29/08/2008 - 09:41h Um dos pilares do capitalismo brasileiro

Olavo Setubal

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Rubens Barbosa * - O Estado de São Paulo

Foi na transição do período autoritário para a democracia que conheci Olavo Setubal. Indicado por Tancredo Neves, em 1985, para o Ministério das Relações Exteriores, fui convidado para chefiar seu gabinete, o primeiro diplomata chamado por ele para integrar sua equipe. Naquele primeiro governo civil depois de tantos anos, ele teria preferido ser ministro da Fazenda, mas acabou no Itamaraty, sem jamais, como ele mesmo dizia, ter passado em frente à porta do Ministério.

A proximidade no dia a dia me privilegiou acompanhar de perto o homem público que, como prefeito de São Paulo e depois como ministro das Relações Exteriores, marcou presença na política brasileira, além de criar e consolidar uma das maiores instituições financeiras nacionais que é o Grupo Itaú.

A gestão Olavo Setubal no Itamaraty foi curta, de menos de um ano, e lamentavelmente interrompida pela aventura, logo abortada, de disputar o governo do Estado de São Paulo em 1986. Dias depois de deixar o Ministério, num domingo, o dia da convenção, chamou-me por telefone de São Paulo para contar que acabava de retirar sua candidatura. Disse-lhe, com a lealdade e a franqueza que caracterizava nosso relacionamento, que não me surpreendia pois o partido me parecia mais interessado no apoio financeiro que poderia representar do que na sua candidatura. Perdia São Paulo um eventual grande governador e o Itamaraty o grande ministro que já estava sendo.

Lembro quando, em seu primeiro dia como ministro, recebeu o ex-perseguido político Miguel Arraes que vinha da Argélia para pedir o apoio do Itamaraty para o Sarauí, um movimento revolucionário que lutava pela independência do Marrocos. Doutor Olavo ouviu-o longamente e depois que Arraes saiu, perplexo, indagou de seus principais assessores: “Que movimento é esse ? Em São Paulo, nunca ninguém ouviu falar de Sarauí”.

Mesmo após sua saída do Itamaraty, ao longo de minha carreira, continuei a manter estreito e estimulante contato com dr. Olavo, como carinhosamente o chamávamos. Tínhamos longas conversas e o assunto era sempre Itamaraty, política nacional e internacional. “E o nosso Itamaraty como anda?”, era pergunta sua habitual.

Sempre muito bem informado, dr. Olavo era um arguto analista da cena política e econômica brasileira. É verdade que de seu ponto de vista, ou seja, o de um moderno banqueiro nacional.

Certa vez, disse-me ter cometido em sua carreira de homem público, dois grandes erros: o primeiro foi não ter aceitado o convite do MDB para candidatar-se ao Senado em 1974 quando cedeu a vaga a Severo Gomes, e o outro, o de não ter permanecido no Itamaraty.

Apesar da curta passagem pelo Ministério das Relações Exteriores, Olavo Setubal deixou sua marca ao promover a aproximação com a Argentina e, com isso, dar início ao processo de integração do Cone Sul, e também quando, solitariamente, decidiu pela adesão do Brasil ao Grupo de Contadora, formado para apoiar a Nicarágua, em uma região que estava, naquele momento, longe das prioridades do Itamaraty. Essas duas decisões tomadas por Setubal, com reservas de boa parte da burocracia itamaratiana, representou uma renovação e uma guinada nas prioridades da Chancelaria em relação à América do Sul. A chamada “diplomacia de resultados”, inspirada por sua trajetória de empresário e por sua sensibilidade de político, teria certamente introduzido novas e modernas práticas de gestão na Casa assim como, creio eu, teria mudado muitas das percepções tradicionais da atuação diplomática.

Acredito também que, se tivesse permanecido como ministro do Exterior até o fim do governo Sarney, e com o respaldo de uma administração brilhante no Itamaraty, poderia ter sido reservado ao político Olavo Setubal, um papel de relevo no tabuleiro da sucessão presidencial.

Da convivência assídua e próxima com dr. Olavo ficaram-me lições profissionais importantes que procurei levar para as posições de chefia que ocupei pelos 20 anos subseqüentes: coerência nas opiniões, visão clara das prioridades, realismo nas decisões e foco em resultados.

Olavo Setubal tinha uma clara percepção em relação ao futuro do Brasil. Confiava nos avanços da democracia e da economia. Realista, dizia que PIB é poder, indicando que de nada adianta arroubos na política externa sem uma base econômica sólida. O Brasil só teria uma posição importante no concerto das nações na medida em que o PIB crescesse, a economia se estabilizasse e a moeda se fortalecesse.

Nos últimos anos, deixando a presidência do Itaú para Roberto Setubal, mas permanecendo à frente do Conselho da holding Itaúsa, concentrou-se na estratégia do grupo financeiro e industrial. Soube educar os filhos e prepará-los para uma sucessão tranqüila na direção da instituição.

Tornou-se um grande colecionador de objetos de arte, o que ajudou a transformar o Itaú em um diversificado e importante acervo de objetos, esculturas e pinturas.

Viúvo de Tide, mãe de seus sete filhos e, mais tarde, ao lado de sua segunda mulher, a extraordinária Dayse, pôde dedicar-se a fazer o que o trabalho e sua dedicação ao Itaú antes não permitiam: viajar, sobretudo para a Europa, onde merecidamente aproveitava da boa mesa e do bom vinho. Nos últimos dois ou três anos, apesar de debilitado e com crescente dificuldade de locomoção, continuou interessado pela vida, pelas artes e pelo Brasil, que acaba de perder um de seus filhos mais ilustres, exemplo de cidadão e um dos pilares do moderno capitalismo brasileiro.

*Rubens Barbosa foi chefe de Gabinete do ministro Olavo Setubal

29/08/2008 - 09:33h Apesar da alta dos juros, confiança da indústria é a 2ª maior desde 1995

Indicador medido pela FGV cresce 1,1% este mês, como resultado da elevação do emprego e da produção

Márcia De Chiara - O Estado de São Paulo

A alta de 1,75 ponto porcentual na taxa básica de juros (Selic), iniciada pelo Banco Central (BC) em abril, até agora não abalou a confiança dos empresários da indústria. Isso se traduz em boas perspectivas de produção e vendas para o fim de ano e num risco adicional para o BC, que está preocupado com o ritmo da demanda.

O Índice de Confiança da Indústria (ICI) apurado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) atingiu neste mês 122,8 pontos. O resultado de agosto foi o segundo maior nível da série histórica iniciada em abril de 1995. Ficou atrás apenas do indicador de outubro do ano passado (123,4 pontos). Na comparação com agosto de 2007, o ICI aumentou 0,7% este mês. Em relação a julho, a alta foi 1,1%.

“Na média da indústria, a confiança está se mantendo em níveis elevados, depois de ter passado por um período de desaceleração em abril e maio”, afirma o coordenador da Sondagem da Indústria de Transformação e responsável pelo ICI, Aloisio Campelo.

A FGV consultou cerca de mil indústrias - que, juntas, faturam R$ 567,1 bilhões por ano - entre os dias 1º e 26 deste mês. O economista destaca que a confiança da indústria cresceu neste mês, impulsionada principalmente pelo índice de expectativas para três meses. “O resultado do índice de expectativas surpreendeu”, diz Campelo.

Em julho, o índice de expectativas, que estava em 118,5 pontos, atingiu 121,2 pontos neste mês, marca recorde do indicador na série histórica iniciada em 1995. Os três componentes do índice de expectativas, que são a produção e o emprego previsto para três meses e a situação dos negócios para seis meses, tiveram resultados favoráveis neste mês. Aumentou de 49% em agosto de 2007 para 53% em agosto deste ano o número de indústrias que esperam ampliar a produção no terceiro trimestre. “O resultado é favorável e aborta os indícios de desaceleração que apareceram em maio.”

A previsão de contratações para o período de agosto a outubro também é positiva para a indústria. De acordo com a enquete, 35% das empresas declararam que pretendem contratar mais no terceiro trimestre, ante 34% delas em agosto de 2007 e no mês passado. Quando se analisa os dados do emprego previsto com ajuste sazonal, o nível atingido neste mês se equipara ao de setembro do ano passado, quando o ritmo des crescimento estava acelerado, observa Campelo.

“O índice de situação dos negócios para os próximos seis meses não atingiu níveis recordes, mas a combinação dos três fatores (produção prevista, emprego previsto e negócios em seis meses) é favorável para o desempenho futuro da indústria”, comentou.

