30/08/2012 - 10:16h ‘Eles devem fazer mais um corte de 0,25 ponto, e depois parar’


Economista vê taxa Selic se estabilizando em 7,25% por período longo, com a inflação chegando a 5,5% em 2013

30 de agosto de 2012

FERNANDO DANTAS / RIO – O Estado de S.Paulo

Para Monica de Bolle, o Comitê de Política Monetária (Copom) apontou claramente no seu comunicado que deve fazer mais um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic, na próxima reunião, e parar em 7,25%. Monica acha que este nível pode ser mantido durante todo o próximo ano. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que a sra. achou da decisão?

Ela já estava dada. O importante dessa reunião era o tipo de mudança de linguagem que o BC poderia fazer no comunicado, e o que isso significaria.

E qual a sua interpretação do comunicado?

Eu interpreto a mudança no comunicado como um sinal de que eles vão fazer mais um corte de 0,25 ponto porcentual e depois vão parar. O Copom diz que, se o cenário prospectivo permitir, pode haver um ajuste adicional com a máxima parcimônia. “Máxima parcimônia” para mim é 0,25 ponto porcentual, já que o mercado vem interpretando cortes de 0,5 ponto como parcimônia. O BC acabou deixando a porta menos aberta do que eu imaginava.

Como assim?

Achei que eles pudessem fazer como têm feito sempre, se reservando o máximo possível de opções. Eles não fizeram, e indicaram claramente ao mercado que estão indo para 7,25%.

Qual deve ser a reação do mercado à decisão e ao comunicado?

O mercado deve interpretar agora que baixar a Selic até 7% ficou fora de cogitação. Mas alguns ainda devem ficar na dúvida se ele parou no 7,5% ou se vai baixar até 7,25%. Eu, pessoalmente, tentando pensar como os BCs agem nesse tipo de situação, considero que parar em 7,5% para eles seria algo muito abrupto. Só mesmo se de fato eles começarem a enxergar algum tipo de aceleração inflacionária, ou de contaminação inflacionária dos choques. dos último dois meses. Nesse caso, eles poderiam usar isso para parar e dizer que pararam pois acham que já fizeram o suficiente. Mas não há indicação nesse sentido no comunicado. Talvez tenhamos de esperar a ata para ver o que dirão a mais sobre isso.

A sra. diria que o Copom, portanto, deixou a porta ligeiramente entreaberta para parar em 7,5%?

Sim, ele não descartou completamente essa possibilidade.

Qual deve ser a evolução da política monetária a médio e longo prazos?

Acho que eles têm espaço para segurar a Selic no nível ao qual a levarem, seja 7,5% ou 7,25%, por um tempo razoável.

Por quanto tempo?

Acho que até pelo ano que vem inteiro.

Quais as suas projeções para a inflação neste e no próximo ano?

Em 2012, a inflação deve ficar em torno de 5,2%, 5,3%. Pode ser até um pouquinho menor, dependendo de como essas reduções de IPI e a redução tributária da energia que eles estão prestes a fazer influenciarem o IPCA. Em 2012, se houver alguma aceleração inflacionária, acho difícil que vá muito além de 5,5%. E isso provavelmente dará conforto ao BC para manter a Selic inalterada.

29/08/2012 - 09:06h Brasil deve chegar ao fim do ano com a menor taxa de juros da história


Mercado aposta que, com corte de meio ponto hoje, Selic pode chegar a 7% em dezembro

João Sorima Neto – O GLOBO

29/08/12

SÃO PAULO – O Brasil vai terminar o ano de 2012 com a menor taxa básica de juro de sua história, a Selic, mas ainda assim estará entre os países com os maiores juros reais do mundo. Atualmente, o país ocupa a terceira colocação, com juro real de 2,3%, atrás de China (que tem juro real de 3,7%) e Rússia (juro real de 3,5%), segundo um ranking elaborado pela corretora Cruzeiro do Sul/Apregoa. Para que o Brasil deixasse a terceira colocação no ranking atual, seria necessário um corte de 0,75 ponto percentual nos juros. Assim, o país chegaria a uma taxa real de 2,1%, ficando atrás da China (3,7%), Rússia (3,5%) e também do Chile (2,2%). Neste cenário, a taxa brasileira seria de 2,1%.

- Como a expectativa é de um corte de 0,5 ponto percentual na reunião desta quarta-feira e de mais um corte de 0,25 na reunião de outubro, encerrando o ciclo de quedas, o país terminaria o ano no quarto lugar do ranking do juro real, mesmo com a Selic chegando ao menor patamar da série histórica desde 1986 – avalia Jason Vieira, economista da corretora Cruzeiro do Sul. A aposta da maioria dos economistas é de que na reunião de novembro, a útlima do ano, o Copom não mexerá nos juros.

De janeiro de 2010 até março deste ano, o Brasil se manteve no topo dos países com maior juro real do mundo. O país só deixou a primeira colocação, explica Jason, em consequência do desaquecimento da demanda internacional. Isso reduziu as projeções para a inflação na China e Rússia, que encabeçam o ranking. No Brasil, a projeção de inflação ainda é crescente.

Além disso, o processo de queda da Selic, que em 12 meses caiu de 12,5% ao ano para os 8% atuais, também ajudou a tirar do Brasil o título de campeão de juros mais altos do mundo.

- O ranking é feito levando em consideração a inflação projetada para os próximos 12 meses – explica o economista Jason Vieira.

Com juro em patamares baixos na Europa, Estados Unidos, como forma de estimular o consumo e aquecer as economias, a taxa média geral dos 40 países analisados pela Cruzeiro do Sul ficou em -0,4%. Segundo o ranking, 22 países tem juro real negativo.

Economistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que o atual ciclo de queda de da Selic se encerra em outubro. A dúvida entre eles é saber se a taxa chega a dezembro em 7% ou 7,25% ao ano. Para Jason Veira, a Selic sofre um corte de 0,50 ponto percentual nesta quarta e mais um de 0,25 na reunião de outubro.

- Acredito que o Banco Central vai passar a agir com parcimônia, ainda avaliando os efeitos sobre a economia das quedas anteriores – diz o economista.

Para o economista Clodoir Vieira, da corretora Souza Barros, a Selic também termina o ano em 7,25%, com um corte nesta quarta de 0,50 e em outubro de 0,25.

- A alta do preço das commodities no exterior pressiona os índices de inflação. Acredito em mais cautela do BC a partir de agora – diz o economista da Souza Barros.

O banco WestLB avalia que o BC corta o juro em 0,50 nesta quarta e encerra o ciclo de quedas.

- O choque de oferta de grãos nos EUA faz o preço das commodities agrícolas subir no exterior. Além disso, a economia brasileira já dá sinais de que volta a crescer. Por isso, esperamos cautela – avalia o economista Luciano Rostagno.

Ele diz que será preciso observar com atenção o comunicado do BC após a decisão desta quarta.

- Se o BC suprimir a a expressão ‘dando continuidade ao processo de ajuste das condições monetárias’ da ata do Copom, é certo que não vai mais cortar a Selic – diz Rostagno.

Segundo o boletim Focus, uma compilação do Banco Central com economistas do mercado financeiro, haverá um corte de 0,50 ponto percentual na Selic nesta quarta, e mais um em outubro de 0,25 ponto percentual. Assim a Selic chegaria a dezembro em 7,25%.

29/08/2012 - 08:46h As razões do otimismo do governo

Por Cristiano Romero – VALOR

Um ano depois de iniciado o atual ciclo de alívio monetário, o Banco Central (BC) mostrou que estava certo ao mudar radicalmente o rumo da política de juros. A principal alegação feita na época – o desaquecimento das principais economias do mundo e, em consequência, o surgimento de um ambiente desinflacionário – se materializou.

Hoje, o Comitê de Política Monetária (Copom) promoverá mais um corte de meio ponto percentual na taxa Selic, reduzindo-a para 7,50% ao ano, e é possível que faça pelo menos mais outro de 0,5 ponto antes de encerrar o ciclo. O BC acha que essa política, somada a outras que o governo vem adotando, já começou a produzir resultados. O clima em Brasília é de otimismo quanto às chances de a economia acelerar o crescimento nos próximos meses.

Quando o Copom surpreendeu o mercado em agosto do ano passado, cortando o juro em vez de aumentá-lo, a expectativa de crescimento anual da Europa girava em torno de 1% a 2%. Hoje, o que se espera é uma recessão em 2013. No caso dos Estados Unidos, em meados de 2011, esperava-se crescimento em torno de 3%. Agora, a realidade mostra que a expansão neste ano deve beirar os 2% ou ficar abaixo disso.

Desaquecimento mundial previsto pelo BC se materializou

Há um ano, a expectativa era que a economia mundial crescesse até 3,4% em 2012. Com o agravamento da crise mundial no segundo semestre de 2011, as perspectivas foram piorando sucessivamente e, neste momento, o que se espera é um longo período de crescimento lento, em torno de 2,2%.

O cenário desinflacionário se concretizou. A melhor indicação disso está nos indicadores de commodities. O CRB Foodstuff (que mede a variação dos preços de alimentos) estava, em julho, 8,9% abaixo do patamar de um ano atrás. O CRB Metais caiu 23,4% no mesmo período e o CRB total, 13,2%. Não é para menos. O desaquecimento da economia chinesa explica em grande medida essas quedas. A China, segundo o FMI, respondeu em 2009 por 53% das importações líquidas mundiais de soja, por 65% das compras de minério de ferro e por quase 30% de metais.

A economia brasileira, evidentemente, não escapou da maré ruim. No último ano, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 2,7% e, em 2012, deve avançar menos de 2%, muito abaixo da média anual de 4,2% verificada entre 2007 e 2011. A boa notícia é que há sinais positivos indicando uma retomada, mais lenta do que as ocorridas no passado recente, mas consistente.

É o próprio mercado quem diz, via boletim Focus, que o Brasil vai se levantar nos próximos trimestres. A esperança é que, depois de registrar baixíssimo crescimento nos primeiros seis meses do ano – 0,1% entre janeiro e março e, possivelmente, 0,3% entre abril e junho -, a indústria avance 1,5% no atual trimestre, quando comparada ao mesmo período do ano anterior, e 2,1% entre outubro e dezembro. O crescimento deve se acelerar no primeiro (3%) e segundo trimestres (4%) de 2013.

Com base no Focus, o BC espera expansão do setor de serviços de 3% em cada trimestre da segunda metade deste ano, quase o dobro da registrada no primeiro trimestre (1,6%). O ritmo seria mantido na primeira metade do ano que vem. Na agricultura, a expectativa é de forte recuperação nos próximos trimestres, depois da queda do primeiro trimestre (-8,5%) e do provável baixo desempenho no segundo (1,4%). Entre outubro e dezembro, a agricultura deve crescer 4% e acelerar nos seis meses seguintes, sempre na comparação com igual período do ano anterior.

A confiança do governo se baseia no que já vem ocorrendo em algumas áreas. A produção mensal de automóveis, por exemplo, depois de cair abaixo de 260 mil em janeiro, começou a se recuperar e, após o corte de IPI, tomou impulso. O mesmo ocorreu com caminhões. Os estoques de carros, que atingiram o pico em agosto de 2011, voltaram a crescer nos primeiros meses do ano, mas, depois da desoneração, estão declinando novamente.

O governo acredita que o ambiente é favorável à aceleração do PIB graças aos seguintes fatores: a taxa de desemprego está na mínima histórica (5,4% em maio, segundo a última medida nacional feita pelo IBGE); a criação de empregos formais diminuiu em quase 1 milhão desde fevereiro de 2011, mas segue forte (1,2 milhão nos 12 meses até junho deste ano); a massa salarial real voltou a crescer, avançando 5,1% nos 12 meses concluídos em maio (7,5%, quando comparada ao mesmo mês de 2011); a renda real também tornou a expandir-se (3,2% nos 12 meses até maio e 4,9% na comparação com maio do ano passado).

Ao contrário dos analistas que apontam a exaustão do modelo de crescimento baseado em consumo e crédito, o BC vê espaço para o país continuar crescendo por esse esquema, ajudado pelas medidas adotadas pelo governo para expandir a infraestrutura e aumentar a competitividade. O BC aposta no efeito “juros menores” – entre setembro de 2011 e junho deste ano, o juro médio cobrado de pessoas físicas caiu de 45,7% para 37,1% ao ano; e o das empresas recuou de 39% para 31,3% ao ano.

Embora a queda da Selic tenha sido expressiva – 4,5 pontos no período -, a redução dos juros bancários foi modesta. Ainda assim, as autoridades acreditam que o crédito, mesmo crescendo a uma velocidade menor, cumprirá um papel importante na retomada. Entre 2005 e 2008, cresceu ao ritmo de 25,2% ao ano; entre 2009 e 2011, subiu 18,3% e, nos 12 meses até maio, manteve essa velocidade (18,1%).

Técnicos do governo lembram que o grau de endividamento dos brasileiros, como proporção do PIB, é baixo quando comparado ao de outros países – 20,9% do PIB, face a 27,9% no Chile, 83,5% nos Estados Unidos e 207,4% do PIB no Reino Unido. O problema é que o peso dos juros na renda disponível dos brasileiros é bem maior – 22,1%, diante de 10,8% nos EUA, 9,9% no Chile e 2,2% no México. Em compensação, a inadimplência no Brasil não está entre as maiores do mundo.

Nem tudo é alegria no primeiro aniversário do “novo BC”. A inflação, embora tenha recuado de forma significativa, ainda é alta (5,2% nos 12 meses até julho); o BC segue sem conseguir coordenar satisfatoriamente as expectativas inflacionárias, que apontam para aumento do IPCA em 2013 (para 5,5%); e o regime de câmbio flutuante, um dos pilares da política econômica adotada com sucesso pelo país desde 1999, foi (temporariamente?) abandonado.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

24/08/2012 - 08:55h Selic cai há um ano, sem reação

Efeitos da redução da Selic ainda são tímidos

Por Lucinda Pinto, Conrado Mazzoni, Fernando Travaglini e Flavia Lima | VALOR

De São Paulo

Na próxima semana completa-se um ano da já famosa reunião de 31 agosto de 2011, quando o Banco Central iniciou o atual ciclo de corte de juros com uma redução de 0,5 da Selic, surpreendendo quase todo o mercado. O primeiro efeito esperado, de evitar uma depressão da economia brasileira em meio ao agravamento da crise na Europa foi atingido e o BC ganhou pontos de credibilidade por ter acertado em cheio no diagnóstico.

Até agora, no entanto, a aceleração da atividade não veio. O que se vê é uma resposta ainda tímida, restrita ao consumo. Para a indústria, a resposta é pouco efetiva e, quando existe, está mais relacionada a desonerações tributárias. No primeiro trimestre do ano, a economia brasileira cresceu 0,2% em relação aos últimos três meses de 2011. Nessa base de comparação, enquanto o consumo das famílias e do governo cresceu 2,5% e 3,4%, respectivamente, o investimento em máquinas e equipamentos caiu 2,1%. E a expectativa é que tenha apresentado expansão entre 0,4% e 0,5% no segundo trimestre, mesmo com o governo alardeando que o PIB reagiria.

Maurício Molan, economista-chefe do Santander, pondera que o atual ciclo de queda de juros só se tornou de fato um afrouxamento no começo deste ano. Entre agosto e dezembro, o BC reduziu 1,5 ponto percentual, mas o juro real ainda se mantinha acima de 5%, próximo, portanto, da média dos últimos três anos. Somente em abril, o juro real veio para a casa dos 3%. “Houve uma defasagem maior para a resposta da política monetária, que só passou a ser expansionistas no começo deste ano”, diz Molan.

Para o ex-diretor do BC e estrategista da Tandem Global Partners, Paulo Vieira da Cunha, o presidente do BC, Alexandre Tombini, tem razão ao prever um crescimento anualizado de 4% no quarto trimestre, mas teme uma desaceleração do PIB à frente. “Meu medo é que, quando isso acontecer, o governo resolver dar ainda mais estímulos.”

Essa é uma das críticas mais fortes que decorreram da decisão de agosto de 2011, a de que o BC passou a priorizar o crescimento em detrimento de um controle estrito da inflação. A avaliação é de que o BC passou a trabalhar com um objetivo de inflação mais ousado, perto de 6%. “É uma mudança não assumida, mas percebida, de que o limite para a inflação passou a ser 6%”, diz Vieira da Cunha.

