08/11/2009 - 12:23h Brasil se antecipa e desfaz política anticíclica

Alberto Tamer* – O Estado SP

Afinal, retira-se ou não a política de incentivos à economia para sair da recessão? Esse é um dilema dos países ricos. Do Brasil, não. Nós já estamos desfazendo as medidas anticíclicas em ordem, com redução de juros e impostos. Eles voltam aos poucos, de forma gradual e seletiva, sem afetar a demanda e aumentando a arrecadação. Mas a pergunta, quase acadêmica, voltou no cenário mundial, este fim de semana, com a reunião dos ministros das Finanças do G-20, na Escócia.

Barack Obama e Ben Bernanke dizem que não. O Banco Central Europeu diz que sim. Chega de ajuda ao sistema financeiro a partir do próximo ano, afirmou o seu presidente Jean-Claude Trichet, na quinta-feira. E só não aumentou os juros por pressão dos governos, principalmente da França. O juro permanece em 1%, com sinais de alta. O BCE tem medo da inflação que não é inflação, mas deflação. Menos 0,3% em setembro.

Nos EUA, o desemprego de 10,2% se antecipa às previsões. Não era para acontecer agora, mas no início do ano. Janeiro ou fevereiro. Preocupa, mas era esperado, pois a economia, que havia dado um salto no último trimestre, continua frágil. Ainda não se sustenta.

O governo estava preparado. No mesmo dia em que se anunciou esse índice, Obama estendeu os benefícios federais aos desempregados, que se acumulam aos estaduais, e prorrogou medidas de estímulo ao setor imobiliário. A Casa Branca informou também que novas medidas anticíclicas estão sendo estudadas e poderão ser anunciadas em breve.

Um dia antes, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), também veio a público para informar que não muda a política monetária, vai manter ainda por algum tempo o juro básico em torno de 0,25%, praticamente negativo em termos reais. Vai continuar ativo na compra de títulos do Tesouro e imobiliários. Ou seja, mais dólares vão entrar no mercado.

Para Obama e Bernanke, a economia só reage com mais estímulos. Tudo o mais, déficit, dívida, fica para depois

Na Europa, nada muda, apesar de o desemprego já estar em 9,7%, e a inflação crescendo. Não seria grave se ela não tivesse o mesmo que os EUA no Produto Interno Bruto (PIB) mundial. US$ 14 trilhões.

Quem está certo, os americanos ou os europeus? Trichet ou Bernanke?

É isso que estava na pauta da reunião dos ministros do G-20, encerrada ontem. Foi a terceira do ano ? um balanço com resultados previsíveis. A conclusão é que vão continuar estimulando a economia, mas cada um do seu modo. Só que isso não funciona porque alguns querem agir mais, outros menos. E a economia mundial vai continuar se arrastando ainda por muitos e muitos meses.

RETOMADA NÃO CONVENCE

Eles deveriam ouvir quem não foi ouvido no passado, e acertou ao prever a recessão: Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York. Para ele, a retomada é ainda incerta e não se mantém porque está sendo sustentada pelos estímulos fiscais e monetários, gastos dos governos e pela política de juros baixos. Quanto dura? Roubini arrisca. Quando muito, não mais de seis meses. É mais ou menos o prazo para que os estímulos do governo não se transformem em déficits insuportáveis. Em determinado momento, o setor privado, as empresas, terão de substituir o governo. Há ainda muitos desequilíbrios. O mercado financeiro está se recuperando mais rapidamente que a atividade econômica. Sinal, o desemprego continua aumentando. E permanece a pergunta. Quando o governo deve começar a sair? Roubini não responde, mas insinua que o setor privado ainda não está preparado. E cabe aos governos dos países desenvolvidos continuar a tarefa de prepará-los. Só devem tentar administrar melhor seus déficits. E antecipar-se a bolhas previsíveis.

QUEM ESTÁ CERTO?

Acho que nós. Estamos indo devagarzinho nas duas frentes, fiscal e monetária. Sem a ousadia dos dias que antecederam a crise e se enfrentou, com êxito, a recessão. Agora, não há pressa. O governo está começando a remover as medidas anticíclicas de forma gradual. Na área tributária, com o restabelecimento do IPI no setor automobilístico, o mais afetado pela crise. Nessa área, grande empregadora de mão de obra, evitou-se o pior. Mas esse imposto está sendo restabelecido gradualmente para que empresas e compradores se adaptem à nova realidade. E a realidade é uma economia na qual o crédito volta, o desemprego recua e o rendimento das famílias aumenta. No final da linha, isso vai representar maior arrecadação.

O mesmo está sendo feito ainda com mais cuidado na linha branca por causa do seu componente social.

Na área monetária, lembra Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, o Banco Central mantém sua posição, também com medidas graduais, sem precipitações. Reduziu o juro básico para 8,75% e o mantém nesse nível.

Não temos pressa porque nos apressamos antes, aproveitando um terreno já preparado no governo anterior e neste. A inflação caiu de 12,5% em 2002 para 4,3% neste ano.

O juro nominal em 2002 era de 19,1%, teve de ser aumentado para 23,3% no ano seguinte para conter a inflação e agora está em 8,7%.

Sabedoria? Não. Apenas soubemos aproveitar esse cenário, que nós mesmos preparamos, para nos sobrepormos aos outros, que afundaram na recessão.

*Email: at@attglobal.net

30/08/2009 - 16:12h Um ano depois, Brasil passa no teste e sai da crise maior do que entrou

Para especialistas, avanço do País e de outros emergentes é uma das características do mundo pós-crise

Fernando Dantas – O Estado SP


O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.

O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estado ouviu oito grandes economistas estrangeiros e brasileiros: Rogoff; O’Neill; Barry Einchengreen, da Universidade de Berkeley; José Alexandre Scheinkman, de Princeton; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio gestor do Gávea Investimentos; Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e codiretor do Instituto de Estudo de Políticas Econômicas – Casa das Garças (Iepe/CdG); Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro – o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. “Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil”, acrescenta.

Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. “Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo ‘esse cara é bom’”, diz Goldfajn.

Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado – câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. “Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá , não tiveram crise bancária”, diz O’Neill.

A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas “por coincidência”, já que foram decididos antes da crise. “O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.”

Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. “Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido”, comenta Rogoff.

De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. “À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos”, diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.

A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.

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”Não foi o fim do mundo que se prenunciava em dezembro”

Reação global de governos impede crise pior; papel da China se torna vital para retomada

Fernando Dantas – O Estado SP

A crise global não foi tão ruim quanto parecia no pior momento, entre o fim do último trimestre de 2008 e o primeiro de 2009. “Não foi o fim do mundo que se prenunciava em janeiro e dezembro, porque a reação dos governos foi do tamanho da crise”, diz Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA, comentando os maciços pacotes fiscais e a política monetária expansionista convencional (corte de juros) e não convencional (injeção de dinheiro na economia pela compra de títulos em poder do mercado) das principais economias do mundo.

Hoje, mesmo um observador relativamente pessimista, como Kenneth Rogoff, de Harvard, prevê que o mundo deve se estabilizar num crescimento em torno 4%, menos que o ritmo próximo de 5% dos anos anteriores à crise, mas já claramente fora da recessão. Ele ressalva que a atual recuperação “não é normal, com o sistema todo na UTI, o sistema bancário bancado pelo governo, e o mercado residencial se estabilizando apenas por causa dos grandes subsídios às hipotecas.”

Barry Eichengreen, da Universidade Berkeley, é outro que mostra ceticismo quanto ao vigor da recuperação mundial. “A mudança mais importante na economia pós-crise é o grande endividamento nos países industriais avançados, que tornará as finanças públicas restritivas, criando um ambiente inamistoso para o investimento, e que não é bom para o crescimento.” Ele se refere à necessidade que os governos dos países ricos terão de aumentar impostos e cortar gastos para contrabalançar o enorme crescimento da dívida pública na esteira dos grandes déficits fiscais da política contracíclica.

Um ponto crucial para sustentar a recuperação global é a capacidade da China de insuflar a demanda global. Para Rogoff, “a mudança número um do mundo pós-crise é que o consumidor americano, o combustível da economia mundial no último quarto de século, provavelmente será menos energético nos próximos cinco a dez anos.”

A grande questão, hoje, é saber se o recuo do superendividado consumidor americano pode ser compensado pelo avanço do consumo na China e em outros países emergentes asiáticos, e até no Brasil.

Para Rogoff, “a demanda dos mercados emergentes vai substituir a dos EUA, mas isso não acontecerá de um dia para o outro.” Essa mudança, ele continua, exige uma grande reestruturação da economia chinesa, que ainda está voltada para as exportações, e não para expandir o consumo interno.

Jim O’Neill, do Goldman Sachs, discorda: “Essa crise talvez tenha sido necessária, porque forçou a China a fazer uma transição para o crescimento puxada pela demanda interna. Isso era exatamente o que o mundo precisava para evitar a crise, e é o que mundo precisa para sair da crise.”

Para O’Neill, os dados da expansão de consumo da China são muito claros. As vendas de varejo saltaram 15,2% em julho e, nos últimos dois anos, convertidas em dólares, apresentam um avanço maior do que o recuo no consumo americano. Em relação ao setor externo, o economista inglês diz que tentou apostar recentemente, com membros da equipe econômica do governo britânico, que a China terá déficit comercial nos próximos dois anos. “Mas agora nós achamos que é possível que isso aconteça nos próximos 12 meses. Desde abril, o crescimento das importações chinesas é muito mais forte que o das exportações.”

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Crise mudou mapa da globalização

Mudança ocorreu tanto no comércio quanto nos investimentos e nas relações de poder de órgãos internacionais

Jamil Chade – O Estado SP

Os fluxos de investimentos mudaram de direção, a China se transformou no maior exportador do planeta e organizações consideradas como pilares das decisões internacionais hoje são questionadas e até substituídas. Em 12 meses, a crise acelerou processos de profunda mudança na geografia da globalização e uma incipiente nova relação de poder entre países.

No campo comercial, a maior novidade foi a transformação da China na maior exportadora do mundo. Por uma margem mínima, superou a Alemanha, que liderava desde 2003. A China exportou US$ 521,7 bilhões em seis meses, ante US$ 521,6 bilhões da Alemanha. Os americanos estão na terceira colocação.

A China já vinha subindo no ranking mundial. Mas a crise na Europa acelerou sua nova posição. Em 2002, a China era a quinta maior exportadora, com vendas anuais de US$ 325 bilhões, US$ 200 bilhões abaixo do que o país vendeu apenas nos últimos seis meses. Em 1997, a China era apenas a 16ª maior exportadora, com US$ 24,5 bilhões em vendas.

Nos últimos anos, dezenas de medidas foram adotadas contra os produtos chineses, que são hoje os mais afetados por medidas restritivas. Uma delas foi adotada pelo Brasil no início do ano para barrar a entrada de produtos siderúrgicos.

A crise ainda redesenhou o mapa dos principais destinos das exportações de vários países, inclusive o do Brasil. Neste ano, a China superou os EUA como o principal comprador de bens brasileiros. Além disso, passou a ser o maior fornecedor de produtos à Europa, acabando com 50 anos de relação comercial privilegiada entre europeus e americanos.

