26/07/2012 - 14:03h Peru e Colômbia atraem mais bancos estrangeiros

Por Polya Lesova | Especial para o The Wall Street Journal, de Lima, Peru – VALOR

Em San Isidro, o distrito financeiro da capital peruana, os bancos ocupam alguns dos edifícios mais elegantes, um reflexo da boa fase do setor que tem sido alimentada pelo crescimento econômico do Peru.

A Colômbia e o Peru têm visto suas economias crescerem fortemente nos últimos anos, e o setor bancário tem tirado proveito.

Os bancos dos dois países têm se beneficiado de uma crescente base de clientes potenciais, à medida que a classe média se expande e mais pessoas são retiradas da pobreza, estimulando a demanda por empréstimos ao consumidor, cartões de crédito e hipotecas.

Bancos brasileiros também buscam se beneficiar de nova base de clientes

Num momento em que gigantes do setor bancário no mundo desenvolvido cambaleiam depois de uma série de escândalos e batalham para entregar retornos aceitáveis para os acionistas, muitas instituições financeiras no Peru e na Colômbia apresentam um invejável crescimento no lucro e retornos de dois dígitos sobre o próprio capital.

Instituições financeiras de países vizinhos também tentam tirar proveito do bom momento do Peru e Colômbia. Os bancos brasileiros têm sido especialmente ativos. O banco de investimento BTG Pactual, por exemplo, comprou a corretora chilena Celfin Capital em fevereiro, ganhando exposição aos mercados de capital de rápido desenvolvimento não só do Peru e Colômbia, mas também do Chile. E em junho, o BTG fechou acordo para comprar a Bolsa y Renta, de MedellÍn, a maior corretora de valores da Colômbia. O Itaú BBA, que é a a subsidiária de banco de investimentos do Itaú Unibanco Holdings, instalou recentemente um banco de atacado na Colômbia. Além disso, o Corpbanca, do Chile, já informou que está à procura de aquisições no Peru, depois de ter comprado os ativos do Santander na Colômbia.

Guillermo Arbe Carbonel, economista do Scotiabank, em Lima, diz que, no caso do Peru, o setor bancário acompanhou o crescimento orgânico da economia e se beneficiou do nível historicamente baixo de penetração bancária.

Muitas famílias e empresas que não estavam no radar dos bancos antes agora estão, diz Carbonel. “Também estamos vendo isso na construção. Eles estão construindo shopping-centers em todo o país e os bancos vão colocar agências nesses shoppings. Agora é útil ter um cartão de crédito.”

O interesse por hipotecas está aumentando a taxas de dois dígitos, nota o analista, que acrescenta: “Há uma mobilidade social muito forte.”

O Banco de Crédito, que faz parte da Credicorp Ltd., é o maior banco do Peru, com mais de 30% de participação de mercado tanto em empréstimos como em depósitos. Em seguida, estão o BBVA Continental (de propriedade de banco espanhol BBVA SA), o Scotiabank Peru (uma unidade do canadense Bank of Nova Scotia) e o limenho Interbank (uma unidade do Intergroup Financial Services Corp.)

Num reflexo do novo ímpeto da indústria, o Banco de Crédito teve um aumento de 30% no lucro do primeiro trimestre e uma média de retorno sobre o patrimônio, um indicador de rentabilidade dos bancos, de 29,2%. O total de empréstimos subiu 21% em comparação com um ano antes, para US$ 17,6 bilhões, impulsionado pelo setor de banco de varejo, em particular as hipotecas e empréstimos ao consumidor.

Embora os bancos locais devem continuar vendo crescimento sólido na carteira de empréstimos este ano, o Peru certamente enfrenta alguns desafios. Um deles é a dolarização, ou o uso generalizado de moeda estrangeira, que decorre parcialmente da dolorosa experiência do país com a hiperinflação na década de 1980.

“Nossa dolarização ainda é alta”, diz Juan Carlos Odar, economista do Banco de Crédito em Lima. “O banco central está muito presente no mercado de câmbio. Eles tentam evitar a volatilidade da taxa de câmbio.”

Do outro lado da fronteira, na Colômbia, o setor bancário também vem prosperando e atraindo o interesse de investidores estrangeiros. Os empréstimos comerciais e para consumidores, que representam 90% da carteira de crédito total, estão crescendo a taxas de dois dígitos. Apesar de responder só por cerca de 8% do total de empréstimos, a atividade de hipotecas também tem ganhado força. O nível de inadimplência subiu um pouco, mas continua em volumes historicamente baixos, segundo a InterBolsa.

A Colômbia sofreu uma grave crise de hipotecas na década de 1990, quando a inadimplência disparou. Muitos bancos com grande exposição aos empréstimos hipotecários tiveram de fechar as portas e o governo acabou intervindo para recapitalizar as instituições financeiras. Essa crise imperrou o desenvolvimento do setor bancário e reduziu o crescimento do crédito durante a década seguinte.

O Grupo Aval, o enorme conglomerado construído pelo bilionário Luis Carlos Sarmiento, é o maior grupo financeiro da Colômbia e controla cerca de 30% do setor bancário local. O Aval possui vários bancos, incluindo o Banco de Bogotá, o segundo maior banco do país, e o Porvenir SA, o maior fundo de pensão.

O Bancolombia SA, que tem ADRs na Bolsa de Valores de Nova York, é o maior banco do país com 20% do total de ativos, segundo dados da InterBolsa. O Banco de Bogotá é o segundo, com 15%, seguido do Banco Davivienda SA com 12%. O BBVA, com uma participação de mercado de 9%, é o maior entre os participantes estrangeiros.

“Há uma série de oportunidades e os investidores internacionais estão vendo isso. Muitos estão pagando alto para acessar o sistema colombiano”, diz Philip Thomas, analista do setor financeiro da Interbolsa, em Medellín, Colômbia, dando o exemplo de dois negócios. Em outubro passado, o Scotiabank anunciou que iria comprar 51% do Banco Colpatria em um negócio avaliado em US$ 1 bilhão. E em maio, o Santander anunciou a venda de seus ativos colombianos ao chileno Corpbanca SA.

Ao mesmo tempo que os bancos estrangeiros buscam uma fatia do mercado colombiano, os bancos colombianos também estão expandindo sua presença na América Central.

Em 2010, o Grupo Aval comprou o BAC-Credomatic da GE Capital, recebendo no acordo um banco com operações na Costa Rica, México, El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Honduras e Panamá. E este ano, o Banco Davivienda comprou unidades do HSBC Holdings na Costa Rica, El Salvador e Honduras.

Polya Lesova é vice-diretora da sucursal de Nova York do site “MarketWatch”

10/07/2012 - 09:52h Europa ergue nova Cortina de Ferro, mas entre o sul e o norte

10 de julho de 2012

O Estado de S.Paulo – Análise. Paul Taylor, da Reuters

Aumentam os sinais de que a união monetária e econômica da Europa pode estar se fragmentando tão rápido a ponto de os governantes mal conseguirem repará-la.

No dia 29 de junho, os líderes da zona do euro concordaram com os princípios do estabelecimento de uma autoridade supervisora conjunta do setor bancário para a área da moeda única composta por 17 nações, com base no Banco Central Europeu, embora a maior parte dos detalhes ainda precise de elaboração.

A proposta foi um primeiro passo provisório rumo à união europeia de bancos que poderá se caracterizar por uma garantia de depósitos conjunta e um fundo de resolução de crises para o setor bancário. O objetivo é impedir a corrida aos bancos e o colapso das instituições, problemas que poderiam enviar ondas de choque por todo o continente.

Mas é possível que a tentativa de estabelecer às pressas os primeiros elementos desse sistema até o próximo ano ocorra tarde demais.

A fuga dos depósitos dos bancos espanhóis está acelerando e não se sabe ao certo se um acordo da zona do euro para um empréstimo de até 100 bilhões a Madri em fundos de ajuda será capaz de reverter o fluxo, caso os investidores temam que a Espanha possa enfrentar um resgate total da dívida soberana.

Muitos bancos estão se reorganizando – ou sendo forçados a se reorganizar – de acordo com linhas nacionais, acentuando uma divisão entre norte e sul cada vez mais profunda.

Uma barreira financeira invisível, possivelmente mais perigosa do que a Cortina de Ferro que outrora dividia o Leste europeu da Europa Ocidental, está se erguendo lentamente no interior da zona do euro.

A discrepância dos juros entre os países credores do norte da Europa – como Alemanha, nos quais os custos dos empréstimos são os mais baixos de todos os tempos -, e os países devedores do sul – como Espanha e Itália, onde os rendimentos dos títulos subiram muito -, já ameaça consolidar uma divergência permanente.

24/06/2012 - 10:38h Mercado de imóveis alemão se descola da crise

Impulsionado pelo temor com países europeus em crise, o mercado imobiliário da Alemanha passou a ser procurado por investidores
24 de junho de 2012

RENUKA RAYASAM , DER SPIEGEL – O Estado de S.Paulo

O edifício de escritórios de dois andares, na cidadezinha de Nordhausen, quase passa despercebido. O prédio ao norte de Erfurt, a capital do Estado da Turíngia, no leste alemão, está pintado de amarelo e tem estacionamento próprio.

Parte do andar térreo já tem um locatário confiável, e outra parte sofreu um incêndio no início do ano. Mesmo assim, é uma localização bastante procurada. No catálogo de um leilão realizado no início deste mês, no centro de Berlim, o imóvel era oferecido por 48 mil (US$ 60.355). Mas, ao final de uma verdadeira guerra de lances, foi arrematado por quase o dobro do preço inicial, por 90 mil (US$ 113.166). O autor do lance mais alto foi um investidor da Alemanha Ocidental.

“É um exemplo do que um imóvel pode alcançar quando é bom”, diz Carsten Wohlers da Plettner & Brecht, a corretora imobiliária que realizou o leilão. Cerca de 90% dos 53 imóveis leiloados foram vendidos, 10% a mais do que no ano passado. Os organizadores também notaram que mais compradores preferiram mandar seus lances por telefone, em vez de comparecer pessoalmente, embora Wohlers atribua isso ao tempo bom e à Eurocopa, que está ocorrendo neste mês.

O leilão é apenas mais um exemplo de que, enquanto a recuperação do mercado de imóveis residenciais nos Estados Unidos, Espanha e outros países em dificuldades vem se arrastando, o mercado alemão decolou. Depois de uma estagnação de anos, os preços alemães de imóveis residenciais e comerciais voltaram a subir em 2009. Impulsionado pelas preocupações em outros países da zona do euro, o mercado alemão tornou-se um investimento seguro.

Os preços dos imóveis na Alemanha subiram 3,5% entre setembro de 2010 e o mesmo mês no ano seguinte, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ao mesmo tempo, o preço médio dos imóveis residenciais subiu 5,5% em 2011, segundo o Bundesbank, o banco central alemão. Nas grandes cidades, como Berlim, Hamburgo e Munique, os aumentos foram de 10% a 13% nos preços de apartamentos já existentes e novos.

Segurança. Embora esses aumentos pareçam consideráveis, não chegam a indicar uma temível bolha imobiliária. Em comparação, no primeiro trimestre de 2005, enquanto os preços se aproximavam do seu pico antes da crise imobiliária americana, subiram 12,5% em relação ao ano anterior, e os custos das casas em lugares como Califórnia, Nevada e Flórida registraram altas de 20% ao ano. No entanto, os aumentos dos preços na Alemanha preocupam o Bundesbank, que recentemente disse que está acompanhando a evolução para impedir que haja descontrole.

Mas a situação do setor imobiliário alemão “não se compara à dos EUA ou da Espanha”, afirma Steffen Sebastian, catedrático de finanças imobiliárias da Universidade de Regensburg. Esses aumentos, hoje, não são nada em comparação à bolha imobiliária da Alemanha em meados dos anos 90, quado o governo de Helmut Kohl ofereceu incentivos fiscais para financiar os investimentos no mercado imobiliário da ex-Alemanha Oriental, depois da reunificação.

Sebastian diz que o mercado imobiliário se aqueceu há cerca de um ano e meio, mas que a diferença entre o que aconteceu com outros países afetados por uma crise da habitação é que indivíduos e bancos de investimento estão colocando o seu dinheiro em imóveis. E não são apenas os alemães, mas cidadãos de todo o continente. “Grande parte da demanda vem da especulação em toda a Europa”, segundo Sebastian.

Ele também atribui o aumento dos preços aos juros baixos, ao medo da inflação no país, à preocupação geral com o colapso do euro e a alternativas seguras relativamente escassas.

“Os italianos não ligam onde colocam o seu dinheiro, desde que seja em imóveis na Alemanha”, diz Ruth Stirati, uma consultora do setor que trabalha principalmente com cidadãos italianos que querem comprar apartamentos em Berlim. Ela afirma que muitos dos seus clientes são italianos comuns que têm alguma poupança e temem colocá-la em bancos italianos na perspectiva de colapso do euro.

Choque. Embora Berlim não tenha um mercado de trabalho que sustente outras partes do país, a cidade tornou-se um alvo atraente para compradores internacionais. Em janeiro de 2012, foram vendidos centenas de apartamentos em Berlim. Mais da metade dessas aquisições foi feita por italianos, russos, franceses e compradores de outra nacionalidade, segundo um relatório do mercado elaborado pela empresa alemã Engel & Völkers.

“Anteriormente, houve um crescimento persistente da demanda, e agora é uma inundação”, diz a consultora, referindo-se ao mercado em Berlim.

Os aumentos dos valores em Berlim causaram choques nos corretores e nos compradores acostumados aos anos de preços baixos. “É muito caro”, diz Rudolf Rude, um engenheiro alemão interessado em investir em imóveis.

Bolha. Wohlers, Rude, Stirati e outros na linha de frente do mercado imobiliário alemão acreditam que este só continuará crescendo. Mas, se as previsões se concretizarão ou não, é algo que depende do destino da economia alemã. Independentemente do declínio populacional, um vigoroso mercado de trabalho e uma sólida expansão econômica mantiveram ativa a demanda por imóveis residenciais. De outro lado, aumentou o número de pessoas que migram para as cidades e procuram casas novas.

A agência de risco Standard & Poor’s prevê que os preços das habitações na Alemanha subirão por mais dois ou três anos, enquanto a crise do euro se estende aos países vizinhos. A agência aponta para a redução do desemprego, para os juros persistentemente baixos e preço já baixo em proporção à renda, como as razões do seu otimismo.

Mas alguns especialistas advertiram que, à medida que a crise do euro se aprofunda, a economia alemã não continuará intocada por muito tempo. Bastará uma alta repentina das taxas do desemprego e dos juros para que o ativo mercado imobiliário do país sofra uma brusca parada. “Pode contar que haverá mais turbulência no mercado imobiliário alemão”, diz o catedrático Sebastian. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

12/06/2012 - 09:24h A esfinge brasileira

Por Monica Baumgarten de Bolle e Fernanda Guardado – VALOR

“Decifra-me ou devoro-te”. Como impulsionar o consumo? Como destravar o investimento? Eis os grandes enigmas atuais da economia brasileira. Desatar o nó górdio do investimento privado em meio à crise financeira internacional e à imprevisibilidade europeia é um desafio quase insuplantável no momento. Resta, portanto, ele, o consumo. Fonte de acalorados debates, teses incompletas e frases de efeito. “O modelo de consumo se esgotou”. Alguém ainda aguenta ouvir isso?

O debate atual em torno desse suposto esgotamento do “modelo de consumo” para o crescimento brasileiro tem misturado alhos com bugalhos no afã de desqualificar a atual estratégia adotada pelo governo para incrementar o ritmo de crescimento econômico. Embaralham os estímulos cíclicos de demanda – o que qualquer governo faz quando vê a atividade ameaçada por choques externos – com políticas de médio prazo de expansão da capacidade produtiva, para chegar à apressada conclusão de que “não há mais espaço” para a expansão do consumo e do endividamento das famílias. É claro que só uma estratégia de crescimento focada nas reformas estruturais e nas condições para o avanço do investimento privado garante a sustentabilidade da expansão da atividade e do desenvolvimento do país. Não há como discordar disso. A recomendação é tão sensata quanto qualquer conselho de avó.

Cerca de 45% da dívida das famílias tem prazo inferior a um ano, sendo que 30% do total é de menos de 6 meses

Mas isso nada tem a ver com a tentativa legítima de incentivar o consumo quando a economia ameaça escorregar por causa da crise internacional. Ou melhor, incentivar o consumo nestas condições é o mesmo que seguir o conselho avoengo de incontestável sensatez, “proteja-se das correntes de ar”.

“Decifra-me ou devoro-te”. Cadê o esgotamento? Vamos aos fatos. O crescimento brasileiro foi beneficiado, nos últimos anos, tanto pelo consumo, quanto pelo investimento. Basta olhar as Contas Nacionais. Entre 2003 e 2011, a razão investimento/Produto Interno Bruto (PIB) saiu de 15% para 20%, enquanto o consumo perdeu participação no PIB.

