07/10/2009 - 11:49h As razões do Banco Central e da Fazenda

ColunistaCristiano Romero – VALOR

A relação de desconfiança entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central (BC), que se arrasta no governo Lula desde a saída de Antônio Palocci da equipe econômica, atingiu o ápice na recente divulgação do Relatório de Inflação. É importante conhecer e analisar a essência dessa disputa para saber até que ponto ela pode provocar a ruptura do modelo macroeconômico vigente nos últimos anos. Em outros momentos, como em abril de 2008, o que esteve em jogo foi uma possível mudança no comando do BC e no rumo da economia.

O BC afirma, no Relatório de Inflação, que o desempenho das contas públicas se deteriorou por causa da crise internacional e de uma tendência de expansão dos gastos de “complexa reversão” no futuro. Não está dito explicitamente, mas a referência nesse caso é aos generosos aumentos salariais concedidos ao funcionalismo em plena crise econômica. Apesar da advertência, o documento deixa claro que o efeito dessa deterioração sobre o superávit primário não representa ameaça à solvência do Estado, ou seja, não afeta o processo de redução da relação entre dívida líquida do setor público e Produto Interno Bruto.

Num outro trecho do relatório, ao mencionar o cenário de referência com que trabalha para os próximos trimestres, o BC projeta inflação mais alta no segundo semestre de 2010 e no primeiro de 2011, atribuindo o resultado em parte aos impulsos fiscais que estão sendo dados agora e na primeira metade do ano que vem e, também, ao alívio monetário. Não se trata de nada explosivo. O relatório projeta inflação de 4,4% em 2010, portanto, dentro da meta. A projeção mais alta diz respeito aos dois primeiros trimestres de 2011, quando o IPCA chegaria a 4,6%, recuando no trimestre seguinte para 4,5%.

Em conversa recente com um interlocutor, e isso também está dito no Relatório de Inflação, o presidente do BC, Henrique Meirelles, disse que recebeu a garantia do governo de que as metas fiscais serão cumpridas em 2009 e 2010 – 2% a 2,5% do PIB no primeiro caso (já incluída a possibilidade de abatimento dos investimentos previstos no PPI) e 2,65% a 3,3% no segundo, considerando-se igualmente essas deduções. Recentemente, o governo flexibilizou a meta de 2009. No mercado, desconfia-se do cumprimento da meta de 2010, um ano eleitoral.

No Ministério da Fazenda, acredita-se que o BC quebrou uma relação de confiança que estava sendo construída ao longo da crise internacional. Alega-se que, no momento mais crítico da crise, quando o Comitê de Política Monetária ainda julgava não ser a hora de baixar os juros, a Fazenda apoiou o BC, mesmo sofrendo críticas dentro do governo. “Agora, nós precisamos de apoio”, disse a esta coluna um integrante da Fazenda.

No caso dos aumentos salariais, o secretário de Política Econômica da Fazenda, Nelson Barbosa, se debateu até o fim dentro do governo para que fossem adiados para 2010, mas o presidente tomou decisão diferente. Alguém disse a Lula, evidentemente, que é sempre possível dar um jeito nas contas. A solução foi reduzir o superávit, uma saída politicamente possível na medida em que várias economias estão relaxando nessa área. “Foi uma decisão do presidente, não da Fazenda. Quando ele decidiu não adiar, tornou-se uma decisão de todo o governo”, observou um economista, acrescentando que as críticas do BC enfraquecem o governo no debate macroeconômico.

A equipe da Fazenda está sendo surpreendida pela persistência da queda de arrecadação na crise. Já se sabia que ela ocorreria. Só não se esperava que fosse durar tanto tempo. No segundo trimestre, a economia mostrou que saiu da crise e, no trimestre concluído em setembro, pode ter crescido, segundo estimativas preliminares, algo entre 9% e 10% em termos anualizados. Ainda assim, as receitas não reagiram.

“Se a receita não se recuperar, talvez tenhamos que usar as margens que temos no primário. Achávamos que o primário voltaria ao normal em um ano. Deve voltar em um ano e meio ou dois, mas isso não coloca em risco a solvência. Não quer dizer que não haja uma preocupação com a taxa de crescimento do gasto”, explicou uma fonte da Fazenda, concordando com o argumento mencionado pelo BC. Nos debates internos, Nelson Barbosa, de fato, sempre defendeu a realização de uma nova reforma da Previdência, além da imposição de controles sobre os gastos com o funcionalismo. “Quando discutimos segurar a folha, foi aquele silêncio na Receita, no Tesouro, no Banco Central. O apoio é sempre ensurdecedor, mas, na hora do vamos ver, ninguém ajuda”, desabafou um integrante da equipe.

Os argumentos da Fazenda servem para situar o ambiente de renovada desconfiança com a autoridade monetária, mas é preciso entender que os documentos oficiais do BC são técnicos. Ao coordenar as expectativas, eles não fazem julgamentos, mas também não podem maquiar a realidade, sob pena de a instituição perder credibilidade. É preciso lembrar que, desde a chegada de Lula ao poder, o BC evita comentar abertamente a política fiscal. A boa situação das contas públicas nos últimos anos, por outro lado, facilitou essa abordagem, ao contrário do que está ocorrendo agora.

Nos Estados Unidos, onde o banco central é independente do ponto de vista legal, o Federal Reserve comumente chama a atenção da sociedade para os riscos de desequilíbrio fiscal. No Brasil, a realidade é outra. O BC goza de ampla autonomia, mas a sociedade ainda não lhe deu independência formal. Sendo assim, a Fazenda defende a ideia de que deveria haver maior coordenação entre as duas instâncias de governo, o que definitivamente não há hoje em dia.

O pano de fundo da controvérsia entre BC e Fazenda vai além das disputas político-ideológicas. O problema é institucional e diz respeito à definição, por parte da sociedade, de papéis claros para as entidades que comandam a economia do país. A ironia é que o presidente Lula, ao dar status legal de ministro ao presidente do BC, retirou a instituição da alçada hierárquica da Fazenda. Sem dúvida, foi um avanço, mas, como se viu na mais recente altercação, o modelo não está consolidado.

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

19/07/2009 - 11:03h O risco

O artigo do Estadão procura esconder um fato singelo: com Dilma, continuando o trabalho sério iniciado por Lula com Palocci, a autonomia operacional do Banco Central, as metas de inflação e o prosseguimento da estabilidade é uma garantía aportada não só pela prática deste 7 anos. É a continuidade de uma política econômica responsável e de inclusão social, defendida hoje pela maioria do PT.

Já com Serra, que discorda da autonomia e da política do Banco Central, que é errático na sua política fiscal e tributária com autoritarismos visíveis, é a incerteza. Ele é questionado não só pelos empresários, mas também por uma boa parte dos próprios tucanos fora do eixo São Paulo – SP. Como diz um empresário citado no artigo “O governador diz, não é de hoje, que os juros deveriam ser mais baixos e o dólar, mais valorizado. Ora, todos os países que adotaram essa política tiveram um resultado: inflação.”

O que piora as incertezas do que começa a ser chamado do “risco Serra” é a desconfiança enquanto ao valor dos compromissos que o candidato possa assumir, já que várias vezes tem agido contrariando suas afirmações sobre suas intenções.

Como hoje o Brasil, diferentemente de 2002 exaurido pela política de FHC, está em rota ascendente, o risco de uma virada pode jogar a perder todo o caminho percorrido nestes sete anos. O risco é uma política dirigista e voluntarista na economia combinada com privatizações, assim como o agravamento dos conflitos sociais e com o funcionalismo.

A democracia brasileira e suas instituições são suficientemente fortes e solidas para assegurar, sem qualquer problema, a alternância democrática. Não é isso que está em discussão. O que 2010 irá definir é o rumo do Brasil. As alternativas não devem ser obscurecidas pelo oportunismo eleitoreiro tradicional, que consistirá a apresentar a candidata de Lula, Dilma Rousseff e o candidato tucano José Serra como semelhantes, para beneficiar uma mudança de rumo em favor do campo conservador e que implicará em retrocessos pesados para a população brasileira. LF

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Risco político já influencia juro futuro

Eleição de 2010 e possível troca no BC deixam o investidor cauteloso

Leandro Modé -O Estado SP

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reúne-se terça e quarta-feira para definir o novo nível da taxa básica de juros (Selic), hoje em 9,25% ao ano. Nem analistas nem investidores estão lá muito preocupados com a decisão porque dão como certo um corte de 0,50 ou 0,25 ponto porcentual. A atenção deles está voltada para o futuro.

Pela primeira vez em muito tempo, mercado financeiro e Banco Central estão em lados opostos em relação às perspectivas de médio e longo prazos para a Selic. As explicações para a divergência vão além dos fatores técnicos. Se é verdade que o movimento não é exclusividade brasileira (leia texto nesta página), tampouco se pode negar que o risco político já afeta as expectativas para os juros.

Esse risco se divide em dois. Uma parte está relacionada à sucessão presidencial em 2010, uma vez que os dois principais candidatos, Dilma Rousseff e José Serra, são considerados “heterodoxos” demais pelos investidores. Ou seja, ambos tenderiam a ser menos conservadores na condução das políticas fiscal e monetária. A apreensão de mercado pode até se basear em especulações, mas ela influencia variáveis importantes da economia.

“Seja Serra ou seja Dilma, o fato é que o ministro da Fazenda será Luciano Coutinho (atual presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)”, diz um economista, em tom jocoso. “O (atual ministro Guido) Mantega também é heterodoxo, mas tem uma diferença importante em relação a Coutinho: por ser maleável, segue a linha pragmática de Lula. Coutinho implementaria na prática o que pensa.”

Outro especialista, bastante respeitado pelos seus pares de mercado, centra fogo em Serra. “O governador diz, não é de hoje, que os juros deveriam ser mais baixos e o dólar, mais valorizado. Ora, todos os países que adotaram essa política tiveram um resultado: inflação.”

Outra parte do risco está ligada à indefinição sobre as ambições eleitorais do presidente do BC, Henrique Meirelles. Várias perguntas estão na cabeça dos investidores: Meirelles será ou não candidato ao governo de Goiás? Se sim, quando deixará o BC? Se deixar, quem será o substituto? O substituto terá força para aumentar os juros, caso necessário, levando-se em conta que 2010 é ano eleitoral? Procurado pelo Estado, o presidente do BC não se manifestou.

O próprio Meirelles atraiu os holofotes para a divergência com o mercado ao dizer, terça-feira, que “a curva de juros embute prêmios de risco em relação às projeções de inflação do BC, por exemplo, que talvez não sejam adequados à situação do Brasil”. Em linguagem mais clara, significa que as taxas expressas nas operações do mercado futuro não condizem com as expectativas para a inflação.

O BC já havia feito uma referência ao tema na ata da reunião do Copom de 28 e 29 de abril. Dizia o texto, no parágrafo 23: “O Comitê entende que a melhora do cenário prospectivo para a inflação em 2009 e em 2010 não foi, até o momento, incorporada na estrutura a termo da taxa de juros.” A frase foi retirada da ata da última reunião.

Sexta-feira, os contratos de juros negociados na BM&F projetavam taxa Selic de 8,65% em janeiro de 2010, 9,68% em janeiro de 2011 e 10,91% em janeiro de 2012. Comparadas a uma Selic de 8,75% (aposta majoritária do mercado para o Copom desta semana), as projeções da BM&F embutem uma alta de um ponto porcentual do juro ao longo de 2010.

De outro lado, em uma aparente contradição, as previsões para a inflação seguem dentro da meta de 4,5%. Segundo o mais recente boletim Focus, que resulta de uma pesquisa do BC com uma centena de instituições financeiras e consultorias, a expectativa para o IPCA é de 4,5% em 2009 e 4,40% em 2010. Portanto, ao menos em tese, a Selic entre 8,75% e 9% seria suficiente para manter a inflação na meta.

Essa discussão é relevante porque envolve as taxas de juros cobradas de empresas e cidadãos comuns já no presente. “Quando um banco empresta dinheiro, ele olha para os juros futuros para definir o custo desse crédito”, diz um analista. Juro futuro alto é igual a crédito mais caro no presente.

Outro especialista avalia que o mercado está fazendo muito barulho por nada – e lembra que muitos operadores aproveitam a situação para lucrar. “Não há chance de o Brasil passar em 2010 o que viveu em 2002 (antes da eleição de Lula). Os fundamentos são muito mais sólidos, a começar pelas reservas de quase US$ 210 bilhões, que reduzem a quase zero o risco de disparada do dólar.”

05/06/2009 - 11:00h ”Não vejo por que mudar a política”

Henrique Meirelles: presidente do Banco Central; Meirelles descarta a sugestão para a adoção de uma política que ora se voltaria para o controle da inflação, ora para o câmbio

 

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Beatriz Abreu, BRASÍLIA – O Estado SP

 


A uma semana da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, faz uma defesa enfática da política executada pela instituição, tanto em relação ao sistema de metas de inflação como a opção pelo câmbio flutuante. Essa política, segundo Meirelles, garante o equilíbrio da economia brasileira e está permitindo ao Brasil atravessar e sair da crise financeira mundial em condições mais favoráveis que outros países. “Não vejo, portanto, por que mudar uma política que está dando certo”, disse Meirelles em entrevista à Agência Estado.

Na entrevista – as respostas foram enviadas por e-mail -, Meirelles aborda a sugestão para a adoção de uma “política cambiante”, ou seja, ora mirando o controle da inflação, ora a taxa de câmbio. Ele descarta essa opção. Para o presidente do Banco Central, esse tipo de regime “envolveria maior incerteza” e “mais risco”, o que resultaria na tendência de taxas de juros de mercado mais elevadas. A seguir, principais trechos da entrevista.

O sr. tem afirmado que os capitais que ingressam no País não estão direcionados às operações de arbitragem. Quais são os instrumentos disponíveis para que o banco tenha garantia de que, de fato, esses capitais estão direcionados a investimentos estrangeiros diretos ou ações, por exemplo?

