10/07/2012 - 10:29h Solução da crise nem em 20 anos

Por Wolfgang Münchau – VALOR

Eu fiquei imaginando: quem compra ativos de risco depois de uma dessas “históricas” declarações do Conselho Europeu. Às vezes a alta dura algumas horas, outras vezes, apenas dias. A mais recente terminou em menos de uma semana; os spreads italianos e espanhóis já estão acima dos níveis pré-cúpula.

O consenso entre os observadores era de que a União Europeia (UE) tinha dado um importante passo na direção certa, adotando um caminho para a união bancária, mas que não havia feito o suficiente quanto à resolução de crises. Discordo dessa afirmação. Acredito ter sido um passo muito grande – na direção errada. A cúpula fez com que a solução concreta para a crise dependesse de uma decisão futura, que será ainda mais difícil de tomar e, portanto, ainda mais improvável.

Foi acordado que não haverá uma recapitalização bancária coletiva até que seja estabelecida uma união bancária completa, e o Bundesbank nos lembrou que isso não é possível sem uma união política. A conclusão lógica é que não vamos resolver a crise em menos de 20 anos.

Um grupo de 160 economistas, liderado por Hans-Werner Sinn, presidente do instituto econômico Ifo, publicou um manifesto contra uma união bancária. O documento veio recheado de som e fúria, mas o mais importante é que reflete uma visão consensual

O que sabemos agora é que a Alemanha não concordará com um seguro coletivo sobre depósitos. Os alemães sequer concordam em dar ao Mecanismo de Estabilidade Europeu uma “licença bancária” para que possa alavancar-se. Se a Alemanha não pode fazer o mínimo necessário agora, por que alguém imaginaria que poderá aceitar uma união política? Mais fácil é acreditar na promessa de um alcoólatra de que deixará de beber daqui a cinco anos.

A política de socorro ao euro cruzou um importante limiar na Alemanha. Uma pequena maioria ainda é favorável ao euro, mas a maioria é contrária a novos socorros. Um grupo de 160 economistas, liderado por Hans-Werner Sinn, presidente do instituto econômico Ifo, publicou na semana passada um manifesto contra uma união bancária. O documento veio recheado de som e fúria, mas o mais importante é que reflete uma visão consensual.

A resposta de Angela Merkel foi reveladora. Ela disse não haver nenhum motivo para preocupações. A união bancária diz respeito a supervisão coletiva, disse ela. Não haverá seguro conjunto de depósitos. Ela tem um entendimento muito distinto do Banco Central Europeu (BCE) sobre o que significa uma união bancária. Acredito que essa nova união bancária cubra os 25 maiores bancos e deixará as “cajas” e os “Landesbanken” sob controles nacionais. É como um alcoólatra prometendo doravante beber apenas os melhores conhaques.

A união bancária necessária é aquela que a Alemanha não aceitará: regulamentação e supervisão centralizadas, um fundo comum para reestruturação e seguro de depósitos. Isso levaria anos para ser criado. Se conduzido apropriadamente, isso exigiria uma mudança das constituições nacionais e de tratados europeus, ao menos para redefinir o papel do BCE. É loucura total sujeitar a solução da crise ao êxito do que seria o maior exercício de integração europeia na história.

Com as taxas de juro dos títulos de 10 anos acima de 6%, tanto a Itália como a Espanha poderão sustentar sua participação na zona do euro. Isso é o que Mario Monti e Mariano Rajoy deveriam ter deixado claro a Merkel durante a cúpula. Eles deveriam ter dito a ela que seus governos irão se preparar para saírem da zona do euro caso não haja mudança na política. Uma solução exige eurotítulos – ou alguma outra forma de mutualização da dívida – tanto do setor público como do setor privado, e compras de títulos pelo BCE. A Alemanha não aceita a primeira condição. O BCE não aceita a segunda.

Se algo não é sustentável nem autocorretivo, sobram apenas dois cursos de ação. A primeira é esperar pacientemente até que ocorra uma ruptura na situação. Essa é a estratégia seguida pelo Conselho Europeu e por alcoólatras. A alternativa é começar a fazer os preparativos – e tomar cuidado para não provocar uma ruptura nesse processo. É difícil imaginar uma saída sem desrespeitar centenas de leis nacionais e europeias. É por essa razão que ninguém está fazendo isso. (O país que o fizesse) precisaria alegar “força maior” em sua defesa. Levou uma década para que o euro fosse criado. Será preciso mais do que um fim de semana prolongado para destruí-lo. Um colapso se constituiria no maior choque econômico de nossa época. Mas, entre uma lista de opções de ruptura, algumas são melhores que outras. Escreverei sobre isso em uma coluna futura.

Em novembro, escrevi que o Conselho Europeu tinha dez dias para salvar o euro. Se naquele momento tivessem lançado as bases para uma união bancária e fiscal, poderiam estar agora em condições de obter um consenso em torno de uma estratégia eficaz para solução da crise baseada em recapitalização dos bancos e compras de títulos. Não o fizeram naquele momento. E não estão em condição de solucionar a crise agora.

Para mim, a mensagem da cúpula é de que a zona euro não solucionará a crise. Nesse sentido, foi, de fato, uma reunião “histórica”. (Tradução de Sergio Blum).

Wolfgang Münchau é editor do FT, especialista em União Europeia.

23/09/2011 - 10:03h Dívidas soberanas colocam zona do euro perto de uma crise bancária

VALOR

Sem ter resolvido a crise da dívida soberana, a Europa está agora mais perto de uma crise bancária. Diante de mais um dia de fortes perdas nos mercados acionários e de commodities e de instabilidade no mercado de moedas, autoridades europeias ultimavam planos de recapitalização de 16 bancos quase reprovados em um teste de resistência recente, informou o “Financial Times”. No ano até o fim de agosto, segundo o Fundo Monetário Internacional, a perda de valor dos bancos europeus atingiu €400 bilhões, um recuo de 40%. E sua situação só piorou em setembro.

O socorro envolve principalmente bancos de porte médio – sete espanhóis, dois alemães, dois gregos, dois portugueses, um da Itália, um de Chipre e um da Eslovênia. O problema não se restringe a eles, porém. Os mercados castigaram duramente os bancos franceses, com alta exposição às dívidas soberanas e que têm perdido fontes de financiamento em dólares garantidas por fundos de investimentos americanos.

A informação de que o BNP Paribas, maior banco da França, procura obter US$ 2,7 bilhões junto a investidores do Oriente Médio elevou as inquietações. “Se fosse preciso confirmação de que estamos no meio de uma segunda crise bancária, ela veio com essa notícia”, escreveu Michael Symonds, do Daiwa Capital, em nota a clientes. O banco negou a operação, mas seus papéis caíram 5,7% ontem. Seu concorrente, Société Générale, perdeu 9,6%. Sinal da desconfiança generalizada, até alguns bancos austríacos viram suas ações perder 10% só ontem.

Segundo o Relatório de Estabilidade Financeira Global do FMI, quase metade dos €6,5 trilhões de títulos de governo da zona do euro apresentam riscos de crédito crescentes. FMI e governos europeus apontam para o fundo de estabilização europeia como fonte possível de recursos para capitalizações diretas das instituições financeiras. A cambaleante situação dos bancos aponta para novo aperto da oferta de crédito, no momento em que os indicadores da zona do euro mostram uma recessão a caminho. Dados divulgados ontem revelaram que a atividade empresarial da região teve sua primeira contração em dois anos.

O anúncio da “Operação Twist” pelo Federal Reserve, com o argumento de que há “riscos significativos” para a economia americana, deixou os mercados alarmados e as incertezas só pioraram com indicadores registrando recuo da produção chinesa pelo terceiro mês consecutivo, algo só visto na crise financeira de 2008.

Em mais uma jornada durante a qual predominou a aversão ao risco, os mercados derrubaram commodities agrícolas e industriais em grande escala e correram para os títulos do Tesouro americano de dez anos, cujo rendimento caiu a 1,6961%, o menor desde 1946.

Dados sugerem que Europa está perto de nova recessão

Por Agências internacionais

A Europa está cada vez mais perto de cair em uma nova recessão. É o que indicam uma nova série de indicadores econômicos divulgados ontem. O índice de gerentes de compras (PMI) composto deste mês para a zona do euro mostrou contração da economia, algo que não acontecia desde julho de 2009.

A empresa de análises Markit informou que o dado preliminares do PMI composto – um indicador amplo das atividades do setor privado, combinando dados dos setores de serviços e da indústria – caiu de 50,7, em agosto, para 49,2 em setembro (qualquer número abaixo de 50 indicam contração da atividade).

Os dados indicam que o setor privado da Europa está encolhendo, num momento em que os governos de muitos países cortam gastos num esforço para reduzir o déficit público. A pesquisa da Markit sugere que a desaceleração verificada no segundo trimestre prosseguiu no terceiro. Para agravar ainda mais o cenário, o índice de novas encomendas, um indicador de atividade futura, aponta para mais fraqueza da economia nos últimos três meses do ano.

“Com a presente austeridade fiscal e os líderes políticos ainda bastante atrasados em termos de resolução da crise da dívida, não podemos descartar o risco de uma recessão completa”, afirmou Martin van Vliet, economista do ING em Amsterdã.

James Ashley, economista-sênior para a Europa na RBC Capital Markets, disse que os dados indicam “uma freada concreta e perturbadora no nível de atividade subjacente” da zona do euro. Para Ashley, o bloco econômico ainda deve apresentar expansão entre julho e setembro, mas o panorama para o último trimestre de 2011 está “pendendo pesadamente para baixo” e uma recessão é possível.

O Banco Central Europeu (BCE) cortou neste mês a previsão de crescimento para este ano e atenuou o discurso sobre a ameaça representada pela inflação, sugerindo que não dará prosseguimento aos dois aumentos de 0,25% na taxa de juros estabelecidos desde abril – atualmente está em 1,5%. Segundo Ashley, os sinais de que a economia está perdendo velocidade podem levar o BCE a adotar novas políticas heterodoxas de estímulo ou até mesmo a reduzir os juros. “Não creio que vá ser preciso muito mais para que eles decidam pelos cortes nas taxas de juros.”

A Eurostat, a agência europeia de estatísticas, informou que as encomendas à indústria caíram 2,1% em julho, na comparação com o mês anterior. É a maior queda desde setembro de 2010.

Outro resultado decepcionante divulgado ontem foi o índice de confiança do consumidor, elaborado pela Comissão Europeia. O índice de setembro, para os 17 países da zona do euro, caiu de -16,5 para -18,5, o nível mais baixo em dois anos.

23/09/2011 - 09:24h BCE admite temer por futuro da zona do euro

23 de setembro de 2011

PARIS – O Estado de S.Paulo

O maior guardião do euro, a moeda única de 17 países da União Europeia, já admite que a divisa corre o risco de implodir em razão da crise das dívidas soberanas que abala os mercados. Um relatório interno da instituição revelado ontem indica que os desequilíbrios fiscais entre os países-membros do bloco são tamanhos que ameaçam não apenas a unidade monetária, mas a própria existência do mercado que reúne 27 países do continente.

O documento veio a público ontem e ajudou a afundar a confiança dos investidores nos mercados financeiros. Que a ameaça paira sobre o bloco, ninguém duvidava, mas até aqui toda a cúpula do BCE, a começar pelo presidente da instituição, Jean-Claude Trichet, negava a possibilidade desintegração. O relatório tem coautoria de Jürgen Stark, economista-chefe da autoridade monetária que se demitiu há duas semanas por divergência sobre o rumo da política do banco.

“Os desequilíbrios fiscais na zona do euro como um todo e a situação grave em certos países-membros analisados individualmente fazem pesar um risco sobre a estabilidade, o crescimento e o emprego, assim como sobre a perenidade da União Econômica e Monetária (UEM) em si”, diz o texto. O documento do BCE sugere que o problema possa ser controlado pela criação de um órgão superior a cada país que fiscalize as políticas orçamentárias nacionais, garantindo maior integração e governança.

A implosão da zona do euro e da própria UE não é tida como provável por analistas. Mas a hipótese já começa a ser cogitada. Ontem, o cientista político Richard Descoings, do Instituto de Estudos Políticos, de Paris, disse ao Estado que a possibilidade precisa ser aventada – até para que seja evitada. “Não creio que a haverá essa desintegração, mas não podemos descartá-la.” / A.N.

05/08/2011 - 09:55h Crise corrói confiança e derruba mercados

Global: Preocupação com futuro da atividade econômica provoca forte queda de ações e commodities

Javier Blas | Financial Times – VALOR

05/08/2011

Temores quanto ao futuro da atividade econômica e custos crescentes provocaram fortes quedas nas ações de companhias mineradoras, petrolíferas e negociantes de commodities. Até mesmo em comparação com a recente crise financeira, a liquidação de ações nas bolsas de valores foi considerável.

Aceleraram a liquidação de ações desta semana o crescente nervosismo diante da crise da dívida na Europa, o risco de um duplo mergulho recessivo nos EUA e a avaliação de que as autoridades econômico-financeiras – incluindo o governo japonês e o Banco Central Europeu (BCE) – não conseguiram sustentar a confiança.

Os papéis mais afetados foram as ações das grandes companhias mundiais que operam com recursos naturais – mineradoras, petrolíferas e companhias que negociam com commodities. Apesar de os preços de muitas das commodities permanecerem próximos de seus picos recentes, os preços das ações correspondentes despencaram, levando as cotações aos níveis mais baixos do ano.

A divergência de preços entre as ações de companhias no setor de commodities e os preços das próprias matérias-primas evoca lembranças de meados de 2008, quando investidores em ações foram mais rápidos na previsão da crise financeira mundial.

Será que os investidores em bolsa acertaram novamente? Se assim for, uma forte desaceleração econômica, ou algo pior, pode estar à espreita. Outros setores, como o de bancos, sofreram agudas quedas em suas ações, devido a preocupações com a exposição à crise da dívida soberana na Europa e o risco de mais empréstimos impagáveis.

A lista de ações de companhias no setor de recursos naturais que despencaram inclui a Xstrata, mineradora negociada em Londres, que caiu 8,5%; a Royal Dutch Shell, maior grupo petrolífero na Europa, que caiu 5,2%; e a brasileira Vale, maior produtora de minério de ferro, que caiu 6,3%.

A Freeport McMoRan, importante mineradora de cobre, viu suas ações caírem 5,9% e as da Archer Daniels Midland, um das maiores negociantes de commodities alimentícias, baixaram 4,5%.