“Estamos diante de um Banco Central que não está disposto a sacrificar crescimento desde que você tenha inflação dentro das bandas. Foi isso o que aprendemos ao longo de todos esses meses”, afirma Marcelo Salomon, economista-chefe para o Brasil do Barclays.

Salomon projeta inflação de 5% em 2012 e de 5,9% em 2013. “Então, não é um cenário de convergência de volta para as metas, mas é um cenário em que o BC não está disposto a sacrificar crescimento – mantendo a possibilidade de promover uma retomada mais incisiva o mais rápido possível – desde que você não comprometa o teto da meta porque o mundo ainda está muito incerto”, afirma.

Alexandre Schwartsman, ex-diretor de assuntos internacionais do BC acredita que o objetivo de inflação de até 6,5%. E isso explica o fato de as projeções estarem tão distantes do centro da meta, de 4,5% – as projeções para o IPCA se situam em 5,12% para este ano e em 5,5% para 2013.

Mesmo com a maior leniência com os preços, os benefícios da queda dos juros não foram percebidos claramente na atividade por causa de um diagnóstico errado, acredita Schwartsman. “A economia não está indo bem porque o BC tenta adotar a mesma receita de 2008 agora, sendo que as condições são completamente diferentes”, afirma.

Schwartsman diz que, há quatro anos, a economia tinha um grau de ociosidade importante, tanto no emprego quanto na produção e no crédito, que explica a resposta rápida obtida com as medidas de estímulo adotadas naquele momento. “Agora, com o país em pleno emprego, o conjunto de política econômica parece não funcionar.”

O economista Winston Fritsch, um dos integrantes do time que criou o Plano Real (1993-1994), não vê o BC mirando o ritmo de atividade da economia em detrimento do nível geral de preços. Para ele, o Copom “ganhou” do mercado ao notar antes dos agentes econômicos uma oportunidade única de reduzir a taxa básica de juro da economia brasileira, e estabelecer um novo padrão. “Eu acho que o BC não abandonou a meta de inflação. O impacto de contração da atividade foi muito rápido. Um choque de esfriamento que criou espaço para reduzir os juros sem contrapor a meta.”

Fritsch pondera, no entanto, que a condição propícia à flexibilização do juro não é eterna e o ritmo de corte da taxa Selic, que foi reduzida até agora em 4,5 pontos percentuais, 8% ao ano, tende a ficar mais contido nos próximos meses. “Chegamos a um ponto para testar e ver o que acontece. Ninguém pode dizer que o BC está fora da meta.”

A expectativa para a próxima reunião do Copom, que ocorre na semana que vem, é de novo corte de 0,5 ponto, seguida por nova redução em outubro, talvez de menor magnitude, especula o mercado. A partir daí, os especialistas se dividem entre uma estabilidade ao longo de 2013 ou uma leve alta dos juros. Todos estão de olho no atual repique inflacionário, fruto da alta dos preços das commodities (especialmente alimentos) no exterior e no aquecimento da economia doméstica.

De toda forma, há um novo equilíbrio macroeconômico defendido pelo BC: juro real baixo com câmbio depreciado. Para que isso se torne uma mudança estrutural, é necessário que se mantenha o atual rigor fiscal, além de depender ainda do desempenho da economia internacional, avalia David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch para o Brasil.

“O mix da política monetária de fato mudou e a depreciação da moeda brasileira é permanente. Mas a âncora desse novo modelo é a manutenção de um rigor fiscal razoável”, diz Beker.

Mesmo com o alívio provocado pela queda do juro básico no perfil da dívida pública brasileira, as estimativas para o superávit primário estão menores do que o resultado consolidado no ano passado. As projeções indicam 2,8% para este ano e para 2013. Em 2011, o superávit primário foi de 3,11%.

No ambiente externo, Beker acredita que o cenário de baixo crescimento e juros próximos de zero se manterá por dois ou três anos, o que deve permitir que se mantenha a taxa de juro real brasileira em patamares historicamente baixos. “Ainda é cedo para dizer se a mudança no patamar da Selic é estrutural, mas mesmo que seja apenas conjuntural não necessariamente será de curto prazo”.

Passado um ano das turbulências entre o mercado e o BC, os especialistas hoje já se acostumaram com a nova função de reação da autoridade monetária e sabem ler melhor os sinais dessa nova autoridade monetária. Antes, o BC não reduziria os juros quando a projeção de inflação se mostrava acima da meta. Hoje, a expectativa está acima de 5% e o BC continua cortando a Selic, lembra Molan, do Santander.

Outra mudança está no câmbio. Analistas que antes olhavam os fundamentos econômico como o preço das commodities e o movimento do dólar no mercado externo para estimar o valor da moeda americana no Brasil, estão mais atentos agora aos discursos do governo, seja via Ministério da Fazenda, seja via BC.

Mas condições para o processo de ajuste das taxas de juros para padrões internacionais não estão dadas, na opinião de Vieira da Cunha, uma vez que o peso do governo no sistema financeiro só faz crescer e o ajuste fiscal está focado na arrecadação, e não no gasto. E isso ajuda a explicar o resultado prático ainda limitado dessa medida. “Por enquanto, estamos pagando para ver.”


BC não mudará sua estratégia

Por Cristiano Romero | VALOR

De Brasília

A intervenção do Banco Central (BC) no mercado de câmbio, depois de 35 pregões de ausência, consagra a percepção de que o regime de câmbio flutuante, pelo menos por ora, deixou de existir. Com a atuação de terça-feira, o BC avisou que não pretende deixar a cotação do dólar americano cair abaixo de R$ 2, assim como já deu a entender que não aceitará que vá acima de R$ 2,10.

A preocupação do BC é sustentar um novo equilíbrio para a economia brasileira, em que as taxas de juros são menores e o câmbio, menos apreciado. Trata-se de um equilíbrio diferente do dos últimos anos, que combinava juros altos com real valorizado. O objetivo do novo equilíbrio é estimular a indústria nacional, estagnada há dois anos.

A determinação do BC em defender uma determinada taxa de câmbio se mostra de forma ainda mais clara quando se observa que o país assiste ao repique da inflação, provocado por um choque de oferta no setor de alimentos. Câmbio desvalorizado, como se sabe, pode alimentar a inflação.

Em março, quando o ambiente internacional se deteriorou e por consequência houve um aumento da aversão dos investidores a risco, o fluxo de dólares se tornou negativo, pressionando para cima as cotações do dólar. Ato contínuo, o BC deixou o real perder valor para a moeda americana.

O objetivo foi tirar o dólar da cotação de R$ 1,70 e levá-la a outro patamar – na ocasião, para algo em torno de R$ 1,90. O processo continuou em abril e, apenas no fim daquele mês, a autoridade monetária procurou estabelecer alguma “âncora” para a moeda, que em meados de maio já estava em novo patamar – R$ 2.

A desvalorização do real foi, até então, a mais acentuada entre as moedas de países exportadores de commodities e de economias emergentes. A partir de maio, o BC procurou atrelar o câmbio comercial ao dólar index, indicador que mede a variação da moeda americana em relação a uma cesta de moedas. Segundo o Valor Data, em meados de junho houve um descolamento entre os dois indicadores e, apenas no início do mês seguinte, o real voltou a variar em linha com o dólar index.

Lá pelo dia 20 de julho, dólar comercial e dólar index acumulavam a mesma variação em relação a 30 de abril, quando houve o “casamento”. Depois disso, o dólar comercial andou acima do dólar index, mas sempre com uma forte correlação. Em tempo: ao seguir o dólar index, a taxa de câmbio deixa de refletir os fundamentos da economia brasileira.

Analistas acreditam que, com o aumento da inflação nos próximos meses, a tendência do BC será abandonar essa política e permitir a apreciação do real. Faria isso para conter os preços via dólar mais barato, preservando o espaço para continuar reduzindo a taxa básica (Selic), uma vez que a inflação estaria sob controle. O BC vem desmentindo essa possibilidade com suas ações e comunicados.

É mais provável ver o BC exercitando sua já habitual tolerância com uma inflação mais alta. Argumentos para isso não faltarão e o primeiro deles já está dado: o mundo, por causa de um grave problema climático nos Estados Unidos, está ficando novamente inflacionário. Ademais, BC e governo não consideram alta uma inflação em torno de 5,5%. Um IPCA de 5,5% em 2013 é justamente o que espera a maioria dos agentes de mercado, segundo o boletim Focus. Para 2102, por causa do choque de oferta, o mercado tem revisado para cima as projeções e já prevê 5,15% – nos 12 meses acumulados até julho, estava em 4,9%.

Ainda há no mercado a ideia de que a atual diretoria do BC age de acordo com a tradição firmada entre 1999 e 2010, durante a implantação do regime de metas para inflação. Por essa crença, o BC não reduz juros quando as expectativas de inflação superam a meta oficial; deixa o câmbio apreciar ou depreciar como consequência dos termos de troca da economia; atua no mercado para evitar repentinas e acentuadas desvalorizações da moeda; não coordena seus objetivos com o Ministério da Fazenda.

O BC mudou. Começando pelo fim, a atual diretoria não só coordena suas políticas como compartilha com a Fazenda diagnósticos e visões sobre a economia; tolera desvalorizações da moeda a partir da crença de que o real valorizado prejudica a competitividade da indústria; não tem apego à ideia de que é natural o real andar de mãos dadas com moedas de países exportadores de commodities, como Canadá e Austrália; dá um peso menor às expectativas dos agentes ao definir a política de combate à inflação.

O que há em comum entre os BCs dos dois momentos é a crença de que o governo precisa entregar uma meta cheia de superávit primário, como elemento auxiliar ao controle da demanda. Isso não mudou. Um exemplo de como o atual BC difere dos anteriores foi a participação do presidente da instituição, Alexandre Tombini, na reunião com a Anfavea que decidiu pela diminuição do IPI para estimular a venda de automóveis. É cedo para dizer se o “novo BC” está certo ou errado. O que já dá para afirmar é que ele é diferente.

Um funcionário graduado do BC justificou desta forma a adoção de uma política fiscal, monetária e cambial menos restritiva para ajudar o setor: “A gente sabe que investimento funciona se tiver perto da capacidade. Com os pátios das indústrias cheios, não tem investimento. Então, temos que cuidar um pouco desse curto prazo para a bola continuar em movimento. Então, é essa a lógica de preservar os investimentos em setores que puxam a economia”.

09/07/2012 - 09:46h ‘Reação do governo evitou a recessão’


Ele diz que é preciso olhar o lado positivo: ‘economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer’

09 de julho de 2012

IURI DANTAS / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Principal formulador do Plano Brasil Maior, a política industrial do governo, o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Mauro Borges Lemos, avalia que o País “provavelmente estaria à beira da recessão”, não fossem os pacotes de estímulo ao consumo. Ele aposta em crescimento “pequeno” da indústria neste ano, apesar da queda da produção industrial nos primeiros seis meses de 2012.

Amigo de longa data de Dilma e do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, a quem é subordinado, o economista afirma que “o governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo”. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao Estado:

Por que a indústria está patinando?

Porque estamos no meio de uma crise internacional de grandes proporções. A forma mais visível de mensurar isso é a grande agressividade das importações. Há excedente de bens manufaturados no mundo e a estratégia, em geral, é desová-los em mercados que ainda estão em crescimento.

O dólar a R$ 2 demorou?

O dólar a R$ 2 é insuficiente para impedir a desova.

O endividamento das famílias e a cautela dos bancos em emprestar limitam o impacto das medidas de estímulo ao consumo anunciadas pelo governo?

O maior economista do século 20, o John Maynard Keynes, denominou a economia capitalista de uma economia monetária, regida por relações mediadas pelo dinheiro, pela moeda. Hoje, no Brasil, como somos uma economia monetária em pleno funcionamento, é absolutamente normal que, frente a um quadro totalmente adverso, você aumente o que Keynes chamava de preferência pela liquidez. Nestes momentos, você tem contração do consumo das famílias e dos empresários, que é o investimento. Eles tendem a reagir com uma contração relativa perante grande incerteza.

Medo de a crise piorar?

Claro que há uma aversão à incerteza. Não é aversão ao risco, é mais do que isso. É uma aversão a um cenário econômico futuro que não conhecemos. Obviamente o governo está tentando, com todos os instrumentos à sua disposição, mitigar isso e eventualmente retomar o crescimento no segundo semestre. O governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo, que é a questão fundamental.

A presidente Dilma apelou ao espírito animal dos empresários, mas o investimento não deslanchou. Por que não deu certo?

Primeiro, eu diria que está dando certo. Vamos ter um crescimento positivo neste ano. Se pegar o analista mais pessimista, ele não projeta recessão. A economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer. Que seja 2%, 2,5% ou 3%, não interessa.

O governo deixou de arrecadar R$ 100 bilhões da indústria, mas a tributação continua alta. O que falta para a indústria reagir?

O problema central não é, em si, da desoneração tributária, mas fatores estruturais e heranças regulatórias e tributárias, que fazem com que capital e trabalho e os insumos básicos da economia estejam relativamente caros. A questão é como caminhar na agenda de redução destes fatores e insumos. Quando você inicia uma trajetória de política econômica com redução da taxa real de juros, está reduzindo o custo do crédito, do dinheiro. Quando desonera a folha de pagamentos de setores intensivos de trabalho está reduzindo custos que, por razões históricas, têm uma tributação muito grande. A grande estratégia do governo é um programa de redução desses custos no longo prazo. Há um conjunto de medidas que vão além de pura desoneração para aumentar o consumo, como vem sendo propalado.

Por exemplo?

Os regimes especiais de tributação. O esforço pela redução do custo da energia. Essa é uma agenda que tem impacto nos custos da indústria muito grande. Se desonerar o custo da energia, ou reduzi-lo através de mecanismos regulatórios, está aumentando a competitividade da indústria. Ao contrário da chamada agenda do puxadinho, é uma agenda de longo prazo.

A produção industrial cai há nove meses, cadê os resultados? Vamos fazer um raciocínio contra-factual: se o governo não estivesse tomando nenhuma medida, como estaria a economia brasileira hoje? Possivelmente, já estaria à beira da recessão. A reação do governo está contribuindo decisivamente para não entrarmos em recessão

Economistas defendem reformas estruturais. O País consegue superar a crise sem isso?

O Brasil vai continuar fazendo reformas e já fez muitas. Não vamos parar o País, fazer reformas durante um determinado número de anos e depois voltar a funcionar. Nessas reformas, você troca o pneu furado com a bicicleta andando. Estamos num processo permanente. Por exemplo: criar um sistema privado de financiamento do longo prazo, do investimento, é um grande desafio hoje. Temos condições de implementar essa reforma e isso está no radar do Banco Central e da Fazenda. Outro exemplo é a mudança do sistema previdenciário público, que está em plena implantação e é um dos projetos mais importantes da Presidência da República.

A indústria encerra o ano com crescimento? De quanto?

Estamos torcendo fortemente para um crescimento. Vai ser um número positivo, mas pequeno.

04/07/2012 - 08:51h BC pode intervir no câmbio para ajudar a indústria

Diretor de política monetária diz que dólar abaixo de R$ 2 pode não ser bom para o setor
04 de julho de 2012

FERNANDO NAKAGAWA / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

O dólar abaixo de R$ 2 não agrada a equipe econômica e o Banco Central pode voltar a agir. O recado foi dado ontem pelo diretor de política monetária da instituição, Aldo Luiz Mendes. “Minha percepção é que o dólar abaixo desse nível de R$ 2 pode não ser bom para a indústria”, disse no fim da manhã.

O aviso mudou os ventos do mercado e a moeda, que recuava, passou a subir, voltou ao nível considerado adequado e terminou a R$ 2,0150, maior valor do dia, em alta de 1,31%.

Em entrevista ao Estado, Mendes deixou clara a insatisfação e a preocupação do governo com o tema. Mais que isso: mostrou que o BC está alinhado com o restante da equipe econômica no esforço de manter o dólar em um patamar favorável às empresas brasileiras.

“O desempenho industrial mais fraco até aumenta a possibilidade de o governo querer um dólar mais alto que a cotação de hoje (ontem)”, disse o diretor do Banco Central.

Minutos antes da entrevista, o dólar chegou a ser trocado de mãos por R$ 1,9770. O governo entende que o dólar mais alto é importante para os exportadores, já que torna produtos e serviços brasileiros mais competitivos.

