24/02/2009 - 11:07h O sistema bancário no limiar do colapso

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Paul Krugman* – O Estado SP

http://img.wonkette.com/wp-content/uploads/2008/06/krugman1.jpgO camarada Greenspan deseja que nos apoderemos do alto comando econômico. Tudo bem, não é exatamente isso o que está acontecendo. O que Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve (o BC americano) – e aguerrido defensor do livre mercado – disse foi: “Pode ser necessária a estatização temporária de alguns bancos para facilitar uma rápida e ordenada reestruturação do sistema”. Eu concordo.

Os defensores da estatização levam em consideração três observações. Em primeiro lugar, alguns grandes bancos estão perigosamente perto do abismo – na verdade, já teriam falido se os investidores não esperassem um resgate governamental caso surgisse a necessidade. Em segundo, os bancos precisam de resgate. O colapso do Lehman Brothers quase destruiu o sistema financeiro mundial, e não podemos correr o risco de deixar que instituições muito maiores, como o Citigroup, implodam. Em terceiro lugar, embora os bancos precisem de resgate, o governo dos EUA não pode bancar, tanto fiscal quanto politicamente, a distribuição de imensos presentes entre os acionistas.

Sejamos concretos. Há uma chance considerável – não é uma certeza – de que o Citi e o Bank of America (BofA), juntos, percam centenas de bilhões de dólares nos próximos anos. E o capital deles, o excedente dos seus ativos em relação aos passivos, está muito aquém de poder cobrir essas perdas em potencial.

O único motivo pelo qual essas instituições ainda não faliram é a atuação do governo, que age como anteparo, garantindo implicitamente suas obrigações. Mas se trata de bancos zumbis, incapazes de proporcionar o crédito do qual a economia necessita.

Para pôr um fim a esse estado de morte em vida, os bancos precisam de mais capital. Mas esse não pode ser obtido com os investidores privados. Assim, o governo precisa fornecer os fundos necessários.

Mas é aí que está o problema: os fundos necessários para devolver esses bancos à vida excedem em muito o valor dos mesmos. Citi e BofA têm juntos um valor de mercado inferior a US$ 30 bilhões, e mesmo esse valor tem por base a esperança de que os acionistas recebam parte da oferta do governo. Se o governo vai entrar com todo o dinheiro, deveria ficar com a propriedade dos bancos. Ainda assim, a estatização é antiamericana? Não, é tão americana quanto a torta de maçã.

Ultimamente, a Sociedade Federal de Seguro de Depósito (FDIC, em inglês) assumiu o controle de bancos considerados insolventes num ritmo de dois por semana, aproximadamente. Quando a FDIC assume o controle de um banco, incorpora os ativos ruins, paga parte da sua dívida e revende a instituição limpa para investidores particulares. É exatamente isso que os defensores da estatização temporária querem que ocorra, não apenas com os pequenos bancos, mas também com os grandes.

A verdadeira pergunta é: por que a administração Obama insiste em fazer propostas que soam como alternativas à estatização, mas envolvem imensas distribuições de dinheiro para os acionistas dos bancos? Por exemplo, inicialmente, a administração surgiu com a ideia de oferecer aos bancos garantias contra as perdas relacionadas aos ativos problemáticos. Seria ótimo negócio para os acionistas, mas nem tanto para o resto de nós.

Agora a administração fala em “parceria público-privada” para comprar os ativos problemáticos, com o governo emprestando dinheiro aos investidores privados para tal propósito. Para os investidores, seria uma aposta vencedora. Novamente, eles ganham e nós perdemos.

Por que não simplesmente ir adiante e estatizar? Lembrem-se, quanto mais tempo convivermos com bancos zumbis, mais difícil será a recuperação da economia. Como se daria essa estatização? Tudo que a administração precisa fazer é levar a sério o seu próprio “teste de stress” projetado para os bancos, sem ocultar os resultados negativos quando um banco for reprovado no teste. É verdade que o processo teria certo aspecto teatral, evidenciado quando um governo que esteve sustentando bancos durante meses se declarasse chocado, absolutamente chocado com o estado miserável dos balanços patrimoniais. Mas tudo bem.