Em junho, as importações americanas estavam 34,5% abaixo dos níveis de junho de 2008. No ano passado, os Estados Unidos foram os maiores importadores do planeta, consumindo mais de 12% de tudo o que o mundo exporta.

No setor de investimentos, a crise também mudou a estratégia de multinacionais e coloca os países emergentes no centro da internacionalização. Levantamento com mais de 240 multinacionais elaborado pela ONU deixou claro que não há um risco de “desglobalização” da produção. O processo de internacionalização será retomado, mesmo mais lentamente. E será direcionado de forma cada vez mais clara aos emergentes.

A pesquisa mostrou que as multinacionais continuarão a investir no exterior para a internacionalização de suas vendas, produção e compra de ativos. Tanto em países emergentes como nos ricos, o levantamento indica que a crise está dando um incentivo extra para as empresas buscarem novos mercados, além de novos locais de produção para reduzir custos.

A tendência de uma maior atenção aos emergentes já vinha ocorrendo nos últimos dez anos. Em 1998, os países em desenvolvimento tinham 8% dos fluxos de investimentos, ante 13% em 2007. A tendência é de que a taxa aumente até 2011.

A preferência será pela Ásia, pelo tamanho do mercado e acesso a trabalhadores mais baratos. Cinco dos 15 maiores destinos de investimentos estarão na Ásia até 2011. Os países que formam o Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – ocupam agora quatro dos cinco primeiros lugares preferidos para investimentos até 2011 e dividem as preferências com os americanos.

Em termos gerais, porém, o mundo ainda verá uma queda de investimentos em 2009 de cerca de 50%, ante 2008. Os mais afetados serão os países ricos, com redução de 60%. Mas os emergentes mostrarão certa resistência, com queda de apenas 25%. Em 2008, o mundo já sofreu queda de 15% nos investimentos, depois de atingir recorde de US$ 1,9 trilhão em 2007.

Outro sinal de mudança no mapa da globalização é a iniciativa de alguns países de reduzir sua dependência em relação ao dólar e acelerar a compra de papéis emitidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A decisão de Brasil, China e Rússia de se tornarem credores do FMI promove uma pequena revolução no mercado. Parte da estratégia dos emergentes é mostrar que têm como ser credores e, portanto, têm direito a uma maior voz em entidades como o FMI e o Banco Mundial.

O debate sobre os grupos e instituições financeiras ainda deixa alguns na defensiva. É o caso de Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países ricos e por anos tentou atrair os emergentes. Para Gurría, o mundo passará a viver em nova relação entre instituições e diferentes grupos de países, como o G-8 ou o G-20. “Cada grupo precisa de seu espaço. Hoje, o mundo é das redes, do network. E assim é que podemos imaginar uma nova configuração de países.”

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29/08/2009 - 12:12h Deficit salvou o mundo de cair em crise econômica pior

Nos EUA, dívida pública preocupa a longo prazo, mas cenário não chega a ser catastrófico; problema maior é político e diz respeito à qualidade dos gastos

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PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA SP

Temos novas projeções orçamentárias que mostram um deficit cumulativo de US$ 9 trilhões ao longo dos próximos 10 anos. De acordo com muitos comentaristas, é um número apavorante e requer medidas drásticas que envolvem, especialmente, o cancelamento dos esforços de estímulo à economia e o abandono da proposta de reforma do sistema de saúde no país.
A verdade é mais complicada e menos assustadora. No momento, o deficit está na verdade ajudando a economia, já que salvou os Estados Unidos e outras grandes economias do mundo de uma queda ainda mais profunda. A perspectiva de longo prazo é preocupante, mas não se pode dizer catastrófica.
A única causa real de preocupação é política. Os Estados Unidos serão capazes de enfrentar suas dívidas se os políticos de ambos os partidos se provarem dispostos a demonstrar um mínimo de maturidade. Será que preciso dizer mais?
Comecemos pelos efeitos do deficit deste ano.
Existem dois motivos principais para a disparada do deficit. O primeiro é que a recessão gerou tanto queda acentuada na receita tributária quanto elevação nos gastos com seguro-desemprego e outros programas de proteção aos cidadãos. Segundo, houve pesados desembolsos no resgate às instituições financeiras. Estes são computados como parte do deficit, embora o governo esteja adquirindo ativos no processo e, no futuro, deva receber de volta ao menos uma parte do que gastou.
O que isso nos informa é que no momento é bom manter um deficit. Considerem o que teria acontecido caso o governo dos Estados Unidos e os de outras nações do mundo tivessem tentando equilibrar seus orçamentos, como fizeram no início dos anos 30. É uma ideia assustadora. Caso os governos tivessem elevado os impostos ou cortado os gastos diante da crise, caso tivessem se recusado a resgatar as instituições financeiras, poderíamos facilmente ter assistido a uma versão renovada da Grande Depressão.
Como eu afirmei, o deficit salvou o mundo.

Gastos maiores
Na verdade, seria melhor para nós que os governos se dispusessem a aumentar seus gastos ainda mais pelos próximos dois anos. A projeção oficial da Casa Branca mostra uma nação condenada a um longo purgatório, com a persistência de desemprego alto por anos. Se tudo isso se provar correto e temo que seja inevitável, deveríamos estar fazendo mais, e não menos, para sustentar a atividade da economia.
Mas e quanto a todas essas dívidas que estamos acumulando? Elas são um problema, mas é necessário manter a perspectiva. Os economistas normalmente avaliam a sustentabilidade das dívidas nacionais observando a relação entre seu valor e o PIB (Produto Interno Bruto). E embora US$ 9 trilhões sejam uma soma imensa, nós também temos uma economia imensa, o que significa que as coisas são menos assustadoras do que seria de imaginar.
Eis uma maneira de considerar: estamos diante de uma alta de cerca de 40% na relação entre a dívida e o PIB. Os juros reais sobre essas dívidas adicionais (é necessário subtrair a inflação) serão de provavelmente 1% do PIB, ou 5% da receita federal. Não parece um fardo esmagador.
É claro que isso presume que o crédito do governo dos Estados Unidos continuará a ser bom, de modo a que o país possa continuar captando recursos a taxas de juros relativamente baixas. Até agora, isso continua verdade. A despeito da perspectiva de grande deficit, o governo continua capaz de captar fundos a uma taxa de juros de menos de 3,5%, baixa sob os padrões históricos. As pessoas que fazem apostas com dinheiro real não parecem preocupadas com a solvência dos Estados Unidos.

Administrável
Os números explicam o motivo. De acordo com as projeções da Casa Branca, em 2019 a dívida federal líquida dos Estados Unidos será de cerca de 70% do PIB. Não é um bom número, mas fica em uma faixa que se provou historicamente administrável para os países avançados, mesmo aqueles que tenham governos relativamente fracos. No começo dos anos 90, a Bélgica país profundamente dividido em linhas idiomáticas, tinha dívida de 118% do PIB, enquanto a Itália, que afinal de contas é a Itália, tinha dívida líquida de 114% do PIB. Nenhum dos dois países enfrentou uma crise financeira.
Assim, será que existe algo com que devamos nos preocupar? Sim, mas os perigos são políticos e não econômicos.
Como afirmei, essas projeções para os próximos 10 anos não são tão más quanto algumas pessoas vêm dizendo. Em prazo realmente longo, porém, o governo dos Estados Unidos enfrentará grandes problemas a menos que realize algumas mudanças importantes. É preciso, especialmente, conter o crescimento dos gastos com os programas federais de saúde Medicare e Medicaid.
Isso não deveria ser difícil no contexto de uma reforma geral da saúde. Afinal, os Estados Unidos gastam muito mais com a saúde do que outros países avançados, sem apresentar resultados melhores, de modo que deveríamos ser capazes de obter melhor custo benefício em nosso sistema.
Mas isso não acontecerá, é claro, se até mesmo as mais modestas tentativas de melhorar o sistema forem objeto de esforços demagógicos de parte dos conservadores, para retratá-las como uma forma de “desligar os aparelhos da vovó”.
Assim, não se incomode com o deficit deste ano; na verdade precisamos elevar a dívida federal no momento, e precisaremos continuar a fazê-lo até que a economia esteja solidamente a caminho da recuperação. E as dívidas adicionais devem ser administráveis. Se estamos enfrentando a possibilidade de um problema, não é porque a economia seja incapaz de aceitar dívidas adicionais. Em lugar disso, é a política, estúpido.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

23/08/2009 - 11:09h BCs: não é hora de economizar

Alberto Tamer* – O Estado SP

Os presidentes dos bancos centrais reunidos nos Estados Unidos reafirmaram que a recessão global está perto do fim e, mais uma vez, alertaram contra o otimismo prematuro. “O Fed (banco central americano) não está preparado para jogar confete ao primeiro sinal de crescimento”, afirmou Bernanke. “É cedo para tirar os trilhões de dólares injetados na economia e o apoio dos bancos centrais. Falta muito para que a economia se autossustente”, acrescentou. Seus colegas confirmam essa tese. E é exatamente isso que Meirelles vem dizendo no Brasil, apesar de um certo clima que vai além do alívio e beira a euforia. Há muitos riscos a enfrentar, mesmo que a economia volte a crescer.

E QUANDO O GOVERNO SAIR?

Mas por que insistem tanto nessa cautela, mesmo admitindo que o pior passou e que, como disse Bernanke, “o colapso possível do sistema financeiro global foi evitado?”

A principal preocupação no momento não é mais com a recessão, mas o que poderá acontecer quando os governos, principalmente Estados Unidos e China, tiverem de retirar ou pelo menos reduzir o estímulo aos investimentos, ao consumo e, nos casos americano e europeu, ao socorro aos bancos? Estima-se que foi bem mais de US$ 10 trilhões, se somarmos o aporte de recursos aos grandes bancos, a salvação da indústria automobilística, a boia lançada aos mutuários com hipotecas atrasadas. Ainda agora, foram US$ 3 bilhões em algumas semanas, com o governo americano dando até US$ 5 mil para quem vendesse o carro velho e comprasse um novo menos poluidor. Isso é apenas uma gota do que já injetou no mercado interno.

Essa intervenção dos governos que salvou a economia deixará uma herança pesada que pode ser enfrentada mais adiante, sim, mas não aumentada indefinidamente, dão a entender os presidentes dos BCs . Há ainda espaço para mais ajuda, como vimos na penúltima coluna, mas há um limite também.

MAIS GOVERNO AINDA

É por essa razão que ninguém propôs na reunião dos BCs que sejam retirados os subsídios ao crescimento, que se volte a aumentar os juros, que se pare de injetar recursos no reaquecimento econômico. Mas todos se preocupam com a conta de governos que agiram certo contendo a recessão, mas saem profundamente endividados.

Os caminhos clássicos têm sido apresentados pelos economistas que acompanham a crise. Cito alguns: encontrar a hora certa de recuar sem afetar a retomada, a forma mais adequada de financiar a dívida, como a sociedade poderá ajudar a pagá-la e evitar que esse custo seja uma inflação elevada.