CAPACIDADE

A sondagem industrial revela também que houve aumento do uso da capacidade instalada das fábricas neste mês. Em julho, o uso da capacidade, sem ajuste sazonal, estava em 86,1% e subiu para 86,5% em agosto. Apesar do aumento, o resultado ainda é inferior ao de novembro de 2007 (87,2%).

Com ajuste sazonal, o uso da capacidade instalada neste mês atingiu 86,2%, ante 86,1% em julho e 86,8% em junho. “O indicador de uso da capacidade está alto, porém andando de lado”, observa Campelo. Na sua opinião, isso mostra que os investimentos na ampliação das fábricas estão em fase de maturação. Apesar desse relativo conforto, o uso da capacidade no setor de materiais de construção atingiu neste mês 91,4%, o mais alto desde janeiro de 1993.

25/08/2008 - 10:13h Brasil lidera investimento entre países emergentes

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Brasil é o ”queridinho” entre as principais economias emergentes

 

 

País está a frente de China, Índia e Rússia

 

 

País registra a maior taxa de crescimento de investimento direto estrangeiro de 2006 para 2007, revela Unctad

 

 

 

Patrícia Cançado - O Estado de São Paulo

A mineradora sul-africana Anglo American viveu dois milagres econômicos no Brasil. Mas foram necessários 24 anos para apostar de fato suas fichas no País, onde fincou sua base em 1973. Até o ano passado, a operação brasileira da Anglo era a lanterninha entre as dez subsidiárias. A entrada em minério de ferro, com a compra da MMX do empresário Eike Batista, colocou a filial em outro patamar.

Hoje aparece entre os três maiores destinos de investimentos do grupo, ao lado do Chile e da África do Sul. Só essa área vai receber US$ 10 bilhões até 2010, sendo 55% apenas neste ano, um recorde na história da multinacional e talvez o maior desembolso feito por estrangeiros neste ano de uma só vez. “O Brasil entrou no radar da Anglo. A companhia decidiu apostar alto porque quer participar desse crescimento”, diz o presidente da Anglo Ferrous Brazil, Alexandre Gomes.

O “radar” da Anglo dá a medida da importância que o Brasil ganhou no cenário internacional. Entre 2006 e 2007, o País teve o maior crescimento de investimentos diretos estrangeiros entre as economias emergentes, à frente de China, Índia e Rússia, segundo a Unctad, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. O volume dobrou - saiu de US$ 18,8 bilhões para US$ 37,4 bilhões. Até julho deste ano, encostou em US$ 20 bilhões, o que leva a acreditar que o País deve atingir neste ano o mesmo patamar de 2007, contrariando a tendência mundial, que aponta queda de 37% no fluxo de investimentos.

Quando a expressão Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) foi cunhada pelo banco Goldman Sachs, há sete anos, economistas do mundo inteiro questionaram a presença do Brasil. Até 2006, ainda não havia consenso se o País poderia ou não fazer parte do bloco que dominaria a economia em 40 anos. O banco revisou suas análises e o manteve na lista.

Ainda assim, para muitas multinacionais e fundos de participação estrangeiros, o Brasil só foi redescoberto mais recentemente. “O País está passando por novas fases de crescimento, diferente dos vôos de galinha de antes. Os investidores agora conseguem enxergar a longo prazo”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luis Afonso Lima.

O avanço em alguns aspectos macroeconômicos é indiscutível. Com a inflação sob controle, os juros em queda, a melhora na renda e a maior oferta de crédito, o consumo disparou, fazendo a festa das montadoras, das construtoras, das empresas de alimentos, dos bancos, das fabricantes de eletroeletrônicos e do varejo de forma geral.

O Brasil ainda perde em termos de tamanho e custo de mão-de-obra, mas os estrangeiros estão sendo atraídos principalmente pelo crescimento do mercado local. Nesse quesito, o País já ganha da China, iguala-se à Índia e só perde para a Rússia, segundo levantamento da Unctad e elaborado pela Sobeet.

O acesso a recursos naturais e a mão-de-obra eficiente faz o Brasil ter preferência dentro dos Brics. Daí o espantoso interesse da Anglo American, da ArcelorMittal, que na semana passada pagou US$ 830 milhões por uma única mina de ferro em Minas Gerais, e das petrolíferas. Isso, sem falar no etanol, que fez uma legião de gringos construírem ou apenas visitarem usinas por aqui.

O Wal-Mart, no País desde 1995, não teria reservado um investimento de R$ 1,8 bilhão para o próximo ano se não confiasse num bom cenário. Neste ano, a classe média tornou-se maioria (51%). Desde 2004, a rede americana já aplicou R$ 3 bilhões na operação brasileira, sendo R$ 1,2 bilhão neste ano. Hoje a filial é referência para outros emergentes.

O último presidente, Vicente Trius, assumiu no ano passado a operação da cadeia de supermercados na Ásia. A expectativa em Bettonville, sede do Wal-Mart, é que ele repita do outro lado do mundo a experiência tida aqui. O Carrefour chegou a cogitar sair do Brasil por dificuldades em competir com o alto grau de informalidade no setor. Em 2007, deu o recado contrário ao pagar R$ 2,2 bilhões (à vista) pelo Atacadão.

DESTAQUES

US$ 37,4 bilhões
foi quanto o Brasil recebeu de investimento direto estrangeiro em 2007

US$ 18,8 bilhões
foi quanto o Brasil captou de investimento direto estrangeiro em 2006

99,3% foi a taxa
de crescimento no período

23/08/2008 - 09:51h USA: a cratera da crise das hipotecas


O ônus das hipotecas

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Jenny Anderson* - O Estado de São Paulo

Quando as ações da Fannie Mae e da Freddie Mac despencaram, as ações de companhias financeiras padeceram. Mas poucas sofreram tanto quanto as do Lehman Brothers, o encrencado banco de investimento cuja ação perdeu mais de 10% em 11 dias do último trimestre.

Nos últimos 12 meses, o preço das ações da Freddie recuou 95%. Nesse período, o Lehman caiu 76%. O índice financeiro Standard & Poor’s diminuiu 42%. A título de comparação, o Merrill Lynch caiu 68% e o Citigroup, 64%.

A conexão entre Lehman, Fannie e Freddie é clara, diz Richard X. Bove, analista da Ladenburg Thalman. “Os negócios do Lehman são mais amplos que os da Fannie e da Freddie, mas o vínculo é que eles estavam fazendo a mesma coisa - montando pacotes hipotecários e os vendendo”, diz ele.

Ademais, o banco de investimento e as agências patrocinadas pelo governo retinham as hipotecas, que agora estão gerando prejuízos e obrigando as empresas a levantar capital num mercado que não se mostra muito disposto a fornecê-lo.

Os infortúnios do setor imobiliário se espalharam por Wall Street. O Merril Lynch deu baixa de US$ 45 bilhões e o Citigroup de US$ 49 bilhões nos ativos. Eles também embarcaram na farra das hipotecas, e seus acionistas e empregados agora estão pagando o preço.

Mas o Lehman ficou no centro do furacão por causa de seu tamanho menor, sua exposição significativa em hipotecas - cerca de US$ 61 bilhões em hipotecas e ações lastreadas em ativos - e sua aparente relutância em adotar medidas drásticas.

O Citigroup vendeu sua grande franquia alemã de banco de consumo, enquanto o Merrill Lynch se conformou e vendeu um portfólio de US$ 31 bilhões de obrigações de dívida colateralizada relacionada a hipotecas por 22 centavos por dólar, além de sua participação na Bloomberg LP. O Lehman não quis comentar seus planos.

Depois de um trimestre desastroso, analistas rebaixaram suas estimativas para o terceiro trimestre do Lehman. Onde haviam previsto um pequeno lucro, eles agora esperam uma baixa contábil de até US$ 4 bilhões e um prejuízo de US$ 3,30 por ação no trimestre.

Na quinta-feira, Bove elevou a classificação do Lehman para compra, mas isso não confortará os funcionários do Lehman. Ele diz que a companhia está madura para um take over (compra de controle acionário) hostil por causa do desencontro entre o que os investidores pensam que a companhia vale e o que a administração pensa que ela vale - bem mais.

“Os investidores não estão dispostos a aceitar nenhuma visão positiva da companhia; a administração não está disposta a vender por um valor profundamente deprimido”, escreveu Bove. “O palco está pronto para uma oferta hostil pelo controle da companhia inteira.” Com a incerteza reinante nos mercados, não está claro que compradores poderiam se apresentar.