Liquidez. Oficialmente, o BC não tem um objetivo para o preço da moeda e a instituição só intervém para resolver problemas de liquidez. “Não temos uma meta de câmbio, atuamos no ajuste da liquidez”, argumentou o diretor. Apesar do discurso, Aldo avisou que o banco pode voltar a comprar dólares, o que evidentemente aumentaria o preço da moeda. “O BC tem atuado numa ponta (a vendedora) e pode atuar na outra (como comprador). Sempre estamos de olho”, afirmou o diretor.

A chance de voltar às compras tem até endereço: o mercado futuro. “A dinâmica atual tem sido concentrada no segmento futuro. Se a gente tivesse de voltar a intervir, seria no futuro”, disse. Essa simples ameaça foi suficiente para a moeda, em poucos minutos, retornar ao patamar indicado.

O mesmo BC que agora ameaça comprar dólares teve, na semana passada, forte atuação como vendedor da moeda americana. Em três dias seguidos – entre quarta-feira e sexta-feira -, realizou leilões no mercado futuro que corresponderam à venda de cerca de US$ 9 bilhões.

Crise externa. Mesmo com tais intervenções, o diretor do Banco Central afirma que a recente queda do dólar para abaixo de R$ 2 não é responsabilidade do banco. Para ele, a queda é resultado de uma percepção positiva dos investidores sobre a crise externa. “Os anúncios após o encontro da cúpula europeia na semana passada têm consistência um pouco maior do que havia sido divulgado antes. Por isso, houve o recuo do dólar”, argumenta Mendes. “Houve alívio para a tomada de risco.”

Em Bruxelas, líderes europeus acertaram diretrizes para uma ação conjunta em favor do crescimento e para enfrentar a crise da dívida de vários países da região.

A sinalização dada pelo diretor do Banco Central mostra como a autoridade monetária compartilha ideias com o Ministério da Fazenda e o Palácio do Planalto. No esforço de tentar manter a indústria e o restante da economia aquecida, inúmeras medidas têm sido tomadas nas áreas tributária, fiscal e de crédito.

Sob a responsabilidade do Banco Central, o juro cai desde agosto do ano passado e houve liberação de recursos dos bancos – o compulsório – para crédito de veículos e rural.

12/06/2012 - 09:24h A esfinge brasileira

Por Monica Baumgarten de Bolle e Fernanda Guardado – VALOR

“Decifra-me ou devoro-te”. Como impulsionar o consumo? Como destravar o investimento? Eis os grandes enigmas atuais da economia brasileira. Desatar o nó górdio do investimento privado em meio à crise financeira internacional e à imprevisibilidade europeia é um desafio quase insuplantável no momento. Resta, portanto, ele, o consumo. Fonte de acalorados debates, teses incompletas e frases de efeito. “O modelo de consumo se esgotou”. Alguém ainda aguenta ouvir isso?

O debate atual em torno desse suposto esgotamento do “modelo de consumo” para o crescimento brasileiro tem misturado alhos com bugalhos no afã de desqualificar a atual estratégia adotada pelo governo para incrementar o ritmo de crescimento econômico. Embaralham os estímulos cíclicos de demanda – o que qualquer governo faz quando vê a atividade ameaçada por choques externos – com políticas de médio prazo de expansão da capacidade produtiva, para chegar à apressada conclusão de que “não há mais espaço” para a expansão do consumo e do endividamento das famílias. É claro que só uma estratégia de crescimento focada nas reformas estruturais e nas condições para o avanço do investimento privado garante a sustentabilidade da expansão da atividade e do desenvolvimento do país. Não há como discordar disso. A recomendação é tão sensata quanto qualquer conselho de avó.

Cerca de 45% da dívida das famílias tem prazo inferior a um ano, sendo que 30% do total é de menos de 6 meses

Mas isso nada tem a ver com a tentativa legítima de incentivar o consumo quando a economia ameaça escorregar por causa da crise internacional. Ou melhor, incentivar o consumo nestas condições é o mesmo que seguir o conselho avoengo de incontestável sensatez, “proteja-se das correntes de ar”.

“Decifra-me ou devoro-te”. Cadê o esgotamento? Vamos aos fatos. O crescimento brasileiro foi beneficiado, nos últimos anos, tanto pelo consumo, quanto pelo investimento. Basta olhar as Contas Nacionais. Entre 2003 e 2011, a razão investimento/Produto Interno Bruto (PIB) saiu de 15% para 20%, enquanto o consumo perdeu participação no PIB.

A expansão do consumo neste período foi acompanhada de um aumento da alavancagem do consumidor, cujo comprometimento mensal da renda disponível atingiu 22% em março de 2012, após permanecer em torno de 19% entre maio de 2009 e maio de 2011; um avanço de três pontos percentuais que foi acompanhado de muito estardalhaço. Sobretudo quando os próprios bancos costumam trabalhar com um nível máximo de comprometimento de cerca de 30%. Houve, sim, uma alta de inadimplência. Mas os dados coletados pelo Banco Central (BC) e os indicadores do Serasa já apontam uma queda destas taxas à frente.

O prazo médio das dívidas para pessoas físicas é curto. Cerca de 45% do estoque tem prazo inferior a um ano, sendo que 30% do total é de menos de seis meses. Assim, as dívidas “acabam rápido” – e em um ambiente de estímulo ao refinanciamento, isso tende a ser acelerado, como agora. As taxas estão em queda, o que reforça o estímulo ao refinanciamento e abre espaço para maior contratação de dívida e consumo, uma vez que o percentual da renda comprometida com o pagamento de juros diminui proporcionalmente; dados preliminares do BC já apontam queda entre janeiro e maio na taxa média para pessoas físicas.

Os consumidores vêm se desalavancando mais recentemente, e mostram maior conforto com seu nível de endividamento, possivelmente um reflexo da curta duração das dívidas. A Sondagem do Consumidor da FGV mostra que, ao longo de 2011, o percentual de famílias que estava se endividando recuou, e, desde então, subiu apenas ligeiramente, atingindo 17,6% da amostra – abaixo da média histórica da pesquisa, de 20,5%. No mesmo período, o percentual de famílias que estão poupando subiu sistematicamente, e tem mostrado alguma estabilidade em torno do pico da série.

A Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio aponta uma diminuição do percentual de famílias endividadas entre maio de 2011 e maio de 2012. As famílias que se consideram pouco ou não endividadas atingem 64,5% da amostra, um avanço ante o mesmo mês do ano passado. Os próprios consumidores se mostram mais dispostos a aumentar suas compras. Segundo a FGV, cerca de 19% das famílias da amostra pretendem aumentar suas compras de bens duráveis. O percentual de famílias que pretendem diminuir suas compras, por outro lado, segue em patamar historicamente baixo (28%).

O consumidor quer aumentar seus gastos, tem confiança na perspectiva de emprego, passa por um momento em que uma boa parte das dívidas contraídas até o fim de 2011 estão vencendo, e se depara com custos declinantes para a contratação de novas dívidas. O que parece faltar é uma maior oferta de crédito por parte dos bancos, o que é compreensível no momento. Entretanto, espaço para consumir mais e crescer mais há, sim, ainda que não no ritmo observado ao longo de 2010. Desde que haja crédito. A estratégia pode não ser a melhor nem a mais segura, afinal estimula a alavancagem do consumidor. Mas decerto deve ser potente no curto prazo para estimular o crescimento.

Enigma decifrado.

Monica Baumgarten de Bolle é economista, professora da PUC-RJ e diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças (IEPE/CdG).

Fernanda Guardado é economista da Galanto Consultoria.

16/05/2012 - 07:56h O BC em busca de um novo equilíbrio

Por Cristiano Romero – VALOR

Nos últimos dias, o Banco Central (BC) se comunicou à farta com a sociedade, tentando esclarecer seus movimentos e antecipando como deve agir daqui em diante. Algumas mensagens são muito claras. Uma delas é a de que, a exemplo do que fizeram outros bancos centrais, como o da Turquia na crise de 2008/2009, o BC procura um novo equilíbrio para a economia brasileira, baseado em juros baixos e taxa de câmbio menos apreciada. Em outro recado importante, admitiu a convivência do país por um período maior de tempo com uma inflação superior à meta de 4,5%.

A questão central da comunicação recente do BC diz respeito à taxa básica de juros (Selic). Todas as mensagens dão conta de que o Banco Central aproveitará o ambiente de crise nas economias avançadas, de baixo crescimento no Brasil e de desaceleração da economia chinesa, com reflexos desinflacionários no mundo e aqui, para testar novos patamares de juros.

Neste momento, a Selic está em 9% ao ano. No próximo dia 30, se agir com “parcimônia”, como sinalizaram o presidente do BC, Alexandre Tombini, e o diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton, o Comitê de Política Monetária (Copom) deve reduzi-la para 8,5%, a menor taxa nominal desde o início do Plano Real. O movimento de baixa não deve parar por aí.

Para Tombini, Brasil pode sair da armadilha dos juros altos

Não é de agora que Tombini defende a necessidade de um novo equilíbrio para a economia brasileira. No auge da crise de 2008, quando era diretor de Normas do BC, identificou oportunidade para redução acentuada dos juros. Em outubro daquele ano, menos de um mês após a quebra do banco Lehman Brothers, chegou a propor, sem sucesso, reunião extraordinária do Copom para um corte imediato de três pontos na Selic, então fixada em 13,75% ao ano.

A ideia subjacente de Tombini, defendida na ocasião também pelo atual secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, era a de que, se o BC fosse obrigado a elevar os juros mais tarde por causa de um possível repique da inflação, o faria a partir de um patamar mais baixo. O presidente do BC reprisou esse argumento em entrevista ao repórter Fernando Dantas, de “O Estado de S. Paulo”.

Se alguém tinha alguma dúvida, não deve ter mais: este BC vai reduzir os juros a limites ainda desconhecidos da política monetária brasileira. Fará isso, evidentemente, em discordância direta com as expectativas de inflação dos agentes econômicos, que seguem se deteriorando – IPCA de 5,22% para 2012 e de 5,53% para 2013.

No seminário que o BC promove anualmente sobre o regime de metas para inflação, Tombini realçou o papel das medidas macroprudenciais (por exemplo, o aumento do requerimento de capital por parte dos bancos em determinadas operações de crédito) não apenas como instrumento para assegurar a estabilidade financeira, mas também para ajudar a alcançar a estabilidade econômica. Em português claro, significa dizer que o BC não considera apenas os juros para moderar a atividade econômica e segurar os preços.

Antes da crise de 2008, disse Tombini, prevalecia o entendimento, especialmente nas economias avançadas, de que a regulação prudencial não era um instrumento de política macroeconômica. Essa percepção está mudando. A estabilidade de preços, observou ele, é condição necessária para a estabilidade macroeconômica, mas não é suficiente.

Nas últimas décadas, os países ricos conviveram com inflação baixa e pouca volatilidade do produto, caracterizando o período conhecido como a “Grande Moderação”. Isso não impediu, entretanto, que essas economias mergulhassem, a partir de 2007, numa crise profunda e longa.

A crise, de acordo com Tombini, mostrou que a adoção de forma isolada de medidas microprudenciais para corrigir problemas no sistema financeiro não tem alcance sistêmico. “E os riscos sistêmicos, quando se concretizam, criam espiral negativa que pode levar instituições ou mesmo o sistema à insolvência, com implicações macroeconômicas desastrosas”, argumentou.

No Copom, Tombini começou a defender a adoção de medidas macroprudenciais, em vez do aumento puro e simples de juros, desde os tempos em que era diretor de Normas. “Mesmo que conduzidas com o foco em objetivos distintos, as políticas monetárias e prudencial são complementares. As ações de uma afetam os objetivos da outra no curto, no médio e no longo prazo”, afirmou.

Tombini estuda as interconexões entre ambiente macroeconômico e sistema financeiro desde os tempos de estudante. Sua tese de doutorado, concluída em 1991 na Universidade de Illinois, desenvolve a ideia de que, diante de crises provocadas por choques exógenos (as crises do petróleo nos anos 70, por exemplo), os sistemas financeiros não são neutros. Na verdade, amplificam os impactos desses choques.

No seminário, Tombini defendeu, também, a necessidade de os bancos centrais se comunicarem de forma mais explícita, sem hermetismos. Isso justificaria as novidades que o BC vem introduzindo em 2012, como a sinalização de que a Selic cairia a um dígito e, depois, o anúncio de que diminuiria a um nível próximo do mínimo histórico (os dois objetivos foram abandonados).

A mudança constante de sinalização também é justificada. “Estamos vivendo um período excepcionalmente complexo para a economia global: é possível que estejamos nessa fase da crise com equilíbrios múltiplos e com uma grande variância no cenário internacional. Basta observar a rapidez com a qual se modificou nas últimas semanas a perspectiva de crescimento nos EUA, a probabilidade de resolução da crise na zona do euro ou até os dados, por vezes contraditórios, sobre o pouso suave na China. Para quem projeta dados macroeconômicos a vida está mais difícil. Por essa razão, todos os bancos centrais têm buscado fornecer indicações e comunicações explícitas, acompanhadas com uma repetida mensagem de que esses indicativos sempre estão condicionados ao conjunto de informações disponível a cada momento. E se esse conjunto é mais volátil, naturalmente isso se reflete na necessidade de ajustar-se mais frequentemente aos desdobramentos do cenário existente”, disse Tombini.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

09/05/2012 - 08:58h Juros: a batalha das expectativas

Por Cristiano Romero – VALOR

Não se viu, na história recente do país, esforço tão grande de um governo, quanto o que faz agora o da presidente Dilma Rousseff, para reduzir as taxas de juros básica e bancárias. O momento, aparentemente, permite ousadias ou, como declarou há alguns dias o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, “não há razão para o Brasil não testar taxas de juros mais baixas”.

A razão para acreditar nisso está tanto na conjuntura da economia mundial quanto na da brasileira, que tornam o ambiente menos inflacionário. No caso da primeira, o que se vê é um baixo desempenho nas economias da Europa, com recessão em alguns países; recuperação fraca nos Estados Unidos; e desaceleração na China, hoje o segundo maior PIB do planeta.

No Brasil, a despeito de a demanda das famílias permanecer aquecida, a economia como um todo segue fraca. Apesar de todos os estímulos dados pelo governo, a produção industrial parece não sair do lugar. Em março, segundo o IBGE, caiu em todas as medidas de comparação – sobre o mês anterior (queda de 0,5%), sobre março de 2011 (-2,1%), no acumulado de 2012 (-3%), em 12 meses (-1,1%) e na média móvel trimestral (-0,3%).

Desafio é convencer agentes de que BC está no caminho certo

A confiança dos industriais, de acordo com a última sondagem feita pela FGV, tem aumentado, mas de forma muito lenta. Caiu 12,1 pontos percentuais entre dezembro de 2010 e outubro do ano passado e, de lá para cá, recuperou apenas 2,6 pontos. Uma boa parcela dos empresários informa que ainda está desovando estoques acumulados ao longo do exuberante ano de 2010.

Enquanto esse processo de correção de estoques não terminar, é bem provável que a indústria continue sem apetite para fazer novos investimentos. Os dados da produção industrial são claros e refletem esse sentimento: os itens que mais caíram no ano (até março) foram bens de capital (máquinas e equipamentos) – recuo de 11,4% em relação ao mesmo período de 2011 – e bens de consumo duráveis (-11,6%).

É razoável acreditar que a indústria brasileira, mesmo diante de um mercado de trabalho aquecido, da renda do trabalhador em alta e da queda dos juros promovida pelo BC e agora também por alguns bancos, esteja temerosa por causa do cenário internacional adverso, afinal, o Brasil não é uma ilha. O próprio Banco Central advertiu, em agosto, que o impacto da crise mundial no PIB brasileiro seria equivalente a, no mínimo, 25% do que teve a turbulência de 2008 – uma subtração de pelo menos 0,5 ponto percentual de crescimento no espaço de 12 a 18 meses.

O comércio varejista, por sua vez, segue crescendo a taxas elevadas. Os dados de fevereiro mostram alta de 9,6% sobre o mesmo mês de 2011; alta de 8,7% no acumulado do ano e de 6,7% em 12 meses. O que favorece esse desempenho é a renda do trabalhador, que continua avançando em ritmo forte, em parte por causa do salário mínimo, que aumentou 14,13% em janeiro, beneficiando cerca de 48 milhões de pessoas.

