23/03/2009 - 20:32h Será possível perdoá-lo?

Declarações de Bento XVI sobre a ineficácia do preservativo chocam os ativistas antiaids em Angola

 

José Eduardo Agualusa* - O Estado de S.Paulo

 


- Como o papa Bento XVI fez questão de recordar, mal desembarcou em Luanda, na manhã de sexta-feira, 20 de março, Angola começou a ser cristianizada vai para 500 anos. O país alberga, pois, uma das mais antigas comunidades católicas da África ao sul do Sahara.

Após começo problemático, o papa chamou a atenção para a pobreza no país

Ao longo destes cinco séculos a presença da Igreja Católica em Angola teve bons e maus momentos. A Igreja apoiou a escravatura e o tráfico negreiro, e acendeu as fogueiras da Inquisição. O caso mais notável terá sido o de d. Beatriz Kimpa Vita, a qual depois de visitada em sonhos por Santo Antônio, criou seu próprio culto. Foi queimada em 1706. O escritor angolano Henrique Abranches publicou um interessante romance sobre a vida e a morte de d. Beatriz: Misericórdia para o Reino do Congo (D. Quixote, Lisboa). A queima de feiticeiras transformou-se numa tradição que, desgraçadamente, continua a ser praticada nos nossos dias. Um dos episódios mais brutais, mais estranhos, mais difíceis de explicar, da longa guerra civil que Angola viveu, foi o da queima, numa cerimônia pública, de um grupo de mulheres, e uma criança, acusadas de feitiçaria, cerimônia esta promovida e presidida pelo falecido dirigente das forças de guerrilha, Jonas Savimbi. Mais uma vez a literatura guardou testemunho do episódio num romance assinado por José Sousa Jamba, ele próprio um antigo guerrilheiro da Unita: Patriotas (Publicações Cotovia, Lisboa).

Já no século 20 a Igreja Católica distinguiu-se positivamente no apoio ao ensino e às populações mais carentes. Não por acaso a única estátua de uma personalidade portuguesa que não foi apeada nem vandalizada em Luanda, após a independência, é a que representa monsenhor Alves da Cunha, fundador do primeiro estabelecimento de ensino médio na capital angolana e inimigo acérrimo de todas as formas de escravatura que no início do século passado ainda sobreviviam no território.

Não surpreende que entre os fundadores do moderno movimento nacionalista angolano estivessem homens da Igreja. O primeiro levantamento armado contra o regime colonial, a 4 de Fevereiro de 1961 – operação quixotesca destinada a libertar um grupo de nacionalistas detidos em Luanda -, foi pensado e preparado por um angolano de pele clara, o cônego Manuel das Neves, personagem que o MPLA, partido no poder em Angola, ignorou durante todos os anos em que defendeu posições marxistas. Joaquim Pinto de Andrade, primeiro presidente do MPLA – preso após a independência por se opor à liderança de Agostinho Neto – também vestiu batina.

Durante os anos da guerra muitos intelectuais ligados a correntes pacifistas, e a grupos da oposição não belicista, acusaram a Igreja Católica, e os seus principais responsáveis em Angola, de não terem querido ou sabido utilizar todo seu poder – que era então imenso – para aproximar as partes desavindas. É difícil não concordar com eles. A Igreja Católica pecou por omissão, por covardia, não obstante a coragem com que muitos padres e freiras se esforçaram por socorrer as vítimas.

Nos últimos anos a Igreja Católica vem perdendo crentes para uma constelação de cultos evangélicos, alguns deles de matriz brasileira. Esta deserção em massa aflige a hierarquia da Igreja e explica, ao menos em parte, o fato de Angola ter sido um dos dois países africanos escolhidos por Bento XVI para sua primeira visita ao continente. Infelizmente, a visita não começou bem. As declarações do papa sobre a utilização da camisinha – segundo o Sumo Pontífice, não só não previne como contribui para a propagação da pandemia!- chocaram os responsáveis pelas campanhas de combate ao vírus da aids.

A prolongada guerra civil, ao dificultar a entrada de pessoas infectadas com o vírus da aids provenientes dos países vizinhos, explica o número relativamente baixo de angolanos atingidos pela doença. Sete anos após a morte de Jonas Savimbi e do final da guerra civil, porém, esse número vem crescendo de forma alarmante, em particular nas povoações de fronteira. Convém recordar que em países como Botsuana, ao sul de Angola, mais de metade da população está infectada. À luz desses números, as declarações de Bento XVI parecem ainda mais insensatas, senão mesmo criminosas. Acrescente-se que na maioria dos países africanos, incluindo Angola, existe uma grande resistência à utilização da camisinha. Nos meios rurais persiste a convicção de que a mulher tem o dever de partilhar o destino do seu marido – morrendo com ele.