A expansão do consumo neste período foi acompanhada de um aumento da alavancagem do consumidor, cujo comprometimento mensal da renda disponível atingiu 22% em março de 2012, após permanecer em torno de 19% entre maio de 2009 e maio de 2011; um avanço de três pontos percentuais que foi acompanhado de muito estardalhaço. Sobretudo quando os próprios bancos costumam trabalhar com um nível máximo de comprometimento de cerca de 30%. Houve, sim, uma alta de inadimplência. Mas os dados coletados pelo Banco Central (BC) e os indicadores do Serasa já apontam uma queda destas taxas à frente.

O prazo médio das dívidas para pessoas físicas é curto. Cerca de 45% do estoque tem prazo inferior a um ano, sendo que 30% do total é de menos de seis meses. Assim, as dívidas “acabam rápido” – e em um ambiente de estímulo ao refinanciamento, isso tende a ser acelerado, como agora. As taxas estão em queda, o que reforça o estímulo ao refinanciamento e abre espaço para maior contratação de dívida e consumo, uma vez que o percentual da renda comprometida com o pagamento de juros diminui proporcionalmente; dados preliminares do BC já apontam queda entre janeiro e maio na taxa média para pessoas físicas.

Os consumidores vêm se desalavancando mais recentemente, e mostram maior conforto com seu nível de endividamento, possivelmente um reflexo da curta duração das dívidas. A Sondagem do Consumidor da FGV mostra que, ao longo de 2011, o percentual de famílias que estava se endividando recuou, e, desde então, subiu apenas ligeiramente, atingindo 17,6% da amostra – abaixo da média histórica da pesquisa, de 20,5%. No mesmo período, o percentual de famílias que estão poupando subiu sistematicamente, e tem mostrado alguma estabilidade em torno do pico da série.

A Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio aponta uma diminuição do percentual de famílias endividadas entre maio de 2011 e maio de 2012. As famílias que se consideram pouco ou não endividadas atingem 64,5% da amostra, um avanço ante o mesmo mês do ano passado. Os próprios consumidores se mostram mais dispostos a aumentar suas compras. Segundo a FGV, cerca de 19% das famílias da amostra pretendem aumentar suas compras de bens duráveis. O percentual de famílias que pretendem diminuir suas compras, por outro lado, segue em patamar historicamente baixo (28%).

O consumidor quer aumentar seus gastos, tem confiança na perspectiva de emprego, passa por um momento em que uma boa parte das dívidas contraídas até o fim de 2011 estão vencendo, e se depara com custos declinantes para a contratação de novas dívidas. O que parece faltar é uma maior oferta de crédito por parte dos bancos, o que é compreensível no momento. Entretanto, espaço para consumir mais e crescer mais há, sim, ainda que não no ritmo observado ao longo de 2010. Desde que haja crédito. A estratégia pode não ser a melhor nem a mais segura, afinal estimula a alavancagem do consumidor. Mas decerto deve ser potente no curto prazo para estimular o crescimento.

Enigma decifrado.

Monica Baumgarten de Bolle é economista, professora da PUC-RJ e diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças (IEPE/CdG).

Fernanda Guardado é economista da Galanto Consultoria.

08/06/2012 - 08:33h ‘Mascate’ de crédito desbrava periferia no NE

Edson Ruiz / Edson Ruiz
Lucas Silva, assessor de crédito: “As pessoas pedem mais do que podem pagar.”


Por Murillo Camarotto | VALOR

De Salvador

Sinal dos tempos, o comércio porta a porta perdeu espaço nas cidades brasileiras, até mesmo nos bairros mais periféricos, onde já foi muito popular. Na era da internet, o carteiro já não é celebrado como antes, que dirá o vendedor de panelas ou enciclopédias. Na contramão dessa tendência, começa a proliferar na região Nordeste um novo tipo de mascate, conhecido pelo burocrático nome de assessor de crédito. Apesar de atuar na ponta da operação, esse profissional está no centro do debate sobre as possibilidades do mercado brasileiro de microcrédito produtivo orientado, que começa a dar sinais de expansão.

De acordo com o Banco Central, em 2011 foram contratados R$ 3,59 bilhões em microcrédito produtivo, voltado a pequenos empreendedores, um crescimento de 45,8% em relação ao ano anterior. No mesmo intervalo, o volume de microcrédito direcionado ao consumo recuou 23,8%, a R$ 2,1 bilhões, dando o tom do cenário que deve prevalecer nos próximos anos, na esteira dos incentivos federais à modalidade produtiva. Os números referem-se apenas às operações realizadas com dinheiro oriundo da parcela de 2% dos depósitos compulsórios direcionada a este fim pela legislação.

Apesar do avanço recente, o microcrédito produtivo ainda está concentrado no Banco do Nordeste (BNB), que responde por algo em torno de 80% dos clientes atendidos no país. O saldo da carteira de microcrédito produtivo com recursos do compulsório era de R$ 1,57 bilhão em fevereiro e cerca de R$ 700 milhões estavam com o BNB. Além do compulsório de outros bancos, a instituição nordestina conta com funding do BNDES, Banco Mundial e do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

Lucas Barbosa da Silva é um dos 2 mil assessores de crédito que têm a missão de captar novos clientes para o BNB. Aos 21 anos, ele é responsável pela operação no bairro do Cabula, periferia de Salvador. Tocando campainha ou batendo palmas, oferece a pequenos comerciantes, camelôs e prestadores de serviço empréstimos do Crediamigo – principal programa de microcrédito produtivo no país, com 1,1 milhão de clientes e carteira de R$ 1,2 bilhão.

O Crediamigo contempla empréstimos de R$ 100 a R$ 15 mil, mas a média de contratações não costuma passar de R$ 2 mil. Nessa faixa, a operação é enquadrada no programa Crescer, lançado em setembro pelo governo federal, com o objetivo de turbinar o microcrédito produtivo. Com subsídio que vai de R$ 22 a R$ 230 por operação, a depender do valor e do prazo, caiu para 0,64% ao mês o juro cobrado na modalidade, taxa que era substancialmente maior. O Banco do Nordeste centralizou mais de 90% das transações do Crescer nos primeiros meses do programa.

Um dos culpados por essa concentração é Lucas, o assessor de crédito, que ganha R$ 700 por mês. Isso porque os custos de treinamento e de manutenção de uma equipe numerosa de assessores de crédito são um dos principais empecilhos para o avanço de outros bancos no microcrédito, um mercado com demanda reprimida de oito milhões de pessoas somente no Nordeste. O público-alvo também interessa pouco. Para os grandes bancos, a população na linha de pobreza remete a risco certo e lucro duvidoso. Assim, a maioria das instituições prefere passar adiante suas cotas represadas do compulsório ou até mesmo deixar o dinheiro parado no BC.

Especialistas em microcrédito acreditam, no entanto, que uma mudança está em curso. Ao ultrapassar a marca de 1 milhão de clientes ativos, o BNB começa a chamar a atenção para a viabilidade econômica do microcrédito produtivo. “Não tenho dúvida de que os demais bancos vão olhar de forma diferente um negócio sustentável com essa escala”, opina o chileno Jaime Pizarro Tapia, consultor de microcrédito a instituições da América Latina.

Espectador atento dos debates, o gerente de planejamento estratégico da área no Santander, Uéliton Rolim Gonçalves, diz que o banco planeja diversificar o leque de produtos voltados ao segmento. De acordo com ele, a carteira de microcrédito produtivo orientado do banco conta hoje com cerca de 120 mil clientes e saldo de R$ 193 milhões. “O mercado está mudando. É claro que os bancos comerciais não querem prejuízo, mas a gente está provando que pode ser uma operação viável.” Segundo ele, o banco estuda lançar uma conta corrente específica para o público do microcrédito.

O americano Larry Reed, diretor da Microcredit Summit Campaign, também conhecida por “Cúpula do Microcrédito”, acredita que o maior desafio para a consolidação do setor é a correta medição dos resultados na melhoria de vida das pessoas atendidas. Ele relativiza a consistência de estudos que apontam a ineficiência do microcrédito no combate à pobreza. “A maioria desses estudos foi feito em um período curto. Acredito que a mudança efetiva pode ser percebida após alguns anos”, afirmou.

É aí que entra, de novo, o assessor de crédito – desta vez como solução. De acordo com os especialistas, o trabalho desses profissionais é indispensável para a sustentabilidade do microcrédito. Lucas atua desde a captação dos clientes até o controle da inadimplência, passando pela estruturação da operação. “Os assessores são a chave do sucesso do microcrédito produtivo”, afirma o presidente do BNB, Jurandir Santiago. Em abril, o Crediamigo apresentava inadimplência de 0,97% nos empréstimos vencidos há mais de 90 dias, patamar considerado bastante razoável pela direção do banco.

Ainda assim, Reed alerta para o perigo do endividamento excessivo. “O microcrédito é como um rio. As bordas não podem ser inundadas sob nenhuma hipótese. É preciso construir canais altos para evitar que ele transborde”, recomenda. Lucas confirma que o público-alvo do microcrédito é, sim, propenso ao endividamento. “As pessoas pedem muito mais do que poderiam pagar. Dez vezes mais. Querem resolver todos os problemas de uma vez só. Cabe à gente controlar”, conta o jovem.

A parcimônia na oferta do dinheiro é a primeira de sete lições apresentadas pelo representante da Cúpula do Microcrédito em direção à sustentabilidade do segmento. A promoção da educação financeira e o incentivo à poupança também foram destacados, bem como o conhecimento profundo dos clientes. Lucas garante que as recomendações do americano são postas em prática diariamente nas ruas do Cabula. Há um ano e meio na função, o mascate do crédito se diz testemunha do resultado positivo dos financiamentos na melhoria de vida do empreendedor da periferia.

04/06/2012 - 07:30h Bancos públicos aumentam oferta de crédito em ritmo maior que os privados

04 de junho de 2012

EDUARDO CUCOLO, FERNANDO NAKAGAWA, BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Nos primeiros meses da ofensiva do governo para cortar os juros, os bancos públicos lideraram o aumento na oferta de crédito. Dados do Banco Central mostram crescimento de 1,9% na carteira das instituições estatais em abril em relação a março, mais que o dobro dos 0,7% verificados nos bancos privados.

Com isso, os bancos estatais seguem ganhando participação, movimento que vem sendo registrado desde a crise de 2008/2009, mas que havia perdido força em 2011. Em relação a abril do ano passado as instituições estatais registram crescimento de 25% no crédito e os bancos privados, de 13%.

Números do BC e dos próprios bancos mostram que o avanço estatal se deu em todos os segmentos: habitação, consumo e empresas. No crédito para pessoa física destinado ao consumo, que exclui as operações habitacionais, a carteira dos bancos públicos cresceu 1,6% em abril. Nos privados, a alta foi de 0,5%.

A menor diferença de crescimento entre os dois tipos de instituição se deu no crédito imobiliário, que avançou 2,5% nos públicos e 2% nos privados. Os dados do BC mostram ainda que os bancos públicos de varejo cresceram mais que o BNDES, que responde por cerca de 20% da carteira do setor financeiro estatal.

Consignado. A Caixa, por exemplo, ganhou mercado em todos os segmentos. Os empréstimos para consumo fecharam maio com volume 40% maior que o verificado na média do primeiro trimestre. No crédito consignado, o volume quase dobrou. A abertura de novas contas cresceu 20% na pessoa física e 32% na jurídica nos últimos dois meses.

“Estamos ganhando participação todos os meses, todos os anos, desde 2009, em todos os segmentos. A estratégia de se antecipar ao mercado tem dado resultado. E não é só reduzir juros. É reduzir juros com rentabilidade”, disse o vice-presidente de Pessoa Física da Caixa, Fábio Lenza. “Agora, estamos crescendo ainda mais. Até mais que outros bancos públicos.”

Nos 12 meses encerrados em abril, as carteiras comercial pessoa física e pessoa jurídica da Caixa cresceram cerca de 50%, acima dos 15% verificados na média do mercado. No Banco do Brasil, foram emprestados R$ 9,9 bilhões em maio para clientes pessoas físicas, novo recorde. O vice-presidente de negócios de varejo do BB, Alexandre Abreu, diz que, desde abril, cerca de 20% dos novos empréstimos têm sido tomados por clientes que não tinham nenhum produto de crédito.

No financiamento de veículos, o volume emprestado diariamente foi multiplicado por oito. Além disso, houve queda da inadimplência de 2,32% em março para 2,22% em abril no banco, ao contrário da média do setor, que registra inadimplência recorde de 5,9% na modalidade. Para Abreu, o calote no banco é menor especialmente porque a instituição empresta recursos de uma maneira diferente, com a concessão de empréstimos pré-aprovados conforme a renda e o perfil de cada cliente.

23/05/2012 - 09:53h Crédito começa a fluir

Por Cristiano Romero – VALOR

A maior preocupação do governo neste momento é que, mesmo com a queda das taxas de juros e as medidas de estímulo adotadas, consumidores e empresas não se animem a tomar crédito. Sem crédito, a economia não anda. Embora a demanda, impulsionada pelo forte aumento do salário mínimo em janeiro, siga aquecida, a produção industrial patina. A boa notícia é que há sinais de que o crédito, depois das seguidas rodadas de redução dos spreads, começa a fluir.

Aparentemente, tanto pessoas físicas quanto empresas estão reagindo positivamente à queda dos juros. O vice-presidente de Negócio de Varejo do Banco do Brasil (BB), Alexandre Abreu, revela que, nas linhas com maior impacto sobre a economia, as concessões têm crescido de forma acelerada no último mês e meio.

As operações com pessoas físicas mostram isso claramente. Na linha de crédito direto ao consumidor (CDC), a taxa média de juros cobrada pelo BB caiu de 2,41% para 2,19% ao mês entre março e maio. Nessa modalidade, o banco emprestou, em março, R$ 190,4 milhões por dia útil. Em abril, a média diária saltou para R$ 294,3 milhões e, em maio (até o dia 15), para R$ 322,4 milhões. O incremento por dia útil foi de 70%.

No BB, liberações têm crescido em áreas relevantes para o PIB

No caso de financiamento de veículos, segmento que, por causa do aumento inadimplência, tornou os bancos mais conservadores na concessão de novos empréstimos, também começa a haver um certo desafogo, algo que pode ser intensificado graças às últimas medidas adotadas pelo governo – ontem, em resposta à liberação de depósitos compulsórios para financiamento de carros novos e à diminuição do Imposto sobre Operações Financeiras incidente sobre crédito, o BB reduziu a taxa média de 1,29% para 1,09% ao mês.

Antes dos novos estímulos, a concessão de empréstimos já vinha melhorando, conforme atestam dados oficiais que o Banco do Brasil divulgará nos próximos dias. De qualquer forma, em março o BB liberou, em média, apenas R$ 11,1 milhões por dia útil para compra de automóveis. Em maio, a média diária mais do que triplicou – foi para R$ 34,1 milhões; agora, com a liberação de R$ 2 bilhões de seu compulsório, o banco acredita que a média diária crescerá para R$ 45 milhões até o fim de junho.

É possível que, nos próximos dias e semanas, haja um incremento nesses valores. Além da redução do custo financeiro, os carros ficaram mais baratos graças à decisão do governo de reduzir as alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Ademais, o BB conta com o fato de ter uma inadimplência média, nesse segmento, inferior à do mercado – 2,6%, face a 5,9%.

No crediário, o BB também tem registrado avanços. A média por dia útil cresceu de R$ 396,1 mil em março para R$ 2,3 milhões em maio (sempre até o dia 15), um pulo de 481,64%. O desembolso total ainda é acanhado se comparado ao de outras linhas – R$ 8,7 milhões em março e R$ 23 milhões nos primeiros 15 dias de maio -, mas a tendência, graças à forte queda dos juros nessa modalidade – de uma taxa média de 3,42% para 1,94% ao mês -, é positiva.

No crédito consignado para aposentados do INSS, os desembolsos diários cresceram quase 60% entre março e maio. A taxa média de juros recuou de 2,02% para 1,79% ao mês no período, e os desembolsos por dia útil avançaram de R$ 7,7 milhões para R$ 12,2 milhões.

Alexandre Abreu explica que, com o “BomPraTodos”, programa com que o banco pretende conquistar clientes dentro da realidade de spreads mais baixos, o BB quer mostrar que é mais vantajoso tomar um CDC (juro médio de 2,23% ao mês) do que usar o cheque especial (8,01%) ou o crédito rotativo do cartão de crédito (13% ao mês). De fato, o cheque especial é uma aberração dos tempos de inflação crônica no Brasil. Como o custo de vida corroía diariamente o poder de compra dos salários, o cheque especial funcionava como um crédito automático ao qual o assalariado recorria até o dia de recebimento do salário.

Com o “BomPraTodos, e os bancos privados estão adotando modelo parecido, o BB quer convencer os atuais e novos clientes a migrarem para produtos mais baratos. Três milhões, dos 33 milhões de correntistas do BB, usam cheque especial regularmente. Como a inadimplência nessa modalidade é altíssima – 15% na média do mercado, 11% no Banco do Brasil -, o juro é o mais alto, perdendo apenas para o do cartão de crédito.