O espaço entre oferta da indústria e demanda tem sido ocupado pelas importações. Se isso preocupa o produtor nacional e é natural que seja assim, por outro lado ajuda o BC a inflação. Ademais, os preços das commodities, que inflacionaram a economia brasileira no fim de 2010 e no início de 2011, estão em queda. Não se avista no horizonte, pelo menos não por ora, pressão inflacionária relevante.

Todo esse quadro levou o governo a apostar todas as fichas na redução dos juros. Já há em Brasília quem acredite que o BC reduzirá a taxa básica (Selic) para menos de 8% ao ano até dezembro – hoje, está em 9%. Juros tão baixos para a tradição brasileira provocam inflação, acreditam muitos analistas. Reside, aí, o grande desafio do governo, particularmente do Banco Central.

Como o regime de metas para inflação não foi abolido, em tese nada impede que o BC volte aumentar juros no futuro próximo, caso o IPCA suba em algum momento. Além disso, apesar das mudanças no cálculo da poupança, alguns dos constrangimentos que impediam a queda da Selic, como a existência de um volume considerável de crédito direcionado, continuam presentes. Isso explica a desconfiança do mercado, refletida nas expectativas de inflação para 2012 e 2013. Elas vêm se deteriorando nas últimas semanas – neste momento, estão, respectivamente, em 5,12% e 5,56%.

Expectativas não são meras opiniões. São um componente importante da inflação. Para que a estratégia de redução dos juros seja bem-sucedida, governo e BC terão que convencer o mercado de que o caminho escolhido é consistente e o mais adequado ao país neste momento, e não resultado de um desejo político de baixar os juros na marra e forçar o crescimento da economia a qualquer preço, mesmo que às custas de uma inflação superior à meta de 4,5%. Se as expectativas não melhorarem, a inflação tende a aumentar, o que colocará em risco a estratégia de uma redução mais acelerada dos juros.

A presidente Dilma está consciente da necessidade de um melhor gerenciamento das expectativas. O governo acredita que está diante de uma batalha de comunicação, em três fases. Na primeira, a presidente atacou o que considera a “frente popular”. Fez pronunciamento à nação em horário nobre da TV, um dia antes das celebrações do 1 de Maio, sobre a necessidade de queda dos juros. Com isso, abriu caminho para o movimento seguinte – a mudança da forma de cálculo da poupança, uma medida necessária para a Selic continuar caindo.

A fase 2 foi uma ofensiva de imprensa das duas principais autoridades do Ministério da Fazenda – o ministro Guido Mantega e o secretário-executivo Nelson Barbosa – para esclarecer as alterações da poupança. A fase 3 são campanhas publicitárias promovidas pelo Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, exemplo que deve ser seguido por pelo menos dois grandes bancos privados – Bradesco e Itaú -, segundo informação recebida pela presidente na quinta-feira passada.

Naquele dia, Dilma ouviu de três banqueiros – Pedro Moreira Salles (Itaú Unibanco), André Esteves (BTG Pactual) e Luiz Carlos Trabuco Cappi (Bradesco) – que há espaço para baixar juros. A presidente quer, agora, que o BC atue no mercado para melhorar as expectativas dos agentes econômicos.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras.

E-mail – cristiano.romero@valor.com.br

19/04/2012 - 10:24h Krugman elogia política monetária do BC brasileiro


Paul Krugman: “A economia está claramente se desacelerando, e a inflação, provavelmente, é transitória”


VALOR

O Banco Central brasileiro está certo em sua política de redução dos juros, disse ontem o economista Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008. “A economia está claramente se desacelerando, e a inflação, provavelmente como em todos os lugares, é transitória”, afirmou ao Valor. “O relaxamento monetário é apropriado.”

Professor da Universidade de Princeton, nos EUA, Krugman vê problemas na valorização do real, por criar pressões que minam a competitividade da indústria. Ao mesmo tempo, lembrou que o Brasil mantém a própria moeda, que pode ser desvalorizada em algum momento, diferentemente do que se passa com os países da zona do euro. Segundo ele, a situação cambial do Brasil se parece mais com a dos EUA em meados dos anos 80. Naquela época, o dólar estava forte demais, mas não foi difícil desvalorizá-lo. ” Krugman deu breve entrevista antes de participar do Seminário Internacional sobre Pequenos Negócios, promovido pelo Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae), que teve apoio do Valor.

Valor: A presidente Dilma Rousseff reclama do “tsunami monetário’, que seria causado pela política monetária dos países desenvolvidos. Diz que isso mina a competitividade dos emergentes e provoca uma guerra cambial. O sr. concorda com ela?

Paul Krugman: Não, embora entenda o problema. Há muito capital buscando os países emergentes e grande valorização da taxa de câmbio. Isso é um problema, mas não por causa de política monetária não apropriada nos países avançados. Esses países têm uma crise econômica grave. Ainda há grande crise de desalavancagem, o que mantém as economias deprimidas. É claro que os juros estão muito baixos. Há excesso de poupança nos países avançados. Se você olha para relação histórica entre desemprego, inflação e juros, as taxas dos Fed Funds deveriam estar em menos 4,5%. É razoável que esteja em zero. Eu entendo, a presidente tem suas preocupações. Há, de algum modo, um tsunami de dinheiro, mas não por causa de Ben Bernanke [presidente do Fed] ou Mario Draghi [do BC Europeu].

Valor: Quão preocupante é a valorização do real?

Krugman: Não é algo positivo, porque cria pressões. O setor manufatureiro perde competitividade e vai ser difícil recuperá-la. De outro lado, o Brasil ainda tem sua própria moeda. O real pode se desvalorizar de novo. O Brasil não tem muita dívida em moeda estrangeira. Quando olho para o Brasil, penso que pelo menos não é a Espanha. A Espanha teve uma valorização em termos reais nos bons anos do euro [devido aos diferenciais de inflação] parecida com a brasileira, mas está numa crise terrível, porque não pode desvalorizar. O Brasil pode. A situação do Brasil parece mais com a dos EUA em meados dos anos 80, quando o dólar ficou muito forte, mas não foi um processo especialmente difícil desvalorizar a moeda de novo.

Valor: Há um grande debate no Brasil sobre desindustrialização. Em 2011, a participação da indústria de transformação no PIB ficou abaixo de 15%. O governo deve tentar proteger a indústria?

Krugman: Não fiz muita lição de casa sobre a situação brasileira, mas acho que há de fato uma questão aí. O Brasil tem os fluxos de capital e as exportações de commodities, e faz algum sentido pelo menos tentar lidar contra os efeitos desses fatores.

Valor: O BC adotou postura mais agressiva desde agosto, quando começou a cortar os juros, apesar de algumas pressões inflacionárias, especialmente nos preços de serviços. Como o sr. vê a política monetária brasileira?

Krugman: Não tenho uma visão forte a respeito, mas acho que é razoável. A economia está claramente em desaceleração, e a inflação, provavelmente como em todos os lugares, é transitória. O relaxamento monetário é apropriado.

‘Amor’ pelo Brasil contribui para real valorizado, diz economista

O economista Paul Krugman traçou ontem um quadro razoavelmente positivo para a economia brasileira, elogiando as taxas razoáveis de crescimento, a resistência à crise global e a redução da desigualdade nos últimos anos, mas fez alguns alertas ao país – o Brasil é “amado demais” pelos mercados, algo que também ocorreu por vários anos com Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia, os países hoje mais encrencados da zona do euro. Esse “amor” contribui para a valorização exagerada do câmbio, ao lado dos preços elevados das commodities, dos quais o Brasil é grande exportador, destacou o americano, professor da Universidade de Princeton, nos EUA.

Krugman mostrou ainda uma visão pessimista sobre as perspectivas para os países desenvolvidos, especialmente a Europa. A insistência europeia em promover políticas de austeridade fiscal só aprofunda uma situação que já é recessiva. Já os EUA passam por uma situação “terrível”, ainda que não desesperadora. Para ele, a recuperação será lenta, com desemprego alto por alguns anos.

O economista disse que o Brasil não tem apresentado taxas de crescimento “ao estilo asiático”, mas exibe um ritmo de expansão da economia sólido e razoável. Vulnerabilidades importantes que no passado faziam o país sofrer em cenários de crise global não estão mais presentes, afirmou, destacando que o Brasil não tem dívida expressiva em moeda estrangeira. Para Krugman, o Brasil resistiu bem ao cenário global adverso dos últimos anos porque foi menos complacente com o risco e as dívidas, uma atitude diferente da registrada nos países desenvolvidos, como os EUA. “O setor público e o setor privado foram mais cautelosos por aqui”, disse ele, que participou ontem do Seminário Internacional sobre Pequenos Negócios, promovido pelo Serviço de Apoio Brasileiro de Apoio as Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com apoio do Valor.

Mesmo que não cresça a um ritmo exuberante, o Brasil se tornou uma opção das mais atraentes para os investidores em comparação com os países desenvolvidos. “Isso ocorreu não porque as coisas melhoraram dramaticamente no Brasil, mas porque se tornaram dramaticamente piores nos países desenvolvidos.” Esse movimento é decisivo para a valorização do real, assim como os altos preços de commodities. Para ele, essa “é uma situação desconfortável” para um país que já mostrou grande capacidade para produzir bens manufaturados sofisticados.

Ainda que acredite numa correção do valor do real em algum momento, hoje muito apreciado, Krugman disse que o Brasil deverá continuar a receber fluxos de capitais expressivos dos países desenvolvidos por um bom tempo. Ao mesmo tempo, os preços de commodities deverão se manter em níveis historicamente altos, dado o ritmo de crescimento mais forte de outros emergentes, como a China.

Para o economista, contudo, a valorização do real é um problema que pode ser em parte enfrentado pela imposição de impostos e limites que desencorajem a vinda desses capitais para o país, como tem feito o governo brasileiro. “E, se não há ameaças à inflação, é possível ainda cortar os juros.”

Ele disse ainda que reclamar da política monetária dos EUA e da Europa, como vem fazendo a presidente Dilma Rousseff, não é eficaz. “O Brasil vem gastando um esforço considerável em criticar a política monetária do Fed [o BC americano], e esse esforço é em vão. O Fed está fazendo o que deve fazer, e devia até fazer mais”, disse ele, para quem também seria importante o BC Europeu ser mais incisivo. “Gritar com os banqueiros centrais dos países desenvolvidos não vai resolver. Eles têm mais coisas com o que se preocupar do que em tornar as coisas menos difíceis para o Brasil.”

Krugman tem defendido medidas agressivas de política monetária nos países desenvolvidos para tentar estimular a anêmica atividade econômica, mesmo que isso se traduza em inflação na casa de 4% – o que, na atual situação, seria uma boa notícia.

O economista mostra preocupação em especial com a situação europeia. Ele cita o caso da Espanha, onde a taxa de desemprego beira os 24%, superando os 50% entre os jovens, e insiste em políticas de austeridade fiscal, que contribuem apenas para acentuar a recessão, sem restaurar a confiança dos investidores. Ele acha possível que algum país abandone a zona do euro, como a Grécia, ainda que muitos analistas vejam a opção como catastrófica.

Quanto aos EUA, Krugman foi um pouco menos pessimista. “O mercado de trabalho está dando sinais de melhora, o mercado imobiliário também, em parte porque não construímos praticamente nenhuma casa nos últimos seis anos.” Mesmo assim, descreve a situação dos EUA como terrível.

Também presente ao evento, o ex-ministro Antonio Delfim Netto disse que o câmbio é valorizado em boa parte devido aos juros elevados. O dólar barato prejudica a indústria de transformação, que cresceu apenas 0,1% em 2011, uma das principais explicações para a expansão de 2,7% do PIB no ano passado. Para ele, é para conter essa dinâmica que o governo está promovendo medidas para reanimar o setor manufatureiro.

Em relação às críticas de que as medidas são protecionistas, Delfim avaliou que as reclamações contra o Brasil na Organização Mundial do Comércio são semelhantes às de outros países. “O Brasil não é nem mais nem menos protecionista que os EUA.” Ele enfatizou a necessidade de corrigir distorções do sistema tributário e de um controle rígido dos gastos de custeio, para o governo investir mais. (SL e Tainara Machado)

29/02/2012 - 10:38h ‘Economia brasileira cresce abaixo do potencial desde o 3º tri’

Tombini: Ao crescer abaixo do potencial, atividade pode ser estimulada sem gerar aumento de preços


Por Murilo Rodrigues Alves e João Villaverde | VALOR

De Brasília

A uma semana da reunião em que o Banco Central (BC) definirá a nova Selic, o presidente da instituição, Alexandre Tombini, deu ontem ao mercado a mais clara sinalização do que baliza as últimas decisões da diretoria do BC. Em depoimento no Senado, Tombini afirmou que a economia está crescendo abaixo do seu potencial desde o terceiro trimestre de 2011. Em seguida, arrematou: “Não é por outra razão que o BC vem ajustando a Selic”, afirmou.

De acordo com Tombini, a atividade está se recuperando do crescimento zero registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no terceiro trimestre do ano passado, sem, no entanto, acelerar a inflação. Pelo contrário – o Brasil vive desde outubro do ano passado um “processo de desinflação forte”, disse, levando em consideração o IPCA acumulado nos últimos 12 meses.

Desde 31 de agosto, quando o BC iniciou o afrouxamento, que já reduziu em Selic em dois pontos percentuais, o presidente do BC tem reiterado que a inflação iria convergir para o centro da meta de 4,5%. Ontem, no entanto, Tombini deixou claro que o manejo da política monetária leva em conta também o ritmo da economia. Ao crescer abaixo do potencial, portanto, a atividade pode ser estimulada sem gerar aumento de preços.

Os economistas divergem quanto ao Produto Interno Bruto (PIB) potencial do Brasil – ou seja, aquele crescimento econômico que é possível obter sem inflação. Para parte relevante do mercado, um avanço do PIB entre 3,5% e 4% seria o potencial da economia hoje, isto é, o máximo que a atividade pode crescer sem pressão sobre os preços. Outros acham que há possibilidade de crescer até 4,5%. Tombini não informou qual seria o PIB potencial estimado pelo BC, mas por dois momentos repetiu que desde o terceiro trimestre a economia cresce abaixo do seu potencial.

O dado oficial do PIB para o quarto trimestre será divulgado pelo IBGE nos próximos dias. O Índice da Atividade Econômica (IBC-Br) calculado mensalmente pelo BC, aponta para um avanço de 0,5%, feito o ajuste sazonal, entre o terceiro e o quarto trimestre. No terceiro, o IBGE já divulgou que o crescimento foi nulo na comparação com o segundo trimestre.

Para Tombini, a economia brasileira está acelerando e o segundo semestre ano vai registrar um ritmo mais forte que o primeiro. Isso ocorrerá especialmente devido ao incremento nos investimentos, algo que, como disse Tombini no Senado, “tem tido muita ênfase no governo em 2012″. O avanço da economia, no entanto, não vai inviabilizar a convergência do IPCA para a meta, afirmou.

“Nossa perspectiva é de que a economia cresça mais no segundo semestre, ao mesmo tempo em que a inflação continua em sua trajetória de convergência à meta”, disse Tombini na audiência realizada pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). “O Brasil vai crescer mais em 2012 do que cresceu em 2011, sem dúvida.”

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) será na semana que vem. A maioria dos analistas do mercado entende que o Copom deve voltar a cortar a Selic, atualmente em 10,5% ao ano, em 0,5 ponto percentual. Na ata da última reunião do Copom, em janeiro, o BC deixou claro que há condições para a Selic atingir o patamar de um dígito neste ano.

17/02/2012 - 13:06h Inflação aponta para baixo e autoriza visão de Selic menor

Por Eduardo Campos | VALOR

De São Paulo

O mercado de juros futuros já trabalha com Selic pouco abaixo de 9,25%. São dois cortes de meio ponto percentual nas reuniões de março e abril do Comitê de Política Monetária (Copom) e um terceiro corte superior a 0,25 ponto no encontro de maio. Atualmente o juro básico está fixado em 10,5% ao ano.

Entre os vetores que dão suporte à formação dessas apostas de juros cadentes no mercado futuro está o comportamento da inflação corrente e a visão de que os preços não devem surpreender para cima no curto prazo.

Hoje, sai o Índice de Preços ao Consumidor Amplo -15 (IPCA-15) de fevereiro e a prévia da inflação oficial deve ficar entre 0,50% e 0,55%, contra 0,65% registrado em janeiro.