Para os mais otimistas, as infelizes declarações do papa Bento XVI sobre a utilização da camisinha serviram ao menos para chamar a atenção do mundo no que diz respeito ao imenso drama que a África vive. Merece realce, por outro lado, o discurso de bento XVI no palácio presidencial, após uma audiência privada com José Eduardo dos Santos. O Sumo Pontífice atacou a corrupção e a extrema desigualdade social: “Não nos podemos esquecer que há tantos pobres em Angola que reclamam o respeito pelos seus direitos. Não nos podemos esquecer dos que vivem abaixo do limiar da pobreza. Não os desiludam. Angola deve partilhar as suas riquezas materiais e espirituais em benefício de todos”. Recorde-se que dois terços dos angolanos vivem com menos de US$ 2 por dia, num país com apenas 16 milhões de habitantes, e que é o maior produtor de petróleo da África negra, e o terceiro maior produtor de diamantes do mundo. Diante do papa, manifestando certo desconforto, perfilavam-se algumas das maiores fortunas do país.

*Escritor angolano autor de sete romances, entre os quais O Vendedor de Passados, Manual Prático de Levitação (Gryphus) e As Mulheres do meu Pai (Língua Geral)

19/03/2009 - 15:12h Integrismo

http://www.fundamig.org.br/2008/arquivos/image/aids.jpg papa_preservativos.jpg
 O Globo

12/09/2007 - 10:35h Bento 16 e o padre polonês anti-semita, por Elio Gaspari

A rádio Maria informa: em Auschwitz não era um campo de extermínio, mas um centro de trabalho

O PAPA BENTO 16, tão rigoroso na condenação da igreja esquerdista latino-americana, meteu-se numa das piores controvérsias que podem assombrar um pontificado: o anti-semitismo do clero polonês. Na semana passada ele se deixou fotografar com o padre Tadeusz Rydzyk durante uma audiência coletiva em sua casa de verão de Castelgandolfo.
Monsenhor Rydzyk carrega nas costas a rádio Maria, uma das emissoras católicas de maior audiência no país e vocaliza o reacionarismo xenófobo e obscurantista que manchou um pedaço da igreja na primeira metade do século passado.

Duas pílulas do pensamento vivo do padre Rydzyk, gravadas em abril:
Sobre o presidente da Polônia, Lech Kaczynski: “Um fraudador que está no bolso do lobby judaico”.

Sobre as reparações que o governo polonês pagará aos judeus espoliados e massacrados durante a Segunda Guerra Mundial: “Você sabe do que se trata. A Polônia dando bilhões aos judeus. (…) Eles vêm e dizem: “Me dá o teu casaco! Tire as calças! Passe-me teus sapatos’”.
Pelas ondas da rádio Maria os ouvintes já foram informados de que em Auschwitz não havia um campo de extermínio, mas apenas um centro de trabalho. As narrativas segundo as quais lá foram mortos 1,1 milhão de prisioneiros seriam coisa da “indústria do Holocausto”.

Antes do início da guerra havia 3 milhões de judeus na Polônia. Em 1945 restavam menos de 300 mil (2,5%). Pode-se argumentar que esses números estão na conta dos crimes no nazismo, mas o anti-semitismo europeu é um fenômeno anterior e posterior ao domínio da suástica. Nos 18 meses seguintes à capitulação da Alemanha foram assassinados mais judeus na Polônia, na Hungria e na Tchecoslováquia do que nos dez anos que antecederam a guerra.

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07/09/2007 - 15:38h Papa fala em Viena de ‘arrependimento’ católico pelo Holocausto

Reuters Portal O Globo

Em visita a Viena, o Papa Bento XVI fala em 'arrependimento católico' pela morte de judeus no Holocausto - Reuters

VIENA – Em visita à Áustria, o Papa Bento XVI disse nesta sexta-feira que a Igreja Católica queria mostrar arrependimento pelo que aconteceu com o povo judeu durante o Holocausto, na Segunda Guerra Mundial, quando nazistas mataram cerca de 6 milhões de pessoas. O pontífice, que ficará três dias no país, prestou uma homenagem no monumento de Judenplatz, em Viena, em memória dos 65 mil austríacos mortos por nazistas. Nascido na Alemanha, o Papa disse antes que sua visita mostraria “nossa tristeza, nosso arrependimento, nossa amizade com nossos irmãos judeus”.

As declarações do Papa -feitas a jornalistas, durante o vôo para a Áustria – foram vistas como um dos maiores esforços recentes de um pontífice para se aproximar dos judeus. Debaixo de chuva, ele encontrou-se no memorial com o rabino Paul Chaim Eisenberg e outros dos 7 mil judeus que ainda vivem em Viena. A cidade – encravada num país de maioria católica, que tem uma história turbulenta com a Igreja – já abrigou 185 mil judeus em 1938, pré-Segunda Guerra.

