12/08/2009 - 13:59h Consignado garante lucro a bancos médios

Mudança de regras no crédito para pensionistas ajudou instituições

Ivana Moreira, BELO HORIZONTE

A mudança nas regras do empréstimo consignado para aposentados e pensionistas do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) garantiu números recordes para bancos focados na modalidade. O mineiro Bonsucesso divulga hoje um lucro líquido de R$ 51,3 milhões no primeiro semestre. O resultado é 571,48% maior que os R$ 7,6 milhões apurados no mesmo período do ano passado. É o melhor resultado da história da instituição financeira.

“Para quem saiu de uma crise, é um número fantástico”, comentou o presidente do banco, Paulo Pentagna Guimarães. A margem consignável, valor máximo da renda que pode ser comprometida pelas parcelas do empréstimo, estava limitada a 20%. O aposentado podia comprometer outros 10% com o cartão de crédito consignado, produto com demanda menor. Para estimular o crédito no pós-crise, o governo liberou os 30% para empréstimo direto.

Como outros bancos médios, o Bonsucesso chegou a demitir 100 funcionários, prevendo tempos difíceis em 2009. Mas a tempestade não veio. A carteira total de crédito do Bonsucesso subiu de R$ 1,466 bilhão, em junho de 2008, para R$ 1,931 bilhões em junho de 2009.

O BMG, líder da modalidade, demitiu em torno de 500 trabalhadores no fim do ano passado. Mas também cresceu no semestre. O banco, que também é mineiro, divulgou um lucro líquido de R$ 176 milhões no primeiro semestre , resultado 16,3% superior ao do mesmo período do ano passado. A produção do semestre chegou a R$ 3,640 bilhões. A carteira total cresceu 12,4%, atingindo R$ 15 bilhões.

O empréstimo para aposentados e pensionistas representa entre 60% e 70% da carteira dos bancos focados na modalidade do crédito consignado. Segundo o presidente do Bonsucesso, o aumento da produção dos bancos provou que havia uma “demanda reprimida” por empréstimo.

Para Guimarães, a criação, por parte do Banco Central, dos Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGE), também contribuiu para os lucros. “A medida restabeleceu a confiança e a liquidez para os bancos médios.”

O Mercantil do Brasil, outro banco aposta no consignado, ainda não divulgou seus resultados. Mas surpreendeu ao arrematar cinco lotes no leilão da folha de pagamento do INSS.

25/07/2009 - 09:07h Bancos médios superam a crise, mas concentração bancária deve aumentar

Captação e empréstimos já estão praticamente no nível de 2008

 

Renato Andrade e Fernando Nakagawa – O Estado SP

 


Os sinais de recuperação da economia já podem ser sentidos num dos segmentos que mais sofreram com a crise de crédito global que travou as operações de financiamento no fim do ano passado. Os bancos de pequeno e médio portes conseguiram recuperar boa parte das fontes de recursos e voltaram a emprestar praticamente o mesmo volume de dinheiro que giravam antes do agravamento da crise, em setembro, quando o banco de investimentos Lehman Brothers quebrou.

Em março, o saldo das operações de crédito ainda estava 6,5% abaixo do registrado antes da crise. Segundo dados do Banco Central (BC), o resultado melhorou em maio e ficou apenas 0,6% abaixo do desempenho de setembro de 2008. “Não há mais nenhum problema de liquidez e foi resolvido o problema de credibilidade no setor”, analisa Renato Martins Oliva, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que representas as instituições pequenas e médias.

O congelamento do crédito produziu grandes efeitos sobre os bancos de menor porte. Para evitar consequências danosas ao segmento, que tem forte participação no financiamento de pequenas empresas e em operações como crédito consignado, o BC adotou uma série de medidas para garantir a retomada das captações – como a redução dos depósitos compulsórios, que liberou R$ 100 bilhões para o caixa dos bancos.

Mas a redenção ocorreu mesmo em abril, com a criação do Depósito a Prazo com Garantia Especial (DPGE). O instrumento dá garantia de até R$ 20 milhões aos investidores que aplicarem recursos nessas instituições. Isso deu segurança para que grandes aplicadores voltassem a pôr dinheiro nesses bancos, opção de investimento que havia sido completamente excluída no auge da crise.

Desde então, foram captados R$ 9,5 bilhões com a garantia especial. “Esses recursos conseguiram encerrar a questão de falta de funding (captação) nos bancos médios, principalmente porque os grandes investidores voltaram”, diz o diretor-geral do Fundo Garantidor do Crédito (FGC), Antonio Carlos Bueno, instituição que dá a garantia a esses depósitos.