Vale repetir que o objetivo não é a propriedade do governo sobre os bancos a longo prazo: como no caso dos pequenos bancos adquiridos pela FDIC, os grandes seriam devolvidos ao controle particular assim que possível. O blog de finanças Calculated Risk sugere que, em vez de chamar o processo de estatização, deveríamos chamá-lo de “pré-privatização”.

Segundo o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, a gestão Obama crê “que um sistema bancário nas mãos de investidores particulares seja a alternativa correta”. Todos acreditamos no mesmo. Mas o que temos agora não é o empreendedorismo particular, e sim o socialismo limonada: os bancos ficam com os benefícios, mas os contribuintes assumem os riscos.

O que queremos é um sistema dentro do qual os bancos fiquem tanto com a parte boa quanto com a ruim. O caminho para chegar a esse sistema passa pela estatização.

*Paul Krugman é articulista

15/09/2008 - 16:52h “Nightmare on Wall Street”

Da “Economist”, sob a manchete “Pesadelo em Wall Street”:

_ Um fim de semana de alta dramaticidade remodela a finança americana… Os acontecimentos de domingo 14 e do dia anterior foram extraordinários. A situação permanece fluida e os investidores desembestaram para a segurança relativa dos títulos do Tesouro americano. Bolsas tropeçam ao redor do mundo. A crise está entrando em uma nova e perigosa fase. O fim do Lehman sublinha a incapacidade ou a falta de vontade do setor de resgatar seus doentes. O Washington Mutual está lutando pela sobrevivencia. Ainda mais preocupante, também a AIG, maior seguradora da América. A dor está longe de terminar _e pode muito bem se espalhar. Por mais espetacular que tenha sido o fim de semana, vem aí mais drama.

Nelson de Sá – Toda Mídia

 

 

American finance

Nightmare on Wall Street

Sep 15th 2008 | NEW YORK AND WASHINGTON,DC
From Economist.com

A weekend of high drama reshapes American finance

AP

EVEN by the standards of the worst financial crisis for at least a generation, the events of Sunday September 14th and the day before were extraordinary. The weekend began with hopes that a deal could be struck, with or without government backing, to save Lehman Brothers, America’s fourth-largest investment bank. Early Monday morning Lehman filed for Chapter 11 bankruptcy protection. It has more than $613 billion of debt.

Other vulnerable financial giants scrambled to sell themselves or raise enough capital to stave off a similar fate. Merrill Lynch, the third-biggest investment bank, sold itself to Bank of America (BofA), an erstwhile Lehman suitor, in a $50 billion all-stock deal. American International Group (AIG) brought forward a potentially life-saving overhaul and went cap-in-hand to the Federal Reserve. But its shares also slumped on Monday.

The situation remains fluid, and investors stampeded towards the relative safety of American Treasury bonds. Stockmarkets tumbled around the world (though some Asian bourses were closed) and the oil price plummeted to well under $100 a barrel. The dollar fell sharply, and the yield on two-year Treasury notes fell below 2% on hopes the Federal Reserve would cut interest rates at a scheduled meeting on Tuesday. American stock futures were deep in the red too. Spreads on risky credit, already elevated, widened further.

With these developments the crisis is entering a new and extremely dangerous phase. If Lehman’s assets are dumped in a liquidation, prices of like assets on other firms’ books will also have to be marked down, eroding their capital bases. The government’s refusal to help with a bail-out of Lehman will strip many firms of the benefit of being thought too big to fail, raising their borrowing costs. Lehman’s demise highlights the industry’s inability, or unwillingness, to rescue the sick, even when the consequences of inaction are potentially dire.

The biggest worry is the effect on derivatives markets, particularly the giant one for credit-default swaps. Lehman is a top-ten counterparty in CDSs, holding contracts with a notional value of almost $800 billion. On Sunday, banks called in their derivatives traders to assess their exposures to Lehman and work on mitigating risks. The Securities and Exchange Commission, Lehman’s main regulator, said it is working with the bank to protect clients and trading partners and to “maintain orderly markets”.

Government officials believed they had persuaded a consortium of Wall Street firms to back a new vehicle that would take $40 billion-70 billion of dodgy assets off Lehman’s books, thereby facilitating a takeover of the remainder. But the deal died when the main suitors, BofA and Barclays, a British bank, walked away on Sunday afternoon. Both were unwilling to buy the firm, even shorn of the worst bits, without some sort of government backstop.