Se o cliente adere ao “BomPraTodos”, toda vez que ele usa mais de 50% do limite do cheque especial, durante 60 dias, no 61º dia ele recebe uma mensagem pelo celular (SMS) informando que aquela dívida será parcelada automaticamente em 24 meses, ao custo de 3,94% ao mês (taxa máxima do CDC). É um preço salgado, mas bem inferior ao do cheque especial. A mesma regra vale para o crédito rotativo do cartão de crédito.

Abreu justifica o aumento da tarifa nesse programa, alegando o fato de o banco incorrer em novos custos – um deles, o envio de SMS. Além disso, argumenta, o cliente passa a ter uma espécie de assessoria financeira. Nada se compara, no entanto, diz ele, aos custos incorridos antes por causa de juros bem mais altos. O dirigente do BB conta que, com o tempo, a tendência é que o cheque especial desapareça ou se torne menos relevante – o banco estima que, em um ano, a carteira nessa modalidade diminuirá de R$ 3,2 bilhões para R$ 1,6 bilhão.

Embora o cheque especial e o cartão de crédito sejam mecanismos “populares” de acesso a crédito, eles têm relevância econômica menor que a de outras formas de crédito. Da carteira de crédito de R$ 120 bilhões de pessoa física do BB, cheque especial responde por apenas R$ 3,2 bilhões (2,6%) e crédito rotativo de cartão de crédito, por R$ 2,5 bilhões (2%). É muito menos que crédito consignado (37,5% do total), financiamento de automóvel (16,6%) e CDC (20,8%).

“Em apenas um mês, a migração de clientes para o ‘BomPraTodos’ chegou a 200 mil. É um número expressivo”, comemora Abreu, que não teme o impacto dos juros mais baixos sobre a saúde financeira do BB. Ele lembra que a iniciativa de reduzir juros é generalizada e assegura que o BB está fazendo isso de forma responsável. “O grande medo do banqueiro é baixar os juros e na ponta o cliente não pegar o recurso. Nossos clientes estão pegando empréstimos.”

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail – cristiano.romero@valor.com.br

10/05/2012 - 10:00h Sobre la estatización de Bankia por el gobierno español

¿Nos atracan? Bien, pero háganlo en condiciones

La quiebra de un banco es peor que el apoyo público. Pero 82.965 millones de euros son muchos

Xavier Vidal-Folch 10 MAY 2012 – EL País – España

Las nuevas ayudas públicas a BFA-Bankia son un atraco al Tesoro. Un atraco al bolsillo del contribuyente. Lo son por su cuantía. Si culminan los planes del Gobierno, el total de apoyo público al grupo, europeo y español, ascenderá a 82.965 millones de euros.

Referencia comparativa: una cifra superior al déficit de la Administración central y de las comunidades autónomas, que ascendió en 2011 a 82.107 millones. No se acaloren. De los apoyos a BFA-Bankia, no todo son inyecciones en vena de capital.

Hay avales del Tesoro, dispensandos desde 2008 a las cajas hoy fusionadas, por 28.500 millones. Hay créditos blandos del BCE, al 1%, por 40.000 millones (15.000 en diciembre y 25.000 en febrero). Hay una suscripción de 4.465 millones en preferentes, remuneradas al 8%, por el FROB-I: ahora, como pide José Ignacio Goirigolzarri y se concedió de antemano, se trocarán en acciones, sujetas al riesgo de una difícil recuperación. Y si se añadiesen los 10.000 millones extra que preveía el Gobierno, sumarían esos 82.965 millones.

¿Que implica esa cifra? En lo económico, es obvio que no hubiese enjugado el déficit y que por tanto no se necesitasen recortes, aunque algunos sí podrían evitarse. Pero sí que conlleva un coste de oportunidad: esos recursos podrían haberse dedicado a otros fines, tan o más urgentes en era de crisis.

En lo político, se trata de una herencia legada por dos Administraciones populares: Miguel Blesa/Comunidad de Madrid/Esperanza Aguirre y José Luis Olivas/Comunidad Valenciana/Paco Camps & antecesores. Una herencia catastrófica, con consejeros de partido, fricciones de facciones del partido y utilización de las cajas como cajas B de las autonomías para proyectos grandilocuentes, del control de Iberia a la financiación del agujero negro de Terra Mítica… incluido el pago por el filial Banco de Valencia de la fianza de tres millones de Jaume Matas, el presidente balear condenado por corrupción. (Una síntesis, en Donde digo liberalismo…, en estas páginas, 12 de mayo de 2011).

Una herencia del PP al PP recibida por Rodrigo Rato, quien pugnó por desinfectarla —con sacrificios, 3.857 despidos, cierre de 853 sucursales—, pero era tarde. Y que incubó errores: juntar siete cajas malas, que no dieron una buena; mantener a demasiados correligionarios en los consejos y rechazar la fusión con La Caixa, por no dar primacía a la entidad catalana.

Las ayudas irritan. Es de ley que la oposición proteste. Pero ¿cuál es la alternativa? ¿Dejar quebrar a BFA/Bankia?

Algunos lo postulan para los bancos sistémicos, too big to fail, demasiado grandes para caer. Otros, como Simon Johnson, matizan: “La solución correcta es obvia: no dejar que las instituciones financieras se conviertan en demasiado grandes; recortar las que lo son” (“13 bankers”, Random House, 2010).

Ya es tarde para eso. Y se entiende que al Gobierno le aterrorice un caso Lehman, o repetir la quiebra de los bancos islandeses: el perjuicio fue peor, y aún más injusto, que la injusta ayuda a los bancos en crisis.

Pero las ayudas son muy relevantes y la entidad muy grande. Y la auditoría de Deloitte apunta a una situación de práctica quiebra técnica en BFA —por consunción del capital—, y la presión de la morosidad y de los vencimientos de los 106.350 millones de deuda es asfixiante. Parece pues que debería tratarse el caso con más contundencia que los de las cajas pequeñas/medianas hasta ahora sometidas al túrmix del FROB. O sea, dispensar las nuevas ayudas en condiciones. Con más duras condiciones:

Reducción del capital a cero. La ayuda pública solo se justifica tras agotar todo el capital privado del grupo. O sea, reducir el valor de las acciones a un euro, como en las crisis bancarias de los ochenta. Bankia ya no es una caja benéfica, sino un negocio a riesgo, como lo eran Urquijo, Catalana o Banesto.
Una explicación detallada del Gobierno, el Banco de España y los dos Ejecutivos autonómicos sobre el origen, causas y desarrollo de la crisis y sobre la solución elegida y, en su caso, asunción de responsabilidades.
Venta o troceamiento. La nacionalización transitoria debe servir para sanear el activo (no solo los 31.400 millones de ladrillo hoy dudoso) y desinsectarlo de politiquería: Olivas, uno de los grandes culpables, sigue atrincherado en Bancaja. Y para evaluar no solo su futura venta, sino también su troceamiento, quizá la mejor vía de sajar sus males y permitirle generar negocio recurrente, que hoy no puede. Hay precedentes en varios países de la UE: Fortis, Dexia…
Responsabilidades. Encargar al Banco de España, y en su caso a la jurisdicción, el deslinde de responsabilidades administrativas y de todo tipo de quienes crearon el problema. No de quienes lo afrontaron sin éxito.

Al menos.

09/05/2012 - 08:58h Juros: a batalha das expectativas

Por Cristiano Romero – VALOR

Não se viu, na história recente do país, esforço tão grande de um governo, quanto o que faz agora o da presidente Dilma Rousseff, para reduzir as taxas de juros básica e bancárias. O momento, aparentemente, permite ousadias ou, como declarou há alguns dias o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, “não há razão para o Brasil não testar taxas de juros mais baixas”.

A razão para acreditar nisso está tanto na conjuntura da economia mundial quanto na da brasileira, que tornam o ambiente menos inflacionário. No caso da primeira, o que se vê é um baixo desempenho nas economias da Europa, com recessão em alguns países; recuperação fraca nos Estados Unidos; e desaceleração na China, hoje o segundo maior PIB do planeta.

No Brasil, a despeito de a demanda das famílias permanecer aquecida, a economia como um todo segue fraca. Apesar de todos os estímulos dados pelo governo, a produção industrial parece não sair do lugar. Em março, segundo o IBGE, caiu em todas as medidas de comparação – sobre o mês anterior (queda de 0,5%), sobre março de 2011 (-2,1%), no acumulado de 2012 (-3%), em 12 meses (-1,1%) e na média móvel trimestral (-0,3%).

Desafio é convencer agentes de que BC está no caminho certo

A confiança dos industriais, de acordo com a última sondagem feita pela FGV, tem aumentado, mas de forma muito lenta. Caiu 12,1 pontos percentuais entre dezembro de 2010 e outubro do ano passado e, de lá para cá, recuperou apenas 2,6 pontos. Uma boa parcela dos empresários informa que ainda está desovando estoques acumulados ao longo do exuberante ano de 2010.

Enquanto esse processo de correção de estoques não terminar, é bem provável que a indústria continue sem apetite para fazer novos investimentos. Os dados da produção industrial são claros e refletem esse sentimento: os itens que mais caíram no ano (até março) foram bens de capital (máquinas e equipamentos) – recuo de 11,4% em relação ao mesmo período de 2011 – e bens de consumo duráveis (-11,6%).

É razoável acreditar que a indústria brasileira, mesmo diante de um mercado de trabalho aquecido, da renda do trabalhador em alta e da queda dos juros promovida pelo BC e agora também por alguns bancos, esteja temerosa por causa do cenário internacional adverso, afinal, o Brasil não é uma ilha. O próprio Banco Central advertiu, em agosto, que o impacto da crise mundial no PIB brasileiro seria equivalente a, no mínimo, 25% do que teve a turbulência de 2008 – uma subtração de pelo menos 0,5 ponto percentual de crescimento no espaço de 12 a 18 meses.

O comércio varejista, por sua vez, segue crescendo a taxas elevadas. Os dados de fevereiro mostram alta de 9,6% sobre o mesmo mês de 2011; alta de 8,7% no acumulado do ano e de 6,7% em 12 meses. O que favorece esse desempenho é a renda do trabalhador, que continua avançando em ritmo forte, em parte por causa do salário mínimo, que aumentou 14,13% em janeiro, beneficiando cerca de 48 milhões de pessoas.

O espaço entre oferta da indústria e demanda tem sido ocupado pelas importações. Se isso preocupa o produtor nacional e é natural que seja assim, por outro lado ajuda o BC a inflação. Ademais, os preços das commodities, que inflacionaram a economia brasileira no fim de 2010 e no início de 2011, estão em queda. Não se avista no horizonte, pelo menos não por ora, pressão inflacionária relevante.

Todo esse quadro levou o governo a apostar todas as fichas na redução dos juros. Já há em Brasília quem acredite que o BC reduzirá a taxa básica (Selic) para menos de 8% ao ano até dezembro – hoje, está em 9%. Juros tão baixos para a tradição brasileira provocam inflação, acreditam muitos analistas. Reside, aí, o grande desafio do governo, particularmente do Banco Central.

Como o regime de metas para inflação não foi abolido, em tese nada impede que o BC volte aumentar juros no futuro próximo, caso o IPCA suba em algum momento. Além disso, apesar das mudanças no cálculo da poupança, alguns dos constrangimentos que impediam a queda da Selic, como a existência de um volume considerável de crédito direcionado, continuam presentes. Isso explica a desconfiança do mercado, refletida nas expectativas de inflação para 2012 e 2013. Elas vêm se deteriorando nas últimas semanas – neste momento, estão, respectivamente, em 5,12% e 5,56%.

Expectativas não são meras opiniões. São um componente importante da inflação. Para que a estratégia de redução dos juros seja bem-sucedida, governo e BC terão que convencer o mercado de que o caminho escolhido é consistente e o mais adequado ao país neste momento, e não resultado de um desejo político de baixar os juros na marra e forçar o crescimento da economia a qualquer preço, mesmo que às custas de uma inflação superior à meta de 4,5%. Se as expectativas não melhorarem, a inflação tende a aumentar, o que colocará em risco a estratégia de uma redução mais acelerada dos juros.

A presidente Dilma está consciente da necessidade de um melhor gerenciamento das expectativas. O governo acredita que está diante de uma batalha de comunicação, em três fases. Na primeira, a presidente atacou o que considera a “frente popular”. Fez pronunciamento à nação em horário nobre da TV, um dia antes das celebrações do 1 de Maio, sobre a necessidade de queda dos juros. Com isso, abriu caminho para o movimento seguinte – a mudança da forma de cálculo da poupança, uma medida necessária para a Selic continuar caindo.

A fase 2 foi uma ofensiva de imprensa das duas principais autoridades do Ministério da Fazenda – o ministro Guido Mantega e o secretário-executivo Nelson Barbosa – para esclarecer as alterações da poupança. A fase 3 são campanhas publicitárias promovidas pelo Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, exemplo que deve ser seguido por pelo menos dois grandes bancos privados – Bradesco e Itaú -, segundo informação recebida pela presidente na quinta-feira passada.

Naquele dia, Dilma ouviu de três banqueiros – Pedro Moreira Salles (Itaú Unibanco), André Esteves (BTG Pactual) e Luiz Carlos Trabuco Cappi (Bradesco) – que há espaço para baixar juros. A presidente quer, agora, que o BC atue no mercado para melhorar as expectativas dos agentes econômicos.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras.

E-mail – cristiano.romero@valor.com.br

04/05/2012 - 09:56h Tempos difíceis para os bancos

Por Claudia Safatle – VALOR

Houve um tempo em que banqueiros, gigolôs e prostitutas eram proibidos de receber a Sagrada Comunhão. Expurgo tão radical decorreu de uma lei da Igreja da Holanda, que vigorou entre os anos 1581 a 1658. Na Europa aristocrática, fundada em terras e títulos, a simples posse de riqueza não conferia prestígio. Só a partir da Renascença e com o sucesso da família Médici os donos das casas bancárias passaram a ser melhor considerados.

Desde os primórdios da atividade financeira, portanto, os banqueiros já eram vistos com reservas, e a cobrança de juros, para os clérigos, feria os preceitos bíblicos.

A presidente Dilma Rousseff, na sua nova cruzada, não chegou a tanto. Mas, em duro pronunciamento no dia 1º de maio e ontem, novamente ao referir-se aos juros altos na cerimônia de posse do novo ministro do Trabalho, Brizola Neto, ela tocou num tema que pode lhe render popularidade sem grandes esforços. Os lucros dos bancos e os juros elevadíssimos que cobram são vistos por boa parte dos brasileiros como uma apropriação indevida de parte da riqueza do país.

Os juros são altos e o sistema é um oligopólio

“É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com um dos juros mais altos do mundo. Esses valores não podem continuar tão altos. O Brasil de hoje não justifica isso”, disse a presidente em cadeia de rádio e TV, no dia 1º.

“Os bancos não podem continuar cobrando os mesmo juros para empresas e para o consumidor enquanto a taxa básica Selic cai, a economia se mantém estável e a maioria esmagadora dos brasileiros honra com presteza e honestidade os seus compromissos. O setor financeiro, portanto, não tem como explicar essa lógica perversa aos brasileiros”, prosseguiu, no mesmo tom.

Ontem, ela voltou ao assunto e foi além: “O país precisa de taxas de juros compatíveis com aquelas praticadas no resto do mundo”, de uma taxa de câmbio que não seja “amarrada” pela política monetária praticada pelos países desenvolvidos em crise e, também, de uma carga de impostos mais baixa, que viabilize o crescimento econômico.

Dilma comprou uma boa briga. Não à toa o discurso do Dia do Trabalho, por inspiração do marqueteiro João Santana, foi dirigido ao capital financeiro.

Primeiro, ela definiu como meta de governo – ” O nosso Plano Real”, conforme um assessor do Palácio do Planalto – reduzir a Selic para padrões (históricos) internacionais, aproveitando os efeitos desinflacionários da profunda e prolongada crise externa.

A Selic caiu para 9% e começou a esbarrar na trava de juros dada pela rentabilidade conferida à caderneta de poupança. Segundo cálculos do governo, com os juros em 8,5% ao ano a poupança superaria todas as demais aplicações financeiras. Ontem, as novas regras de reajuste das cadernetas foram anunciadas, deixando livre o caminho para o Comitê de Política Monetária (Copom) cortar mais a Selic, o que deve ocorrer na próxima reunião. No fim deste mês a taxa já deverá estar em 8,5% ao ano.

Para a poupança, haverá um gatilho. Sempre que o juro for igual ou menor do que 8,5% ao ano, a caderneta será remunerada com 70% da Selic. Acima desse patamar, vale o regime de rentabilidade atual.

Para a Selic não há mais piso. O objetivo da presidente – dito desde a campanha eleitoral – é encerrar seu mandato com juros reais da ordem de 2% e a dívida pública equivalente a 30% do PIB.