O sócio da Platina Investimentos, Marco Franklin, trabalha com variação menor, de 0,48%. E para o IPCA fechado do mês, a visão é de inflação em 0,35%. Se tal previsão for confirmada, a inflação oficial no acumulado em 12 meses sai dos atuais 6,22% para cerca de 5,7% a 5,8%.

De acordo com o especialista, o mercado pode ser surpreendido com uma inflação caindo mais forte e por mais tempo do que o estimado. “Devemos ver preços em baixa até agosto”, diz.

Pelas estimativas de Franklin, uma série de fatores deve levar o IPCA acumulado em 12 meses para algo entorno de 4,5% a 5%, no começo do segundo semestre. “O famoso 4,7% do modelo do Banco Central”, lembra.

No Relatório de Inflação do quarto trimestre, divulgado no fim de dezembro, o BC afirma que o cenário de referência (câmbio em R$ 1,80 e taxa Selic em 11,00%) projeta inflação de 6,5% em 2011 – como se confirmou -, e variação de 4,7% em 2012 e 2013.

Vejamos qual a dinâmica considerada por Franklin. Primeiro, se divide o ano em três quadrimestres. Os primeiros quatro meses de 2011 mostraram inflação média de 0,80%. No período, alimentação, energia elétrica e etanol subiram com força.

Agora, esses itens estão mais comportados e é possível estimar inflação média para os mesmos quatro meses ao redor de 0,50%.

Um ponto destacado por Franklin é a possibilidade de reajuste zero ou mesmo negativo nas tarifas de energia agora em 2012.

Umas das primeiras negociações, da Coelce, parte de queda de 10% no preço da energia. “Se isso for um bom indicador do que poderá acontecer em outras capitais, podemos ter surpresa positiva no lado da inflação”, diz.

Passando para o segundo quadrimestre (maio a agosto), sazonalmente a inflação já é menor. Não há concentração de reajustes de tarifas, nem pressão de entressafra de carne pesando sobre o grupo alimentação.

No ano passado, a inflação acumulada nesse período foi de 1,15%. E dada a dinâmica melhor desse ano é possível estimar variação entre 0,75% e 0,80%.

“Esses efeitos combinados devem levar a inflação em 12 meses para 4,5% a 5% em agosto”, diz Franklin, indicando que o cenário do BC pode se mostrar correto.

Avaliando, agora, o último quadrimestre do ano, Franklin não vê fatores com força suficiente para colocar o IPCA muito acima ou abaixo desses 4,5% a 5%.

Os condicionantes da análise são a continuidade de uma dinâmica favorável para o preço das commodities agrícolas (evento de elevada probabilidade) e a suposição de que a inflação de serviços não vai piorar ainda mais.

14/02/2012 - 08:22h Consumo voltou a puxar economia, dizem analistas

Aurélio Bicalho: recuo mais rápido dos juros de mercado teve efeito importante sobre os índices de confiança


Por Tainara Machado | VALOR

De São Paulo

A expectativa para a indústria é que 2012 seja melhor do que foi o ano passado, quando o setor amargou crescimento de apenas 0,3%. Ainda assim, é novamente o consumo que vai levar a atividade econômica a ganhar ritmo em 2012, segundo economistas consultados pelo Valor. Esse efeito, dizem, já poderá ser percebido no resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre de 2011 e mais ainda ao longo deste ano.

Para Aurélio Bicalho, economista do Itaú Unibanco, um impulso relevante ao consumo virá de três frentes. O mais importante é o aumento real de 7,5% do salário mínimo, mas a desoneração de produtos da linha branca, que deve vigorar até o fim de março, combinada à redução da Selic pelo Banco Central dá “condições positivas para o consumo no primeiro trimestre”, afirmou Bicalho. O economista ressalta ainda o recuo mais rápido dos juros de mercado, com efeito importante sobre os índices de confiança, que deram sinais de retomada neste início de ano.

Essa combinação deve trazer a inadimplência, que alcançou 7,3% em dezembro do ano passado, para baixo, abrindo caminho para que o consumidor continue a ser o motor da economia.

A expectativa dos analistas consultados pelo Valor é que o PIB pela ótica da demanda já seja mais positivo no quarto trimestre do que foi no terceiro trimestre do ano passado, quando a economia ficou estagnada. Naquele período, o setor externo deu a principal contribuição para que a atividade não fosse negativa. Na comparação com o segundo trimestre, na série com ajuste sazonal, o consumo das famílias, do governo e os investimentos recuaram 0,1%, 0,7% e 0,2%, respectivamente.

O consumo das famílias deve ser ponto importante dessa inversão. O economista-chefe do HSBC, André Loes, estima que a redução da inadimplência aliada às medidas de estímulo do governo, como o desmanche de parte das medidas macroprudenciais pelo BC, terá efeito considerável sobre o consumo, com expectativa de alta de 0,5% no último trimestre do ano passado, na comparação com o período imediatamente anterior, sempre com ajuste sazonal. Em 2012, diz Loes, esse efeito será potencializado, o que explica em parte sua projeção mais otimista do que a média do mercado para o crescimento deste ano, de 3,7%.

Para o Santander, o consumo das famílias deve ter crescido 0,8% no quarto trimestre de 2011. Fernanda Consorte, economista do banco, projeta que a alta do rendimento médio real nos últimos dois meses do ano passado deve ter turbinado esse resultado. Fernanda ainda projeta que o consumo do governo e o setor externo devem ter dado contribuições positivas, com expectativa de que o PIB no período tenha avançado 0,4%. A exceção, pelo lado da demanda, será o investimento, que deve continuar negativo, segundo a economista do Santander. Para ela, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, a medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e na construção civil) deve até piorar na passagem trimestral, passando de queda de 0,2% para menos 0,4%.

Bicalho, do Itaú, também ressalta que o investimento não deve ter reagido no quarto trimestre do ano passado e um dos indícios é a atividade industrial, que teve queda mais forte em outubro, na comparação com setembro. O segmento de bens de capital, por exemplo, registrou baixa de 1,8% na produção naquele mês. Assim, apesar do resultado positivo nos dois meses subsequentes, o PIB industrial no trimestre deve ter sido negativo, segundo o Itaú, e a estimativa é que o país tenha crescido apenas 0,2% no último trimestre de 2011, mesma taxa esperada pelo HSBC.

Luis Otávio Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil, tem expectativa um pouco menos otimista para o comportamento da demanda. Apesar de também esperar um crescimento do PIB próximo a 0,4% no quarto trimestre, sempre na comparação com o terceiro trimestre, na série com ajuste sazonal, o economista avalia que o consumo será “levemente positivo”, mas pouco surpreendente. O endividamento das famílias, afirma, deve ter impedido atividade mais robusta, apesar da injeção de renda com o pagamento do 13º salário e a redução da inflação acumulada em 12 meses.

A partir do primeiro trimestre deste ano, no entanto, as medidas de estímulo devem ganhar potência e a atividade começará a reacelerar, estimam os economistas. O crescimento entre janeiro e março deve ser de 0,8%, na comparação com o último trimestre de 2011 para o Itaú Unibanco e para o Santander. Para Aurélio Bicalho, mais uma vez o consumo deve crescer acima da variação do PIB, enquanto a indústria seguirá com avanço inferior à taxa de expansão da economia brasileira.

Para Bicalho, a indústria entrou em 2012 em primeira marcha por causa dos estoques ainda em patamares elevados. “Vamos ver o mesmo padrão observado nos últimos dois anos, em que um pedaço importante da demanda é atendida pelas importações”, segundo Luis Otávio Leal, do ABC Brasil.

Investimento vai superar 20% do PIB, prevê Fazenda

Por João Villaverde e Thiago Resende | VALOR
De Brasília

Os investimentos vão saltar quase 11% neste ano, levando a formação bruta de capital fixo (FBCF, que contabiliza os investimentos em máquinas e equipamentos e em construção civil) a atingir 20,8% do Produto Interno Bruto (PIB), prevê o Ministério da Fazenda.

Apesar disso, o ministério reduziu ontem a estimativa para o avanço do PIB no ano – de 5% para 4,5%, de acordo com o documento “Economia Brasileira em Perspectiva”, estudo realizado pela Secretaria de Política Econômica (SPE) que divulga as previsões mais recentes para o ano.

A taxa de investimento vai superar, segundo a equipe econômica, pela primeira vez em dez anos, o patamar de 20% do PIB. De acordo com a SPE, a formação bruta de capital fixo será equivalente a 20,8% do PIB ao fim deste ano – em 2011, segundo a Fazenda, foi de 19,6% do PIB. A taxa de investimento passará por um avanço de 10,8% neste ano, mais que o dobro da alta de 5,3% verificada entre os três primeiros trimestres de 2011 com igual período do ano anterior. Se a projeção se confirmar, a taxa de investimento terá saltado 4,4 pontos percentuais, como proporção do PIB, de 2002 (16,4%) para cá.

A estimativa da Fazenda também serviu para comprovar o ritmo lento que os investimentos tiveram no ano passado. A FBCF cresceu apenas 0,1 ponto percentual entre 2010 e 2011, mesmo em cenário de avanço mais fraco da atividade, que, segundo o ministério, cresceu apenas 3,2% em 2011 – em 2010, o PIB saltou 7,5%.

O avanço dos investimentos será impulsionado, dentre outros canais, pela redução do custo de crédito para as empresas. Os cortes contínuos na taxa básica de juros, a Selic, produzidos pelo Banco Central (BC) desde agosto do ano passado, terão efeito concentrado, estimam os economistas do governo, a partir do segundo semestre deste ano.

Parte deste recuo, avaliam os economistas, deve também forçar novas reduções nos juros cobrados pelos bancos das companhias que tomam dinheiro emprestado para investimentos e capital de giro. A diferença entre o custo de captação de recursos dos bancos (taxa Selic) e os juros cobrados das empresas – o spread bancário – deve cair.

Atualmente, o spread embutido nas taxas de juros cobradas das empresas pelos bancos é de 18 pontos percentuais sobre o custo de captação. Segundo dados do Banco Central, compilados no documento do Ministério da Fazenda, a taxa de operação passiva é de 10,28% ao ano, mas a taxa média cobrada pelos bancos (taxa de operação ativa) é de 28,23% ao ano.

“Houve em 2010 uma redução [no spread] de 0,2 ponto percentual e em 2011 uma redução de 0,4 ponto percentual. O spread incentiva a realização de captações externas por empresas brasileiras que possuem acesso ao mercado internacional”, diz o documento divulgado pelo ministério.

A Fazenda também aproveitou para fazer um “exercício estatístico” com a inflação, ao estimar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2011 com a nova estrutura de ponderação do índice, válida a partir de janeiro. O IPCA seria de 6,1% e não de 6,5%, caso fosse aplicada a nova Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008/2009).

27/01/2012 - 09:16h Recado do BC é de queda da Selic para um dígito


Ata do Copom demonstra preocupação com o ritmo da economia e deixa clara a possibilidade de cortes no juro em direção a uma taxa inferior a 10%

27 de janeiro de 2012

ADRIANA FERNANDES , FERNANDO NAKAGAWA / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

O recado foi claro: o juro cairá para um dígito em breve. Diante da decepção com a economia, que cresceu menos que o esperado no segundo semestre de 2011, e sem luz no fim do túnel da crise europeia, o Banco Central avisou ontem que é “elevada a probabilidade” de que a taxa básica da economia, a Selic, siga em queda em direção ao nível de um dígito.

A luz amarela acendeu nos últimos dias com a constatação de que a economia tem girado em ritmo menor que o previsto. Até dezembro, o BC projetava uma expansão de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2011. Mas, segundo apurou o Estado, em pouco mais de 40 dias dados econômicos frustraram as expectativas ao revelar que a expansão foi mais fraca: entre 2,7% e 2,8%.

Atualmente em 10,5%, o juro cairá sem aumentar a inflação porque o Brasil, no entender do BC, já é beneficiado pela queda da chamada taxa de juro neutra – que permite à economia crescer sem pressionar os preços.

Entre os fatores que explicam a queda do juro neutro brasileiro, o BC lista o menor risco Brasil para os estrangeiros, a estabilidade macroeconômica e os avanços institucionais. “Todas essas transformações caracterizam-se por um elevado grau de perenidade. Embora, em virtude dos próprios ciclos econômicos, reversões pontuais e temporárias possam ocorrer”, ressaltaram os diretores do BC na ata da reunião de janeiro do Comitê de Política Monetária (Copom).

Em um texto mais direto que os anteriores, o documento divulgado ontem pelo BC explicitou a preocupação com o ritmo da economia. Com crescimento mais lento, o Copom entende que a demanda reagirá menos e, por consequência, a pressão de alta sobre os preços será menor. Por isso, há espaço para cortar ainda mais os juros, que já caíram 2 pontos porcentuais desde agosto, em quatro cortes seguidos de 0,5 ponto cada.

Fed. A avaliação do BC para os demais indicadores econômicos continua igual. Portanto, a instituição rejeita a percepção de alguns economistas de que a análise sofreu uma “guinada”. Ao contrário. O rumo da leitura é o mesmo e, agora, ainda mais aprofundado. Diretores também rechaçam a análise de que a ata teria sido influenciada pela sinalização feita um dia antes pelo Federal Reserve, o BC dos Estados Unidos, de que o juro seguirá baixo naquele país até 2014 porque a maior economia do mundo não deve reagir nesse período.

Para o Bradesco, a ata deixou claro que a Selic atingirá, pelo menos, o nível de 9,75% nos próximos meses. “Se o nosso cenário se confirmar, de retomada gradual do PIB e inflação bem comportada no primeiro trimestre, a Selic deverá atingir 9,5% em maio”, prevê a instituição.

O banco chama a atenção para o fato de que o documento não usou o termo “ajustes moderados” ao tratar dos cortes de juro, como nos últimos meses. Isso sugere que “as portas ficam abertas para que o passo de redução mude para 0,25 ponto”. Desde agosto, a taxa tem caído em doses de 0,50 ponto. Dessa maneira, o Bradesco prevê mais três cortes do juro em breve: 0,5 ponto em março e 0,25 ponto nos encontros de abril e maio.

18/01/2012 - 18:51h Grupo do Peru quer ter banco no Maranhão

Por Murilo Rodrigues Alves | VALOR

De Brasília

O grupo peruano ACP Inversiones y Desarollo pediu autorização ao Banco Central brasileiro para abrir um banco comercial em São Luís (MA).

A declaração de propósito, publicada ontem no sistema de normas do BC, é o primeiro passo para a instalação do banco no país. Se aprovado, a instituição será batizada como Banco Ideal e vai ter capital inicial de R$ 30 milhões.

O grupo que fez o pedido se define como uma associação civil sem fins lucrativos com sede em Lima, no Peru. No Brasil, o novo banco será administrado por um conselho de administração composto por sete membros titulares e cinco suplentes, e uma diretoria composta por até quatro diretores.

A autoridade reguladora brasileira dá um prazo de até 30 dias para que “eventuais objeções” à pretensão do grupo ACP Inversiones y Desarollo de se firmar no país sejam comunicadas ao BC.

Depois desse prazo, se não houver nenhuma objeção, o BC faz uma análise detalhada do processo que, entre outros documentos, deve conter estudos de viabilidade financeira, plano de negócios, definição dos padrões de governança corporativa, composição do grupo de controle e demonstração da capacidade econômico-financeira compatível com o porte, a natureza e o objetivo do empreendimento.

Se aprovado, a autoridade reguladora encaminha voto favorável ao Conselho Monetário Nacional (CMN), que reúne os ministros da Fazenda e do Planejamento e o presidente do BC. Se passar por essa instância, por se tratar de controle estrangeiro, o pedido tem que ser aprovado pela presidente da República.

Existem no Brasil 114 instituições financeiras cujo controle pertence a um grupo estrangeiro, segundo dados de novembro do BC. Nenhuma dessas instituições tem como controlador final um grupo com sede no Peru. O controle estrangeiro é determinado quando o grupo de fora possui participação de pelo menos 50% do capital votante.