CAMINHOS PENOSOS

O já lendário bilionário Warren Buffet, em artigo publicado no Estado, quinta-feira, utiliza a situação dos Estados Unidos para mostrar como os governos podem obter esses recursos. A crise americana foi mais grave e o socorro oficial maior. Mas, considerando as proporções, os outros também vão sair endividados; alguns, até mais que o os Estados Unidos, em relação ao PIB. Buffet aponta três caminhos que merecem citação.

1. Pedir emprestado no exterior, em outros países ou no próprio mercado financeiro internacional. É o que está sendo feito pelos Estados Unidos, por meio de títulos do Tesouro. Financia a dívida, adia o vencimento, mas não a diminui. Ao contrário, pode aumentar.

2. Pedir emprestado internamente, vendendo títulos do governo. É o que o governo brasileiro tem feito, ainda que de forma calculada, com um endividamento suportável. No caso dos EUA, implica emitir dólares. A base monetária do país – dólares fora dos cofres do Tesouro – vem crescendo de forma significativa desde junho, sinalizando pesadas emissões. Não é o melhor indicador, mas serve para mostrar que, em quase desespero, o governo decidiu adotar a forma menos saudável de financiar sua luta contra a recessão. Buffet não o condena, mas pede cautela a partir de agora.

3. A terceira hipótese é o aumento de impostos, que enfraquecem a demanda, provocam evasão e, em última análise, desestimulam a economia. Lembrem-se que no caso do Brasil a redução de impostos foi um dos fatores de maior sucesso da política anticíclica.

ESPERA AÍ, SR. COLUNISTA!

O leitor meio irritado deve estar perguntando: não está esquecendo que aumentando o crescimento aumenta também a receita do governo?!

Sim, essa é forma mais saudável de resolver o problema. Mas não se esqueça de que, nas circunstâncias atuais, a recuperação econômica vai depender ainda da intervenção maciça dos governos, e isso só foi possível porque se endividaram e continuam se endividando!

Quem afirma isso não é a coluna, mas os respeitáveis presidentes dos bancos centrais!

Então, não tem saída? Sim, dizem eles, continuar estimulando a economia. O que os preocupa – e a todos neste momento – é que não calculem certo o momento de recuar. E esse momento é quando o sistema financeiro se estabilizar, a demanda voltar a crescer e o mercado global se recuperar.

*E-mail: at@attglobal.net

18/03/2009 - 11:40h Krugman vê um ‘colapso coordenado’

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Bloomberg – VALOR

O Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman disse que o mundo atravessa um “colapso mundial coordenado”, cuja aparência “é pior na Europa e no Japão” do que nos Estados Unidos.

“O que começou como uma recessão relativamente branda” nos EUA “se tornou uma queda vertical”, disse Krugman em evento realizado em Bruxelas. “Esta é uma crise que está afetando gravemente a indústria de transformação.”

Krugman, que defendeu o aumento dos incentivos fiscais, disse que os instrumentos convencionais dos BCs não são suficientes para revitalizar o crescimento da economia. O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, e o do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), Ben S. Bernanke, “não conseguem empregar suas ferramentas convencionais para enfrentar o colapso” econômico, disse o economista, da Universidade de Princeton.

Para o BCE, “toda a base intelectual do euro repousa na hipótese de que a política monetária pode, por si só, dar conta do recado”, disse Krugman. “O BCE ainda não cortou tudo o que podia (em termos de juros), mas ficarei surpreso se não acabar fazendo isso.”

“Trichet ainda está dizendo que não há risco de deflação na Europa, afirmação que, na minha opinião, expressa um estranho excesso de autoconfiança”, disse Krugman.

“Os Estados Unidos não estão fazendo o suficiente para combater a crise e a Europa está fazendo um pouco menos da metade do realizado pelos Estados Unidos”, disse Krugman. “Corremos um grave perigo.”

03/03/2009 - 12:02h “Subprime” eram só uma pequena fração do problema

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A vingança do excedente de poupança

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES”  - FOLHA SP

LEMBRAM-SE dos bons e velhos dias, quando costumávamos falar sobre a “crise do subprime” e havia até quem dissesse que a crise poderia ser “contida”? Ah, a nostalgia!
Hoje, sabemos que os empréstimos hipotecários de risco (”subprime”) eram só uma pequena fração do problema. Até os maus créditos habitacionais, em termos mais amplos, eram apenas parte do que houve de errado. Vivemos em um mundo de devedores problemáticos, de incorporadores de shoppings nos EUA às economias “milagrosas” da Europa, e novos tipos de títulos problemáticos de dívida não param de surgir.
Como aconteceu essa crise mundial da dívida? Por que ela se espalhou tanto? A resposta, eu sugeriria, pode ser encontrada em um discurso pronunciado quatro anos atrás por Ben Bernanke, hoje presidente do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA). Na época, Bernanke estava tentando reconfortar o mercado. Mas o que disse então ainda assim serviu de prenúncio ao colapso que se seguiria.
O discurso, intitulado “o excedente mundial de poupança e o déficit dos EUA em conta corrente”, oferecia uma explicação nova para a rápida ascensão do déficit comercial americano no início do século 21. As causas, argumentava Bernanke, estavam não nos EUA mas na Ásia.
Na metade dos anos 90, ele argumentou, as economias emergentes da Ásia eram grandes importadoras de capital, tomando empréstimos no exterior a fim de financiar seu desenvolvimento. Mas, depois da crise financeira asiática de 1997/8 (que parecia muito grave, mas hoje soa trivial, comparada aos atuais acontecimentos), esses países começaram a se proteger ao acumular imensas reservas de ativos estrangeiros; na prática, exportavam capital ao restante do mundo.
O resultado foi um planeta com muito capital barato à procura de algum destino.

Dinheiro nos EUA
A maioria desse dinheiro terminou nos EUA -daí o imenso déficit comercial do país, já que déficits comerciais são o avesso da moeda dos fluxos de capital. Mas, como Bernanke corretamente apontou, também houve forte fluxo de dinheiro para outros países. Entre eles, merecem menção especial alguns poucos países europeus de menor porte que, ainda que tenham registrado fluxos brutos inferiores aos acumulados pelo mercado americano, receberam mais capital em proporção à dimensão de suas economias.
Ainda assim, boa parte do excedente mundial de poupança veio parar nos EUA. Por quê?
Bernanke mencionou “a profundidade e a sofisticação dos mercados financeiros do país (que, entre outras coisas, permitem aos domicílios acesso fácil ao patrimônio imobiliário)”. Profundidade, sim. Mas sofisticação? Bem, seria possível dizer que os banqueiros americanos, estimulados por um quarto de século de desregulamentação, lideraram o mundo em termos da descoberta de formas sofisticadas de enriquecer ao iludir os investidores.
E sistemas financeiros muito abertos e frouxamente regulamentados caracterizavam muitos dos demais recipientes de grande fluxos de capital. Isso pode explicar a correlação quase sobrenatural entre os elogios dos conservadores três anos atrás e o atual desastre econômico. “As reformas fizeram da Islândia um tigre nórdico”, dizia estudo do Cato Institute.
“Como a Irlanda se transformou no tigre céltico” era o título de artigo da Heritage Foundation. “O milagre econômico estoniano” servia de título a outra avaliação. Os três países estão em profunda crise, agora.

Ilusão de riqueza
Por algum tempo, o fluxo de capital criou uma ilusão de riqueza nesses países, da mesma maneira que o fez para os proprietários de imóveis americanos: os preços dos ativos estavam em alta, as moedas eram fortes e tudo parecia bem. Mas bolhas sempre estouram, mais cedo ou mais tarde, e os milagres econômicos de ontem são as economias-problema de hoje, nações cujos ativos evaporaram mas cujas dívidas são muito reais. E essas dívidas são um fardo especialmente pesado porque a maioria dos empréstimos era denominada em moedas de outros países.
O dano tampouco se confina aos devedores originais. Nos EUA, a bolha da habitação ocorreu principalmente ao longo das duas costas, mas, quando ela estourou, a demanda por bens industrializados, especialmente automóveis, entrou em colapso e isso teve custo terrível para o coração industrial do país. De maneira semelhante, as bolhas europeias ocorreram principalmente nas periferias do continente, mas a produção industrial da Alemanha -que jamais passou por uma bolha financeira e é o coração industrial da Europa- está caindo rapidamente, graças a queda profunda nas exportações.
Se você quer saber de onde veio a crise financeira, pense no assunto assim: estamos assistindo à vingança do excedente.
E o excedente de poupança continua lá. De fato, agora se tornou ainda maior, porque os consumidores empobrecidos redescobriram as virtudes da parcimônia, e o boom imobiliário mundial, que oferecia um veículo para o investimento do excesso de poupança, transformou-se em contração mundial.
Uma maneira de observar a situação global agora é compreender que estamos sofrendo de um paradoxo de poupança: em todo o mundo, os montantes economizados excedem o total que as empresas estão dispostas a investir. E o resultado é uma desaceleração mundial que causa perdas a todos.
Portanto, foi assim que essa confusão começou. E ainda estamos tentando descobrir como sair dela.


PAUL KRUGMAN , economista, é colunista do “New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA).Tradução de PAULO MIGLIACCI

23/02/2009 - 10:13h EUA liquidam bancos e avaliam estatização

No mês, extinção de instituições é a maior desde 1993; ações de grandes grupos despencam com risco de serem tomadas pelo Estado

Ganha força no país a opção de o governo assumir controle de grandes bancos, como Citi e Bank of America, para serem saneados e depois vendidos

http://www.whereistheoutrage.net/wordpress/wp-content/uploads/2009/02/bank-of-america.jpghttp://images.publicradio.org/content/2008/04/17/20080417_citibank_3.jpg

