minas desde que os queijos passem por entrepostos cifados, onde devem ficar em maturação durante 60 dias.

“É um comércio que não remunera o produtor de forma adequada pelos investimentos que ele tem de fazer para construir a queijaria e se adequar à legislação. Esse é o principal entrave, que se traduz em falta de marketing, de profissionalismo, numa logística defeituosa e até na falta de informação do consumidor. Não tem como melhorar o preço de um produto sem comprovar porque ele vale mais”, avalia o veterinário Gilson Assis Sales, 27, da Aprocan (Associação dos Produtores de Queijo Canastra).

O produtor e presidente da associação, João Carlos Leite, 43, diz que essa é uma tradição secular que tende a acabar.

“Meu tataravô, meu bisavô, meu avô e meu pai faziam queijo artesanal. Dos meus cinco irmãos, só eu faço. Os outros abandonaram, porque é uma atividade que não tem mais rentabilidade. Fiquei porque dá prazer pensar que naquilo vai uma cultura familiar”, diz Leite. “Mas tem uns que dizem que não voltam mais para o queijo. Entre defender uma cultura e dar uma condição de vida melhor para a família, vão escolher a segunda opção.”

Um dos caminhos para valorizar o produto é a indicação geográfica das microrregiões, já que cada uma tem especificidades em razão do clima, da vegetação, da topografia e da flora microbiana do ambiente. O processo está tramitando e deve ser encaminhado, em breve, ao INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial).

“A indicação geográfica fará com que somente os produtores locados na região possam usar o nome dela em seus queijos, o que não acontece hoje. Quase todo o Estado “produz” queijo Canastra”, diz Sales.


Entre a fartura e o orgulho

Não raro a produção do queijo é associada à idéia de fartura, já que nada se perde. Até o soro é usado para a alimentação de porcos e animais domésticos.
“Tem um ditado que fala que, em fazenda que vende leite, até o cachorro é magro”, diz Luciano Carvalho Machado, 43, produtor de Medeiros que há três anos tem o registro do IMA e divide com a mulher, Helena, e os filhos as tarefas do fabrico.

Na propriedade, os queijos levam, em baixo relevo, a marca “LH” -iniciais dos nomes do casal-, que denota certo orgulho. “Acaba sendo uma tradição, você não consegue ficar sem fazer queijo. Ninguém ensina para ninguém. Parece que todo mundo já nasce sabendo.”

A jornalista JANAINA FIDALGO viajou a convite da ONG SerTãoBras

05/05/2008 - 18:25h Salvem os antibióticos

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Coluna Ciencia em Dia

Folha de S.Paulo

A fundação norte-americana Pew Charitable Trusts é conhecida por apostar fundo na produção de conhecimento e ferramentas de análise para resolver problemas contemporâneos e aperfeiçoar políticas públicas. Na semana passada, publicou um relatório duro da comissão que trabalhou dois anos e meio sobre o sistema industrial de produção de carne (bois, porcos e aves). É de tirar o apetite.

O estudo de 124 páginas recebeu o título de “Pondo a Carne na Mesa” e pode ser baixado da página da Pew na internet (www.pewtrusts.org). Vai direto ao ponto: “O sistema atual para produção de alimentos de origem animal nos Estados Unidos não é sustentável e representa um inaceitável nível de risco para a saúde pública e de dano ao ambiente, assim como traz malefício desnecessário aos animais que criamos para comer”.

O relatório lista “n” fatores em apoio a essa conclusão. Um dos preponderantes, que acabou se tornando muito atual, é a dependência da agropecuária americana dos preços baixos do milho, base da ração usada para o animal ganhar peso em confinamento. A demanda pelo grão para produzir álcool combustível está pulverizando essa fonte barata de proteína, justamente no momento em que o preço do petróleo – de onde saem combustíveis para máquinas e matérias-primas para fertilizantes e defensivos – também bate recordes.

No quesito água, o estudo fornece uma informação preocupante: metade do aqüífero Ogallala já foi exaurida. Com mais de 450 mil quilômetros quadrados, o reservatório debaixo dos Estados de Nebraska, Kansas, Colorado, Oklahoma, Novo México e Texas fornece 20% de toda a água usada em irrigação nos EUA. Não demora em acabar, pois está baixando cerca de um metro por ano.

Chocantes, mesmo, são as conclusões na área dos efeitos sobre a saúde pública. Das 12 recomendações do capítulo, metade diz respeito ao abuso de antibióticos na agropecuária. Além de prevenir e tratar infecções nos animais, antibióticos também são empregados como aditivos na ração, para aumentar o ganho de peso.

