Efeitos da redução da Selic ainda são tímidos
Por Lucinda Pinto, Conrado Mazzoni, Fernando Travaglini e Flavia Lima | VALOR
De São Paulo
Na próxima semana completa-se um ano da já famosa reunião de 31 agosto de 2011, quando o Banco Central iniciou o atual ciclo de corte de juros com uma redução de 0,5 da Selic, surpreendendo quase todo o mercado. O primeiro efeito esperado, de evitar uma depressão da economia brasileira em meio ao agravamento da crise na Europa foi atingido e o BC ganhou pontos de credibilidade por ter acertado em cheio no diagnóstico.
Até agora, no entanto, a aceleração da atividade não veio. O que se vê é uma resposta ainda tímida, restrita ao consumo. Para a indústria, a resposta é pouco efetiva e, quando existe, está mais relacionada a desonerações tributárias. No primeiro trimestre do ano, a economia brasileira cresceu 0,2% em relação aos últimos três meses de 2011. Nessa base de comparação, enquanto o consumo das famílias e do governo cresceu 2,5% e 3,4%, respectivamente, o investimento em máquinas e equipamentos caiu 2,1%. E a expectativa é que tenha apresentado expansão entre 0,4% e 0,5% no segundo trimestre, mesmo com o governo alardeando que o PIB reagiria.
Maurício Molan, economista-chefe do Santander, pondera que o atual ciclo de queda de juros só se tornou de fato um afrouxamento no começo deste ano. Entre agosto e dezembro, o BC reduziu 1,5 ponto percentual, mas o juro real ainda se mantinha acima de 5%, próximo, portanto, da média dos últimos três anos. Somente em abril, o juro real veio para a casa dos 3%. “Houve uma defasagem maior para a resposta da política monetária, que só passou a ser expansionistas no começo deste ano”, diz Molan.

Para o ex-diretor do BC e estrategista da Tandem Global Partners, Paulo Vieira da Cunha, o presidente do BC, Alexandre Tombini, tem razão ao prever um crescimento anualizado de 4% no quarto trimestre, mas teme uma desaceleração do PIB à frente. “Meu medo é que, quando isso acontecer, o governo resolver dar ainda mais estímulos.”
Essa é uma das críticas mais fortes que decorreram da decisão de agosto de 2011, a de que o BC passou a priorizar o crescimento em detrimento de um controle estrito da inflação. A avaliação é de que o BC passou a trabalhar com um objetivo de inflação mais ousado, perto de 6%. “É uma mudança não assumida, mas percebida, de que o limite para a inflação passou a ser 6%”, diz Vieira da Cunha.
“Estamos diante de um Banco Central que não está disposto a sacrificar crescimento desde que você tenha inflação dentro das bandas. Foi isso o que aprendemos ao longo de todos esses meses”, afirma Marcelo Salomon, economista-chefe para o Brasil do Barclays.
Salomon projeta inflação de 5% em 2012 e de 5,9% em 2013. “Então, não é um cenário de convergência de volta para as metas, mas é um cenário em que o BC não está disposto a sacrificar crescimento – mantendo a possibilidade de promover uma retomada mais incisiva o mais rápido possível – desde que você não comprometa o teto da meta porque o mundo ainda está muito incerto”, afirma.
Alexandre Schwartsman, ex-diretor de assuntos internacionais do BC acredita que o objetivo de inflação de até 6,5%. E isso explica o fato de as projeções estarem tão distantes do centro da meta, de 4,5% – as projeções para o IPCA se situam em 5,12% para este ano e em 5,5% para 2013.
Mesmo com a maior leniência com os preços, os benefícios da queda dos juros não foram percebidos claramente na atividade por causa de um diagnóstico errado, acredita Schwartsman. “A economia não está indo bem porque o BC tenta adotar a mesma receita de 2008 agora, sendo que as condições são completamente diferentes”, afirma.
Schwartsman diz que, há quatro anos, a economia tinha um grau de ociosidade importante, tanto no emprego quanto na produção e no crédito, que explica a resposta rápida obtida com as medidas de estímulo adotadas naquele momento. “Agora, com o país em pleno emprego, o conjunto de política econômica parece não funcionar.”