FERNANDO CANZIAN – FOLHA SP

DE NOVA YORK

Os EUA liquidaram nos primeiros 40 dias deste ano o equivalente a mais da metade dos bancos fechados em 2008 inteiro, quando foram extintas 25 instituições, um recorde recente. Sete bancos foram fechados só na primeira semana de fevereiro, o maior número em um mês desde 1993.
Aos acionistas desses bancos, 13 médios e pequenos, foram impostas perdas totais, e suas agências, distribuídas entre os concorrentes, assim como as contas dos clientes. A expectativa é que até 1.000 dos 8.348 bancos dos EUA sejam liquidados nos próximos três anos pela FDIC, a agência federal que supervisiona o sistema.
Na semana passada, as ações dos quatro principais bancos dos EUA (Citigroup, Bank of America, JPMorgan Chase e Wells Fargo) derreteram na Bolsa de Valores de Nova York.
O Citi vale hoje 10% do que valia há um ano, e suas ações despencaram 44% na semana. Por trás da fuga dos investidores está o temor crescente de que algumas dessas instituições, especialmente Citi e Bank of America (BofA), sejam estatizadas. Se isso ocorrer, os acionistas perdem tudo.
O próprio presidente do Fed (o banco central dos EUA), Ben Bernanke, e o ex-presidente da instituição, Alan Greenspan, já consideraram abertamente a opção, pois o governo vai ficando sem alternativa para lidar com a virtual falência desses bancos, vistos como “grandes demais para cair”. “Qualquer que seja a decisão, há um forte compromisso dessa administração de manter os bancos privados e de devolvê-los ao setor privado o mais rapidamente possível”, declarou Bernanke.
Na sexta-feira, o presidente do Comitê de Bancos do Senado, o democrata Cristopher Dodd, disse que a estatização “não seria bem vinda”. “Mas minha preocupação é que talvez sejamos obrigados a isso [estatizar], pelo menos por um período curto”, afirmou.
Entre os republicanos, o senador Lindsey Graham afirmou que a opção de estatizar “deve estar sobre a mesa”.
Na sexta, enquanto as ações dos bancos despencavam em Nova York, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, procurou acalmar os ânimos dizendo que o governo de Barack Obama “acredita fortemente que o modo de irmos adiante é com um sistema bancário privado e suficientemente regulado”.
Mesmo assim, as ações do conjunto de bancos listados na Bolsa de Nova York caíram 7%. As do Citigroup e Bank of America (BofA), cerca de 10%.
Citi, BofA, JPMorganChase e Wells Fargo já receberam US$ 140 bilhões em injeções de dinheiro público desde outubro (o maior acionista do BofA já é o governo dos EUA, com 6%). Apesar desses aportes, o valor de mercado dos quatro bancos encolheu em US$ 402 bilhões (um terço do PIB do Brasil) desde então.
Esses bancos concentram o grosso dos chamados ativos “tóxicos”, que travaram o sistema financeiro americano e que são a causa da atual crise, considerada a maior desde os anos 1930. Os títulos “tóxicos” são resultado de empréstimos feitos pelos bancos sem garantias reais suficientes e largamente lastreados pelo setor imobiliário, onde os preços das casas estão em queda livre há dois anos. Em alguns casos, um único dólar em garantia real dada ao banco chegou a financiar outros US$ 35 em empréstimos.
Para voltarem à atividade normal, esses bancos precisam ser limpos desses ativos. O principal problema é que o governo não chegou ainda à conclusão de quanto pagar pelos títulos “tóxicos” e como proteger o contribuinte das perdas. Por isso, a opção pela estatização ganha força no país.
Se adotada, o governo não precisa “precificar” os ativos “tóxicos”. Além disso, imporia perdas totais aos acionistas que fizeram apostas arriscadas, afastaria os dirigentes e poderia mais à frente, depois de limpo, revender o banco.
O maior temor dos EUA é que o país mergulhe em uma espiral recessiva parecida com a do Japão nos anos 1990. No país asiático, isso ocorreu justamente porque o governo demorou anos para atacar uma crise bancária de proporções mais modestas, mas parecida com a atual nos EUA. Outro exemplo mais ou menos da mesma época foi a Suécia, que resolveu estatizar bancos com problemas rapidamente, o que acelerou a saída da crise.

08/01/2009 - 11:56h Mundo confia em Obama, mas…

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Alberto Tamer* – O Estado SP

Há sinais de esperança e reina um clima de alívio no mercado internacional nestes primeiros dias do ano. Obama confirmou na terça-feira o seu plano ousado de investimentos de até US$ 800 bilhões. Destes, US$ 300 bilhões só em redução e devolução de impostos. Começa executá-lo assim que assumir e tiver a aprovação do Congresso. Não é mais hora de debater, falar ou discutir, mas de agir com extrema urgência. O mundo ouviu, espera ansioso e vê sua esperança ganhar corpo de realidade.

SEM ACADEMICISMO

Os pronunciamentos de Obama nesta semana mostram que sua equipe e ele rejeitaram definitivamente a proposta de usar a política monetária, juros e injeção de liquidez, para combater a recessão. Paul Krugman, em mais um artigo excelente publicado ontem no Estado, mostra que essa política fracassou (Ver aqui Combatendo a depressão). O Tesouro está inundando o mercado com dólares, o Fed baixou o juro real a zero, os bancos e as instituições financeiras foram abastecidas com vários trilhões de dólares, mas nada disso adiantou até agora. A recessão apenas se aprofunda e ameaça transformar-se em depressão.

Hoje, Paulson e Bernanke reconhecem que erraram ao se concentrar apenas no socorro ao sistema financeiro. O fato é que os números econômicos recentes são assustadores, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, afirma Krugman. Os bancos não estão emprestando, as empresas e os consumidores não estão gastando. “Não vamos medir palavras: isso se parece muito com o início da 2ª Grande Depressão.” E Krugman é o Prêmio Nobel de Economia deste ano.

É preciso voltar a Keynes. Para ele, a política monetária é ineficaz na depressão. Só a política fiscal – gastos deficitários do governo em grande escala -, pode combater o desemprego em massa, lembra Krugman.

OBAMA ACERTOU

E é exatamente isso o que Obama está fazendo. Na terça-feira, ele admitiu que os Estados Unidos poderão ter déficit orçamentário de US$ 1 trilhão não só em 2009. Não será nada trágico. Eles recebem investimentos externos anuais de US$ 2 trilhões e todos, no mercado americano e no exterior, continuam comprando os velhos títulos do Tesouro e os que estão sendo emitidos também.

A saída é reanimar a economia mundial com gastos públicos maciços. Estados Unidos e China já anunciam planos trilionários em obras e geração de empregos.O medo agora não é mais de inflação, mas de deflação. Se os preços continuarem a cair, a inflação chegará a zero e ninguém mais vai comprar esperando que baixem ainda mais. Aí estaríamos diante de um quadro de deflação e recessão. O pior dos mundos, que deve ser evitado, mesmo com os déficits dos governos.

DESEMPREGO ASSUSTA

Obama enfrenta a oposição do Partido Republicano. Isso é gravíssimo, pode retardar o início do programa de mais um mês com aumento do desemprego, que já está em 6,7% e ameaça passar de 10%. Dados preliminares estimam que só em dezembro foram demitidas 693 mil pessoas. Somados aos mais de 500 mil de novembro, só em dois meses há mais de 1,2 milhão de desempregados. Demissão em massa é o caminho certo para a recessão e a depressão. Espera-se que o Congresso seja mais responsável diante desses e de outros indicadores negativos que vão surgir.

CONFIA EM OBAMA,MAS…

Nestes primeiro dias do ano, ficou evidente que o mundo confia em Obama mas não no Congresso. Tudo depende de Obama e Obama depende do Congresso americano. Pode ser exagero, mas se a recuperação nos Estados Unidos for retardada por alguns meses pela politicalha dos republicanos conservadores e atrasados,o mundo vai pagar um preço muito caro que hoje eles poderiam evitar.

Esse é o grande temor que Krugman expressa em seu artigo. E deveria ser o temor de todos nós.

*Email – at@attglobal.net

06/01/2009 - 09:08h Combatendo a depressão

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Paul Krugman* – O Estado SP

“Se não agirmos com agilidade e coragem, é possível que o declínio econômico seja muito mais profundo”, disse o presidente eleito, Barack Obama, no mais recente pronunciamento semanal. Se perguntar a minha opinião, eu diria que ele não foi suficientemente enfático.

O fato é que os últimos dados econômicos têm sido assustadores não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. Não fiquemos nas meias palavras: a situação se parece muito com o início de uma segunda Grande Depressão. Será que seremos capazes de agir “com agilidade e coragem” suficientes para evitar que isso aconteça?

Não se esperava que nos encontrássemos nessa situação. Durante muitos anos, a maioria dos economistas acreditou ser fácil evitar outra Grande Depressão. Em 2003, Robert Lucas, da Universidade de Chicago, declarou, perante a Associação Econômica Americana: “O problema central da prevenção das depressões foi resolvido, no seu aspecto prático, e de fato acredito que a solução se mantenha por muitas décadas”.

Milton Friedman, em especial, convenceu muitos economistas de que o Federal Reserve (Fed) poderia ter interrompido a evolução da Depressão simplesmente oferecendo aos bancos mais liquidez. Ben Bernanke, presidente do Fed, desculpou-se diante de Friedman: “Você tem razão, a responsabilidade foi nossa. Mas, graças a você, isso não se repetirá.”

Entretanto, parece que evitar depressões não é tão fácil. Sob o comando de Bernanke, o Fed andou oferecendo liquidez como um bombeiro tentando apagar um grande incêndio e o dinheiro disponível tem aumentado rapidamente. Ainda assim, o crédito continua difícil e a economia, em queda livre. A afirmação de Friedman de que a política monetária teria evitado a Grande Depressão foi uma tentativa de refutar a análise de John Maynard Keynes de que a política monetária é ineficaz sob condições de depressão e a política fiscal – gastos deficitários em larga escala do governo – é necessária para combater o desemprego em massa.

O fracasso da política monetária na crise atual mostra que Keynes tinha acertado da primeira vez. E o pensamento keynesiano está por trás dos planos de Obama para o resgate da economia. Mas esses planos podem se revelar difíceis de vender aos políticos. Os noticiários dizem que os democratas esperam aprovar um plano econômico com amplo apoio bipartidário. Boa sorte para eles. Na verdade, as atitudes vaidosas dos políticos começaram a se revelar, com as lideranças republicanas preparando barricadas contra a legislação do estímulo econômico, enquanto posam de campeões da cuidadosa deliberação – uma piada de mau gosto, levando-se em consideração o comportamento do partido nos últimos oito anos.

Depois de décadas declarando que o governo é o problema, não a solução, para não falar na vituperação tanto da economia keynesiana quanto do New Deal, a maioria dos republicanos não vai aceitar a necessidade de uma solução para a crise econômica ao estilo de Franklin Roosevelt, envolvendo imensos gastos governamentais. No entanto, o maior problema de Obama será, provavelmente, a exigência de muitos políticos de provas de que os benefícios dos gastos públicos justificariam o custo, um fardo jamais imposto sobre os cortes de impostos.

Trata-se de um problema com o qual Keynes estava familiarizado: a oferta de dinheiro tende a enfrentar menos objeções do que os planos de investimento público, “o qual, por não ser um desperdício completo, costuma ser julgado com base em princípios rígidos do ?mundo dos negócios?”. O que se perde em tais debates é o argumento chave: que, sob as condições atuais, um impulso nos gastos públicos empregaria americanos e movimentaria dinheiro que permaneceria ocioso.

Tudo isso me deixa preocupado com as perspectivas do plano de Obama. Estou certo de que o congresso vai aprovar um plano, mas temo que seja atrasado ou tenha as dimensões reduzidas. E Obama está coberto de razão: precisamos realmente agir com agilidade.

*É Nobel de Economia 2008

18/12/2008 - 11:17h Desalavancagem reduz impacto de medidas dos BCs contra crise

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Jon Hilsenrath, The Wall Street Journal

Autoridades monetárias ao redor do mundo lançaram ontem um saraivada de esforços para estimular a devastada economia global, que até agora tem desafiado todas a tentativas de contenção dos danos.

Os bancos centrais da Noruega, República Tcheca, Hong Kong, Arábia Saudita, Kuait e Omã cortaram a taxa de juros, um dia depois que o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, cortou as taxas de juros mais baixas e prometeu mais crédito não convencional para enfrentar o aprofundamento do declínio da economia americana.