O Banco Central monitora diariamente o fluxo de capitais e tem total controle sobre as informações disponíveis. A sociedade também pode acompanhar esses dados, pois o BC os divulga periodicamente, com toda a transparência. O forte ingresso de capitais está motivando uma discussão na sociedade a propósito da relação entre a taxa de juros e a taxa de câmbio.

O sr. considera que a redução mais forte da taxa Selic pode inibir a desvalorização do dólar?

A política monetária tem apenas um instrumento, a taxa de juros de curto prazo, e, portanto, pode ter apenas um objetivo a cada momento. Pode, por exemplo, buscar o equilíbrio interno ou pode visar o equilíbrio externo. O sistema de metas de inflação visa a assegurar o equilíbrio macroeconômico doméstico através da política monetária, enquanto o equilíbrio externo é obtido por meio da flutuação da taxa de câmbio.

Não existem alternativas?

A alternativa seria usar a política monetária para atingir o equilíbrio externo, com uma taxa de câmbio arbitrariamente definida pelo governo.Vários países usaram esse sistema, concedendo soberania monetária ao país emissor da moeda âncora. Isso recorrentemente causou desequilíbrios no balanço de pagamentos. Uma segunda alternativa seria fixar uma taxa de câmbio móvel que assegurasse a rentabilidade de alguns setores exportadores, deixando em segundo plano o equilíbrio macroeconômico doméstico, em detrimento do bem-estar da maioria da população.

Em recente pronunciamento, o senhor disse que alguns parecem defender um sistema cambiante. O que significa isso?

Alguns parecem propor um tipo de sistema cambiante, onde a política monetária ora visaria o equilíbrio doméstico ora o externo, de forma discricionária e pouco transparente. Como tal regime envolveria maior incerteza, pois não se saberia exatamente qual é o mandato da autoridade monetária, e mais risco, as taxas de juros de mercado tenderiam a ser mais elevadas.Vale notar, também, que a busca do equilíbrio externo por vezes se choca frontalmente com as necessidades da economia doméstica; imaginemos, por exemplo, quanto teria subido a Selic em dezembro se tentássemos estabilizar o câmbio via taxa de juros e quais teriam sido as consequências para a economia brasileira. Não vejo, portanto, por que mudar uma política que está dando certo.

O sistema de metas tem atingido os seus objetivos? A valorização do câmbio não pode significar que está fracassando?

O sistema de metas para a inflação com câmbio flutuante assegurou, ao mesmo tempo, a estabilização da economia brasileira com uma taxa média de crescimento do PIB de quase 5% nos últimos 5 anos (o que deve ser comparado com um crescimento médio de cerca de 2% nas últimas duas décadas até 2003), inflação na trajetória de metas e juros reais cadentes. Ao mesmo tempo equilibrou o setor externo, pois gerou saldos no balanço de pagamentos que permitiram a acumulação de mais de US$ 200 bilhões de reservas. Um sucesso inquestionável de equilíbrio interno e externo.

Quais são os fatores que mais influenciam a taxa de câmbio?

O real tem mostrado uma alta correlação com o preço das commodities e com os índices de aversão ao risco. Quando o preço das commodities sobe, o real se valoriza e vice-versa. Essa correlação já chegou a ser muito alta, de 0,98. A correlação com os índices de aversão ao risco é um pouco mais baixa, mas ainda assim significativa. Além do mais, devemos levar em conta a própria flutuação do dólar frente às principais moedas, o que é uma questão norte americana.

Qual o efeito do fluxo positivo de entrada de capitais?

Ele permite ao Banco Central prosseguir sua política de acumulação de reservas que tantos benefícios tem prestado ao País. Uma análise cuidadosa dos dados divulgados pelo BC é esclarecedora a esse respeito. É importante observar também que uma parte significativa desse fluxo de capitais é constituída por investimentos estrangeiros diretos, vale dizer, são investimentos em máquinas e equipamentos que vão elevar a capacidade produtiva do Brasil. Outra parte dos recursos destina-se à Bolsa de Valores, que é uma fonte importante de capitalização para as empresas brasileiras.

O Brasil está sendo apontado como um dos países que se sairá melhor da crise financeira. Quais são os fatores que sustentam essa avaliação? Não se trata de um otimismo exagerado, sem lastro na realidade?

Esta avaliação é lastreada no fato de que o Brasil é um dos poucos países que estão fortalecendo seus fundamentos macroeconômicos durante a crise, enquanto a maioria dos países sairá da crise mais vulnerável, como resultado das medidas adotadas para superar os problemas. Os fatos são: o Brasil sairá da crise com reservas internacionais maiores do que quando entrou, uma relação dívida pública líquida em comparação com o PIB menor, uma situação monetária equilibrada, um sistema financeiro saudável e competitivo e com as empresas brasileiras com acesso ao mercado de capitais para financiar o seu crescimento. Apesar dos riscos do excesso de euforia, não há dúvida que estamos em posição mais confortável do que diversos outros países para o pós-crise.

05/06/2009 - 10:30h Brasil se distancia do posto de campeão em taxa

Fernando Travaglini, de São Paulo – VALOR

O Brasil não detém mais a liderança no ranking mundial de juros desde a última reunião do Copom, em abril, quando a autoridade monetária reduziu a Selic em um ponto, para 10,25%. O próximo encontro do Comitê, na semana que vem, deve confirmar essa tendência, levar a taxa básica para o patamar histórico de um dígito e afastar ainda mais o país do primeiro posto.

A lista, elaborada pela Uptrend Consultoria Econômica apontava que no início de maio a liderança estava com a China, com juro real de 6,6%, calculado por meio da taxa nominal descontada a inflação projetada para os próximos doze meses. Em segundo lugar aparecia a Hungria, seguida pelo Brasil.

Hoje, a taxa real do Brasil já está na casa dos 5%. Para Tomás Goulart, economista da Modal Asset, o atual ciclo de queda se deve a questões tanto estruturais, como conjunturais – a crise. Mas ele vê “chances razoáveis” de o juro permanecer nos patamares baixos de agora.

Um entrave para novas quedas poderia ser os juros da caderneta de poupança. Para Rogério Oliveira, diretor de pesquisa quantitativa para mercados emergentes do Barclays Capital, já neste ano a poupança passa a ser mais atrativa. “Devemos observar migração”.

Ivan Dumont, diretor de tesouraria do Banco Alfa de investimentos acredita que a redução de 0,75 pontos no próximo Copom já leve a poupança para um ponto perto do chamado “break-even”, mas não acredita em fuga dos investimentos em renda fixa.

Ainda assim, José Marcio Camargo, economista da Opus Gestão de Recursos acredita que o BC não deixará de diminuir os juros por conta de uma eventual competição entre os investimentos. “Cabe ao Banco Central fazer política monetária e ao governo solucionar esse problema”.

Para Jorge Simino, diretor da Fundação Cesp, essa discussão foi tomada de uma urgência que ele não vê necessária. “No meu cenário, que difere do consenso de mercado, a economia irá se recuperar mais fortemente no próximo ano e pode aparecer alguma inflação residual na margem. Não deve ser nada extremamente relevante, mas o BC pode voltar a subir a Selic no próximo ano”. Ele ainda pondera que se o objetivo é evitar que o público saia dos fundos, do ponto de vista lógico, antes de mexer na caderneta deveria estudar uma forma de manter os investidores na renda fixa.

25/05/2009 - 11:19h ”Poupador terá de buscar aplicação de longo prazo”

Entrevista – Gustavo Loyola: ex-presidente do Banco Central; Para o consultor, os aplicadores precisarão aprender a conviver num ambiente com juros civilizados


Leandro Modé – O Estado SP

http://www.interjornal.com.br/fotos/2069937m.jpgO ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Loyola acredita que o Brasil ainda não está preparado para conviver com uma taxa básica de juros estruturalmente menor, basicamente em razão da cultura de taxas estratosféricas desenvolvida nas décadas de inflação muito elevada. Em compensação, não acredita que os problemas existentes representem entrave à tendência de redução. “O que vai acontecer é que, se não forem resolvidas, as dores serão muito maiores, haverá mais sofrimento”, disse ao Estado. Entre os problemas à vista, ele cita a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), a tributação do mercado financeiro, a remuneração dos fundos de pensão e a correção dos depósitos judiciais.

O Brasil está preparado para uma taxa básica estruturalmente mais baixa?

Sim e não. Sim no sentido macroeconômico. Há condições de praticar uma política de juros mais baixos no País. Em outro sentido, não está. Ainda temos gravada em nossas instituições econômicas, nas regras de funcionamento da economia e até nos hábitos e costumes, essa herança dos tempos de alta inflação e de juros nominais também altos. São coisas do passado que precisam ser removidas para que os juros possam, de fato, cair sem maiores traumas. O episódio da poupança é emblemático, mas há outros. Por exemplo, a remuneração da aposentadoria. Outro ponto é a tributação do mercado financeiro, que não está arrumada para juro baixo. As alíquotas foram calculadas para determinados níveis de juro nominal. Quando esse cai, algumas alíquotas ficam proporcionalmente muito mais altas. Serão necessárias adaptações. Há também os compulsórios e o custo administrativo dos bancos.

Do ponto de vista de quem já presidiu o BC, onde o sr. vê as maiores complicações em potencial?

Justamente nessas áreas em que há direcionamento obrigatório de crédito e fixação de juros mínimos. O caso da poupança é um. Temos outros casos, como os depósitos judiciais (corrigidos pela poupança) e os tabelamentos existentes no SFH (Sistema Financeiro da Habitação). Além da questão regulatória, a queda do juro traz um desafio que é remunerar o capital em um ambiente de juros mais baixos. Os poupadores terão de utilizar mais ativamente a estrutura da taxa de juros. Ou seja, buscar aplicações de prazo mais longo para ter maior rentabilidade. Também terão de assumir mais riscos. É um grande desafio para pessoas e gestores.

Essas questões representam entrave à queda maior do juro?

Não. O que vai acontecer é que, se não forem resolvidas, as dores serão muito maiores, haverá mais sofrimento. No caso da poupança, o risco apontado pelo BC foi evitar uma avalanche de recursos de um lugar para outro rapidamente. Isso pode gerar instabilidade no sistema financeiro. Em outros casos, há simplesmente a necessidade de uma mudança de atitudes, estratégias. O fato é que toda essa estrutura do Brasil que tem fixação da taxa de juros tem de ser repensada.

Por exemplo?

A TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), da forma como é fixada hoje, vai ser necessária? O argumento básico da TJLP é que havia necessidade de uma taxa de longo prazo para não ficar à mercê dos juros de curto prazo. Foi uma criação meio artificial porque praticamente não há crédito de longo prazo no Brasil, exceto via BNDES. Com o juro caindo, esse crédito de longo prazo começará a surgir e virá a pergunta: para quê continuar com a TJLP?

As autoridades têm demonstrado estar cientes dessa realidade que está chegando?

Esse debate da poupança chamou a atenção para a questão. O BC teve o mérito de ter levantado o tema. A consciência de que o problema tem de ser visto já existe, mas há uma certa dificuldade em antecipá-lo, o que é típico no Brasil. O lado técnico do governo tem consciência, mas há dificuldade para colocar o tema na agenda política.

Com o juro menor, não vai ficar mais evidente o tamanho do spread bancário no Brasil?

Sim. Mas também é verdade que, se o spread fica proporcionalmente mais gordo com a queda do juro, há possibilidade de o spread cair por causa dos benefícios do juro menor (como alongamentos de prazo de financiamento).

18/05/2009 - 10:21h ‘Regime de metas do Brasil é consistente’

Entrevista: Ex-diretor de pesquisa do BC chileno elogia BC brasileiro e defende conservadorismo da instituição

Leo Pinheiro/Valor

Klaus Schmidt-Hebbel: “Se o BC não tivesse sido conservador, a inflação teria sido muito mais alta e mais variável”

Sergio Lamucci, do Rio – VALOR

Diretor de pesquisa do Banco Central do Chile entre 1996 e 2008, o economista Klaus Schmidt-Hebbel vê com bons olhos a experiência do regime brasileiro de metas de inflação. Ele ressalta a capacidade do Banco Central (BC) de manter sob controle as expectativas inflacionárias, mesmo num cenário de grave crise global. Segundo Schmidt-Hebbel, desde 2006, os desvios no Brasil entre a inflação observada e a meta têm sido menores do que outros 27 países que adotam o sistema, dos quais 8 industrializados e 19 emergentes.

Ele diz que a política conservadora adotada pelo BC brasileiro se justifica porque o regime de metas ainda está numa fase de consolidação, em transição para o nível final de meta inflacionária, que seria mais baixo que os atuais 4,5% perseguidos pela autoridade monetária. “Se o BC não tivesse sido conservador, a inflação teria sido muito mais alta e mais variável.”

No Chile, que tem uma meta de inflação de 3% desde 2001, há mais liberdade para reduzir os juros, afirma Schmidt-Hebbel, professor da Universidade Católica do Chile. Essa diferença é fundamental para explicar, para ele, por que o BC chileno cortou as taxas de 8,25% para 1,25% desde o começo do ano enquanto o BC brasileiro baixou a taxa Selic de 13,75% para 10,25% no período.

Ex-economista-chefe da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Schmidt-Hebbel participou na semana passada do XI Seminário Anual de Metas para a Inflação, promovido pelo Banco Central, no Rio. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: Os países que adotam o regime de metas de inflação se saíram bem no ambiente de crise global?

Klaus Schmidt-Hebbel: A avaliação geral é que sim. Houve um duplo choque na economia global. Até meados de 2008, ocorreu uma forte alta dos preços de matérias primas, que causou muita inflação, acompanhado por um choque de preços de ativos nos países desenvolvidos. Depois, houve a reversão da alta de commodities. Foi um choque deflacionário, seguido por um segundo movimento deflacionário, causado pela recessão global. Os países que adotam o regime de metas se saíram bem. Contra as previsões de muita gente, as expectativas de inflação se mantiveram sob controle. Além disso, o câmbio, em geral flutuante nos países que adotam o regime de metas, funcionou na absorção de choques. Houve desvalorizações significativas no Brasil, em Israel, no Chile, na Colômbia, na Polônia, o que é muito importante para evitar uma queda maior do PIB. Isso estimula exportações e desestimula importações. E, com as expectativas de inflação bem ancoradas, os BCs puderam reduzir os juros, principalmente os países que já têm uma taxa estacionária e baixa. O desenvolvimento do regime tem sido de muito sucesso, no mundo em geral e especialmente no Brasil, quando se analisa o desvio entre a inflação efetiva e a meta.