But Hank Paulson, the treasury secretary, decided to draw a line and refuse such help. After the Fed had bailed out Bear Stearns in March and the Treasury had taken over Fannie Mae and Freddie Mac last weekend, expectations were high that they would do the same for Lehman. And that was precisely the problem: it would have confirmed that the federal government stood behind all risk-taking in the financial system, creating moral hazard that would take years to undo and expanding taxpayers’ liability almost without limit. Conceivably, Congress could have denied Mr Paulson the money he needed even if he had been inclined to bail Lehman out.

This left Lehman with no option but to prepare for bankruptcy. Though the bank has access to a Fed lending facility, introduced after Bear’s takeover by JP Morgan Chase, the collapse of its share price left it unable to raise new equity and facing crippling downgrades from rating agencies. Moreover, rival firms that had continued to trade with it in recent weeks—at the urging of regulators—had begun to pull away in the past few days. The inability to find a buyer is a huge blow to Lehman’s 25,000 employees, who own a third of the company’s now-worthless stock; in such a difficult environment, most will struggle to find work at other financial firms. It also makes for an ignominious end to the career of Dick Fuld, Lehman’s boss since 1994, who until last year was viewed as one of Wall Street’s smartest managers.

Merrill’s rush to sell itself was motivated by fear that it might be next to be caught in the stampede. Despite selling a big dollop of its most rotten assets recently, the market continued to question its viability. Its shares fell by 36% last week, and hedge funds had started to move their business elsewhere. Its boss, John Thain, concluded that it needed to strike a deal before markets reopened. It approached several firms, including BofA and Morgan Stanley, but only BofA felt able to conduct the necessary due diligence in time.

Not only has Mr Thain managed to shelter his firm from the storm, but he has also secured a price well above its closing price last Friday, $29 per share compared with $17. How he managed that in such an ugly market is not yet clear. Ken Lewis, BofA’s boss, is no fan of investment banking, but he is a consummate opportunist, and he has coveted Merrill’s formidable retail brokerage. Still, the deal carries risks. It will be a logistical challenge, all the more so since BofA is in the middle of digesting Countrywide, a big mortgage lender. Commercial-bank takeovers of investment banks have a horrible history because of the stark cultural differences. And it is not clear if BofA has a clear picture of Merrill’s remaining troubled assets.

The takeover of Merrill leaves just two large independent investment banks in America, Morgan Stanley and Goldman Sachs. Both are in better shape than their erstwhile rivals. But this weekend’s events cast a shadow over the standalone model, with its reliance on leverage and skittish wholesale funding. Spreads on both banks’ CDSs, which reflect investors views of the probability of default, soared on Monday.

Wall Street has company in its misery. Washington Mutual, a big thrift, is fighting for survival under a new boss. Even more worryingly, so is AIG, America’s largest insurer, thanks to a reckless foray into CDSs of mortgage-linked collateralised-debt obligations. Investors have fled, fearing the firm will need a lot more new capital than the $20 billion raised so far. Prompted by the weekend bloodletting, AIG brought forward to Monday a restructuring that was to have been unveiled on September 25th. This was expected to include the sale of its aircraft-leasing arm and other businesses. It is also reported to be seeking a $40 billion in bridge loan from the Fed, to be repaid once the sales go through, in the hope that this will attract new capital, possibly from private-equity firms.

With Lehman left dangling, official attention is now turning to putting more safeguards in place to soften the coming shock to markets and the economy. The first step has been to encourage Lehman’s counterparties to get together and try to net out as many contracts as possible. On Sunday the Fed also expanded the list of collateral it will accept for loans at its discount window, to include even equities; and dealers may lend any investment-grade security, not just triple-A rated, to the Fed in exchange for Treasury bonds.

Markets are also pricing in some possibility that the Fed will cut its short-term interest rate target from 2% when it meets for a regularly scheduled meeting on Tuesday. That would be an abrupt turnaround from August, when officials figured their next move would be to raise rates, not lower them.

In a sign of how bad things are, even straitened banks are stumping up cash to help the stabilisation efforts. On Sunday, a group of ten banks and securities firms set up a $70 billion loan facility that any of the founding members can tap if it finds itself short of cash.