Após duas semanas de pesadas quedas, o índice FTSE All World Mining e os índices FTSE All World Oil and Gas (petróleo e gás) registram alta de apenas 7,6% e 14,6%, respectivamente, em relação ao ano passado. No mesmo período, o índice de referência Reuters-Jefferies CRB, uma cesta de commodities que inclui petróleo, cobre e trigo registra alta de 22,1%.

A Glencore, maior negociante de commodities do mundo, cujas ações passaram a ser negociadas em bolsa numa oferta US$ 60 bilhões em maio, é uma das mais afetadas. Suas ações caíram 17,9%, até agora, nesta semana. Fecharam ontem a 391 pence, ou mais de 26% abaixo do lançamento.

Os investidores em ações parecem muito mais preocupados com a possibilidade de um renovado mergulho em recessão do que os investidores em commodities, segundo executivos do setor.

Investidores dizem que os preços elevados de petróleo e alimentos estão forçando os BCs dos países emergentes a apertar sua política monetária, freando o crescimento econômico na China, na Índia e em outros grandes consumidores de commodities.

05/08/2011 - 08:13h Crise se agrava e UE teme faltar dinheiro

Presidente da Comissão Europeia admite contágio nos países do centro do continente e diz que fundo de 400 bilhões de euros é insuficiente

05 de agosto de 2011

Jamil Chade – O Estado de S.Paulo

CORRESPONDENTE / GENEBRA

O temor de uma nova recessão mundial ganha força em todo o mundo e a Europa admite que a crise da dívida atinge o coração do continente. Ontem, em um dia de pânico, as principais bolsas despencaram, diante de governos incapazes de dar garantias aos mercados e de dados macroeconômicas que revelam que a recuperação da Europa e dos Estados Unidos acabou.

O Banco Central Europeu (BCE) fracassou em blindar Espanha e Itália de um contágio da crise da dívida. Mas o sinal mais claro do mal-estar foi dado pelo próprio presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, admitindo que a turbulência por conta da dívida já deixou a periferia e atinge o centro da UE. Para ele, a crise entra em uma nova dimensão e terá de contar com um fundo de resgate com maior poder de fogo – ou seja, mais dinheiro.

Parte do nervosismo nos mercados foi causado pelos piores resultados da economia europeia em dois anos. Nos últimos dias, empresas de diversos setores ainda revelaram queda de vendas e bancos anunciaram demissões. Ontem, o índice Markit, que mede o setor de serviços no continente, revelou que esse segmento da economia está estagnado e que a recuperação acabou. “A economia da zona do euro entrou em um terreno de estagnação”, afirmou Rob Dobson, economista da Markit, em declarações ao Estado.

Migração. Outro fator que pesou foi a constatação da UE de que a crise da dívida já deixou a periferia e hoje afeta o centro do bloco. Em uma carta aos líderes dos 27 países da UE, Barroso alertou que o problema já não está na Grécia, Portugal e Irlanda. Segundo ele, a crise está comendo o coração da zona do euro, com Espanha e Itália afetadas. Para o Barroso, a zona do euro está ameaçada por uma “falência sistêmica” e que “está claro que não administramos uma crise apenas na periferia”.

Seu apelo é para que a UE repense a forma de resgatar países e que o fundo que criou no ano passado com 440 bilhões seja fortalecido para um eventual resgate à Itália e Espanha, a terceira e quarta maiores economias da região. Já se especula que o fundo precisará de 1 trilhão a 2 trilhões para garantir a sobrevivência do bloco.

Dos 440 bilhões inicialmente acordados, 43 bilhões já foram reservados para Irlanda e Portugal, além de 70 bilhões para a Grécia. Para Barroso, não há dúvidas de que o fundo de resgate criado pela UE nem de perto seria suficiente para socorrer Espanha ou Itália, caso seja necessário. “Precisamos estar equipados com os meios para lidar com os riscos de contágio.”

Barroso ainda criticou a falta de coordenação dos países europeus em torno de uma solução, alertando para a “indisciplina” na comunicação e no fato de não terem completado o trabalho.

Fracasso. Em outra demonstração da gravidade da crise, o BCE fracassou em acalmar os mercados e apenas reforçou o sentimento de que uma crise ainda maior está prestes a eclodir. A instituição garantiu que continuaria comprando papéis da dívida de países em crise, em um sinal de que atuaria para ajudar Espanha e Itália. O BCE ainda manteve as taxas de juros inalteradas. “Vocês verão como vamos atuar. Não me surpreenderia se notássemos algo nos mercados antes dessa conferência de imprensa”, disse Jean-Claude Trichet, presidente do banco.

De fato, sua declaração gerou um alívio no mercado, já que a ação do BCE é considerada como a única medida real para frear um calote no continente. Mas a calma não chegou a completar dez minutos e Itália e Espanha voltaram a ser alvo do mercado. Nem o anúncio da reinstalação de medidas extraordinárias de liquidez foram suficientes. Na realidade, a medida foi interpretada como uma prova de que a crise é inevitável.

O risco país da Espanha e da Itália voltou a aumentar, chegando perto do recorde. Para analistas, a reação do mercado escancarou o fato de que o BCE não tem poder de fogo para socorrer esses países. Na Itália, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi também não conseguiu convencer os mercados. Ontem, prometeu um pacto para promover o crescimento do país a partir de setembro, mas não deu indicação do que poderia ser.

PONTOS DE TENSÃO

Crise da dívida
Recente escalada da crise da dívida soberana na zona atingiu em cheio os mercados pelo temor de que piore as expectativas de crescimento da economia mundial

Indicadores
Parte do nervosismo nos mercados foi causado pelos piores resultados dos indicadores econômicos em dois anos.

Fundos
O fundo europeu de ajuda criado para salvar os países em crise de 400 bilhões de euros é insuficiente se for preciso resgatar Itália e Espanha. Já se fala que precisaria ser entre 1 trilhão de euros e 2 trilhões de euros

17/06/2011 - 11:04h Europa: Bancos e governos temem contágio generalizado

Jamil Chade – O Estado de S.Paulo

Bancos e governos europeus foram tomados por mais um terremoto ontem diante da crise na Grécia e do contágio que já se demonstra cada vez mais claro. Na França, a bolsa chegou a perder 1,5%, a Alemanha registrou queda de 1,2%. Mas parte da queda foi recuperada ao final do dia. Até a Bovespa registrou queda, 1,17%

Mas é o contágio europeu que assusta. O risco de segurar 10 milhões em dívida da Grécia atingiu 2,8 milhões, um recorde. Ontem, mesmo diante do resgate temporário, a crise ultrapassou fronteiras, com investidores abandonando os papéis da Europa periférica e trocando por dívida alemã.

A falta de uma resposta da UE a longo prazo fez com que o seguro para a dívida da Espanha atingisse a maior alta em dez anos. O governo de Madri insiste que vai continuar no caminho das reformas. O risco-país de Portugal, disparou para novos recordes.

Ontem, também os bancos alemães e franceses, muitos expostos na Grécia, sofreram duras perdas. No total, os bancos franceses tem um capital de US$ 56 bilhões na Grécia e os alemães, US$ 34 bilhões. Só o Crédit Agricole está exposto em mais de US$ 21 bilhões em Atenas.

O banco Dexia chegou a perder 10% ontem. O português BCP perdeu 8% nos últimos dois dias, o Crédit Agricole, BNP Paribas e Société Générale perderam 4%. O índice geral dos bancos europeus já perdeu 7% no mês.

Para um dos conselheiros do BCE, Nout Wellink, um novo pacote de resgate para a Grécia significará que o fundo da UE para medidas de emergência precisará ser dobrado.

11/01/2011 - 10:00h Entidade europeia apoia controle de capital


Consequências sobre o investimento de curto prazo centralizaram o debate do fórum

Andrei Netto – O Estado de S.Paulo

O Global Economy Meeting (GEM), fórum que reúne os presidentes dos mais importantes bancos centrais do mundo, avaliou como “legítimas” as iniciativas nacionais para controlar o fluxo de capitais que assedia países emergentes, como o Brasil.

A revelação foi feita ontem, em Basileia, na Suíça, pelo porta-voz do fórum e presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet. A declaração é o mais claro sinal de apoio às medidas heterodoxas que tentam reduzir a pressão exercida pela guerra fiscal sobre o câmbio de moedas fortes, como o real.

Os fluxos de capitais e as medidas adotadas por países para controlar a entrada de investimentos de curto prazo – como as elevações da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), feitas em 2010 pelo Ministério da Fazenda – foram os temas predominantes na reunião das autoridades monetárias, iniciada no domingo e encerrada ontem na sede do Banco de Compensações Internacionais (BIS). “O fluxo de capital é uma questão muito importante, em especial no caso das economias emergentes”, afirmou Trichet.

O presidente do BCE disse que o aumento do fluxo está ligado ao rápido nível de crescimento de “determinados países”. “Tanto nas economias avançadas, quanto nas emergentes, um grande fluxo de capital pode ser um problema”, admitiu, destacando as ferramentas que os BCs e os ministros de Finanças dispõem para enfrentar o risco.

Para Trichet, o tema pode exigir medidas macroprudenciais não convencionais, que vão além do ajuste fiscal e controle da inflação. “Em primeiro lugar, é preciso haver solidez das políticas macroeconômicas. Em segundo, pode ser que seja necessário – e nesse caso há certa legitimidade – algum tipo de controle de capital”, afirmou. A seguir, porém, ponderou: “Mas não muito. E a linha até onde se pode aplicar o controle de capital é toda a questão.”

As declarações indicam que a questão em Basileia é encontrar o limite adequado das medidas, para que não haja desequilíbrio das economias que as aplicam, nem prejuízos ao funcionamento do mercado global. Entre as ações que “bloqueiam” excessivamente o capital, um exemplo citado é a “quarentena” dos investimentos de curto prazo – adotada pelo Chile. “Existe uma parafernália desativada de controles no BC que geram distorções enormes, bloqueiam capital em todo lugar e ampliam o risco de se perder o controle da economia. Não se pode criar distorções que prejudiquem o próprio país”, disse um expert inteirado dos debates de Basileia.

Outro desafio dos presidentes de BC é tentar coordenar as iniciativas nacionais. O problema é que a injeção de US$ 600 bilhões na economia dos Estados Unidos, anunciada pelo Federal Reserve (Fed, o BC americano) em outubro, vem desvalorizando sua moeda. Em resposta, a China manipula o câmbio para manter a paridade do yuan em relação ao dólar. A crise europeia, que levanta dúvidas sobre o euro, levando-o à perda de valor, completa o quadro.

Assim, as três maiores economias do mundo empurram a economia global para a “guerra cambial”. “Sobram o Japão, alguns países que não estão no euro, como a Suíça. E isso faz com que os demais países passem a sofrer”, disse o observador.

O problema é agravado pela incapacidade do G-20 de encontrar um denominador comum sobre o tema. No último encontro, em novembro, o tema recebeu tratamento central, mas nenhum acordo internacional sacramentado, lembrou o expert.

Preocupação

JEAN-CLAUDE TRICHET
PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL EUROPEU
“Tanto nas economias avançadas, quanto nas emergentes, um grande fluxo de capital pode ser um problema.”

14/05/2010 - 13:22h O fim de uma Europa

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Gilles Lapouge – O Estado de S.Paulo

A Europa salvou a Europa. Como se decidiu a isso? Ela viu que o incêndio iniciado na Grécia estava prestes a alcançar todo o continente, carbonizando de passagem a maravilha europeia, sua única glória, a moeda comum. E, diante do perigo, a Europa também agiu e derramou sobre as chamas 750 bilhões. Funcionou.

A Europa está salva, mas morta. Pelo menos a Europa tal como existiu desde o início da sua construção, em 9 de maio de 1950, há 60 anos.

Uma longa aventura chegou ao fim nestes dias negros de maio de 2010. O que resta desses 60 anos é uma União falida, Estados em debandada, ressentimentos dos países e das pessoas, nenhuma instituição comunitária legível, um Banco Central Europeu desonrado por sua cegueira e obrigado, a partir de agora, a se submeter aos Estados europeus.

Uma única Europa sobreviveu ao desastre. A Europa dos egoísmos. Cada país trabalhou em causa própria. Mesmo os seus gestos aparentemente generosos, se observarmos bem, o que indicam? O egoísmo nacional.

Exemplo: Alemanha e França, repentinamente unidas quando se viram à beira do precipício, colocaram a “mão no bolso” e deram à Grécia muitos bilhões de euros. Por que essa generosidade tardia? Para salvar a Grécia? Sim, claro, mas sobretudo para salvar os bancos estrangeiros que emprestaram loucamente muito dinheiro para esse país, dinheiro que essas instituições perderiam se os gregos pedissem falência.

Ora, e que bancos são esses que emprestaram para a Grécia e era preciso salvar? Bancos franceses e alemães, exatamente. Em outros termos, o generoso plano de salvamento da Grécia, patrocinado por França e Alemanha, foi também um plano para salvar bancos alemães e franceses.

Uma outra fraqueza da União Europeia: ela jamais teve líderes confiáveis. Durante esta crise, o silêncio dos responsáveis de Bruxelas foi impressionante. O pobre chefe da Comissão Europeia, o português José Manuel Barroso, à sua nulidade habitual acrescentou um outra qualidade: a ausência.

Por seu lado, o novo presidente da Europa, esse belga cujo nome é Herman van Rompuy e cuja figura é impossível de discernir, não disse uma palavra. Do lado do presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, silêncio! Somente os políticos se manifestaram.

Sobretudo Nicolas Sarkozy, que falou a respeito em todos os microfones que via e, pelo menos desta vez, falou bem. Foi ele quem sacudiu toda essa gente entorpecida e obrigou os dorminhocos a abrirem o olho.

Essa crise terá tido, pelo menos, o mérito de soar o alarme e esclarecer as falhas da construção europeia? A constatação mais simples é que foi estúpido impor uma mesma moeda a 16 países que são separados por tudo: força, hábitos, leis, necessidades. Como impor uma mesma moeda a um gigante racional e laborioso como a Alemanha e a um pigmeu irracional e frívolo como a Grécia? Um outro ponto fraco da União Europeia é a sua Constituição (ou seja, o Tratado de Maastricht e o Tratado de Lisboa), um edifício incoerente.

Por exemplo, o Tratado de Maastricht, que estabeleceu a criação do euro, proíbe aos outros países socorrerem um país enfermo. Se essa regra tivesse sido respeitada, Bruxelas assistiria friamente ao naufrágio da Grécia.

