26/03/2009 - 20:48h Comércio em queda, protecionismo em alta

Antônio Palocci – O Estado SP

Um dos efeitos mais graves da atual crise é a contração do comércio mundial. Ela vinha ocorrendo lentamente desde a eclosão dos problemas na área imobiliária americana em 2007. Mas em setembro do ano passado, após a quebra do Lehman Brothers, a crise financeira se exacerbou, secando as linhas de crédito para o comércio em todo o mundo.

A desorganização do fluxo de comércio internacional é, desde então, assustadora. Esse é um duro revés na economia da maior parte das nações, pois atinge uma atividade saudável para os países e promotora de maior produtividade nas empresas. A Ásia, que tinha a exportação de manufaturas como mola principal para tirar centenas de milhões de pessoas da miséria, é a região que mais sofre.

Atualmente o mercado de manufaturas apresenta capacidade ociosa porque, na esteira dos problemas de liquidez, há uma forte redução no consumo das famílias americanas, que representava 30% do consumo mundial. A maciça desorganização da economia americana, a partir do desmoronamento do seu setor financeiro, sugere, pelos seus reflexos no emprego, que essa contração não se reverterá imediatamente.

O endividamento das famílias jovens e a perda do valor dos ativos e da poupança para a aposentadoria das famílias mais idosas pesam nas expectativas de ambas, levando-as a ser muito cautelosas e não gastar os recentes incentivos fiscais e ajudas governamentais. De fato, a taxa de poupança das famílias americanas está nos níveis mais elevados dos últimos 14 anos.

Na Ásia, a queda da demanda se explica mais pela redução da renda corrente, em razão da retração do comércio internacional, do que pela queda de expectativas de médio prazo. Na medida em que o setor externo equivale a parcela significativa da produção desses países (China, 41,3%; Coreia, 45,6%; Tailândia, 73,8%; Malásia, 110,2%; e Cingapura, 230%), a contração tem efeito imediato sobre a massa salarial e o consumo.

É nesses países – onde tradicionalmente o déficit fiscal e a dívida pública são pequenos e há grandes excedentes comerciais (como os EUA tinham ao final dos anos 20) – que uma política mais agressiva de expansão fiscal e benefícios sociais para reanimar a demanda tem mais chances de sucesso, mesmo que as famílias asiáticas tenham maior propensão à poupança.

As ondas destrutivas da contração comercial já chegaram ao Brasil. As reduções nas exportações estão, desde setembro, persistentemente no campo dos dois dígitos, embora se observe uma pequena melhora mês a mês. Centenas de empresas de menor porte já deixaram de exportar.

O efeito no emprego e na renda tem sido menor aqui, no Brasil, do que na Ásia, onde o comércio corresponde à parcela maior da produção. Mas ele existe e atinge empresas e produtores da melhor qualidade, que têm vencido com base na conquista permanente de produtividade.

Nesses últimos anos o Brasil ampliou fortemente sua capacidade exportadora, diversificando mercados e assumindo a liderança no comércio de produtos minerais e do agronegócio. Mas mesmo no setor de manufaturas enfrentando uma duríssima concorrência com os asiáticos, muitas empresas brasileiras conquistaram importantes espaços.

Essas empresas superaram o desafio da valorização do real nos últimos anos, mas verão suas exportações debilitadas ainda por um tempo, pois a recente desvalorização da moeda não será suficiente para compensar a queda de demanda nos países mais ricos. Na verdade, em termos de comércio, o mundo ficou realmente menor.

Enquanto a crise financeira não for debelada, será muito difícil haver uma recuperação sustentada do comércio internacional. O desafio, portanto, é como compensar essas perdas – ainda que parcialmente – sem partir para o protecionismo, que começa a reaparecer como mecanismo de defesa em muitos países.

O protecionismo pune o consumidor do país que o pratica em nome do interesse de determinados segmentos arbitrariamente escolhidos. Perversamente, pune também o esforço de produtividade das empresas e dos países que desenvolvem corretamente suas próprias vocações. A pesquisa e a inovação são gravemente prejudicadas por barreiras, subsídios e outras distorções que vão surgindo.

Para lidar com esses novos desafios, países como o Brasil têm (assim como a China) a vantagem de um grande mercado interno e baixo endividamento das empresas e famílias. Assim, se a saúde do sistema financeiro e da área fiscal for preservada, há espaço para o crédito expandir e a economia se manter viva, sem trazer enfraquecimento maior para as contas externas, que são sempre o maior risco ao crescimento.

Muitas das empresas atingidas pelo colapso exportador estão entre as maiores e melhores do País. Se forem ajudadas por um conjunto coerente de ações, poderão sobreviver a esse momento duro, ajustando suas vendas e produtos para a realidade atual e se preparando para a retomada do comércio, que virá mais cedo ou mais tarde. Garantia de crédito no curto prazo, espaço para ajuste, redução de risco regulatório e dos custos de conformidade à lei podem ser a melhor forma dos governos diminuírem as incertezas e as fricções da economia.