O Lehman vem tentando sair da encrenca. Depois de perder US$ 2,8 bilhões no segundo trimestre, sobretudo por conta de baixas em investimentos em imóveis residenciais, ele levantou US$ 6 bilhões.

Depois de explorar os mercados e diluir a participação de acionistas, está ficando sem opções. Ele colocou à venda seus negócios lastreados em hipotecas comerciais e aproximadamente US$ 40 bilhões de investimentos em imóveis comerciais, segundo pessoas envolvidas nas negociações.

Ele também está buscando ofertas para sua divisão de administração de investimentos, incluindo o muito valorizado complexo de fundos Neuberger Berman, segundo fontes envolvidas nas discussões. Também está tentando vender uma participação a fundos de riqueza coreanos, segundo uma pessoa informada das discussões.

O banco de investimento está tentando agressivamente reduzir o risco em seu balanço com a venda de alguns ativos (no segundo trimestre, o Lehman vendeu US$ 22 bilhões em ativos ilíquidos de um total de US$ 147 bilhões em ativos).

Patrick Pinschmidt, um analistas do setor financeiro para o Morgan Stanley, disse num relatório de pesquisa no fim de julho que não esperava que as vendas de ativos e baixas contábeis seriam tão grandes como no segundo trimestre. Mas “vemos o Lehman continuando a reduzir exposições em imóveis comerciais de olho na redução de seus ativos ilíquidos totais em outros US$ 20 bilhões até o fim do ano”, ele escreveu.

Os investidores estão ficando cada vez mais nervosos com a falta de um plano declarado da administração, enquanto outras condições econômicas enfraquecem. O crescimento global está se desacelerando e o panorama para a Fannie e a Freddie continua nebuloso. Some-se a isso a contínua deterioração do mercado de hipotecas comerciais e residenciais, e o Lehman tem encontrado pouca margem de manobra.

Segundos dados que a Standard & Poor?s divulgou na quinta-feira, mais de 41% das hipotecas subprime contraídas em 2006 estão inadimplentes - uma proporção menor que as do Merrill Lynch e do Morgan Stanley, mas maior que as do Credit Suisse e do JP Morgan (O Lehman não precisa necessariamente reter os papéis hipotecários em pacotes para vender, embora seja mais provável que ele retenha mais pedaços desses que de outros.) Hipotecas para pessoas com o crédito um grau acima do subprime (alto risco), chamado Alt-A, estão sendo leiloadas. A Standard & Poor’s estima que mais de 21% dessas hipotecas feitas em 2006 estejam inadimplentes.

Para agravar ainda mais o panorama já tétrico do setor hipotecário, o desempenho geral dos mercados de capitais está ruim no terceiro trimestre - uma questão para todas as empresas, mas de novo, que parece atingir mais duramente o Lehman.

Os spreads de crédito aumentaram em algumas classes de ativos e grandes empresas continuaram mostrando fraqueza.

Segundo pesquisa do Goldman Sachs, a subscrição de dívida - um grande negócio do Lehman - despencou. Para o setor, a subscrição de dívida garantida por ativos caiu 47% em relação ao trimestre anterior, e a emissão garantida por hipotecas caiu 28%. No total, as emissões garantidas por ativos caíram 80% em relação ao terceiro trimestre de um ano atrás, e as ofertas garantidas por hipotecas caíram 87%.

Para o Lehman, a subscrição de dívidas garantidas por ativos caiu 89% desde o segundo trimestre, e 94% de um ano atrás; a subscrição de dívidas hipotecárias recuou 44% ante o trimestre anterior e 94% ante um ano atrás.

Bove vê todo esse clima ruim como uma oportunidade para um investidor hostil abocanhar o Lehman Brothers, cuja capitalização de mercado recuou para US$ 9,5 bilhões.

“Se vai acontecer, eu não sei”, disse ele. “Poderia acontecer? Seguramente. Oportunidades como essa raramente aparecem nos mercados.”

*O autor escreve para o “The New York Times”

09/08/2008 - 13:54h DEM-PSDB: durante 4 anos o dinheiro do SAMU quase não foi usado e ficou no banco ou na publicidade

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04/08/2008 - 14:01h Emprego e renda em alta estimulam o avanço do crédito

Crédito imobiliário cresce 30%

Além do crédito ao consumo, o financiamento destinado à compra da casa própria também tem apresentado forte expansão nos últimos meses. Segundo dados do Banco Central (BC), até junho o volume de operações realizadas com pessoas físicas e cooperativas habitacionais havia somado R$ 52,5 bilhões - valor 30,4% superior ao verificado em igual período do ano passado.

Apesar da alta da Selic, a expectativa é que o mercado continue em expansão. Uma das explicações é a ainda baixa relação entre os financiamentos e o Produto Interno Bruto (PIB). Segundo dados do Banco Central (BC), o crédito imobiliário representa hoje apenas 1,7% do PIB. No Chile, esse número é de 15%; no México, de 11%; e, na Espanha, de 44%. A expectativa é que a modalidade termine o ano com 2,3% de participação no PIB.

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Cenário econômico mais previsível permite a concessão de empréstimos com menor risco de calote

Márcia De Chiara - O Estado de São Paulo

O forte aumento do crédito, apesar da alta da taxa de juros pelo Banco Central (BC) está relacionada ao bom momento da economia. Segundo o vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel Ribeiro de Oliveira, além dos prazos mais longos do crediário, hoje o nível de emprego está elevado e sem previsões de desaceleração, o que incentiva a concessão de crédito com menor risco de inadimplência.

O desemprego medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) recuou de 8,5% em abril para 7,9% em maio. Com isso, a taxa média no ano foi 1,6 ponto porcentual abaixo da registrada no mesmo período de 2007. Descontadas as influências sazonais, o desemprego, que estava em 8% em abril recuou para 7,6% em maio, o menor nível da série histórica iniciada em 2002.

Também o rendimento médio real teve alta de 2,4% de janeiro a maio, enquanto o pessoal ocupado cresceu 3,9%. Resultado: a massa salarial real cresceu 6,4% em maio em comparação ao mesmo mês de 2007 e continua sendo o fator-chave para o crescimento da demanda doméstica, apontado na última ata do Comitê de Política Monetária (Copom), do BC.

O diretor da RC Consultores, Fábio Silveira, destaca que hoje a liquidez é muito maior que no passado. “Não podemos comparar o choque de juros atual com os da década de 90.” Naquele período, em razão dos sucessivos ciclos de inadimplência, os recursos eram escassos para as empresas, que imediatamente cortavam os prazos dos empréstimos que concediam quando as taxas subiam.

“Hoje a história é outra”, diz ele, ponderando que, mesmo com esse aperto, a economia vai crescer cerca de 4%. Na opinião de Silveira, o aparente descolamento entre a alta dos juros e o ritmo de atividade é transitório. “O impacto dos juros demora um pouco mais, mas vai ocorrer.”

Para o sócio-diretor da MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros, o crédito já está ficando mais escasso, mas ressalta que o patamar de consumo é elevado. As vendas do comércio devem fechar o ano com crescimento de 9% contra 9,7% em 2007. “Vamos crescer mais lentamente”, diz o economista. Ele observa que, quando há crescimento econômico “a fila anda” e novas camadas de renda ingressam no mercado de consumo, o que ocorre hoje.

ECONOMIA PREVISÍVEL

O que explica esse aparente descolamento entre a política monetária e o crédito é o fato de a economia estar mais previsível, observa o diretor Financeiro do Banrisul, Ricardo Hingel. É exatamente essa previsibilidade de crescimento econômico e do emprego, que não existia no passado, que está fazendo com que os consumidores continuem comprando e os bancos emprestando por prazos mais longos, observa.

“Os prazos não foram encurtados porque o mercado está competitivo”, afirma Hingel. Ele acrescenta que a maior disposição dos bancos para o crédito resulta do fato de a Selic ser hoje menos atrativa para as aplicações em títulos do governo. Cinco anos atrás, quando a Selic era superior a 20% ao ano, a rentabilidade das operações de tesouraria era maior. Hoje a taxa é de 13% ao ano. Isso explica porque sobram mais recursos para as operações de crédito ao consumo.

“A liquidez hoje é excessiva”, afirma o economista da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo. Para ele, o BC atua sobre as expectativas do mercado subindo os juros, mas o lado real da economia é dado pela demanda e esta continua forte. Na opinião dele, a alta dos juros começará a fazer efeito na economia real no último trimestre deste ano ou no primeiro trimestre de 2009.