05/01/2012 - 09:07h Brasil vai ter um ano bom

05 de janeiro de 2012

ALBERTO TAMER – O Estado de S.Paulo

Primeiros dias com certa calmaria no cenário internacional em um início de ano que será difícil. Há menos tensão depois de o Banco Central Europeu oferecer, no dia 21 de dezembro, 489 bilhões a juros reais negativos por três anos, fato inédito, pensando que os bancos iriam usá-los nas linhas de crédito. Não foi isso que aconteceu. Eles aceitaram o empréstimo e depositaram quase tudo nas suas contas (uma espécie do nosso compulsório) no próprio BCE, mesmo pagando juro maior. Até a noite de terça-feira, haviam recolhido ao BCE 446 bilhões dos 489 bilhões recebidos. Estão lá, prontos para serem usados quando a incerteza passar. Nem empresas nem consumidores estão dispostos a se endividar enquanto nada se definir. E essa definição, mais recursos para o fundo europeu socorrer os países em dificuldade, se choca frontalmente com a política meio suicida dos governos, Paul Krugman afirma, de atacar a dívida soberana aplicando um severo plano de austeridade fiscal. Uma política que levou à recessão atual e vai prolongá-la por mais dois trimestres.

Para os europeus, Keynes, que defendia a ação dos governos num momento de crise, está morto. Só que eles podem morrer antes de chegar na praia. Só a Alemanha se anima por enquanto, mas porque continua exportando para os países da zona do euro e para a China.

Eles viram. Mas ninguém viu isso? Todo mundo viu. Christine Lagarde se cansou de alertar. Na mensagem de fim de ano não poderia ter sido mais pessimista. A situação é grave e exige ação. Até Angela Merkel admitiu em sua mensagem de fim de ano que “2012 será sem dúvida pior que 2011″. Nicolas Sarkozy não vai tão longe, afinal tem eleição pela frente e quer se reeleger, mas concorda que a situação está cada vez mais difícil.

O teste de janeiro. De acordo com levantamento da agência Bloomberg, os países da zona do euro têm de rolar títulos no valor de 215 bilhões – há outras estimativas, mas os valores giram em torno disso. Vai ser difícil. O primeiro teste vem hoje, quando a França vai propor ao mercado renovar 8 bilhões; o segundo, no dia 12, com a Espanha precisando rolar 3 bilhões. E tem Grécia, Itália. Ao todo, mais de 1 trilhão.

Os analistas do mercado não veem outra saída a não ser o BCE comprando títulos dos países endividados e não se limitando apenas a dar liquidez ao sistema. Mas nada se resolverá enquanto, ao mesmo tempo, a economia não voltar a crescer estabelecendo a confiança que empresas e consumidores perderam nos governos e nas instituições.

Brasil até aproveita. O Brasil navega bem nesse mar em que os investidores buscam porto seguro. Saem do euro, correm para nós, onde há apenas pequenas marolas e céu azul. Os dólares e os euros continuaram entrando em dezembro e neste início de ano. Na terça-feira, o Tesouro captou mais US$ 750 milhões para vencer em 2021(!), pagando a menor taxa de juros da história. Houve mais procura do que oferta e ele pode voltar ao mercado. Para grande surpresa do governo, a demanda por papéis do Tesouro chegou a US$ 3,6 bilhões.

Superávit mais superávit. De acordo com dados do Banco Central, o Brasil encerrou o ano com um saldo cambial de US$ 65,2 bilhões. Um aumento de nada menos que 168% sobre o ano passado. Foi o melhor ano desde 2007. E isso apesar da saída de dólares nos últimos meses por empresas internacionais que foram socorrer as sedes. Houve superávit financeiro, comercial e entrada recorde de investimentos diretos com empresas atraídas pela expansão do mercado interno.

Chega. A coluna não vai cansar o leitor com mais números. Estão todos aí, muito bem mostrados, com detalhes, no Estado. O Brasil não está sentindo falta de investimentos externos. Os dólares entram via captação, mercado financeiro, investimentos em produção. O ano passou, outro se inicia e tudo indica que para nós, vai continuar assim porque o governo, a presidente, o BC e a equipe econômica reafirmam que vão continuar e até intensificar a política que deu certo. Há razão, leitores, para confiar.

13/10/2011 - 09:04h Brics rejeitam reduzir acumulação de reservas

Por Assis Moreira | VALOR

De Paris

Brasil, China e África do Sul, que integram o grupo denominado Brics, e mais a Argentina rejeitam nova ofensiva de países desenvolvidos para que reduzam o ritmo de acumulação de reservas internacionais, ainda mais no cenário atual de crescente volatilidade.

Uma proposta no G-20 visa países com reservas “claramente acima de níveis de precaução”, ou seja, acima do considerado necessário. O foco é essencialmente a China, com seus US$ 3,2 trilhões de reservas internacionais.

Somente os Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – têm mais de US$ 4 trilhões de reservas internacionais. Certos analistas acham que a China vai acumular mais US$ 600 bilhões somente no ano que vem.

Para se proteger contra capitais de fluxos voláteis ou como resultado de estratégia de crescimento baseada em exportações, o que normalmente inclui políticas cambiais, vários emergentes têm acumulado enormes volumes de reservas internacionais.

Robustas reservas em várias economias, incluindo o Brasil, têm sido consideradas essenciais para ajudar esses países a atravessar crises globais. A acumulação de reservas serve como um colchão contra choques externos.

Mas críticos notam também que isso vem com custos para os países e que a acumulação de reservas, se excessiva, pode trazer um ônus para o sistema monetário internacional, com má alocação de recursos.

O confronto continua dentro do G-20. Para vários emergentes, o máximo que o grupo deve propor é que o Fundo Monetário Internacional (FMI) continue a trabalhar no desenvolvimento de medida para avaliar o volume de reservas adequadas que abranja melhor as circunstâncias de cada país.

Diante da crescente volatilidade nos mercados financeiros e da maior aversão ao risco, os emergentes enfrentam pressões no seu balanço de pagamentos. Seja por meio da fuga de capital, do menor ganho com exportações, entre outros. Na visão de vários países, o uso de uma forma de medição que inclua várias fontes de riscos pode ser útil nesse contexto.

Na avaliação de países como o Brasil, a análise de reservas adequadas mais diretamente vinculadas a fundamentos (como políticas cambial e monetária) deveria encorajar o setor privado, incluindo agências de classificação de risco, a usar a mesma medida.

03/10/2011 - 16:58h Renda, dívidas controladas e emprego farto ajudam consumo no fim do ano

Gustavo Lourenção/Valor/Gustavo Lourenção/ValorSergio Vale, da MB Associados: redução da taxa Selic também deve ajudar


Por Arícia Martins | VALOR

Três elementos devem manter o consumo das famílias brasileiras em alta neste fim de ano – renda, baixo desemprego e endividamento bastante moderado.

O comprometimento do orçamento das famílias brasileiras com dívidas é crescente, mas não assusta. Ainda que a um ritmo fraco, a parcela da renda destinada ao pagamento de débitos vem aumentando desde abril e atingiu em julho deste ano 21,1%, último dado disponível e maior nível da série histórica calculada pelo Banco Central desde janeiro de 2005, cuja metodologia foi revisada na última leitura, mas sem alteração em sua trajetória.

A massa salarial, importante indicador do poder de fogo dos consumidores e de sua capacidade de pagamento, atingiu em agosto passado R$ 37,2 bilhões, avanço de 5,6% frente igual mês de 2010 em termos reais. A baixa taxa de desemprego, que cria uma sensação de conforto na população, aliada a sucessivos ganhos reais na renda, permitirá que o consumo continue forte nos próximos meses, dizem analistas. O principal perigo imposto pelo endividamento elevado, acrescentam, é seu impacto de alta na inadimplência, o que a médio prazo está descartado justamente pela força do mercado de trabalho.

Nos 12 meses encerrados em julho, o varejo ampliado, que inclui automóveis e materiais de construção, registrou um volume de vendas 10,5% maior, indicando uma pequena retração no ritmo de consumo na comparação com os 12,2% do fim de 2010, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No varejo restrito, a alta de 10,9% do fim de 2010 cedeu espaço para um crescimento de 8,5% nos 12 meses encerrados em julho na comparação com os 12 meses anteriores. Para a LCA Consultores, o varejo vai encerrar 2011 com alta de 7% no segmento restrito. Para a MB Associados, a alta será de 7,3%

Ao contrário do que aconteceu no início do ano na esteira das medidas macroprudenciais tomadas pelo BC para conter a demanda, que encareceram o crédito, o ligeiro avanço do nível de endividamento não se deveu às despesas com juros. Esse dispêndio está relativamente estável desde abril entre 7,4% e 7,6% da renda, enquanto os gastos com o principal da dívida avançaram um ponto percentual entre maio e junho e, em julho, estacionaram em 13,5% da renda.

Segundo o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, o crescimento dos gastos com o principal da dívida entre maio e junho pode ser explicado pela trégua da inflação verificada de maio a julho, que inspirou maior confiança nos consumidores e os motivou a contratar novos empréstimos. Com a volta da alta nos índices de preços neste fim de ano, a tendência é que a despesa com o principal se estabilize no nível atual, com pequenos avanços na margem. “O indivíduo olha o que está acontecendo no mês, se assusta e toma a decisão em cima disso”, diz.

As medidas macroprudenciais tiveram papel decisivo no aumento do dispêndio das famílias com juros que ocorreu desde o fim de 2010, avalia Wermeson França, economista da LCA Consultores. Como os financiamentos já contratados ficaram mais caros, os consumidores não conseguiram fechar as suas contas e tiveram de recorrer a linhas pré-aprovadas com juros mais salgados, como o cheque especial e cartão de crédito. Agora, é possível que esse efeito tenha se dissipado – já que essas são modalidades de curto prazo – e o consumidor tenha tomado novo fôlego para se endividar mais, acredita o analista.

No entanto, com a desaceleração econômica em curso no país e as incertezas do cenário externo, lembram Vale e França, não só os tomadores, mas também os bancos estão mais cautelosos na concessão de crédito, o que impede uma alta muito explosiva no endividamento. “As restrições aumentam, a necessidade de comprovação de renda fica maior e tudo isso indica que os gastos com o principal da dívida não crescerão muito mais além do nível atual”, diz Vale.

Fernanda Della Rosa, economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio), não acredita que as turbulências das economias desenvolvidas afetarão seriamente o apetite do consumidor por mais crédito, ao menos por enquanto. “O consumo deve continuar forte. Se o consumidor tem condições de pagar e continua empregado, vai acabar comprando. A economia ainda está imune ao que acontece lá fora”, argumenta.

Ela observa que na região metropolitana de São Paulo as famílias mais endividadas são as que ganham menos de dez salários mínimos, segmento que depende de crediários para fazer novas compras e, por isso, precisa ter seu nome limpo. Segundo pesquisa da entidade, no mês de agosto 48% das famílias nessa faixa de renda declararam ter dívidas, contra 31% no grupo acima de dez mínimos.

Junto à baixa inadimplência, o ciclo de redução da Selic, que deve continuar, também pode estimular um endividamento pouco maior, sustenta Vale, da MB. O perfil da dívida mais alta, no entanto, não será predatório. O setor que deve sustentar esse crescimento será o imobiliário, modalidade de menor risco para as instituições porque o imóvel fica como garantia, explica França, da LCA.

21/09/2011 - 09:20h FMI aprova corte de juros no Brasil

Fundo leva a sério elevação da meta primária, mas refaz contas e prevê que PIB do País crescerá 3,8% ante previsão anterior de 4,1%
21 de setembro de 2011

ROLF KUNTZ, ENVIADO ESPECIAL/WASHINGTON – O Estado de S.Paulo

O governo brasileiro ganhou um importante aliado, o Fundo Monetário Internacional (FMI), na defesa do corte de juros. A inflação estará no centro da meta, 4,5%, no fim do próximo ano, segundo a nova projeção do FMI, incluída no Panorama Econômico Mundial divulgado ontem.

O governo começou a apertar a politica fiscal e isso ajudará o Banco Central (BC) a conter a alta de preços, segundo a economista Petya Brooks, da equipe de pesquisa econômica da instituição, chefiada por Olivier Blanchard. Foi uma rara demonstração de otimismo, numa exposição sobre um cenário mundial de baixo crescimento, de orçamentos em desordem no mundo rico e de rebaixamento dos títulos públicos de grandes economias, como EUA e Itália.

A inflação brasileira deve chegar a 6,3% em dezembro de 2011, pouco abaixo da média prevista para o ano, 6,6%. A média projetada para 2012 é 5,2% e as pressões continuarão cedendo até o fim do ano. O PIB deve aumentar 3,8% neste ano e 3,6% no seguinte, Na projeção anterior, divulgada em junho, o crescimento previsto para 2011 era 4,1%.

É preciso esperar para ver como o esfriamento da economia mundial afetará a demanda interna e as pressões inflacionárias no Brasil, disse Petya Brooks durante a entrevista de apresentação do Panorama. O BC, lembrou a economista, deu ênfase a esse fator para justificar sua decisão: “Mas ao mesmo tempo houve um aperto na política fiscal. Isso deverá contribuir para aliviar as pressões inflacionárias e nos dá alguma garantia.”

A ênfase maior no ajuste fiscal foi indicada pela decisão do governo de elevar o superávit primário neste ano, explicou a economista ao Estado logo depois da coletiva. Ela manteve a avaliação mesmo quando lhe foi lembrado um par de detalhes: a receita fiscal está crescendo muito neste ano – cerca de 14% até agosto, descontada a inflação – e metade dos R$ 10 bilhões acrescentados ao resultado primário foi proporcionada por um grande pagamento de tributo da Vale.

A mesma questão foi examinada com um misto de entusiasmo e cautela pelo economista Philip Gerson, assessor do Departamento de Assuntos Fiscais. A mudança da política fiscal nos emergentes é “boa demais para acreditar”, segundo ele. Algo divertido está ocorrendo nas contas públicas e as pessoas não estão percebendo, acrescentou. No caso do Brasil, é bem-vindo o aperto anunciado para este ano.

Mas ele fez duas advertências: 1) a meta de superávit primário de cerca de 3% em 2012 é adequada, mas será importante as autoridades indicarem como chegarão lá, 2) o Brasil ainda terá de cuidar de outros desafios fiscais, como a rigidez do gasto, a estrutura tributária, a vinculação de verbas e -como no caso de outros emergentes e de muitas economias avançadas- os problemas derivados do envelhecimento da população e ao crescimento dos gastos com saúde.

20/09/2011 - 10:02h Nessun dorma…

Por Antonio Delfim Netto – VALOR

É um fato conhecido que os competentes economistas alemães representam a fina flor do mais extremo monetarismo ao qual somam uma boa dose de conservadorismo. Foram ferozmente contra as concessões (com implicações econômicas) feitas por Helmut Kohl, quando aproveitou uma janela semiaberta e teve a coragem de reunificar a Alemanha, objetivo político de longo prazo absolutamente desdenhado pelos “puristas econômicos”.

Quando a Alemanha decidiu participar do euro, 150 dos seus mais reconhecidos acadêmicos publicaram um célebre manifesto contra, com bons argumentos, mas que de novo ignorava solenemente o objetivo político de longo prazo, que era a pacificação de um continente que durante os últimos mil anos foi atormentado por guerras.

Os argumentos eram respeitáveis e mostravam que o sucesso do euro dependia de um rigoroso controle da situação fiscal de cada país, preliminar para a construção de uma área monetária ótima: absoluto controle fiscal, liberdade de movimentos da mão de obra e de capitais e a cessão da emissão das moedas nacionais a um banco central autônomo, com uma nova unidade monetária, com relação à qual as taxas de câmbio de cada país seriam irrevogavelmente fixadas.

Nem o Fed, nem o BCE sabem, até agora, o que fazer

Eram contra, porque não acreditavam que os países se submeteriam a tal disciplina. Para impô-la, foi formalmente estabelecido e aprovado no acordo de Maastricht, que precedeu a introdução do euro, que: 1) nenhum país poderia ter déficit nominal superior a 3% do PIB; e 2) uma relação dívida/PIB maior do que 60%.

Por que não funcionou? Porque os governos de vários países (em particular da Grécia) mentiram, como suspeitavam os economistas alemães! Ilidiram aquelas condições com a conivência do sistema financeiro internacional e das agências de risco. Tudo veio à tona depois da “quebra” do Lehman Brothers, quando a “rede de patifarias” escondida nos derivativos tóxicos explodiu na cara dos bancos centrais, sob o nariz dos quais ela se realizara. É cada vez mais evidente que esses não se recuperaram do choque: nem o Federal Reserve dos EUA, nem o BCE da Eurolândia sabem, até agora, o que fazer.