Assim, foi violando seus próprios estatutos, que a UE finalmente se resignou a partir em socorro dos gregos.

Mas a responsabilidade da Europa ou da zona do euro é ainda maior: não só o euro não se viu livre de todos os perigos, como foi ele próprio que gerou a enfermidade que quase acabou com a Grécia (e amanhã, talvez, Espanha, Portugal, Irlanda e até França). De que maneira? O euro, ao privar cada país da própria moeda, favoreceu a irresponsabilidade.

Antes, se a economia de um país fosse administrada de maneira absurda, a moeda nacional era atacada. Duas soluções então, eram possíveis: ou a situação era enfrentada com medidas draconianas para salvar essa moeda, ou então os governos procediam a uma desvalorização. Hoje, contudo, com o desaparecimento das moedas, a desvalorização é impossível. Por outro lado, por que um país cuidaria do seu equilíbrio monetário, orçamentário e financeiro já que, de qualquer maneira, não existe mais uma moeda nacional a defender? Foi portanto o euro, e também a UE, que favoreceu esse fabuloso descuido de quase todos os países europeus, exceto a Alemanha.

O pior é que ninguém tinha consciência disso. Foi preciso a crise explodir para descobrirmos a que ponto a existência do euro e também da UE aceleraram o desleixo com as regras contábeis mais elementares.

Hoje sabemos que, tendo como abrigo a vitrine reluzente que é a UE, a Europa tornou-se um “campo de ruínas”.

A Grécia está deteriorada, claro. Mas os outros países não estão em situação muito melhor. Por toda a parte o que se descobre, com espanto, são dívidas monumentais, intoleráveis, déficits orçamentários insanos, estatísticas maquiladas, fraudadas. Compreende-se o mecanismo dessas condutas absurdas: os países se isentaram de qualquer responsabilidade, já que ela era comunitária e não mais nacional. O que o euro produziu foi uma gigantesca máquina de imprimir dinheiro. Invisível e infernal.

Nesse sentido, a crise da Grécia, seguida pela do euro, foi um teste saudável. Obriga os países-membros a abandonarem o terreno do imaginário para entrar no do real. Ontem ainda, antes do colapso da Grécia, os países viviam de créditos. O caso da França é exemplar: surgia uma enfermidade? O dr. Sarkozy chegava imediatamente com sua pequena maleta. Mas, dentro dela, o único remédio era este: empréstimos.

O caso da França não é único. A Inglaterra tem uma dívida vertiginosa. Espanha, Portugal, Itália, todos os países europeus ao abrigo do euro perderam o senso de realidade e se refugiaram numa economia imaginária. E agora a realidade chega a galope. Planos de austeridade ferozes surgem de todos os lados, em Madri, Roma, Londres, Paris, Bucareste.

Como agir de outro modo? Mas o preço será insuportável. Sabemos os efeitos desses planos de rigor: a produção vai estagnar, até recuar, o desemprego deve explodir. Talvez a inflação. E, como na Grécia, a população sairá às ruas.

Nesse sentido, podemos dizer que, 60 anos após seu nascimento, a Europa está morta. Ou melhor, “uma” Europa morreu. A “Europa paternalista”, a velha carroça que soube apenas esmagar os Estados sob uma montanha de regulamentos.

Nada para agradar. Nenhum projeto. Nenhuma exaltação.

É esse o sintoma mais inquietante do “mal europeu”: salvo no seu início – no término do massacre que foi a 2ª Guerra -, a Europa jamais foi o sonho dos povos. E, depois da crise atual, o desencanto é total. A Europa não faz mais ninguém sonhar.

Um jornal holandês propôs que a Holanda saia da zona do euro e crie uma pequena Europa, associando-se com o único país bem administrado do continente, a Suíça. A Alemanha sofreu com o euro mais do que desejava. A Inglaterra, que sempre detestou a moeda única, elegeu um primeiro-ministro eurocético. A França tem problemas demais com Sarkozy.

O tempo urge: se queremos que a crise da Grécia e do euro se limite a matar “uma Europa” e não “a Europa”, é preciso agir rápido. Acabar com os desatinos que essa Europa azeda, burocrática, desconfiada, por tanto tempo nos impingiu. E inventar uma outra Europa, não irresponsável e imaginária, mas realista.

Realista? Sim, ou seja, uma Europa capaz de nos fazer sonhar.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

O AUTOR É CORRESPONDENTE EM PARIS

07/05/2010 - 12:01h Perfidia de tu amor

Celso Ming – O Estado de S.Paulo

O tombo da Bolsa de Nova York ocorrido no meio do pregão de ontem foi histórico. Chegou a perder 998 pontos, ou queda de 9,2%, num único pregão. Depois fechou com uma baixa de 3,2%. O balanço de mortos e feridos ficou para quando der.

A explicação de que um operador cometeu alguma barbeiragem pode até vir a se confirmar. Mas por trás de tudo está mesmo um princípio de pânico. Há uma nova percepção de que ficou alto o risco de calote da dívida por parte de países da área do euro, a começar pela Grécia.

Essa percepção vai sendo reforçada pela impressão de que as autoridades da Europa não estão dando a devida importância à crise. Ontem o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, apenas enrolou quando foi questionado em Lisboa. E a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, entoou em Berlim um velho bolero. Para preencher sua própria perplexidade, denunciou a perfídia dos bancos. “Os especuladores são nossos adversários”, disse ela. “Primeiro os bancos nos pedem ajuda e agora especulam contra a dívida dos governos. Isso é uma perfídia.”

Antes de desfechar esse ataque, Merkel deveria se perguntar por que os Estados soberanos da área do euro se atiraram tão sofregamente à folia fiscal; por que se endividaram até o pescoço junto aos bancos e, agora que se tornaram seus reféns, seus dirigentes saem a criticar esse jogo, que sempre foi assim e que só não é diferente porque nenhum governo até agora achou que tinha de amarrar melhor a regulamentação do mercado financeiro? Quem faz pacto com o diabo acaba entregando a alma e isso a gente sabe desde os tempos do doutor Fausto.

Os bancos não são tão ingratos e tão pérfidos como Angela Merkel está dizendo. Nenhum governo salvou seus bancos em 2008 e 2009 em troca de favores futuros. Socorreu porque a alternativa seria o desastre e colocaria em risco o interesse público. Apesar de toda a irresponsabilidade praticada, os bancos não devem nada nem aos Tesouros nem aos bancos centrais. Eles têm é de ser enquadrados.

Outra incursão incompreensível da chanceler Angela Merkel foi seu ataque às agências de classificação de risco que vêm rebaixando os títulos de dívida dos países da área do euro. Merkel defendeu ontem a proposta de criar uma agência de rating “europeia e independente” para reduzir a dependência das três grandes: Moody”s, Standard & Poor”s e Fitch.

É verdade que essas agências perderam credibilidade por terem classificado como tão boas quanto títulos do Tesouro americano ativos que ao longo desta crise foram considerados lixo tóxico. Mas não são essas agências que estão provocando o colapso financeiro nem da Grécia nem dos demais Piigs europeus. Quem hoje vem passando sinais mais confusos do que elas é o BCE. Na relação com os bancos, vem aceitando os títulos da Grécia como se fossem tão bons quanto os da Alemanha.

Um dos sérios riscos que a economia europeia corre hoje é o de que um calote soberano deteriore as finanças dos bancos porque seus balanços estão pesadamente carregados com títulos de dívida de países da área do euro. Se essa deterioração acontecer, essas acusações de perfídia parecerão ridículas e o BCE poderia vir a ter de recomprar esses títulos com moeda emitida.

Uma operação assim provavelmente seria embalada com um desses eufemismos de ocasião usados para não reconhecer violações graves de regras de boa governança do patrimônio público. Não seria apresentada como se tratasse de um mecanismo clássico de monetização de dívida nem, dito de outra forma, como se fosse cobertura de despesas públicas com emissão de moeda. E, no entanto, seria isso mesmo que estaria sendo feito, com todas as consequências que daí adviriam. Por enquanto, esse é um risco que causa vertigens na Bolsa de Nova York, mas apenas um risco.

28/02/2010 - 15:53h Novo paradigma em marcha?

Amir Khair – O Estado SP

A crise internacional pôs a nu a fragilidade financeira, monetária e fiscal dos países desenvolvidos, que estão sendo obrigados, para estimular o consumo, a operar com taxas de juros reais (excluída a inflação) negativas. A ajuda governamental ao sistema financeiro insolvente criou déficits fiscais e endividamentos públicos sem precedentes.

Os endividamentos elevados vão causar proximamente taxas de juros crescentes, ampliando os já elevados déficits fiscais, que por sua vez ampliarão ainda mais os endividamentos. O elevado nível de desemprego e o endividamento da população reduzem o consumo e os investimentos e isso atinge em cheio a arrecadação pública e amplia a demanda social.

Receitas públicas menores e necessidades de despesas sociais e de juros crescentes agravarão ainda mais os déficits fiscais dos países desenvolvidos e contaminarão as condições de vida de suas populações. Não se exclui, por causa da contração do consumo, a possibilidade de terem de enfrentar a deflação – queda de preços por causa da postergação das compras.

O mais grave é a possibilidade de aparecimento de crises sociais, com desestabilização política. Na Grécia, as crises sociais já começaram.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, afirmou que a situação fiscal dos Estados Unidos e do Japão não era muito melhor do que a da Grécia.

Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), os déficits fiscais previstos para este ano em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) da Irlanda de 12,2% e da Inglaterra de 13,3% superam o da Grécia de 9,8%. E, em tamanho da dívida líquida, Itália (100,8%) e Japão (105%) superam o da Grécia (94,6%). Como destacou Celso Ming, em sua coluna de 21 de fevereiro no Estado, com dados da OCDE: “Ficha por ficha, a dos Estados Unidos está pior do que a maioria dos países europeus. Ostenta um déficit fiscal de 10,7% do PIB e uma dívida (líquida) de 65,2% do PIB ante 6,7% e 57,9%, respectivamente, da área do euro.”

Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da agência Bloomberg, nos últimos dez anos (2000 a 2009), o crescimento da economia em escala global foi de 42%, tendo os países desenvolvidos crescido 17,1% e os países emergentes, 75,1%, ou seja, os emergentes cresceram em média nesse período 4,4 vezes mais do que os desenvolvidos.

Para os próximos anos, a maioria das análises prevê que a diferença entre o desempenho de emergentes e desenvolvidos será reforçada, impulsionada, principalmente, pela Ásia, com grande peso para China. A previsão continua sendo de que a demanda doméstica (consumo e investimento privado) será o carro-chefe desse processo.

Ao que tudo indica, a crise serviu para acelerar um novo arranjo geopolítico em construção nas últimas décadas com o avanço da globalização, que radicalizou o processo de concorrência internacional.

A regulação de preços vai se deslocando gradualmente das políticas monetárias locais para os preços ditados pela concorrência internacional. Assim, a política monetária perde força face ao avanço da globalização comercial, que interconectou os mercados. A tendência dos preços a nível global passou a ser mais ditada pelo preço das commodities.

Dentro desse processo da globalização, a expansão natural do capital foi na direção da minimização de custos de mão de obra, de menor tributação e de localização da expansão geográfica do consumo mundial. Os países desenvolvidos têm custos elevados de mão de obra e mercados estagnados ou em declínio e, por isso foram e continuarão perdendo a atratividade que tiveram frente aos emergentes, notadamente da Ásia e em algum grau da América Latina. A consequência desse processo foi a transferência de oferta de empregos dos desenvolvidos para os emergentes, com uma incorporação sem precedentes de elevado contingente de pessoas no mercado de trabalho e de consumo nos emergentes. Essa expansão de consumo, por sua vez, reforça os movimentos do capital para esses países.

Esse movimento caminhou juntamente com os processos migratórios de mão de obra na busca de melhores oportunidades de emprego ocorrendo com a crise retorno da mão de obra a seus países de origem. A tendência desses dois movimentos é uma diminuição das desigualdades salariais em termos locais e globais. Em outras palavras, os salários mais altos e o emprego dos países desenvolvidos vão continuar cedendo terreno para os emergentes.

Ao lado desse processo, vem se desenvolvendo um enfraquecimento de controle político dos países desenvolvidos nos fóruns internacionais. Os países do G-7 (grupo dos sete mais industrializados) começam a ceder espaço aos países componentes do G-20 e são questionadas as representações dos desenvolvidos nesses fóruns.

Esse novo arranjo geopolítico está em processo e, com a crise internacional, que enfraqueceu os países desenvolvidos e fortaleceu os emergentes, a tendência é para aceleração do novo arranjo.

Outra forma de analisar esse processo de crise econômica, financeira e social dos países desenvolvidos é a do esgotamento do modelo de desenvolvimento experimentado desde o início da revolução industrial. Esse modelo se baseou numa concentração de renda e riqueza, o que levou inevitavelmente a crises de superprodução.

O novo modelo, em fase de implantação, se apoia na ascensão de forte contingente de novos consumidores pela geração de emprego e renda de populações antes marginalizadas da sociedade de consumo. Tudo leva a crer que esse novo modelo apresenta maior dinamismo e estabilidade do que o anterior. Dinamismo pela concorrência internacional sem paralelo e estabilidade por se apoiar numa base de consumo bem maior.

Dentro desse quadro, não é de esperar sustentação para a tentativa de retomada do modelo anterior, onde os países desenvolvidos detinham parcela significativa do crescimento da demanda mundial. A gangorra pende cada vez mais para a liderança dos emergentes no papel antes desempenhado pelos países desenvolvidos.

É possível que o novo paradigma econômico já esteja em fase de formação e, caso isso aconteça, a redistribuição de renda tende a beneficiar as populações dos emergentes.

Será que o capitalismo experimentará uma nova fase na qual sua viabilização se dê apoiada numa melhor distribuição de renda e riqueza?

Especialista em finanças públicas

Amir Khair, mestre em Finanças Públicas pela FGV-SP, é consultor. Foi secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992). Atualmente é consultor na área fiscal, orçamentária e tributária.

Coordenou a elaboração do Manual de Orientação para Crescimento da Receita Própria Municipal da FGV-SP, sob o patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Elaborou o Guia de Orientação para as Prefeituras – Lei de Responsabilidade Fiscal do BNDES – e do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, em 2000.