Cortes adicionais da taxas de juros são cada vez mais prováveis de acontecer nas próximas semanas no Japão, Reino Unido e países da região do euro.

As decisões sobre a taxa de juros se somam ao estímulo fiscal de aproximadamente US$ 1 trilhão que está sendo articulado ao redor do globo para 2009.

Enquanto aumentam os esforços de socorro financeiro, os economistas tentam explicar por que nada tem funcionado até agora.

Economistas do J.P. Morgan estimam que a economia mundial vai encolher a uma taxa anualizada de 3,7% neste trimestre e outros 2,3% no primeiro trimestre de 2009, provavelmente o pior período de seis meses da economia mundial desde a Segunda Guerra.

Uma variedade de respostas à situação econômica atual está emergindo. Embora o Fed tenha cortado os juros agressivamente por mais de um ano, muitos outros países só adotaram estímulos poucas semanas atrás. Vai levar tempo para que esses esforços criem raízes. No entanto, políticas desastradas e meias-medidas, em alguns casos, só pioraram a situação. E a força da crise de crédito está se provando muito maior do que se imaginava.

Enquanto os EUA estão à frente de muitos outros países nos esforços para estimular o crescimento, muitos economistas dizem que os bancos americanos ainda não têm capital suficiente para amortecer as perdas, o que os faz relutar em emprestar.

Entre agosto de 2007, quando a crise de crédito começou, e setembro de 2008 o Fed reduziu a taxa de juros de 5,25% para 2%. Fora dos EUA, no entanto, as taxas de juros aumentaram no mesmo período, de acordo com o J.P. Morgan.

Isso mudou drasticamente em outubro. As taxas de juros fora dos EUA foram cortadas em 1,3 ponto percentual desde então. O J.P. Morgan também prevê que o estímulo fiscal de corte de juros e gastos públicos deve chegar a 1,5% do PIB mundial em 2009, ou cerca de US$ 1 trilhão, apesar de ter sido praticamente inexistente fora dos EUA em 2008.

“Na verdade, até outubro não havia nenhum estímulo vindo de fora dos EUA”, diz Bruce Kasman, um economista do J.P. Morgan.

O Banco Central Europeu ainda tem espaço para reduzir a taxa oficial de juros dos atuais 2,5% diante do esfriamento aguçado da inflação, disse ontem Axel Weber, membro do conselho de governadores da instituição.

Ao mesmo tempo, a ata da reunião do Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra no começo deste mês sugeriu que o banco central do Reino Unido tende a fazer mais cortes nos juros. A ata mostrou que as autoridades do banco enxergaram uma “probabilidade significativa” de a inflação ficar abaixo da meta de 2% e discutiram cortes agressivos nos juros. A lentidão da tomada de decisão é apenas parte do problema.

Os economistas também estão criticando cada vez mais as escolhas das autoridades monetárias nos últimos meses.

“Praticamente todas as iniciativas tomadas até agora para dar suporte à funcionalidade do mercado financeiro têm sido parciais, em vez de abrangentes”, disse ontem o diretor-gerente adjunto do Fundo Monetário Internacional, John Lipsky.

Na raiz do declínio, disse ele, está um poderoso processo conhecido com desalavancagem, no qual as empresas e as famílias reduzem sua dependência do crédito. Mesmo que centenas de bilhões de dólares dos cofres públicos já tenham sido gastos em todo o mundo para proteger os bancos de perdas e créditos de risco, Lipsky disse que as autoridades ao redor do mundo ainda não fizeram o suficiente para recapitalizar os bancos e eliminar os créditos podres do sistema financeiro.

“A desalavancagem do mercado financeiro ainda está em curso, sustentando nossa expectativa de uma desaceleração substancial e sustentada no crescimento do crédito até o próximo ano”, disse Lipsky.

Simon Johnson, que já foi economista-chefe do FMI, estima que as instituições financeiras de todo o mundo vão precisar dar baixa contábil de aproximadamente US$ 1,5 trilhão de dívidas de alto risco atreladas às hipotecas dos EUA, dívida de empresas e de pessoas físicas, mas não passaram nem por dois terços do processo. Elas também ainda não levantaram capital suficiente para amortecer as próprias perdas, disse ele.

John Taylor, economista da Universidade Stanford e ex-funcionário do Tesouro do governo George W. Bush, argumenta num documento publicado recentemente que autoridades dos EUA deram um tiro no pé em setembro ao semear confusão a respeito do uso que fariam dos recursos públicos de ajuda aos bancos.

O texto dele mostra que uma medida fundamental da aversão ao risco no sistema bancário – a taxa de juros Libor, ou taxa do interbancário de Londres – disparou no dia em que o presidente do Fed, Ben Bernanke, e o secretário do Tesouro, Henry Paulson, procuravam explicar o plano de resgate. A incerteza a respeito do plano dos EUA, em outras palavras, puxou para cima o custo dos empréstimos.

Isso pode ter sido ainda mais perturbador para o mercado do que a quebra do Lehman Brothers, uma semana antes, disse Taylor. “As medidas do governos e intervenções feitas prolongaram e agravaram a crise financeira”, escreveu ele.

Apesar dos erros, começam a surgir sinais de que as medidas do governo estão tendo um impacto maior. Nos EUA, a taxa de juros das hipotecas caiu ontem, logo depois do corte de juros adotado pelo Fed no dia anterior.

24/11/2008 - 11:32h O que o Fed ainda pode fazer para estimular a economia americana

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Jon Hilsenrath, The Wall Street Journal – VALOR

O Federal Reserve, o banco central americano, está num ponto de inflexão.

A economia americana se deteriora e o Fed já empurrou quase tudo o que dava sua principal alavanca: os juros de curto prazo. Sua meta para os fundos federais, a taxa de empréstimos interbancários de curtíssimo prazo, caiu de 5,25% ao ano pouco mais de um ano atrás para 1%. Ultimamente, a taxa real dos fundos federais fica com freqüência abaixo dessa meta. Mas a economia americana precisa de mais ajuda.

Por isso, diretores do Fed devem dar seu aval ao plano de estímulo fiscal que os assessores do presidente eleito Barack Obama estão elaborando. O próprio Fed não esgotou ainda sua munição. Diretores do banco central estão avaliando opções como novas linhas de crédito, mais cortes de juro e compras de dívida de longo prazo, como títulos do Tesouro ou das hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac para estimular os mercados e a economia.

Economistas há muito debatem como um banco central deve administrar uma economia em deterioração quando os juros de curto prazo já estão baixos. O Japão se debateu com o problema no começo desta década. Um dos principais autores sobre o sujeito é o presidente do Fed, Ben Bernanke. Ele descreveu estratégias em palestras e estudos em 2002 e 2004, quando o Fed estava considerando a possibilidade de um problema desses. “As conclusões daquela época ainda se aplicam hoje”, diz Brian Sack, da Macroeconomic Advisers LLC, um ex-economista do Fed que dividiu a autoria de um estudo sobre o tema com Bernanke.

Eis as medidas que os diretores do Fed podem avaliar em sua reunião de dois dias em dezembro:

Agir rápido: Alguns economistas argumentam que, com os juros já muito baixos, o Fed deveria conservar sua munição e evitar novos cortes a não ser que absolutamente necessário. Em comentários no Instituto Cato, na semana passada, o vice-presidente do Fed, Donald Kohn, sugeriu o oposto. Se os EUA parecem estar entrando num ambiente parecido com o do Japão, de baixas taxas de juros, crescimento estagnado e queda dos preços ao consumidor, a melhor estratégia é agir rápido para evitá-lo, disse Kohn. “Se virmos essa possibilidade, devemos ser muito agressivos com nossa política monetária, o mais agressivos que podemos.”

Kohn disse acreditar que as chances de uma deflação como a japonesa ainda são pequenas nos EUA. Mas o maior risco de que isso aconteça sugere que o Fed pode rapidamente baixar a taxa dos fundos federais para zero. A Macroeconomic Advisers prevê um corte de meio ponto porcentual em dezembro e outro em janeiro, o que levaria a taxa a zero pouco depois que Obama tomar posse.

Novas linhas: Embora haja limites para até onde os juros de curto prazo podem baixar, o Fed mostrou recentemente que há poucas restrições a quanto seu próprio balanço patrimonial pode crescer. Desde o fim de agosto, o valor dos ativos do Fed cresceu de pouco menos de US$ 900 bilhões para mais de US$ 2 trilhões.

O Fed essencialmente criou dinheiro e o usou para financiar uma série de novas linhas de crédito, entre os quais um programa para comprar “commercial papers” do setor privado, outro para empréstimos de emergência para a seguradora American International Group Inc. e outro que injeta dólares em instituições financeiras fora dos EUA por meio de outros bancos centrais.

Essa atividade é às vezes chamada de afrouxamento monetário quantitativo. Em vez de se concentrar no custo do dinheiro no sistema financeiro – que é a taxa de juro -, as autoridades se focam na quantidade de dinheiro no sistema. Hoje, o Fed e o Departamento do Tesouro estão avaliando um programa no qual juntariam empréstimos do Fed com recursos do programa de socorro de US$ 700 bilhões do Tesouro para adquirir títulos de instituições financeiras em dificuldades, uma idéia apoiada pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson.

Mexer no longo prazo: Além de estabelecer uma meta para a já baixa taxa de juro de curto prazo, o Fed poderia tentar baixar os juros de longo prazo, o que poderia derrubar os custos de vários tipos de financiamento, das hipotecas de 30 anos a empréstimos para a compra de carros e debêntures de empresas. “São as taxas de prazos mais longos que importam para a atividade econômica”, diz Vincent Reinhart, outro ex-diretor do Fed que trabalhou com Bernanke no tema.

O Fed pode conseguir isso com a compra de dívida de longo prazo, inclusive obrigações do Tesouro ou papéis emitidos pela Fannie Mae e pela Freddie Mac. Essas compras poderiam fazer a cotação dos títulos subir, reduzindo assim seus rendimentos.

Comunicar: O Fed poderia procurar influenciar as taxas de longo prazo ao se comprometer a manter os juros de curto prazo baixos por um período longo. Isso poderia forçar os investidores a esperar taxas mais baixas para os papéis de prazo mais longo também. O Fed tomou essa medida em 2003, quando se comprometeu a manter baixas as taxas dos fundos federais por “um período considerável”.

Foi uma medida polêmica – que possivelmente teve um papel na criação do período de especulação hipotecária que se seguiu. Com a economia tão fraca agora, contudo, o Fed pode precisar usar de novo a medida. Uma maneira de evitar uma repetição do último episódio seria impor condições a esse comprometimento, como uma promessa mais explícita de voltar a elevar as taxas assim que os mercados se estabilizarem.

Em tempos normais, quaisquer dessas medidas poderiam ser altamente inflacionárias, e assim virar um tiro pela culatra. Mas estes não são tempos normais.