SPREAD

Para Rubens Sardenberg, economista-chefe da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), as medidas tomadas pelo BC no ano passado permitiram, num primeiro momento, a recomposição de caixa dessas instituições. Na sequência, os bancos voltaram a emprestar.

Nessa retomada, o empréstimo consignado e o financiamento de veículos foram os primeiros beneficiados. Dados do BC mostram que a média diária de concessão de crédito consignado ficou em R$ 286 milhões em maio, valor 121% maior que o de dezembro. No caso dos carros, a média de novas operações somou R$ 212 milhões em maio, um salto de 58,4%. No mesmo período, a média das operações para pessoas físicas cresceu 16,3%.

O desafio que se impõe agora aos bancos é a demanda ainda fraca, diz Sardenberg. “De maneira geral, não temos mais problema de oferta, mas a demanda ainda é fraca”, disse.

Para o economista, essa realidade forçará o aumento da competição entre os bancos, o que poderá resultar em reduções nas taxas de juros cobradas nas operações e até dos spreads bancários, a diferença entre a taxa de captação de recursos do banco e a cobrada do cliente.

O espaço para redução dessas taxas é claro, mas a queda sempre foi muito mais lenta do que o desejado pelos consumidores e pelo próprio governo, que tem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, como um dos porta-vozes das constantes reclamações sobre os spreads.

Depois de atingir o nível de 30,7 pontos porcentuais em dezembro, o spread médio do sistema financeiro nacional diminuiu lentamente ao longo dos primeiros cinco meses do ano, atingindo 28,1 pontos em maio, de acordo com os dados mais recentes do BC. No caso do juro médio nas operações com recursos livres, a taxa passou de 43,3% ao ano para 37,9% no mesmo período.

Crise acelera tendência de fusões e aquisições de bancos pequenos

A recuperação da capacidade dos bancos menores de tomar recursos e oferecer empréstimos não deve frear o processo de fusões e aquisições dessas instituições, avalia uma fonte do setor. “O mundo não vai voltar a ser exatamente como era antes da crise”, disse a fonte, que pediu para não ser identificada. “O que teremos, eventualmente, é um movimento de fusões e aquisições.”

O fato mais marcante do processo de consolidação do setor bancário brasileiro ocorreu no fim de 2008, quando Itaú e Unibanco se uniram, criando o maior banco da América Latina em ativos. “Deveremos ver dois movimentos: a fusão de bancos pequenos e médios e também a incorporação dessas instituições por bancos maiores.”

A consolidação do setor não é uma hipótese descartada pelo presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Renato Martins Oliva, entidade que representa os bancos de menor porte. O assunto, entretanto, assusta. “O ideal é termos uma grande quantidade de agentes econômicos para garantir a competição. Por esse aspecto, a consolidação preocupa”, diz.

Ele dá como exemplo a união entre Itaú e Unibanco. “Se uma empresa tinha crédito de R$ 100 em cada instituição, a fusão não fez com que esse cliente mantivesse R$ 200 em crédito. Ao contrário, ele passou a poder usar apenas um dos dois limites.”

Oliva admite, porém, que essa consolidação passa por decisões estratégicas de cada instituição e, caso isso ocorra, existem benefícios, como um sistema mais forte e com maior capacidade de emprestar.

Os bancos públicos, que têm sido pressionados pelo governo a aumentar o crédito, têm colaborado para essa consolidação. Desde 2008, o Banco do Brasil já adquiriu metade do Banco Votorantim, especializado em crédito para veículos e médias empresas, e incorporou a Nossa Caixa e o Banco do Estado de Santa Catarina. Além disso, comprou R$ 3,5 bilhões em créditos de bancos menores durante a crise.

Agora, há expectativa de que a Caixa Econômica Federal se associe a um banco médio para entrar em nichos que ainda não explora, como o das financeiras. Durante a crise, a Caixa adquiriu R$ 2 bilhões em carteiras de crédito de outras instituições.

O próprio Banco Central (BC) considera possível um novo ciclo de consolidação do sistema financeiro. Em seu último Relatório de Estabilidade Financeira, o BC avalia que as aquisições ocorridas no segmento de bancos de grande porte “prenunciam” esse novo ciclo. O processo já estaria se refletindo nos níveis de concentração do sistema, de acordo com cálculo feito pelo BC.