Dentre os trabalhos que realizou, destacam-se as assessorias em gestão financeira nas prefeituras de Belo Horizonte, Salvador, Goiânia, Guarulhos, Ipatinga, Londrina, Angra dos Reis e Juiz de Fora e a criação de um sistema de acompanhamento de gestão fiscal para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

08/11/2009 - 12:23h Brasil se antecipa e desfaz política anticíclica

Alberto Tamer* – O Estado SP

Afinal, retira-se ou não a política de incentivos à economia para sair da recessão? Esse é um dilema dos países ricos. Do Brasil, não. Nós já estamos desfazendo as medidas anticíclicas em ordem, com redução de juros e impostos. Eles voltam aos poucos, de forma gradual e seletiva, sem afetar a demanda e aumentando a arrecadação. Mas a pergunta, quase acadêmica, voltou no cenário mundial, este fim de semana, com a reunião dos ministros das Finanças do G-20, na Escócia.

Barack Obama e Ben Bernanke dizem que não. O Banco Central Europeu diz que sim. Chega de ajuda ao sistema financeiro a partir do próximo ano, afirmou o seu presidente Jean-Claude Trichet, na quinta-feira. E só não aumentou os juros por pressão dos governos, principalmente da França. O juro permanece em 1%, com sinais de alta. O BCE tem medo da inflação que não é inflação, mas deflação. Menos 0,3% em setembro.

Nos EUA, o desemprego de 10,2% se antecipa às previsões. Não era para acontecer agora, mas no início do ano. Janeiro ou fevereiro. Preocupa, mas era esperado, pois a economia, que havia dado um salto no último trimestre, continua frágil. Ainda não se sustenta.

O governo estava preparado. No mesmo dia em que se anunciou esse índice, Obama estendeu os benefícios federais aos desempregados, que se acumulam aos estaduais, e prorrogou medidas de estímulo ao setor imobiliário. A Casa Branca informou também que novas medidas anticíclicas estão sendo estudadas e poderão ser anunciadas em breve.

Um dia antes, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), também veio a público para informar que não muda a política monetária, vai manter ainda por algum tempo o juro básico em torno de 0,25%, praticamente negativo em termos reais. Vai continuar ativo na compra de títulos do Tesouro e imobiliários. Ou seja, mais dólares vão entrar no mercado.

Para Obama e Bernanke, a economia só reage com mais estímulos. Tudo o mais, déficit, dívida, fica para depois

Na Europa, nada muda, apesar de o desemprego já estar em 9,7%, e a inflação crescendo. Não seria grave se ela não tivesse o mesmo que os EUA no Produto Interno Bruto (PIB) mundial. US$ 14 trilhões.

Quem está certo, os americanos ou os europeus? Trichet ou Bernanke?

É isso que estava na pauta da reunião dos ministros do G-20, encerrada ontem. Foi a terceira do ano ? um balanço com resultados previsíveis. A conclusão é que vão continuar estimulando a economia, mas cada um do seu modo. Só que isso não funciona porque alguns querem agir mais, outros menos. E a economia mundial vai continuar se arrastando ainda por muitos e muitos meses.

RETOMADA NÃO CONVENCE

Eles deveriam ouvir quem não foi ouvido no passado, e acertou ao prever a recessão: Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York. Para ele, a retomada é ainda incerta e não se mantém porque está sendo sustentada pelos estímulos fiscais e monetários, gastos dos governos e pela política de juros baixos. Quanto dura? Roubini arrisca. Quando muito, não mais de seis meses. É mais ou menos o prazo para que os estímulos do governo não se transformem em déficits insuportáveis. Em determinado momento, o setor privado, as empresas, terão de substituir o governo. Há ainda muitos desequilíbrios. O mercado financeiro está se recuperando mais rapidamente que a atividade econômica. Sinal, o desemprego continua aumentando. E permanece a pergunta. Quando o governo deve começar a sair? Roubini não responde, mas insinua que o setor privado ainda não está preparado. E cabe aos governos dos países desenvolvidos continuar a tarefa de prepará-los. Só devem tentar administrar melhor seus déficits. E antecipar-se a bolhas previsíveis.

QUEM ESTÁ CERTO?

Acho que nós. Estamos indo devagarzinho nas duas frentes, fiscal e monetária. Sem a ousadia dos dias que antecederam a crise e se enfrentou, com êxito, a recessão. Agora, não há pressa. O governo está começando a remover as medidas anticíclicas de forma gradual. Na área tributária, com o restabelecimento do IPI no setor automobilístico, o mais afetado pela crise. Nessa área, grande empregadora de mão de obra, evitou-se o pior. Mas esse imposto está sendo restabelecido gradualmente para que empresas e compradores se adaptem à nova realidade. E a realidade é uma economia na qual o crédito volta, o desemprego recua e o rendimento das famílias aumenta. No final da linha, isso vai representar maior arrecadação.

O mesmo está sendo feito ainda com mais cuidado na linha branca por causa do seu componente social.

Na área monetária, lembra Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, o Banco Central mantém sua posição, também com medidas graduais, sem precipitações. Reduziu o juro básico para 8,75% e o mantém nesse nível.

Não temos pressa porque nos apressamos antes, aproveitando um terreno já preparado no governo anterior e neste. A inflação caiu de 12,5% em 2002 para 4,3% neste ano.

O juro nominal em 2002 era de 19,1%, teve de ser aumentado para 23,3% no ano seguinte para conter a inflação e agora está em 8,7%.

Sabedoria? Não. Apenas soubemos aproveitar esse cenário, que nós mesmos preparamos, para nos sobrepormos aos outros, que afundaram na recessão.

*Email: at@attglobal.net

20/10/2009 - 09:58h Dívida de países ricos infla com a crise

Dívida pública média dos países da OCDE vai atingir 100% do PIB

(A relação Dívida/PIB é aproximadamente de 40% no Brasil. LF)


Andrei Netto, CORRESPONDENTE, PARIS – O Estado SP


A explosão do déficit fiscal dos 30 países mais industrializados, membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), vai impulsionar a dívida pública média a 100% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010. O cálculo atualizado foi feito a pedido do Estado e confirma previsões negativas sobre o estado das finanças públicas das nações desenvolvidas. Segundo a revista The Economist, só nos sete países mais ricos, o G-7, a conta já supera os US$ 35 trilhões.

O desequilíbrio orçamentário é o efeito mais retardado da crise, e ameaça a estabilidade de todas as grandes potências: Estados Unidos, França, Reino Unido, Itália, Japão e, em menor escala, Canadá. O hiperendividamento – um problema que o Brasil conheceu de perto nos anos 70, 80 e 90 – é consequência direta do aumento brutal do déficit público médio nos últimos dois anos. Em 2007, a cifra atingia 1,5% do PIB dos 30 países; em 2009, chega a 8%. “O déficit explodiu no mundo com a crise, que reduziu a arrecadação e exigiu mais gastos públicos, em especial pela adoção dos pacotes de estímulo à economia”, disse Jean-Luc Schneider, diretor adjunto do Departamento de Economia da OCDE.

A relação média entre a dívida pública e o PIB é mais grave no Japão, onde estaria na casa dos 200%, nos Estados Unidos, em cerca de 100%, e na União Europeia, próximo a 90%. E a perspectiva não é de redução, mas de crescimento de 30% entre 2007 e 2017. Nesses dez anos, a dívida crescerá de 63% para 103% nos EUA, passará de 47% a 125% no Reino Unido e de 70% a 99% na França. Levantamento do banco Barclays Capital nas contas públicas da zona do euro indica situação de calamidade em países como a Grécia – onde a dívida irá de 95% em 2007 para 149% em 2015. Na Irlanda, saltará de 25% a 144%.

Apesar dos números, a preocupação de organismos como a OCDE é reforçar a confiança na capacidade de pagamento de cada país. “É preciso ressaltar que ninguém ainda está à beira da crise de confiança”, diz Schneider, citando a credibilidade do Japão, mesmo com o buraco em suas contas. “Enquanto o mercado acreditar que estes governos são capazes de cortar seus déficits, eles estarão solventes.”

O mais grave, porém, não é a conjuntura econômica adversa que impulsionou o déficit e a relação dívida/PIB, mas a trajetória do endividamento nesses mesmos países, que já aumentava antes da crise financeira e dos planos de relançamento.

Nos últimos 20 anos, houve aumento constante da dívida pública, pela falta de rigor nas políticas orçamentárias e a importância dada ao crédito para fomentar o crescimento de economias como a americana. Em 1987, a dívida pública média na zona da OCDE era de 59%, e chegava a 75% em 2007.

Esse panorama fez o diretor do Departamento de Assuntos Orçamentários do Fundo Monetário Internacional (FMI), Carlo Cottarelli, definir a situação como “sem precedentes em tempos de paz”. O esforço para reequilibrar as finanças públicas, calcula Cottarelli, exigirá que países com déficit orçamentário na casa de 3,5% revertam o desempenho, com excedentes de 4,5%. Mesmo com esse esforço, eles levarão 20 anos para reduzir a dívida a cerca de 60% do PIB.

Como o Brasil, a Europa conhece exemplos da dificuldade em controlar o endividamento público. Em seu último relatório mensal, o Banco Central Europeu (BCE) lembra que a Holanda precisou de 13 anos para reduzir sua relação dívida/PIB de 78,5% para 46% – investindo todos os anos 2,7% de sua riqueza -, enquanto a Finlândia levou 14 anos para diminuir 24% do total devido. O exemplo mais bem-sucedido na Europa é o da Irlanda, que reduziu a dívida em 69% em 12 anos. Mas precisou crescer 7% ao ano, o que lhe valeu o apelido de “tigre celta”.

CENÁRIO SOMBRIO

US$ 35 trilhões
é a previsão da revista “The Economist” de quanto estaria hoje o
déficit fiscal nos sete países mais ricos do mundo

200% é a estimativa
da relação média entre a dívida pública e o PIB no Japão, onde a situação é mais grave. Nos EUA, essa relação estaria em 100% e na UE, estaria próxima de 90%

30% é quanto
se estima seja o aumento dessa relação entre 2007 e 2017.
Nesses 10 anos, a dívida crescerá de 63% para 103% nos Estados UNidos; passará de 47% a 125% no Reino Unido; e de 70% a 99% na França

20/08/2009 - 11:44h Bancos centrais temem deflação crônica

Na Alemanha, produtos têm hoje o mesmo valor de maio de 2007

http://img.timeinc.net/time/daily/2009/0901/deflation_0116.jpg

Gustavo Chacra – O Estado SP

Os bancos centrais de países desenvolvidos começam a enfrentar o risco de a deflação se intensificar nos próximos meses, com recordes sendo anunciados nos Estados Unidos e na Europa. Na sua maior queda em seis décadas, o índice de preços ao consumidor da Alemanha despencou 7,8% em julho em relação ao mesmo mês no ano passado. Na variação mensal, a diminuição foi de 1,5%.

Segundo o Escritório Federal de Estatísticas, os produtos alemães têm hoje o mesmo valor de maio de 2007. Os preços para o consumidor na Alemanha registraram a sua primeira baixa desde a reunificação do país, em 1990, ao caírem 0,5%. A redução é dois décimos menor do que a média da zona do euro.

Do outro lado do Atlântico, o índice de preços ao consumidor americano também atingiu o seu menor nível desde 1950, ao se reduzirem 2,1% em julho, quando comparado ao mesmo mês no ano passado – em relação a junho, a inflação se manteve estável -, de acordo com dados do Departamento do Trabalho divulgados na semana passada. Assim como na Alemanha, os piores números vieram do setor produtivo, com uma redução de 6,8% nos preços desde julho de 2008, e 0,9% em junho .

A deflação tem como principal causa a redução nos preços da área energética, especialmente do barril do petróleo – apesar da elevação de ontem, que não está embutida no índice -, ao longo do último ano. Na Alemanha, a deflação anual é de 3,6% quando não se leva em conta os preços deste setor.

O Fed (banco central dos EUA) indicou que não existe risco de inflação por enquanto, o que eliminaria a necessidade de elevar os juros, evitando uma possível estagflação (inflação e recessão simultaneamente). O problema, segundo dizem alguns economistas, é que, com a deflação, há pouca margem de manobra para o Fed. Os juros já estão próximos de zero e o risco seria de um círculo vicioso como no Japão dos anos 1990.

A saída seria o aumento da demanda para o fim da deflação. Por enquanto, os sinais não indicam que isso venha ocorrendo. Ao contrário, o índice de confiança dos consumidores está em queda nos Estados Unidos por três motivos – elevado desemprego (9,4%), endividamento e maior propensão a poupar em vez de consumir.

12/05/2009 - 09:46h BCs estão otimistas com Brasil

Presidentes fizeram na Suíça o encontro mais ”otimista em um ano”

http://www.noticiacompleta.com/wp-content/uploads/2009/03/bc.jpg

Andrei Netto – O Estado SP

Os países emergentes, com China e Brasil à frente, foram os destaques da reunião bimestral dos presidentes de bancos centrais, encerrada ontem, na sede do Banco de Compensações Internacionais (BIS), em Basileia, na Suíça. O encontro, descrito como “o mais otimista em um ano”, sobre o futuro do crescimento mundial, foi marcado pelos elogios aos dois países, que já teriam superado o “ponto de inflexão” da crise econômica.

As constatações foram feitas por diferentes autoridades monetárias que participaram das reuniões de domingo e ontem e confirmadas pelo presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles. Para os banqueiros, o estado da economia mundial ainda inspira cuidados, mas os chamados “sinais antecipados” – indicadores econômicos parciais – da China e do Brasil despertaram o clima positivo nas análises.

O primeiro a ressaltar que a economia global pode estar iniciando o período pós-crise foi Jean-Claude Trichet, presidente do BC Europeu (BCE). Falando na condição de presidente do comitê de autoridades monetárias do BIS, ele afirmou que há um consenso de que a crise começa a ser revertida.

“No que se refere ao crescimento, estamos próximos do ponto de inflexão”, disse, referindo-se à queda do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre de 2008 e no primeiro trimestre deste ano. “Em alguns casos, já se vê a retomada; em outros, a queda continua, mas em ritmo mais lento.”

Indagado sobre a situação de países emergentes, como China e Brasil, Trichet argumentou que, como de praxe, não comentaria a situação específica de nenhum país, mas a seguir afirmou: “Eu diria, sobre o conjunto das economias emergentes, que algumas estão muito perto do ponto de inflexão e outras já estão além do ponto de inflexão”. Ele lembrou ainda que esses países já haviam provado a grande capacidade de resistir à crise.