11/11/2008 - 14:01h A crise sem lágrimas

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Antonio Delfim Netto – VALOR

Estamos todos cansados de falar da crise financeira que agora aterrissa na economia real. Dos que a produziram, de como sairemos dela e como vamos enfrentar a próxima… É inegável que a Inglaterra (depois das trapalhadas nos EUA feitas pelo acadêmico Bernanke e o prático Paulson) deu o caminho para o início da solução: mostrou que não se tratava de um simples problema de liquidez, mas de uma desarticulação entre o patrimônio das instituições financeiras e os riscos que tomaram, alavancando-o com operações exóticas que não registravam em seus balanços como passivos contingentes.

Todos sabemos que, quebrada a confiança no setor financeiro, o colapso do setor real é apenas uma questão de tempo. Não adiantam argumentos ideológicos ou o recurso a duvidosas teorias científicas: quanto mais demorar a intervenção do Estado na forma de fornecimento de capital temporário (para deixar aberta a porta de saída) e do suprimento de liquidez, tanto maior e mais duradoura será a crise financeira e a redução da produção física, com o aumento do desemprego correspondente.

Um fato evidente e reconhecido é que o sistema financeiro nacional ficou fora desse processo. Ele é hígido e pouco alavancado, mas nem por isso foi poupado do pânico da morte súbita da confiança, que é o fator catalítico sem o qual o sistema econômico não funciona. É claro que não podemos substituir a queda de renda do setor exportador, derivada de uma eventual redução da demanda física de nossos produtos, ou evitar a quase certa redução dos seus preços em dólares. Parte do efeito-preço, entretanto, será compensada internamente por uma saudável desvalorização do real (que ajudará também a exportação industrial) cuja “supervalorização” foi produto de uma política monetária oportunística e míope.

Com as disponibilidades que dispomos (as reservas e o swap do Fed), se tivermos imaginação e agilidade poderemos usar nosso sistema bancário para restabelecer boa parte do financiamento externo que desapareceu. Por outro lado, é evidente que o financiamento interno que era feito por nosso sistema bancário, com base no funding com recursos externos, poderá, em boa parte, ser também substituído pela liquidez interna sem pressões maiores sobre os preços e não menores sobre o nível de atividade.

Até aqui o governo tem respondido com agilidade à crise, mas, infelizmente, não tem encontrado apoio adequado na pesada máquina burocrática que o país carrega. Sua ação tem sido tímida no conforto que só ele pode dar ao sistema financeiro e à economia real para que não reduzam, por simples precaução (elegantemente importada!), suas atividades. Não adianta enganar-se: o crédito das instituições financeiras estatais e privadas não está fluindo como poderia e deveria e o crédito ao setor agrícola para o custeio (que é datado!) deixa muito a desejar. A compra de insumos (fertilizantes, por exemplo) está paralisada nas mãos dos pequenos importadores (os grandes não estão fazendo a sua parte), porque os agricultores não têm crédito para comprá-los. Com alguma determinação, esses seriam problemas facilmente solúveis, mas não adianta resolvê-los em janeiro, às vésperas da colheita da safra 2008/09.

O mesmo acontece com a falta de conforto negado às “pequenas” (mas absolutamente hígidas!) instituições financeiras, que são, a um só tempo, fator de concorrência num sistema onde ganhos de dimensão estão produzindo enorme concentração, e prestadoras de serviços preferenciais para os pequenos e médios industriais e comerciantes. Todos sabemos que a higidez e a solvabilidade de um banco não têm relação com o seu tamanho. Dependem da confiança que nele depositam os que compram os seus papéis. Tanto os “grandes” como os “pequenos” são, por definição, extremamente vulneráveis às crises de confiança como a que estamos vivendo. A prova disso foi o que aconteceu com notáveis bancos americanos, europeus e japoneses, que há pouco tempo eram considerados “grandes demais para quebrar”.

É absolutamente claro que os mecanismos criados pelo governo e a ação tímida e torturada da autoridade monetária em dar pleno suporte a todo o sistema – com intervenção na capitalização transitória e no fornecimento de liquidez – têm sido insuficientes para restabelecer o fluxo financeiro das “pequenas” (mas absolutamente hígidas) instituições financeiras. O processo ou é inaceitável por elas, porque mortal (quem pode ir ao “redesconto” sem parecer uma casa de tolerância?) ou cruel demais (quem pode entregar-se sem morrer à discrição dos “grandes”, sejam eles públicos ou privados?). Afinal, quem ainda não sabe que a liquidez dos grandes “empoça” à espera das grandes oportunidades de lucro fácil. Eles são “predadores”, na direção dos quais a autoridade monetária insiste em espantar a “presa”…

Vamos ousar. O crescimento de 2009 não está escrito nas estrelas, nem está na história de 2008. No caso brasileiro, temos condições um pouco melhores do que a maioria dos países emergentes: temos energia interna para sustentar um nível certamente menor, mas não catastrófico, da atividade econômica sem sacrificar o “espírito de desenvolvimento” que ressuscitamos apenas em 2006. O que será 2009? Não, necessariamente, o que os analistas prevêem. Ele será o que formos capazes de fazer dele com nossa inteligência e ousadia. E isso exige uma ação decidida e mais ágil do Estado para: 1) dar “conforto” ao setor privado financeiro e real para tomar os seus riscos; e 2) não reduzir os investimentos do PAC, ainda que isso custe um corte duro nas despesas de custeio, obviamente excluídas as políticas sociais.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

E-mail contatodelfimnetto@terra.com.br

01/11/2008 - 11:39h Quando os consumidores capitulam

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Paul Krugman * – O Estado SP

A sempre temida capitulação dos consumidores americanos aconteceu. Segundo dados do Produto Interno Bruto (PIB) americano, divulgados quinta-feira, no terceiro trimestre as despesas de consumo caíram numa base anual de 3,1%, e os gastos com bens duráveis (como carros e TVs) tiveram queda de 14%.

Para entender o significado desses números, você precisa saber que os consumidores americanos quase nunca cortam gastos. A demanda cresceu mesmo durante a recessão de 2001; a última vez que se registrou queda num trimestre, foi em 1991. Jamais se observou um declínio tão acentuado desde 1980, quando a economia sofreu uma severa recessão combinada a uma inflação de dois dígitos.

Os dados são do terceiro trimestre – julho, agosto e setembro -, antes de a confiança do consumidor desmoronar com o tombo do Lehman Brothers. E não mostram os efeitos da súbita redução do crédito ao consumo.

Assim, esse parece ser o início de uma enorme mudança de comportamento do consumidor. É verdade que os americanos há muito vinham gastando mais do que tinham. Em meados da década de 80, eles poupavam cerca de 10% da renda. Mais recentemente, porém, a taxa de poupança tem se mantido abaixo dos 2% – às vezes chega a ser negativa – e a dívida do consumidor elevou para 98% do PIB, duas vezes maior que há um quarto de século atrás.

Alguns economistas diziam que não devíamos nos preocupar, porque os americanos estavam compensando as dívidas crescentes com os valores cada vez mais altos de suas casas e portfólios de ações. Por alguma razão, não se ouve mais isso. Cedo ou tarde, teriam que apertar o cinto.

Contudo, essa nova sobriedade chega numa hora infeliz. Somos tentados a repetir o apelo de Santo Agostinho: “dá-me a castidade e a continência, mas não agora”. Os consumidores estão economizando num período em que a economia dos EUA apresenta problemas de liquidez – uma situação em que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) não tem o controle da economia.

Este é o cenário: se você é um professor de introdução à macroeconomia, um dos momentos culminantes do semestre é quando esclarece como a virtude individual pode ser o vício público, como as tentativas para levar os consumidores fazerem a coisa certa, economizando mais, pode deixar todo mundo em situação pior. A questão é que, se os consumidores reduzem seus gastos e esse vazio não é ocupado, a economia entra em recessão, com uma queda da renda de todos.

Na verdade, a renda do consumidor pode cair mais do que a sua despesa e suas tentativas para economizar fracassam – possibilidade conhecida como o paradoxo da poupança.

Neste ponto, contudo, o professor rapidamente procura esclarecer que virtude não é, na verdade, vício: na prática, se os consumidores começam a economizar, o Fed responde cortando a taxa de juro, ajudando a evitar uma recessão e levando a um aumento nos investimentos. Portanto virtude é virtude, salvo se, por alguma razão, o Fed não conseguir compensar a queda dos gastos de consumo.

Aposto que você sabe o que vem em seguida. Estamos com problemas de liquidez e a política do Fed perdeu muito a tração. É verdade que Ben Bernanke não reduziu ainda as taxas de juro a zero, como os japoneses fizeram nos anos 90. Mas não dá para acreditar que reduzir os juros interbancários de 1% para nada vá ter efeito muito positivo. A crise financeira tornou a política do Fed irrelevante para grande parte do setor privado. O Fed tem realizado cortes, contudo as taxas hipotecárias e as de juros que as empresas pagam estão mais altas do que no inicio do ano.

Assim, a capitulação do consumidor americano ocorre numa época particularmente ruim. Mas não adianta reclamar. O que precisamos é de uma resposta política.

Os esforços em curso para socorrer o sistema financeiro só conseguirão atenuar um pouco o problema. Talvez alguns consumidores consigam manter seus cartões de crédito.

Não, o que a economia precisa agora é de algo que assuma o lugar dos consumidores que se retraíram. O que quer dizer um maior estímulo fiscal, na forma de gastos reais do governo, em vez de cheques de restituição de imposto, que os consumidores provavelmente não iriam despender. Esperemos, então, que o Congresso comece a trabalhar num pacote para salvar a economia tão logo acabe essa eleição. E esperemos também que a administração Bush, de saída, não venha atrapalhar.

*Paul Krugman escreve para o The New York Times

30/10/2008 - 09:45h Bancos centrais ao redor do mundo intensificam combate à recessão

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Jon Hilsenrath, Joellen Perry e Takeshi Takeuchi, The Wall Street Journal – VALOR

Mundo afora, bancos centrais abriram uma nova frente no combate ao enfraquecimento da economia. Autoridades nos Estados Unidos, China e Noruega anunciaram cortes de juros e em vários outros países isso deve acontecer nos próximos dias.

O Federal Reserve já está há dois anos cortando juros. O banco central americano tem sido mais agressivo do que qualquer outro e ontem baixou sua taxa de referência em meio ponto porcentual, para 1% ao ano. O Fed também deu sinais de que novos cortes são possíveis, ao observar que ” riscos de redução do crescimento persistem”.

Pela primeira vez em meses, o Fed não mencionou a inflação alta como uma preocupação, observando apenas que “espera que a inflação modere nos próximos trimestres a níveis consistentes com a estabilidade de preços”.

Com o corte de ontem, a taxa americana está num nível atingido pela última vez em 2003, bem depois que a recessão de 2001 acabou. Na época, crescimento fraco e temores de deflação, ou queda generalizada de preços, preocupavam as autoridades monetárias.

Como a economia americana continua deteriorando, juros mais baixos e outras ações do Fed e outras autoridades dos EUA parecem uma forte possibilidade. Se eles caírem ainda mais agora, poderiam chegar a níveis que não se viam desde os anos 50. A questão é se as baixas taxas oficiais têm o efeito de estímulo que as autoridades desejam.