Esses são mecanismos muito mais eficientes e justos do que o protecionismo. Afinal, o mundo aprendeu nos últimos anos que as trocas comerciais criam emprego e renda, desenvolvem vocações locais e regionais e ainda melhoram a produtividade de todo o tecido econômico. Se algum setor tem culpas por esta crise, certamente não é o do comércio.

Antônio Palocci, deputado federal (PT-SP), foi ministro da Fazenda

16/03/2009 - 13:19h O antiamericanismo do governo Lula

Sergio Leo – VALOR

A alegria quase adolescente com que as autoridades brasileiras falam da aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama desmoraliza um dos mais frequentes lugares-comuns nas críticas à política externa do governo, a acusação de antiamericanismo. Quando se trata da relação comercial Brasil-EUA, os críticos têm até (reduzida) base real para reprovações contra Lula e assessores, mas o chavão foi esquecido neste fim de semana. Parte das atenções para o encontro entre Lula e Obama se concentrou em uma tolice, as tarifas dos EUA contra o etanol brasileiro.

Etanol não é besteira, nem o esforço brasileiro para derrubar as barreiras dos Estados Unidos contra qualquer produto brasileiro, especialmente commodity tão simbólica. Mas medir os resultados do primeiro encontro dos presidentes por decisões que possam adotar em relação à tarifa do álcool é um exercício de quem ignora a natureza e funcionamento do poder nos EUA.

Não será na Casa Branca que se decidirão mudanças relevantes na política comercial americana nessa questão. É no Capitólio, o Congresso dos EUA. Que, aliás, rejeitou na semana passada a tentativa feita por Obama de reduzir os subsídios pesados à agricultura, que distorcem o comércio e prejudicam países competitivos como o Brasil.

Curiosamente, o blogue da Casa Branca contraria o noticiário que, no Brasil, insinuou uma aparente relutância de Obama em reduzir a tarifa aplicada sobre o etanol brasileiro nos EUA. O texto do governo americano fala do tom “positivo e otimista” de Obama, que limitou-se a dizer o óbvio – a questão do etanol não se resolve do dia para a noite – e disse acreditar que essa fonte de atrito se eliminará com o tempo, à medida em que os dois governos aprofundarem a troca de “ideias, comércio, intercâmbio no setor de biocombustível”. Esse último comentário foi ignorado no relato de jornais brasileiros.

Entre os queixumes com ar de despeito feitos sobre a bem-sucedida visita de Lula a Obama, uma crítica é relevante: como notou o presidente do Diálogo Interamericano, Peter Hakim, Lula poderia ter aproveitado a oportunidade para contatos com os importantes presidentes das comissões do Congresso, tão essenciais para o futuro das questões de interesse brasileiro quanto o chefe do Executivo americano.

Lula, que hoje fala a empresários, limitou os encontros extra-agenda a uma conversa com um velho conhecido, John Sweeney, presidente da AFL-CIO, principal organização sindical do país. Visita importante: a AFL-CIO move parte do insistente lobby protecionista americano. Não há registro, porém, que Lula tenha tentado converter Sweeney para a campanha de livre-mercado hoje em moda no Planalto.

O embaixador do Brasil em Washington, Antônio Patriota, considera a questão levantada por Hakim um “falso problema”, já que a viagem, desde o convite, no primeiro contato telefônico entre os dois presidentes, à definição da data – que se ajustou à agenda de Obama – tinha uma característica diferente da visita de Estado, onde, aí sim, sem nenhuma distorção no protocolo, caberiam encontros de Lula com líderes no Congresso americano. “Essa crítica está fora de foco; e o Brasil não pode ser visto apenas pela perspectiva interamericana”, reage Patriota.

De fato, o Brasil, para os EUA tem uma dimensão hemisférica e outra mundial. A tradição é dar ênfase à relação dos EUA com o Brasil no plano do chamado Hemisfério Ocidental. Nesse plano, o encontro deu sinais importantes. Primeiro deles: como definiu a revista “Time”, na edição desta semana, Lula firmou-se como a “melhor aposta” para aproximar o governo Obama da esquerda que governa boa parte dos países do continente. Lula teve aval do venezuelano Hugo Chávez para levar sinais de paz à Casa Branca. Mais discreto, o boliviano Evo Morales indicou a Lula que gostaria de encontrar-se com Obama às margens da reunião da Cúpula das Américas, em abril, onde o Brasil será ator de destaque.

Também notável foi o anúncio feito por Lula de que o Brasil promoverá a formação de uma instituição sul-americana para cuidar, sem participação dos EUA, do combate a drogas no continente. Tarefa inadiável e complicada. Na Bolívia, por exemplo, a receita com o gás natural tende a cair, deixando sem muitas opções de renda a economia do país. Vale lembrar que o presidente da República, lá, fez questão de manter, depois de eleito, o posto de presidente do sindicato de cultivadores de coca.