As condições externas e internas estão piores do que se imaginava que estariam a esta época do ano. O Banco Central da Austrália, na terça feira, cortou os juros em 50 pontos percentuais, levando a taxa para 3,75% ao ano, no maior movimento desde 2009 para reanimar a economia doméstica.

No Brasil, são fortes os indícios de que o primeiro trimestre do ano foi ruim para a atividade econômica. Quem esperava crescimento de 1% no período já cortou suas expectativas à metade.

A piora externa nas últimas semanas, a demora da economia brasileira em mostrar recuperação e a consequente brecha para novos cortes dos juros anteciparam a decisão da presidente de remodelar o reajuste da poupança. Até poucos dias atrás, antes da divulgação da última ata do Copom, esperava-se, no Palácio do Planalto, anunciar a nova regra da poupança só após as eleições municipais de outubro.

De pouco adianta cortar a taxa básica, porém, se os bancos continuam salgando os juros ao tomador de crédito, sob o argumento do aumento da inadimplência. Dilma virou as baterias contra as margens cobradas pelo sistema bancário – os spreads, calculados pela diferença entre as taxas de captação e as de aplicação dos bancos.

Além dos discursos, o governo lançou mão da Caixa e do Banco do Brasil para forçar a concorrência. Ambas as instituições reduziram as taxas de juros praticadas nas diversas linhas de crédito, numa iniciativa para “persuadir” os bancos privados a seguirem igual caminho ou perderem mercado. Tal ação pode ajudar, mas é insuficiente.

Nos anos 90, o governo abriu o mercado financeiro brasileiro para os bancos internacionais, na tentativa de criar um regime concorrencial. Não teve sucesso. As poucas casas estrangeiras de varejo que vieram para o Brasil logo aprenderam a lógica do funcionamento local.

Os cinco maiores bancos que operam no país hoje – BB, Caixa, Bradesco, Itaú e Santander – detém 65% dos ativos totais do sistema financeiro, 67% do saldo total das operações de crédito e 76% dos depósitos.

Há um oligopólio no setor. Oligopólios não se constrangem muito com discursos oficiais. Mas podem responder a regras mais severas de regulação.

Os bancos deixaram uma lista de reivindicações para o governo, a começar da alta carga tributária, dos elevados compulsórios, além de uma série de medidas que melhorariam as garantias dos financiamentos. Inadimplência, impostos e compulsórios são algumas das causas dos largos spreads cobrados pelas instituições. Agora é hora de olhar, também, as questões microeconômicas que afetam o setor e responder às suas demandas, se elas forem procedentes.

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

E-mail: claudia.safatle@valor.com.br

04/05/2012 - 09:51h Economistas já revisam projeção da Selic para 8%

Mudança na rentabilidade da caderneta indica disposição do governo de ampliar os cortes no juro e economistas antecipam previsões
04 de maio de 2012

O Estado de S.Paulo

Alguns economistas já revisaram suas projeções para a taxa Selic em dezembro para 8% ao ano, diante da mudança nas regras da caderneta de poupança. O movimento surpreende pela rapidez e por se antecipar ao mercado de juros, tradicionalmente mais agressivo.

O diretor de Pesquisa para Mercados Emergentes da América Latina da Nomura, Tony Volpon, por exemplo, revisou sua previsão de 8,5% para 8%, “com o risco de vermos níveis ainda mais baixos”. “Acreditamos que as mudanças na poupança apontam a intenção do governo de levar a taxa (de juros) para muito abaixo dos níveis atuais.”

A Nomura se junta a outras duas instituições que já revisaram suas projeções para 8% no fim do atual ciclo de afrouxamento monetário. O banco Safra, que até então estimava a Selic em 8,5% no fim deste ano, também projeta a taxa em 8% tanto este ano como em 2013, destacando que a remuneração da poupança é hoje o maior obstáculo à queda. “Há sinais cada vez maiores de que o governo está inclinado a resolver essa distorção o quanto antes”, disse o economista Carlos Kawall, em nota.

Outro que seguiu a mesma linha foi o sócio da Mauá Sekular e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo. Ele espera que a Selic recue a 8,5% na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) e, a partir daí, caia de novo para 8%, mantendo-se assim até o fim do ano.

“O mercado de juros já deu uma boa antecipada nessa alteração da poupança ontem. Hoje, estamos vendo um ajuste adicional, também sustentado por uma produção industrial fraca e pelo cenário internacional ruim”, analisou o gerente de renda fixa da Leme Investimentos, Paulo Petrassi. “Um dos impeditivos para esse movimento de queda dos juros é a volta da inflação, mas, ao que tudo indica, isso só ocorrerá mais adiante.”

“A mudança na poupança é um evento histórico. É o auge de um processo que começou com Fernando Henrique Cardoso, amadureceu com Lula e chega ao final com Dilma”, comentou o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito. “Mas a taxa básica de juros no Brasil sempre foi muito alta. É adequado, agora, que a redução da Selic seja feita com um pouco de calma.”

Perfeito projeta uma Selic de 8,5% no fim deste ano, mas não descarta uma revisão no cálculo. Segundo ele, embora as novas regras abram espaço para uma queda maior da Selic, existem outros fatores que precisam ser levados em conta. “Há problemas na carga tributária, problemas de inflação, que o governo tem de pensar com cuidado.”

Rapidez. Ontem investidores estrangeiros foram surpreendidos pela rapidez do governo na mudança das regras na poupança. Já estava claro que a estrutura teria de ser alterada em algum momento, mas o ritmo é considerado acelerado no exterior.

“O governo deveria esperar mais, o processo está muito rápido”, disse à Agência Estado o gestor para Brasil da britânica Somerset Capital Management, Kumar Pandit. Ele não esperava que o anúncio das novas regras poderia vir ontem, antes de novas quedas da taxa Selic.

Pandit adianta que terá de revisar algumas posições no mercado de ações do Brasil após as novas regras para a poupança. Ele acredita que a Bovespa poderá subir como reação de curto prazo, mas depois sofrerá com os temores sobre a alta da inflação. “No geral, não acho que é um movimento positivo do governo.”

“O tema foi acelerado”, concorda Luis Costa, estrategista de emergentes do Citigroup. Para ele, o câmbio será o principal termômetro do comportamento dos investidores estrangeiros nas próximas semanas. Embora o governo tenha como objetivo enfraquecer o real, uma queda muita rápida não é saudável, avalia. “Hoje não existe pânico (de estrangeiros), mas a preocupação aumentará se o real cair muito mais.”

MÁRCIO RODRIGUES, FRANCISCO CARLOS DE ASSIS E DANIELA MILANESE (DE LONDRES)

03/05/2012 - 09:25h Poupança deve ter rentabilidade igual a 70% da Selic

Por Claudia Safatle, João Villaverde e Monica Izaguirre | VALOR

De Brasília

Após cinco horas de reunião com a presidente Dilma Rousseff, ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega voltou ao seu gabinete para terminar o novo modelo de remuneração das cadernetas de poupança que o governo anuncia hoje. A base da proposta do Executivo, que será encaminhada por medida provisória para o Congresso, é garantir à caderneta uma rentabilidade equivalente a 70% da taxa Selic. Discutia-se, ainda, a possibilidade de se fazer uma escala conforme o valor dos depósitos. Até determinada faixa (R$ 50 mil ou R$ 70 mil, por exemplo), o poupador receberia 80% da Selic e acima desse valor, 70%. Para as aplicações já existentes não deve haver qualquer modificação.

A divulgação da medida, que originalmente seria feita ontem, foi adiada para hoje. A presidente terá, à tarde, vários encontros para obter apoio político à alteração das regras da poupança. Primeiro, com o Conselho Político e, em seguida, com as centrais sindicais e empresários. Antes, porém, deverá ter uma nova discussão com Mantega para fechar o texto final.

Tratada com extrema cautela pela presidente, pelo impacto político que pode gerar a alteração na rentabilidade da principal aplicação do pequeno poupador, a caderneta acabou tornando-se um entrave para a queda da taxa básica de juros, a Selic.

Atualmente ela é remunerada por juros fixos de 0,5% ao mês (6,17% ao ano) mais a variação da Taxa de Referência (TR), hoje de 0,02%, e isenção do Imposto de Renda. Com a eventual redução da Selic para 8,5%, a TR deve cair para zero e a isenção do IR será preservada. Os depósitos já existentes permanecem com essa regra.

Essa garantia legal de remuneração da poupança transformou-se, porém, num piso para o Comitê de Política Monetária (Copom) cortar os juros. As cadernetas, com a Selic em 8,5% ao ano, são mais competitivas do que as aplicações em fundos de investimentos e em títulos públicos.

Da forma como está hoje, o rendimento da poupança equivale a 68,5% da Selic (de 9% ao ano). Caso os juros caiam para 8,5% ao ano e a poupança tenha seu rendimento atrelado a uma taxa com 80% da Selic, a correção da caderneta seria de 6,8% ao ano – superior, portanto, aos 6,17% atuais. Com 70% da Selic, o reajuste passa a ser de 6,3%,

Na semana passada, Dilma pediu a Mantega que fosse “criativo” na elaboração de propostas.

A discussão mais imediata que surge em torno das mudanças na poupança é o que acontecerá com os recursos que financiam a habitação. Teotônio Rezende, diretor de habitação da Caixa Econômica Federal, diz que a mudança do cálculo preserva a atratividade da poupança como investimento justamente porque será atrelada à taxa básica de juro, que remunera os títulos públicos.

A velha discussão sobre a insuficiência do “funding” de poupança para garantir as concessões de crédito imobiliário nos próximos anos permanece. Para Fabio Nogueira, da Brazilian Finance & Real Estate (adquirida pelo banco PanAmericano), com a queda da taxa de juros, a poupança naturalmente perderá importância no financiamento imobiliário. “Os juros mais baixos já abrem espaço para as fontes alternativas de crédito para a habitação”, explica.

Para João Paulo Pacífico, sócio da securitizadora Gaia, do lado do tomador do financiamento habitacional, a poupança atrelada à Selic vai exigir que as pessoas tenham algum grau de segurança em relação à estabilidade da taxa básica. Se os juros subirem rapidamente, por exemplo, o valor da parcela das pessoas pode explodir.

Do lado do poupador, para Alberto Borges Mathias, professor da Universidade de São Paulo, a mudança preserva uma parte da simplicidade da aplicação da poupança, mesmo que venha com as escalas, o que preserva a atratividade para o pequeno poupador.

Lauro Emilio Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças da Fundação Getúlio Vargas, acredita que a mudança talvez faça sentido em um período de transição, já que não soluciona o fato de a poupança ser uma aplicação pós-fixada. Segundo ele, aplicações pós-fixadas comprometem a eficácia da política monetária.

Na avaliação de fonte ligada a um banco, a mudança não deve ter grande impacto para as instituições financeiras. De um lado, a medida vai reduzir a rentabilidade que os bancos vão pagar aos aplicadores da poupança, mas de outro o governo quer forçar os bancos a baixar as taxas de administração dos fundos. (Colaboraram Carolina Mandl, Talita Moreira, Aline Lima e Felipe Marques)

27/04/2012 - 10:35h Integração regional: Financiamento de projetos requer novo instrumento

VALOR

A adoção de novos mecanismos financeiros que permitam a participação do setor privado no desenvolvimento de projetos com iniciativa majoritariamente pública é fundamental para viabilizar e consolidar os programas de integração regional na América do Sul, defende Rômulo Ribeiro, economista e assessor especial da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

“É necessário avançar na direção de firmar instrumentos de financiamento que abram a possibilidade de co-financiamento, como é o caso do Banco do Sul, criado recentemente com a adesão de sete dos 12 países sul-americanos, que poderá atuar de forma complementar para viabilizar projetos de integração e oferecer garantias aos financiamentos”, explica Ribeiro.

Segundo o economista, o BNDES tem prestado consultoria técnica para a conformação e formatação do Banco do Sul, que aguarda apenas a ratificação pelo Congresso Nacional da adesão brasileira. O novo banco será sediado na Venezuela e pelo acordo dos sócios (Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai e Uruguai) terá US$ 7 bilhões para operações iniciais. O banco vai operar como uma espécie de BNDES continental e financiará, principalmente, projetos de governos e empresas em infraestrutura e de integração regional.

Do ponto de vista do Brasil, será um apoio complementar ao BNDES, que atualmente não pode emprestar para sócio estrangeiro de empresa brasileira que está investindo em outros países da América do Sul. “Eventualmente, qualquer problema localizado em qualquer país do continente, que seja do seu interesse do desenvolvimento econômico e social, poderá ser atendido pela operação do Banco do Sul. O Brasil é um defensor da priorização de projetos que tenham sempre desenvolvimento em termos de integração. Mas a ideia é buscar um equilíbrio constante entre intervenção regional, através de um organismo multilateral, com o fortalecimento da região, como ente econômico, vivo, porém, sem retirar dos países as suas decisões estratégicas”, diz Ribeiro.

Não se trata, claro, de acordo com o assessor especial do BNDES, de criar ferramentas de financiamento novas, a partir do zero. “Normalmente, essa não é a melhor opção”, comenta. O objetivo é de complementaridade à atuação dos vários organismos que já operaram na região.

O próprio BNDES é um dos maiores destaques. Entre 1998 e 2002, por exemplo, a média de volume desembolsado para exportações no setor de bens e serviços destinados a projetos de infraestrutura passou de menos de US$ 66 milhões ao ano, para US$ 202 milhões ao ano entre 2003 e 2006. Atingiu a cifra anual de US$ 1,1 bilhão no período entre 2007 e 2011.

O metrô de Caracas e Los Teques, na Venezuela, o Estaleiro Astialba e a Siderúrgica Nacional, na Colômbia, o Transmilênio, transporte urbano, no Equador, a Usina Hidrelétrica de São Francisco, no Peru, e a ampliação dos gasodutos TGS e TGN, no Uruguai, são alguns projetos de infraestrutura financiados pelo BNDES na América do Sul.

Outro organismo que vem tendo seu trabalho resgatado, no momento em que se abre discussão para consolidação de uma instituição multilateral, regional, é a Corporação Andina de Fomento (CAF), que nasceu há 40 anos como braço financeiro para apoiar o processo de integração do grupo andino, dentro do portfólio de projetos definidos pelo Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento (Cosiplan), da União das Nações Sul-Americanas (Unasul).

“Nossa tarefa tem sido a de apoiar o desenvolvimento econômico sustentável e do meio ambiente, combinando e aprofundando os processos de integração”, assinala Rolando Terrazas, diretor de projetos do Cone Sul da CAF/Banco de Desenvolvimento da América Latina.

Nos últimos anos, com recursos canalizados dos vários países membros, informa Terrazas, a CAF tem apoiado o trabalho da iniciativa privada nos setores de infraestrutura de transporte e energia, em especial. “Mas, adicionalmente, podemos financiar o setor privado produtivo por meio da outorga de créditos de longo prazo às empresas para a construção e compra de ativos, bem como por meio de linhas de crédito e capital de giro”, indica.

“Nosso objetivo agora é maximizar o financiamento na figura dos co-financiamentos, num esquema de cooperação com várias entidades de financiamento”, diz Rolando Terrazas.

Para Juan Pablo Rodrigues, assessor da presidência da CAF, a instituição vive um momento especial com a elaboração de um conjunto de produtos e programas visando aumentar a produtividade e estimular a competitividade no comércio nas regiões de fronteiras de vários países sul-americanos, como Argentina e Bolívia, Brasil e Peru, Uruguai e Argentina. Já está em andamento, por exemplo, o programa de suporte financeiro, no valor de US$ 1 milhão, para apoiar os governos da Colômbia e Venezuela na condução do projeto de ponte internacional Tienditas, no Tachira River (Venezuela), e o estudo de otimização da ligação Silvania Villa (Colômbia) -Tienditas (Venezuela). “São projetos desenvolvidos com fundos reembolsáveis e programas de cooperação técnica”, diz Rodrigues.

A atuação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como um parceiro adicional do setor privado nos projetos de integração da América do Sul é inquestionável, avalia Ricardo Carciofi, diretor do Instituto para a Integração da América Latina e do Caribe (Intal), do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Criado em 1950, o banco reforçou, a partir do ano 2000, seu foco na identificação de oportunidades e desafios de integração regional e hoje detém elevada capacidade para apoiar os programas de infraestrutura na região, destaca o executivo.

Há dois anos, os governadores do BID elevaram o capital social da instituição de US$ 7 bilhões para US$ 12 bilhões e decidiram que, até 2015, pelo menos 15% do financiamento total serão destinados a iniciativas de investimentos de integração regional e global, que deverão atingir US$ 1,8 bilhão. “Nós entendemos que os projetos de infraestrutura não funcionam por si só, mas precisam estar envolvidos por investimentos que criem facilidades de comércio e por acordos que promovam a cooperação entre os países”, afirma Carciofi.