Valor: Como se saiu o Brasil?

Schmidt-Hebbel: No Brasil, a partir de 2006, os desvios entre a inflação observada e a meta têm sido menores que os registrados por países que adotam o regime de metas, tanto emergentes como industrializados.

Valor: O que explica esse bom resultado?

Schmidt-Hebbel: É consequência de uma condução consistente da política monetária pelo BC brasileiro, que tem mantido as expectativas inflacionárias sob controle. A sensibilidade das expectativas o Brasil em relação ao choque do petróleo tem sido menor do que outros países, como o Chile. Mas eu não conheço em detalhes a formação de preços no Brasil, como a dos derivados do petróleo.

Valor: Os preços da gasolina e óleo diesel são controlados, não seguem as oscilações de curto prazo do petróleo no mercado externo.

Schmidt-Hebbel: É mais um fator que explica por que a inflação observada fica perto da meta. No Chile, os preços refletem a mudança do petróleo depois de uma semana. E eu estou falando do sucesso do Brasil em termos de política monetária e de desvios da inflação em relação à meta. Há outras dimensões que eu não conheço, como a questão do crescimento.

Valor: Muitos economistas brasileiros dizem que a política monetária brasileira é excessivamente conservadora. Como o sr. avalia essa afirmação?

Schmidt-Hebbel: No período de consolidação do regime de metas de inflação, como foram os 10 últimos anos no Brasil, é muito importante ter uma política conservadora. Se o BC não tivesse sido conservador, a inflação teria sido muito mais alta e mais variável. E é importante lembrar que o BC não controla todas as taxas de curto e de longo prazo. Ele só afeta fundamentalmente a parte curta da estrutura a termos da taxa de juros.

Valor: A crise global é uma oportunidade para o Brasil baixar significativamente os juros?

Schmidt-Hebbel: Eu não posso responder a essa pergunta, porque não sou um especialista na conjuntura brasileira. Eu posso falar qual a inferência da experiência internacional para o Brasil. No Chile, o período de transição de metas de inflação do nível de 20% para 3%, atingido em 2001, levou de 10 a 11 anos. Os juros reais médios no Chile ficaram em 6% entre 1990 e 2001. De 2001 para cá, estão entre 4% e 5%. A experiência internacional mostra que a taxa de juros tem que ser moderadamente alta para controlar as expectativas de inflação, de modo que a credibilidade do BC seja forte. Com uma política monetária conservadora, o BC guia as expectativas de inflação para níveis próximos da meta. Uma vez que o BC atinge o seu nível final de meta de inflação, na terminologia técnica chamada de meta estacionária ou fixa, o país pode ter juros mais baixos.

Valor: O BC brasileiro persegue o “índice cheio” de inflação e tem que cumprir a meta no ano calendário. O sr. acha recomendável adotar um núcleo de inflação (que exclua preços de alimentos e energia, por exemplo) e a extensão do horizonte para o cumprimento da meta?

Schmidt-Hebbel: Os poucos países do mundo que tinham uma meta de inflação expressa no núcleo têm mudado para o índice cheio. Esse é o índice que se usa no dia a dia, que é importante para o consumidor médio. Isso não significa que o BC não leve em conta o núcleo.

Valor: E o horizonte de convergência?

Schmidt-Hebbel: Durante a transição até a taxa estacionária, é impossível fazer outra coisa que ter metas para um período preciso, como o ano-calendário. Uma vez que você chega à inflação fixa, estacionária, a inflação de dezembro a dezembro perde importância. O horizonte de política que tipicamente se adota na média dos países com menor inflação é entre um ano e meio e três anos.

Valor: O Brasil está chegando perto de uma taxa estacionária?

Schmidt-Hebbel: A meta de 4,5% não é muito distante de 2%, 3% ou 3,5%, ou do intervalo de 2% e 4%. Qualquer que seja o nível final, não está muito distante para o BC brasileiro. Acho que daqui a poucos anos o BC poderá convergir para o nível estacionário.

Valor: Por que o BC chileno foi tão mais agressivo do que o brasileiro na redução dos juros? Desde janeiro, o BC chileno cortou os juros de 8,25% para 1,25% ao ano, enquanto o brasileiro reduziu a Selic de 13,75% para 10,25% no período.

Schmidt-Hebbel: A diferença é que o Chile tem há oito anos um nível estacionário de taxa de inflação de 3%, com horizonte mais amplo para a convergência do índice de preços para a meta. Isso dá mais flexibilidade para o uso da política monetária, com amplitude maior no uso do instrumento de juros.

Valor: O sr. acha que os BCs devem passar a monitorar também a evolução de preços de ativos como ações e imóveis, além da inflação de bens e serviços?

Schmidt-Hebbel: É uma pergunta para a qual ainda não tenho uma resposta. Até antes da crise, eu achava que não se deveria fazer isso, mas, depois de analisar a situação atual, que foi precedida pela bolha de preços de ativos, acredito que os BCs têm que pensar muito seriamente em compatibilizar objetivos de estabilidade de preços de bens e serviços com objetivos de estabilidade financeira.

12/05/2009 - 11:28h O “fator” Serra

O governador de São Paulo voltou a desancar a atuação do Banco Central. O tucano já tinha manifestado sua oposição à política do Copom meses atrás, questionando incluso a própria independência operacional da instituição. Como ainda falta muito para às eleições presidenciais, o discurso fica só como palavras ao vento e não provoca estragos.

A crítica de Serra ecoa a do vice-presidente José Alencar e a do próprio Lula, lamentando o patamar da taxa Selic. Nenhuma palavra, porem, para saudar o fato que essa taxa é hoje a menor da história.

Mas o que é mais significativo é o silêncio de Serra sobre a postura do seu partido em relação a remuneração da poupança, contraditória com a pretensão de forçar uma brusca queda dos juros (ver artigo de Bresser-Pereira em Bresser-Pereira denuncia a perversa aliança entre grandes rentistas e a classe média de pequenos poupadores). Silêncio que se estende ao fato do país ser saudado, junto com a China, como melhor posicionado perante a crise. Entre outras coisas, como disse o prêmio nobel de economia Joseph Stiglitz, por ainda ter margem para abaixar os juros, diferentemente da Europa e os EUA que esgotaram esta possibilidade para irrigar a economia.

Imaginem só o que teria acontecido se no momento da brusca contração do crédito que atingiu o mercado e nas semanas seguintes, o BC tivesse abaixado bruscamente a taxa Selic. O país teria combinado uma massiva fuga de capitais que ainda hoje estariam receosos para voltar, com um recrudescimento da inflação alimentada pelo vigor do mercado de consumo vitaminado pela política econômica do governo federal. Seguramente a medida teria alimentado o setor industrial voltado para o consumo interno, mas seu efeito teria sido de curta duração e os famosos “fundamentos” ficariam a meio-termo comprometidos.

Vale lembrar que os tucanos também questionaram na época a política de crescimento das Reservas cambiais praticadas pelo BC, Reservas que junto com os fundamentos sadios da economia, permitiu que a crise ficasse contida no país.

O que diferencia, porem, a voz de Serra, do coro generalizado em favor da taxas de juros ainda menores -eu sou a favor de juros bem mais baixos, a Fiesp e José Dirceu também, até Meirelles deve ser favorável- é o intervencionismo que ele apregoa. A piada com a que Vinicius Torres começa seu artigo hoje (ver mais embaixo) é significativa do risco pressentido pelo “ativismo” errático de Serra.

Na verdade, nenhuma visão coerente da economia está por trás das injunções de Serra. A crítica procura esconder com linguajar mais a esquerda, a política centralmente de centro-direita que o governador prática e defende. O mesmo acontece com o apoio verbal que ele prodiga à política social do governo Lula, duramente atacada pelos demo-tucanos durante todos estes anos. Trata-se de uma simples tentativa de se apossar do discurso alheio.

No que concerne a realidade, e não o discurso, a postura do governador está retratada na sua oposição ao programa habitacional do governo federal, na sua recusa em desonerar o setor da construção, no seu descaso com a remuneração da Polícia, dos professores ou do pessoal da saúde. Na sua persistente arrogância e autoritarismo no trato de qualquer reivindicação social no Estado. Ela está presente também, na sua política de privatizações, de desmonte do Estado e no seu desprezo pela política de recuperação salarial dos servidores públicos praticada pelo governo federal.

Luis Favre

12/05/2009 - 10:41h Serra: ”BC tem conhecimento insuficiente da economia”

Em nova crítica à autoridade monetária, governador diz que País perdeu momento perfeito para cortar juro

Leandro Modé – O Estado SP

Crítico de longa data da política de juros adotada no Brasil, o governador de São Paulo, José Serra, fez ontem mais um duro ataque ao Banco Central (BC) comandado por Henrique Meirelles. Para ele, a instituição tem “conhecimento insuficiente” da economia brasileira.

“No auge da crise, (o BC) desperdiçou um momento que era perfeito para resolver um impasse estrutural antigo”, afirmou, referindo-se à alta taxa brasileira (Selic), atualmente em 10,25% ao ano. “O ideal seria o BC ter reduzido excepcionalmente, de uma vez só, sem pré-aviso, a Selic em 3 ou 4 pontos porcentuais.”

Na avaliação de Serra, esse “equívoco” está na origem da atual enxurrada de dólares no País, que levou o BC a comprar a moeda americana no mercado à vista ontem e sexta-feira. Desde setembro, a autoridade monetária não fazia esse tipo de intervenção.

Ontem, o dólar caiu 0,44% e fechou cotado por R$ 2,059, menor valor desde 3 de outubro do ano passado. No acumulado de 2009, o real tem ganhos de 13,4% ante a moeda americana.

Analistas de mercado financeiro identificaram nas últimas semanas um forte fluxo de recursos de investidores estrangeiros para o Brasil. O governador paulista e outros economistas considerados “heterodoxos” atribuem a reversão da trajetória cambial à especulação.

São investidores que tomam dinheiro emprestado em países com juros baixos para aplicá-los em outros, com taxas significativamente mais altas.

Por exemplo: um aplicador levanta dinheiro nos Estados Unidos, onde o juro está perto de zero, e coloca no Brasil, que paga 10,25% ao ano (em termos brutos, sem considerar o pagamento de impostos). No jargão do mercado, esse movimento é chamado de carry-trade.

Quando o banco de investimentos americano Lehman Brothers quebrou, no dia 15 de setembro do ano passado, a taxa Selic estava em 13,75% ao ano. A concordata da instituição acelerou e aprofundou a crise econômica global, que já se formava. O nível do juro básico foi mantido pelo BC até janeiro, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) o cortou em um ponto, para 12,75%.

Para Serra, o BC cometeu “um erro de política econômica” ao não reduzir antes a Selic. “(O BC) tem um conhecimento insuficiente da economia e seus modelos partem de demasiadas suposições não muito realistas”, atacou. “Não tenho interpretação maligna a propósito desses equívocos. Mas nem por isso deixam de ser equívocos.”

O governador avalia que baixar o juro hoje é mais delicado do que no fim de 2008, porque a economia global começa a dar sinais de recuperação. “O momento para dar a virada, a meu ver, passou, mas isso não significa que devemos ficar passivos”, disse. Por isso, defendeu que o BC reduza a Selic em ao menos um ponto porcentual na próxima reunião do Copom, que ocorrerá nos dias 9 e 10 de junho.

12/05/2009 - 09:46h BCs estão otimistas com Brasil

Presidentes fizeram na Suíça o encontro mais ”otimista em um ano”

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Andrei Netto – O Estado SP

Os países emergentes, com China e Brasil à frente, foram os destaques da reunião bimestral dos presidentes de bancos centrais, encerrada ontem, na sede do Banco de Compensações Internacionais (BIS), em Basileia, na Suíça. O encontro, descrito como “o mais otimista em um ano”, sobre o futuro do crescimento mundial, foi marcado pelos elogios aos dois países, que já teriam superado o “ponto de inflexão” da crise econômica.

As constatações foram feitas por diferentes autoridades monetárias que participaram das reuniões de domingo e ontem e confirmadas pelo presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles. Para os banqueiros, o estado da economia mundial ainda inspira cuidados, mas os chamados “sinais antecipados” – indicadores econômicos parciais – da China e do Brasil despertaram o clima positivo nas análises.

O primeiro a ressaltar que a economia global pode estar iniciando o período pós-crise foi Jean-Claude Trichet, presidente do BC Europeu (BCE). Falando na condição de presidente do comitê de autoridades monetárias do BIS, ele afirmou que há um consenso de que a crise começa a ser revertida.

“No que se refere ao crescimento, estamos próximos do ponto de inflexão”, disse, referindo-se à queda do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre de 2008 e no primeiro trimestre deste ano. “Em alguns casos, já se vê a retomada; em outros, a queda continua, mas em ritmo mais lento.”

Indagado sobre a situação de países emergentes, como China e Brasil, Trichet argumentou que, como de praxe, não comentaria a situação específica de nenhum país, mas a seguir afirmou: “Eu diria, sobre o conjunto das economias emergentes, que algumas estão muito perto do ponto de inflexão e outras já estão além do ponto de inflexão”. Ele lembrou ainda que esses países já haviam provado a grande capacidade de resistir à crise.

O presidente do BC saudita, Mohammed al-Khaser, confirmou que os elogios feitos aos países emergentes no BIS se referiam à China, ao Brasil, à Índia e ao seu próprio país. “Esses são os países emergentes que já começaram a inverter a curva do crescimento do PIB”, afirmou al-Khaser. “Foi a reunião mais otimista em um ano.”