Nos EUA, parece que começa a haver uma mudança. Mais de uma dezena de instituições financeiras, que ativamente (com a conivência das agências de risco) assaltaram os incautos aplicadores, começam a ser investigadas e, seguramente, algumas serão responsabilizadas criminalmente. Trata-se de um problema moral, que não pode mais ser escondido pelo governo Obama como foi até agora.

Tardiamente, ele propõe ao Congresso um novo pacote de estímulos para diminuir o sofrimento de 25 milhões de honestos trabalhadores (15 milhões com desemprego aberto e 10 milhões semiempregados), que acabaram desempregados com a política econômica (inspirada por distintos acadêmicos comprometidos com o sistema financeiro) que “salvou” os desonestos administradores.

Até agora, o presidente do Fed, Ben Bernanke, não disse a que veio: apenas repete, repete e repete o velho refrão, “farei o que tenho de fazer”. Continua indeciso sobre como atender ao seu duplo mandato: manter alto o nível de emprego e manter baixa a taxa de inflação.

O sinal de que ainda resta vida inteligente nos EUA veio num artigo no “Financial Times”, do secretário do Tesouro, Tim Geithner, onde afirmou que é hora dos governos deixarem de lado a paralisia política e esquecerem os medos infundados com a inflação.

No fundo, ele está transmitindo aos bancos centrais, que continuam mesmerizados pelos seus modelitos, que a taxa de juros nominal já é nula e que a taxa de inflação está na “meta”, mas a taxa de desemprego é quase o dobro da famosa Nairu (a taxa de desemprego que não acelera a inflação). Logo, é uma eficaz política fiscal que deve ser ativada.

É por isso que ele afirma que os EUA resistirão a um rápido ajuste fiscal em 2012 e recomenda a todos os países em dificuldades que façam o mesmo. Essa coordenação, se realizada, tornará mais potente e mais veloz os resultados.

No Banco Central Europeu (BCE), a situação se agrava. Enquanto Trichet aguarda sua substituição formal por Mario Draghi, os representantes alemães (diante do iminente desastre político da chanceler Merkel) abandonam o barco, alegando “razões pessoais”. Primeiro foi Alex Weber (presidente do Bundesbank). Agora foi Juergen Stark, o que aperta ainda mais a “saia justa” de Merkel.

Se não bastassem esses problemas, o ministro das Finanças da Holanda, Jan Kees de Jager, sugere claramente a expulsão da Grécia, a pedido: “Quando não conseguimos respeitar as regras do jogo, devemos deixá-lo”. O FMI, por sua inexperiente diretora-gerente, Christine Lagarde, lança dúvidas sobre a higidez dos bancos europeus que têm em carteira títulos gregos. Como todos sabem que ela conhece apenas os bancos franceses, produziu uma corrida sobre eles.

Parece óbvio que ninguém se entende. Tem razão o dr. Tombini. Vamos pôr nossas barbas de molho e nos proteger da provável desintegração da economia mundial.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

E-mail contatodelfimnetto@terra.com.br

16/09/2011 - 11:02h O Brasil frente ao recrudescimento da crise internacional

Por Márcio Garcia – VALOR

Da Europa, vem o temor do calote de vários países e da falência de grandes bancos; dos EUA, o medo de um duplo mergulho que jogue o mundo em nova recessão. O bólido chinês, com problemas de inflação, ameaça desacelerar fortemente. No Brasil, o dólar volta a subir rapidamente, enquanto a inflação assusta e a economia se desaquece lentamente. O Banco Central (BC), alarmado com a crise internacional, compra até a promessa de aperto fiscal do Executivo e faz uma aposta arrojada em juros mais baixos para manter a economia crescendo sem que a inflação fuja da meta.

Será que nosso crescimento voltará a se assemelhar ao voo da galinha? E o dólar, continuará barato ou subirá aos elevados níveis do passado? A inflação vai continuar aumentando? São muitas as dúvidas neste momento extremamente conturbado da economia internacional. Neste artigo, busco analisar brevemente a conjuntura internacional e seus prováveis desdobramentos para a economia brasileira.

Embora a velocidade dos acontecimentos recentes faça parecer que ocorreu há muito tempo, faz apenas pouco mais de um mês e meio que os políticos dos EUA conseguiram chegar a um acordo que impedisse o calote da dívida pública. Também no início de agosto, a classificadora de riscos Standard & Poor’s (S&P) rebaixou a dívida dos EUA, aumentando ainda mais a incerteza e a aversão ao risco. O acordo celebrado entre democratas e republicanos para evitar o calote da dívida, contudo, tem sérios problemas macroeconômicos: ele manieta o governo no curto prazo, impedindo-o de combater a recessão via expansão temporária da política fiscal, ao mesmo tempo em que deixa de atacar os problemas fiscais de longo prazo, que constituem de fato a grande ameaça à solvência dos EUA. Os números do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA, bem como a não geração de novos empregos em agosto, mostraram que economia está praticamente estagnada, com alto risco de voltar à recessão. O recente discurso de Obama sobre como gerar empregos tenta retomar a expansão fiscal, mas a aguda disputa política não deixa muita esperança de que venha a ter sucesso.

Em 2008, teria sido melhor recorrer mais ao relaxamento da política monetária do que à expansão fiscal

Frente a tal situação, em atitude inusitada, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) prometeu manter juro zero até meados de 2013. Busca assim incentivar empresas e famílias a voltarem a gastar. O problema é que muitas empresas e famílias estão sobre-endividadas (alavancadas), e quem está preocupado em pagar dívidas tem que cortar consumo e investimento. Muitas empresas, ao contrário, nadam em liquidez, mas estas tampouco investem porque temem não ter para quem vender. Esperam-se novas medidas na próxima reunião do Fed, na semana que vem, mas não está claro que haja muito que possa ser feito para encurtar a crise.

Na Europa, a situação é ainda pior. Após longo processo de negação da inevitabilidade de uma redução substancial da dívida grega (”haircut”), um novo programa foi, afinal, aprovado, mas sua implementação está sendo posta em dúvida pelos mercados. As decisões econômicas que se fazem necessárias na área do Euro enfrentam dificuldades políticas ainda maiores do que nos EUA, por envolverem diversos países e requererem unanimidade. Os mercados acreditam que haverá um calote grego, além de também descontarem calotes de outros países pequenos, Portugal e Irlanda, e até mesmo de alguns dos grandes, Itália e Espanha. Bancos franceses, recheados de papéis das dívidas soberanas ora em xeque, sofrem a debandada de investidores e encontram dificuldades em obter financiamento interbancário.

Caso os líderes europeus não consigam chegar a um acordo que convença os investidores de que não será admitida uma sequência de calotes soberanos que chegue a atingir os maiores países, grandes bancos podem vir a quebrar. Teme-se que tal quebradeira gere efeito dominó, semelhante ao ocorrido há três anos, quando quebrou o banco Lehman Brothers, nos EUA. Neste cenário catastrófico, no qual nosso BC decidiu apostar, se repetiria a paralisia do crédito internacional observada em 2008.

A fonte de crescimento da economia mundial está nos países emergentes, sendo a China seu dínamo. O problema é que a China luta com uma inflação de 6,5% e tenta, com dificuldades, desacelerar seu crescimento via contenção do crescimento do crédito. Para que o crescimento chinês permaneça elevado a médio prazo, será necessário que passe a depender menos do investimento e das exportações e mais do consumo interno. Isto envolve, entre outros fatores, a apreciação da taxa de câmbio, tema notoriamente difícil para as autoridades chinesas. Dada a complementaridade entre as economias chinesa e brasileira, os prognósticos para a China tornam-se ainda mais importantes para determinar nosso crescimento futuro.

Para avaliar os prováveis desdobramentos da crise internacional sobre a economia brasileira, hoje, vale recordar nossa reação à crise de 20081. Naquela oportunidade, o principal canal de transmissão da crise internacional para a economia brasileira foi a maciça contração internacional de crédito. Fragilidades financeiras internas ampliaram o impacto recessivo da contração creditícia: grandes empresas alavancadas em derivativos cambiais negociados com grandes bancos sofreram pesadas perdas. Apesar da higidez de nosso sistema financeiro, bancos pequenos e médios, e até mesmo um grande banco, sofreram grandes dificuldades financeiras oriundas da severa contração da liquidez. Tentou-se “desempoçar” a liquidez de diversas formas. Foram liberados depósitos compulsórios, incentivando bancos maiores a comprar carteiras dos menores com dificuldades de liquidez, aperfeiçoando e alongando o prazo do redesconto, e finalmente, criando-se um seguro para depósitos até R$ 20 milhões, o Depósito a Prazo com Garantia Especial (DPGE), garantido pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O resultado final foi considerado satisfatório, com o sistema financeiro nacional não sofrendo grandes danos, malgrado a severidade da crise.

Mais do que nunca, o crescimento depende das reformas que devem ser discutidas pela sociedade e pelo Congresso

No que tange ao mix de políticas macroeconômicas, não há tanta concordância quanto ao acerto das ações governamentais. O Gráfico 1 mostra quatro séries: a taxa Selic, a inflação acumulada nos 12 meses passados (IPCA), a inflação prevista para os 12 meses futuros (IPCA) e o índice de produção industrial (escala à direita). Às vésperas da eclosão da crise de 2008, dada a elevação da inflação, tanto ocorrida quanto prevista, ambas acima da meta (4,5%), o BC vinha aumentando a taxa Selic, que se encontrava em 13,75%. A crítica que muitos fazem ao BC é que ele teria errado ao manter inalterada a Selic durante o último trimestre de 2008, apesar do colapso do nível de atividade. Há, contudo, que se lembrar que a taxa de câmbio elevou-se significativamente, com o dólar chegando a beirar os R$ 2,50. O real depreciou-se 62% em relação ao dólar, entre agosto e dezembro de 2008. O impacto inflacionário da depreciação cambial só não foi maior porque os preços das commodities, em dólar, colapsaram, o que ora não está ocorrendo, como mostra o Gráfico 2. Note-se que, mesmo com a acentuada queda do nível de atividade, a queda da inflação, tanto da prevista como a da realizada, não foi muito acentuada, permanecendo ao redor da meta para inflação, demonstrando que o BC cumpriu o mandato da sistemática de metas para a inflação.

O padrão internacional de reação à crise foi recorrer à expansão fiscal apenas quando a expansão monetária já havia se esgotado, com taxas de juros perto de zero. Por isso vários países reduziram significativamente os juros, enquanto o BC só o fez até 8,75%. Isto ocorreu porque as políticas fiscal e parafiscal (expansão de crédito subsidiado via bancos públicos, sobretudo o BNDES) foram rápida e fortemente expandidas, limitando a capacidade de o BC reduzir mais os juros sem colocar em risco o controle inflacionário. Teria sido melhor recorrer mais ao relaxamento da política monetária do que à expansão fiscal, pois a primeira age com muito mais rapidez e de forma homogênea, afetando todos os agentes econômicos. Pode-se debater eternamente de quem é a culpa do mix errado de políticas macroeconômicas no combate à crise passada. Da Fazenda ou do BC? Mas isto, agora, pertence à história econômica.

Na reação à crise atual, o BC já decidiu baixar os juros confiando que as políticas fiscal e parafiscal não apresentarão o perfil expansionista da crise passada. De fato, a ata da última (161ª) reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) e as recentes entrevistas de seu presidente deixam claro estar o BC determinado a seguir trajetória bem distinta daquela seguida na reação à crise de 2008, ressaltando os impactos da crise mundial atual sobre a inflação. O cenário que parece guiar a decisão do Copom é construído com base em modelo computável, na presunção de que ocorra uma crise externa com menor impacto sobre a economia brasileira (1/4 do impacto de 2008), ainda que mais persistente (não especifica o período). A ata (parágrafo 18) diz que, nesse cenário “… a atividade econômica doméstica desacelera e, apesar de ocorrer depreciação da taxa de câmbio e de haver redução da taxa básica de juros, entre outros, a taxa de inflação se posiciona em patamar inferior ao que seria observado caso não fosse considerado o supracitado efeito da crise internacional.” Trata-se de um modelo novo, cuja confiabilidade ainda deverá ser testada ao longo do tempo. A reação de analistas fora do BC que lidam também com modelos econométricos parece indicar que, a menos que a severidade da crise internacional seja elevada, baixando significativamente os preços das commodities que compõem nosso índice de inflação (sobretudo alimentos, vide Gráfico 2), a convergência da inflação para a meta em 2012 estaria seriamente ameaçada.

Há outras ameaças, também mencionadas na ata. Os aumentos salariais acima da produtividade é um deles. O aumento do salário mínimo em janeiro de 2012, que deve se situar por volta de 14% é um elemento que dificulta muito a contenção dos aumentos salariais ora negociados. Com o mercado de trabalho aquecido, é muito difícil que a meta para inflação, 4,5%, sirva como base para fixação de reajustes salariais.

Outra ameaça é que a política fiscal siga sendo expansionista. O BC resguarda-se, afirmando (parágrafo 27) que “o Copom reafirma que o cenário central para a inflação leva em conta a materialização das trajetórias com as quais trabalha para as variáveis fiscais.” Em relação à expansão do crédito subsidiado via bancos públicos, também adverte (parágrafo 28) que “… considera oportuna a introdução de iniciativas no sentido de moderar concessões de subsídios por intermédio de operações de crédito”, embora não mencione a importância de moderar o volume total de crédito via bancos públicos, e não só os subsídios.

Infelizmente, há muito pouca evidência de que o governo, de fato, vá alterar as políticas fiscal e parafiscal de forma significativa. Ainda que a situação fiscal do Brasil seja tranquila no curto prazo, há diversas ameaças de médio e longo prazo que deveriam estar sendo atacadas, a começar pelo déficit previdenciário.

Em suma, o BC tomou a decisão de cortar a taxa Selic com base em aposta no cenário internacional, no arrefecimento das demandas salariais em um contexto de mercado de trabalho aquecido, e na esperança de que o governo reverta suas políticas fiscal e parafiscal expansionistas. Pode dar certo? Talvez, e para isso torcemos. Não obstante, a boa técnica de política monetária não aconselha bancos centrais a tomarem decisões tão arriscadas. Dado que a decisão de reduzir a Selic, que deve prosseguir nas próximas reuniões do Copom, já está tomada, só nos resta cobrar do governo que cumpra sua parte, apertando a política fiscal.

É importante abordar a questão da credibilidade do Banco Central. Como se sabe, o sucesso da política monetária reside fundamentalmente na crença dos agentes econômicos que o BC vai manter a inflação próxima à meta. Tal credibilidade está afetada, porque se passou a duvidar que o Copom possa decidir autonomamente sobre a fixação da taxa de juros. Tal impressão pode muito bem ser falsa, mas ela existe. E isto afeta negativamente a credibilidade do BC e, portanto, a eficiência da política monetária. Para que não haja perda ainda maior de credibilidade é necessário que, caso as hipóteses contidas na ata do Copom não se verifiquem, com a inflação dos próximos meses não convergindo para a meta, o BC reverta o movimento de queda da Selic.

Quanto à taxa de câmbio, sua trajetória futura estará condicionada, no plano externo, ao desenrolar da crise internacional e seus impactos sobre o crédito internacional, nível de atividade e preços de commodities, bem como, no plano interno, à condução das políticas monetária e fiscal. É pequena a probabilidade de depreciação tão acentuada como a registrada na crise de 2008, uma vez que não há notícias que empresas tenham voltado a especular em derivativos cambiais. Não obstante, a recente e rápida depreciação do real alterou o foco das apreensões, voltando a preocupar seu impacto inflacionário.

Em suma, vivemos um período de enorme incerteza nas economias desenvolvidas, com repercussões muito profundas, muito além da esfera econômica. Nossa economia será negativamente afetada, ainda que a situação relativa do Brasil seja boa. A reação do BC à crise, ao reduzir os juros, aumentou o risco inflacionário. Mais do que nunca, o crescimento futuro da economia brasileira reside na contenção da expansão fiscal, bem como nas reformas estruturais que precisam retornar à discussão da sociedade civil e do Congresso Nacional.

1 Em trabalho para a ANBIMA, disponível em www.anbima.com.br/mostra.aspx/?id= 1000001380 , revejo as razões para a resiliência demonstrada pela economia brasileira durante a crise de 2008.

Márcio Garcia, Ph.D. por Stanford e professor do Departamento de Economia da PUC-Rio.