Na avaliação da autoridade monetária, as aquisições não ocorrerão apenas do lado das grandes instituições. Alguns bancos médios devem buscar o fortalecimento de suas operações por meio de aquisições, o que daria escopo para concorrerem com as instituições de grande porte.

16/07/2009 - 12:18h A volta dos bancos médios

Editorial O Estado SP

Surtiram efeito positivo, segundo os números disponíveis, as medidas do Banco Central e do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) destinadas à recuperação da liquidez dos bancos de pequeno e médio portes, evitando o desaparecimento dessas instituições e um aumento ainda maior da concentração bancária. Eliminou-se, sobretudo, um dos fatores de desconfiança dos investidores em aplicações financeiras, com repercussão favorável tanto sobre os bancos médios como sobre seus clientes.

Em março, o Conselho Monetário Nacional (CMN) autorizou os bancos a captar até R$ 40 bilhões em depósitos com a garantia do FGC, cujo capital provém dos bancos em geral. Estes depósitos são garantidos pelo FGC até R$ 20 milhões, valor muito superior aos R$ 60 mil garantidos a quaisquer depositantes.

Para fornecer a garantia adicional, o FGC recebe o pagamento de 1% ao ano sobre o valor das captações. Entre abril e junho, a medida beneficiou 48 instituições, que captaram R$ 9,16 bilhões em depósitos a prazo com garantia especial (DPGEs). O dinheiro permitiu recompor o capital dos bancos, também beneficiados pelo aumento da confiança dos investidores, como observou ao jornal Valor o diretor executivo do FGC, Antonio Carlos Bueno.

No segundo semestre do ano passado, os depósitos nos bancos pequenos e médios caíram 18,8%, porcentual alto o bastante para criar uma crise bancária localizada. Muitas instituições ficaram sem recursos para atender às necessidades de saques de clientes e investidores. Algumas medidas emergenciais foram adotadas pelo CMN, como a liberação de depósitos compulsórios. Para evitar a insolvência, alguns bancos preferiram vender suas carteiras de crédito ao FGC e à Caixa Econômica Federal ou associar-se a bancos maiores, caso do Votorantim.

Os resultados do mês passado mostram que a ameaça aos bancos médios foi afastada. Com a venda dos DPGEs, os bancos removeram da sua contabilidade a ameaça do descasamento entre ativos e passivos. Ou seja, deixou de ser um problema o fato de que os empréstimos costumam ser concedidos em prazos mais dilatados do que os da captação de recursos, o que pode ser fatal em hora de crise.

Os DPGEs têm prazo médio de 744 dias, propiciando uma folga de liquidez a médio e longo prazos. O custo, estimado pela Cetip, onde são registradas as operações de balcão, oscila entre 95% e 138% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), que acompanha a taxa Selic. Os bancos consideram alta a remuneração, mas, com os recursos obtidos, conseguiram restabelecer seus depósitos e alongar as captações, revelou o presidente do Banco Bonsucesso, Paulo Henrique Pentagna Guimarães.

Houve outros resultados positivos: o FGC já conseguiu vender 75% das carteiras adquiridas dos bancos, aos quais havia liberado R$ 8,7 bilhões; o BC está prestes a eliminar os incentivos (liberação de compulsórios) que concedeu aos adquirentes das carteiras; e os bancos já não precisam se socorrer no mercado externo. “Com o aparecimento do DPGE, bastante atraente, a dívida externa ficou relativamente cara”, afirmou o diretor de finanças do Banco Mercantil do Brasil, Cristiano Gomes. A instituição pagou antecipadamente parte de uma colocação de papéis no montante de US$ 175 milhões. Segundo Gomes, “o pior já passou”. O caixa de alguns bancos chega a ser superior às necessidades.

Com a recomposição do capital e a retomada das captações, os bancos médios já ampliam a oferta de crédito – e isto significa mais empréstimos para as pequenas e médias empresas, sobretudo aquelas que não operavam com os grandes bancos varejistas e que, nas últimas semanas, reclamavam da falta de recursos para expandir as atividades. Também as linhas de crédito consignado, operadas por esses bancos, começaram a crescer em abril e maio.

A captação de R$ 9,2 bilhões via DPGEs é pequena em relação ao saldo total de títulos privados vendidos a investidores, quase R$ 596 bilhões em maio. Mas, nas crises, a existência de crédito, onde quer que esteja, pode ser a diferença entre a sobrevivência e a morte de empresas.