MEIRELLES CONCORDA

Henrique Meirelles confirmou a avaliação positiva das autoridades monetárias sobre Brasil e China, mas ressaltou que o momento ainda é de incertezas. “Não há dúvidas de que há sinais de que as economias dos países industrializados começam a desacelerar as quedas e o ponto de inflexão pode estar chegando”, disse, resumindo o teor das discussões no BIS. “Brasil e China são considerados os grandes sinais de que o mundo pode estar se aproximando da inflexão.”

Meirelles não quis mencionar os sinais da tendência de aquecimento da economia brasileira, mas acabou citando o consumo de energia e a venda de veículos. “O que foi enfatizado (aqui) é que o Brasil dá sinais antecipados, na margem (desempenho de um mês ante o mês anterior), mas ainda não são dados consolidados.”

Quatro medidas adotadas por Brasília após o início da crise teriam sido avaliadas positivamente pelas autoridades monetárias: empréstimos de reservas para empresas privadas, que totalizam até aqui US$ 23 bilhões; liberação de depósitos compulsórios para pequenos e médios bancos; redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos automóveis; e a injeção de US$ 33 bilhões pelo BC no mercado de derivativos (contratos de swap). “Esses foram casos de sucesso analisados pelos presidentes de BCs”, disse Meirelles.

04/05/2009 - 11:11h Economistas contestam validade das previsões do FMI para o Brasil

O FMI projetou contração de 1,5% para o PIB do Brasil neste ano. A dispersão das expectativas neste momento é a mais alta da série histórica apurada pelo Banco Central (BC). O presidente do BC, Henrique Meirelles, acredita que a recuperação deve começar neste trimestre.

Valor: Já ultrapassamos o pior momento da crise?

Delfim Netto: O FMI não é bom para fazer projeções. Nunca foi, e menos ainda na gestão Strauss-Kahn. O relatório do FMI sobre a economia mundial para 2008/2009 ainda falava de um mundo estupendo, sendo que os sinais de desaceleração mundo afora já estavam colocados. As projeções do FMI não valem nada.

Valor: Mas qual é sua projeção?

Delfim: É impossível prever o que vai acontecer. O comportamento da economia é cíclico, embora o ciclo atual seja diferente. Há uma quebra de confiança e esse é o risco. O Brasil tem um ritmo de decréscimo menor. O Meirelles provavelmente não está muito errado. No quarto trimestre já veremos a economia levantando. Poderíamos estar melhor se o BC tivesse utilizado a musculatura que tem para reagir com mais rapidez.

Valor: De que forma?

Delfim: O BC podia ter dado mais conforto ao sistema bancário. O primeiro erro foi quanto ao capital subordinado. O BC poderia ter dado garantias aos bancos, completando o que faltasse às empresas nos vencimentos dos empréstimos. O segundo erro foi no fornecimento de funding aos bancos. O BC errou ainda ao inaugurar uma nova teoria, segundo a qual, banco grande é melhor que pequeno e banco público é melhor que banco privado.

Samuel Pessoa: Estou relativamente otimista com o desempenho da atividade. O choque externo não nos desorganizou. O estrago que a inovação provocou no sistema financeiro mundial não chegou aqui. As estatísticas até meados do terceiro trimestre mostram cenário de desaceleração, mas sem desorganizar o sistema de trocas. Os preços das commodities agrícolas em 2008 subiram muito com a especulação. E a queda, por causa da crise, colocou os preços no nível de 2006, que já era alto. As exportações já começam a reagir. O emprego também não mostra um desastre.

Valor: O sr. concorda com as previsões do FMI?

Pessoa: Os números do FMI são inconsistentes. É difícil olhar para o PIB ano a ano, é melhor olhar para uma média de três anos. Se o PIB for muito ruim em 2009, será muito bom em 2010. Se cair os 1,3% do FMI, então, vai crescer 4,5% em 2010 porque a base será muito baixa. Não faz sentido essa previsão do FMI de que o Brasil vai crescer muito pouco dois anos seguidos. Na época da bonança internacional, crescemos 6%. Sem a ajuda do exterior, voltamos para a média de 4% e não de algo como 0,8% que o Fundo espera.

Candido Bracher: O crescimento neste ano pode ficar próximo do número do FMI. Se crescermos zero já vai ser bom. O importante é que esta é a primeira vez que o país pode reagir, numa crise, com redução dos juros. Nas outras crises, a dependência externa fez com que a primeira preocupação fosse a atração de capitais externos. O país reagia aumentando os juros. Essa reação criava uma dificuldade adicional para as empresas, que já precisavam lidar com a retração do mercado externo. O cenário de hoje lembra muito 2003, quando viemos de uma forte elevação do dólar e de queda da atividade. Uma série de empresas e setores estava endividada e enfrentou queda de lucratividade. Dois ou três anos depois, as empresas e os setores já estavam reequilibrados, lucrativos, muito bem financeiramente. Naquele momento saímos da crise engatados no crescimento internacional, mas tínhamos juros muito mais elevados. Hoje, nossas taxas de juros são muito menores.

Valor: O sr. acha possível sair mais rapidamente da crise?

Bracher:
Vamos sair bem da crise, mas isso não quer dizer que sairemos rapidamente. Já está se formando um consenso no mercado de que as coisas pararam de piorar. Ninguém mais espera que esta seja uma recessão em V e nem mesmo em U. Teremos uma recuperação muito lenta. E não será gradativa porque haverá volatilidade.

Valor: Já há colocação de dívida por parte das empresas?

Bracher: Sim. O Itaú-BBA liderou esse retorno. Tivemos a colocação de US$ 200 milhões da Odebrecht por cinco anos e de US$ 750 milhões da Telemar por dez anos. Li no Valor a notícia da emissão do JBS.

Valor: Um dos componentes da crise é a postergação e o cancelamento de investimentos. O país estava em um dos mais longos ciclos de investimento de sua história recente e isso foi abortado. Isso afeta a capacidade de crescer no futuro?

Delfim: Nos grandes projetos de infraestrutura, não há queda. O BNDES tem feito um acompanhamento e não há queda nessa área, mas em bens de capital, sim. Os projetos só vão voltar quando tiver demanda. Estávamos muito bem porque foi a crença no crescimento do produto que despertou o espírito animal do empresário e fez elevar o nível dos investimentos nos últimos três anos. Mas o investimento público está crescendo muito, e ele é vital para recapturar o ânimo dos investidores privados. As obras do PAC continuam em bom ritmo e há o estímulo do programa de construção de moradias que deve crescer bastante, o que obviamente aumenta o consumo de produtos de toda a natureza na escala das obras civis e cria as condições de expansão da demanda.

Pessoa: Devemos ter uma retomada da demanda no princípio de 2010. No começo, a recuperação da economia vai se dar com ocupação da capacidade ociosa. Pela primeira vez, em muito tempo, não teremos risco de oferta. Será um ano tipicamente keynesiano. Hoje, temos vários seguros. Nos últimos cinco anos, nossos termos de troca estiveram equilibrados quando olhamos exportações, importações e destinos.

Delfim: Fui a Maringá (PR) e lá não há crise na soja, na cana, no açúcar, porque o câmbio corrigiu o efeito da queda dos preços das commodities.

Bracher: Algumas das nossas ineficiências se tornaram virtudes. A situação lembra um conto do Jorge Amado (Os velhos marinheiros), em que um sujeito que não sabia navegar assume um barco. Como ele não tem a mínima ideia do que fazer, usa todas as amarras para prender o barco e vira alvo de gozação dos marinheiros. Durante a noite, vem uma tremenda tempestade e no dia seguinte só sobra o barco dele no cais. O Brasil tem uma taxa de compulsório sobre depósito à vista de 50%, quando o mundo tem 10%; tínhamos juros reais de quase 10% ao ano, quando o mundo tinha zero, 2%, 3%, 4%. Essas ineficiências permitiram irrigar o mercado de liquidez e permitiram um alcance à política monetária que outros países não puderam ter porque já tinham juros próximos de zero. A pequena participação das exportações no PIB, de 15%, nos tornou menos sensíveis à retração externo.

05/04/2009 - 10:59h ”Queda do juro é para toda a economia”

http://www.revistafator.com.br/imagens/fotos/henrique_meirelles

 

 

Ricardo Grinbaum e Leandro Modé – O Estado SP

 


O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, tem um recado para a sociedade que, à primeira vista, pode soar estranho: a redução da taxa de juros pode incomodar. “Não podemos ter queda para empréstimos e, ao mesmo tempo, dizer que não pode haver queda em alguns investimentos”, diz. “A queda dos juros no Brasil, em ocorrendo, tem de premiar toda a economia.” Em outras palavras, o mundo de rentabilidades altas sem muito esforço ficará na lembrança se os juros continuarem a cair fortemente, como indicam hoje os mercados futuros e as projeções de analistas. Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o BC avisou que a remuneração da caderneta de poupança – TR mais 6% ao ano – é um empecilho à derrubada da taxa básica (Selic). Meirelles conversou com o Estado na sede do BC em São Paulo.

A última ata do Copom apontou que a poupança é um limitador para a queda dos juros. Como mexer em tema tão sagrado para o brasileiro comum?

Em primeiro lugar, temos de separar o que é o pequeno poupador, que não tem conhecimento do mercado financeiro, dos grandes investidores. A segunda questão é que a sociedade brasileira está aguardando por muitos anos uma queda dos juros. Temos de ser consistentes com a queda dos juros. Não podemos ter uma queda para empréstimos e, ao mesmo tempo, dizer que não pode haver queda em alguns investimentos. A queda dos juros no Brasil, em ocorrendo, tem de premiar toda a economia.

É possível preservar o pequeno poupador e mexer com o grande?

Não há, ainda, nenhuma decisão tomada.

Mexer na TR (taxa referencial, usada no cálculo da remuneração da caderneta de poupança) é uma possibilidade?

Pode ser uma solução, dependendo da evolução no longo prazo. A longo prazo, temos um limite que é o rendimento real de 6%. Essa é uma questão que, cedo ou tarde, terá de ser encaminhada.

O brasileiro está preparado para conviver com uma rentabilidade de suas aplicações bem mais baixa do que até agora?

Esse é o desafio. Espero que daqui a pouco o BC não comece a ser criticado por manter juro muito baixo. Uma das coisas que muitas vezes algumas pessoas não gostam que se diga, mas é realidade: é a primeira vez em décadas que o BC pode, numa crise, baixar os juros para estimular a economia. Não temos mais de estar preocupados com vulnerabilidades. É um ganho do processo de estabilização da economia.

Que fatores permitiram isso?

Em primeiro lugar, uma inflação consistente com a trajetória de metas nos últimos anos. Em segundo, a diminuição da relação dívida pública/PIB. Em terceiro, acumulação de reservas, que eliminou a vulnerabilidade cambial. Em consequência disso, o País se tornou credor líquido, o que permitiu ao Tesouro ter ganhos fiscais com a desvalorização do real.

Desses quatro fatores, três estão diretamente ligados à atuação do BC. Por que, então, o BC é tão criticado no Brasil?

Não sei. Talvez seja um fenômeno de comunicação. Não sinto essa crítica conversando com as pessoas nos restaurantes, nas ruas, nos aeroportos. Sinto hoje um reconhecimento muito grande da população. O que acho que existe são setores da liderança empresarial e políticos que elegem o combate aos juros como algo que seja um tema desejável e constante. A verdade é que assumimos com uma Selic a 25% e hoje está em 11,25%.

Preocupa a volta da inflação quando o País voltar a crescer?

A inflação, com política monetária mal conduzida, pode voltar em qualquer país a qualquer momento.

Por que demorou tanto para o juro cair no Brasil?

Se olharmos o que caiu nos últimos anos, não foi uma queda tão lenta. Foi uma velocidade razoável. Saímos de 14% (em termos reais) em 2003 para 5% hoje. É uma queda rápida. O fato de ter demorado tanto tempo até iniciar esse processo de queda está relacionado aos antigos fatores de vulnerabilidade da economia.

O BC tem manifestado preocupação com o spread bancário. Os bancos dizem que não dá para baixar o spread (diferença entre o que os bancos pagam para captar recursos e o juro cobrado do cliente) sem reduzir impostos. Têm razão ou é choradeira?

O aumento de spreads foi mundial, principalmente a partir do episódio Lehman Brothers. Há uma série de componentes, como o aumento do risco. Acredito que, com as medidas já tomadas, devemos voltar aos níveis em que estávamos antes de iniciar esse processo. A partir daí, podemos discutir questões estruturais.

O spread brasileiro é o mais alto do mundo porque o juro brasileiro é o mais alto do mundo?

Não. Tivemos no período recente quedas da Selic com aumento forte dos spreads. Os fatores são outros e muitos serão encaminhados.

O cadastro positivo (banco de dados de bons pagadores que poderia ser usado por todos os bancos e lojas) enfrenta resistência no Congresso. De quem?

Há diversas resistências, algumas explícitas, como das associações de defesa do consumidor. Isso foi negociado, explicado e está diminuindo. Há outras resistências. O relevante é a consciência de que o cadastro positivo hoje é importante, o que fará com que seja aprovado num futuro próximo.

Os bancos estão ajudando ou estão resistindo?

Não acompanho o dia a dia do Congresso para dar uma resposta precisa sobre isso. Os presidentes de bancos com quem converso me asseguram que são favoráveis.

Nos últimos anos, houve um enorme aumento da concentração bancária. É um problema?

Existem países que têm um número pequeno de instituições financeiras, que são muito competitivas. É isso que precisamos criar no Brasil. Portanto, bancos públicos, bancos pequenos e médios crescendo, cadastro positivo, mais transparência, tudo isso ajuda.

Falta competição ao sistema financeiro nacional?

Não gosto de frases definitivas. Acho que existe uma boa competitividade no sistema financeiro nacional, mas temos uma realidade de spreads elevados. Portanto, aumentar essa competitividade via bancos pequenos e médios, cadastro positivo e uma ação mais forte do mercado é algo saudável para o País.

No pior momento da crise, houve risco de quebra de banco aqui?

Não houve risco no sentido de que o BC, naquele momento, colocou disponível ao mercado bancário o mecanismo do redesconto. Além do que, tínhamos R$ 260 bilhões em compulsórios. Se o BC não tivesse sido autorizado pelo Congresso e pelo presidente a fazer o redesconto, se não tivéssemos os compulsórios, poderíamos ter tido uma crise sistêmica.