O economista Winston Fritsch, um dos integrantes do time que criou o Plano Real (1993-1994), não vê o BC mirando o ritmo de atividade da economia em detrimento do nível geral de preços. Para ele, o Copom “ganhou” do mercado ao notar antes dos agentes econômicos uma oportunidade única de reduzir a taxa básica de juro da economia brasileira, e estabelecer um novo padrão. “Eu acho que o BC não abandonou a meta de inflação. O impacto de contração da atividade foi muito rápido. Um choque de esfriamento que criou espaço para reduzir os juros sem contrapor a meta.”
Fritsch pondera, no entanto, que a condição propícia à flexibilização do juro não é eterna e o ritmo de corte da taxa Selic, que foi reduzida até agora em 4,5 pontos percentuais, 8% ao ano, tende a ficar mais contido nos próximos meses. “Chegamos a um ponto para testar e ver o que acontece. Ninguém pode dizer que o BC está fora da meta.”
A expectativa para a próxima reunião do Copom, que ocorre na semana que vem, é de novo corte de 0,5 ponto, seguida por nova redução em outubro, talvez de menor magnitude, especula o mercado. A partir daí, os especialistas se dividem entre uma estabilidade ao longo de 2013 ou uma leve alta dos juros. Todos estão de olho no atual repique inflacionário, fruto da alta dos preços das commodities (especialmente alimentos) no exterior e no aquecimento da economia doméstica.
De toda forma, há um novo equilíbrio macroeconômico defendido pelo BC: juro real baixo com câmbio depreciado. Para que isso se torne uma mudança estrutural, é necessário que se mantenha o atual rigor fiscal, além de depender ainda do desempenho da economia internacional, avalia David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch para o Brasil.
“O mix da política monetária de fato mudou e a depreciação da moeda brasileira é permanente. Mas a âncora desse novo modelo é a manutenção de um rigor fiscal razoável”, diz Beker.
Mesmo com o alívio provocado pela queda do juro básico no perfil da dívida pública brasileira, as estimativas para o superávit primário estão menores do que o resultado consolidado no ano passado. As projeções indicam 2,8% para este ano e para 2013. Em 2011, o superávit primário foi de 3,11%.
No ambiente externo, Beker acredita que o cenário de baixo crescimento e juros próximos de zero se manterá por dois ou três anos, o que deve permitir que se mantenha a taxa de juro real brasileira em patamares historicamente baixos. “Ainda é cedo para dizer se a mudança no patamar da Selic é estrutural, mas mesmo que seja apenas conjuntural não necessariamente será de curto prazo”.
Passado um ano das turbulências entre o mercado e o BC, os especialistas hoje já se acostumaram com a nova função de reação da autoridade monetária e sabem ler melhor os sinais dessa nova autoridade monetária. Antes, o BC não reduziria os juros quando a projeção de inflação se mostrava acima da meta. Hoje, a expectativa está acima de 5% e o BC continua cortando a Selic, lembra Molan, do Santander.
Outra mudança está no câmbio. Analistas que antes olhavam os fundamentos econômico como o preço das commodities e o movimento do dólar no mercado externo para estimar o valor da moeda americana no Brasil, estão mais atentos agora aos discursos do governo, seja via Ministério da Fazenda, seja via BC.
Mas condições para o processo de ajuste das taxas de juros para padrões internacionais não estão dadas, na opinião de Vieira da Cunha, uma vez que o peso do governo no sistema financeiro só faz crescer e o ajuste fiscal está focado na arrecadação, e não no gasto. E isso ajuda a explicar o resultado prático ainda limitado dessa medida. “Por enquanto, estamos pagando para ver.”
BC não mudará sua estratégia
Por Cristiano Romero | VALOR
De Brasília
A intervenção do Banco Central (BC) no mercado de câmbio, depois de 35 pregões de ausência, consagra a percepção de que o regime de câmbio flutuante, pelo menos por ora, deixou de existir. Com a atuação de terça-feira, o BC avisou que não pretende deixar a cotação do dólar americano cair abaixo de R$ 2, assim como já deu a entender que não aceitará que vá acima de R$ 2,10.
A preocupação do BC é sustentar um novo equilíbrio para a economia brasileira, em que as taxas de juros são menores e o câmbio, menos apreciado. Trata-se de um equilíbrio diferente do dos últimos anos, que combinava juros altos com real valorizado. O objetivo do novo equilíbrio é estimular a indústria nacional, estagnada há dois anos.
A determinação do BC em defender uma determinada taxa de câmbio se mostra de forma ainda mais clara quando se observa que o país assiste ao repique da inflação, provocado por um choque de oferta no setor de alimentos. Câmbio desvalorizado, como se sabe, pode alimentar a inflação.