Como nota o embaixador brasileiro nos EUA, porém, a dimensão do Brasil se expandiu para além do continente, e também nesse aspecto é um avanço importante a abertura de um canal direto com o governo Obama, para discutir as soluções em discussão para a crise econômica global. É difícil imaginar que o secretário do Tesouro, Thomas Geithner, vá consultar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para decidir os próximos passos a tomar na crise; mas a criação de um regime de contatos regulares entre as duas equipes econômicas tem o potencial de aumentar em muito a qualidade do processo decisório e a esfera de ação das autoridades brasileiras.

Resta das acusações de antiamericanismo contra o governo brasileiro a constatação de que, desde os anúncios de parceria estratégica, ainda no governo Bush, pouco andaram os grupos de trabalho criados ou o comemorado Fórum de Altos Executivos Brasil-EUA; e os interesses estritamente bilaterais perderam espaço na agenda em Brasília.

Baseada em evidências como a delicada economia do México, maior parceiro americano no continente, e a recusa americana em aprovar até hoje acordos de livre comércio já assinados com parceiros fiéis como a Colômbia, há uma convicção no governo brasileiro de que as diferenças essenciais de interesse entre os dois países recomendam certo descolamento da agenda americana. Se os mecanismos de parceria criados com o governo dos EUA forem postos em funcionamento desta vez, o governo poderá argumentar mais facilmente que suas ações não são guiadas por preconceitos ideológicos, mas por frio e saudável pragmatismo.

Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras

E-mail sergio.leo@valor.com.br

16/03/2009 - 12:39h Pesquisa revela boa imagem do país

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VALOR

Ao contrário do que se poderia imaginar, deputados e senadores americanos evitam colocar no mesmo balaio Brasil, Argentina e Venezuela. O governo brasileiro não recebe dos parlamentares dos EUA rótulos como “esquerdista” ou “antiamericano”. E o temor que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inspirou quando ganhou as eleições em 2002 é passado. Hoje, o ex-líder sindical é visto com simpatia pela nova legislatura, de maioria democrata.

Essa é uma das conclusões de pesquisa inédita sobre a imagem do Brasil no Congresso americano encomendada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) a um escritório de lobby nos EUA. Os resultados surpreenderam positivamente a entidade, que quer aproveitar a boa imagem do país para defender os interesses da indústria brasileira. “Temos que intensificar o trabalho no Congresso americano porque o momento é positivo”, disse Mario Marconini, diretor de relações internacionais da Fiesp.

A pesquisa envolveu entrevistas qualitativas com os assessores dos líderes dos principais comitês da Câmara e do Senado e outros parlamentares influentes dos partidos Republicano e Democrata. A Fiesp contratou lobistas com experiência na área e passagem pelo USTR, órgão responsável pelas negociações internacionais nos EUA.

O estudo concluiu que os parlamentares americanos, na relação com o Brasil, estão focados na Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio (OMC). Temas como um eventual acordo bilateral com o país, com o Mercosul, ou mesmo a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) ficam fora do radar. O Brasil é visto como um dos protagonistas da Rodada. E, nesse ponto, uma boa surpresa: ao contrário do mal-estar pós-Cancún, quando surgiu o G-20, o Brasil não é mais o vilão das negociações.

“Está claro para os americanos que a culpa do fracasso de Doha não foi do Brasil. A responsabilidade está em cima da Índia e, em um nível menor, da China”, avalia Marconini. Conforme a pesquisa, a mudança de posição do Brasil em julho de 2008, ao aceitar o pacote proposto pelo diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, repercutiu bem no Congresso americano. O tema preocupava a indústria, porque as posições do Brasil em Doha já foram utilizadas como argumento para tentar excluir o Brasil do Sistema Geral de Preferência (SGP), que permite a entrada de alguns produtos com tarifa zero nos EUA.

Em dois temas sensíveis para o setor privado brasileiro – a tarifa cobrada para a importação de etanol no país e os subsídios concedidos ao produtor de algodão – o estudo apontou que “existe um mosaico de posições” no Congresso dos EUA. Ou seja, parlamentares a favor, outros contra e alguns que ainda não formaram posição. Marconini enxerga uma oportunidade, pois significa que há espaço para o lobby brasileiro procurar influenciar os deputados.

O ponto mais negativo da imagem do Brasil para os congressistas americanos é a devastação da Amazônia. Eles estão muito preocupados com a queima da floresta e seus efeitos para o aquecimento global e para as comunidades indígenas locais. Essa crítica serve como uma alerta para a indústria brasileira, mesmo do ponto de vista comercial. As empresas temem que questões ambientais sejam utilizadas como barreiras ao comércio exterior, por exemplo, com a cobrança de tarifas extras para a importação de produtos provenientes de países poluidores.

