Captação e empréstimos já estão praticamente no nível de 2008
Renato Andrade e Fernando Nakagawa – O Estado SP
Os sinais de recuperação da economia já podem ser sentidos num dos segmentos que mais sofreram com a crise de crédito global que travou as operações de financiamento no fim do ano passado. Os bancos de pequeno e médio portes conseguiram recuperar boa parte das fontes de recursos e voltaram a emprestar praticamente o mesmo volume de dinheiro que giravam antes do agravamento da crise, em setembro, quando o banco de investimentos Lehman Brothers quebrou.
Em março, o saldo das operações de crédito ainda estava 6,5% abaixo do registrado antes da crise. Segundo dados do Banco Central (BC), o resultado melhorou em maio e ficou apenas 0,6% abaixo do desempenho de setembro de 2008. “Não há mais nenhum problema de liquidez e foi resolvido o problema de credibilidade no setor”, analisa Renato Martins Oliva, presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que representas as instituições pequenas e médias.
O congelamento do crédito produziu grandes efeitos sobre os bancos de menor porte. Para evitar consequências danosas ao segmento, que tem forte participação no financiamento de pequenas empresas e em operações como crédito consignado, o BC adotou uma série de medidas para garantir a retomada das captações – como a redução dos depósitos compulsórios, que liberou R$ 100 bilhões para o caixa dos bancos.
Mas a redenção ocorreu mesmo em abril, com a criação do Depósito a Prazo com Garantia Especial (DPGE). O instrumento dá garantia de até R$ 20 milhões aos investidores que aplicarem recursos nessas instituições. Isso deu segurança para que grandes aplicadores voltassem a pôr dinheiro nesses bancos, opção de investimento que havia sido completamente excluída no auge da crise.
Desde então, foram captados R$ 9,5 bilhões com a garantia especial. “Esses recursos conseguiram encerrar a questão de falta de funding (captação) nos bancos médios, principalmente porque os grandes investidores voltaram”, diz o diretor-geral do Fundo Garantidor do Crédito (FGC), Antonio Carlos Bueno, instituição que dá a garantia a esses depósitos.
SPREAD
Para Rubens Sardenberg, economista-chefe da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), as medidas tomadas pelo BC no ano passado permitiram, num primeiro momento, a recomposição de caixa dessas instituições. Na sequência, os bancos voltaram a emprestar.
Nessa retomada, o empréstimo consignado e o financiamento de veículos foram os primeiros beneficiados. Dados do BC mostram que a média diária de concessão de crédito consignado ficou em R$ 286 milhões em maio, valor 121% maior que o de dezembro. No caso dos carros, a média de novas operações somou R$ 212 milhões em maio, um salto de 58,4%. No mesmo período, a média das operações para pessoas físicas cresceu 16,3%.
O desafio que se impõe agora aos bancos é a demanda ainda fraca, diz Sardenberg. “De maneira geral, não temos mais problema de oferta, mas a demanda ainda é fraca”, disse.
Para o economista, essa realidade forçará o aumento da competição entre os bancos, o que poderá resultar em reduções nas taxas de juros cobradas nas operações e até dos spreads bancários, a diferença entre a taxa de captação de recursos do banco e a cobrada do cliente.
O espaço para redução dessas taxas é claro, mas a queda sempre foi muito mais lenta do que o desejado pelos consumidores e pelo próprio governo, que tem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, como um dos porta-vozes das constantes reclamações sobre os spreads.
Depois de atingir o nível de 30,7 pontos porcentuais em dezembro, o spread médio do sistema financeiro nacional diminuiu lentamente ao longo dos primeiros cinco meses do ano, atingindo 28,1 pontos em maio, de acordo com os dados mais recentes do BC. No caso do juro médio nas operações com recursos livres, a taxa passou de 43,3% ao ano para 37,9% no mesmo período.
Crise acelera tendência de fusões e aquisições de bancos pequenos
A recuperação da capacidade dos bancos menores de tomar recursos e oferecer empréstimos não deve frear o processo de fusões e aquisições dessas instituições, avalia uma fonte do setor. “O mundo não vai voltar a ser exatamente como era antes da crise”, disse a fonte, que pediu para não ser identificada. “O que teremos, eventualmente, é um movimento de fusões e aquisições.”
O fato mais marcante do processo de consolidação do setor bancário brasileiro ocorreu no fim de 2008, quando Itaú e Unibanco se uniram, criando o maior banco da América Latina em ativos. “Deveremos ver dois movimentos: a fusão de bancos pequenos e médios e também a incorporação dessas instituições por bancos maiores.”
A consolidação do setor não é uma hipótese descartada pelo presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Renato Martins Oliva, entidade que representa os bancos de menor porte. O assunto, entretanto, assusta. “O ideal é termos uma grande quantidade de agentes econômicos para garantir a competição. Por esse aspecto, a consolidação preocupa”, diz.
Ele dá como exemplo a união entre Itaú e Unibanco. “Se uma empresa tinha crédito de R$ 100 em cada instituição, a fusão não fez com que esse cliente mantivesse R$ 200 em crédito. Ao contrário, ele passou a poder usar apenas um dos dois limites.”
Oliva admite, porém, que essa consolidação passa por decisões estratégicas de cada instituição e, caso isso ocorra, existem benefícios, como um sistema mais forte e com maior capacidade de emprestar.
Os bancos públicos, que têm sido pressionados pelo governo a aumentar o crédito, têm colaborado para essa consolidação. Desde 2008, o Banco do Brasil já adquiriu metade do Banco Votorantim, especializado em crédito para veículos e médias empresas, e incorporou a Nossa Caixa e o Banco do Estado de Santa Catarina. Além disso, comprou R$ 3,5 bilhões em créditos de bancos menores durante a crise.
Agora, há expectativa de que a Caixa Econômica Federal se associe a um banco médio para entrar em nichos que ainda não explora, como o das financeiras. Durante a crise, a Caixa adquiriu R$ 2 bilhões em carteiras de crédito de outras instituições.
O próprio Banco Central (BC) considera possível um novo ciclo de consolidação do sistema financeiro. Em seu último Relatório de Estabilidade Financeira, o BC avalia que as aquisições ocorridas no segmento de bancos de grande porte “prenunciam” esse novo ciclo. O processo já estaria se refletindo nos níveis de concentração do sistema, de acordo com cálculo feito pelo BC.
Na avaliação da autoridade monetária, as aquisições não ocorrerão apenas do lado das grandes instituições. Alguns bancos médios devem buscar o fortalecimento de suas operações por meio de aquisições, o que daria escopo para concorrerem com as instituições de grande porte.