FINANCEIRAS

O relatório de Crédito do BC, divulgado semana passada, mostra que o spread, a margem do banco que é diferença entre o custo de captação e a taxa do empréstimo destinado às pessoas físicas, aumentou 1,2 ponto porcentual, de 33,5% em maio para 34,7% em junho. A inadimplência do consumidor, medida pelo atraso superior a 90 dias, ficou praticamente estável em 12 meses até junho e teve um acréscimo de 0,7 ponto porcentual de maio para junho.

“O resultado dos bancos neste semestre deverá ser melhor do que nos primeiros seis meses deste ano. O momento é favorável para instituições financeiras”, afirma o diretor Financeiro do Banrisul, Ricardo Hingel. Para Oliveira, da Anefac, o cenário atual terá impacto positivo para os bancos. Nos últimos tempos, os lucros dos bancos têm se superado a cada semestre. Nesta semana começa a ser divulgada a segunda safra de balanços de 2008, referente ao segundo trimestre do ano.

O superintendente de Economia da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Nicola Tingas, rebate com argumentos a perspectiva de que os lucros dos bancos irão aumentar por causa da conjuntura de juros elevados e prazos longos.

Tingas diz que, nos últimos tempos, o custo de captação aumentou e o risco de inadimplência também. Esses dois componentes reduzem, na avaliação dele, os ganhos das instituições financeiras, apesar de as taxas de juros terem subido.

FRASE

Fábio Silveira
Diretor da RC Consultores

“Não podemos comparar o choque de juros com o da década de 90. É outra história”

Ricardo Hingel
Diretor do Banrisul

“Os prazos não foram encurtados porque há competitividade”

29/07/2008 - 12:07h Exagero

VALOR

Do ponto de vista econômico, o Brasil mudou (e para melhor) desde 1994, quando se iniciou o bem-sucedido Plano Real. Do ponto de vista político-social a mudança (também para melhor) já havia começado com a Constituição de 1988. Ela talvez tenha sido muito generosa, o que tem exigido um aumento de carga tributária que certamente não estimula o crescimento. Em compensação, tem permitido um processo redistributivo que dá aos cidadãos o sentimento de que cresce a igualdade de oportunidade, condição necessária para a ratificação e continuidade, nas urnas, de uma boa política econômica.

Os principais indicadores mostram que somos hoje uma economia normal. Nos últimos três anos registramos: 1) um crescimento médio do PIB de 4,1%; 2) uma taxa média de inflação de 4,4%; 3) um saldo médio em conta corrente de US$ 9,8 bilhões (1% do PIB); e 4) uma redução anual da relação dívida/PIB de 1,3%. Em 2007 crescemos 5,4%, com uma inflação de 4,5% e com um saldo em conta corrente ligeiramente positivo (0,1% do PIB). São todos sinais vitais de uma economia que se prepara para crescer robustamente. O fator que destoa desse quadro é a nossa teratológica taxa de juro real. Ela é há muitos anos a campeã ou vice das quantas que vigem no mundo civilizado. A figura abaixo mostra a barbaridade.

A única explicação plausível para esse fato - que nega todas as mais sofisticadas, que acabam não sendo “explicações”, mas apenas “justificações” - é que, num ato de desespero diante de uma crise externa, escolhemos um arriscado mecanismo de financiamento da dívida interna, que nunca mais tentamos seriamente corrigir. Tudo muito ligado à oportunista valorização do câmbio de 1995-1998 (com taxas de juros reais de 20% ao ano!) para a redução da taxa de inflação. É esse extravagante nível da taxa de juro real que torna problemática a nossa política monetária.

Estamos agora diante de uma inflação planetária produzida pela conjugação de vários fatores: 1) uma enorme desvalorização da unidade de conta do comércio internacional, o dólar americano; 2) uma expansão dos emergentes (China, Índia e seus satélites), facilitada pelo próprio déficit em conta corrente dos EUA, que desequilibrou a oferta e a procura mundiais de alimentos, metais e petróleo e elevou seus preços; e 3) uma política monetária laxista dos bancos centrais dos países desenvolvidos que, além do mais, não controlaram a imoralidade implícita nos incentivos construídos pelas sofisticadas inovações do seu sistema financeiro. A inflação planetária é confirmada pela tabela abaixo, onde se revela a taxa de inflação anual média entre 1996 e dezembro de 2006, comparada com a de janeiro de 2007 a maio de 2008 em países desenvolvidos, que representam mais de 50% do PIB mundial. Como a inflação é global, é claro que seu controle exigirá um compromisso entre todos os bancos centrais.

É preciso lembrar que o Brasil beneficiou-se largamente de sua integração mundial e que, portanto, o preço dos seus bens transacionáveis são fixados no mercado internacional e internalizados pela taxa de câmbio flutuante. Quando a taxa de juros real interna é parecida com a internacional, esse mecanismo é bastante razoável. A inflação de hoje em um país particular é em parte “importada”, mas pode também ser adicionalmente (ainda que não necessariamente), estimulada por um excesso de demanda interna. Isso torna mais difícil e delicada a tarefa de um Banco Central responsável, que precisa manter a taxa de inflação dentro da “meta” sem desatentar para as conseqüências do seu excesso de zelo sobre o nível de atividade produtiva, do emprego e do equilíbrio fiscal, que no Brasil é cada vez mais precário.

Tudo bem considerado e ponderado, não parece impróprio questionar como extravagante o recente aumento da nossa taxa Selic em 75 pontos. Ele pareceu mais o resultado de uma necessidade infantil de afirmação de independência da autoridade monetária, estimulada pelas espertas “tesourarias” que a candongam. Se há dúvidas sobre tal demonstração para reforçar uma falsa “credibilidade”, não há dúvida sobre seu objetivo: aprofundar a já desastrosa valorização do real. É apenas o mesmo expediente oportunístico de controlar a taxa de inflação à custa da higidez do sistema produtivo e do futuro equilíbrio fiscal. Diante de tanta incerteza, a virtude exigiria um pouco mais de paciência e conservadorismo: 50 pontos estaria de bom tamanho, até que os outros bancos centrais explicitem o que vão fazer…

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

21/07/2008 - 08:40h Paulson vai à TV para tranqüilizar americanos

Secretário do Tesouro dos EUA foi a programas das redes CBS e CNN para dizer que depósitos bancários até US$ 100 mil estão protegidos

Agências Internacionais, Washington - O Estado de São Paulo

O secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, participou de dois programas de TV, o Face the Nation, da CBS, e o Late Edition, da CNN, ontem para tentar tranqüilizar a população dos Estados Unidos de que os depósitos bancários de até US$ 100 mil estão protegidos. Ele assegurou que o sistema bancário do país é sadio. No entanto, alertou para mais tempos difíceis pela frente. “Acredito que levará meses para que superemos essa fase.”

Apesar do cenário pouco animador, o secretário se mostrou confiante na aprovação, dentro do Congresso, de uma série de medidas propostas pelo governo para ajudar as gigantes hipotecárias semi-estatais Fannie Mae e Freddie Mac. “O Congresso entende a importância dessas instituições”, disse otimista de que o sinal verde será dado.

O presidente George W. Bush afirmou ontem que as duas empresas têm um papel central no sistema hipotecário e são fundamentais na concessão de créditos em momentos difíceis como o atual.

As medidas surgiram depois que o governo americano resolveu intervir no IndyMac, um dos maiores bancos de hipotecas dos Estados Unidos, quando correntistas retiraram mais de US$ 1,3 bilhão em apenas 11 dias. As autoridades decidiram passá-lo para a administração da Sociedade Federal de Seguro de Depósito (FIDC, na sigla em inglês). Foi o quinto banco a falir nos EUA neste ano, a exemplo do Bear Stearns.

Para o secretário do Tesouro, o número de bancos com problemas vai aumentar à medida em que lutarem para enfrentar grandes perdas de hipotecas ruins. “Claro que a lista vai aumentar dado o estresse que temos no mercado e à correção no mercado imobiliário. Mas, de novo, é um sistema bancário seguro. Nossos reguladores estão no controle dele. É uma situação controlável”, garantiu.

Durante as entrevistas, Paulson fez questão de lembrar que ninguém perdeu um centavo sequer num depósito segurado nos 75 anos em operação da FIDC. “Nós estamos passando por um período desafiador da nossa economia. São tempos difíceis. Os três maiores problemas que estamos enfrentando agora são: primeiro, a correção do mercado imobiliário que está no coração de um processo de desaceleração; segundo, a turbulência nos mercados de capitais; e terceiro, é alto preço do petróleo, que deve prolongar a desaceleração da economia”, avaliou.