Atualmente, informa ele, o BID trabalha com três linhas principais de financiamentos: empréstimos com garantia soberana ao setor público; uma janela exclusiva para o setor privado por meio do Departamento de Financiamento Estruturado e Corporativo, para financiar, sem garantia soberana, empresas privadas com faturamento superior a US$ 100 milhões; investimentos de menor escala (até US$ 100 milhões), para empresas privadas, pequenas e médias. Não é pura abstração ou teoria, reforça Carciofi. “Hoje, o BID opera com 28 projetos dentro da agenda de integração regional e tem 16 projetos operando com fundos não reembolsáveis, em ações complementares com outros organismos de financiamento”, destaca.

16/04/2012 - 11:36h Bancos europeus temem um rebaixamento coletivo

Risco de um rabaixamento em massa da nota de crédito de muitos bancos europeus preocupa o mercado e pode agravar crise na Europa.

VALOR

Os bancos europeus estão se preparando para uma onda de rebaixamentos em suas classificações de crédito nas próximas semanas, o que poderia intensificar a pressão sobre o já fragilizado setor bancário e ainda prejudicar os esforços recentes para aliviar a longa crise financeira que assola o continente.

Sob pressão dos bancos, a Moody’s Investors Service informou na sexta-feira que estava adiando até o início de maio a sua muito aguardada decisão sobre a possibilidade de rebaixar as classificações de crédito de 114 bancos em 16 países europeus.

A Moody’s anunciou a revisão em fevereiro, dizendo que ela era necessária em função das fracas condições dos bancos e do ambiente difícil em que eles estão operando. A empresa tinha planejado iniciar a divulgação dos resultados nesta semana.

A Moody’s informou em um comunicado que optou por “uma abordagem apropriadamente deliberada para esse processo de revisão e o concluirá quando estiver confiante de que toda a informação relevante foi recebida e processada”.

Embora a Moody’s não tenha revelado se vai rebaixar as classificações dos bancos, e em que grau o faria, funcionários de vários dos maiores bancos europeus disseram esperar que suas notas de crédito sejam empurradas pelo menos um degrau para baixo.

Os rebaixamentos iminentes dispararam uma corrida entre alguns credores e investidores, que temem que eles possam atiçar as brasas de uma crise latente.

Nas últimas semanas, à medida que a Moody’s se aproximava da conclusão de sua revisão, os grandes bancos tentaram convencer a empresa de classificação a não os rebaixar em vários degraus, segundo pessoas a par do assunto.

Essa não é a primeira vez que os bancos europeus se veem diante de um rebaixamento de suas classificações de crédito. Desde que a crise financeira global estourou, há quase cinco anos, a Moody’s e outras empresas classificadoras, como a Standard & Poor’s, reduziram várias vezes suas notas para os bancos.

Mas uma nova rodada de rebaixamento – a primeira na qual a Moody’s considera uma redução em massa da classificação de crédito de bancos europeus – ocorreria em um momento perigoso para o setor financeiro.

Muitos banqueiros e analistas esperavam que o pior já tivesse passado para o setor – que foi golpeado por perdas com empréstimos inadimplentes e investimentos em arriscados títulos de dívida de governos europeus – devido ao fato que o Banco Central Europeu colocou à disposição recentemente cerca de € 1 trilhão em empréstimos de baixo custo de três anos para pelo menos 800 bancos. Esses empréstimos em grande parte eliminaram o risco de um colapso abrupto de um banco devido a problemas de liquidez.

Mas os benefícios proporcionados por esses empréstimos começaram a se desvanecer. Em toda a Europa, as ações de bancos foram bombardeadas por temores renovados sobre a saúde financeira da Europa – uma tendência que continuou na sexta-feira, com acentuada queda nas ações de bancos espanhóis e italianos.

Um número crescente de analistas e investidores teme que os empréstimos do BCE tenham permitido que os bancos em dificuldades simplesmente adiassem o processo doloroso de limpar os seus balanços.

Como parte de suas revisões, a Moody’s está examinando o grau de dependência que os bancos têm desses empréstimos do BCE e “qual é a capacidade dos bancos de se desvencilharem desse financiamento”, disse uma pessoa a par do assunto.

Grandes empréstimos do BCE “geram a necessidade de uma fiscalização mais intensa” por parte da Moody’s sobre a saúde financeira dos bancos, disse essa pessoa.

Os custos associados com os rebaixamentos da Moody’s poderiam ser elevados, de acordo com documentos apresentados aos reguladores bancários e segundo pessoas a par do assunto.

Classificações mais baixas podem levar instituições avessas ao risco a retirar seus depósitos de bancos. Além disso, os bancos provavelmente serão forçados a colocar garantias adicionais em operações com derivativos e certos instrumentos de investimento, incluindo aqueles que agrupam créditos imobiliários securitizados, se suas classificações forem rebaixadas.

“Esse é um problema sério para todos os bancos europeus, especialmente dos países periféricos”, afirmou o presidente de um grande banco europeu, que espera ser rebaixado.

Por exemplo, o Deutsche Bank informou em seu relatório anual mais recente que um rebaixamento de um grau na sua classificação de crédito poderá expor o banco a “uma lacuna de financiamento” de € 45 bilhões.

O banco alemão destacou ainda que teria uma abundância de recursos à sua disposição para preencher essa lacuna, caso haja mesmo um rebaixamento. Um porta-voz do Deutsche Banco não quis comentar o assunto.

No Reino Unido, onde a Moody’s está examinando nove instituições bancárias para um potencial rebaixamento, o Royal Bank of Scotland Group e Lloyds Banking Group têm alertado seus investidores sobre a revisão à medida que se preparam para condições de financiamento mais desafiadoras, segundo pessoas a par do assunto.

O RBS alertou em alguns documentos apresentados aos reguladores recentemente que um rebaixamento de um grau pode requerer que o banco apresente um adicional de 12,5 bilhões de libras esterlinas (US$ 19,8 bilhões) em garantias. Um rebaixamento “poderia aumentar significativamente seus custos de empréstimos e limitar sua capacidade de emissão nos mercados de capitais”, afirmou o banco no documento.

O Lloyds divulgou recentemente que, se todas as grandes agências classificadoras rebaixarem a sua classificação de crédito em dois degraus, o banco poderia ter de apresentar um adicional de 28 bilhões de libras em garantias vinculadas a contratos financeiros com clientes e em financiamento garantido do banco. O banco também alertou que esses rebaixamentos “podem resultar em uma saída de 11 bilhões de libras do caixa”.

Tanto o RBS quanto o Lloyds, nos quais o governo do Reino Unido detém participação, têm grupos substanciais de ativos líquidos aos quais podem recorrer, se suas fontes de financiamento tradicionais secarem.

Representantes de ambos os bancos se recusaram a comentar a avaliação da Moody’s.

Alguns executivos de bancos argumentam que o impacto dos rebaixamentos provavelmente será limitado.

Eles observam que a Moody’s está seguindo os passos das empresas rivais, Standard & Poor’s e Fitch Ratings, que já rebaixaram muitos dos bancos que agora estão sendo revisados pela Moody’s.

Além disso, dizem eles, investidores e clientes dos bancos tiveram tempo suficiente para se antecipar aos rebaixamentos e, portanto, não serão surpreendidos.

13/04/2012 - 08:53h Cortar juros e spread é política de governo

Por Claudia Safatle – VALOR

De nada vai adiantar reduzir a taxa básica de juros se os bancos não tornarem o crédito mais barato para o tomador final. A presidente Dilma Rousseff decidiu comprar essa briga, instruiu o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a endurecer ontem com os bancos privados e definiu a estratégia para induzir o sistema bancário privado a cortar seus spreads. Medido pela diferença entre o que o banco paga na captação e o que ele cobra em seus empréstimos, o spread no Brasil é um dos mais elevados do mundo.

“Juros em níveis civilizados é o nosso Plano Real”, sintetizou uma fonte do Palácio do Planalto, dando a dimensão do que o assunto significa para o governo. Na quarta-feira, quando retornou da viagem aos Estados Unidos, a presidente esteve por mais de uma hora com Mantega.

No encontro, o ministro relatou as conversas da terça-feira com os representantes dos bancos privados e a postura da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), de passar a “bola” para a Fazenda, ao listar duas dezenas de propostas de medidas como precondição para reduzir o custo do dinheiro.

Mantega reagiu à Febraban após reunião com Dilma

Dilma considerou a reação dos bancos privados inadequada e recomendou ao ministro endurecer o jogo. Na noite da quarta-feira, sua assessoria avisou aos jornalistas que o ministro falaria ontem pela manhã sobre spread.

“O Murilo Portugal [presidente da Febraban], em vez de apresentar soluções, anunciando aumento de crédito, veio aqui fazer cobrança de novas medidas do governo”, disse Mantega. “Os bancos privados querem jogar a conta dos elevados custos do spread bancário nas costas do governo”, prosseguiu, e devolveu a “bola”, ao afirmar: “Os bancos têm margem para elevar o crédito no país sem que o governo tenha que mexer em nada”.

A Febraban apresentou um leque de sugestões para o governo, da redução dos impostos sobre a intermediação financeira à liberação de depósitos compulsórios, dentre outras medidas para melhorar as garantias dos bancos e o ambiente legal em casos de inadimplência. Cortar os impostos e aliviar o compulsório estão fora do radar do governo. As demais propostas podem ser analisadas, embora o clima entre o Palácio do Planalto e os bancos privados, que nunca foi de muita aproximação, tenha se azedado nesta semana.

Dois dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) reforçam os argumentos oficiais contra os altos spreads. Apenas o Zimbábue, numa lista de 137 países, tem essa margem maior do que a do Brasil. O spread médio naquele país é de 75 pontos percentuais e, aqui, está na casa dos 30 pontos percentuais, segundo estudo feito pelo FMI há dois anos e que retrata uma situação que não mudou muito de lá para cá.

De uma lista de dez países também selecionados em um trabalho do Fundo, feito no ano passado, os bancos no Brasil são os que têm a mais elevada taxa de retorno sobre o capital. Essa taxa é de 27,3% aqui, seguida de 23,4% no Canadá e de 20,6% na Austrália, dentre outros.

Dilma, desde a campanha eleitoral, está determinada a entregar o governo, em 2014, com juros reais na casa dos 2% ao ano, mais compatíveis com as taxas internacionais em tempos de normalidade. Esse é um objetivo que só faz sentido se reduzir o custo do capital para todos, consumidores e empresas.

No período em que a Selic caiu 2,75 pontos percentuais, de 12,50% em julho para 9,75% ao ano atualmente, no entanto o spread médio não teve nenhuma redução. Ao contrário, subiu de 27,4% em julho para 28,1%, segundo dados do Banco Central até fevereiro. Os dirigentes do setor privado alegam que essa margem cresceu por causa da inadimplência que, de fato, aumentou. Em entrevista durante a viagem aos Estados Unidos, Dilma considerou esse argumento uma mera “desculpa” ao comentar que a inadimplência na Europa hoje é elevadíssima e nem por isso os spreads cobrados pelos bancos europeus são os mais altos do mundo.

“Essa é uma briga de governo e a entrevista do ministro Mantega, hoje, não foi por acaso”, disse a fonte do Palácio do Planalto. Usar os bancos públicos – Banco do Brasil e Caixa – para liderar o processo de redução dos juros e dos spreads também “é uma política de governo”, completou, garantindo, ainda, que a presidente “tem uma estratégia”. Essa começa com a ação dos bancos públicos, cuja tática concorrencial é reduzir a margem, aumentar o volume de crédito e diminuir a inadimplência. Ao fim desse processo, acredita o governo, BB e Caixa sairão mais fortes e lucrativos. Mas haveria, também, outras armas que as fontes envolvidas nessa questão não antecipam.

A experiência da crise global de 2008/2009 foi emblemática para os bancos oficiais. Em dezembro de 2007 eles respondiam por 34,07% do crédito total e os privados, por 65,92% (sendo 43,82% dos nacionais e 22,1% dos estrangeiros). No auge da crise, o governo acionou suas instituições para ofertar crédito à economia, já que os bancos privados se retraíram e a recessão poderia ser mais profunda e duradoura. Hoje as instituições públicas detêm 43,78% do mercado de crédito e os bancos privados, 56,21% (38,99% dos nacionais e 17,21% dos estrangeiros), segundo dados do Banco Central de fevereiro.

Se o sistema privado não se mexer agora, pode perder mais mercado, avisou o ministro da Fazenda aos dirigentes dos bancos, na primeira reunião no fim de março.

A queda de braço entre governo e sistema financeiro em torno do spread é antiga, mas crises externas e internas sempre adiaram uma solução. Os bancos privados alegam que a margem bruta é elevada, mas há um oceano de custos envolvidos, parte deles impostos pelo governo, e o spread líquido (margem de lucro) obedece a padrões internacionais. A área econômica do governo rechaça essa tese e diz que já é hora de se discutir, no país, a produtividade e o lucro dos bancos.

Para o Planalto, a história está apenas começando. O que não está claro, no momento, é se o presidente da Febraban prosseguirá como o principal interlocutor do ministro da Fazenda.

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

E-mail claudia.safatle@valor.com.br

02/02/2012 - 08:11h ‘O Brasil e os outros emergentes são a joia da coroa’


Segundo executivo, banco vê grandes oportunidades de negócio no mundo ‘multipolar’ que surgiu com a crise iniciada em 2008

02 de fevereiro de 2012

LEANDRO MODÉ – O Estado de S.Paulo

Maior banco do mundo durante décadas, o Citigroup quase sucumbiu à crise das hipotecas de alto risco nos Estados Unidos. Só resistiu porque foi resgatado pelo governo americano. Passados mais de três anos do auge da confusão, o banco se reorganizou e definiu como prioridade a atuação nos países emergentes, entre os quais o Brasil. “Naquela época, teve gente que bateu na porta para dizer que tinha interesse na operação brasileira. O banco foi claro: o Brasil não está à venda. Ao lado dos outros emergentes, forma a joia da coroa”, relata o presidente do Citi no Brasil, Gustavo Marin.

Nesta entrevista, o uruguaio, que comanda a unidade brasileira desde 2005, fala sobre as apostas para os próximos anos no País, e revela que a sede para a América Latina pode ser transferida da Cidade do México para São Paulo. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O sr. tem falado pouco desde que o Citigroup teve os problemas, no auge da crise, em 2008.

Tanto no mundo quanto no Brasil, o banco esteve focado, no pós-crise de 2008, em reconstrução. Foram anos de muito trabalho para dentro. As orientações de nosso presidente (Vikram Pandit) foram claras: restabelecer a saúde financeira e redefinir a estratégia. Algo em que foi muito bem-sucedido. A crise da dívida europeia encontrou o banco muito bem preparado. No Brasil, não tivemos nenhum desses problemas, mas também foram anos de fortalecimento de time, de definir em que negócios gostaríamos de estar, de procurar eficiência.

Depois de arrumar a casa, já é tempo de olhar para fora?

2011 já foi um ano de sair para conquistar espaços. Foi um ano em que o Citi partiu para o ataque. Terminamos de montar o banco de investimentos. A crise internacional que veio na segunda metade de 2011 só acelerou esse processo, porque o Citi foi impactado de forma mínima em relação aos concorrentes. Isso criou grandes oportunidades. Esse foi o foco de 2011: ocupar espaços e crescer.

A que áreas o sr. se refere?

No banco de investimento, na área de pessoa física, em tesouraria, nas pequenas e médias empresas… Enfim, todas as linhas de negócio no Brasil tiveram expansão importante.

Quais são as prioridades?

O banco, em 2008, foi forçado a tomar decisões importantes. A mais importante foi definir em que negócios queria ficar. Eram cerca de US$ 650 bilhões em ativos para se desfazer. O grosso era banco de varejo em países desenvolvidos. A única coisa que decidimos vender aqui foi a participação na Redecard. Naquela época, teve gente que bateu na porta para dizer que tinha interesse na operação brasileira. O banco foi claro: não, o Brasil não está à venda. O Brasil, ao lado dos outros emergentes, forma a joia da coroa. Estamos presentes em mais de 100 países e temos capacidade para fazer negócio em 160. Antes, o mundo tinha Nova York e Londres, e todo o resto se conectava por meio dessas duas cidades. A crise mostrou que está surgindo um novo mundo multipolar. As conexões são diretas: São Paulo-Nova Délhi, Seul-Cidade do México, Pequim-Johannesburgo…

Como pretendem aproveitar o bom momento da economia brasileira? A unidade de varejo é pequena e tem foco na alta renda.

As pessoas esquecem alguns tipos de transações. Não estamos no negócio de varejo de agências, mas acessamos toda a pirâmide da população via Credicard. A Credicard atende essa nova classe média de uma forma muito inteligente. É uma empresa que pode vender 2 milhões de contas sem ter presença física na rua. Em um mundo cada dia mais conectado e digital, as pessoas vão pouco à agência. E isso só vai aumentar.

Mas os bancos de varejo, aqui, estão abrindo muitas agências.