O presidente do BC saudita, Mohammed al-Khaser, confirmou que os elogios feitos aos países emergentes no BIS se referiam à China, ao Brasil, à Índia e ao seu próprio país. “Esses são os países emergentes que já começaram a inverter a curva do crescimento do PIB”, afirmou al-Khaser. “Foi a reunião mais otimista em um ano.”

MEIRELLES CONCORDA

Henrique Meirelles confirmou a avaliação positiva das autoridades monetárias sobre Brasil e China, mas ressaltou que o momento ainda é de incertezas. “Não há dúvidas de que há sinais de que as economias dos países industrializados começam a desacelerar as quedas e o ponto de inflexão pode estar chegando”, disse, resumindo o teor das discussões no BIS. “Brasil e China são considerados os grandes sinais de que o mundo pode estar se aproximando da inflexão.”

Meirelles não quis mencionar os sinais da tendência de aquecimento da economia brasileira, mas acabou citando o consumo de energia e a venda de veículos. “O que foi enfatizado (aqui) é que o Brasil dá sinais antecipados, na margem (desempenho de um mês ante o mês anterior), mas ainda não são dados consolidados.”

Quatro medidas adotadas por Brasília após o início da crise teriam sido avaliadas positivamente pelas autoridades monetárias: empréstimos de reservas para empresas privadas, que totalizam até aqui US$ 23 bilhões; liberação de depósitos compulsórios para pequenos e médios bancos; redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos automóveis; e a injeção de US$ 33 bilhões pelo BC no mercado de derivativos (contratos de swap). “Esses foram casos de sucesso analisados pelos presidentes de BCs”, disse Meirelles.

18/03/2009 - 11:40h Krugman vê um ‘colapso coordenado’

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Bloomberg – VALOR

O Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman disse que o mundo atravessa um “colapso mundial coordenado”, cuja aparência “é pior na Europa e no Japão” do que nos Estados Unidos.

“O que começou como uma recessão relativamente branda” nos EUA “se tornou uma queda vertical”, disse Krugman em evento realizado em Bruxelas. “Esta é uma crise que está afetando gravemente a indústria de transformação.”

Krugman, que defendeu o aumento dos incentivos fiscais, disse que os instrumentos convencionais dos BCs não são suficientes para revitalizar o crescimento da economia. O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, e o do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), Ben S. Bernanke, “não conseguem empregar suas ferramentas convencionais para enfrentar o colapso” econômico, disse o economista, da Universidade de Princeton.

Para o BCE, “toda a base intelectual do euro repousa na hipótese de que a política monetária pode, por si só, dar conta do recado”, disse Krugman. “O BCE ainda não cortou tudo o que podia (em termos de juros), mas ficarei surpreso se não acabar fazendo isso.”

“Trichet ainda está dizendo que não há risco de deflação na Europa, afirmação que, na minha opinião, expressa um estranho excesso de autoconfiança”, disse Krugman.

“Os Estados Unidos não estão fazendo o suficiente para combater a crise e a Europa está fazendo um pouco menos da metade do realizado pelos Estados Unidos”, disse Krugman. “Corremos um grave perigo.”

17/03/2009 - 13:41h Europa: um continente à deriva

http://www.agal-gz.org/blogues/media/users/maria/Europa.jpg

Paul Krugman, The New York Times*

Estou preocupado com a Europa. Na verdade, estou preocupado com o mundo todo – não existem refúgios a salvo dessa tormenta econômica global. Mas a situação da Europa preocupa-me mais do que a dos Estados Unidos.

Não vou repetir a velha queixa americana de que, na Europa, os impostos são muito altos e os benefícios muito generosos. Os enormes programas de bem-estar social não são a causa da atual crise. São um fator atenuante.

O perigo claro e presente vem de uma direção diferente: é o fracasso do continente em responder eficazmente à crise financeira. A Europa carece de uma política fiscal e monetária. Enfrenta uma crise no mínimo tão severa quanto os EUA, porém está fazendo muito menos.

No aspecto fiscal, a comparação com os EUA é assombrosa.

Para muitos economistas, eu inclusive, o plano de estímulo do governo Obama era muito tímido diante da gravidade da crise. Mas as medidas adotadas pelos EUA fazem parecer insignificante qualquer coisa que os europeus estejam fazendo.

A diferença em termos de política monetária é igualmente assombrosa. O Banco Central Europeu (BCE) tem se mostrado muito menos dinâmico do que o Federal Reserve; tem demorado para cortar as taxas de juros (elevou em julho do ano passado) e evitou adotar medidas vigorosas para desbloquear os mercados de crédito.

A única coisa que pesa em favor da Europa é exatamente aquilo pelo qual é mais criticada: o porte e a generosidade dos seus programas de bem-estar social, que atuam como amortecedor do impacto dessa retração econômica.

E isso não é pouco. O auxílio-desemprego e a assistência à saúde garantida asseguram que, pelo menos até agora, não se veja na Europa o sofrimento humano tão nítido como nos EUA. Esses programas também vão ajudar a sustentar os gastos nessa crise. Contudo, esses “estabilizadores automáticos” não são substituto de uma ação positiva.

Por que a Europa não está conseguindo enfrentar a crise? Em parte por causa de uma liderança medíocre. As autoridades dos bancos europeus, que se omitiram quanto à profundidade da crise, ainda parecem estranhamente complacentes. E para ouvir alguma coisa nos EUA que seja comparável aos ataques ignorantes do ministro das Finanças da Alemanha, você deve ouvir os republicanos.

Mas há um problema mais profundo: a integração monetária e econômica da Europa avançou muito mais do que as suas instituições políticas. As economias de muitas nações estão tão estreitamente ligadas quanto as economias de muitos Estados, nos EUA, – e a maior parte da Europa compartilha uma moeda comum. Mas, ao contrário dos EUA, a Europa não tem instituições que cubram todo o continente, necessárias para lidar com uma crise com essa envergadura.

Essa é uma importante razão da ausência de uma uma ação fiscal. Não existe nenhum governo em posição de assumir a responsabilidade pela economia europeia como um todo. Em vez disso, o que há são governos nacionais, cada um relutando em acumular enormes dívidas para financiar um plano de estímulo que poderia levar muitos, senão a maior parte, dos seus benefícios para os eleitores em outros países.

Você poderia pensar então que a política monetária é mais convincente. Afinal, apesar de não existir um governo europeu, há um BCE. Mas ele não é como o Fed, que pode se permitir correr riscos porque tem o suporte de um governo nacional unitário.

Em outras palavras, a Europa vem se revelando estruturalmente fraca num período de crise. A maior dúvida é o que vai ocorrer com aquelas economias europeias que prosperaram tanto na fase do dinheiro fácil dos últimos anos, particularmente a Espanha.

Durante grande parte da década passada, a Espanha foi a Flórida da Europa, com uma economia animada por um enorme boom especulativo imobiliário. Como na Flórida, esse boom transformou-se em um fiasco. A Espanha agora precisa encontrar novas fontes de renda e emprego.

No passado, o país teria procurado ser competitivo desvalorizando sua moeda. Mas agora a sua moeda é o Euro – e o único meio de avançar parece ser pelo doloroso processo de corte de salários. O que seria difícil nos melhores tempos, mas será incrivelmente doloroso se, como parece provável, a economia europeia como um todo entrar numa depressão e se encaminhar para uma deflação nos próximos anos.

Isso significa que a Europa errou ao se tornar tão estreitamente integrada? E, especialmente, que a criação do Euro foi um equívoco? Talvez.

Mas a Europa ainda pode mostrar para os céticos que eles estão errados, se os seus políticos começarem a mostrar mais liderança.

Mostrarão?

*Paul Krugman é articulista

15/03/2009 - 10:58h “Obama es demasiado prudente”

ENTREVISTA: Paul Krugman Premio Nobel de Economía 2008

Krugman

A. GONZÁLEZ / M. Á. NOCEDA – Sevilla – El País

Máximo exponente de los neokeynesianos, Krugman cree que el nuevo Gobierno de EE UU rema en la buena dirección pero está siendo más que cauto. El fin de la crisis no aparece en sus pronósticos como algo cercano.

Pese a la generosa dotación del premio Nobel, Paul Krugman (Nueva York, 1953) no abandona su aspecto de profesor universitario, enfundado en un traje con deportivas negras y una mochila al hombro. Ha venido a Sevilla invitado por la Confederación de Empresarios de Andalucía (CEA). Hace acto de presencia en el minuto exacto de la cita, tímido y abrumado por los elogios. Todo eso desaparece en cuanto se enreda en temas económicos.

Pregunta. ¿Cuándo se dio cuenta de que habíamos vuelto a la economía de la depresión, como usted la denomina?

Respuesta. A principios de 2008 estaba bastante claro que nos habíamos topado con los límites de la política convencional. Después de la caída de Lehman, en septiembre, ya resultó obvio.

P. ¿Cuándo terminará?

R. Los precedentes no son buenos. La depresión japonesa terminó con un boom de sus exportaciones a China pero esta vez la crisis afecta a todo el mundo a la vez así que ésa no es una opción. Y la Gran Depresión terminó con la II Guerra Mundial. Hay un final natural a largo plazo, pero llevará mucho, mucho tiempo.

P. ¿Son realmente eficaces las medidas adoptadas?

R. Hasta cierto punto estamos cambiando deuda privada por deuda pública y tratamos de compensar el conservadurismo de los consumidores con un aumento del gasto público. Así salimos de la Gran Depresión. Es cierto que China pretende salir de la crisis con un aumento de las exportaciones y que eso puede ser la base de otra crisis. Pero creo que es tremendamente importante sostener la demanda, aunque no sea la solución definitiva. De lo contrario, corremos un riesgo serio de quedar atrapados en una trampa muy profunda.

P. ¿Debería coordinarse esa respuesta en el G-20 o en otros foros?

R. Lo ideal es que el G-20 saliera de las reuniones de este fin de semana con un acuerdo para coordinar las políticas fiscales aunque desgraciadamente eso no va a pasar. Lo más crucial es que los europeos pacten entre ellos las bases de la expansión fiscal porque la dependencia es mucho mayor entre los socios de la UE que respecto a EE UU. En todo caso, necesitamos un acuerdo del G-20 para coordinar las políticas fiscales y también un plan de rescate para los países emergentes con problemas. Aquí probablemente tendría un papel decisivo el FMI, que debería proporcionar recursos suficientes a Hungría y al resto de los países bálticos.

P. ¿Habría que reforzar la cooperación entre EE UU y la UE?

R. Sin duda, hay mucha dependencia entre ambos. Todos estamos preocupados por el déficit pero un esfuerzo coordinado puede reducir la aportación extra que debe hacer cada uno y aumentar los beneficios. El plan de estímulo fiscal de EE UU ayuda a la economía europea, en buena medida. Por ejemplo, muchas de las ayudas destinadas a AIG acabaron en manos de bancos europeos que eran los que les habían comprado los seguros contra impagos de deuda (credit default swaps). Ahora muchos se preguntan por qué el contribuyente de EE UU tiene que rescatar bancos europeos.

P. ¿Y los bancos centrales?

R. Ahí los efectos no están tan claros. Hasta cierto punto, la resistencia del BCE a utilizar todo el margen en los tipos de interés está beneficiando a EE UU, con un dólar más barato que impulsa las exportaciones, así que a nosotros claramente nos interesa la política de Trichet.

P. ¿Conoce al presidente Zapatero o va a reunirse con él?

R. No le conozco. Sé que interviene en el acto en el que tengo que participar

en Madrid, pero no sé si habrá oportunidad de encontrarnos. Lo que sí he hecho ha sido repasar a fondo la situación de España.

P. ¿Y sus conclusiones?

R. Que España es como California o Florida. Las dos han vivido un boom de la construcción, han recibido grandes flujos de capital extranjero y, cuando ha estallado la burbuja inmobiliaria, la situación se ha vuelto muy difícil. Ahora tienen problemas de ajuste similares: el déficit es preocupante y la rebaja del rating ha sido inevitable, aunque peor para California.

P. ¿Y qué se debería hacer?

R. Va a ser duro. Lo que realmente asusta de la situación española es que no está nada claro cuál es la estrategia de ajuste por su pertenencia a la UE. Todo lo que puede hacer es mitigar los efectos de la crisis. Si España no fuera parte del euro, la devaluación ayudaría, pero esa opción ya no existe; la política fiscal es muy limitada para los países de la UE; también es limitada la capacidad de actuar sobre el sistema financiero aunque los bancos españoles han demostrado estar relativamente en buena forma; se pueden adoptar medidas para limitar el impacto de la crisis sobre los parados. Pero en buena medida a España sólo le queda esperar a que se produzca una recuperación europea.

P. ¿No debería jugar China un papel más destacado?

R. Sí, siempre que China también dé señales de cooperación. De momento sólo pretenden salir de la recesión con una moneda devaluada que impulse sus exportaciones y la política de la Reserva Federal no tiene como objetivo que los chinos estén contentos. Además, hay una cierta amenaza de que se puedan llevar el dinero que tienen en dólares, pero lo cierto es que si debes 100 dólares a alguien tienes un problema pero si lo que debes es un billón, como a los chinos, el problema lo tiene China, no tú.

P. ¿Puede el mismo sistema financiero que nos ha llevado al caos ser el que marque las directrices de futuro?

R. Nos enfrentamos a un gran test que debemos resolver y es la reconstrucción del sistema financiero. Solíamos tener un sistema más sencillo, con los bancos actuando como intermediarios y luego todo derivó en un sistema de enormes instituciones financieras, complejas y poco reguladas. Claramente eso ha fracasado. Probablemente debamos mirar hacia un modelo más simple y más al viejo estilo. Muchos cambios se producirán de forma natural. Dudo que la gente vuelva a confiar en estos planes financieros complejos y complicados, que en buena medida ya han quebrado: unos 400.000 millones de dólares del sistema financiero han desaparecido. Pero también se necesita más regulación de la que tenemos y eso va a ser duro.

P. La crisis se ha llevado por delante a muchos banqueros pero a ningún regulador.

R. En EE UU, muchos supervisores han sido forzados a dimitir de una forma u otra. Tampoco está claro que incluso haciendo su trabajo bien esto no hubiera pasado. Pero es cierto que ni siquiera intentaron hacerlo.