Para o diretor de energia da Fiesp, Carlos Cavalcanti, o Brasil precisa ganhar a batalha de marketing nesse assunto e convencer os EUA e o mundo de que produz energia limpa e que pode controlar o desmatamento da Amazônia. “Não podemos errar. Temos que nos desvincular de China e Índia, que possuem algumas das matrizes energéticas mais sujas do mundo”, disse. (RL)

16/03/2009 - 09:50h Queda no comércio global será “terrível”

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O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, que teme efeito devastador da contração de até 7% do comércio mundial em 2009

ENTREVISTA DA 2ª

PASCAL LAMY
DIRETOR-GERAL DA OMC

Crise implicará a primeira contração do comércio internacional desde 1982

O francês Pascal Lamy não esconde seu pessimismo quando fala da contração que o comércio mundial sofrerá neste ano, a primeira desde 1982. “Será terrível.” Como diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), ele acompanha de perto o baque sofrido pelo comércio. Seu “faro” indica que o recuo pode chegar a 7%, previsão ainda pior do que as feitas pelos organismos internacionais. Além da queda na demanda, o protecionismo e a falta de financiamento ameaçam o comércio. Lamy continua alertando os membros da OMC para resistir à tentação de fechar seus mercados. “É um tiro no pé.”

MARCELO NINIO – FOLHA SP

DE GENEBRA

Por outro lado, a incerteza no mercado financeiro é intensa, o que restringe os canais de crédito que alimentam o comércio. O volume de papéis podres nos bancos ainda é tão grande, observa Lamy, que a crise pode estar apenas na metade. Por isso, a prioridade absoluta do G20 será focar o sistema bancário de forma clara: “Limpar, limpar, limpar.” Em entrevista à Folha, Lamy reiterou o elogio recente que fez ao presidente Lula na luta contra o protecionismo, pela revogação de barreiras à importação, mas disse que o país precisa de mecanismos mais eficientes de facilitação de comércio. Para ele, a presença do Estado brasileiro no setor ainda é excessiva.

FOLHA – O premiê britânico, Gordon Brown, alertou que o mundo corre o risco de desglobalização. O sr. concorda?
PASCAL LAMY
- Depende do que você chama de desglobalização. Se é o encolhimento do comércio, é óbvio que acontecerá. Os números do comércio vão virar. Agora que a economia mundial terá crescimento zero ou negativo, o comércio terá contração de 6% ou 7%. Mas a globalização é muito mais do que comércio. É uma reforma total do processo produtivo, com um gerenciamento global de oferta e demanda.
Quando os EUA importam um Ipod da China por US$ 100, há US$ 5 de valor agregado chinês. Isso é globalização. Haverá menos Ipods exportados da China para os EUA. Mas isso não muda o fato de que os meios de produção mudaram, e que os países aproveitaram a sua vantagem comparativa. Veja o exemplo do Brasil em alimentos. As exportações de alimentos do Brasil vão cair com a queda da demanda. Mas isso significa que a vantagem comparativa do Brasil acabou? Não. O processo [da globalização] é bem mais sofisticado.

FOLHA – É irreversível?
LAMY
- Eu acho que sim. Mas é claro que os ganhos da globalização serão reduzidos, assim como a eficiência gerada pelas mudanças na produção. Com isso, cai o volume do comércio. Haverá menos crescimento econômico e, com isso, mais pobreza. É óbvio que os países em desenvolvimento, cuja dependência desses fluxos era maior, serão os mais atingidos.

FOLHA – Isso não pode gerar uma onda de desconfiança com o livre comércio internacional?
LAMY
- O impulso de curto prazo para a proteção é compreensível em tempos de dificuldades sociais e econômicas. Mas há muitas formas melhores de proteger as pessoas, seus empregos e o consumo dos pobres, do que o protecionismo. À primeira vista, algumas pessoas dirão que é melhor ser menos dependente do comércio. Mas a médio e longo prazos isso significa menos crescimento. Os países que se apoiaram mais no comércio cresceram 2% a mais do que a média. É claro que em tempos de recessão há um contrachoque. Mas isso não significa que um país deve renunciar a aumentar sua vantagem comparativa no comércio mundial.

FOLHA – Sua previsão [de retração de 7%] para o comércio mundial em 2009 é mais pessimista que a do FMI, de contração de 5%?
LAMY
- É a minha expectativa. Passo metade do tempo falando com gente que lida com comércio em vários continentes, e o meu faro diz que será terrível. A questão não é se o comércio mundial vai ou não encolher. A questão é se vai contrair por razões além da queda na demanda. E as outras razões podem ser o protecionismo e a falta de financiamento.