Juros mais baixos costumam ser uma ferramenta poderosa para estimular a economia, porque reduzem o custo do crédito para empresas e consumidores e isso lhes dá um incentivo para iniciar projetos ou gastar dinheiro. Juros baixos também reduzem o custo de fundos para bancos, o que teoricamente os deixaria mais dispostos a conceder crédito.

Mas isso talvez não aconteça desta vez. A crise de crédito criou uma onda de aversão ao risco no sistema financeiro mundial, o que deixou muitos bancos sem disposição de emprestar mesmo tendo acesso a fundos mais baratos. Em vários mercados, os padrões para crédito se apertaram e, embora o juro de referência tenha caído, outras taxas de financiamento têm demorado a responder.

O rendimento dos títulos de dívida de grau especulativo está mais de 16 pontos porcentuais acima dos de papéis do Tesouro americano, o mais alto nível em décadas, segundo dados da Merrill Lynch. “O mercado de dívida de alto risco está parecendo uma bomba-relógio”, diz Martin Fridson, da Fridson Investment Advisors. “Mesmo na melhor das circunstâncias há um atraso entre o estímulo fiscal ou monetário (e o impacto) na economia. Quando os bancos estão tão surrados e resistentes a emprestar, é provável que seja ainda menos eficaz do que o normal.”

O amplo impacto econômico da crise de crédito deu às autoridades monetárias internacionais um maior sentimento de urgência.

Também ontem, o banco central da China cortou juros pela terceira vez em seis semanas, em meio à deterioração do panorama econômico para sua economia dependente de exportações. Autoridades japonesas deram sinais de que podem cortar os juros amanhã. E o banco central norueguês cortou sua taxa referencial pela segunda vez em duas semanas.

O Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra, que baixaram suas táxas básicas em meio ponto porcentual no início do mês, numa operação coordenada com o Fed, devem ser os próximos a anunciar cortes expressivos, na semana que vem.

No Brasil, o Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu manter a taxa básica em 13,75% ontem. Os juros no Brasil vinham numa tendência de alta em razão do recente surto inflacionário, mas desde a reunião anterior da autoridade monetária sinais de redução do crescimento ganharam mais proeminência.

O Japão, onde nem um juro de zero por cento conseguiu ressuscitar a economia alguns anos atrás, é um exemplo estudado cuidadosamente por Ben Bernanke, o presidente do Fed. Ainda assim, numa reunião marcada para amanhã, o comitê de política monetária do Banco do Japão vai considerar cortar sua taxa básica de 0,5% para 0,25%, segundo uma autoridade familiarizada com a situação.

A possibilidade de um corte de juros surpreendeu participantes do mercado financeiro. Há apenas uma semana, diretores do Banco do Japão praticamente descartavam afrouxar a política no curto prazo, dizendo que os juros já estavam baixos o bastante para sustentar a economia. A mudança de posição demonstra como as autoridades monetárias japonesas ficaram mais preocupadas com o enfraquecimento da economia devido à deterioração do mercado financeiro na última semana.

Dados divulgados ontem sugerem que o enfraquecimento de economias estrangeiras está pesando sobre o Japão. A produção industrial japonesa teve sua maior queda em quase quatro anos no período julho-setembro, caindo 1,2% no trimestre.

Mundialmente, a maré de cortes de juros mudou dramaticamente em poucas semanas. No início do semestre, os bancos centrais estavam preocupados com a alta do petróleo. Especialmente em mercados emergentes, onde parecia que a inflação estava ficando mais enraizada, muitos bancos centrais ainda pretendiam aumentar juros, até que a crise de crédito piorou, em setembro.

Agora, embora uns poucos bancos centrais tenham aumentado juros para segurar suas moedas em queda, muitas taxas importantes para a política monetária tendem a cair ao redor do mundo.

Economistas do J.P. Morgan Chase estimam que, em média, as metas de bancos centrais para juros estavam em 3,4% ao redor do mundo no fim da semana passada. Até o fim do ano, o J.P. Morgan espera que elas caiam para 2,8% e então continuem a cair no ano que vem, para 2,3%.

Ontem, o banco central da Noruega cortou sua taxa básica de 5,25% para 4,75% e deu sinais de novos cortes à frente. A decisão seguiu-se a um corte surpresa de meio ponto em 15 de outubro, o primeiro do Norges Bank desde março de 2004. Semana passada, o banco central da Suíça também cortou sua taxa básica de 4,25% para 3,75% e previu uma queda para 3,25% até março.

Algumas autoridades monetárias do BCE temem que a zona do euro, uma economia de US$ 12,2 trilhões, menor apenas que a dos EUA, possa ter um longo período de crescimento magro e só comece a se recuperar em fins do ano que vem. O presidente do banco, Jean-Claude Trichet, disse segunda-feira que um corte na reunião do banco em 6 de novembro era uma “possibilidade”, consolidando expectativas do mercado de um corte de meio ponto porcentual, para 3,25%.

“É uma reviravolta impressionante”, diz Erik Nielsen, economista da Goldman Sachs em Londres. “Eles perceberam que inflação não é mais um problema, e agora estão querendo salvar o mundo.”

Taxas ao redor da Europa estão mais altas do que nos EUA, o que dá aos bancos centrais europeus mais espaço para cortes do que o Fed tem.

Alguns economistas temem que o Fed possa se ver na mesma posição do Japão do início desta década, com taxas perto de zero e uma economia ainda afundando.

(Colaborou Andrew Batson)

18/10/2008 - 15:00h Vamos falar de gastos públicos

Paul Krugman * – O Estado de São Paulo

O índice Dow Jones está subindo até as alturas! Não, está em queda livre! Não, está em forte alta! Não, está…

Deixemos isso de lado. Enquanto o mercado de ações maníaco-depressivo domina as manchetes, a história mais importante está nas desanimadoras notícias sobre a economia real. Agora, está claro que o resgate dos bancos é apenas o começo: a economia não-financeira também precisa desesperadamente de ajuda.

E para oferecer essa ajuda, teremos de deixar de lado alguns preconceitos. Na política, está na moda falar contra os gastos do governo e exigir responsabilidade fiscal. Mas no momento, um aumento nos gastos do governo é exatamente o que o médico receitou e a preocupação com o déficit orçamentário deve ser adiada.

Antes de chegar nesse ponto, vamos falar da situação econômica. Nesta semana, aprendemos que as vendas no varejo despencaram de um precipício e o mesmo ocorreu com a produção industrial. O número de desempregados está num patamar associado a recessões graves e o índice de manufaturados medido pelo escritório do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) da Filadélfia está caindo no ritmo mais rápido em quase 20 anos. Todos os sinais apontam para um declínio econômico terrível, brutal e longo.

Quão terrível? A taxa de desemprego já está acima dos 6% (e critérios mais amplos de medição do desemprego já registram valores de dois dígitos). É agora praticamente certo que o desemprego vá superar os 7% e, possivelmente, até os 8%, fazendo desta a pior recessão do último quarto de século.

E quanto vai durar? Poderia de fato durar bastante tempo.

Pense no que houve na última recessão, que se seguiu ao estouro da bolha tecnológica do fim dos anos 1990. Na superfície, as medidas elaboradas em resposta àquela recessão parecem uma história de sucesso. Apesar do medo de que os EUA experimentassem uma “década perdida” ao estilo japonês, isto não ocorreu: o Fed foi capaz de construir uma recuperação por meio de cortes nas taxas de juros.

Mas a verdade é que durante um bom tempo a situação americana esteve muito parecida com a japonesa: o Fed enfrentou dificuldade até obter mais tração. Apesar dos repetidos cortes nas taxas de juros, os quais acabaram levando a taxa sobre os fundos federais até apenas 1%, a taxa de desemprego continuou a subir; foram mais de dois anos até que o cenário dos empregos começasse a melhorar. E quando finalmente chegou uma recuperação convincente, isto se deu apenas porque Alan Greenspan conseguiu substituir a bolha tecnológica por uma bolha das moradias.

Agora a bolha das moradias explodiu, deixando a paisagem financeira repleta de destroços. Mesmo que funcionem os esforços atuais para o resgate do sistema bancário e para o descongelamento dos mercados de crédito – e apesar de ainda estarmos nos primeiros dias, os resultados iniciais foram desapontadores – é difícil de imaginar que ocorra uma recuperação nas moradias tão cedo. E se há uma outra bolha esperando, ela não é óbvia. Desse modo o Fed enfrentará dificuldade ainda maior em conseguir tração desta vez.

Em outras palavras, não há muito o que Ben Bernanke possa fazer pela economia. Ele pode e deve cortar ainda mais as taxas de juros, mas ninguém espera que isso faça mais do que oferecer um discreto estímulo econômico.

Por outro lado, há muito que o governo federal pode fazer pela economia. Ele pode oferecer benefícios mais extensos aos desempregados, o que ao mesmo tempo ajudaria as famílias em dificuldade e põe dinheiro nas mãos de pessoas que provavelmente vão gastá-lo. O governo pode oferecer ajuda de emergência para os governos estaduais e locais, para que não sejam obrigados a realizar grandes cortes de gastos que ao mesmo tempo degradam os serviços públicos e destroem empregos. Ele pode comprar hipotecas (mas não pelo seu valor de face, conforme propôs John McCain) e reestruturar os termos da dívida para ajudar as famílias a permanecerem em suas casas.

E essa seria também uma boa época para se envolver em grandes gastos com infra-estrutura, coisa que o país precisa muito, seja como for. O argumento habitual contrário às obras públicas enquanto estímulo econômico diz que essas demoram muito para ficar prontas: quando finalmente começar o conserto daquela ponte e a substituição daquela ferrovia, o declínio já terá acabado e o estímulo não será mais necessário. Bem, esse argumento não tem força agora, já que as chances de que este declínio termine num futuro próximo são virtualmente nulas.

Então, vamos dar início a esses projetos.

Será que a próxima presidência fará o que é necessário para lidar com o declínio econômico? Não se McCain conseguir frustrar a todos. O que precisamos agora é de mais gastos do governo – mas quando perguntaram a McCain como ele lidaria com a crise econômica, ele respondeu: “Bem, antes de mais nada, precisamos controlar essa enorme quantidade de gastos governamentais.” Se Barack Obama for eleito presidente, ele não sofrerá do mesmo tipo de oposição aos gastos públicos. Mas ele enfrentará um coro de tipos experientes em Washington dizendo a ele para ser responsável, afirmando que seriam inaceitáveis os grandes déficits nos quais o governo incorreria no próximo ano, caso faça a coisa certa.

Obama deve ignorar este coro. A atitude responsável, no momento, é estender à economia a ajuda de que ela necessita. Agora não é hora de se preocupar com déficits orçamentários.