P. ¿Se refiere a Greenspan?

R. No, aunque es un poco triste ver cómo intenta defender su legado. Pero no hablaba de él.

P. ¿Podemos enfrentarnos, como en los años treinta, a una serie de devaluaciones competitivas?

R. Esas devaluaciones ayudaron, no fueron dañinas para la economía mundial, pero era un mundo distinto que se regía por el patrón oro. Lo que me preocupa es si ahora las devaluaciones sustituyen a otro tipo de medidas. Si China, por ejemplo, lo hace para salir de la crisis, eso sí es un problema.

P. ¿Cómo valora los primeros meses del gobierno de Obama?

R. El cambio a mejor es enorme, son políticas inteligentes y honestas y sólo eso ya dibuja un mundo completamente diferente al que había. El problema es que el gobierno Obama está siendo demasiado cauto, incluso siendo más audaz de lo habitual, está siendo demasiado prudente

dada la dimensión de la crisis. El plan de estímulo tenía que haber sido, al menos, un 30% mayor y no quieren adoptar ninguna medida dramática sobre los bancos. Las prioridades fijadas en el presupuesto son excelentes, pero aunque reman en la dirección correcta no están remando lo suficiente.

P. Pero sí hay ámbitos, como la sanidad y las políticas de gasto, en los que Obama está aplicando reformas profundas…

R. Hay una frase que se atribuye a su jefe de gabinete, Rahm Emmanuel, que dice: “Nunca se debe desaprovechar una crisis”. Eso define muy bien su espíritu -yo he hecho mía la frase [risas]-. Reagan aprovechó la crisis del 87 para cambiar todo, ¿por qué no vamos a poder dar la vuelta a algunas cosas?

P. ¿Incluyen esos cambios la nacionalización de la banca?

R. En eso, ni siquiera parece que tengan un plan , hablan de la cooperación pública y privada pero de forma difusa y a veces suena más como un regalo al sector. Lo que creo que va a pasar, aunque llevará tiempo, es una solución a la sueca . Eso llevará a garantizar los depósitos bancarios y a nacionalizar temporalmente Citigroup y posiblemente también Bank of America.

P. ¿A eso se refería el secretario del Tesoro cuando dijo que el capitalismo ya será diferente?

R. Éste es uno de esos momentos en los que toda una filosofía ha sido desacreditada. Los que defendían que la avaricia era buena y que los mercados debían autoregularse sufren ahora la catástrofe. Son los mismos que decían que si se subían los impuestos a los ricos pasarían cosas terribles. Pues Clinton subió los impuestos a las rentas más altas y la economía funcionó muy bien durante ocho años, mientras que Bush los bajó y mira lo que ha pasado. Creo que ese cambio se va a imponer.

P. ¿Amenaza la crisis la reelección de Obama?

R. Obama se parece a Roosevelt, que no resolvió la Depresión pero al que se veía que tomaba medidas para intentar salir de la crisis y eso le dio la victoria electoral. Muchos expertos en política de mi Universidad aseguran que los electores tienen una memoria muy frágil, que sólo se preocupan por lo que pasa en los últimos seis meses así que Obama tiene margen para mejorar cosas antes de la reelección.

11/03/2009 - 08:43h Para FMI, mundo entrou em ‘grande recessão’

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Associated Press – VALOR

A economia mundial entrou numa “grande recessão” e terá uma retração este ano. A afirmação foi feita pelo presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn.

Em uma entrevista gravada que foi ao ar ontem pelo canal de TV francês France 24, Kahn disse que os dados econômicos têm piorado desde janeiro, quando o fundo apresentou sua previsão de crescimento mundial de 0,5% para este ano.

“Desde então as notícias não têm sido boas”, disse. “Eu penso que agora podemos dizer que entramos em uma grande recessão”. Kahn não fez uma previsão específica sobre qual seria, na avaliação do FMI, o ritmo de retração da economia este ano. “Essa recessão pode durar um longo tempo”, afirmou ele na entrevista. Segundo Kahn, se as medidas esperadas pelo fundo forem de fato implementadas, 2010 poderá ser o ano da retomada do crescimento.

No domingo o Banco Mundial disse que a economia global vai encolher pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial e que por conta da crise financeira os países pobres e em desenvolvimento terão mais dificuldade para obter crédito.

A previsão do banco é que o fluxo de comércio caia em 2009 para seu nível mais baixo em 80 anos. Nos países mais pobres, os efeitos da crise devem durar mais tempo. Como os países ricos estão buscando mais financiamentos, os países em desenvolvimento estão tendo dificuldades cada vez maiores para obter crédito.

Na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) previu uma queda 2,2% a 3,2% no Produto Interno Bruto (PIB) este ano nos 16 países que têm o euro como moeda. A economia da zona do euro encolheu 1,5% no quarto trimestre de 2008 – a maior retração já registrada. A redução foi puxada pela diminuição da demanda mundial por produtos importados, atingindo em cheio as economias desenvolvidas da região que são fortemente exportadoras.

19/11/2008 - 09:46h Crise faz países ricos darem sinais de deflação

Agências internacionais – VALOR

A crise financeira internacional ameaça criar deflação nos países ricos e aprofundar os efeitos da desaceleração econômica. Analistas prevêem deflação no ano que vem e países como EUA e Reino Unido já registram retração ou desaceleração nos preços, aumentando os temores do mercado e forçando cortes de juros.

John Herrmann, presidente da Herrmann Forecasting, de Nova Jersey, disse que “a retração generalizada dos preços nos EUA mostra que a inflação foi contida, e que a deflação está se instaurando”. “Isso dá munição ao Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) para continuar cortando os juros”, concluiu.

Matthew Sharratt, economista do Bank of America de Londres, disse que a inflação ao consumidor no Reino Unido “é agora água passada”. “Ela vai cair para bem menos do que a meta [do Banco da Inglaterra] no ano que vem. Isso abre bastante o caminho para que as taxas de juros passem por uma redução profunda em dezembro.”

O presidente do Banco da Inglaterra [BC britânico], Mervyn King, disse na semana passada que a economia britânica deve estar em recessão e que as autoridades da área monetária vão reduzir o custo do dinheiro o necessário para combater a deflação. O banco prevê que a inflação do país vai desacelerar para menos que o limite inferior fixado pelo governo, de 1%, se o BC não reduzir a taxa referencial de juros a partir de seu nível atual de 3%.

Nos EUA, os preços pagos pelos produtores americanos tiveram em outubro sua maior queda de todos os tempos, num momento em que a economia mundial, que perde fôlego, fez com que a demanda por commodities estancasse. A queda de 2,8%, superior à prevista, seguiu-se à retração de 0,4% verificada em setembro, disse o Departamento do Trabalho.

O núcleo do índice, que exclui elementos como alimentos e combustíveis, subiu 0,4%, o que indica que as quedas dos custos das matérias-primas ainda não chegaram aos outros produtos.

Segundo a mediana de 76 prognósticos captados pela Bloomberg News, os preços no atacado dos EUA cairiam 1,9% em outubro. O acompanhamento do Índice dos Preços ao Produtor pelo Departamento do Trabalho dos EUA remonta a 1947.

A inflação ao consumidor do Reino Unido desacelerou em outubro mais do que o previsto pelos economistas – a maior desaceleração de pelo menos 11 anos. Os preços ao consumidor subiram 4,5% em relação ao mesmo mês do ano passado, comparativamente à alta de 5,2% registrada em setembro, disse o Departamento de Estatística Nacional em Londres. A mediana das projeções captadas em sondagem junto a 27 economistas foi de 4,8%. A taxa agora ultrapassou pelo 13º mês a meta de 2% fixada pelo BC.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, disse ontem que “ainda” não observa tendências de deflação na zona euro. Trichet destacou que os planos de relançamento adotados serão bons “nos países onde há margem de manobra”.

Ele disse que o BCE “reduzirá as taxas de juros se for preciso”.

Anteontem, o Comissário Europeu dos Assuntos Monetários, Joaquín Almunia, havia alertado para o risco de uma possível deflação como consequência da crise econômica internacional.

30/10/2008 - 09:45h Bancos centrais ao redor do mundo intensificam combate à recessão

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Jon Hilsenrath, Joellen Perry e Takeshi Takeuchi, The Wall Street Journal – VALOR

Mundo afora, bancos centrais abriram uma nova frente no combate ao enfraquecimento da economia. Autoridades nos Estados Unidos, China e Noruega anunciaram cortes de juros e em vários outros países isso deve acontecer nos próximos dias.

O Federal Reserve já está há dois anos cortando juros. O banco central americano tem sido mais agressivo do que qualquer outro e ontem baixou sua taxa de referência em meio ponto porcentual, para 1% ao ano. O Fed também deu sinais de que novos cortes são possíveis, ao observar que ” riscos de redução do crescimento persistem”.

Pela primeira vez em meses, o Fed não mencionou a inflação alta como uma preocupação, observando apenas que “espera que a inflação modere nos próximos trimestres a níveis consistentes com a estabilidade de preços”.

Com o corte de ontem, a taxa americana está num nível atingido pela última vez em 2003, bem depois que a recessão de 2001 acabou. Na época, crescimento fraco e temores de deflação, ou queda generalizada de preços, preocupavam as autoridades monetárias.

Como a economia americana continua deteriorando, juros mais baixos e outras ações do Fed e outras autoridades dos EUA parecem uma forte possibilidade. Se eles caírem ainda mais agora, poderiam chegar a níveis que não se viam desde os anos 50. A questão é se as baixas taxas oficiais têm o efeito de estímulo que as autoridades desejam.

Juros mais baixos costumam ser uma ferramenta poderosa para estimular a economia, porque reduzem o custo do crédito para empresas e consumidores e isso lhes dá um incentivo para iniciar projetos ou gastar dinheiro. Juros baixos também reduzem o custo de fundos para bancos, o que teoricamente os deixaria mais dispostos a conceder crédito.

Mas isso talvez não aconteça desta vez. A crise de crédito criou uma onda de aversão ao risco no sistema financeiro mundial, o que deixou muitos bancos sem disposição de emprestar mesmo tendo acesso a fundos mais baratos. Em vários mercados, os padrões para crédito se apertaram e, embora o juro de referência tenha caído, outras taxas de financiamento têm demorado a responder.

O rendimento dos títulos de dívida de grau especulativo está mais de 16 pontos porcentuais acima dos de papéis do Tesouro americano, o mais alto nível em décadas, segundo dados da Merrill Lynch. “O mercado de dívida de alto risco está parecendo uma bomba-relógio”, diz Martin Fridson, da Fridson Investment Advisors. “Mesmo na melhor das circunstâncias há um atraso entre o estímulo fiscal ou monetário (e o impacto) na economia. Quando os bancos estão tão surrados e resistentes a emprestar, é provável que seja ainda menos eficaz do que o normal.”

O amplo impacto econômico da crise de crédito deu às autoridades monetárias internacionais um maior sentimento de urgência.

Também ontem, o banco central da China cortou juros pela terceira vez em seis semanas, em meio à deterioração do panorama econômico para sua economia dependente de exportações. Autoridades japonesas deram sinais de que podem cortar os juros amanhã. E o banco central norueguês cortou sua taxa referencial pela segunda vez em duas semanas.

O Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra, que baixaram suas táxas básicas em meio ponto porcentual no início do mês, numa operação coordenada com o Fed, devem ser os próximos a anunciar cortes expressivos, na semana que vem.

No Brasil, o Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu manter a taxa básica em 13,75% ontem. Os juros no Brasil vinham numa tendência de alta em razão do recente surto inflacionário, mas desde a reunião anterior da autoridade monetária sinais de redução do crescimento ganharam mais proeminência.

O Japão, onde nem um juro de zero por cento conseguiu ressuscitar a economia alguns anos atrás, é um exemplo estudado cuidadosamente por Ben Bernanke, o presidente do Fed. Ainda assim, numa reunião marcada para amanhã, o comitê de política monetária do Banco do Japão vai considerar cortar sua taxa básica de 0,5% para 0,25%, segundo uma autoridade familiarizada com a situação.

A possibilidade de um corte de juros surpreendeu participantes do mercado financeiro. Há apenas uma semana, diretores do Banco do Japão praticamente descartavam afrouxar a política no curto prazo, dizendo que os juros já estavam baixos o bastante para sustentar a economia. A mudança de posição demonstra como as autoridades monetárias japonesas ficaram mais preocupadas com o enfraquecimento da economia devido à deterioração do mercado financeiro na última semana.

Dados divulgados ontem sugerem que o enfraquecimento de economias estrangeiras está pesando sobre o Japão. A produção industrial japonesa teve sua maior queda em quase quatro anos no período julho-setembro, caindo 1,2% no trimestre.

Mundialmente, a maré de cortes de juros mudou dramaticamente em poucas semanas. No início do semestre, os bancos centrais estavam preocupados com a alta do petróleo. Especialmente em mercados emergentes, onde parecia que a inflação estava ficando mais enraizada, muitos bancos centrais ainda pretendiam aumentar juros, até que a crise de crédito piorou, em setembro.

Agora, embora uns poucos bancos centrais tenham aumentado juros para segurar suas moedas em queda, muitas taxas importantes para a política monetária tendem a cair ao redor do mundo.

Economistas do J.P. Morgan Chase estimam que, em média, as metas de bancos centrais para juros estavam em 3,4% ao redor do mundo no fim da semana passada. Até o fim do ano, o J.P. Morgan espera que elas caiam para 2,8% e então continuem a cair no ano que vem, para 2,3%.

Ontem, o banco central da Noruega cortou sua taxa básica de 5,25% para 4,75% e deu sinais de novos cortes à frente. A decisão seguiu-se a um corte surpresa de meio ponto em 15 de outubro, o primeiro do Norges Bank desde março de 2004. Semana passada, o banco central da Suíça também cortou sua taxa básica de 4,25% para 3,75% e previu uma queda para 3,25% até março.

Algumas autoridades monetárias do BCE temem que a zona do euro, uma economia de US$ 12,2 trilhões, menor apenas que a dos EUA, possa ter um longo período de crescimento magro e só comece a se recuperar em fins do ano que vem. O presidente do banco, Jean-Claude Trichet, disse segunda-feira que um corte na reunião do banco em 6 de novembro era uma “possibilidade”, consolidando expectativas do mercado de um corte de meio ponto porcentual, para 3,25%.

“É uma reviravolta impressionante”, diz Erik Nielsen, economista da Goldman Sachs em Londres. “Eles perceberam que inflação não é mais um problema, e agora estão querendo salvar o mundo.”

Taxas ao redor da Europa estão mais altas do que nos EUA, o que dá aos bancos centrais europeus mais espaço para cortes do que o Fed tem.

