06/04/2009 - 14:09h Brazuca em Paris

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Severino Francisco – Correio Braziliense

Severinofrancisco.df@diariosassociados.com.br

“Vou voltar, vamos comigo?”, perguntou a namorada francesa, de passagem pelo Brasil. E, sem pensar muito, meio na louca, o brasiliense Daniel Carrielo se mandou para Paris com Charlote, a namorada francesa. Certo dia, encontrou numa banca uma revista sobre cultura brasileira, intitulada Brazuca. Na edição seguinte, ele já era o cronista de Brazuca. E, três meses depois, tornou-se o editor. Sem desmerecer o Itamaraty, a revista faz um pouco o papel de embaixadora do Brasil na França.

Brazuca tem uma tiragem de 20 mil exemplares e é feita, principalmente, para belgas e franceses apaixonados pela cultura brasileira. Não é uma revista de comunidade, dirigida apenas aos brasileiros. O que a revista pretende passar é uma visão diferente do Brasil, longe dos estereótipos. Por isso, ela entrevistou o compositor Tom Zé, o jogador Nilton Santos, a atriz Brigitte Bardot e o diretor de cinema Fernando Meirelles. No ano passado, logo após um show do Gilberto Gil na França, Daniel levou a revista para que ele a conhecesse: “Ah, é a Brazuca? Já conheço, gosto dela”, comentou Gil.

No ano passado, Brazuca foi além do papel e lançou virtualmente duas coletâneas de música brasileira. A primeira foi do rock independente, em parceria com o site Senhor F. E a segunda foi com a produtora, selo e festa Criolina, com as novidades do groove brasileiro. Ambas tiveram um alto índice de downloads.

O Nélson Rodrigues escreveu uma crônica hilária sobre a passagem do filósofo francês Jean-Paul Sartre pelo Brasil. Segundo a ótica delirante do Nelson, Sartre olhava para todos os brasileiros com um franco desprezo, como se dissesse: “Vocês são todos uns cretinos”. Aí alguém trouxe um balde de jaboticabas e o Sartre passou a mirar as frutas com o mesmo asco: “Vocês também são umas cretinas”.

Embora achando graça na história, Daniel discorda inteiramente do Nelson, pois os franceses são fascinados pelo Brasil e pela cultura brasileira. O brasileiro tem uma ginga que o francês não tem, argumenta Daniel. Essa ginga pode ser representada por manifestações culturais como o samba, a capoeira, o funk. Pelo drible no futebol. Ou pela capacidade que o brasileiro tem de se adaptar rapidamente às situações imprevistas, o famoso jogo de cintura. Os franceses gostam de samba, de Cartola, de Beth Carvalho, de Bossa nova, de Cinema Novo, de Glauber Rocha. Mas, atualmente, o brasileiro que reina na França é o pernambucano Lenine.

Morar na França fez com que Daniel olhasse Brasília com novos olhos. No mês passado, ele estava dirigindo e, de repente, deu de cara com a Catedral. Foi um choque estético, pois precisou estar longe do Brasil para perceber o quanto a Catedral é bonita. Mas, por outro lado, ele também se deu conta do enorme equívoco de se conceder tanto espaço para os carros em Brasília. Em Paris, o transporte público é excelente, com 14 linhas de metrô e 20 mil bicicletas públicas. Alargar avenidas não resolve o problema. A solução é investir no transporte público como uma prioridade, sentencia o brazuca e brasiliense desgarrado em Paris.