Quanto mais se usam antibióticos, em humanos ou animais, pior se torna o problema da resistência. A maior parte das bactérias expostas a esses remédios morre. As poucas que tiverem resistência ao composto, porém, ganham uma enorme vantagem competitiva e se reproduzem rapidamente, passando a infectar os organismos sem que o antibiótico em questão possa eliminá-las. Com o tempo, surgem cepas terríveis de micróbios, que deixam os médicos sem ação.

O relatório diz que o fenômeno da resistência já se tornou “epidêmico”. Propõe, por isso, uma medida radical: banir todo uso não-terapêutico de antibióticos na pecuária. Ou seja, essas drogas só poderiam ser empregadas para tratar animais com infecção ou para prevenir infecções naqueles que comprovadamente tenham sido expostos a elas. Quanto ao uso terapêutico, propõe tornar obrigatória a regra de excluir do tratamento de animais aqueles antibióticos classificados como importantes para a saúde humana.

A Suécia baniu os antibióticos não-terapêuticos em 1986. A Dinamarca, em 1998. A União Européia, em 2006. Como resultado, vem diminuindo o reservatório de genes para resistência que poderia armar os germes capazes de atacar humanos (bactérias trocam material genético a torto e a direito).

E você, já ingeriu a sua ração diária de antibióticos?

Escrito por Marcelo Leite

29/04/2008 - 13:18h Vírus comuns ligados ao câncer de pulmão

Broncoscopia; el dibujo muestra un broncoscopio insertado a través de la boca, la tráquea y el bronquio, hasta el pulmón; los ganglios linfáticos a lo largo de la tráquea y los bronquios, y el cáncer en un pulmón. El recuadro muestra al paciente acostado sobre una camilla mientras se le realiza la broncoscopia.

HPV e sarampo facilitariam a evolução da doença

Pesquisadores encontraram evidências que dois tipos comuns de vírus podem estar por trás de alguns casos de câncer de pulmão: o papiloma vírus humano (HPV), já conhecido como a causa do câncer cervical, e o vírus do sarampo. Os resultados, apresentados na Conferência Européia de Câncer de Pulmão, em Genebra, são preliminares. Embora o fumo seja a principal causa do câncer de pulmão, a descoberta pode levar a novas formas de tratamento e prevenção da doença.

Alguns tumores teriam origem viral

O trabalho foi conduzido, em parte, pelo pesquisador Samuel Ariad, do Centro Médico de Soroka, em Beer Sheva, Israel. Samuel e sua equipe analisaram tumores em 65 pacientes.

Eles encontraram proteínas do vírus do sarampo em cerca de metade das amostras coletadas.

Trata-se da primeira evidência que sugere uma ligação entre esse vírus e o câncer de pulmão. O pesquisador israelense já havia publicado estudos ligando o vírus do sarampo com um tipo de câncer linfático.

Por sua vez, a equipe de Arash Rezazadeh, da Universidade de Louisville, no Kentucky, EUA, analisou 23 casos de câncer de pulmão. Em cinco amostras foram encontrado traços genéticos do vírus HPV.

Apesar de os vírus serem associados com câncer de pulmão em pelo menos 20% dos casos, ainda não há evidências diretas que eles sejam a causa da doença. Mas segundo especialistas, a idéia de que vírus possam contribuir para alguns tipos de câncer é bastante plausível.

Há casos conhecidos. Além da ligação entre o HPV e o câncer cervical, infecções crônicas pelos vírus da hepatite B e C contribuem para o câncer do fígado. Já a bactéria Helicobacter pylori tem sido associada com o câncer de estômago.

Recentemente, pesquisadores descobriram seqüências de vírus no genoma das células de um dos mais agressivos tipos de câncer de pele, o chamado carcinoma de Merkel, embora ainda não esteja claro como ou se ele contribui para o surgimento da doença.

Acredita-se também que um vírus semelhante ao que causa câncer de mama em camundongos possa estar ligado ao surgimento do mesmo tipo de câncer em humanos.

— Temos razões suficientes para acreditar que existem alguns tumores com origem viral — salienta Denise Galloway, do Centro de Pesquisas para o Câncer Fred Hutchinson, em Seattle.

Os dois estudos, porém, deixam várias questões em aberto. O grupo de Ariad especula que o vírus do sarampo pode não estar na raiz do surgimento do câncer de pulmão, mas, de alguma forma, facilitaria a evolução da doença.

— O problema é que só temos especulações.

Não podemos injetar o vírus nas pessoas para um teste — diz Dusty Miller, do Centro de Pesquisas para o Câncer Fred Hutchinson.

— Por isso, estabelecer uma real ligação entre vírus e o câncer de pulmão pode levar anos.

Fonte O Globo