Em março, quando o ambiente internacional se deteriorou e por consequência houve um aumento da aversão dos investidores a risco, o fluxo de dólares se tornou negativo, pressionando para cima as cotações do dólar. Ato contínuo, o BC deixou o real perder valor para a moeda americana.
O objetivo foi tirar o dólar da cotação de R$ 1,70 e levá-la a outro patamar – na ocasião, para algo em torno de R$ 1,90. O processo continuou em abril e, apenas no fim daquele mês, a autoridade monetária procurou estabelecer alguma “âncora” para a moeda, que em meados de maio já estava em novo patamar – R$ 2.
A desvalorização do real foi, até então, a mais acentuada entre as moedas de países exportadores de commodities e de economias emergentes. A partir de maio, o BC procurou atrelar o câmbio comercial ao dólar index, indicador que mede a variação da moeda americana em relação a uma cesta de moedas. Segundo o Valor Data, em meados de junho houve um descolamento entre os dois indicadores e, apenas no início do mês seguinte, o real voltou a variar em linha com o dólar index.
Lá pelo dia 20 de julho, dólar comercial e dólar index acumulavam a mesma variação em relação a 30 de abril, quando houve o “casamento”. Depois disso, o dólar comercial andou acima do dólar index, mas sempre com uma forte correlação. Em tempo: ao seguir o dólar index, a taxa de câmbio deixa de refletir os fundamentos da economia brasileira.
Analistas acreditam que, com o aumento da inflação nos próximos meses, a tendência do BC será abandonar essa política e permitir a apreciação do real. Faria isso para conter os preços via dólar mais barato, preservando o espaço para continuar reduzindo a taxa básica (Selic), uma vez que a inflação estaria sob controle. O BC vem desmentindo essa possibilidade com suas ações e comunicados.
É mais provável ver o BC exercitando sua já habitual tolerância com uma inflação mais alta. Argumentos para isso não faltarão e o primeiro deles já está dado: o mundo, por causa de um grave problema climático nos Estados Unidos, está ficando novamente inflacionário. Ademais, BC e governo não consideram alta uma inflação em torno de 5,5%. Um IPCA de 5,5% em 2013 é justamente o que espera a maioria dos agentes de mercado, segundo o boletim Focus. Para 2102, por causa do choque de oferta, o mercado tem revisado para cima as projeções e já prevê 5,15% – nos 12 meses acumulados até julho, estava em 4,9%.
Ainda há no mercado a ideia de que a atual diretoria do BC age de acordo com a tradição firmada entre 1999 e 2010, durante a implantação do regime de metas para inflação. Por essa crença, o BC não reduz juros quando as expectativas de inflação superam a meta oficial; deixa o câmbio apreciar ou depreciar como consequência dos termos de troca da economia; atua no mercado para evitar repentinas e acentuadas desvalorizações da moeda; não coordena seus objetivos com o Ministério da Fazenda.
O BC mudou. Começando pelo fim, a atual diretoria não só coordena suas políticas como compartilha com a Fazenda diagnósticos e visões sobre a economia; tolera desvalorizações da moeda a partir da crença de que o real valorizado prejudica a competitividade da indústria; não tem apego à ideia de que é natural o real andar de mãos dadas com moedas de países exportadores de commodities, como Canadá e Austrália; dá um peso menor às expectativas dos agentes ao definir a política de combate à inflação.
O que há em comum entre os BCs dos dois momentos é a crença de que o governo precisa entregar uma meta cheia de superávit primário, como elemento auxiliar ao controle da demanda. Isso não mudou. Um exemplo de como o atual BC difere dos anteriores foi a participação do presidente da instituição, Alexandre Tombini, na reunião com a Anfavea que decidiu pela diminuição do IPI para estimular a venda de automóveis. É cedo para dizer se o “novo BC” está certo ou errado. O que já dá para afirmar é que ele é diferente.
Um funcionário graduado do BC justificou desta forma a adoção de uma política fiscal, monetária e cambial menos restritiva para ajudar o setor: “A gente sabe que investimento funciona se tiver perto da capacidade. Com os pátios das indústrias cheios, não tem investimento. Então, temos que cuidar um pouco desse curto prazo para a bola continuar em movimento. Então, é essa a lógica de preservar os investimentos em setores que puxam a economia”.