FOLHA – Cláusulas como o “Buy American”, do pacote de estímulo dos EUA, são um sinal preocupante?
LAMY
- De certa forma é inevitável. Políticos são eleitos por seus eleitorados, não pelos vizinhos. Eu digo a eles que isso não combina com o planeta de hoje, em que é preciso agir em conjunto. A boa notícia é que o protecionismo de alta intensidade, como o dos anos 30, está descartado, graças às disciplinas a que os países se submeteram na OMC. A má notícia é que ainda há espaço de ação para os membros da OMC. As pessoas tendem a focalizar as tarifas, mas há formas ocultas e sutis de protecionismo, como as barreiras não-tarifárias, licenças. Ocorre que mesmo o protecionismo de baixa intensidade pode ter um grande impacto, pois nossas economias estão 20 vezes mais interdependentes do que nos anos 30. Se eu fizer, outros imediatamente farão. É um tiro no próprio pé. Na OMC temos regras que proíbem subsídios à indústria e à agricultura. Mas não há regras específicas sobre serviços, como os bancários. É mais uma evidência de que o sistema financeiro não é suficientemente regulado. O órgão internacional de doenças animais é mais bem regulado que os bancos.

FOLHA – O sr. disse que o presidente Lula merecia um prêmio pelo antiprotecionismo. Mas na revisão da política comercial do Brasil (TPR, na sigla em inglês), apresentada há poucos dias, a OMC disse que o Brasil precisa se abrir mais.
LAMY
- Uma coisa é como as pessoas estão lidando com a crise. A outra é o TPR, que leva tempo. Eu citei o presidente Lula porque ele foi um exemplo de ação. Num dia o licenciamento estava no “Diário Oficial” e no outro ele cancelou tudo. Lula agiu de acordo com o que fala, foi coerente. Quanto ao TPR, houve algumas críticas, mas de modo geral o balanço é positivo, a gestão macroeconômica do Brasil é boa. Um exemplo é que o Banco Central reduziu os juros em plena crise. É um comportamento normal, mas sabemos que no passado ocorria o contrário. Ou seja, o país está se normalizando, embora os juros ainda estejam altos.
Uma área em que há problemas é a facilitação de comércio. Se eu tivesse que aconselhar o Brasil sobre sua política econômica, eu diria para criar um grande programa de facilitação de comércio. O fato de mais de 30% das linhas tarifárias, nesse país emergente e moderno, ainda precisarem de licenças não-automáticas para importação não combina. Há uma discrepância entre a força da economia e do comércio, e sua liderança na OMC, e o fato de 30% de linhas tarifárias ainda precisarem do carimbo de alguém em um escritório. É um problema administrativo, que por algum motivo persiste.

FOLHA – A presença do Estado é grande demais?
LAMY
- Não sou um especialista, mas isso me parece claro.

FOLHA – O Brasil está preparado para enfrentar a crise?
LAMY
- Não sei. Quem sabe quando teremos atingido o fundo do poço? Isso só acontecerá quando as pessoas estiverem convencidas de que o sistema financeiro está limpo. Quando olhamos os números do FMI, vemos que o volume de ativos tóxicos é superior a US$ 2 trilhões e o volume de perdas até agora é US$ 800 bilhões. Isso significa que ainda não estamos nem na metade da limpeza, que é um pré-requisito para o fim da crise. Digamos que um exportador chinês tem um carregamento pronto para os EUA.
Ele precisa de uma carta de crédito e recebe uma proposta de um banco dos EUA, mas a rejeita, pois teme que todos os bancos americanos irão quebrar. E acaba mantendo seu carregamento. Enquanto estivermos nessa situação, será difícil sair da crise. Precisamos limpar o sistema financeiro e essa tem de ser a prioridade do G20: limpar, limpar, limpar. Não importa como isso é feito, com bancos podres, nacionalização etc.

FOLHA – A queda no PIB do Brasil pode induzir ao protecionismo?
LAMY
- Não é o que o presidente Lula diz. Haverá pressões, tenho certeza. A questão é se você resiste às pressões em nome do bem coletivo, que é manter o comércio aberto durante essa crise. Isso é importante principalmente para os países em desenvolvimento. O principal estímulo para esses países não é seu orçamento, mas o comércio. É por isso que a conclusão da Rodada Doha é agora uma prioridade ainda maior do que no ano passado. Os efeitos da crise para o Brasil serão terríveis, mas muito piores nos países mais pobres. Parece óbvio que a África será uma das grandes vítimas da crise, apesar de não tê-la iniciado.

15/03/2009 - 11:38h Comércio global entra em colapso e pode ter maior queda em 80 anos

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Recuo nas exportações supera as projeções e agrava crise em países como Japão, Itália, México e Argentina

Jamil Chade, GENEBRA – O Estado SP

Pelo menos um quinto do valor do comércio mundial pode desaparecer em 2009, na maior contração em décadas nas exportações. Nesta semana, um dos principais institutos de pesquisa sobre o comércio no planeta – o Escritório de Análise de Política Econômica da Holanda – publicará suas novas previsões. Os dados obtidos com exclusividade pelo Estado, que estavam sendo guardados em sigilo, revelam que a queda prevista é de 10% em volume de cargas e de 22,5% em valores.