Cada um tem a sua estratégia. Ao entender meus pontos fracos e fortes, não vou querer competir com um banco que tem 4 mil agências. Mas vou competir com as ferramentas que tenho: capacidade de acessar dados, venda remota etc. Tenho toda uma estratégia de pessoa física, com foco nas classes A e B, que me permite ter em Porto Alegre, por exemplo, 4, 5 ou 6 agências bem localizadas. O restante da população atendemos via Credicard. No atacado, temos visto o surgimento das pequenas e médias empresas. Estamos sistematicamente atacando esse público. Trazemos para o Brasil produtos e serviços bem-sucedidos em outros lugares do mundo, adaptados, claro, à realidade local.

Qual é o tamanho do Brasil na estrutura do Citi?

Estamos entre a 5.ª e a 6.ª maior operação no mundo.

O Citi está satisfeito com o tamanho que tem no Brasil?

Nunca estamos satisfeitos com o tamanho. Sempre queremos – e vamos – ser maiores.

Qual a estratégia para isso?

Crescimento orgânico. Sendo realista, neste momento, é difícil pensar que algum grande banco americano fará grandes aquisições mundo afora. Com a nova bateria de regulamentações (Basileia 3, entre outras), é difícil pensar nisso.

O HSBC mudou a sede da América Latina do México para São Paulo. O Citi tem algum plano semelhante?

Isso está sendo discutido.

Existe a possibilidade?

Sim. Está em estudo dentro de um plano de reestruturação das diferentes regiões do mundo.

Por que a discussão?

Em primeiro lugar, pela importância do Brasil. Poderia ser uma forma de sinalizar a importância do Brasil dentro da América Latina. Há ainda outras considerações internas para justificar (uma eventual mudança).

Quando haverá uma definição?

Não sei dizer.

Como o Citi vê a conjuntura global?

A Europa vai conseguir uma solução ao longo de 2012. Já prevemos o mundo crescendo de forma mais rápida em 2013. Nos EUA, o crescimento já surpreende. O impasse político (eleição de novembro) atrasa um pouco mais a recuperação nos EUA. Também vemos a Ásia crescendo. O risco de um pouso brusco na China está afastado.

Não há ruptura?

Exatamente. Esse cenário já é mais do que suficiente para que o Brasil cresça em torno de 3,5%. Sem ruptura, esse número pode até ser conservador. Além disso, o governo brasileiro tem ferramentas de dar inveja a outros países para enfrentar situações difíceis. Há espaço para mexer na política monetária, fazer política anticíclica e, além disso, o nível das reservas é elevado.

Quais são as principais oportunidades que o Citi enxerga no Brasil a médio e longo prazos?

Temos grande foco nisso que eu disse há pouco sobre o novo mundo multipolar. Isso cria fluxos de comércio exterior, de capitais, de investimento, que achamos que é uma enorme oportunidade. No passado, nossos banqueiros consumiam a maior parte do tempo visitando Nova York, Londres e outras partes da Europa. Hoje, investem muito tempo visitando clientes na China, Índia, Oriente Médio, outros países da América Latina. É impressionante. Estamos nos posicionando para aproveitar esses fluxos.

E os riscos? Há, por exemplo, quem tema pelo mercado de crédito no longo prazo aqui.

Os maus créditos se dão em bons momentos. Esse caminho (alta do crédito no Brasil) não vai acontecer sem altos e baixos, como a própria crise europeia mostra. As disciplinas básicas de ser um bom banqueiro nunca podem ser deixadas de lado. Não se pode relaxar no gerenciamento de riscos. Mas, deixando de lado esse dia a dia do banqueiro, os grandes riscos estão ligados à mão de obra e à infraestrutura. Pode faltar recursos humanos para abraçar as oportunidades que temos.

O sr. tem observado excessos na concessão de crédito no País?

Estamos sempre atentos ao grau de endividamento das famílias. Em algum momento, pode haver ajuste, detonado por fatores como uma parada na geração de empregos ou uma minirrecessão, com efeito sobre o desemprego. Nesse momento é que saberemos se houve excessos. Por isso, é importante avaliar o endividamento das famílias tão de perto.

Há uma percepção de que os bancos brasileiros são os mais lucrativos do mundo. É verdade?

Não. Os níveis são semelhantes. O problema é que o mundo passou por situações complexas nos últimos anos. Hoje, o mercado brasileiro está crescendo porque o Brasil está crescendo. Mas a Ásia também cresce. Ou seja, um banco aqui não ganha mais do que um banco lá.

18/01/2012 - 18:51h Grupo do Peru quer ter banco no Maranhão

Por Murilo Rodrigues Alves | VALOR

De Brasília

O grupo peruano ACP Inversiones y Desarollo pediu autorização ao Banco Central brasileiro para abrir um banco comercial em São Luís (MA).

A declaração de propósito, publicada ontem no sistema de normas do BC, é o primeiro passo para a instalação do banco no país. Se aprovado, a instituição será batizada como Banco Ideal e vai ter capital inicial de R$ 30 milhões.

O grupo que fez o pedido se define como uma associação civil sem fins lucrativos com sede em Lima, no Peru. No Brasil, o novo banco será administrado por um conselho de administração composto por sete membros titulares e cinco suplentes, e uma diretoria composta por até quatro diretores.

A autoridade reguladora brasileira dá um prazo de até 30 dias para que “eventuais objeções” à pretensão do grupo ACP Inversiones y Desarollo de se firmar no país sejam comunicadas ao BC.

Depois desse prazo, se não houver nenhuma objeção, o BC faz uma análise detalhada do processo que, entre outros documentos, deve conter estudos de viabilidade financeira, plano de negócios, definição dos padrões de governança corporativa, composição do grupo de controle e demonstração da capacidade econômico-financeira compatível com o porte, a natureza e o objetivo do empreendimento.

Se aprovado, a autoridade reguladora encaminha voto favorável ao Conselho Monetário Nacional (CMN), que reúne os ministros da Fazenda e do Planejamento e o presidente do BC. Se passar por essa instância, por se tratar de controle estrangeiro, o pedido tem que ser aprovado pela presidente da República.

Existem no Brasil 114 instituições financeiras cujo controle pertence a um grupo estrangeiro, segundo dados de novembro do BC. Nenhuma dessas instituições tem como controlador final um grupo com sede no Peru. O controle estrangeiro é determinado quando o grupo de fora possui participação de pelo menos 50% do capital votante.

05/01/2012 - 11:02h Crise pode afetar crédito na América Latina, diz FMI

05 de janeiro de 2012

O Estado de S.Paulo

As economias da América Latina enfrentarão recessão e aperto no crédito caso a crise de dívida europeia piore, afirmou Nicolas Eyzaguirre, diretor do Departamento para o Hemisfério Ocidental do FMI. Segundo ele, melhorar as finanças dos governos e afrouxar a política monetária deve ajudar os países latino-americanos a se prepararem para o pior.

“Não vemos uma recessão iminente na América Latina caso a crise europeia permaneça contida, mas um crescimento mais fraco claramente está nas cartas”, diz Eyzaguirre em um blog do FMI. Se a crise da Europa explodir e os bancos da zona do euro sofrerem falta de financiamento de curto prazo em dólar, a América Latina pode enfrentar a própria turbulência financeira.

22/12/2011 - 15:01h A austeridade e os banqueiros

Simon Johnson – Valor

Papai Noel chegou mais cedo, neste ano, para quatro ex-executivos da Washington Mutual (WaMu), um grande banco americano que faliu em 2008. A Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC, que garante os depósitos nos bancos americanos) tinha iniciado ações judiciais contra os quatro, centradas nos enorme riscos financeiros assumidos porque “sabiam que o mercado imobiliário caracterizava uma bolha”. A FDIC queria recuperar US$ 900 milhões, mas os executivos acabaram fechando acordo por US$ 64 milhões, dos quais arcarão com apenas US$ 400 mil, sendo o restante pago por suas seguradoras.

Sem dúvida, os executivos perderam seus empregos e agora precisam abir mão de suas reivindicações adicionais de indenização. Mas, de acordo com a FDIC, apesar disso, os quatro embolsaram mais de US$ 95 mil de janeiro de 2005 a setembro de 2008. Assim, eles se safaram com grande quantidade de dinheiro. Isso é o que acontece quando executivos financeiros são remunerados por “retorno sobre o patrimônio” não ajustado por riscos. Os executivos levam a melhor quando as coisas vão bem e quando riscos se concretizam eles nada (ou quase nada) perdem.

Algumas pessoas argumentam que os americanos precisam apertar os cintos. É pouco provável que uma onda de corte de gastos ajude a economia a recuperar os níveis de emprego. Mas o que dizer do apoio do governo às instituições financeiras?

Ao mesmo tempo, suas atividades – e atividades similares de outros banqueiros – são diretamente responsáveis, tanto pela alta dos preços das casas com por seu colapso danoso que se seguiu. Esse colapso impactou os não banqueiros de muitas maneiras negativas, especialmente através da perda de mais de 8 milhões de empregos.

O colapso também provou austeridade – os impostos estão sendo elevados e os gastos do governo estão caindo em nível local e estadual em todo o país. Há uma difícil negociação fiscal em nível federal pela frente, mas cortes e contrações de vários tipos parecem prováveis.

Algumas pessoas argumentam que os americanos precisam apertar os cintos. Essa é uma discussão interessante, especialmente num momento em que o desemprego está acima de 8% (com recentes declínios em grande parte resultantes da decisão de muitos trabalhadores desempregados de parar de buscar emprego e abandonar inteiramente a força de trabalho total). É pouco provável que precipitar uma onda de austeridade ajude a economia americana a encontrar seu caminho de volta para níveis mais elevados de emprego.

Mas o que dizer do apoio do governo aos grandes bancos? Será que isso está diminuindo, tendo em vista nossas atuais pressões fiscais? Infelizmente, não; persiste muito apoio governamental, implicitamente mantido mediante a política de não permitir o colapso de bancos “grandes demais para falir” e explicitamente por meio de diversos tipos de apoio proporcionado pelo Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA).

A lógica – ou, talvez devêssemos denominá-la ideologia – por trás do apoio aos grandes bancos é que eles são necessários para que a economia se recupere. Mas essa posição parece cada vez mais duvidosa, quando os bancos estão sentados em cima de uma pilha de dinheiro, enquanto consumidores e empresas merecedores de crédito estão relutantes em tomar empréstimos.

A mesma situação existe hoje na Europa, onde a realidade é ainda mais dura. Os bancos estão recebendo cada vez mais socorro, ao passo que, como resultado, os países que tomaram empréstimos estão cortando programas sociais e enfrentando crescentes tensões sociais e instabilidade política. Países como a Grécia, Itália, e, possivelmente, Portugal, estão superendividados, e agora seus cidadãos enfrentam graves consequências. Mas os banqueiros não sofrem nada por terem emprestado demais.

Sem dúvida, algumas das principais instituições financeiras europeias poderão agora enfrentar dificuldades, e – quem sabe – talvez alguns de seus executivos acabem sendo demitidos. Mas será que alguém acredita que as pessoas que afundaram os bancos europeus deixarão seus cargos com nada menos do que considerável fortuna?

Os manifestantes do movimento “Ocupar Albany” proclamaram recentemente uma firme declaração consensual, dizendo, em parte: “Os interesses daqueles que compram influência são recompensados à custa do povo, do qual deriva o poder do governo justo. Acreditamos que essa falha em nosso sistema está no cerne de muitas questões interligadas com que nos defrontamos, como sociedade, e que sua resolução é a chave para um futuro justo. Por isso exigimos democracia verdadeira, dissociada da influência corrosiva do poder econômico concentrado e conclamamos todos aqueles que compartilham esse objetivo comum a aliarem-se a nós e atuar nesse sentido”.

Os grandes bancos representam a última palavra em poder econômico concentrado nas economias contemporâneas. Eles são capazes de resistir a toda reforma significativa capaz de efetivamente mudar seus esquemas de remuneração. Seus executivos querem ficar com todo o lucro e, ao mesmo tempo, blindar-se contra todo e qualquer prejuízo real.

Mas um capitalismo sem a perspectiva de insucesso não merece a designação de economia de mercado. Estamos colhendo consequências um regime de subsídios em larga escala não transparentes e perigosos concedidos pelo governo em benefício de um punhado de gente extremamente rica.

Jon Huntsman, um candidato republicano à indicação para disputar a presidência, está abordando diretamente essa questão – insistindo em que deveríamos obrigar os maiores bancos a se desmembrar e tornar-se mais seguros. Nenhum outro candidato à presidência está encarando seriamente esse problema: simplesmente dizer “vamos deixá-los falir” não é uma resposta séria, quando o colapso de megabancos causaria tanto dano.

Devemos aprender tanto com o Washington Mutual como com o movimento “Ocupar”. Nos dois casos, a lição é a mesma: o poder financeiro concentrado é um presente que continua sendo dado – mas não para você.

Simon Johnson é ex-economista chefe do FMI, é cofundador do blog de economia, BaselineScenario.com, professor da MIT Sloan, membro sênior do Peterson Institute for International Economics, e coautor, com James Kwak, de “13 Bankers” (13 banqueiros).

16/12/2011 - 11:27h Bancos da América Latina podem lidar com piora na economia, diz Moody’s

Agência diz, no entanto, que ‘expectativas para as condições fundamentais de crédito dos sistemas bancários da América Latina para os próximos 12 meses são predominantemente estáveis’
16 de dezembro de 2011

Gustavo Nicoletta, da Agência Estado

SÃO PAULO – Os bancos da América Latina são capazes de lidar com a deterioração na economia mundial, pois possuem amplas reservas de capital e uma forte capacidade de geração de lucros, mas não escapariam dos impactos negativos provocados por uma piora significativa nas condições financeiras globais, de acordo com um relatório divulgado pela agência de classificação de risco Moody’s.

“A deterioração na dinâmica global pode afetar o desempenho dos bancos da região, principalmente se o crescimento desacelerar acentuadamente e as condições de financiamento enfraquecerem”, afirma a agência.

Em termos gerais, porém, “nossas expectativas para as condições fundamentais de crédito dos sistemas bancários da América Latina para os próximos 12 meses são predominantemente estáveis” e mudanças de rating “serão seletivas e resultado principalmente de condições idiossincráticas”.

Segundo a Moody’s, os bancos latino-americanos demonstraram estabilidade nos últimos anos, ao contrário de outras grandes instituições financeiras globais, que sofreram sucessivos rebaixamentos em seus ratings desde a crise de 2008. “Como resultado, alguns bancos do Chile e do Brasil estão hoje entre os melhores avaliados no universo dos bancos avaliados pela Moody’s.”

Parte desse prestígio é resultado da capacidade de geração de lucros robusta, amparada pelo número crescente de tomadores de empréstimo e por tarifas e spreads bancários razoavelmente altos. Os bancos da região também possuem amplas reservas de capital para contornar perdas com empréstimos, o que lhes permite suportar tensões significativas.

Outra característica particularmente positiva dos bancos da América Latina “é o perfil de financiamento, amplamente composto por depósitos domésticos e baratos que os tornam menos vulneráveis à atual volatilidade nos mercados globais”, diz a Moody’s.

A agência acredita que o desempenho dos bancos continuará saudável nos próximos meses, influenciado por condições favoráveis, como as pressões inflacionárias reduzidas e as políticas monetárias frouxas ou neutras.

16/12/2011 - 09:10h Risco oculto alemão pode ditar futuro do euro?

Weidmann, do Bundesbank: mais preocupação com as garantias do que com o volume dos saldos do BCE


Por Peter Coy | Businessweek – VALOR

Empréstimo involuntário é o que acontece quando seu filho adolescente descobre como comprar coisas usando seu cartão de crédito. O garoto promete devolver o dinheiro mas nunca faz isso, de modo que seu empréstimo involuntário continua aumentando. A uma determinada altura, você começa a perceber que poderá não receber o dinheiro de volta.

Algo parecido está acontecendo na Europa, exceto que a família disfuncional é formada por bancos centrais, com o Bundesbank da Alemanha no papel de pai aflito. É difícil descobrir os números, os formuladores de políticas não gostam de falar sobre eles, e a contabilidade está longe de atraente. Fora da Alemanha, as manchetes dos jornais têm sido poucas. Mas os números são enormes – tão grandes que poderão ser um dos maiores fatores responsáveis pela manutenção ou desmantelamento da zona do euro.

Você deverá ouvir mais sobre esse problema na medida em que o fulgor da reunião de cúpula em Bruxelas, em 8 e 9 de dezembro, for diminuindo e as pressões sobre a moeda única europeia aumentando. O termo a ser lembrado é “Target2″. Este é o nome do sistema de pagamentos interbancário do Banco Central Europeu (BCE), que subitamente passou a ser importante e que antes da crise era apenas uma parcela modesta da canalização financeira.