O sr. trabalhou muitos anos nos EUA. Como teria lidado se estivesse à frente de um banco quando os produtos que provocaram a crise eram oferecidos no mercado?

Não fiz e não teria feito. Sempre achei essas operações muito arriscadas. Nunca concordei e mais: até aquele momento, achava que era algo peculiar meu por ter vivido em um país que tinha tido tantas crises. Isso mostra que crises financeiras não são peculiaridade de emergentes. Excesso de risco leva a excesso de perda. Uma das conclusões, hoje, é que a regulação deve ser diferente.

O que está na origem dessa crise?

Na última década, a globalização, a tecnologia e a deflação chinesa de produtos exportados permitiu que a política monetária americana fosse acomodatícia e sinalizou que os juros continuariam baixos. Isso levou os tomadores de empréstimos a assumir riscos partindo do pressuposto de que não havia risco macroeconômico. Isso mostrou não ser real. Esse tipo de política monetária foi uma lição que não deverá continuar.

O ano começou ruim, como tem mostrado a produção industrial. Como imagina que terminará?

Nossa previsão de crescimento é de 1,2% para o ano. Em relação à produção industrial, é importante notar que o processo de desestocagem foi liderado pela indústria automobilística, que já está em forte recuperação. Em seguida, bens duráveis, que também já estão em recuperação forte. Mas foi seguido por outras partes da cadeia produtiva. A partir do segundo trimestre, teremos uma visão mais clara, que mostrará a recuperação.

O que esse 1,2% representa ao longo do ano?

Certamente um país em expansão no fim do ano. O crescimento começará a ficar claro no segundo trimestre. Infelizmente, o PIB do segundo trimestre só será conhecido em setembro. Mas alguns dados setoriais serão conhecidos antes disso.

O Brasil pode ter recessão técnica antes desse crescimento?

Não fazemos previsão de PIB trimestral. Dito isso, se ocorrer, será um dado significativo que não muda esse quadro, pois temos um carry-over (carregamento) negativo importante considerando-se a queda no quarto trimestre, muito concentrada em dezembro.

Os números vão piorar antes de melhorar?

Não acredito que piorem. O vale foi de fato no quarto trimestre do ano passado.

A que o sr. atribui a queda tão violenta da economia?

Foi uma conjugação de fatores. Em primeiro lugar, o que de fato não era previsível foi a quebra do (banco) Lehman Brothers. A partir daí, houve uma paralisação – temporária, mas aguda – do sistema financeiro internacional, que atingiu o mundo todo. O crédito global foi dramaticamente reduzido. Isso levou a uma reação em cadeia das corporações globais, que tomaram decisões de redução de estoques e de centralização de caixa. Isso gerou, juntamente com o efeito dos mercados, um processo global de desestocagem sincronizada. Houve efeitos em cadeia em todos os países.

Muitos criticam o BC por não ter reduzido o juro em dezembro.

As avaliações que temos são de que o movimento do BC foi bem-sucedido. O que influencia de fato a atividade econômica é a taxa de juros de mercado. A mensagem e a decisão do BC (em dezembro) fizeram as taxas do mercado a termo caírem a partir daquele momento. Evidentemente, também pesou o decréscimo da atividade, mas o que prevaleceu foi a confiança em que o BC estava no controle do processo e não tomaria nenhuma medida que pusesse em risco a estabilidade dos preços. O fato concreto é que temos hoje a menor taxa de juros reais da história.

Daria para evitar essa forte queda da economia brasileira?

Quem disser que previa a queda do Lehman Brothers não está dizendo a verdade. Portanto, ter tomado medidas partindo do pressuposto de que o Lehman ia quebrar seria muito arriscado. O movimento foi extraordinariamente sincronizado no mundo por causa da globalização financeira, do comércio e do processo de tomada de decisões. Portanto, em alguns momentos, querer se descolar do mundo, como fizemos no passado, pode ter consequências graves e negativas. Podemos substituir uma crise externa de curta duração por uma interna de longa duração. O Brasil está na direção certa.

O que o atrai na vida pública? A vida de executivo de banco não era mais confortável?

Não há dúvida de que a vida de um executivo do mercado internacional oferece vantagens importantes do ponto de vista de tranquilidade pessoal. De outro lado, administrando um banco que tinha presença em 32 países e acompanhando esses países muito tempo, tinha ansiedade grande de poder aplicar tudo isso que vi acontecer no Brasil. Nesse aspecto, me sinto gratificado.

Muitas reportagens ao longo dos anos diziam que o sr. ia cair…

Há uma falta de hábito de muitas pessoas de ter um BC comprometido com a estabilidade de preços. Depois de décadas de desequilíbrio financeiro, é um processo que causa estranheza muitas vezes. Mas os resultados estão aí.

Se depender da sua vontade, o sr. deixa o BC em 31 de dezembro de 2010?

Vamos aguardar. Agora, estou focado no BC.

30/03/2009 - 10:53h Resposta à crise não pode ser recuo

O artigo de Gustavo Loyola convida a uma importante reflexão e merece ser lido com atenção. Tendo a concordar em linha gerais com sua argumentação. Particularmente em relação a questão da autonomia operacional do BC.

Esta questão é muito importante, particularmente agora em que os tucanos parecem inclinados a questionar esta independencia. Declarações de Sergio Guerra, presidente do PSDB, e do seu virtual candidato a presidência, José Serra, têm mostrado uma vontade de mexer com esta regra que o presidente Lula soube manter. LF

Gustavo Loyola – VALOR

O Brasil sofre com a crise econômica internacional e, sem dúvida, medidas devem ser adotadas pelo governo para mitigar seus efeitos sobre a economia do país. Contudo, a resposta necessária à crise não pode levar a recuos na política macroeconômica, como pretendem alguns integrantes da administração Lula.

A boa performance da economia brasileira nos últimos foi ajudada pelas condições favoráveis da economia internacional. No entanto, não fosse a prática de uma política macroeconômica responsável em suas linhas gerais, muito provavelmente o Brasil não teria obtido os bons resultados no que diz respeito ao crescimento econômico e à geração de empregos. Nesse particular, foram indispensáveis o regime de metas para a inflação, o câmbio flutuante e a manutenção de robustos superávits fiscais primários. Quaisquer ações anticrise que conduzam a retrocessos nessas áreas serão contraproducentes e somente atrapalharão a retomada do crescimento econômico sustentado nos próximos anos. Do mesmo modo, retrocessos no campo microeconômico também seriam lamentáveis.

Por exemplo, a condução da política monetária tem sido alvo de frequentes ataques, a ponto de uma facção do PT ligada a um ministro de Lula defender publicamente o fim da autonomia operacional do Banco Central. Isso sem contar os petardos desferidos de dentro de órgãos do próprio governo, como o Ipea “sob nova direção”. Mesmo ignorando os ataques tipicamente oportunistas, que antecipam uma eventual futura mudança na direção do BC, é flagrante a confusão mental que leva à conclusão de que o Brasil pode se safar da crise apenas com um choque de juros patrocinado pela autoridade monetária. Nada mais ilusório.

Há de fato espaço para a queda dos juros e o BC vem se aproveitando disso. Não obstante essa folga, é necessário atentar para a necessidade de preservação da credibilidade da política monetária, o que implica manter-se o BC dentro dos limites estreitos do regime de metas para inflação. O uso contracíclico da taxa de juros, desse modo, deve observar sempre o balanço de riscos entre a inflação e a atividade econômica de modo a evitar a volatilidade excessiva do PIB que poderia vir a ser causada por uma política tipo “stop-and-go”.

Nunca é demais ressaltar que a manutenção da autonomia operacional do BC é de fundamental importância para o país num momento de retração dos fluxos de capitais internacionais e de aumento de aversão ao risco nos mercados financeiros. O ideal, aliás, seria o Brasil avançar institucionalmente, dando ao BC uma autonomia de direito, por meio de instrumento legal atribuindo mandatos fixos à diretoria da instituição. Mas, no mínimo, não se deveria atentar contra a credibilidade do BC conquistada a duras penas na última década.

Ainda com relação ao BC, sua política de regulação bancária deve ficar insulada de pressões que buscam, a qualquer custo, elevar “na marra” a oferta de crédito no país. Estão circulando ideias dentro do governo que já se mostraram muito danosas no passado. Entre as frequentes más ideias, estão as que recomendam a limitação dos “spreads” bancários, o direcionamento obrigatório do crédito e a criação de condições regulatórias especiais para que os bancos públicos possam atuar mais livremente na oferta de crédito.

Quanto à política fiscal, a rigidez da despesa pública, por força dos gastos obrigatórios por lei, agravada pela sua grande expansão a partir de 2003, tira o espaço para o aumento dos investimentos públicos, o que seria recomendável para sustentar a demanda agregada nesse momento. Na presença de queda de arrecadação, o governo tem que ser cauteloso na execução de programas fiscais de estímulo, devendo buscar aqueles que apresentem maior potencial de impacto sobre a atividade econômica. Até o momento, felizmente, o governo não renunciou formalmente à manutenção de superávits primários robustos nos próximos anos, mas a pressão nesse sentido se intensifica com demandas setoriais que, em muitos casos, pouco têm a ver com a crise conjuntural.

Aliás, no campo fiscal, um dos equívocos frequentes é a redução temporária de impostos, como ocorreu com o IPI incidente sobre a produção de veículos. Esse tipo de medida, além de discriminatória, não tem o condão de aumentar a demanda, mas apenas antecipa o consumo que seria de qualquer modo realizado no futuro. Havendo espaço fiscal, o correto seria, no Brasil, buscar-se uma menor carga tributária, por meio de quedas de tributos que beneficiam a economia como um todo, e não apenas setores eleitos pelo poder do príncipe.

Outro exemplo dos tiros a esmo que o governo vem dando no enfrentamento da crise encontra-se no aumento das parcelas do seguro-desemprego para trabalhadores de determinados setores, supostamente mais afetados pela retração econômica. Além do seu caráter fortemente discriminatório – afinal de contas nenhum trabalhador tem “culpa” de ter sido demitido por uma empresa de um setor “não atingido pela crise” – a medida em si pouco contribui para mitigar os efeitos da retração da economia, ao contrário, estimula ainda mais a rotatividade da mão-de-obra.

Por sua vez, com relação à política creditícia, o uso dos bancos oficiais não deve ultrapassar os limites da prudência, cuidado que parece não haver no discurso agressivo de algumas autoridades que consideram razoável que as instituições oficiais de crédito persigam uma política de expansão de crédito e de redução de margens financeiras num ambiente de maiores riscos de inadimplência. Ademais, pelo que se observa até aqui, a atuação dessas instituições, mormente do BNDES, privilegia certos setores em detrimento de outros, por razões que não estão muito claras. Vale dizer, a propósito, que as grandes órfãs da crise até aqui são as pequenas e médias empresas, as maiores afetadas pela contração do crédito verificada a partir de setembro último.

Em suma, embora em linhas gerais o governo tenha até aqui mais acertado do que errado nas suas respostas à crise, vemos ideias perigosas sendo ventiladas dentro da própria administração. Não apenas isso sinaliza falta de comando na área econômica, como também prejudica os esforços de contenção da crise, ao criar desnecessariamente incertezas entre os agentes econômicos.

Gustavo Loyola, doutor em economia pela EPGE/FGV, ex-presidente do Banco Central, é sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada, em São Paulo. Escreve mensalmente às segundas-feiras. gloyola@tendencias.com.br

30/03/2009 - 10:20h ”2009 ainda não está perdido”

Delfim Netto: ex-ministro da Fazenda; para ele, retomada depende de o governo restaurar o ‘espírito animal’ do empresário, o que depende da melhora do crédito

 

Leandro Modé – O Estado SP

 


O ex-ministro da Fazenda Delfim Netto acredita que ainda é possível “salvar” 2009. “O primeiro trimestre está perdido, mas o ano, não. 2009 será o que formos capazes de fazer dele”, disse ao Estado, em seu escritório no Pacaembu, bairro nobre de São Paulo. Para ele, isso passa pelo restabelecimento do crédito bancário, por mais investimento público e, principalmente, pela “cooptação” do setor privado. “É preciso trazer de volta o espírito animal do empresário, que hoje, com razão, está assustado.”

Por que a situação econômica do Brasil piorou tanto, contrariando as previsões dos analistas?

Se você olhar um gráfico, fica claro o que aconteceu. A atividade cai a partir do dia 16 de setembro de 2008 (um dia depois da quebra do banco Lehman Brothers). Quem importou a crise? O setor bancário brasileiro. No dia 17 de setembro, não tinha financiamento para mais ninguém, nem para os bancos. Este é o ponto central. Enquanto não se restabelecer o financiamento interbancário, não vai acontecer nada. Não adianta dizer que o investimento público vai sustentar. É preciso cooptar de volta o setor privado para manter o investimento. O Banco Central tinha musculatura – US$ 200 bilhões de reservas mais US$ 30 bilhões do Fed (o BC americano) – para dizer para o sistema bancário: ?Vem que tem.? Mas o Banco Central entrou em um processo muito complicado. Aqui vale acrescentar: ele (BC) tinha razões para temer ações mais enérgicas. Hoje, no Brasil, a administração pública é prisioneira de duas instituições terríveis. Uma é o Ministério Público, que é necessário, fundamental, mas, por ora, está atrás dos 15 segundos de glória que a TV Globo pode dar para cada um deles (promotores). O outro é o Tribunal de Contas, que está em busca do poder que perdeu. O BC, por isso, não se empenhou.

Mas o crédito não voltou?

A gente se engana. O crédito está crescendo? Claro, o sujeito está renovado a mesma linha, mas com juro maior. O que há de engano estatístico é uma coisa gloriosa. Não está melhorando. Não adianta conversar com dois banqueiros juntos. Eles sempre mentem. Um sozinho chora.

O sr. é conhecido como interlocutor do presidente Lula.

Isso é história. De vez em quando, ele me honra com um convite. Vou lá e conversamos sobre o Corinthians.