Porém, ele apóia sua confiança na solidez econômica do país. “Nossa economia tem fundamentos de longo prazo muito fortes. E vocês sabem, as autoridades daqui, os reguladores, estão todos muito vigilantes”, disse.

20/07/2008 - 11:47h “O Brasil está no lado “ganhador” e esta havendo uma boa administração no geral”

“Estou certo de que já estamos em recessão”

Para economista americano, crise nos EUA pode se agravar. Mas Brasil está no lado ganhador das ‘commodities’

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ENTREVISTA Paul Krugman

Às vésperas de vir ao Brasil — onde dará palestras, no Rio e em São Paulo, quarta e quinta-feira — Paul Krugman vê a economia brasileira como “uma das partes vigorosas do mundo”. Em entrevista por telefone, Krugman não se mostra otimista com os EUA que, na sua opinião, já estão em recessão. Tampouco mostra ânimo com as eleições americanas — aprova o democrata Barack Obama, mas o considera moderado demais. Autor de diversos livros (o mais recente, “The Conscience of a Liberal”, ainda não lançado em português), professor de Princeton e colunista do “New York Times”, Krugman acredita que o mundo vive o terceiro choque do petróleo e alerta que não há muito o que fazer para conter a inflação global

Luciana Rodrigues - O GLOBO

O GLOBO: A crise financeira americana pode se agravar?

PAUL KRUGMAN
: Sim, pode piorar. Mas, agora, estou menos assustado do que estava no início deste ano. Tivemos uma crise que levou a um colapso completo da confiança no sistema. Agora, apesar de algumas falências (de bancos) e da crise na Fannie Mae e na Freddie Mac (grandes companhias hipotecárias dos EUA), os problemas estão ocorrendo numa parte da economia em que há mecanismos muito bem estabelecidos para lidar com isso. Pode haver uma corrida a bancos, mas os depósitos estão assegurados. As duas grandes financiadoras imobiliárias, Fannie e Freddie, são parcialmente patrocinadas pelo governo. Então, é ruim que a crise continue atingindo as instituições. Mas, de certa maneira, o quadro agora é mais controlável. Porém, a economia real continuará sofrendo, e estou certo de que já estamos numa recessão.

Uma recessão nos EUA afetará o mundo da mesma forma do que no passado?

KRUGMAN
: O contágio será menos intenso. Os EUA não são mais o motor da economia mundial. Podemos ter uma recessão nos EUA sem termos uma recessão no resto do mundo. Mas é preciso levar em conta que a economia européia está tendo sérios problemas também. Há uma crise similar na Europa, com bolha imobiliária. Uma crise que afeta as duas principais economias do mundo é um grande choque. Apesar disso, eu ficaria surpreso se houvesse uma recessão global.

Os grandes emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China, chamados de Brics, assumiram novo papel na economia global?

KRUGMAN
: A categoria Brics é estúpida. São todos grandes, todos são economias em desenvolvimento. Além disso, não têm mais nada em comum. Índia e China podem em algum sentido serem agrupadas. Rússia é um grande exportador de petróleo. O Brasil é grande exportador de commodities e de manufaturados. A questão principal é que o centro de gravidade do mundo migrou dos EUA e da Europa. Ambos continuam sendo grandes economias, continuam sendo os principais jogadores em campo, mas grande parte da economia mundial não está mais nos centros industriais tradicionais. A maior parte do crescimento econômico está vindo dos países emergentes.

O senhor vem ao Brasil na próxima semana. Quais são suas impressões sobre a economia brasileira?

KRUGMAN
: No próximo fim de semana (ontem e hoje), farei meu dever de casa pesquisando mais sobre o Brasil. Mas, claramente, é uma das partes vigorosas do mundo, tem ido melhor do que o resto (do mundo). Não tem tido um desempenho espetacular, mas está com um crescimento razoável. O Brasil está no lado “ganhador” da alta das commodities . E também está havendo uma boa administração no geral (na política econômica brasileira).

O governo do presidente George W. Bush pode ser responsabilizado pela crise financeira nos EUA?

KRUGMAN
: Provavelmente, teríamos uma bolha imobiliária de qualquer maneira, com ou sem o governo Bush. Mas eles (o governo Bush) sistematicamente flexibilizaram as regulamentações e mecanismos de precaução que deveriam limitar os bancos a tomarem riscos excessivos, no exato momento em que mais precisávamos dessa regulamentação. Então, o governo Bush não causou a crise, mas a tornou consideravelmente pior.

E a postura de Alan Greenspan à frente do Federal Reserve (Fed, banco central americano)?

KRUGMAN
: Greenspan pode levar grande parte da responsabilidade. Recentemente, o Fed editou novas regras para a concessão de crédito pelos bancos, para restringir financiamentos irresponsáveis. Isso poderia ter sido feito há cinco anos. E Greenspan foi avisado sobre os riscos dos empréstimos subprime (para clientes com histórico ruim), mas não fez nada. Argumentou que o mercado saberia tomar conta de si mesmo. E ainda deu garantias de que as coisas iriam bem. Disse publicamente que os preços de imóveis nunca caem, que as pessoas deveriam pegar empréstimos e fazer hipotecas. Greenspan é mais vilão do que o governo Bush.

Outra grande preocupação é o avanço da inflação mundial. O que explica a alta de preços?

KRUGMAN
: Bom, em primeiro lugar, temos o preço do petróleo, que tem subido basicamente por uma combinação de crescimento dos países emergentes com piores condições geológicas. Está mais difícil prospectar petróleo. E a China e outras economias emergentes estão consumindo muito mais petróleo. Então, temos uma combinação de demanda em expansão e oferta estagnada. No que diz respeito à alta dos alimentos, há várias razões simultâneas. A primeira é que a alta do petróleo tem muito efeito nos alimentos. Principalmente nos países em desenvolvimento, a agroindústria usa muita energia e também há o efeito dos fertilizantes (cujos preços são influenciados pelo petróleo). E há o aumento da demanda de países emergentes, principalmente da China, onde as pessoas estão ganhando mais dinheiro e, por isso, comendo mais carne. E em terceiro lugar, há questões ambientais. Tivemos eventos climáticos sem precedentes, como a seca na Austrália, que muito provavelmente já é efeito da mudança climática.
Estamos começando a ver os primeiros efeitos econômicos do aquecimento global. E, por último, há os biocombustíveis, que, na Europa e nos EUA, definitivamente, estão desviando recursos antes destinados aos alimentos.

O senhor conhece o programa brasileiro de etanol?

KRUGMAN
: Para os preços de alimentos, o etanol brasileiro é inocente. Não há um desvio na produção de alimentos nem de longe parecido com o etanol americano. E a cana-de-açúcar é uma fonte muito mais eficiente para etanol do que o milho (usado nos EUA). Então, em termos econômicos, o programa brasileiro tem muito mais sentido.
Mas as informações que recebi de especialistas em meio ambiente é que o problema com o etanol brasileiro é que ele é mais danoso em termos de emissão de gases poluentes do que parece à primeira vista. Mas eu não endosso essa afirmação, porque não fiz pesquisas independentes a respeito desse assunto.

No que diz respeito à alta do petróleo, podemos dizer que estamos no meio de um terceiro choque do petróleo?

KRUGMAN
: De certa forma sim. Não temos o mesmo impacto (dos choques anteriores).
Mas as cotações do petróleo, em termos reais, atingiram novos patamares.

Nos países pobres, alimentos caros são sinônimo de fome. A fome se tornou um efeito colateral da globalização?

KRUGMAN
: Não se pode atribuir isso à globalização. Eu sou um crítico da globalização por muitos motivos. Mas, nesse caso, havia muito mais famintos entre os anos 50 e 70 (do século passado) do que há hoje. A situação hoje está melhor em termos de segurança alimentar. Mas havia uma crença de que sempre teríamos abundância na oferta mundial de alimentos, e agora vivemos uma escassez para a qual não estávamos preparados.

O que pode ser feito para conter a inflação mundial?

KRUGMAN
: Na verdade, não há muito a ser feito. Poderíamos pensar numa política de juros mais altos para conter a demanda. Mas não está claro porque deveríamos fazer isso, se tudo que temos até agora é um choque de alimentos e de energia. A longo prazo, mais energia alternativa e mais conservação poderiam reduzir a demanda mundial por petróleo. Mas, por agora, acho que teremos que absorver esse choque.

Os americanos elegem um novo presidente este ano. Barack Obama (candidato democrata) ou John McCain (republicano) podem se sair melhor na economia do que George W. Bush?