Em portos de todo o mundo, a queda já está sendo sentida. Em janeiro, China, Japão, Alemanha, Coreia do Sul, Cingapura, Itália, México, Argentina e outros pilares das exportações mundiais já tiveram, em janeiro, retração recorde das vendas. O tema vai estar na agenda do G-20, que se reúne no início de abril em Londres.

“A queda será enorme e bem maior do que tínhamos previsto”, disse Wim Suyker, um dos autores do levantamento do instituto holandês. “Havíamos feito uma previsão. Mas, diante dos últimos números, nossa indicação é de que o volume do comércio cairá em 10% e, em valores, mais de 22%.” O Escritório de Análise produz os dados a cada três meses, e é usado como fonte para previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da União Europeia (UE).

Estimativas do FMI apontam que a queda em volumes poderá ser de 5% no comércio mundial em 2009. Mas admite que esse número pode ser bem maior. Na Organização Mundial do Comércio (OMC), o diretor-geral Pascal Lamy promete divulgar seus novos números até o dia 31. A previsão, já considerada superada, aponta para uma queda de 3% em volumes. Já o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, estima que a queda nas exportações é a maior em 80 anos.

“A crise não surgiu no comércio. Mas há uma paralisia de um sistema inteiro de finanças e investimentos, o que está contaminando o fluxo de comércio”, disse Heiner Flassbeck, economista-chefe da Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento (Unctad).

Segundo os especialistas holandeses, três fatores estão levando à queda sem precedentes do comércio. A primeira é a falta de crédito para exportações. Segundo o Banco Central, a redução média mundial foi de mais de 50%, afetando principalmente países emergentes.

O segundo fator é a queda da demanda nos três pilares da economia mundial. Nos Estados Unidos, Europa e Japão, a queda no consumo está levando a uma redução drástica das importações. O resultado é uma queda nas vendas dos países emergentes.

Para completar, a queda nos preços das commodities está levando a uma redução na renda dos exportadores. No último trimestre de 2008, a queda média dos preços das commodities foi de 74%, segundo Suyker. “Essa queda pode continuar nos próximos meses.” Por enquanto, medidas protecionistas dos governos não estão tendo impacto direto no comércio. Mas o temor é de que, com o aprofundamento da recessão, as barreiras se proliferem para salvar empregos em diferentes países.

Mas a realidade é que a queda já está sendo sentida. No quarto trimestre do ano, o recuo em valores chegou a 22%. Para o instituto holandês, a redução é “sem precedentes” em um só trimestre. Só as vendas americanas caíram em 36% naquele período.

Em janeiro, os dados de vários países mostram quedas profundas. No segundo maior exportador do planeta, a China, a queda foi de 25% em relação a um ano antes, depois de já ter sofrido outra queda de 24% em dezembro. A redução ainda fez encolher o superávit do país, pressionando o governo a incentivar o comércio doméstico. Hoje, o superávit está em US$ 4,8 bilhões, um oitavo do valor anterior. O recorde havia sido obtido em novembro, quando o superávit atingiu US$ 40 bilhões.

Para lidar com a queda, a China retirou impostos à exportação e ainda deixou de forçar uma valorização do yuan – 30% da produção chinesa tem como destino o mercado internacional. O governo já fala em 20 milhões de desempregados desde o início da crise. Só na província de Guangdong, a queda de exportações já obrigou 20 mil empresas a fecharem as portas.

No Japão, a queda das exportações em janeiro foi de 46%, ante 60% em Taiwan e 32% na Coreia. Em Hong Kong, caiu 22% e nas Filipinas, 41%.

Na América Latina, a queda nos preços de commodities teve impacto profundo. Países com amplo comércio com os EUA são os que mais sofrem. No México, a queda nas exportações chegou a 31,5% em janeiro. Só para os EUA caiu 50%. No Chile, a queda no preço do cobre contribuiu para derrubar as vendas em 37% no mês.

Para o secretário-geral da Conferência da ONU para o Desenvolvimento e Comércio, Supachai Panitchpakdi, a queda nas exportações se transformou na imagem mais clara da recessão hoje no mundo. Ele alerta, porém, que será difícil convencer consumidores a voltar a comprar. “Na Ásia, a reação normal será a de guardar dinheiro. Não adianta dizer que terão de gastar mais e, assim, retomar o comércio. Isso é quase um tema cultural.”