Este é o quinto de uma série de artigos feitos por renomados economistas brasileiros e estrangeiros convidados pelo Valor para discutir a crise financeira internacional e avaliar seus possíveis desdobramentos.

12/09/2011 - 11:00h Crise será prolongada, diz Tombini

Por Claudia Safatle | VALOR

De Brasília

O corte de 0,5 ponto percentual na taxa de juros, na reunião do Copom do dia 31, teve um claro objetivo: “neutralizar a desaceleração da atividade econômica decorrente da piora no quadro internacional”. O Comitê de Política Monetária calculou que se o rebaixamento geral do crescimento nas economias centrais representar para a economia brasileira 25% dos efeitos da crise de 2008/2009, isso resultaria numa perda de 1,25 ponto percentual no PIB, disse o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, ao Valor.

O desaquecimento adicional, decorrente esperada redução nos próximos meses da corrente de comércio, dos investimentos externos e do crédito, viria se sobrepor à desaceleração em curso e que será sentida com maior intensidade no segundo semestre. A inflação, que entre agosto e setembro bateu no teto da meta, começa a ceder a partir de outubro. Ele explicou que no cenário alternativo (que consta da ata do Copom), mesmo com os juros em queda e o câmbio depreciando como nos últimos dias, a projeção de inflação é mais baixa do que seria se os juros tivessem sido mantidos em 12,50%. “Não estamos apostando em catástrofe. Apostamos numa desaceleração do crescimento mundial e numa crise mais prolongada do que em 2008.”

Na entrevista ao Valor, o presidente do BC tinha em mãos tabela com as projeções de inflação e juros em mais de vinte países. Em todos, os juros reais estão negativos ou muito baixos, o que retrata a pouca ou nenhuma capacidade de reação das políticas monetárias para reanimar o nível de atividade. No Brasil, a situação é diferente: os juros são de 12% para uma inflação que está no pico de 7,23%, mas que deve cair para a casa dos 5% até abril ou maio de 2012. “Faz quem pode.”

Apesar das muitas críticas e poucos aplausos à decisão do Copom, Tombini não demonstrou qualquer dúvida. “Para aqueles que ainda não entenderam, vai haver um entendimento da nossa estratégia. Estamos num processo de moderação do crescimento, que já estava encomendado. Adiciona-se a isso uma deterioração do cenário internacional de forma importante nos últimos 40 dias. Isso nos leva a uma trajetória de inflação de queda em busca da meta”. Garantiu que não houve abandono da meta de inflação de 4,5% em 2012, que o BC não tem mais de um objetivo e que não há interferência política. “Com a presidenta Dilma Rousseff discutimos cenários”.

Tombini conta com estabilidade, e não queda, nos preços das commodities; com desaquecimento do mercado de trabalho e não desemprego; e com uma moderação no setor de serviços, que carrega uma inflação na casa dos 9%.

06/09/2011 - 09:01h Um viva para o Copom

Por Antonio Delfim Netto – VALOR

A indignada e quase raivosa reação de alguns analistas, que se supõem portadores da “verdadeira” ciência monetária, à recente decisão do Copom, de baixar 50 pontos na Selic, revela que, para eles, a sacrossanta “independência” do Banco Central só é reconhecida quando esse decide de acordo com os conselhos que eles, paciente, gratuita e patrioticamente, lhe dão todos os dias, através da mídia escrita, radiofônica e televisiva.

Qualquer desvio só pode ser atribuído e explicado pela “pecaminosa” intervenção do governo que teria jogado a toalha: abandonou a “meta de inflação” e colocou em seu lugar a “meta de crescimento do PIB”, não importa a que “custo inflacionário”…

Trata-se, obviamente, de uma acusação irresponsável, injusta e arrogante. Irresponsável, porque colhida furtivamente de “fontes preservadas”, que podem não passar de pura e conveniente imaginação, desmentida, aliás, pelos votos divergentes. Injusta, porque pela primeira vez, em quase duas décadas, o Banco Central mostrou que é, efetivamente, um órgão de Estado com menor influência do setor financeiro privado. Arrogante, porque supõe que nenhuma outra visão e interpretação alternativa da realidade diferente da sua possa existir.

Vacilamos quando, em 2008, podíamos ter reduzido a taxa de juro

O mundo está literalmente vindo abaixo e sugere-se que o Copom deveria repetir o dramático erro de 2008: “Esperar para ver”! Vacilamos quando podíamos ter reduzido a taxa de juro real. Tínhamos um pouco menos de musculatura do que agora, mas poderíamos ter assegurado uma redução muito menor e uma recuperação mais rápida do financiamento do “circuito econômico”. Na minha opinião (que é apenas uma opinião impressionista), poderíamos ter crescido qualquer coisa como 2% ou 3% em 2009, em lugar de registrar queda do PIB de 0,6% e, ao mesmo tempo, ter reduzido dramaticamente a taxa de juros real.

As medidas fiscais e monetárias tomadas recentemente pelo governo (nas quais, aliás, tais analistas não acreditavam) estão reduzindo a taxa de crescimento a uma velocidade maior do que se esperava. Com o crescimento do PIB dessazonalizado de 0,8%, do segundo trimestre sobre o primeiro, e a enorme redução da expansão da indústria, é muito pouco provável que o PIB do ano cresça fora do intervalo de 3% (se o crescimento nos terceiro e quarto trimestres for zero) a 3,6% (na hipótese pouco provável de que cresçam também 0,8%).

Mas afinal o que se espera, ainda, das taxas de juros? Que controlem a inflação ou derrubem mais o crescimento? Todos os bancos centrais (mesmo os que não têm isso nos seus estatutos) olham para o nível de atividade e sabem que a política monetária tem efeitos com defasagens variáveis. Devem olhar não apenas a taxa de inflação futura, mas também para o ritmo de crescimento futuro. E devem ser realistas quanto às condições físicas objetivas que levam ao altíssimo custo social de tentar corrigir desajustes estruturais (como é o caso do ajuste qualitativo entre a oferta e a demanda no mercado de trabalho) reduzindo o crescimento do PIB à custa do aumento da taxa de juros real, com o que se destrói, colateralmente, o equilíbrio fiscal.

Os números externos pioram a cada dia. Na última semana de agosto: 1) no teatro de Jackson Hole, o Fed, o BCE e o Banco da Inglaterra mostraram as suas perplexidades. O mundo tomou conhecimento da receita acaciana de Bernanke: “Farei o que tenho que fazer”, sem especificar do que se trata. Remeteu a incerteza para 21 e 22 de setembro, na nova reunião do Fomc; 2) as perspectivas de crescimento mundial caíram para 2,5% (com viés de baixa, contra 3,9% em 2010); 3) o crescimento dos EUA foi reduzido a 1,4% (contra 3%); 4) a Eurolândia, com a redução do crescimento da Alemanha, talvez para 2%; e 5) a China estima crescer 8,7% (contra 10,3% em 2010).

É hora do Brasil pôr as suas barbas de molho: 1) reforçar, como está fazendo, o equilíbrio fiscal de longo prazo e aprovar as medidas que estão no Congresso com o mesmo objetivo; 2) manter sob controle as despesas de custeio e melhorar a qualidade do financiamento da dívida interna; e 3) adotar medidas microeconômicas para corrigir os desequilíbrios do mercado de trabalho, o que, obviamente, não pode ser feito com manobra da taxa de juros.

Isso possibilitará ao Banco Central, diante do complicado quadro interno e externo, prosseguir, com cuidado, mas persistência, a necessária redução da nossa taxa de juros real, abrindo espaço para o investimento público.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

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05/09/2011 - 10:59h Para analistas, país “furou a fila” do corte de juros

Por Lucinda Pinto | VALOR

De São Paulo

Quando se olha para os números de inflação, a sensação que se tem é de que o Brasil “furou a fila” do corte de juros entre os países da América Latina que adotam regime de metas. Com inflação testando o teto da meta deste ano e alimentada por fatores muito mais domésticos do que externos, o Brasil era considerado o “lanterninha” na lista do que deveriam iniciar om ciclo de alívio monetário em resposta à retração da atividade global. A expectativa de economistas era de que, antes de o Copom começar a reduzir a Selic, Chile, México, Colômbia e Peru- onde os índices de preço estão perto do centro da meta fixada por seus bancos centrais – teriam, tecnicamente, mais espaço para fazê-lo.

Todos concordam, entretanto, que uma pista de que o Brasil poderia tomar à frente nesse processo de afrouxamento monetário já havia sido dada: o claro interesse demonstrado pelo governo dias antes da reunião do comitê em reduzir os juros- fenômeno que não se observa em nenhum dos outros países.

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O candidato apontado como o mais “preparado” para iniciar a queda dos juros era o Chile, por ter sua inflação já ligeiramente abaixo do centro da meta e o juro básico próximo do considerado “ponto neutro” (aquele que é capaz de conter a inflação sem prejudicar o crescimento). A meta perseguida pelo BC chileno é de 3%, com tolerância de um ponto para cima ou para baixo. Atualmente, a inflação está em 2,9% (taxa anualizada) e a taxa de juros nominal, em 5,25%. Como trata-se de uma economia aberta, com a corrente de comércio de aproximadamente 60% do PIB, especialistas dizem que a retração da economia global – com consequente queda do preço das commodities – afeta mais diretamente a atividade e a inflação do Chile.

Embora a inflação no México, de 3,6%, também oscile acima do centro da meta (também de 3%, com tolerância de um ponto percentual), sua intensa dependência da economia americana também cria condições favoráveis para um corte de juros. Essa proximidade dos Estados Unidos, na avaliação dos profissionais, deverá potencializar os efeitos da retração da atividade global sobre o país e, portanto, amplia a tolerância para que o país opere abaixo da taxa de juro neutra, sem riscos para a inflação.

A Colômbia, onde a meta de inflação é idêntica à mexicana e chilena, a inflação anualizada está em 3,4%, mais perto do alvo perseguido pelo BC. Mas a situação fiscal, observa Vieira da Cunha, ameniza os perigos inflacionários provocados por um eventual corte de juros. Já o Peru tem uma situação mais parecida com a brasileira, com a demanda doméstica inflando os preços e a inflação já acima alimentando os índices de preço

04/09/2011 - 11:03h ‘O BC está apostando firmemente em um cenário de colapso’

Ex-diretor do BC, evita afirmar que houve interferência política na decisão da autoridade monetária de cortar juros
04 de setembro de 2011

Helvio Romero/AE
Engano. Para economia, BC pode rever rumo dos juros - Helvio Romero/AE
Engano. Para economia, BC pode rever rumo dos juros


Leandro Modé – O Estado de S.Paulo

ENTREVISTA Alexandre Schwartsman, economista

O ex-diretor do Banco Central (BC) Alexandre Schwartsman, que há até poucos meses era economista-chefe do banco Santander, é um dos mais ferrenhos críticos da política econômica implementada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. Obviamente, ele não ficou satisfeito com a inesperada decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de reduzir a taxa básica de juros (Selic) de 12,50% para 12% ao ano.

Ainda assim, o economista evita afirmar que houve interferência política na decisão. Para Schwartsman, o BC está “apostando firmemente em um cenário de colapso”. “Dito isso, o fato é que o Banco Central colocou em risco sua credibilidade e a manutenção do sistema de metas.” A seguir, os principais trechos da entrevista:

A decisão do Copom surpreendeu? O Banco Central errou?

Surpreendeu a mim e a todo mundo. Mesmo os que esperavam algum corte no juro não acreditavam que viria tão cedo e nessa magnitude. Os poucos que estavam nessa linha previam 0,25 ponto. A decisão foi errada? O que posso dizer é que só se mostrará certa se o futuro for exatamente aquele que o BC está imaginando. O único cenário que me parece consistente com essa decisão – que deve incluir outros cortes além deste de 0,50 ponto – é o de um colapso da economia global nos próximos meses.

Semelhante ao de 2008?

Sim, uma reprise de 2008. Isso faria com que um corte preventivo de juros se justificasse. Em 2008, a inflação também vinha alta – embora não como hoje. Mas aquela forte queda da produção no mundo tirou as pressões inflacionárias da economia brasileira. Por isso, houve espaço para cortar o juro e entregar a inflação na meta. Esse é o cenário de colapso. Mas todos os outros não são assim. O crescimento está muito baixo nos EUA, no Japão e na Europa e vai ficar assim por um bom tempo. Mas consideremos também a hipótese de que nenhum banco quebre. O que ocorre nesse cenário? O nosso crescimento desacelera, mas não em um ritmo que se mostre capaz de fazer a inflação convergir para a meta em 2012. Ou seja, o que fará o BC em um cenário no qual a catástrofe não se materializa? Vai continuar cortando o juro? O BC corre o risco de chegar ao final deste ano ou ao início do próximo e se ver obrigado a mudar o rumo.

De que horizonte estamos falando?

É algo de meses, até o fim do ano. A imagem que me vem à mente é a de uma pessoa que espera que um incêndio atingirá sua casa. Essa pessoa cerca a casa de água. E se o incêndio não vem? A pessoa vai ter de secar tudo. A alternativa que, na minha avaliação, poderia ter sido adotada é não fazer nada de imediato e alertar o pessoal que, se a coisa ficar feia, eu vou cortar juros. Aí espero. Se a casa realmente pegar fogo, encharco a casa. Se não pegar, não faço nada.

No mercado financeiro, investidores traçam seus cenários e agem de acordo com ele. Alguém pode imaginar uma conjuntura de crise aguda e se posicionar no mercado de acordo com essa avaliação. Mas um banco central pode fazer isso?

Essa é uma boa pergunta. Tenho a impressão de que não. A estratégia que um BC deve seguir é a de não-arrependimento. É o que expliquei antes. Há duas alternativas. Agir e correr o risco de ter de mudar o rumo ou esperar mais para ver o que acontece. Me parece que a segunda alternativa traz menos arrependimento. Eu teria ido por esse segundo caminho. Avisaria que, se a coisa ficasse feia, eu cortaria o juro.

Se o cenário negativo do BC não se concretizar, há risco de a inflação estourar o teto da meta em 2012?

Há. Mas é preciso frisar que o cenário mais provável, hoje, é de não rompimento do teto da meta. Vai ficar ali perto, mas sem romper. Se realmente não houver uma crise como a que espera, o BC terá perdido a chance de cumprir a meta em 2012 e, talvez, em 2013. O dano é a credibilidade do BC.

Assumindo que a aposta do BC se mostre errada, ainda assim, o cenário mais provável, como o sr. disse, é de a inflação não superar o teto da meta em 2012. Não há, então, uma crítica exagerada ao BC?

A questão não é estourar o teto da meta. A propósito, estourar a meta, a gente já estourou. A meta de inflação não é até 6,5%. É 4,5%. Estamos perdendo essa meta por quase dois pontos porcentuais neste ano. A inflação desviou em 2010, desviará em 2011 e, quem sabe, também em 2012 e não tem problema? E, quando falo em desviar, me refiro a estar persistentemente acima do centro da meta. Que diabo de regime de metas é esse? Isso é grave. O intervalo existe para acomodar choques inesperados. Não houve choque que justificasse o estouro da meta este ano. Não estou dizendo que haverá hiperinflação, mas cadê a institucionalidade do sistema?

A decisão do BC foi fruto de erro técnico ou influência política do Executivo?

Me inclino a pensar que o BC tomou uma decisão que, no caso, coincidia com o que seria a pressão política. Se houver mesmo uma piora da crise, eles serão heróis. Só que não é assim que a gente avalia. Para mim, o correto é a estratégia de mínimo arrependimento. Eles não a escolheram e acho um equívoco. Se errarem agora, será difícil voltar.

E influência política?

Vai saber. É até curioso, porque o ministro Guido Mantega (Fazenda) sempre diz a mesma coisa: o Copom faz o que quiser, mas eu acho que…. Sempre acontece. É esse o ministro da Fazenda que temos, não é outro. Posso até falar da minha experiência e de amigos no BC. O objetivo era tomar uma decisão que não fosse afetada nem de um lado nem de outro por esse tipo de coisa. A ideia era esquecer o que viesse de fora para tomar a decisão mais objetiva possível. Tem de manter o sangue frio nessa hora. Nunca tomamos decisão para mostrar que ninguém mandava na gente. E acho que isso continua valendo. O pessoal que está no Banco Central tem de estar suficientemente treinado para deixar entrar por um ouvido e sair pelo outro as pressões que chegam pelos jornais.