Para Abraham Foxman, diretor da organização judaica Liga Anti-Difamação, baseada nos EUA, as declarações do Papa foram bem recebidas:

Arrependimento é uma palavra forte, significativa no vocabulário católico. Eu acho que isso ajudará a reparar algumas tensões dos últimos meses.


16/05/2007 - 18:40h Benedicto XVI: fracaso del entendimiento

Editorial do jornal La Jornada de Mexico

La visita de Benedicto XVI a Brasil, en lo que constituyó su primer viaje a América Latina, ha sido, como podía esperarse, un rosario de fracasos: fue un fiasco de convocatoria, toda vez que la asistencia de feligreses a los actos presididos por el pontífice alemán quedó muy por debajo de lo esperado y, desde luego, no fueron ni la sombra de los encantamientos de masas que lograba en la región su carismático predecesor polaco.

Fue un fracaso institucional, en la medida en que Joseph Ratzinger no fue ideológicamente capaz de dar a la V Conferencia del Consejo Episcopal Latinoamericano y del Caribe (Celam) la perspectiva de modernización de la que tan urgida se encuentra la pastoral católica en esta parte del mundo.

Y, sobre todo, fue un fracaso del entendimiento: Benedicto XVI dio abundantes pruebas de que no comprende, o de que no le interesa, la acuciante problemática de los pueblos del subcontinente, y de que no está dispuesto a escuchar a quienes se la plantean, como su anfitrión Raymundo Damasceno Assis, obispo de Aparecida, quien le recordó a la máxima autoridad católica del mundo que los países latinoamericanos estamos “lejos de resolver nuestras graves cuestiones sociales, entre tantas otras, la miseria y la violencia”.

El subcontinente enfrenta dramas nunca resueltos, como la pobreza, la desigualdad, la insuficiencia educativa, la insalubridad, la corrupción de las elites gobernantes, la discriminación de los pueblos indígenas, la situación de catástrofe de la mayor parte de los campesinos, las persistentes afrentas a los derechos humanos y la desintegración del tejido social provocada por las políticas neoliberales; se encuentra, además, ante fenómenos de nuevo cuño, como la crisis de representatividad y legitimidad de las democracias formales; el incremento de la violencia delictiva, la eclosión de una diversidad social no prevista en los modelos institucionales y legales, y la creciente escisión entre propuestas económicas alternativas y con visión social, nacional y regional, por un lado, y la persistencia, por el otro, del recetario ideado por el llamado Consenso de Washington, puntualmente aplicado por gobiernos que se dicen formalmente democráticos, pero de orientación claramente oligárquica.

Con ese telón de fondo, los exhortos de Benedicto XVI a la preservación de supuestos “valores morales universales”, como la virginidad, la castidad y el matrimonio sacramental, su demonización del aborto y la eutanasia, así como la puerilidad de su única alusión al gravísimo problema del narcotráfico -”Dios les pedirá cuentas a los narcos”- resultan inevitablemente superficiales y hasta frívolas, por más que procedan de dogmas teológicos medievales.

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16/05/2007 - 09:39h Papa mostrou ‘fraquezas’ no Brasil, diz jornal alemão


Em editorial intitulado “As fraquezas do papa”, o jornal alemão Süddeutsche Zeitung comenta nesta quarta-feira o discurso final de Bento 16 no Brasil para afirmar que o “culto Joseph Ratzinger mostra fraquezas assustadoras em assuntos histórico-políticos”.
O jornal se refere à declaração do papa de que os povos indígenas na América Latina estavam “à espera do cristianismo” e de que a nova crença “não foi uma imposição” sobre os povos pré-colombianos.

“Então provavelmente no início de outubro de 1492, entre o México e a Terra do Fogo as pessoas ficavam olhando para o mar, pensando ‘Onde estão eles? Quando é que nós índios finalmente vamos poder ser cristãos?’”, ironiza o jornal.

Segundo o jornal, Bento 16 acabou “neutralizando o pedido de desculpas feito por João Paulo 2º pelas atrocidades cometidas em nome de Jesus contra os moradores da América Central e do Sul”.

Indignação

O jornal alemão diz que “ao espiritualizar o resultado de morte, assassinato e exploração”, o papa acabou passando a mensagem de que “no final das contas, os sobreviventes aceitaram Cristo, e tudo bem”.

O editorial diz que o papa causou indignação entre os povos indígenas, assim como causou a revolta de muçulmanos com o discurso de Regensburg.

BBC
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