Even if markets can be stabilised this week, the pain is far from over—and could yet spread. Worldwide credit-related losses by financial institutions now top $500 billion, of which only $350 billion of equity has been replenished. This $150 billion gap, leveraged 14.5 times (the average gearing for the industry), translates to a $2 trillion reduction in liquidity. Hence the severe shortage of credit and predictions of worse to come.

Indeed, most analysts think that the deleveraging still has far to go. Some question how much has taken place. Bianco Research notes that while the credit positions of the 20 largest banks have fallen by $300 billion, to $1.3 trillion, since the Fed started its special lending facilities, the same amount has been financed by the Fed itself through these windows. In other words, instead of deleveraging, the banks have just shifted a chunk of their risk to the central bank. As spectacular as this weekend was, more drama is on the way.

15/09/2008 - 05:22h Fed comanda operação de guerra para segurar crise global de crédito

Na iminência da quebra do Lehman Brothers, BC americano orquestra medidas para resguardar outras instituições

O Estado de São Paulo – Agências Internacionais, Nova York


O fracasso nas negociações para a venda do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos americano, após o principal candidato à compra, o Barclays, ter desistido do negócio, colocou a instituição à beira da liquidação. Mas o medo da crise que a quebra do banco provocaria nos mercados financeiros globais precipitou ontem uma série de medidas, que envolvem a ampliação da ajuda do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) aos bancos e uma linha de crédito de US$ 70 bilhões para instituições em dificuldades, criada por um grupo de dez bancos internacionais.

Além disso, o Bank of America fechou acordo para a compra do Merrill Lynch, o terceiro maior banco de investimentos dos EUA, o que ajuda a restaurar a confiança nos mercados. E a American International Group, gigante dos seguros americana, que também vem sendo afetada com a crise das hipotecas de alto risco, deve anunciar hoje uma grande reorganização .

Uma das principais medidas anunciadas ontem pelo Fed é a ampliação dos tipos de garantias que os bancos podem apresentar para conseguir linhas especiais de crédito. Essas linhas foram aumentadas de US$ 175 bilhões para US$ 200 bilhões. A ampliação da ajuda do Fed às instituições financeiras é uma reviravolta em relação à decisão anterior do governo americano – depois de duras críticas – de não mais socorrer as vítimas da crise de crédito.

O primeiro socorro foi em março, ao Bear Sterns, quando o Fed intermediou negociações envolvendo US$ 30 bilhões para que o JP Morgan Chase ficasse com o banco. No fim de semana passado, as gigantes Fannie Mae e Freddie Mac receberam um aporte de US$ 200 bilhões.

A incerteza criada após o impasse nas negociações para a venda do Lehman Brothers acabaram forçando o banco central americano a tomar uma nova atitude nesse sentido. O Fed participou de uma série de reuniões nos últimos três dias com representantes das principais instituições financeiras em Wall Street “para identificar debilidades potenciais no mercado à luz dos problemas de uma grande instituição financeira, e para considerar as respostas apropriadas”, disse o presidente do órgão, Ben Bernanke. Os passos anunciados ontem, segundo Bernanke, “têm como objetivo mitigar os riscos e alterações potenciais nos mercados”.

O medo de uma quebra do Lehman Brothers, com seu potencial efeito devastador sobre os mercados financeiros globais, também foi a mola propulsora da decisão de dez bancos – Bank of America, Barclays, Citibank, Credit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, JP Morgan, Merrill Lynch, Morgan Stanley e UBS – de criarem um fundo de US$ 70 bilhões para ajudar instituições financeiras em dificuldades. Cada um dos bancos entra com US$ 7 bilhões no fundo.

Outra boa notícia para os mercados financeiros é a compra do Merrill Lynch pelo Bank of America. O terceiro maior banco de investimentos dos Estados Unidos também vinha atravessando momentos de grande turbulência, e fechou o segundo trimestre com prejuízo de US$ 4,6 bilhões. Para analistas, com uma eventual quebra do Lehman Brothers, o Merrill Lynch poderia se transformar na próxima vítima, com conseqüências ainda mais imprevisíveis para os mercados.

Segundo o Wall Street Journal, o Bank of America vai pagar US$ 29 por ação do Merrill Lynch, em uma transação de cerca de US$ 44 bilhões. Ironicamente, até o sábado, o Bank of America era considerado um forte candidato à compra do Lehman.