No G-20, americanos e ingleses apresentarão propostas de crédito para o comércio. Já a Comissão da ONU para estudar estratégias contra a crise sugere que países ricos abram seus mercados imediatamente aos produtos das economias mais pobres, como forma de ajudá-las a superar a crise. “Precisamos criar uma nova demanda”, disse Joseph Stiglitz, economista e chefe da comissão. Sua avaliação é oposta à de Supachai.

15/03/2009 - 10:10h Obama e Lula discutem ação anticrise e tensão comercial

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Líderes falam em traçar uma estratégia conjunta para reunião do G20, em abril

Presidente americano não se compromete a levantar barreiras sobre o álcool do Brasil e diz que tensão não acabará “da noite para o dia”

SÉRGIO DÁVILA – FOLHA SP

DE WASHINGTON

No primeiro encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama, no Salão Oval da Casa Branca, os presidentes falaram em traçar estratégia conjunta contra a crise econômica a ser apresentada na reunião do G20, em abril em Londres. Criticaram ainda a recente onda de protecionismo e prometeram avançar a agenda comum de biocombustíveis, apesar da negativa do americano em levantar barreiras tarifárias ao álcool brasileiro por ora.
Obama convocou o economista-chefe da Casa Branca, Lawrence Summers, para participar da parte ampliada do encontro, que no total durou cerca de duas horas, o dobro do tempo inicialmente previsto. O democrata defende uma ação global coordenada contra a recessão mundial atual.
A aliança entre o país mais rico do mundo e a maior economia da América Latina em torno da crise marca um novo grau na relação bilateral e o início oficial do trato entre os dois líderes, que até ontem não se conheciam pessoalmente.
“Pretendemos ter uma série de reuniões em nível ministerial nos próximos dias e semanas”, disse Obama, sobre o G20 (maiores economias do mundo), “para coordenar nossas atividades para fortalecer o crescimento econômico global”. Em encontro posterior com jornalistas brasileiros na sede da Embaixada do Brasil, Lula confirmaria a parceria.
“Foi muito importante a proposta de Obama para constituirmos um grupo de trabalho Brasil-EUA a fim de preparar um trabalho conjunto na reunião do G20″, disse.
Nos próximos dias, o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) e a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, além de outros representantes do alto escalão dos dois governos, se encontrarão a fim de fazer um esbolo de plano de ação, que envolve, de acordo com Lula, regulação financeira e ações de estímulo fiscal.

Divergência
Num clima bem-humorado, em que ambos os líderes fizeram e ouviram brincadeiras, Lula e Obama pareceram concordar apenas sobre a crise. Ambos defenderam posições conflitantes em relação a medidas protecionistas e barreiras impostas ao álcool brasileiro nos EUA. Obama reconheceu que a questão do biocombustível “tem sido um ponto de tensão entre os dois países”.
“Isso não vai mudar da noite para o dia, mas eu acho que conforme nós continuemos a desenvolver as ideias, o comércio, a negociação em torno da questão do biodiesel, com o tempo essa fonte de tensão pode ser resolvida.”
Já Lula respondeu que não entendia como um combustível poluente como o petróleo não era taxado, mas uma fonte limpa como o álcool brasileiro era. “Mas não espero uma resposta imediata, isso é um processo”, disse o brasileiro, para emendar com um convite para que seu colega norte-americano andasse num carro de tecnologia flex quando visitasse o Brasil -viagem que o democrata confirmou que pretende fazer em breve. Obama respondeu que seu carro já era flex.
“Mas um dos problemas aqui nos EUA é que não temos postos suficientes com biocombustíveis, mas essa é a razão pela qual temos de mudar o sistema de distribuição aqui.”
Os EUA aplicam tarifa de US$ 0,54 por galão (cerca de 3 litros) de álcool brasileiro, o que inibe a entrada do produto. Brasil e EUA produzem 70% do álcool mundial. As exportações brasileiras de álcool somaram 5,16 bilhões de litros em 2008 -45,7% mais que 2007. O maior comprador foram os EUA -2,8 bilhões de litros.
Sobre protecionismo, Obama defendeu a medida “Buy American” (compre produtos americanos, em tradução livre), aprovada recentemente pelo Congresso, dizendo que sua equipe trabalhou para que a emenda não violasse as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“Tenho certeza de que o presidente Lula vai dar passos semelhantes no Brasil para assegurar que não estamos retrocedendo no quesito do comércio mundial”, afirmou. Lula disse que os países estiveram muito próximos da conclusão da Rodada Doha de liberalização de comércio, mas “questões eleitorais nos EUA” atrapalharam.
Lula é o primeiro latino-americano a ser recebido na Casa Branca desde a posse de Obama, em janeiro, e o terceiro líder mundial, depois dos primeiros-ministros Taro Aso (japonês) e Gordon Brown (britânico). Nos últimos dias, assessores obamistas chamaram o país de “parceiro global”.
O brasileiro chegou à Ala Oeste da Casa Branca às 10h56 locais (11h56 de Brasília). Na comitiva, estavam os ministros Amorim, Dilma Rousseff (Casa Civil), o assessor Marco Aurélio Garcia e o embaixador Antonio Patriota. Eles participaram no salão Roosevelt da parte ampliada da reunião, que durou 50 minutos. Do lado americano, além de Summers, estavam o assessor de Segurança Nacional (NSC, na sigla em inglês), James Jones, um de seus vices, Mike Donilon, o número 2 do Departamento de Estado, James Steinberg, e o responsável pela América Latina do NSC, Dan Restrepo.
A meia hora seguinte os dois passaram no Salão Oval, o escritório presidencial, onde conversaram na presença dos intérpretes. Nos 40 minutos finais, os jornalistas entraram. De lá, o anfitrião levou Lula até a saída no jardim das Rosas.