KRUGMAN
: Bom, é difícil ser pior (do que Bush). McCain não está oferecendo qualquer mudança. E Obama está oferecendo mudanças sustentáveis, numa direção que eu aprovo, mas minhas críticas são que suas propostas não vão longe o suficiente. E, historicamente, na economia, os governos democratas sempre têm melhor desempenho. Então, temos todas as razões para acreditar que Obama oferece uma perspectiva melhor.

Historicamente, os democratas são mais protecionistas em comércio que os republicanos. Há esse risco com Obama?

KRUGMAN
: É pouco provável. É preciso fazer uma distinção entre o que os partidos falam e o que eles fazem. Se pensarmos em quais foram os governos mais protecionistas nos últimos 40 anos, foram Reagan (Ronald Reagan, de 1981 a 1989) e Bush (filho). Eles falavam sobre livre comércio, mas não o praticavam.
Enquanto isso, os democratas constantemente falam em proteger os EUA da economia mundial, mas não agem de forma protecionista. E uma das razões para isso é que os democratas, e especialmente a equipe de Obama, levam muito a sério as regras internacionais, respeitam as organizações e os tratados internacionais. Então, se tivermos um governo Obama, não voltaremos atrás em acordos comerciais já fechados. Mas, provavelmente, não haverá avanços em novos acordos. E isso é verdade para qualquer governo. Então, é muito difícil pensarmos em acordos na Organização Mundial do Comércio (OMC) ou na Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Não acredito que um governo Obama gastaria capital político com isso

18/07/2008 - 09:54h De volta a 1929

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - FOLHA SP

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O dinheiro público tem que ser mobilizado para evitar o pior; a ação fiscal para lidar com a crise de hipotecas já vem tarde

TENHO ACOMPANHADO de perto a crise bancária norte-americana e as discussões sobre o acerto ou não das ações tomadas até agora pelas autoridades responsáveis. As atenções estiveram centradas no Fed, principalmente depois do recente resgate do banco de investimentos Bear Stearns. O segmento ultraliberal dos formadores de opinião não poupou adjetivos para condenar essa operação. Mesmo entre membros do governo Bush, foram muitas as críticas azedas contra essa aplicação do dinheiro público. Um jornalista importante do “Financial Times” chegou a decretar o fim do liberalismo e, em seguida, quase tomou uma forte dose de cicuta.
Nesta última semana, mais um evento obrigou o governo americano a propor o resgate bilionário de duas instituições semipúblicas -Fannie Mae e Freddie Mac- e que estavam sendo vítimas de especulações violentas no mercado acionário de Wall Street. Duas novidades devem ser mencionadas nesse novo caso: a primeira é que a proposta veio agora da própria Casa Branca; a segunda é que as cifras envolvidas estão na casa dos trilhões de dólares, e não mais na dos bilhões, como na crise do Bear Stearns.
Esse movimento do executivo foi importante na medida em que tirou do isolamento o presidente do Fed, responsável direto e quase solitário pela decisão de resgate daquele banco. O secretário do Tesouro havia dado declarações ambíguas sobre o comportamento de Ben Bernanke.
Agora, pressionado pelo tamanho das duas instituições federais de refinanciamento de hipotecas, ele foi obrigado a assumir a proposta de injeção de dinheiro público para salvá-las de um colapso iminente.
Essa medida também foi recebida com violentas críticas pelos mesmos defensores extremados do liberalismo, inclusive vários senadores da linha dura do Partido Republicano.
Para esses, o único caminho possível para punir os irresponsáveis seria o da perda total dos recursos investidos. Mesmo que para isso fosse necessário arrastar o mundo todo para a depressão econômica. Esquecem esses senadores, entretanto, que, entre os investidores nos papéis emitidos por essas empresas, estão países como a China e os grandes produtores de petróleo do Oriente Médio. As estatísticas oficiais mostram que mais de US$ 1,2 trilhão das reservas externas desses países está investido em títulos das chamadas agências federais, como a Fannie Mae e a Freddie Mac. O que aconteceria aos norte-americanos, inclusive aqueles que esses políticos ultraliberais pretendem defender, se houvesse a falência dessas empresas e uma fuga do dólar como moeda de reserva?
Mais uma vez voltamos a discutir temas que sinceramente pensava terem sido esclarecidos pelas quebras de instituições financeiras em 1929/ 1933. Mas a semente do liberalismo religioso ainda está bem presente entre nós. Mas não adianta espernear quando uma crise bancária atinge dimensão sistêmica; o chamado dinheiro público tem que ser mobilizado para evitar o pior. Nesses momentos, quanto mais cedo os governos se moverem, menores serão os custos. A ação fiscal para lidar com a crise no mercado de hipotecas já vem tarde. Deveria ter sido tomada há alguns meses, substituindo a devolução de impostos que estamos vendo agora.
Incrível a falta que um entendimento correto do pensamento keynesiano faz nesses momentos.


LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 64, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo FHC).

lcmb2@terra.com.br

16/07/2008 - 14:29h Ano de viver perigosamente

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Por Martin Wolf - VALOR

Passou-se quase um ano desde que a crise do subprime nos EUA se tornou global. À época, muitos esperavam que a reavaliação do risco não seria mais do que uma breve interrupção no progresso da economia mundial e dos EUA. Essas esperanças foram frustradas. Os infortúnios do Fannie Mae e do Freddie Mac, o tombo dos mercados acionários e a escalada nos preços do petróleo deixam claro como esta confusão está longe do seu fim. Ela, muito provavelmente, nem passou o fim do seu começo.

Então, onde está a economia mundial agora? E para onde poderá rumar? Eis algumas respostas preliminares.

A resposta à primeira vem em duas partes principais: manutenção do aperto financeiro e aumentos nos preços das commodities. O desempenho das ações do setor bancário nos revela a maior parte do que precisamos saber sobre a crise financeira. Nos EUA, o epicentro do aperto, os bancos perderam metade do seu valor de mercado entre um ano atrás e o fim da semana passada, em relação ao índice composto S&P.

Investidores em ações não são as únicas pessoas preocupadas com a saúde dos bancos. Os próprios bancos também estão preocupados. Os prêmios de risco entre taxas de juros que incidem sobre empréstimos interbancários em dólares, euros e libras esterlinas, e as taxas oficiais esperadas para três e seis meses estão agora mais dilatados do que estiveram em março. Os prêmios de risco sobre empréstimos de seis meses agora se nivelaram aos dois picos anteriores, ocorridos em setembro e dezembro do ano passado. Esta não é uma mera crise de liquidez. Os bancos estão manifestando preocupação a respeito da solvência dos seus pares. Um bom motivo para estarem preocupados é que a qualidade das garantias básicas para grande parte do empréstimo dos anos passados - habitação - continua se deteriorando. O índice Case-Schiller de 20 cidades caiu 18% em termos nominais e 22% em termos reais entre seu pico, em meados de 2006, e abril deste ano. Essa taxa de queda também está se acelerando.

Não admira, portanto, que o mercado de ações esteja mostrando algo semelhante a pânico em torno das perspectivas para os dois empreendimentos patrocinados pelo governo, Fannie Mae e Freddie Mac, que têm financiado aproximadamente 75% de todos os financiamentos habitacionais dos EUA. Uma tomada do controle formal do governo sobre estas entidades, cujo passivo total está próximo de 40% do PIB dos EUA, não está descartada. Em termos de endividamento bruto do governo, isso faria os EUA se assemelharem à Itália.

Enquanto isso, o preço do petróleo está próximo de US$ 150 o barril. Apesar de uma parte importante da economia estar preocupada com os riscos de colapso financeiro e posterior deflação, o preço da commodity mais importante do mundo dobrou ao longo do ano passado. Em termos reais, o preço do petróleo está 25% mais alto agora do que em 1979, no auge do segundo choque do petróleo. Os preços ascendentes do petróleo e demais commodities são uma espécie de quebra-cabeças, pois o crescimento econômico mundial está se desacelerando: a maioria das projeções para junho estima o crescimento mundial em 2,9% neste ano (a taxas de câmbio de mercado), numa queda ante os 3,8% em 2007, em grande parte devido à desaceleração econômica nos países ricos, com o crescimento dos EUA projetado em apenas 1,5% neste ano, numa queda ante os 2,2% de 2007, e crescimento de 1,8% na Europa Ocidental, numa queda na comparação com 2,8%, em 2007.