Créditos financiaram quase que a totalidade dos déficits em conta corrente de Portugal e da Grécia

O resultado: O Bundesbank da Alemanha silenciosamente e automaticamente emprestou € 495 bilhões ao BCE via Target2. Esse empréstimo equilibrou os enormes empréstimos correspondentes contraídos do Target2 pelos bancos centrais das nações mais fracas do bloco, incluindo a Grécia, Irlanda e Portugal – e ultimamente a Espanha, a Itália e até mesmo a França. Tecnicamente, eles são “direitos”, e não empréstimos. Para encontrá-los, você precisa escarafunchar as notas explicativas dos relatórios dos 17 bancos centrais nacionais da zona do euro.

Se a zona do euro se desmanchar em pedaços, a Alemanha poderá perder todo o seu direito de € 495 bilhões. Ele é 60% maior que o orçamento federal anual da Alemanha – e maior que os empréstimos sob o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês) e outros programas de ajuda que vêm recebendo um olhar mais crítico.

A condição da Alemanha dá a ela mais incentivos para manter a zona do euro intacta. “Se o euro entrar em colapso, todo o direito estará ameaçado”, afirma Hans-Werner Sinn, presidente da consultoria Ifo Institute de Munique. Sinn, o primeiro economista a chamar atenção para os desequilíbrios do Target2 no começo do ano, escreveu em uma nota de análise divulgada em novembro: “Essa poderá ser a maior ameaça à permanência da Alemanha na zona do euro”.

Ninguém planejou o Target2 para enredar a Alemanha como credora. Ele era o mais maçante sistema de processamento de transações de apoio imaginável quando foi lançado, em 2007/2008, como sucessor do igualmente maçante Target original (uma sigla para “Trans-European Automated Real-time Gross Settlement Express Transfer”, ou algo como Sistema de Transferências Automáticas Transeuropeias de Liquidações pelos Valores Brutos em Tempo Real). Nos primeiros dias da implementação do euro, a Alemanha nem sempre foi credora: ela tinha um passivo líquido de € 31 bilhões no fim de 2001.

Então veio a crise financeira de 2007/2008. As nações periféricas da Europa começaram a sofrer uma fuga de capital. Até então seus déficits comerciais crônicos eram completamente compensados pelas entradas de capital privado, tanto empréstimos como investimentos. Depois disso, os bancos e investidores ficaram mais receosos de aplicar mais e mais dinheiro nesses países. Euros começaram a sair da periferia da zona do euro em direção a Alemanha, e em menor grau para Luxemburgo, Holanda e Finlândia. Os desequilíbrios do Target2 são um reflexo contábil dessas saídas de recursos. De 2008 a 2010, estimou Sinn em sua nota, “os créditos do Target financiaram quase que a totalidade dos déficits em conta corrente de Portugal e Grécia e um quarto do déficit da Espanha”.

Euros começaram a sair da periferia da zona do euro em direção a Alemanha, Luxemburgo, Holanda e Finlândia

Isso o faz parecer uma decisão política de banco central, o que não foi. Numa escala micro, tratava-se nada mais que processamentos rotineiros de transações. As forças mais poderosas são as que não podem ser domadas, como o vento e as marés.

Eis como a coisa aconteceu. Quando um empresário grego compra um caminhão da Alemanha com dinheiro de uma conta corrente, a transação é realizada entre os bancos centrais das duas nações via Target2. O vendedor do caminhão não está interessado em financiar a operação – ele quer euros agora. Portanto, o Bundesbank precisa aparecer com o dinheiro para depositá-lo na conta corrente do vendedor. Em termos contábeis, o Bundesbank adquire um passivo (que é devido à conta corrente do vendedor do caminhão) e um ativo (um direito sobre o BCE).

A transformação do balanço do Bundesbank por meio desse processo lento, mas constante tem sido surpreendente – e para os alemães, que estão com o dinheiro curto, repulsivo. No fim de 2006, os direitos do Target representavam apenas 7% dos ativos do Bundesbank. Em outubro deste ano eles chegavam a 64%, segundo dados compilados pelos economistas Aarton Tornell, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e Frank Westermann, da Universidade de Osnabrück da Alemanha. A garantia que o BCE mantém contra esses empréstimos é principalmente a dívida soberana das nações mais fracas da zona do euro. Trata-se de algo muito distante do ouro, que é o segundo maior ativo do Bundesbank (17%).

Quaisquer perdas no Target2 devem ser divididas entre os 17 bancos centrais da zona do euro na proporção das parcelas que eles têm no capital do BCE, que no caso da Alemanha é de 28% do total. Mas como o banco central de um país que não consegue pagar o Target2 obviamente não divide as perdas, a Alemanha precisa entrar com ainda mais dinheiro. E, conforme observa Sinn, não há leis que venham a responsabilizar alguém pelo “direito” se a zona do euro se desmantelar totalmente.

O BCE está tentando se garantir contra os crescentes desequilíbrios do Target2. Em seu boletim mensal de outubro, ele disse que “a distribuição desigual da liquidez do banco central dentro do sistema do euro proporciona estabilidade, uma vez que possibilita bancos aos financeiramente sólidos – mesmo aqueles de países que se encontram sob estresse financeiro – a cobertura de suas necessidades de liquidez”. Mas o BCE não informa quais bancos centrais estão no azul e quais estão no vermelho no Target2, uma vez que as posições combinadas sempre resultam em zero.

Os 17 bancos centrais nacionais do bloco também não alardeiam seus números. No Bundesbank, os números mais atualizados estão disponíveis apenas em uma tabela obscura chamada “Time series EU8148: External position of the Bundesbank in the EMU / Claims within the Eurosystem / Other claims (net).”

Com o agravamento da crise financeira da Europa, o BCE com benevolência vem fazendo vista grossa à fraca qualidade das garantias apresentadas pelo Banco da Grécia e outros bancos centrais. Mas um ajuste de contas se faz necessário. Em uma entrevista concedida à “Bloomberg News” em 13 de dezembro, o presidente do Bundesbank Jens Weidmann demonstrou mais preocupação com as garantias do que com o volume dos saldos do BCE. “Numa situação como a atual, em que estamos proporcionando liquidez aos bancos solventes, para mim o tamanho dos saldos do Target2 é menos importante que os riscos que estamos assumindo. Minha preocupação é que precisamos limitar o máximo possível esses riscos”, disse Weidmann.

Uma teoria alternativa é que na verdade não há nada com que se preocupar. Karl Whelan, professor da University College Dublin, afirma que Sinn, Tornell, Westermann e outros economistas que levantaram a bandeira vermelha em relação ao Target2, estão sendo alarmistas. A Europa tem muitos outros problemas, mas “essa é uma crise que não vai acontecer”, escreveu Whelan recentemente em um artigo postado no VoxEU.org, um fórum voltado principalmente para economistas europeus.

Pode ser. O que vai acontecer em seguida vai depender de até onde a Alemanha está disposta a converter seu estimado banco central em um repositório de mais “direitos” sobre o BCE, que são em última instância garantidos pela dívida “junk” do sul da Europa. Para bancar mais dinheiro para o Target2, o Bundesbank poderia vender parte de seu estoque de ouro – o que é improvável – ou contrair mais depósitos em euros, que poderiam então ser recolocados em circulação através do BCE, o que é muito mais provável. “Em princípio, isso pode prosseguir indefinidamente”, afirma Ebrahim Rahbari, economista do Citigroup em Londres.

A Alemanha enfrenta um dilema familiar a todos aqueles que já fizeram um empréstimo ruim – continuar despejando dinheiro bom sobre o dinheiro ruim para manter o devedor respirando, ou puxar a oferta e sofrer as consequências desse movimento. O “direito” de meio trilhão de euros que o Bundesbank tem sobre o BCE é um fator importante, mas pouco entendido, nas decisões sobre o futuro do euro. Portanto, é interesse que todos os bancos centrais sejam mais transparentes quando o assunto é o Target2. Rahbari, do Citigroup, diz: “A partir do momento que você começa a considerar seriamente o desmantelamento como um cenário plausível, esses problemas provavelmente deveriam começar a receber mais espaço no debate público”.

(Colaborou Jeff Black)

(Tradução de Mario Zamarian)

09/12/2011 - 11:11h Bancos centrais se preparam para possível fim do euro

Por David Enrich, Deborah Ball e Alistair MacDonald | The Wall Street Journal – VALOR

Alguns bancos centrais da Europa já começaram a considerar planos de contingência para se preparar para a possibilidade de que os países deixem a zona do euro ou que a união em torno da moeda se desintegre, de acordo com pessoas a par do assunto.

Estão surgindo os primeiros sinais de que os bancos centrais estão pensando em como ressuscitar moedas baseadas em cédulas que já não são impressas desde que as primeiras notas de euro entraram em circulação, em janeiro de 2002.

Pelo menos um deles – o Banco Central da Irlanda – está considerando se precisará garantir acesso adicional às impressoras, caso precise produzir em série novas cédulas para sustentar o renascimento da moeda nacional, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto.

Fora da região dos 17 países que usam o euro, numerosos bancos centrais europeus estão de olho em medidas defensivas para se protegerem de efeitos colaterais adversos caso a zona do euro venha a se dissolver, disseram outras pessoas. Vários países, inclusive a Suíça, estão considerando possíveis substituições para o euro como ponto de referência externo, ou indexador, que eles usam para tentar manter estável o valor de suas moedas.

Os planos dos bancos centrais são preliminares, de acordo com uma pessoa a par do assunto. E não representam a expectativa de que a zona do euro esteja a caminho da dissolução.

Mas só o fato de que os bancos centrais estejam mesmo estudando essa possibilidade, que até poucos meses atrás estava fora de cogitação, ressalta como as condições estão se deteriorando rapidamente na Europa. Autoridades monetárias, bancos centrais e investidores em todo o mundo estão colocando suas esperanças no encontro de cúpula em Bruxelas esta semana para chegar à tão aguarda solução para a crise financeira do continente que já dura dois anos e foi iniciada pelas dúvidas sobre a capacidade dos países de pagar suas dívidas.

Há muito em jogo. Se os líderes europeus não conseguirem esfriar a crise, as dúvidas em relação à viabilidade do euro se intensificarão ainda mais. Muitas autoridades monetárias, banqueiros e outros especialistas temem que a dissolução da união vá não apenas reverter uma década de integração econômica, mas provocar também um caos financeiro.

Antes do lançamento formal do euro, em janeiro de 2002, um exército de organizadores gastou anos coreografando a logística do início da circulação da moeda, incluindo a impressão de bilhões de moedas e cédulas e a distribuição da nova moeda aos bancos e empresas em todo o continente. Desfazer o bloco, no mínimo, criaria uma grande confusão. Um dos vários desafios é que empréstimos e depósitos atualmente denominados em euros teriam que ser revertidos para outras moedas. E cada país teria que, individualmente, decidir se vão ressuscitar a antiga moeda e, nesse caso, com que rapidez voltar a produzir grandes quantidades de cédulas.

Em Montenegro, que usava o marco alemão antes de adotar o euro em 2002, as autoridades do banco central estão considerando quais seriam as opções, caso o euro deixe de existir. O país teria “uma grande variedade de alternativas, desde usar uma outra moeda internacional até introduzir uma moeda doméstica”, disse Nikola Fabris, economista-chefe do banco central de Montenegro. Mas a segunda opção esbarraria em um problema: Montenegro não está preparado para imprimir a própria moeda, disse ele.

A maioria dos bancos centrais da zona do euro mantém ao menos uma capacidade limitada de imprimir cédulas. Embora o Banco Central Europeu seja responsável por estabelecer a oferta de cédulas na zona do euro, a instituição, na realidade, não as imprime. O BCE delega esse trabalho aos bancos centrais dos países da zona do euro.

No ano passado, a Irlanda imprimiu 127,5 milhões de notas de 10 euros, de acordo com seu relatório anual. Este ano, estava entre os países encarregados de imprimir um total de 1,71 bilhão de notas de 5 euros.

Nas últimas semanas, autoridades do banco central da Irlanda tiveram discussões preliminares sobre a eventual necessidade de ampliar a capacidade de impressão no caso de uma ruptura da zona do euro ou caso a Irlanda deixe o bloco para retomar sua antiga moeda, a libra irlandesa, de acordo com pessoas a par do assunto. As autoridades já discutiram a reativação de antigas impressoras e a contratação de uma empresa privada, disseram as pessoas. “Estão sendo avaliadas várias coisas que não estavam sendo vistas há dois meses”, de acordo com uma pessoa que participou do encontro. Uma porta-voz do Banco Central da Irlanda não quis comentar.

Na Grécia, país que muitos consideram ser o que tem mais chances de deixar a zona do euro por conta de seus problemas fiscais, o banco central tem uma unidade de impressão de cédulas chamada Ieta. Construída em 1941, a gráfica localizada na região de Ática está aparelhada com “equipamentos modernos”, de acordo com o site do banco central grego. Mas nos últimos anos o trabalho de impressão em Ieta tem sido restrito. A Grécia tem sido um dos cinco ou seis países responsáveis pela impressão de lotes de notas de 10 euros, de acordo com o ECB.

Este ano têm fervilhado em Atenas rumores de que o Banco da Grécia estaria secretamente imprimindo dracmas, a moeda grega pré-euro. E-mails em tom de brincadeira circularam amplamente mostrando cédulas com a imagem do então primeiro-ministro George Papandreou. Os rumores foram em alguns momentos apontados como a causa das ondas de saque dos bancos de varejo da Grécia.

Um porta-voz do Banco da Grécia disse que a entidade não está buscando alternativas para ampliar sua capacidade de impressão. “Não houve nenhuma discussão sobre esse assunto”, disse ele.

Alguns euros são atualmente produzidos fora da zona do euro. Na cidade de Gateshead, no norte da Inglaterra, por exemplo, uma gráfica da De La Rue PLC imprime cédulas para vários países da zona do euro, de acordo com pessoas próximas do assunto.

A planta de Gateshead também é uma opção de reserva para o Banco da Inglaterra, que tem um contrato próprio com a De La Rue, para imprimir libras, de acordo com um porta-voz do Banco da Inglaterra.

A situação preocupa algumas autoridades do Banco da Inglaterra, de acordo com pessoas a far do assunto. O temor é de que, se a zona do euro se desintegrar, o parque gráfico de Gateshead possa ser soterrado por pedidos de nações que faziam parte do euro, para a impressão de suas moedas, disse a pessoa.

Embora alguns países da zona do euro tenham suas próprias gráficas, “podem surgir outras oportunidades em decorrência de uma possível desintegração do euro, já que muitos países menores não têm capacidade própria de impressão”, disse Tim Cobbold, diretor-presidente da De La Rue, num comunicado. Ele observou que normalmente são necessários cerca de seis meses para desenvolver uma moeda.

Na Suíça, que também não faz parte da zona do euro, o Banco Nacional da Suíça está considerando qual moeda ou cesta de moedas substituiria o euro como referência ou teto, de acordo com uma pessoa familiarizada com a situação.

Antes da criação do euro, o marco alemão era a principal referência para a Suíça – incluindo um período na década de 1970 quando o Banco Nacional da Suíça atrelou o franco ao marco para controlar a apreciação da moeda suíça. Hoje, assim como nos anos 70, a Alemanha é o maior parceiro comercial da Suíça, então, um novo marco alemão poderia em teoria substituir o euro, de acordo com a pessoa, embora o banco esteja considerando também outros cenários, como a formação de mais de um bloco cambial na Europa.

Autoridades do banco central da Bósnia e Herzegovina, cujo marco conversível é atualmente atrelado ao euro, poderiam adotar qualquer moeda forte que surja no caso da dissolução do euro, disse uma porta-voz. Antes de as autoridades na Bósnia terem atrelado a moeda ao euro, em 2002, eles a indexavam ao marco alemão.

A moeda da Letônia, o lat, também é indexada ao euro. O banco central não espera que o euro vá desaparecer, mas “pode-se esperar” que ele adote uma possível indexação a outra moeda entre as moedas de outros países europeus com “políticas fiscais prudentes” e com os quais a Letônia já tenha intensa relação comercial, disse um porta-voz do Latvijas Banka.

(Colaboraram Francesco Guerrera, Alkman Granitsas e Brian Blackstone)

23/11/2011 - 10:03h Crise europeia faz estragos na América Latina e outras áreas

Por Alex Frangos, Patrick McGroarty e Charles Roth | The Wall Street Journal, de Hong Kong, Johannesburgo e São Paulo – VALOR

Uma redução no financiamento por parte de bancos europeus começou a ser sentida por empresas da África, Austrália e América Latina, tornando mais caro e difícil tomar empréstimos e aumentando a pressão sobre economias em desaceleração.

Os bancos europeus aumentaram sensivelmente o crédito para os mercados emergentes e se tornaram alguns dos maiores credores internacionais nesses países. O recuo deles apertou o crédito para várias indústrias – aeronáutica, comunicação, mineração – prejudicando ainda mais economias que já sentem os efeitos da redução da demanda dos países desenvolvidos por suas exportações.