13/03/2009 - 10:30h Comércio global pode cair 17%

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Banco Mundial prevê a maior queda em 80 anos

Jamil Chade, GENEBRA – O Estado SP

O comércio mundial terá em 2009 a maior queda em 80 anos, segundo estimativas do Banco Mundial. Para o secretário-geral da Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento, Supachai Panitchpakdi, essa queda será de pelo menos 10%, chegando a 17% no pior dos cenários.

Ontem, o governo alemão declarou que as exportações em janeiro caíram 20%. Berlim é o maior exportador do mundo e sofre com a recessão generalizada. Em dezembro, já havia verificado queda de 7%, o suficiente para provocar uma retração de 2% no Produto Interno Bruto (PIB) do país. Já o Reino Unido verificou queda de 15% nas exportações para fora da Europa.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê que a redução das exportações no mundo será de 3%. Mas, no dia 31 de março, deve rever os números. “O número será feio”, antecipou Patrick Loew, economista-chefe da OMC. Para Supachai, que já ocupou o cargo de diretor-geral da OMC, o número da entidade já está “amplamente superado”. “Temos países importantes que tiveram quedas de mais de 20%.”

Pelos menos dois fatores têm impactado o comércio: a queda nas linhas de crédito aos países emergentes, que foi reduzida em 50%, e a queda na demanda, com a recessão nas maiores economias do mundo.

Isso se reflete em recuo generalizada das exportações. Na Ásia, plataformas de exportações sofrem um colapso. Na Coreia do Sul, as exportações despencaram 33% em janeiro. Em Cingapura, 35%, e, em Taiwan, mais de 43%. No Japão, a queda foi de quase 46% em janeiro. Na China, é a maior desde 1979, com 29%.

ABERTURA

O Brasil não quer esperar uma retomada do processo de negociação na OMC para lutar contra o protecionismo. Na reunião do G-20 (grupo dos 20 países mais industrializados), em abril, o governo quer uma declaração contra a imposição de barreiras. Mas acredita que a moratória declarada pelo G-20 de não impor medidas protecionistas não tem credibilidade.

03/03/2009 - 11:37h Lula: prêmio antiprotecionista

Diretor-geral da OMC diz que País resiste à tentação

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Jamil Chade – O Estado SP

O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, aponta o Brasil como o exemplo máximo de um governo que está resistindo às tentações protecionistas, indicando que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mereceria até “um prêmio”. Para Lamy, Lula superaria o presidente americano, Barack Obama, que ficaria em segundo lugar por estar tentando criar pacotes de socorro que respeitem as leis internacionais.

Para Lamy, que está na Austrália, o governo brasileiro seria o “exemplo” de decisões equilibradas em relação ao comércio.

Em sua avaliação, a tentação ao protecionismo é compreensível diante da crise e de demissões em massa. Mas alertou que barreiras podem ser um “tiro no pé”. “Todos querem proteger empregos, pensões, ou seu dinheiro, mas o protecionismo não funciona “, afirmou.

Lamy defendeu que a única forma de sair da crise é insistir em aumentar o comércio e os gastos. Países como Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia estão evitando medidas protecionistas.

Mas todos os elogios vão para o comportamento do Brasil. “Se houvesse um prêmio para esse período, acredito que o presidente Lula teria de receber”, disse. Lamy quer usar o Brasil como exemplo diante da decisão do governo de abandonar as licenças que estabeleceu às importações, em janeiro.Diante da reação generalizada, Lula acabou retirando a nova barreira.

CRÍTICAS

Mas nem todos apontam o Brasil como exemplo. Na próxima segunda-feira, o País terá sua política comercial questionada na OMC.Governos de todo o mundo enviaram mais de 530 perguntas ao Brasil sobre sua política comercial e o governo agora terá de dar uma resposta.

O questionamento não significa a abertura de uma disputa comercial contra o Brasil.

Mas parte dos ataques se referem à elevação de tarifas no Brasil. A média de impostos passou de 10,4% para 11,5%. Isso ocorreu diante da elevação de tarifas de importação para têxteis de calçados.