01/10/2009 - 11:31h PT: Esforço adicional no primeiro turno

ColunistaMaria Inês Nassif – VALOR

A estratégia eleitoral que vem sendo montada por dirigentes do PT nacional parte de um cálculo que é menos eleitoral e mais institucional: não se trata simplesmente de eleger a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, mas proporcionar a ela, no caso de vitória, mais conforto do que teve o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seus dois mandatos. O menor dos problemas da administração petista foram os governadores – inclusive os dos partidos adversários – e essa experiência não recomendaria despender grandes esforços para eleger preferencialmente candidatos do PT. A maior dificuldade, a formação de maiorias políticas dentro do Congresso Nacional – lá, Lula conseguiu base de apoio instável e sem qualidade. Uma bancada petista maior e mais densa seria o fator de governabilidade que faltou aos governos do partido. Articulações político-eleitorais que partem desses pressupostos podem explicar uma tendência quase suicida de dirigentes nacionais do partido de sacrificar candidaturas petistas com chances de vitória não tão pequenas em alguns Estados.

Dentro desse raciocínio, o primeiro e o segundo turno passam a ter uma importância semelhante na estratégia do partido. Dilma Rousseff tem grandes chances de ir ao segundo turno e polarizar com um candidato de oposição, se conseguir tempo suficiente de propaganda eleitoral de rádio e televisão para se apresentar como a candidata de Lula e se credenciar aos votos “lulistas”. A transferência de votos não é, afinal, propriamente uma impossibilidade quando um presidente da República tem uma aprovação que beira os 80%. Uma aliança grande o suficiente para garantir tempo de propaganda eleitoral de rádio e televisão é importante para isso. Mas, mais do que simplesmente ser uma passagem de Dilma para o segundo turno, o primeiro turno define a composição do Legislativo.

Nessas eleições, são renovados dois terços do Senado, uma quantidade de representantes que pode determinar a maioria na Casa pelos próximos dois mandatos presidenciais. Serão eleitos dois representantes por Estado em outubro do ano que vem. Na Câmara, cujos representantes são escolhidos pelo voto proporcional, conseguir uma grande bancada petista depende necessariamente do desempenho do partido nos Estados com mais representantes – São Paulo, em disparado, que tem 70 dos 513 deputados; Minas, 53; Rio, 46 e Bahia, 39. Nessas quatro unidades da federação, concentram-se também quase metade dos eleitores que votarão no sucessor de Lula: 22,35% deles estão em São Paulo, 10,745% em Minas, 8,6% no Rio e 7% na Bahia, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Por maior que seja o desempenho do PT no Norte e no Nordeste, por conta da popularidade de Lula, não há como viabilizar a candidatura de Dilma sem ao menos dividir os votos dos tucanos nesses Estados. E é impossível eleger uma grande bancada de deputados sem ter um bom desempenho eleitoral neles.

Essa equação complicada envolve a tentativa de dirigentes de intervir fortemente na eleição paulista, se necessário impondo aos postulantes do partido ao governo do Estado a candidatura de Ciro Gomes (PSB) ao Palácio dos Bandeirantes – sim, essa hipótese é ainda a que mais atrai os petistas próximos ao presidente Lula porque se aposta que Ciro rivalize melhor com o PSDB em território serrista, porque ele é um candidato que usará o seu palanque de candidato a governador para atacar Serra candidato a presidente e porque isso manteria o deputado fora da disputa presidencial (como isso depende do domicílio eleitoral, esse assunto se resolve em definitivo até amanhã, quando se encerra o prazo legal para que Ciro transfira seu título de eleitor do Ceará para o Estado).

O PT paulista, assim, pode se tornar o alvo preferencial das interferências dos dirigentes nacionais do partido porque o Estado é o mais cotado contendor do PSDB à Presidência, o governador José Serra; é o mais monolítico reduto tucano – o partido de Serra está no poder estadual há 26 anos – ; tem a maior bancada federal do país; e, por fim, porque o petismo, que nasceu em terras paulistas, está em declínio.

O problema é saber como se comportam os eleitores dos atuais deputados petistas do Estado numa eleição que não estará polarizada entre o PT e o PSDB, e para que lado vão os eleitores dos candidatos a presidente sem a carona de uma polarização estadual. Em 2006, o candidato do PT a presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, teve 36,7% dos votos; a candidata ao governo, Marta Suplicy, não teve muito menos, ficou com 31,6% da votação. Da mesma forma, os candidatos do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, e ao governo do Estado, José Serra, tiveram uma votação parecida no primeiro turno – Serra foi eleito com 57,9% dos votos e 54,4% dos eleitores paulistas ajudaram a levar Alckmin para o segundo turno com Lula. A estrondosa votação tucana ajudou o PSDB a elevar a sua bancada federal – elegeu 18 deputados, contra 11 nas eleições de 2002. O impacto sobre a bancada petista da votação do PSDB, no entanto, não foi drástico: o partido fez 14 deputados federais, contra 18 nas eleições passadas. Em 2002 e 2006, os dois partidos que tiveram melhor desempenho para a Câmara dos Deputados no Estado foram as legendas que polarizaram nas eleições para o governo. Se o partido entrar em cena em favor de Ciro, é duvidoso que carregue a mesma bancada federal.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

E-mail: maria.inesnassif@valor.com.br

17/12/2008 - 11:21h Petistas obstruem venda da Nossa Caixa

César Felício, de São Paulo – VALOR

A Assembléia Legislativa deverá votar hoje o projeto de lei que permite a absorção da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil. A base de sustentação do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), foi surpreendida pela disposição do PT de criar obstáculos para a aprovação da proposta, já que contava que o partido não iria se opor a um projeto do interesse de uma instituição financeira federal.

Coordenador da ação do partido contra o projeto, o deputado estadual Rui Falcão (PT) impediu a votação em plenário ainda ontem ao apresentar uma emenda convocando um referendo popular para tornar definitiva a incorporação do banco popular paulista. A votação foi transferida para hoje, já que o regimento interno obriga a publicação no Diário Oficial de todas as emendas.

Foi uma forma de ganhar tempo para que o Tribunal de Justiça examine um mandado de seguro com pedido liminar para que a tramitação do projeto seja interrompida. Ao impetrar o mandado ontem, Falcão alegou que a incorporação teria que ser feita por emenda constitucional, já que a Constituição do Estado cita nominalmente o banco como agente financeiro do tesouro estadual.

“O PT havia decidido não obstruir. Parece que mudou de idéia. Vou propor que as reuniões do colégio de líderes comecem a ser gravadas e registradas em atas”, ironizou o líder governista na Casa, deputado Barros Munhoz (PSDB). “Nunca existiu acordo”, rebateu Falcão.

O deputado petista levantou razões políticas para o partido se opor ao projeto. “O governador se desfaz do banco, engorda seu caixa de campanha e transfere todo o desgaste possível do fechamento de agências para o Banco do Brasil e para o governo federal. Meu dever é lutar até as últimas consequências para que este crime não se consuma”, afirmou, ao expor sua posição para deputados em reunião conjunta das comissões. Segundo Falcão, o Banco do Brasil não é um braço do governo federal, mas “uma sociedade anônima de direito privado”.

Apesar da resistência petista, somente a ação judicial poderá impedir a aprovação da proposta do governo Serra, que conta com o apoio de 71 dos 94 deputados estaduais. A aprovação na Assembléia Legislativa é o último passo legal para que o banco estadual seja absorvido pelo Banco do Brasil, em uma transação que proporcionará R$ 5,3 bilhões para que Serra possa tentar cumprir sua meta estadual de investimentos.