O temor agora é que mesmo um recuo modesto no crédito possa se transformar numa repetição do aperto de crédito de 2008 que ocorreu após o colapso do Lehman Brothers. Na época, a redução do crédito disponível forçou empresas a lutarem para garantir recursos e colaborou para o maior encolhimento do comércio mundial desde a Grande Depressão, nos anos 30.

“Estamos numa posição muito vulnerável que realmente está tendo um impacto no crescimento mundial”, disse Gail Kelly, diretora-presidente do banco australiano Westpac Bank, na conferência de diretores-presidentes CEO Council, promovida pelo The Wall Street Journal na semana passada. “Isso está tendo um impacto no meu país e na Ásia.”

O banco italiano UniCredit e o alemão Commerzbank prometeram nas últimas semanas reduzir as atividades de crédito fora de seus mercados domésticos, que são os seus principais. Alguns bancos franceses estão fugindo do mercado na Ásia e Austrália depois de se tornarem participantes significativos em vários empréstimos consorciados, em que os bancos se reúnem para emprestar grandes somas.

“O principal problema é a saída completa dos bancos franceses do mercado”, disse John Corrin, que dirige em Hong Kong a parte de empréstimos consorciados do Australian and New Zealand Banking Group Ltd. “Eles eram participantes consideráveis do mercado, respondendo por 10% desse empréstimos na Ásia e Oceania.”

O banco francês BNP Paribas SA, um dos maiores do mundo em ativos, informou mês passado que vai abandonar um compromisso de emprestar 300 milhões de dólares australianos (US$ 294,81 milhões) para um empréstimo consorciado de A$ 1,95 bilhão para a empresa australiana Seven West Media Ltd., deixando um buraco para ser tapado pelo resto do consórcio, formado principalmente por bancos da Austrália.

Um porta-voz do BNP Paribas em Sydney disse que a decisão se baseou “em exigências de alocação de reserva de capital e outras oportunidades”. O empréstimo era para ter sido concluído na sexta-feira mas não possível fazer isso. A Seven West Media não respondeu a um pedido para comentar a questão.

Os cortes no crédito estão sendo impulsionados pela pressão sobre os bancos europeus para aumentarem a reserva de capital e compensar assim prejuízos com empréstimos, muitos deles ligados a governos europeus problemáticos. Alguns bancos estão vendendo ativos e emprestando menos, o que torna os financiamentos mais caros e difíceis de obter. Essa combinação pode reduzir o crescimento econômico tanto em seus países quanto nos mercados distantes em que esses bancos operam.

Como a Europa tem um setor financeiro substancial que opera no mundo inteiro, os problemas da zona do euro estão tendo “efeitos maiores e desproporcionais, especialmente nas economias emergentes”, disse semana passada no CEO Council o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner.

Para piorar a pressão sobre o crédito, alguns bancos europeus estão tentando vender empréstimos para limpar seus balanços.

Isso acaba aumentando a oferta de empréstimos disponíveis para os bancos investirem e “tem um impacto negativo” na disposição dos bancos de participarem em novos empréstimos para empresas, disse Mark Leahy, diretor de concessão de empréstimos e consórcio de renda fixa para a Ásia, exceto Japão, da Nomura Securities em Cingapura. Isso vai acabar levando a uma alta nos custos de financiamento, disse ele.

A Embraer SA, quarta maior fabricante de aviões do mundo, informou que algumas companhias aéreas estão tendo dificuldade para conseguirem financiamento para a compra de novos aviões. “O mercado de capitais ainda está praticamente fechado para transações com aviões”, disse Frederico Curado, diretor-presidente da Embraer. “O crédito está muito seletivo, o que não necessariamente é ruim, com as companhias aéreas mais fortes recebendo termos mais favoráveis que as de nota de crédito pior.”

Vendas de aviões ainda estão sendo fechadas com financiamentos de agências de crédito para exportação e de empresas de leasing, disse ele.

Na Nigéria, o banco de investimentos Africa Finance Corp. está lutando para manter vivos dois acordos de US$ 200 milhões para projetos petrolíferos, depois que os bancos europeus recuaram dos negócios.

“Tem havido muita cautela entre os bancos europeus”, disse Osam Iyahen, diretor de petróleo e gás da AFC, da qual o Banco Central da Nigéria tem uma fatia. “Teremos de encontrar capital novo para tentar solucionar esse buraco até as coisas se acalmarem do outro lado do mundo.”

Os bancos da zona do euro iniciaram uma onda gigantesca de empréstimos para os mercados emergentes nos últimos anos, para tentarem se diversificar do lento crescimento de seus mercados domésticos. O crédito dos bancos da zona do euro para países emergentes aumentou quatro vezes de 2005 a meados de 2011, para US$ 2,4 trilhões, segundo o Royal Bank of Scotland e o Banco de Compensações Internacionais, ou BIS, que é tido como o banco central dos bancos centrais. Esse valor caiu quase 20% depois da crise do Lehman, mas começou a se recuperar no começo de 2010. Outra queda parecida causaria “contração e deslocamento significativos na economia e nos mercados”, segundo o RBC.

Os países mais expostos estão no Leste Europeu; na República Tcheca, por exemplo, os bancos da zona do euro emprestaram o equivalente a mais de 105% do produto interno bruto do país, segundo dados do BIS compilados pela RBC Capital Markets.

A América Latina é o segundo mercado mais exposto aos bancos da zona do euro, com empréstimos ao Chile equivalentes a 40% do PIB do país, seguidos por financiamentos da ordem de 18% do PIB no México e de 15% no Brasil. A Ásia é a região menos exposta. Os empréstimos da zona do euro para a China representam apenas 2% do PIB do país, e na Índia o porcentual é de 4%.

O diretor-presidente da maior mineradora do mundo, a BHP Billiton Ltd., alertou na assembleia de acionistas quinta-feira que pioraram os termos do financiamento comercial para os clientes do ferro, cobre e outras matérias-primas que ela produz, o que aumentou ainda mais a cautela deles.

(Colaboraram Robb M. Stewart em Melbourne e David Fickling em Sydney.)

06/11/2011 - 14:42h Os que ganharam muito dinheiro nas águas da crise financeira têm de restituir pelo menos uma parte à sociedade, opina o articulista

06 de novembro de 2011

TIMOTHY GARTON ASH É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD , E AUTOR DE FREE WORLD (PENGUIN UK) – O Estado de S.Paulo

TIMOTHY GARTON ASH

Das escadas da Catedral de St. Paul em Londres e da reunião do G-20 em Cannes capto esta mensagem para os banqueiros: vocês têm de nos dar alguma coisa de volta.

Por “banqueiros” quero dizer todos os que enriqueceram muito no setor financeiro nos últimos 25 anos. Por “alguma coisa” quero dizer dinheiro, como no belo suplemento de compras do Financial Times com seu título além da paródia: “Como gastar seu dinheiro”. Por “de volta” quero dizer de volta para a sociedade – nos seus países de origem ou no exterior -, que hoje está sofrendo com o resultado de uma crise iniciada com essas instituições financeiras; sociedade que depois teve de emprestar para algumas dessas instituições porque elas eram “grandes demais para falir”. E “dar” significa dar. Com o Natal já chegando, saquem seus talões de cheques, usem suas contas bancárias online, procurem instituições de caridade que realmente ajudem os pobres, os fracos, os aflitos, e doem apenas uma modesta parte dos seus (usem seus próprios adjetivos) ganhos. Será um pequeno passo para vocês, mas um passo enorme para aqueles que passam necessidade.

Existem pessoas muito ricas que doam com grande generosidade, às vezes sem desejar reconhecimento público. Muito louvável. Mas parece que fazer caridade não combina com riqueza – ao menos, não na Grã-Bretanha. Uma pesquisa do Conselho Nacional de Organizações Voluntárias e da Fundação de Ajuda às Instituições Beneficentes indica que, enquanto aqueles que ganham menos de £ 32 mil (US$ 51 mil) por ano doam em média mais de 1% da sua renda a instituições beneficentes, os que ganham mais de £ 52 mil (US$ 83 mil) anuais doam em média só 0,8%. Em proporção à renda, os menos favorecidos doam mais que aqueles em melhor situação.

O cálculo, sem dúvida, é complicado porque grande parte da riqueza das pessoas consiste em participações acionárias e outras formas não facilmente mensuráveis de capital ou propriedade. A Lista de Doações do Sunday Times, elaborada com base na sua Lista de Ricos (mais longa), estima que as doações feitas pelos cem principais filantropos do país totalizaram £ 2,49 bilhões (US$ 3,99 bilhões). Isso equivale a quase um quarto do total estimado de doações feitas por pessoas individualmente no mesmo ano, que totalizaram £ 10,6 bilhões (US$ 16,9 bilhões). O que não sabemos é quanto foi calculado para o restante das aproximadamente 5 mil pessoas com um patrimônio pessoal de no mínimo £ 20 milhões (US$ 32 milhões), cujas obrigações fiscais são geridas por uma unidade de monitoramento dos contribuintes que têm as maiores receitas líquidas dentro da receita federal britânica. Mas muitos deles podem doar muito mais sem que isso afete seu estilo de vida.

John Low, diretor executivo da CAF, pediu essa semana que as pessoas doassem ao menos 1,5% de sua renda às instituições de caridade todo ano, com o porcentual aumentando para os mais ricos. Uma iniciativa que se originou em Oxford chamada Dando o que se Pode (www.givingwhatwecan.org) estabeleceu uma meta ainda mais ambiciosa: você se comprometeria a doar pelo menos 10% de seu rendimento anual.

Com um utilitarismo inflexível e rigoroso, esse grupo, liderado pelo filósofo de Oxford Toby Ord, sugere que se deve doar para as instituições de caridade que têm um impacto mensurável em termos de salvar vidas e outros índices. O grupo fornece uma ferramenta de cálculo online (http://www.givingwhatyoucan.org/resources/what-you-can-achieve.php), que indica que se você doar um décimo de uma renda de £ 100 mil libras (US$ 160 mil) por ano nos próximos dez anos, poderá salvar 368 vidas – ou financiar 55.193 anos de ensino para crianças nos países em desenvolvimento. Se a consciência o levar a concentrar sua atenção nos que passam por necessidades no seu país (desenvolvido), o retorno quantitativo será menor, mas ainda assim, substancial.

Por que destacar os banqueiros? Não são apenas eles, naturalmente. O argumento ético serve para todos em boa situação. E se aplica com força aos diretores executivos com salários absurdos das maiores companhias. Mas há algo particular no caso dos banqueiros, cuja conduta coletiva e erros de julgamento tiveram um papel fundamental para nos lançar nessa confusão.

Eles tinham acesso mais rápido a ativos líquidos enormes do que as pessoas que trabalham na maioria das outras atividades. E ficaram com a parte do leão dos lucros. Esses lucros foram calculados sobre os ganhos anuais das instituições, com provisões inadequadas contra os riscos de longo prazo. Os negócios que aumentaram esses lucros foram motivados pelo conhecimento de que se traduziriam, em questão de meses, em imensas bonificações que esses executivos levariam para casa. “Sejamos honestos”, disse John Nelson, novo diretor do mercado de seguros do Lloyd’s, à rádio BBC, “a crise foi criada tanto pelas remunerações quanto por tudo o mais”.

E, quando o colapso ocorreu, eles simplesmente sumiram, com nada mais sério do que um nome levemente sujo. Que diferença em relação àqueles sócios anteriores com responsabilidade individual ilimitada na imperturbável velha City londrina, onde meu pai e avô trabalharam nos dias em que as operações eram mais corretas.

Outros desses banqueiros do novo estilo seguiram trabalhando, tendo seus bancos resgatados por nós, os contribuintes. Neste Natal voltarão para casa com bonificações imensas, para as quais não há justificativa. E, quando digo que não há justificativa, quero dizer que não há justificativa. Somos constantemente lembrados de que essas imensas recompensas devem ser pagas porque há um pequeno grupo de super-homens e supermulheres que seriam cooptados por Frankfurt, Nova York ou Xangai caso não recebessem tanto. Conversa fiada, baboseira. Existe um pequeno grupo de fantásticos violinistas, autores, empreendedores e jogadores de tênis. Estes merecem colher recompensas. Roger Federer, J. K. Rowling, Yehudi Menuhin, valem cada centavo do que recebem. Já os banqueiros….

Tive amigos na universidade que decidiram se tornar banqueiros 30 anos atrás. Estavam entre os mais brilhantes e mais trabalhadores de nós. Mas será que eram de fato insubstituíveis? Não. De excepcional, apenas a opulência com a qual essa profissão específica, neste momento específico, os presenteou. Em questão de poucos anos, me sentei com um deles em meio a uma série de encartes oferecendo propriedades multimilionárias nos subúrbios, e o ouvi explicar: “Pois é, a City tem me tratado bem”. Ah, a glória do eufemismo.

Não estou dizendo, como dizem muitos dos manifestantes diante de St Paul’s, que precisamos de uma alternativa ao capitalismo. Em vez disso, o que precisamos é um capitalismo alternativo, mais para o da Escandinávia que para o dos cassinos. Não estou dizendo, nos moldes neovitorianos, que a caridade individual poderá solucionar os problemas subjacentes. Para tanto, precisamos de mudanças estruturais: barreiras, ou mesmo uma separação completa, entre os bancos comerciais e os bancos de investimento (de modo que possamos deixar que esses últimos quebrem); o reembolso das bonificações que se mostrarem injustificadas distribuído em múltiplos anos; um imposto para as transações financeiras; e assim por diante. Outra coisa que não estou dizendo é que esses banqueiros fossem más pessoas. Diante de tamanhas tentações, quantos de nós teriam resistido?

Tudo que estou dizendo é: eis aqui algo que um particular grupo que enriqueceu muito depressa, ao que tudo indica, às custas dos outros, pode fazer para ajudar imediatamente. Chame de reparação, se quiser. Chame de fazer a coisa certa. Chame do que preferir. O importante é que seja feito. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO E AUGUSTO KALIL

13/10/2011 - 08:57h Banco latino-americano está ao largo da crise

Por Felipe Marques e Marcelo Mota | VALOR

De São Paulo e do Rio

Se nos bancos da União Europeia o clima está mais para um longo inverno russo, nas instituições financeiras da América Latina o humor é de verão carioca. Enquanto a União Europeia corre para blindar o sistema financeiro contra os efeitos de um calote grego, a expectativa é que os bancos latinos escapem de solavancos mais graves com a crise que se avizinha e entrem de vez no radar dos investimentos de bancos estrangeiros.

Para Franklin Santarelli, diretor-executivo da Fitch e responsável por instituições financeiras na América Latina, na medida em que as instituições financeiras internacionais deixam de lado seus braços de banco de investimento e passam a se focar em operações de consumo, a América Latina, com uma série de países em franco crescimento de crédito, fica mais atraente.

Na opinião dele, há uma tendência de que grandes bancos internacionais busquem oportunidades de aquisição em países latinos com menor concentração bancária. Ele cita a disputa entre Scotiabank, Itaú Unibanco e Banco do Brasil pelo colombiano Copatria como exemplo desse caso.

Oscar Rivera, presidente da Federação Latino-Americana de Bancos (Felaban), também acredita que os bancos latinos estão em alta. “As economias da América Latina são as mais quentes entre os emergentes”, diz. Contudo, para ele, o crescimento maior não virá tanto de investimentos estrangeiros. “Os bancos latinos estão crescendo dentro da América Latina”.

Santarelli também descarta que os bancos latinos passem por problemas de captação de recursos, algo que já afeta instituições da Europa. “Há uma dependência menor de recursos vindos de mercados de capital no funding dos bancos da América Latina”.

Para a Standard & Poor’s, que nesta semana rebaixou o sistema financeiro espanhol, não há razões para alterar a perspectiva sobre a classificação de risco dos bancos brasileiros. Segundo a diretora-executiva responsável pela área de análise da agência no Brasil, Milena Zaniboni, os bancos de varejo estão atrelados à perspectiva positiva para o rating do próprio país. “O sistema brasileiro é muito voltado para o mercado doméstico, a exposição a passivos externos é baixa”, disse Milena.

Nos bancos médios, a dependência das fontes de recursos de mercado já pesam sobre o rating, em média alguns graus abaixo da nota conferida aos bancos maiores. Para esses, lembrou Sergio Garibian, analista de bancos da S&P, o custo de captação está mais caro desde a crise do banco PanAmericano, no ano passado. No início deste ano, ele frisou, alguns bancos aproveitaram o momento mais tranquilo no mercado para captar no exterior e se calçaram. Também não há alteração em vista nesse grupo, as perspectivas se mantêm as mesmas que já vigoram.

Santarelli, da Fitch, e Rivera, da Felaban, destacam o cenário especialmente positivo para bancos de Peru e Colômbia. Ambos têm baixos índices de bancarização, o que cria oportunidades para crescimento, e passarão por grandes obras de infraestrutura, com espaço para se oferecer crédito.

Apesar de todo o ânimo, Rivera acredita que o crescimento dos bancos latinos deve desacelerar em 2012, em especial no 1º trimestre. Porém ele afirma que esse será um fenômeno global, não exclusivo da região.