Com toda essa movimentação, o que ainda não fica claro é o destino do próprio Lehman Brothers. Com 158 anos de atividade, a instituição foi derrubada pela crise das hipotecas de alto risco, o subprime, e acumula US$ 85 bilhões em ativos podres, principalmente os de caráter imobiliário. Ontem, uma das hipóteses aventadas para o banco, segundo o The New York Times, seria fazer com que as subsidiárias do Lehman permanecessem solventes, enquanto a holding seria liquidada.

24/10/2007 - 11:05h Arranjo esquisito

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br

Há uma semana, três grandes bancos americanos, o Citigroup, o Bank of America e o JP Morgan, anunciaram a criação de um superfundo de US$ 75 bilhões destinado a resgatar os títulos micados no estouro da bolha das hipotecas de alto risco (subprime).

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos (ministro das Finanças), Henry Paulson, encorajou o lançamento desse bote salva-vidas.

De lá para cá, uma cortina suspeita envolveu o projeto. Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), colocou em dúvida a seriedade do fundo: ‘Gostaria de saber quanto valem essas drogas (damn things).’ O presidente anterior do Fed, Alan Greenspan, que mantém o prestígio capitalizado ao longo dos seus 19 anos de mandato, ao se referir ao superfundo e a seu provável conteúdo, usou expressões que se referem a tratamento natural dado a carniça: ‘Se você intervém no sistema, os abutres são mantidos à distância; e os abutres são às vezes muito úteis.’

Ficaram duas impressões: (1) que a iniciativa dos bancos se destina a fazer o resto do mundo de trouxa, com patrocínio do Departamento do Tesouro americano; e (2) que os três bancões americanos, enredados até o pescoço com hipotecas podres, estão fazendo uma jogada cujo objetivo é evitar prejuízo em seus balanços.

O plano parece ser o de convencer os clientes a comprar as cotas do superfundo. E a dinheirama amealhada agasalharia os ativos encalhados em carteira.

O problema técnico mais relevante é o de que a principal razão do estouro da bolha das hipotecas subprime já havia sido a impossibilidade de definir o valor correto desses ativos. A proposta é reempacotar esses produtos financeiros, a preços arbitrados sabe-se lá por quem, e oferecê-los a supostos caçadores de pechinchas. E, para dar uma aura de respeitabilidade ao negócio, convenceram o secretário do Tesouro a recomendar a mercadoria.

Diante das restrições públicas externadas por Bernanke, Greenspan e dezenas de financistas, parece difícil que esse superfundo decole. Se não decolar, estaremos diante de pelo menos cinco conseqüências.

A primeira é que a crise continuará sem solução até que os detentores dos títulos micados se convençam de que devem liquidar seus créditos a preços de fim de feira ou esperar que os abutres lembrados por Greenspan façam o serviço.

Segunda, parece inevitável que grandes instituições financeiras acusem perdas. Há alguma probabilidade de que os bancos centrais sejam obrigados a acionar seus mecanismos de cobertura (financiamento de última instância) para evitar o alastramento sistêmico da crise.

Terceira, nesse ambiente, parece inevitável que o Fed seja obrigado a voltar a baixar os juros na reunião do Comitê de Política Monetária (Fomc, na sigla em inglês) do dia 31.

Quarta, a crise deverá ter novos desdobramentos cuja intensidade é difícil prever. E, quinta, como os bancos centrais dos países ricos mantêm a disposição de apagar todo princípio de incêndio, os investidores continuarão aceitando riscos cuja natureza e dimensão possam entender. Isso sugere que o mercado subprime seguirá largado e que o mercado de ações, de moedas e de commodities continuará tirando proveito disso.

Confira

Na rabeira – Neste ano, os juros básicos (Selic) caíram de 13,25% para 11,25% ao ano – um recuo de 15,1%. No entanto, os juros no crédito dos bancos não acompanham essa queda. Pelo levantamento do Banco Central, no desconto de duplicatas, os juros só caíram 12,5%; no financiamento de capital de giro, 10,3%; no cheque especial, 1,4%; e no crédito pessoal, 13,6%.

Em parte, a queda menor dos juros compensa o alargamento do prazo dos financiamentos, o que é também uma vantagem dos bancos. Num ambiente de redução dos custos financeiros, trataram de garantir juros ainda altos por mais tempo.