Quando encontram uma brecha para falar de economia, deixando o futebol de lado, o que diz a ele?

Não tenho dito nada para ele, pois o presidente tem uma intuição clara. O Lula sabe de economia tudo o que um economista precisa saber. Salário de 20 e despesa de 19, há uma possibilidade de felicidade. Salário de 19 com despesa de 20, ?sifu?. As pessoas podem dizer o que quiserem, mas a política fiscal é responsável.

Como melhorar a conjuntura?

Acelerando o PAC. Mas é preciso entender que, mesmo que esse esforço tenha sucesso total, não tem potência para elevar o nível do PIB. O PIB só vai cair muito menos do que cairia sem ele. Ou vai subir um pouco mais do que subiria sem ele. O que precisa, mesmo, é cooptar o setor privado. É preciso trazer de volta o espírito animal do empresário, que hoje, com razão, está assustado.

Elevar o investimento público não põe em risco o equilíbrio fiscal?

Ninguém está propondo que o governo entre em déficits, aumente a relação dívida/PIB. Propomos que o governo invista em infraestrutura porque isso vai aumentar a produtividade futura do setor privado.

Vai ter recessão este ano?

O primeiro trimestre está perdido, mas 2009 não. O ano será o que formos capazes de fazer dele. O Morgan Stanley prevê queda do PIB de 4,5%. É uma idiotice total. Eles estão supondo que se trata de um país dirigido por autistas, que vão assistir ao mundo pegar fogo. Outros dizem que vai crescer 1,5%. Se tudo ficar zero, realmente dá menos 1,5%. O que vai ser dependerá da nossa capacidade de fazer o que deve ser feito. Mas, por melhor que seja a ação, não podemos esperar um resultado muito maior do que 1,5%, 2%.

O resumo, então, é o governo investir mais e o BC agir para destravar o crédito.

Usar seu cacife. O BC não tem usado esse cacife não só porque tenha sido lento, mas porque há limitações burocráticas. Precisa acelerar o investimento público, mas o mais importante é cooptar o setor privado. Para isso, é preciso soltar o crédito interbancário.

O sr. já vê o fim da crise?

É muito difícil, porque não tem nenhuma experiência histórica. Se a gente pudesse usar a experiência anterior, acho que, uma vez iniciado o processo – em setembro -, há dois a três trimestres de queda. Depois, leva uns quatro trimestres para voltar ao nível anterior. São, portanto, 18, 20 meses.

Então na eleição de 2010…

Se isso valer, a eleição do ano que vem ocorrerá num momento de recuperação. Não estaremos rodando (o PIB) a 5%, 6%. Estaremos a 2,5%, 3%.

10/07/2008 - 20:01h O espectro da caixa registradora

Latin America’s economies

The ghost at the till

Jul 10th 2008 | SANTIAGO AND SÃO PAULO
From The Economist print edition

Bitter experience has made Latin Americans intolerant of inflation. But have their policymakers banished this spectre?

Illustration by Peter Schrank

UNLIKE the developed world, Latin America has been barely touched so far by the credit crunch. Many of its economies are still growing fast, helped by demand for their commodity exports. But the commodity boom has started to have a less desirable effect: soaring food and fuel prices are pushing inflation up across the region. This has become a test of credibility for Latin America’s new-found economic stability, and for its central banks. Some of the more important ones have responded more robustly than many of their Asian peers—even if claims that Brazil’s hawkish Central Bank is “the new Bundesbank” require a pinch of salt.

The regional average inflation rate rose to 7.5% in April, from 5.2% a year before, according to the IMF. This is an underestimate, since Argentina’s official inflation figure of 9.1% is probably less than half the true rate. It also conceals a divide. Around the turn of the decade, several of the larger countries adopted floating exchange rates, and inflation targets administered by more-or-less independent central banks. Another group of countries—including Argentina and Venezuela—have given greater priority to growth than to price stability. But even among the first group, inflation has been rising. In response, central banks in Chile, Colombia, Mexico and Peru began to raise interest rates last year. Even so, they have missed their inflation targets, in most cases for the first time (see chart).

 To howls of protest, Brazil’s Central Bank halted three years of monetary easing last October. Since then it has raised rates by a percentage point. Even so, inflation is nearing the upper limit of the target of 4.5% plus-or-minus two percentage points. Two things that have helped to contain price rises in Brazil for the past few years—cheap goods from the rest of the world and a strengthening currency to buy them with—have now run their course, notes Marcelo Carvalho of Morgan Stanley, an investment bank.

After initially grumbling that higher rates were making the real too strong for Brazilian industries to compete, the finance ministry is now supporting the bank’s efforts. In June it tightened fiscal policy, raising its target for the primary surplus (ie, before debt payments) from 3.8% of GDP to 4.3%. The authorities are optimistic that inflation will be falling by the end of the year. But ordinary Brazilians are alarmed by the rise in the cost of a staple basket of food—up by as much as 50% in some parts of the country, according to DIEESE, a union-linked research body.

Brazil’s economy, along with those of Peru and Colombia, has been expanding at a faster rate than its underlying potential. But core inflation (stripping out food and fuel) has picked up in both Chile and Mexico despite sluggish growth, points out Alfredo Thorne, the chief Latin American economist at JPMorgan Chase, a bank. Mexico’s central bank is trying to steer a delicate path: it has raised rates but says that its aim is to get inflation back on target by the end of next year. With an important congressional election due next year, the government has stepped in to impose a price freeze on some staples. However, this month it raised the price of petrol.

Chile was once considered to have the best-managed Latin American economy. Its reputation has taken the biggest knock. The inflation rate has been rising for more than a year, reaching 9.5% in June. But the economy expanded by only about 3% in the first half of this year—the lowest rate since 2002. The authorities have some excuses. Chile imports nearly all of its oil. It subsidises fuel products a bit less than some of its neighbours: the fuel subsidy (ie, the difference between domestic and world prices) is likely to amount to around $500m this year, says a Chilean official. That contrasts with $1.2 billion in Peru and $19 billion in Mexico.

Nevertheless, some economists reckon that Chile’s Central Bank has made things worse by zigzagging between worries about growth and inflation. Earlier this year it tried to halt the appreciation of the peso because of concerns this was curbing exports. Then in June it raised its benchmark rate by half a percentage point; it is expected to tighten again this week.

Given how tricky it is proving to control inflation, central bankers should probably have raised rates earlier. But finance officials could also do more to help. Fiscal spending in Latin America is very pro-cyclical, points out Santiago Levy, the chief economist at the Inter-American Development Bank. Research by the bank found that in the seven largest economies, on average governments have spent rather than saved 80% of the extra revenues they have derived from the commodity boom since 2002. Even in Chile, which saves most of the windfall, fiscal policy is expansionary, with public spending growing at double the speed of the economy.

The test will be whether or not inflation is heading down by the end of this year. If it is not, more drastic action will be required, which might make a big dent in economic growth. The wiser among the region’s politicians know that, costly though it may be, the fight against inflation is one they cannot afford to lose. Already, price rises threaten to tip several million Latin Americans back into poverty. Brazil’s president, Luiz Inácio Lula da Silva, though a man of the left, has given strong backing to the Central Bank’s bitter medicine. Inflation is a “degrading disease”, he says. It is a malady that long debilitated Latin America. That is why the region is relatively intolerant of it now.

11/06/2008 - 13:23h Delfim ainda crê em expansão acima de 5%

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Para ex-ministro, alta do PIB deve aproximar-se dos 5,4% de 2007 e aumento do superávit primário pode reduzir gasto público no 2º trimestre

Ricardo Leopoldo – O Estado de São Paulo

O ex-ministro da Fazenda Delfim Netto afirmou ao Estado que é possível ocorrer uma redução do consumo do governo no segundo trimestre, por causa da decisão do Poder Executivo de elevar o superávit primário de 3,8% para 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. No primeiro trimestre, tais despesas subiram 5,8% em relação aos três meses correspondentes de 2007. “Os gastos públicos subiram no começo do ano. Mas, se o governo cumprir a promessa de elevar o superávit primário, tal medida deve baixar o ritmo das despesas no curto prazo”, comentou.

Ao analisar os dados divulgados pelo IBGE sobre as contas nacionais, Delfim Netto ponderou que o atual ritmo de atividade deve levar o País a crescer pouco acima de 5% neste ano, o que não ficaria distante da alta de 5,4% do PIB de 2007. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) avançou 15,2% no primeiro trimestre ante o mesmo período de 2007 e apresenta expansão, na mesma base de comparação, pelo 17º trimestre seguido. No último trimestre de 2007, os investimentos subiram 16% em relação ao mesmo período de 2006.

Com ironia, Delfim ponderou que a atual dinâmica de evolução do PIB “pode deixar o Copom um pouco mais preocupado”, mas isso não deveria tornar a política monetária ainda mais restritiva. “Há uma pressão inflacionária, existe uma mudança de preços relativos muito importante, especialmente porque está havendo uma alta forte dos preços do petróleo sobre todos os setores. Há também as conseqüências (sobre os índices de preços) das privatizações malfeitas que corrigiram as tarifas de serviços públicos por IGPs. Nesse contexto, o BC tem um pouco de razão para se assustar (com a inflação).”

Mas, para o ex-ministro da Fazenda, se o Banco Central acreditar que o governo vai elevar o superávit primário de 3,8% para 4,3% do PIB, então o BC pode “ter um ataque de lucidez” e ser menos agressivo na condução da política monetária no decorrer do ano. De acordo com a pesquisa Focus, o Copom deverá elevar a Selic neste ano em mais 1,75 ponto porcentual, pois a taxa deverá chegar a 14% em dezembro. Embora não estime a quanto devem chegar os juros básicos no fim do ano, ele avalia que o BC não precisará aumentar a magnitude das elevações das taxas para 0,75 ponto porcentual.

Para Delfim, o aumento do superávit primário ajuda o BC “a não precisar fazer uma tragédia” na condução da política monetária. Na avaliação do ex-ministro, o governo deveria elevar a poupança do Orçamento, sem levar em consideração os gastos com juros, para pelo menos 4,5% do PIB, o que reduziria a demanda interna de 0,9 a 1 ponto porcentual. De acordo com MCM Consultores, a demanda doméstica subiu 8,7% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2007, taxa ainda superior à alta de 8,3% do quarto trimestre do ano passado ante os mesmos três meses de 2006.

30/05/2008 - 12:34h Meirelles diz ao PT que política monetária é ‘de esquerda’

Para presidente do BC, política monetária frouxa é ‘política de direita’

Ricardo Gandour, João Bosco Rabelo e Beatriz Abreu, BRASÍLIA

  Henrique Meirelles; clic para aumentar

O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, definiu sua política monetária como “de esquerda” a uma delegação do PT que o procurou ontem para municiar-se de argumentos capazes de responder aos questionamentos de suas bases eleitorais quanto ao aumento das taxas de juros. Meirelles se inspirou em pronunciamento do senador Jefferson Peres (PDT-AM), recentemente falecido, no qual afirmou que “política monetária frouxa é política monetária de direita, porque corrói o salário do trabalhador”. Segundo o presidente do BC, os dados de aumento de consumo da família brasileira e a transferência de parte das classes D e E para a classe C, mostram que a inflação foi derrotada pela política monetária aplicada, com efeito direto e positivo na renda do povo.

Os parlamentares assistiram a uma exposição minuciosa do momento econômico do País, com dados que explicam o comportamento do BC criticado pelo mercado e pela própria base aliada do governo Lula. Ele retrocedeu aos anos 70, do primeiro choque dos preços do petróleo aos dias de hoje, para explicar erros e acertos de países que reagiram de formas diferentes às crises mundiais.

Nesse contexto, mencionou que as políticas monetárias mais duras e os ajustes mais amargos que recuperaram economias em crise foram aplicadas por governos de esquerda, citando os governos de Jimmy Carter, nos EUA, de Tony Blair, na Inglaterra, e de Felipe González, na Espanha. A defesa da política adotada pelo BC a integrantes da bancada do PT ocorreu horas antes de a Fitch Ratings anunciar que reconhece o Brasil como porto seguro para investidores, confirmando a elevação do País ao grau de investimento. O chamado “investment grade” foi dado primeiramente pela Standard&Poor’s e pela canadense DBRS.

Os parlamentares – que estão visitando vários ministros – foram buscar no Banco Central “informações e argumentos” para melhor se comunicar com suas bases, que cobram explicações sobre a volta da alta do juro. Meirelles explicou aos parlamentares as ações do BC e disse que o País enfrenta “uma encruzilhada”: ou aumenta os juros ou vê a inflação voltar. Foi nesse momento da conversa que o presidente do BC deu uma estocada no PT, que sempre criticou a alta dos juros como estratégia de combate à inflação.

“Historicamente, são os governos de esquerda que mais querem segurar a inflação”, disse Meirelles, segundo um dos participantes do encontro. Meirelles foi questionado por petistas que queriam saber se a intenção da equipe econômica era mexer no câmbio. Respondeu que não. O presidente do BC defendeu o câmbio flutuante sob o argumento de que “o mercado se ajusta”. Mais: garantiu que está fazendo, desde 2003, o que precisa ser feito, apesar da resistência do governo e do PT. “A reunião foi boa para ele e excelente para o PT. Ele conseguiu quebrar resistências no partido, que, a partir de agora está preparado para defender a política econômica do governo”, disse o deputado Geraldo Magella (PT-DF).

18/04/2008 - 07:10h Direto da fonte

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Sonia Racy – O Estado de São Paulo

sonia.racy@grupoestado.com.br

O BC na era Lula

O presidente Lula – o mercado financeiro não tem mais dúvidas – tem deixado, e vai continuar deixando, que o Banco Central trabalhe de maneira independente, sem interferências externas. A decisão do Copom na noite de quarta-feira, aumentando os juros em meio ponto porcentual, é prova cabal disso. O BC, ao se decidir por um aumento maior da taxa de juros, resolveu seguir Maquiavel e fazer o mal todo de uma vez, apesar de o comunicado do Copom sugerir que poderão vir “outras doses do mesmo mal”…

Já José Serra – e aí os mercados tampouco têm dúvidas – custa a acreditar em funcionamento livre dos mercados de capitais. Tanto assim que, segundo um conhecido banqueiro, ele sequer levou em conta a avaliação – feita pelos investidores interessados na compra da Cesp -, de que o preço mínimo pedido pelo Estado era alto demais. E assim, pagaram todos pelo fracasso do leilão: a ação da Cesp, que estava cotada a R$ 45,00 no dia antes do leilão, está hoje em R$ 25,00.

