30/01/2010 - 10:42h Represas transbordando por inprevidência?

Comitê deu alerta há 5 meses

Órgão diz ter pedido o extravasamento das águas em setembro, pois represas estavam cheias

Luísa Alcalde e Rodrigo Brancatelli – JORNAL DA TARDE

Membro do subcomitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê Cabeceiras, que engloba os municípios de Salesópolis, Biritiba-Mirim, Poá, Ferraz de Vasconcelos, Arujá, Guarulhos, Mogi das Cruzes, Suzano e Itaquaquecetuba, José Arraes, afirma ter alertado o governo em setembro, antes das chuvas de verão, que as barragens do Sistema Alto Tietê estavam excessivamente cheias.

O questionamento teria ocorrido, segundo ele, durante reunião do comitê da qual participam também representantes do Daee e da Sabesp. O alerta estaria documentado em ata. “No início do ano, praticamente secaram o Tietê e encheram os reservatórios. Em Mogi, o rio ficou meses com apenas 20 centímetros de lâmina de água. No final do ano, as barragens já estavam muito lotadas para a época”, afirma.

Segundo ele, o normal seria o vazamento controlado das represas ter começado por volta de setembro para que agora, no verão, elas estivessem mais vazias para receber as águas das chuvas, não transbordarem e não chegarem a esta época com 90% da capacidade preenchida. “O único jeito agora foi abrir as comportas, pois as represas estão cheias e vão transbordar. Aliás, em Mogi e em Jundiaí já extravasaram”, afirma.

“Há 13 anos acompanho esse processo e sei que reservam cotas nas barragens, prevendo as cheias de verão. Em 2009, não fizeram isso. O resultado foi que chegamos a dezembro com a quase totalidade das barragens cheias”, explica. O governo tem afirmado que as barragens foram mantidas cheias pois havia risco de estiagem em 2009 e que não dava para prever as chuvas atípicas que assolam o estado.

Depois de represas do Sistema Cantareira transbordarem e 1.376 famílias abandonares suas casas em Atibaia, Bragança Pedreira, Morungaba e Amparo, agora é o sistema de produção do Alto Tietê que causa uma nova preocupação para Sabesp e prefeituras locais. No começo do ano, 55,5% da capacidade dessas represas estava sendo utilizada. No dia 15, era 78,8%. Ontem, o volume armazenado já chegava a 89,1% no início da tarde – segundo a própria Sabesp, se as chuvas continuarem atípicas, as regiões ribeirinhas das cidades de Suzano, Mogi das Cruzes e Itaquaquecetuba também terão alagamentos.

A Defesa Civil Estadual já recebeu alerta da Sabesp e pediu aos municípios mapeamento detalhado das áreas que poderão ser atingidas. “Temos um ótimo sistema de comunicação com a Defesa Civil para evitar problema maiores”, diz Paulo Massato, diretor metropolitano da Sabesp. “Se continuar chovendo e as represas não aguentarem tanta água, tenho certeza que o sistema de prevenção vai funcionar tão bem quanto funcionou em Atibaia.”

Moradores abrem comporta de usina

Diego Zanchetta – JT

Cerca de 30 moradores do Parque das Nações e do condomínio Santa Mônica, em Atibaia, invadiram na madrugada de ontem a hidrelétrica do centro empresarial da cidade e abriram 40 centímetros de uma das duas comportas da barragem. Foram liberados 5 mil litros de água por segundo a mais no Rio Atibaia. Segundo as famílias, um dos vertedouros era mantido fechado havia dois meses para obras de manutenção, o que estaria aumentando a retenção de águas nas margens do rio.

O operador da usina confirma que o vertedouro estava fechado para a instalação de bobinas, mas nega que a medida tenha contribuído para as enchentes.

Seis homens com cordas ajudaram a puxar a madeira da comporta. Por volta das 8 horas, eles comemoravam e diziam que o nível do rio e das ruas alagadas só não subiu mais por causa da ação.

Com o apoio de três advogados, os moradores esperaram do lado de fora até amanhecer, quando empresários e o operador do local, após reunião com as famílias, concordaram em manter os 40 cm abertos até segunda-feira. Na terça, o local será vistoriado por técnicos da Secretaria Estadual dos Recursos Hídricos. A invasão não foi registrada na polícia.

Em seguida, os moradores saíram em protesto pelo centro. Cerca de 70 deles pediram o fechamento da usina ao prefeito José Denig (PV). Ele se comprometeu a pedir um estudo ao Estado. Para a prefeitura, as enchentes são reflexo da abertura dos vertedouros dos Reservatórios Atibainha e Jaguari e chuvas. A Sabesp responsabiliza as chuvas.