Alguns economistas temem que o Fed possa se ver na mesma posição do Japão do início desta década, com taxas perto de zero e uma economia ainda afundando.

(Colaborou Andrew Batson)

12/10/2008 - 14:31h Segundo AFP, a cúpula dos países do Euro vai garantir o financiamento de todos os bancos até dezembro 2009

Le sommet de l’Eurogroupe s’est ouvert à Paris

AFP/GERARD CERLES

Le Monde

Le sommet extraordinaire de l’Eurogroupe, réunissant les dirigeants des quinze Etats appartenant à la zone euro, a débuté dimanche 12 octobre à l’Elysée, avec un but partagé par l’ensemble des participants : trouver une solution au niveau européen pour rétablir la confiance sur des marchés déboussolés par la crise bancaire. Le président de la Commission européenne, Jose Manuel Barroso, qui participe également à cette réunion, a estimé qu’”un niveau de coordination sans précédent” était désormais nécessaire “pour faire face à une crise sans précédent”. “Nous devons montrer aux citoyens européens et aux marchés la capacité et la détermination de l’Europe à agir de concert”, a-t-il déclaré après s’être entretenu avec le président français Nicolas Sarkozy et le premier ministre britannique Gordon Brown avant le début du sommet.

Selon un projet de déclaration commune que s’est procuré l’AFP peu après le début de la réunion, les quinze pays membres de la zone euro se disent prêts à apporter provisoirement leur garantie aux opérations de refinancement des banques et à éviter toute faillite, en ayant recours à leur recapitalisation si cela est nécessaire, jusqu’au 31 décembre 2009. Toujours selon le document obtenu par l’AFP, les garanties pour le refinancement des banques proposées par les gouvernements européens pourraient prendre la forme d’assurances ou de “dispositions similaires”. L’agence Reuters, qui s’est procuré un document énumérant les propositions de la présidence française de l’UE, rapporte que d’autres mesures susceptibles d’être adoptées sont la garantie des dettes bancaires à moyen terme, y compris pour les particuliers et une octroi de liquidités aux entreprises financière et non financières par la BCE tant que la crise se poursuit.

M. Sarkozy, qui doit exposer les conclusions du sommet dans un discours, dimanche en début de soirée, a souhaité “un plan ambitieux, coordonné, qui apporte des solutions”. “Ce que j’attends, c’est que l’Europe parle d’une seule voix”, a-t-il résumé. La chancelière allemande Angela Merkel a quant à elle annoncé que la réunion de dimanche lancera “un signal capital pour les marchés et un signal très important pour la force de la zone euro”. Selon la ministre des finances française Christine Lagarde, l’Eurogroupe devrait “mettre du muscle” sur le squelette du plan en cinq points adopté, vendredi, par le G7. Ce plan avait ensuite été approuvé par les 185 pays membres du Fonds monétaire international (FMI) .

LONDRES MILITE POUR SON “APPROCHE”

M. Brown, qui ne participera pas à la réunion, son pays n’étant pas membre de la zone euro, a déclaré dans la presse britannique qu’il tenterait néanmoins de persuader “les autres pays européens d’adopter l’approche globale que nous avons prise en Grande-Bretagne”. Londres devrait annoncer officiellement, lundi, un plan de sauvetage d’un montant total de 500 milliards de livres (636 milliards d’euros), qui passerait par la prise de contrôle majoritaire de deux grandes banques très affaiblies, RBS et HBOS, ainsi que l’entrée au capital d’autres banques pour un montant de 50 milliards de livres (63,6 milliards d’euros).

“Cette réunion a pour but de décider d’une action coordonnée commune pour la zone euro, pour que dans les prochains jours chaque pays puisse mettre en place des mesures qui stabilisent les marchés financiers”, a résumé Mme Merkel à son arrivée à l’Elysée. Car si tous les yeux sont tournés vers la réunion de Paris, au vu de la réouverture des marchés financier mondiaux, chaque pays prépare déjà son propre plan de sauvetage au niveau national.

Outre la Grande-Bretagne, l’Allemagne devrait annoncer le sien lundi. En France, un conseil des ministres extraordinaire a été convoqué lundi pour que des mesures soient prises en urgence. Au Portugal, le gouvernement a déjà apporté une garantie de 20 milliards d’euros aux “opérations de financement” des banques et en Norvège, l’Etat et la Banque centrale ont émis 350 milliards de couronnes (41 milliards d’euros) d’obligations pour accroître les liquidités.

07/10/2008 - 09:12h Contágio pode quebrar a zona do euro

Angela Merkel, primeiro-ministro da Alemanha
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Larry Elliott * – O Estado de São Paulo

De certo modo, quando o ministro das Finanças da Alemanha, Peer Steinbrueck, disse no mês passado que o aperto do crédito era um problema americano, houve a sensação de que ele estava desafiando o destino. Quanto tempo levaria para que o contágio que limpou Wall Street e a City de Londres também fizesse uma ou duas vítimas no setor bancário da zona do euro? Bom, as palavras presunçosas de Steinbrueck mal saíram da sua boca, e recebemos a resposta. Belgas e holandeses tiveram de resgatar o banco Fortis; os irlandeses trataram de estender uma garantia geral para os seus depósitos, com medo de que pelo menos um, e provavelmente dois de seus grandes bancos estivessem perto de capotar.

A reflexão de Steinbrueck sobre a possibilidade de os Estados Unidos estarem perdendo seu status de potência hegemônica da economia mundial foi interrompida pela necessidade de buscar a aprovação de Bruxelas para a malfadada operação de resgate do grupo HRE alemão, de 35 bilhões de euros. E no final de semana os líderes dos quatro grandes países da Europa – Alemanha, França, Itália e Grã-Bretanha – convocaram uma reunião de cúpula global de emergência para o próximo mês. Uma lição para os ministros das Finanças: procurem não irritar os deuses.

O crescimento da França no terceiro trimestre baixou de 0,7%, no terceiro trimestre do ano passado, para 0,4% em cada um dos dois trimestres seguintes, depois tornou-se negativo em 0,3% no segundo trimestre deste ano. Christine Lagarde, a ministra das Finanças, prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) sofrerá nova contração no terceiro trimestre. O que equivale tecnicamente a uma recessão: dois trimestres consecutivos de resultados em queda.

A Itália teve um desempenho ainda pior. O PIB caiu tanto no quarto trimestre de 2007 quanto no segundo deste ano, empurrando a taxa de crescimento anual já anêmica para zero. Na França, é 1,1% e na Grã-Bretanha, 1,4%. A Alemanha obteve o melhor desempenho das quatro principais economias da Europa, mas também está reduzindo o crescimento, porque a demanda de suas exportações foi afetada pela crise global. A produção alemã caiu 0,5% no segundo trimestre, empurrando sua taxa anual de crescimento para 1,7%.

Em comparação, a expansão anual dos Estados Unidos é de 2,2%, embora seu forte desempenho no segundo trimestre se devesse a um corte único dos impostos de US$ 150 bilhões, e agora a economia pareça estar baixando seu ritmo ainda mais rapidamente. Há evidências de que em todo o mundo desenvolvido está havendo uma redução do ritmo, e isto ocorre nos países que seguem tanto o modelo da Europa continental quanto o anglo-saxônico: nos países em que surgiram bolhas no mercado da habitação, e nos que não houve bolha; nos países que adotaram o euro assim como nos que não o adotaram. A Espanha, por exemplo, está na união monetária, mas na sexta-feira anunciou uma ampla queda de 7% da produção industrial e apresenta um aumento acentuado do desemprego.

Três pesquisas realizadas na semana passada entre gerentes de compras na Grã-Bretanha – nos setores da manufatura, serviços e construção – advertiram que há uma recessão. A primeira reunião do gabinete da guerra econômica de Gordon Brown, realizada ontem, havia muito o que discutir.

O quadro é variado no que se refere a Islândia, Noruega e Suíça, que não fazem parte da União Européia. A Islândia está numa situação calamitosa, a confiança em seu sistema bancário em frangalhos e a economia já em marcha a ré acelerada. A Noruega, graças à alta do preço do petróleo, cresce a 3,3%, 1 ponto porcentual acima da Suíça.

Não é fácil enxergar através dessa névoa estatística, mas é possível tirar algumas conclusões. A primeira delas é que nenhum país do mundo desenvolvido ficará imune à crise. A segunda é que os seus efeitos para a “economia real” demoraram para se fazer sentir, mas agora estão se intensificando.

A este respeito, as medidas – ou a falta de medidas – do Banco Central Europeu são curiosas. Ao contrário do Federal Reserve (Fed, banco central americano) ou do Banco da Inglaterra, o BCE decidiu que o aumento da inflação, este ano, causado pelo aumento dos preços do petróleo e dos alimentos , merece a elevação das taxas de juros.

Agora, a inflação está caindo e, a julgar pelos comentários de Jean-Claude Trichet, seu presidente, o BCE pretende abrandar sua estratégia até o início de 2009, quando haverá abundantes evidências de que Europa, Japão e Estados Unidos estão em recessão, e isto terá um efeito enorme para a Grã-Bretanha, onde 50% das exportações vão para o restante da Europa. Entre os presidentes dos bancos centrais. talvez Mervyn King seja o que mais se aproxima dele.

Queimar lentamente Uma terceira conclusão é que o efeito do enfraquecimento lento do sistema bancário europeu provavelmente tem mais a ver com as diferenças nos sistemas contábeis do que com a maneira como é administrado. Como Steinbrueck sabe muito bem, os bancos alemães imitaram seus equivalentes britânicos e americanos no cassino subprime e fizeram as mesmas apostas questionáveis em derivativos arriscados. O que aconteceu foi que demorou mais tempo para os prejuízos aparecerem.

Uma quarta observação – novamente bastante óbvia – é que a zona do euro continua um híbrido. É uma união monetária, mas não uma união política, e portanto, países como a Irlanda tiveram de se arranjar sozinhos na operação de resgate dos bancos em dificuldades. Há uma nítida distinção entre os Estados Unidos, onde o governo tem peso financeiro em todos os 50 Estados, e a União Européia.

Convocar uma cúpula global não é a mesma coisa que fazer algo concreto, e Angela Merkel deixou claro que a Alemanha não ajudará bancos malandros de outros países da União Européia. O Banco Europeu de Investimentos decidiu liberar uma ajuda de emergência de 12 bilhões de libras esterlinas (US$ 2 bilhões) para as pequenas empresas, mas dada a dimensão e a escala da crise da União Européia, a quantia é insignificante.

No longo prazo, as uniões monetárias não sobrevivem sem uma união política, e portanto a quinta conclusão é que há pressões tanto para uma integração maior quanto para a desintegração. A crise poderá fortalecer os que argumentam que as medidas corretivas são intrinsecamente instáveis e continuarão assim até que haja uma união fiscal e monetária. Por outro lado, a crescente ameaça de recessão poderá levar alguns países a questionarem se valerá realmente a pena continuar numa união monetária.

Charles Goodheart, da School of Economics de Londres, observou na semana passada que nos últimos anos houve variações extremas na competitividade, nos custos da mão-de-obra e nas balanças comerciais em toda a zona do euro. As preocupações do BCE com a inflação só poderão ser corrigidas pelos países que registram grandes déficits da conta corrente, como a Espanha, ou que sofrem de uma profunda falta de competitividade, como a Itália, crescendo mais lentamente e reduzindo o padrão de vida. Evidentemente, estas não serão medidas populares.

Goodheart conclui que, se tivessem de decidir agora, alguns membros da união monetária votariam contra seu ingresso.

Optar não aderir é muito diferente de decidir sair, e haveria consideráveis conseqüências para um país que voltasse a adotar sua moeda nacional em lugar do euro. Goodheart aponta para o risco de que a união monetária possa quebrar-se em 10% a 20%, o que é pouco, mas certamente não deixa de ser significativo.

*Larry Elliott é editor de Economia do jornal britânico ‘The Guardian’

03/10/2008 - 11:01h A crise cruzou o Atlântico e já se infiltrou na Europa

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Gilles Lapouge* – O Estado de São Paulo

A crise financeira mudou de natureza. Oito dias atrás apenas, era uma crise polida, respeitosa. Devastava os Estados Unidos, mas não entrava na Europa. Por duas razões: primeiro porque Wall Street é um ninho de loucos, irresponsáveis e egoístas. Depois, os bancos europeus são maravilhas, verdadeiras relojoarias suíças, sólidos, eternos. Esses tempos misericordiosos acabaram. A crise, insensível a discursos e fronteiras, se infiltrou na Europa. Bancos começaram a cair.

Os governos ficaram surpresos. Taparam os buracos, mas isso não bastou. Vários bancos grandes cambaleiam. Aí a Europa despertou. Sua sorte é que o presidente em exercício da União Européia (UE) é o presidente francês Nicolas Sarkozy, famoso por seu “olho de águia”. E, de fato, anteontem Sarkozy se pôs em campanha, com grande estardalhaço, dizendo que o capitalismo precisava ser “reinventado”. Convocou para sábado, em Paris, seus parceiros europeus do G-8 (Alemanha, Inglaterra e Itália), além da Comissão de Bruxelas e do Banco Central Europeu (BCE).

Infelizmente, em vez de felicitarem Sarkozy, os outros europeus acharam que ele estava fazendo demais. ” Mais um show de Sarkozy! As palavras não servem de nada. Precisamos de atos”, resmungaram. Sarkozy, muito espantado, quis mostrar que a reunião de sábado não seria um simples show. Ele havia costurado um plano arrasador contra a crise. De noite, um despacho da agência Reuters revelava o plano: criação de um “fundo federal” de 300 bilhões para ajudar os bancos enfermos.

Esse despacho saiu às 18h 27. Sete minutos depois, o ministro alemão das Finanças, Peer Steinbrück, dava sua breve resposta: “Não!” E o plano francês entrava pelo ralo.

A França, apoiada pela Bélgica, a Holanda e o BCE, queria que a crise fosse tratada com um “fundo europeu centralizado”. Esse sistema desagrada os alemães, favoráveis à “desconcentração dos poderes” na Europa. A Alemanha sempre foi contrária ao conceito francês de “governo econômico europeu”, e mais contrária ainda a um “orçamento europeu”.

Essas rixas entre os Estados europeus são muito graves, não só no âmbito financeiro como no político. É a construção européia, e, principalmente, sua mais bela conquista, a moeda comum que estão em risco. Há dez anos, quando o euro foi lançado, algumas vozes importantes disseram que ele estava condenado ao fracasso.