Com poucas perspectivas de se recuperar no curto prazo.

04/04/2008 - 03:54h Em defesa da cautela

VALOR 

O Ministério da Fazenda aposta numa acomodação da inflação e do crescimento nos próximos meses e defende uma “cautela não tempestiva” no debate sobre se o Comitê de Política Monetária (Copom) deve ou não, na próxima reunião, dia 16, aumentar a taxa básica de juros. Acha que o Copom deveria novamente manter a taxa em 11,25% ao ano e deixar para a próxima reunião, dia 4 de junho, uma eventual decisão de elevar a Selic. No decorrer desses 48 dias, vários indicadores de conjuntura seriam conhecidos, ajudando o Banco Central a ter melhores condições de avaliar para onde estão indo a inflação, o crescimento interno e externo, os preços das commodities, dentre outros indicadores. O quadro agora ainda é de muitas incertezas.

Segundo dados divulgados ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o nível de utilização da capacidade instalada da indústria (Nuci) diminuiu em fevereiro, de 83,1% para 82,9%, indicando maturação de investimentos. Isso afastaria os riscos de pressões inflacionárias. A avaliação do secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, é de que nos próximos dois meses os dados vão fortalecer os argumentos dos que acham que não há excesso de demanda. “A capacidade instalada vai se estabilizar num nível mais alto”, espera ele.

“As incertezas sobre o cenário externo e interno recomendam cautela. Uma redução pode estimular ainda mais o crescimento da demanda agregada, enquanto que uma elevação pode estimular uma valorização excessiva e temporária do real”, escreveu Barbosa num texto levado na semana passada a um debate na FGV/SP, em defesa da precaução. Ele sustenta que a inflação vai se desacelerar naturalmente, sobretudo pela reversão dos preços dos dos alimentos que, no segundo semestre, caem para o patamar de 5% a 6% ao ano, em comparação com os atuais 11%.

Uma das grandes preocupações do governo é com os efeitos do aumento dos juros na taxa de câmbio agora, quando o superávit virou déficit em conta corrente. Nos últimos anos, o principal canal de transmissão da política monetária para o controle da inflação foi via taxa de câmbio, depois expectativas e, por último, demanda, dizem os economistas da Fazenda. Como o câmbio tende a parar de se valorizar, não virá daí a contribuição para manter a inflação na meta. Economistas de bancos privados estão revendo a projeção da taxa de câmbio. Fala-se que o dólar poderá custar, no fim deste ano, uns R$ 2,00. Uma desvalorização que teria impacto na inflação, mas que seria possível acomodar no intervalo da meta, asseguram fontes da Fazenda, lembrando que o centro da meta é 4,5%, mas há um intervalo de tolerância de dois pontos percentuais, para acomodar eventuais choques.

Para corroborar com o argumento da cautela, esses economistas citam que apesar do aumento do consumo de bens duráveis, os preços industriais caíram. O grupo de TV, som e informática teve deflação de 9,8% em 12 meses terminados em janeiro; o de mobiliário e eletrodomésticos teve deflação de 1,4%; e nos veículos, a inflação foi de 2,5% , abaixo da meta.

Meta de 4,5% de IPCA é centro, não é o teto

O discurso da precaução, porém, contradiz, de certa forma, o sentido de urgência que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, colocou na necessidade de se frear o consumo, quando cogitou da redução dos prazos do crediário. A pressa de Mantega decorreria, explicou fonte oficial, do fato de que há economistas no governo temendo que o crescimento neste ano seja de 6% ou até mais. E, também, do temor do ministro de que, se elevar os juros, o Copom estará selando o pior dos mundos: vai acentuar o diferencial da taxa de juros interna e externa, atrair mais dólares para o país, valorizar mais a moeda doméstica, estimular importações, desestimular exportações e, assim, piorar o cenário de déficit em conta corrente do balanço de pagamentos. Ele teria tentado se antecipar ao Comitê, para evitar que esse consume a elevação da Selic dia 16.

Foi esse cenário de muitas dúvidas e receios que fez crescer, nos últimos dias, o debate sobre a política econômica, montada no tripé metas para a inflação, superávit fiscal e regime de câmbio flutuante, tendo os juros como o fiador da meta de inflação. Em meio à exploração de idéias, algumas surgiram com vida curta, como a de reduzir os prazos do crédito; outra, mais temerária, como uma eventual mudança do regime de câmbio flutuante, foi ontem totalmente descartada por Mantega.

O debate sobre meta de câmbio não é de todo novo. O primeiro texto produzido no governo sobre possibilidades a serem exploradas na área cambial, ainda que mantendo o regime de flutuação, foi de autoria de Nelson Barbosa, sob o título “Inflation Targeting in Brazil: Is There An Alternative?” (Meta de Inflação no Brasil: há uma Alternativa? “), apresentado originalmente numa conferência sobre metas de inflação, realizada em Buenos Aires em 2005.

Nesse trabalho acadêmico, Barbosa diz: “Uma taxa de câmbio estável não significa taxa de câmbio constante. O que é preciso é um regime de flutuação suja assimétrica, que não deixe a taxa de câmbio apreciar muito em função de bolhas especulativas, mas que enfrente a depreciação com medidas macroeconômicas restritivas usuais. Em resumo, um piso móvel, mas sem teto para a taxa de câmbio”. Vários países adotam um piso informal. Não o divulgam, mas o perseguem. De certa forma, o governo tentou fazer isso de 2005 para cá, quando decidiu por um programa de acumulação acelerada de reservas cambiais, embora não tenha segurado piso algum.

Nesse sistema, chamado de “slinding floor” (piso móvel), ou “flutuação suja assimétrica”, como denominou Barbosa, não haveria uma meta explícita de câmbio e os instrumentos que o governo tem para intervir são diferentes. No caso de uma valorização excessiva, o governo compraria reservas. Em caso de desvalorização, ao invés de queimar reservas, o governo aumentaria os juros e o aperto fiscal, como fazem os asiáticos. O problema é que com juros internos mais elevados que os externos, isso vira operação “enxuga gelo”, de elevado custo fiscal. E o fato é que, assegurou Mantega, o câmbio seguirá flutuante.

O mais recomendável mesmo é manter a política econômica atual, se possível aumentar a dosagem do esforço fiscal e afastar as idéias extemporâneas.

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

claudia.safatle@valor.com.br

03/04/2008 - 05:28h O trilema de Lula

Celso Ming – O Estado de São Paulo

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O governo Lula parece reconhecer que o consumo não pode crescer tão mais do que a capacidade de oferta da economia; não gosta da idéia de novo aumento dos juros, mas também não sabe como evitar que isso aconteça.

Ontem, o presidente Lula avisou que não quer reforçar o superávit primário (sobra de arrecadação para reduzir a dívida)para ajudar o Banco Central a combater a inflação. E ficou nisso. Não apontou outra solução.

Também ontem, no jornal Valor, o colunista Cristiano Romero revelou que toma corpo dentro do governo uma corrente, cansada de juros altos, que defende a revogação da política de metas de inflação a ser substituída por uma política de metas de câmbio.

É uma proposta um tanto vaga que implicaria mudar a arrumação da política econômica. Define a cotação ideal para o câmbio e, a partir dela, reacomoda os demais móveis da sala.

A idéia é uma resposta confusa para o chamado Trilema de Mundell. Robert Mundell, Prêmio Nobel de Economia de 1999, observou que numa economia aberta não é possível alcançar três objetivos simultaneamente: livre movimento dos capitais; câmbio fixo; e autonomia para executar a política de juros. São objetivos que impõem restrições entre si.

O câmbio fixo foi abandonado em 1999 porque não parou mais em pé. A partir daí foi preciso adotar o Sistema de Metas de Inflação, que permitiu o controle dos preços. Mas, ao fixar os juros, o governo não pode mais controlar o câmbio. Se, no entanto, o governo optasse pela volta ao câmbio fixo, não poderia conter os juros.

E isso é assim porque para controlar o câmbio o Banco Central teria de comprar dólares quando eles sobrassem no mercado, o que puxaria as cotações do câmbio para baixo; ou teria de vender moeda estrangeira quando as cotações promovessem alta indesejável da cotação do câmbio. E, quando compra dólares, despeja dinheiro na praça e isso produz inflação.

Assim, a política do câmbio fixo, tal como adotada pela Argentina, traz embutido em si mesma um grande risco de disparada da inflação, o que está acontecendo agora. Por isso, se o presidente Lula decidiu que seu governo vai combater, custe o que custar, “a desgraçada da inflação”, não há como abrir mão do controle do volume de moeda na economia e, portanto, dos juros. Assim, essa proposta de voltar ao câmbio fixo exigiria mudanças drásticas, com alta probabilidade de desarrumar tudo.

De qualquer maneira, uma das razões pelas quais os juros estão onde estão é a de que o governo gasta demais, essas despesas se transformam em consumo e, quando o consumo fica muito acima da capacidade de oferta do sistema produtivo, é preciso adotar a linha dura dos juros.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, entendeu que o Banco Central não pode ficar sozinho nessa. E pareceu ter comprado a proposta dos economistas heterodoxos de reforçar o superávit primário. A idéia central parece correta: derrubar despesas públicas e, assim, ajudar a conter o consumo.

Falta saber de quanto terá de ser o aumento do superávit primário para garantir a inflação dentro da meta sem elevar os juros. E falta saber o que de fato quer o presidente Lula.

CONFIRA

Mais devagar – Em março, as reservas aumentaram apenas US$ 2,3 bilhões, menos da metade do que aumentaram em fevereiro. Isso mostra que já não há mais tanta sobra de dólares,conseqüência do estreitamento do superávit comercial.

01/04/2008 - 04:59h É preciso maior superávit primário

Editorial O Estado de São Paulo

O superávit de R$ 8,966 bilhões nos dois primeiros meses do ano, equivalente a 6,22% do PIB, permite pensar que a meta de 3,8% do PIB será cumprida neste ano.

Mas a questão não é bem saber se a meta será cumprida, mas avaliar, neste momento da conjuntura, se não seria necessário aumentar a meta, isto é, reduzir as despesas correntes do governo federal com o objetivo de evitar uma explosão da demanda e a necessidade de o Banco Central (BC) elevar a taxa Selic, o que interromperia um ciclo de aumento dos investimentos, que são mais sensíveis a uma elevação dos juros.

Os dados de fevereiro – que convém analisar à luz do grande aumento da arrecadação – mostram que o déficit nominal foi de R$ 6,477 bilhões, enquanto no mês anterior se tinha registrado um superávit de R$ 5,531 bilhões, cabendo ao governo central a maior responsabilidade neste desempenho. O BC está revisando sua projeção de déficit nominal de 1,2% para 1,6% do PIB, mostrando, assim, que está afastada a hipótese de sua eliminação.

Essa revisão foi imposta pelo aumento do pagamento nominal de juros, que somou R$ 15,444 bilhões em fevereiro e que representou, nos dois primeiros meses, 6,43% do PIB. O montante dos juros pagos em fevereiro foi o maior desde que se começou a fazer o balanço das contas públicas (1992), e o juro médio ficou em 11,6%, com ameaça de aumento nos próximos meses em razão da alta do custo do dinheiro no exterior e de uma provável elevação da taxa Selic.

Esses dados justificam amplamente a posição de alguns economistas favoráveis a uma elevação do superávit primário, que permitiria, pelo menos, compensar os efeitos de um custo maior da dívida. A dívida líquida do setor público se elevou em fevereiro a R$ 1,583 trilhão, passando de 41,9% do PIB para 42,2%.

É evidente que uma redução da dívida, que se traduziria por uma diminuição dos juros pagos, permitiria dispor de mais recursos para financiar investimentos públicos, que contribuiriam para diminuir os custos de produção onerados por uma infra-estrutura inadequada.

No ano passado, o governo central contou com o resultado das empresas estatais federais para reduzir seu déficit nominal: neste ano, elas estão comprometidas com programas de investimentos (especialmente a Petrobrás) e não poderão dar a mesma contribuição – até porque o déficit nominal deverá ser maior do que se previa.

26/02/2008 - 07:52h Sem riscos

celso_ming1.jpgpor Celso Ming – O Estado de São Paulo

Na semana passada, a balança comercial brasileira apontou o primeiro déficit (importações maiores do que exportações) em uma semana. É um número relativamente pequeno (US$ 81 milhões) que, no entanto, chegou a disparar algumas luzes amarelas, como se alguma coisa de errado estivesse acontecendo nas contas externas, justamente onde a economia vai dando espetáculo.

O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, tomou a iniciativa de explicar que se trata de um fato episódico sem capacidade de definir tendência. Desde o terceiro trimestre de 2007, os analistas esperam déficit nas contas correntes que, além do comércio, contabiliza os serviços e as transferências unilaterais. O Banco Central (BC) espera resultado negativo de US$ 3,5 bilhões, enquanto o mercado, auscultado pelo próprio BC (Pesquisa Focus), trabalha com déficit de US$ 7,9 bilhões.

Mas, na balança comercial, a expectativa tanto do BC como do mercado é de superávit mais baixo do que os US$ 40 bilhões registrados em 2007, mas, ainda assim, um forte superávit, de US$ 30 bilhões.

Há alguns anos os críticos da atual política macroeconômica vêm advertindo que a valorização do real conduzirá inexoravelmente ao déficit comercial, porque desestimula exportações, na medida em que deixa o produto brasileiro mais caro em moeda estrangeira, e estimula importações ao baratear em reais o produto estrangeiro.

Não é o que está ocorrendo. As exportações avançam neste ano em ritmo mais forte do que em 2007. Estão crescendo a 22,4% ao ano, tomado este número como medida de crescimento da média por dia útil. No ano passado inteiro, aumentaram 16,6%.