Os produtores deixarão o petróleo no solo se o aumento esperado nos preços do petróleo for mais rápido do que o retorno sobre os ativos alternativos

Por que os preços das commodities estão disparando quando a economia mundial está desacelerando? A explicação popular parece ser “especulação”. No entanto, considerando que a especulação já está presente, isso não consegue explicar porque o preço do arroz está em franca aceleração agora. Outra explicação popular é o agressivo afrouxamento da política monetária dos EUA. Mas isso dificilmente consegue explicar o veloz aumento de preço do petróleo, mesmo em euros. A especulação tampouco explica o aumento nos preços de commodities que não possuem mercados futuros ativos: o minério de ferro, por exemplo.

No caso do petróleo, como observou Daniel Gros, do Centro para Estudos de Política Européia, no “Financial Times” da semana passada, a especulação é inerente à decisão de produzir. Os produtores são especuladores em relação ao valor futuro dos seus recursos - e com justiça, já que são finitos.

Os produtores deixarão o petróleo no solo se o aumento esperado nos preços reais do petróleo for mais rápido do que o retorno sobre os ativos alternativos. O que determina o preço atual, portanto, é o preço futuro esperado. Os mais importantes propulsores têm sido o crescimento potencial na demanda de países emergentes, particularmente a China, e o pessimismo em torno de fontes alternativas de abastecimento. O crescimento veloz e altamente intensivo em recursos da China é o fator mais importante: estima-se que o crescimento no país será de 10% neste ano e de mais de 9% em 2009.

Então, o que acontecerá com a economia mundial doravante? Aqui talvez o ponto mais importante seja a incerteza. É possível fazer relatos de um retorno ao crescimento acelerado na economia mundial. É igualmente fácil contar histórias sobre algo semelhante a um desastre financeiro. O equilíbrio de forças econômicas, porém, é de contração: crises financeiras e colapso dos preços dos imóveis nos EUA e em vários outros países ricos, forte alta nos preços das commodities, além de pressões inflacionárias, especialmente nos países emergentes.

É difícil enxergar um desfecho diferente de uma desaceleração sustentada na economia mundial. É até bastante provável que o crescimento de longo prazo da economia mundial seja consideravelmente mais lento do que se esperava há poucos anos. Ademais, alguns riscos poderão se combinar de formas perigosas. Um ataque ao Irã poderá empurrar o preço do petróleo para acima de US$ 200, por exemplo. Além disso, a solvência do governo dos EUA não pode ser considerada um fato consumado. Se a desalavancagem em curso na economia americana enfraquecer o consumo, a economia poderá entrar em profunda recessão. Os déficits fiscais dos EUA poderão disparar e as taxas de juro de longo prazo poderão dar um salto. Esse cenário poderá tornar a visão da dinâmica da dívida do governo dos EUA altamente desagradável. Daí poderão sobrevir uma fuga do dólar e dos bônus denominados em dólar. Quem desejará comandar o Fed depois disso?

A boa notícia é que a economia mundial se manteve surpreendentemente bem. A má notícia é que os riscos continuam completamente no pólo negativo. Será preciso muita sorte e muita capacidade de discernimento para atravessar as tempestades incólumes. É hora de fazer uma pausa deste ambiente pessimista. É o que farei agora. Voltarei no fim de agosto.

15/07/2008 - 10:18h Na crise, liberalismo se refugia no Estado

 

Ajuda oficial não acalma Wall Street


Ações da Fannie Mae caíram 5,1% e da Freddie Mac, 8,3%, após plano de resgate anunciado pela Casa Branca

Patrícia Campos Mello - O Estado de São Paulo

Um dia após o Tesouro americano garantir que vai resgatar as gigantes de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac se for necessário, as empresas passaram por um grande teste de confiança dos investidores. A Freddie Mac conseguiu vender ontem US$ 3 bilhões em títulos de curto prazo, com forte demanda dos investidores.

Mas o plano de resgate anunciado pelo governo americano ainda não tranqüilizou Wall Street. As ações da Fannie encerraram o dia em queda de 5,1% e as da Freddie, em baixa de 8,3%. Os investidores acham que um possível resgate das instituições não salvará o sistema financeiro em geral da grande desaceleração em curso.

As empresas viram suas ações cair mais de 50% na semana passada, por temores do mercado de que elas não tinham capital para honrar compromissos. As duas são garantidoras ou donas de US$ 5,2 trilhões em títulos de hipoteca - metade do mercado hipotecário americano (só para comparar, o orçamento dos EUA para 2008 é de US$ 2,9 trilhões).

A Fannie e a Freddie garantem a liquidez do mercado de crédito imobiliário - e investidores do mundo inteiro compram seus papéis. Bancos centrais estrangeiros, principalmente na Ásia, têm US$ 979 bilhões em títulos vendidos pelas empresas.

“Fannie Mae e a Freddie Mac são grandes demais para quebrar - os riscos para economia em geral superam o risco moral”, diz Juan Licari, economista-sênior da Moody?s Economy.com. Risco moral, no caso, é estimular investidores a assumir riscos exagerados, na esperança de ajuda do governo.

Segundo Arturo Porzecanski, professor de Finanças Internacionais na American University, trata-se de empresas peculiares - têm garantias do governo, mas não são exatamente estatais, porque têm acionistas. “O governo deixou claro que assumirá a responsabilidade pela saúde das empresas.”

No domingo, o Tesouro anunciou que iria ampliar as linhas de crédito para Fannie e Freddie e poderia até comprar ações das duas. O Fed, por sua vez, abriria a janela de redesconto, antes reservada a bancos. Se efetivado, o resgate será o segundo em quatro meses por causa da crise. Em março, o Fed arquitetou a compra do Bear Stearns pelo J.P. Morgan para evitar a quebra do banco - e assumiu grande parte dos ativos arriscados.

Na sexta-feira, o banco IndyMac, à beira da insolvência por causa da inadimplência de hipotecas, sofreu intervenção. E os boatos sobre a saúde financeira do Lehman Brothers, outro banco com grande exposição ao subprime, cresceram ontem, com recuo de 12,2% nas ações. “Esse incidente (com a Fannie e Freddie) não será o último”, disse à Reuters o megainvestidor George Soros. “A atual crise financeira é a mais séria de nossa geração.”

15/07/2008 - 10:02h Fannie, Freddie e você

 

Paul Krugman* - O Estado de São Paulo

E chegamos à etapa seguinte da nossa aparentemente interminável crise financeira. Desta vez são Fannie Mae e Freddie Mac que ocupam as manchetes, com alertas funestos de um colapso iminente.

Até que ponto devemos ficar preocupados? Bem, eu assumo a posição contrária: o clima criado em torno dessas instituições de créditos particulares é exagerado. Fannie e Freddie precisam de um socorro governamental. Mas como já está claro que esse socorro virá, seus problemas não vão arrasar a economia.

Além disso, embora Fannie e Freddie sejam instituições problemáticas, elas não são as responsáveis pelos apuros que estamos passando.

Vamos aos antecedentes: Fannie Mae - Federal National Mortgage Association (Associação Hipotecária Federal) - foi criada na década de 30 para facilitar o acesso à casa própria, comprando hipotecas de bancos, liberando dinheiro que poderia ser utilizado para fazer novos empréstimos. Fannie Mae e Freddie Mac, que operam quase da mesma maneira, hoje financiam a maior parte dos empréstimos feitos nos Estados Unidos para aquisição de imóvel residencial.

Os argumentos contra Fannie e Freddie começam com relação ao seu estatuto peculiar: embora sejam companhias privadas, com acionistas e lucros, elas são “empresas subvencionadas pelo governo”, estabelecidas por lei federal, o que significa que têm privilégios especiais.

O mais importante desses privilégios está implícito: é a crença dos investidores de que, se as duas empresas estiverem ameaçadas de falência, o governo federal partirá em seu socorro.

Essa garantia implícita significa que os lucros são privatizados, mas os prejuízos são socializados. Se Fannie e Freddie prosperam, seus acionistas colhem os benefícios. Porém, se as coisas andam mal, Washington paga a conta. Cara, eles ganham, coroa, nós perdemos.

Esse tipo de aposta que vai num único sentido pode encorajar a assunção de um mau risco porque o inconveniente disso vai ser problema de algum outro. Exemplo clássico de como isso pode acontecer foi a crise das instituições de poupança e empréstimo, nos anos 80. Essas instituições ofereciam altas taxas de juro para atrair grande volume de depósitos garantidos pelo governo federal, e depois especulavam com esse dinheiro. Quando muitas das suas operações deram errado, os fundos federais acabaram pagando o pato. O custo final da arrumação da casa aos contribuintes foi de mais de US$ 100 bilhões.