Por quê? Porque a carroça da moeda única tinha sido colocada à frente dos bois das instituições comuns. No entanto, o euro foi um sucesso. Ele rivalizava com o dólar e era gerido brilhantemente pelo BCE. Mas, no primeiro solavanco sério, a Europa se atrapalha. Agora que os bancos europeus se aproximam do abismo, a França e a Alemanha se desentendem e bloqueiam qualquer solução à altura do perigo.

Alguns dias atrás, os europeus zombavam dos americanos, incapazes de adotar o Plano Paulson. Hoje, a situação se inverte. O Plano Paulson está em marcha e a impotência, a cizânia, cruzaram o Atlântico.

A disputa entre Paris e Berlim é inquietante. A explosão da UE em vários clãs antagônicos é simbólica de suas fraquezas. Para além do salvamento dos bancos, é a própria construção européia que está à prova.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

30/09/2008 - 14:10h Est-ce la fin du capitalisme financier de type anglo-saxon ? Six économistes répondent

Six économistes pensent que la crise économique est majeure mais tous n'en concluent pas qu'un renforcement de la régulation financière soit une nécessité.
AP/Richard Drew – Six économistes pensent que la crise économique est majeure mais tous n’en concluent pas qu’un renforcement de la régulation financière soit une nécessité.

par Claire Gatinois et Yves Mamou – Le Monde

Daniel Cohen, professeur à l’Ecole normale supérieure

Toute la finance de marché doit être remise à plat. L’attention des régulateurs, depuis la crise de 1929, avait essentiellement porté sur les banques commerciales. La panique des déposants ayant été le principal vecteur de la crise financière des années 1930, la régulation s’est concentrée sur les banques de dépôt. Et cela a plutôt bien fonctionné. On n’observe aucune crise majeure du système bancaire américain après guerre.

L’un des buts principaux de la finance de marché a été de sortir de l’habitat réglementaire imposé aux banques. Les règles classiques imposent aux banques de détenir un dollar de capital environ pour 12 dollars de crédit. La finance de marché a permis à ses acteurs d’accorder 32 dollars de crédit pour un dollar de capital ! Les banques d’investissements, les hedge funds, les compagnies d’assurances ont profité des mailles de la régulation pour accroître le volant de leurs opérations. Les banques commerciales ont, de leur côté, créé des “véhicules” logés hors bilan pour s’affranchir (légalement) de la réglementation. Le résultat, on le connaît maintenant. Les 700 milliards de dollars que le gouvernement américain veut injecter dans le système en est le prix.

Tout le travail des prochaines années consistera à élaborer des règles qui remettront le dentifrice du capitalisme financier dans son tube. Il faudra imposer des règles prudentielles nouvelles à l’ensemble des acteurs, réguler la titrisation des créances, surveiller les agences de notations, réviser les normes comptables… Cette remise à plat concernera tous les pays. Un rôle “en or” pour le FMI…

Nicolas Baverez, économiste-historien

L’expression “capitalisme financier de type anglo-saxon” laisse entendre que seuls les Etats-Unis, la Grande-Bretagne et l’Irlande seraient en crise. En réalité, le choc ébranle le capitalisme mondialisé, dont la finance était la pointe avancée. Les pays qui épargnent et exportent comme la Chine, l’Allemagne ou le Japon sont touchés : l’excédent chinois diminue déjà, tandis que Chine, Russie ou Brésil volent au secours de leurs banques.

Nous assistons à une déflation par la dette comme en 1929 : l’éclatement d’une bulle de crédit mène à une contraction violente des patrimoines et des revenus, de l’activité et de l’emploi.

Deux grandes leçons se dégagent de la déflation des années 1930 : enrayer la cascade des faillites bancaires ; privilégier des solutions coopératives au plan international pour éviter la spirale des barrières protectionnistes et des dévaluations compétitives.

Aujourd’hui, le sauvetage des banques est engagé, mais sur une base nationale. La coopération internationale est inexistante, à commencer par le dialogue entre la Fed et la BCE. Ces politiques du “chacun pour soi” impliquent un coup d’arrêt à la mondialisation, à l’intégration des marchés et à l’ouverture des sociétés.

Le capitalisme sortira profondément transformé de cette crise : priorité à la sécurité sur le risque, avec une diminution de la croissance potentielle ; rééquilibrage entre l’Etat et le marché ; retour en grâce de l’industrie au détriment de la finance ; changement du modèle économique des banques avec une concentration des acteurs et un recentrage sur la banque commerciale ; déclin relatif des pays développés – notamment des Etats-Unis – et accélération du passage à un système économique multipolaire et hétérogène.

Nouriel Roubini, professeur d’économie à l’université de New York, président de Roubini Global Economics Monitor

La crise est le résultat des excès du libéralisme et du “laisser-faire” de ces dix dernières années. Les régulateurs ont cru aux vertus du marché libre et de l’autorégulation. Leur jugement était inapproprié. La leçon est claire : nous avons besoin d’une meilleure régulation. Aujourd’hui, le paradoxe est que, pour résoudre ces excès, l’Etat américain vire dans l’excès inverse. Il injecte tantôt 200 milliards de dollars pour nationaliser Freddie Mac et Fannie Mae, les deux géants du refinancement hypothécaire, tantôt 85 milliards pour recapitaliser l’assureur AIG. Les “USA” deviennent l’”URSSA”, l’Union des républiques socialistes soviétiques d’Amérique. Le gouvernement prend dans la précipitation des décisions lourdes de conséquences. On a le sentiment d’être dans une république bananière ! On passe ainsi d’un extrême à l’autre. La bonne voie est au milieu, avec une régulation plus stricte qui n’empêche pas l’innovation. On y arrivera sans doute après quelque temps.

Le “Far West” sauvage (de la finance) appartient-il au passé ? Il faut être prudent. D’ici à quelques années, on aura peut-être tout oublié. On a vécu beaucoup de crises : celle des années 1980, la récession des années 1990, l’éclatement de la bulle Internet en 2001. A chaque fois, une bulle se reforme avec de l’argent facile et des régulateurs qui s’endorment. Nous verrons !


Dominique Plihon, universitaire, président du conseil scientifique d’Attac

La crise actuelle signe la faillite d’un capitalisme financier de spéculation et de prédation préjudiciable à la société. Les pays d’Europe qui se sont le mieux coulés dans les règles de ce capitalisme financier – l’Irlande et l’Espagne – sont ceux qui souffrent le plus.

Les banques centrales et les autorités de tutelle ont laissé faire. Jean-Claude Trichet, président de la BCE, ne pouvait ignorer les achats massifs des banques sur des titres risqués sur des marchés de gré à gré opaques et non régulés.

Ce capitalisme-là va devoir être réformé en profondeur. De nouvelles règles vont devoir être instaurées. Nous, altermondialistes, réclamons depuis longtemps un encadrement des acteurs financiers. Puisque le mouvement de nationalisation des banques est lancé, pourquoi ne pas constituer des pôles publics de développement, pays par pays, pour financer des projets qui étayent une croissance à long terme ? Rien n’empêche non plus une coordination au sein de l’Union européenne.

On peut objecter que les nationalisations bancaires du début des années 1980 ont été un échec, mais la faute en revient aux gouvernements qui ont imposé aux banques les mêmes règles de rentabilité que le secteur privé.


Pascal Salin, professeur à l’université Paris-Dauphine

Le capitalisme financier n’est pas seulement anglo-saxon. Il est universel et a de beaux jours devant lui, tout simplement parce qu’il n’est pas une création arbitraire, comme pouvait l’être un système de type soviétique. Ce capitalisme-là est l’expression d’innombrables processus spontanés créés pour répondre aux besoins des êtres humains. Il remplit deux fonctions fondamentales : orienter les ressources d’épargne vers les activités où elles obtiennent la plus forte rentabilité et prendre en charge les risques de la manière la plus efficace. Certes, le capitalisme financier ne peut pas remplir ces fonctions de manière parfaite, parce que l’information ne peut jamais être parfaite. Mais il les remplit mieux que n’importe quel autre système imaginable.

Les difficultés actuelles ne sont en rien une manifestation de la faillite de ce système. En effet, la crise financière est essentiellement une crise de l’interventionnisme étatique. Elle résulte en particulier de l’extraordinaire instabilité de la politique monétaire américaine au début du XXIe siècle, politique monétaire qui n’est évidemment pas contrôlée par le marché, mais décidée arbitrairement par des autorités publiques.

Pour que ce capitalisme financier prenne fin, il faudrait ou bien que tout le système financier soit étatisé – ce qui est exclu – ou qu’il explose parce qu’il constituerait un système incohérent, ce qui n’est pas le cas. Sur le long terme, la crise actuelle apparaîtra comme un simple accident de parcours qui aura peut-être permis de liquider les entreprises financières les plus mal gérées et d’inciter les autres à mieux évaluer les risques. La plus grande menace vient du renforcement probable des réglementations.

Pierre-Alain Muet, économiste et député PS du Rhône

Il est essentiel de réintégrer, dans le champ de la réglementation et du contrôle, les activités de crédit effectuées par des organismes non bancaires, car ce sont ces fonds spéculatifs non régulés qui sont à l’origine des crises financières récentes.

Il faut imposer une obligation de transparence sur les produits financiers et sur le niveau des fonds spéculatifs détenus par les banques.

Il faut enfin, comme c’était le cas autrefois, séparer les activités de banques de marché de celles des banques commerciales.

La titrisation, c’est-à-dire la possibilité laissée à un créancier de se défaire de la totalité de sa créance, entraîne une forme d’irresponsabilité. Les fonds spéculatifs ont prêté sans tenir compte du risque sachant qu’ils arriveraient à se défausser de ce risque sur un tiers. Pour éviter cette dissémination du risque, il faut, d’une part, appliquer les règles définies dans les accords de Bâle II de la Banque des règlements internationaux en réintégrant la titrisation dans le bilan des banques et, surtout, obliger le premier créancier a conservé pour lui-même 30 % à 40 % du risque sur le prêt initial. Tout organisme autorisé à prêter serait ainsi obligé d’évaluer son risque comme un banquier doit le faire.

En bref, il faut revenir en partie à une économie d’intermédiation et sortir d’une économie de marché financier ou les effets de levier sont trop importants.

Les agences de notations ont certes une responsabilité, mais la régulation et le contrôle relèvent aussi de l’Etat vers qui tout le monde se tourne quand ca va mal. Le contrôle des organismes de marché, c’est le retour de l’Etat.

02/07/2008 - 08:53h De 18 países, só Brasil e Canadá estão dentro da meta de inflação

O jornal O Globo teve o mérito de destacar que o Brasil é quem melhor resiste a pressão inflacionária internacional. Mesmo assim, percebam o “por enquanto” na manchete e o “ainda” no lide. O alerta de Delfim mostra que pouco importa para alguns se a inflação atinge o bolso dos mais pobres (fizeram um barulho pelo aumento do Bolsa-família em 8%). Esses até torcem para que a inflação derrube a estabilidade e os objetivos da meta determinada pelo Banco central e pelo governo federal. Mas os fatos são os fatos. A seguir o artigo do jornal O Globo. LF

http://www.aguiareal.com.br/496/dragao_inflacao.jpg

Dentro da meta. Por enquanto

De 18 países, só Brasil e Canadá ainda estão dentro da margem de erro para inflação

Fabiana Ribeiro e Aguinaldo Novo – O GLOBO

RIO e SÃO PAULO A inflação mundial coloca em xeque os sistemas de metas fixados pelos governos.
Num levantamento com 18 países, pela consultoria Tendências, apenas Brasil e Canadá não ultrapassaram as metas de inflação estabelecidas para o ano. Mas isso, alertam alguns economistas, por enquanto. O Brasil acumula nos últimos 12 meses terminados em maio variação de 5,6%, para uma meta de 4,5% com tolerância de dois pontos percentuais.
Ou seja: pode, já em junho, exceder esses limites.
Especialistas, contudo, não são unânimes na hora de apontar soluções para a questão.

— A cada mês, algum país sai da zona do conforto. Ao longo do ano, Brasil e Canadá também. Ainda assim, a política de metas funciona e vai depender das ações dos bancos centrais de elevar as taxas de juros — disse Marcela Prada, economista da Tendências.

Conter a inflação é o maior desafio dos bancos centrais do mundo hoje. O Banco Central Europeu (BCE) deve subir juros amanhã para combater a alta dos preços. Em 15 dos 27 países da União Européia, o índice subiu 4%, nos últimos 12 meses até junho — contra meta de 2%.

— Soluções individuais não ajudam. Juntos, os países devem subir juros para frear o crescimento, o que faria os preços das commodities ceder, acomodando a inflação — disse Roberto Padovani, estrategista de investimentos para a América Latina do WestLB do Brasil.

Na avaliação de Jason Vieira, economista da UpTrend, elevar a taxa de juros não resolveria o problema do mundo. Para ele, a medida adia a valorização do dólar e alimenta ainda mais a inflação. Somente é eficaz em países em que a inflação é provocada pela demanda (pressão de consumo) — caso da Alemanha, citou ele.

— O aperto monetário detém o crescimento econômico. É preciso atuar na causa e não na doença. Então, incentivo de políticas mais sustentáveis na agricultura, medidas de desoneração para o setor seriam um dos caminhos. A inflação atual coloca em xeque todos os paradigmas clássicos de macro e microeconomia do sistema monetário.

Inflação gera pobreza mundial

O economista da FGV Paulo Picchetti afirma que, mesmo sem ter deixado de sofrer os efeitos das altas dos preços, o Brasil vem sendo citado como grande exemplo de boa condução de política monetária, porque se antecipou aos demais países no processo de elevação dos juros. Para ele, no entanto, ainda é pouco.

— Estamos vivendo uma crise de oferta (de produtos), e não se combate isso apenas com política monetária. É preciso haver também uma redução da demanda agregada, principalmente dos gastos correntes do governo. Sem uma combinação correta de política monetária e fiscal não enfrentaremos essa questão — disse ele, acrescentando que, sem juros altos e corte de gastos, a indexação pode voltar.

A inflação traz mais do que aumento do custo de vida. Especialistas dizem que o novo patamar dos preços pode ampliar a pobreza.

— Parte da demanda por commodities traduz o aumento da demanda por comida. O desenho atual não comporta aumento no consumo de alimentos. Infelizmente, para o mundo continuar crescendo, muita gente precisa passar fome — arremata Vieira.