A diferença está em que as importações crescem com ainda maior vigor, nada menos que 51,2% nas primeiras oito semanas do ano, quando comparadas a igual período do ano anterior.

(mais…)

25/02/2008 - 15:59h Turistas gastam mais dólares no Brasil, novo recorde é de US$ 600 milhões só em janeiro

rio_cristo.jpgResultado chega perto dos US$ 600 milhões e é o melhor mês da série histórica; aumento na oferta de vôos é um dos motivos do crescimento

Brasília (25/02) – Segundo dados do Banco Central, divulgados hoje (25), janeiro registrou recorde mensal na entrada de dólares com gastos de turistas estrangeiros. Os US$ 595 milhões registrados no primeiro mês do ano representam um aumento de 26,87% em relação ao mês anterior (dezembro) e de 22,74% em relação a janeiro de 2007, quando os visitantes internacionais deixaram US$ 484 milhões no País – até então a melhor marca da série histórica iniciada em 1969.

A ministra do Turismo, Marta Suplicy, comemorou os resultados: “Começamos o ano com um número extremamente favorável, que só confirma o acerto da execução da política de turismo internacional. A expectativa da Embratur era passar dos US$ 500 milhões em janeiro, mas os números superaram as nossas melhores previsões”.
Em parte, a ministra atribui o resultado à retomada na oferta de vôos. “Só em janeiro tivemos um crescimento de 13,56% no número de assentos. Isso se somou ao incremento das ações de promoção do Brasil no exterior, nos últimos anos”, afirmou Marta Suplicy.

Em dezembro de 2007, com o ingresso de US$ 469 milhões, o Brasil chegou a US$ 4,953 bilhões em entrada de divisas por meio do turismo no ano passado, superando em 14,76% os US$ 4,316 bilhões registrados em 2006, considerado até então o melhor ano. Fonte Ministério de Turismo.

22/02/2008 - 14:05h Uma comemoração e um mea-culpa, de Zé Dirceu

do Blog de José Dirceu

Crítico duro, insistente, quase diário, de aspectos da política…

Crítico duro, insistente, quase diário, de aspectos da política econômica, principalmente dos juros altos, quero hoje trazer, de público, meus cumprimentos ao governo, ao atual e ao ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega e Antônio Palocci, ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles e aos integrantes de suas equipes por esse feito extraordinário de, pela primeira vez na história, transformar o Brasil de país devedor em país credor.

Quero chamar a atenção dos meus leitores e companheiros para o fato acima – primeiro para a importância dele, depois para o quanto há de diferença entre o momento atual que vivemos depois de 5 anos de governo do PT em comparação com os 8 anos anteriores de governo tucano.

(…)

Realço a importância e a comparação porque isso só confirma o que eu e muitos outros petistas e integrantes do governo dizemos: essa história de que não mudou nada e que o governo do PT sempre segue as mesmas políticas – particularmente a econômica – do governo tucano é uma balela.

Eu sempre disse, isso só interessa à oposição, a eles tucanos. É por esta razão que há pouco, em propaganda veiculada na mídia, associaram o governo petista a xerox. Veja, se querem fixar na opinião pública esta idéia de que seguimos a política deles, PSDB, é uma coisa que só a eles interessa. Hoje fica provado que a diferença entre um governo do PT e um governo tucano, é como a da água para o vinho.

Abri este comentário, o primeiro do blog, hoje, fazendo Justiça aos que critiquei muitas vezes. Faço isto sempre que reconheço ser minha obrigação. A partir de agora, espero que os tucanos e a oposição, em geral, façam o mesmo.

Afinal, suas figuras mais representativas, fundadores do PSDB, muitas delas ainda hoje aí, e na ativa, ganharam muitas eleições nos anos 70 e 80 tendo como bandeira a crítica à dívida externa, extremamente aumentada pela ditadura militar, parte dela para obras faraônicas, exatamente o que embasava os ataques de seus adversários. Nós, do PT, acabamos com o problema tucanos!

Leia a integra do artigo no Blog de Zé Dirceu

22/02/2008 - 13:23h O BC de esquerda

O Filtro, de Thomas Traumann
Época

Em um encontro em novembro com líderes do Movimento Sem Terra, o presidente Lula reagiu com uma blague às críticas contra a política econômica do governo. “Quem está mais à esquerda nesse governo é o [Henrique] Meirelles”, disse Lula, para as risadas gerais. A ironia do episódio é que ontem o Banco Central do conservador Meirelles anunciou um velho sonho das esquerdas: a dívida externa brasileira está zerada. Lógico, sem os métodos defendidos pelo MST.

Numa ação hipotética, o governo do Brasil pode usar as reservas para quitar todos os compromissos estatais e privados e ainda ficar com US$ 4,3 bilhões de troco. É óbvio que o anúncio de ontem tem mais efeito simbólico do que prático, mas ele é emblemático de quanto tem sido duradouro e sem sobressalto o rumo da política monetária do governo. Em 2002, as reservas cambiais eram de US$ 16,3 bilhões. Hoje passam de US$ 184 bilhões. Aproveitando a maré alta da liquidez da economia mundial, o governo Lula antecipou o pagamento da dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e resgatou antes do vencimento vários títulos que foram emitidos na renegociação da dívida externa brasileira de 1994. Nos últimos anos, o BC montou uma política agresiva de acúmulo de reservas, ajudado em muito pela desvalorização do dólar no mercado mundial.

O Globo traz um bom memorial da transformação do discurso dos vários governos brasileiros em relação à dívida. Da frase de Tancredo Neves, em1985 (“Não pagaremos a dívida dívida com a fome dos brasileiros”), passando pela moratório no governo Sarney.

Ao colunista Guilherme Barros, da Folha, Carlos Langoni, presidente do Banco Central em 1982, lembra que um navio da Petrobras com óleo chegou a ficar retido na Arábia Saudita. O governo saudita não aceitou um cheque do Banco do Brasil em pagamento. Langoni foi obrigado a transferir reservas do Banco Central para o Banco Central da Arábia Saudita. “Ele só aceitavam reservas contra reservas”, diz Langoni. “Na época, fiquei noites e noites sem dormir. Hoje [ontem] vou dormir tranqüilo”, lembra.

O colunisra Celso Ming, de O Estado, é o único a lembrar que a comemoração pode durar pouco. “Se for confirmada a compra da mineradora suíça Xstrata pela Vale, negócio que implicará tomada de empréstimos em moeda estrangeira, a dívida externa total voltará a aumentar em cerca de US$ 50 bilhões. Assim, as reservas teriam de crescer pelo menos mais US$ 46 bilhões para que o Brasil voltasse à condição de credor externo líquido”, escreve.

Quase todos os jornais destacam que o anúncio do Banco Central poderá facilitar a elevação do Brasil à condição de ‘grau de investimento’. É uma discussão menor, como explicou a O Globo o ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartzman: “Eles já sabem do processo pelo qual vínhamos passando. É como cruzar a linha do Equador: não interessa se você está a cem metros antes ou depois dela. O que importa é o caminho percorrido até lá”. Isso sem contar que hoje é mais fácil essas agências que calculam o risco dos países _ como a Austin Rating, Standart & Poor’s e Fitch _ quebrarem do que o Brasil.

Por Thomas Traumann

22/02/2008 - 11:31h Governo Lula livra Brasil da dívida externa

 lula_positivo.jpg

Ontem, comentando a notícia sobre o fim da dívida externa (As reservas superam o montante da dívida externa, tanto pública como privada, zerando virtualmente a dívida externa), errei quando disse que não seria manchete dos jornais hoje. Foi manchete sim, contrariamente ao que eu afirmei. Pensei que a mídia evitaria chamar a atenção para um fato que tem um valor imenso e que reforça os acertos do governo Lula. Me enganei e hoje todos os jornais comportam o tema com manchete de capa.

Mas se a notícia não foi escamoteada, o conteúdo dos artigos mostra que minha inquietude não era vã. Os principais jornais evitam dizer claramente o que esta aqui no título: Governo Lula acabou com a dívida externa brasileira.

Não que o processo de redução do endividamento externo tenha começado só em 2003. Porém foi uma decisão do presidente Lula pagar anticipadamente o empréstimo que FHC tinha feito com o FMI em 2002 e também de aumentar as reservas do Banco Central comprando dólares, assim como de assegurar um superavit primário consistente. Como reconhece Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-presidente do BC, “o fim da dívida externa brasileira servirá de atalho para o grau de investimento. Para ele, a “política acertada” de composição de reservas nos últimos anos foi essencial: — O Brasil será o segundo país emergente do mundo, atrás só da China, a continuar atraindo investimento de longo prazo com força, mesmo com a crise financeira.” (O Globo).

Já em outra matéria, vejam como O Globo apresenta esta vitória do governo Lula: “A dívida externa foi solucionada com o pragmatismo e a ortodoxia usados no combate à inflação. A bandeira contra a dívida externa ficou para trás. E o fato é celebrado justamente no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente que um dia foi líder sindical e que bradou contra a dívida externa a ponto de o seu partido ter proposto auditoria, moratória e até plebiscito para saber se o país deveria, ou não, pagá-la.
Nenhuma medida radical foi tomada. Não houve mágica.

Houve, sim, um longo caminho de renegociações, troca de títulos e, mais recentemente, de grande acumulação de reservas internacionais, com a compra oportunista pelo Banco Central de dólares que se espalhavam em abundância pelo mercado brasileiro, com o avanço das exportações. Inchavase as reservas e impediase a queda exagerada do dólar. Tudo isso permitiu, sem heterodoxia e sem passe de mágica, espantar o fantasma do endividamento.

Quase duzentos anos depois, os sustos com as idas periódicas do país ao Fundo Monetário Internacional (FMI) sumiram. No lugar, apareceu um Brasil que foi, sim, ao FMI no fim de 2005, mas para antecipar o pagamento de sua dívida de US$ 15 bilhões, contraída meses antes de o presidente Lula assumir a condução do país.” (O Globo, “O fantasma não assusta mais”).

O fato é celebrado, como por acaso, durante o governo Lula, mas o mérito não é dele. A dívida com o FMI parece que foi ele que fez e não FHC e o PSDB-PFL.

Nenhuma menção é feita a “Carta ao povo Brasileiro” que norteu a campanha eleitoral que levou Lula à presidência em 2002. Nenhuma menção é feita ao fato que o conjunto das privatizações realizadas durante o governo FHC não reduziram em quase nada nosso endividamento externo. Nada é dito sobre o fato que a sobre-valorização do real provocou uma situação de agravamento da economia nacional e que a dívida externa atingiu seu pico em 1999-2000, com FHC. Nada, enfim, sobre o fato que as crises que tinham o Brasil como epicentro, obrigando a recorrer ao FMI para evitar à quebra do país, eram produto de uma política liberal-tucana e do grau do endividamento. Que o seu correlato foi o maior aumento da carga tributária do Brasil desde o começo de sua história econômica.

Os fato são estes: No final de 2002, as reservas do Brasil estavam em US$ 16,3 bilhões, e a dívida externa líquida era de US$ 165 bilhões. Hoje o Brasil têm uma “folga” de US$ 4 bi, ou seja a dívida externa está virtualmente zerada.

Não tem um jornal que mencione que tudo isto foi realizado sem privatizações, sem sacrificar o emprego e a renda do trabalhador, sem hipotecar o crescimento econômico e sem exaurir a riqueza nacional. Não tem um jornal que diga, ao mesmo tempo, que isto custou caro ao país. Que o dinheiro que foi utilizado para conseguir esta vitória faltou para infra-estrutra, para educação, para saúde e para segurança.

É bom lembrar que Lula honrou os compromissos do Brasil e pagou o que os outros contraíram: uma das maiores dívidas externas do planeta, constituída pela combinação de endividamento irresponsável desde a época da ditadura com juros internacionais flutuantes, manipulados em função dos interesses da política do FED norte-americano.

Em lugar disto, vemos muitas referências irônicas ao radicalismo do PT que nos anos 80 pregava a suspensão do pagamento e a auditoria da dívida. Mas muito pouco, ou nada, sobre os 8 anos do governo FHC em relação a esta questão da dívida externa.

Como reconhece o jornal O Estado de São Paulo: “O relatório divulgado ontem pelo Banco Central, segundo o qual o Brasil, pela primeira vez em 508 anos de história, deixa o papel de devedor e ingressa no seleto time dos credores do mercado internacional, é a consolidação de uma virada histórica.”

Para depois acrescentar: ” A explosão dos juros internacionais, que atingiu em cheio as nações mais endividadas, provocou a moratória nos anos 80. Como conseqüência, os investidores se afastaram do Brasil.

Nas décadas seguintes, o que se viu foi disciplina fiscal. O País aprendeu que, para ser atraente aos investidores estrangeiros, precisava melhorar suas finanças. Em troca de pacotes de ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI), teve de economizar mais. Apertou os cintos e conseguiu gerar superávit primário – a economia usada para pagar juros da dívida.”

Vamos lembrar que em 1994 a dívida externa era de US$ 88,2 bilhões e não parou de crescer até atingir em 2000, ou seja ao cabo de 6 anos de governo tucano, a astronômica cifra de US$ 190,3 bilhões de dólares.

Qual foi o superávit primário entre 1994 e 1998, primeiro mandato de FHC?

Qual foi o custo para o Brasil do populismo cambial durante esses anos?

Quanto foi torrado das reservas do BC para permitir assegurar a reeleição de FHC em 1998 e proceder a uma devaluação depois, imposta pela fuga do capital externo?

Sem maniqueismo, pois é verdade que o PT teve que adequar seu discurso e foi mudando de posição entre o radicalismo inicial em 1980 e a postura clara assumida na “Carta ao povo brasileiro” em 2002. Como também é verdade que particularmente nos dois últimos anos de FHC, Malan começou uma ativa política de redução do peso da dívida externa, de superávit primário e de ajuste fiscal.

Mas sem escamotear que o mérito principal desta “virada histórica” é do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, operário metalúrgico e do governo do PT.

Luis Favre