Mas essa é a questão. Fannie e Freddie não tiveram nada a ver com a explosão dos empréstimos de alto risco iniciada há alguns anos, uma explosão que fez parecer insignificante o fiasco das instituições de poupança e empréstimo dos anos 80. Na verdade, Fannie e Freddie, depois de um veloz crescimento na década de 90, praticamente sumiram de cena durante o pico da bolha imobiliária.

Em parte porque os órgãos reguladores, reagindo aos escândalos contábeis nas empresas, impuseram algumas limitações temporárias para as duas instituições que restringiram suas operações de empréstimos, exatamente quando os preços das habitações estavam realmente decolando.

Além disso, elas não operaram com empréstimos considerados de alto risco porque não podem: um empréstimo de alto risco, ou suprime, pode ser definido precisamente como o empréstimo que não atende aos requisitos, impostos por lei, e Fannie e Freddie só compram hipotecas emitidas para tomadores de empréstimo que dão uma entrada substancial e cuja renda é cuidadosamente documentada.

Assim, quaisquer incentivos negativos criados por essa garantia federal implícita são contrabalançados pelo fato de que Fannie e Freddie foram e são fortemente regulamentadas no tocante aos riscos que podem assumir. Você pode dizer que a experiência de Fannie e Freddie mostra que a regulamentação funciona.

Nesse caso, porém, como elas acabaram em dificuldade? Parte da resposta está na magnitude da bolha imobiliária e no porte das quedas de preço que vêm ocorrendo hoje com o estouro dessa bolha.

Em Los Angeles, Miami e outros lugares, qualquer pessoa que fez um empréstimo para adquirir uma casa quando o mercado estava no pico provavelmente está hoje com patrimônio negativo, mesmo que tenha dado originalmente 20% de entrada. O resultado é uma taxa crescente de inadimplência, mesmo no caso de empréstimos que atenderam às diretrizes de Fannie e Freddie.

Além disso, Fannie e Freddie, embora fortemente regulamentadas quanto à concessão de empréstimos, não precisam constituir capital suficiente - ou seja, dinheiro captado pela venda de ações em vez de levantar empréstimos. Isso significa que mesmo um pequeno declínio no valor dos seus ativos pode fazê-las submergir, devendo mais do que têm.

E claro, existe um real escândalo político nesse caso: reiteradamente vinha sendo alertado que a capitalização insuficiente das duas instituições apresentava riscos para os contribuintes, porém a administração das empresas subornou o processo político, contratando sistematicamente figuras influentes de ambos os partidos. Mas, embora alarmantes, as maquinações políticas de Fannie e Freddie não tiveram um papel significativo nas causas dos nossos problemas atuais.

Contudo, não é vergonhoso que os contribuintes acabem tendo de socorrer essas instituições? Na verdade, não. Estamos atravessando uma grande crise financeira e essas crises quase sempre acabam com algum tipo de ajuda do contribuinte socorrendo o sistema financeiro.

E vamos ser claros: não se deve permitir que Fannie e Freddie vão à falência. Com o colapso dos empréstimos subprime, essas empresas hoje são mais do que nunca fundamentais para o mercado imobiliário e a economia como um todo.

*Paul Krugman escreve para o “The New York Times”

15/07/2008 - 09:51h Fannie & Freddie: medidas equivalem à estatização, diz analista

 

O Estado de São Paulo

William Poole, ex-presidente do Federal Reserve Bank de St. Louis, disse ontem que as medidas anunciadas pelo governo dos EUA para socorrer as agências Fannie Mae e Freddie Mac equivalem a estatizá-las. Poole afirmou, em entrevista à Dow Jones, que as medidas anunciadas no fim de semana eram “absolutamente necessárias”, tendo em vista que o colapso das duas agências seria catastrófico para o sistema financeiro. Para ele, elas estão “efetivamente em concordata”.

Poole lembrou que outra conseqüência das medidas é o fato de a dívida emitida por Fannie Mae e Freddie Mac agora terem o mesmo status dos títulos do Tesouro americano. “Na prática, as obrigações de Fannie Mae e Freddie Mac agora são obrigações de crédito plenas do governo dos EUA, porque não será permitido que elas entrem em falência.”

Para todos efeitos práticos, as agências “estão sendo nacionalizadas”, disse Poole, que hoje é pesquisador do Cato Institute.

O ex-dirigente do Fed disse ainda que a intervenção federal na Fannie Mae e na Freddie Mac, após os esforços do Fed para socorrer o banco de investimentos Bear Stearns, compromete a capacidade de avaliação de riscos de Wall Street. “O país está agora em situação muito ruim em termos de risco moral. Os credores sabem que serão protegidos em caso de circunstâncias adversas.”

Segundo Poole, agora ficou claro que algumas empresas são julgadas grandes demais para falir, embora exista pouca clareza sobre qual é o tamanho-limite para uma intervenção do governo.

15/07/2008 - 09:43h Fannie & Freddie

 

 Celso Ming - O Estado de São Paulo 

Aprofundando o entendimento de que, pelo menos na atual crise americana, banco não quebra, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, anunciou na noite de domingo o resgate dos dois mamutes do crédito hipotecário dos Estados Unidos.

São eles Fannie Mae e Freddie Mac, responsáveis pelo financiamento ou pela recompra de quase US$ 6 trilhões do mercado total de US$ 12 trilhões em hipotecas. São agências capitalizadas e/ou financiadas pelo setor privado, mas com forte respaldo em recursos oficiais na medida em que operam um segmento de interesse público e social. Enfim, são as Government Sponsored Enterprises (GSEs).

Em conseqüência da crise das hipotecas de alto risco (subprime), essas agências foram consideradas tecnicamente quebradas na semana passada. Mas o governo americano tratou de arranjar-lhes um “proer” generoso, constituído por três providências independentes: (1) acesso às operações de redesconto do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), como se fossem bancos comerciais; (2) abertura de financiamentos especiais do Tesouro, de US$ 2,25 bilhões para cada uma; e (3) autorização para que o Tesouro compre suas ações, em volume ainda a ser determinado, o que caracteriza certo grau de estatização.

A justificativa para a injeção de dinheiro público em empresas privadas foi evitar uma catástrofe financeira de proporções incomensuráveis. Foi o mesmo argumento evocado pelo governo inglês em setembro passado, quando estatizou uma companhia de crédito imobiliário, a Northern Rock, que enfrentava corrida de depositantes, e o evocado pelo Fed em março, quando impediu o naufrágio do Bear Stearns e abriu a janela do redesconto para bancos de investimento, que até então não estavam sob o seu guarda-chuva. Além da avaria financeira - é o argumento -, a quebra dessas empresas provocaria prejuízos políticos imediatos, especialmente às vésperas das eleições presidenciais.

Quem passar o aspirador na memória vai se lembrar de que, ao final dos anos 80 e início dos 90, os Estados Unidos também enfrentaram séria crise das sociedades de poupança e empréstimo, que atingiu 747 instituições e exigiu dos cofres públicos um socorro de US$ 160 bilhões.

O mercado financeiro ontem respirou aliviado, mas, ato contínuo, tomou corpo a percepção de que não há almoço grátis e de que operações assim produzem conseqüências. Uma delas é a de que a eliminação dos riscos - já que o governo os assume - abre um campo enorme para uma dobradinha perigosa constituída de abusos e impunidade (moral hazard). Outra, a aplicação da advertência bíblica de que “abismo atrai abismo” e, com base nesse precedente, todas as ameaças de quebra do gênero terão cobertura de dinheiro do contribuinte. Os abismos seguintes são maior deterioração das contas públicas e mais inflação.

Assim, está aberta a temporada para que os analistas discorram sobre a inevitável questão: what’s next? E o que se sabe é que, apesar do generoso apoio oficial, um grande número de bancos continua precisando de transfusão de sangue. É uma das encrencas que perpetuam o estrangulamento do crédito e a impossibilidade de que o Fed puxe os juros para combater a inflação.

CONFIRA

Força exportadora - A novidade da balança comercial não é o crescimento das importações, de 51,2%, no valor acumulado do ano. É o salto das exportações, apesar do câmbio adverso.

Até há algumas semanas, cresciam entre 15% e 18%. Agora crescem a 25,2%. Esse impulso permite projetar para todo este ano exportações próximas dos US$ 200 bilhões.

Também convém prestar atenção no avanço menos notado da corrente de comércio (soma das exportações e importações). Cresceu 36,1% no acumulado do ano. Quanto maior esse número, menor a influência do capital externo sobre o câmbio.