*Paul Krugman escreve para o ‘The New York Times’

14/10/2008 - 09:56h Gordon agiu bem

Paul Krugman – O Globo

http://wonkette.com/assets/resources/2008/02/krugman1.jpgTerá Gordon Brown, o premier britânico, salvo o sistema financeiro mundial? Tudo bem, a pergunta é prematura — ainda não sabemos a forma exata do pacote de resgate financeiro na Europa ou até mesmo nos EUA e se vai funcionar de fato. O que sabemos, no entanto, é que Brown e Alistair Darling, o chanceler de Exchequer (o equivalente ao nosso secretário do Tesouro), definiram o caráter do esforço global de resgate, com outras nações ricas correndo atrás deles.
Isso é uma virada inesperada.
Afinal, o governo britânico é um sócio júnior no que se refere a assuntos de economia mundial. É verdade que Londres é um dos grandes centros financeiros do mundo, mas a economia britânica é bem menor que a americana, e o Banco da Inglaterra não tem nem de perto a influência tanto do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) quanto do Banco Central Europeu.
Assim, ninguém esperava ver a Grã-Bretanha desempenhando o papel de líder.
Mas, o governo britânico tem demonstrado disposição para pensar claramente, e agir com rapidez. E essa combinação de clareza e decisão não foi ainda vista em nenhum outro governo ocidental, muito menos os EUA.
Qual é a natureza da crise? Os detalhes podem ser confusamente complexos, mas o básico é bastante simples. A explosão da bolha imobiliária levou quem comprou ativos baseados no pagamento de hipotecas a grandes perdas; essas perdas deixaram muitas instituições financeiras com muitas dívidas e pouco capital para prover o crédito de que a economia necessita; as instituições financeiras afetadas tentaram honrar seus débitos e elevar seus capitais vendendo ativos, mas isso fez com que os preços dos ativos caíssem drasticamente, reduzindo ainda mais seus capitais.
O que pode ser feito para conter a crise? Ajudar os mutuários, embora desejável, não pode evitar grandes perdas sobre maus empréstimos e, de qualquer maneira, vai demorar muito para fazer efeito em meio ao pânico atual. A coisa natural a fazer, portanto — e foi a solução adotada em crises anteriores — é lidar com o problema do capital financeiro inadequado, com os governos provendo as instituições financeiras com mais capital em troca de participação.
Essa espécie de meia estatização temporária, que tem sido chamada de “injeção de ações”, é a solução da crise, segundo muitos economistas — e fontes disseram ao “NYT” que é essa também a solução preferida por Ben Bernanke, o presidente do Fed.
Mas, quando Henry Paulson, o secretário do Tesouro dos EUA, anunciou o pacote de US$ 700 bilhões para salvar o sistema financeiro, ele rejeitou esse caminho óbvio. Em vez disso, sugeriu que o governo comprasse papéis podres das hipotecas, baseado na teoria de que… bem nunca ficou claro qual é a sua teoria.
Enquanto isso, o governo britânico foi direto ao coração do problema — e se mobilizou para enfrentá-lo com presteza. Na quarta-feira, assessores de Brown anunciaram um pacote de injeção de dinheiro nos bancos britânicos, garantia para as dívidas dos bancos para estimular a volta dos empréstimos interbancários, um passo crucial do mecanismo financeiro.
Numa reunião de cúpula no domingo, as principais economias da Europa continental se declararam prontas a seguir a liderança da Grã-Bretanha, injetando centenas de bilhões de dólares nos bancos e garantindo suas dívidas. E, quem diria, Paulson — depois de perder várias semanas preciosas — também mudou de curso, e agora pretende comprar participações nos bancos em vez de papéis podres (embora ele ainda pareça estar se movendo com uma dolorosa lentidão).
Como disse, ainda não sabemos se essas iniciativas funcionarão. Mas, finalmente, há uma política movida pela visão clara do que precisa ser feito. O que levanta a seguinte questão: por que essa visão clara teve que vir de Londres em vez de Washington? É difícil evitar a sensação de que a resposta inicial de Paulson foi distorcida por ideologia. Lembre-se, ele trabalha para um governo cuja filosofia de governo pode ser resumida a “privado é bom, público é ruim”, o que deve ter tornado difícil de enfrentar a necessidade de participação acionária do governo no setor financeiro.
Também imagino o quanto o esvaziamento do governo sob a gestão Bush não terá contribuído para a hesitação de Paulson. Em todas as áreas do Executivo, profissionais de renome foram empurrados para fora; pode ser que não tenha sobrado ninguém no Tesouro com estatura e experiência para dizer a Paulson que ele não estava fazendo sentido.
Sorte da economia mundial, porém, que Gordon Brown e seus assessores estejam fazendo sentido. E eles podem até ter nos mostrado o caminho para sair dessa crise.

PAUL KRUGMAN é colunista do “New York Times” e prêmio Nobel de Economia de 2008

10/10/2008 - 07:27h “Poderemos ter uma depressão global”

FOLHA SP – ENTREVISTA  NOURIEL ROUBINI

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Economista que previu crise diz que sistema financeiro precisa mudar para evitar “derretimento total”

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Na segunda-feira, Nouriel Roubini escreveu que o governo norte-americano deveria organizar um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e o Federal Reserve, o banco central do país, tinha de fazer empréstimos de curto prazo diretamente para as empresas. Na terça e na quarta, as duas medidas foram anunciadas. Você sabe que a crise é realmente grave quando um economista conhecido pelo apelido de “Sr. Apocalipse” começa a ser ouvido pela Casa Branca.
Profissional do meio que mais acertos fez em relação à crise atual, Roubini falou à Folha por telefone na tarde de anteontem. Sotaque de mafioso de filme B de Hollywood -filho de judeus iranianos, nasceu na Turquia, morou na Itália e vive em Nova York-, disse que toureava 300 pedidos de entrevista que chegaram apenas naquele dia. Ele acha que o mundo corre o risco de uma depressão, e o Brasil, de crescer menos de 3% (leia texto nesta página). Leia trechos da entrevista.

FOLHA – Depois de os 12 passos que o sr. previu em fevereiro para a crise atual se cumprirem, o que podemos esperar para o 13º?
NOURIEL ROUBINI
– Bem, há duas opções. Ou promovemos uma mudança radical no sistema financeiro para evitar o derretimento completo, que é a coisa certa a fazer, ou esse sistema sofrerá colapso nos Estados Unidos, na Europa e em outros países. E poderemos ter uma depressão global.

FOLHA – O sr. vê contágio no setor corporativo?
ROUBINI
– Já começa a acontecer aqui nos EUA. Em geral, com algumas exceções, as companhias americanas não estavam tão expostas ao papéis tóxicos hipotecários. Ainda assim, nas últimas semanas, diminuiu drasticamente o acesso a crédito das empresas aqui no país, mesmo companhias avaliadas pelas agências de risco como AAA.
Com o mercado de papéis comerciais [letras de câmbio não-garantidas] praticamente interrompido e os empréstimos bancários caríssimos, não há dinheiro para que elas cumpram as obrigações do dia-a-dia. Se nem essas estão tendo acesso, imagine as que têm avaliação pior. Se isso se agravar no setor corporativo, todo o sistema pára, começaremos a ver quebras de empresas incapazes de honrar seus compromissos de curto prazo. Na minha opinião, já estamos no ponto de crise grave também aqui.

FOLHA – Isso leva à minha próxima pergunta. O sr. escreveu na última segunda um artigo em que pedia um corte coordenado de juros nas principais economias mundiais e que o Federal Reserve emprestasse diretamente para as empresas. Nos dias seguintes, as duas medidas foram anunciadas. Coincidência, é claro, mas o sr. acha que alguém no governo finalmente começou a ler suas colunas?
ROUBINI
– Eu sei que eles ouvem de fato, porque muitos deles me ligam e dizem isso. As decisões foram corretas e vão na direção certa, mas não são suficientes, muito mais tem de ser feito. Se você ler o meu artigo, eu pedia duas outras ações, que o Fed garanta que vai prover liquidez no caso de uma corrida generalizada aos bancos e que aumente sua ação para prover liquidez de curto prazo a atores não-bancários que emprestam a corporações. A primeira eu não sei quando vai acontecer, a segunda já estamos vendo aos poucos.
Outro aspecto que eu não escrevi mas que acho necessário é um programa de expansão fiscal do governo nos moldes dos da Grande Depressão, porque a demanda privada e o consumo estão sofrendo colapso, então serão necessários gastos governamentais em infra-estrutura nos níveis municipal, estadual e federal. Precisamos revisar o Plano Paulson também para que aja efetivamente nos setores imobiliário e no sistema bancário. Resumindo, ainda falta fazer muito.

FOLHA – O sr. pinta um quadro excessivamente grave. A situação é tão ruim assim?
ROUBINI
– Sim, na última semana ou dez dias, o sistema financeiro inteiro parou de funcionar, não há mais empréstimos interbancários, não há mais transmissão de liquidez entre os bancos e do sistema bancário para o sistema financeiro paralelo, que está em extinção, e começa a chegar ao setor corporativo. As Bolsas se enfraquecem a cada dia, o mercado seca e os gastos começam a diminuir. Estamos a um passo do derretimento total.

FOLHA – O sr. mencionou a possibilidade de depressão global. Quão perto estaria?
ROUBINI
– Já estamos em recessão nos Estados Unidos, na Europa, no Reino Unido, no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, no Japão. Ou seja, cerca de 50% das economias globais já estão em recessão. Depois que essa se estabelecer, começaremos a ver desaceleração maciça de crescimento nas economias emergentes. O que quer dizer isso? Que teremos algum crescimento nos mercados emergentes, entre 2% e 3%, o que será uma aterrissagem dura para esses países, que necessitam de muito mais do que isso. Essa diminuição contribuirá para a queda do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) global, que pode ficar negativo.

FOLHA – E quanto durará?
ROUBINI
– Se fizermos tudo certo, o que não está garantido, deve durar entre 12 e 24 meses. Há também o risco de os EUA entrarem numa estagnação como a que atingiu o Japão.

FOLHA – E quem é o culpado , em sua opinião?
ROUBINI
– São muitos e diferentes fatores. É uma tempestade perfeita composta de dinheiro fácil, crédito fácil, baixas taxas de juros, instituições financeiras se expondo a risco excessivo, instrumentos financeiros novos e modernos, mas também exóticos e sem liquidez, cumplicidade das agências classificadora de riscos, falta de regulação e supervisão adequada por parte dos governos. Não há um só culpado, mas vários: agentes financeiros, reguladores, governantes, bancos centrais…

FOLHA – O sr. foi um dos primeiros a preverem essa crise, já em 2006. Foi chamado de catastrófico, apocalíptico e alarmista então. O sr. se sente vingado, de alguma maneira?
ROUBINI
– Vingado não é a palavra, pela quantidade de desastres que essa crise trouxe, mas eu estava seguro de que minhas análises eram plausíveis e que meus dados eram corretos, que eu tive a honestidade intelectual de manter meus pontos de vista porque sabia que estava certo. E, infelizmente, eu estava certo.

FOLHA – Por que o sr. foi quase uma exceção?
ROUBINI
– Os que fazem a política econômica tinham receio de dizer que temiam pelo futuro da economia, muitos analistas econômicos fazem previsões que procuram agradar a seus clientes, havia ainda um clima de euforia, muita gente dizendo que era um novo mundo, que seria diferente dessa vez. Muita gente dizendo que não se tratava de uma bolha imobiliária, mas de uma série de pequenos avanços…

FOLHA – O que o sr. não previu? O que o surpreendeu?
ROUBINI
– A velocidade com que os 12 passos que eu previ aconteceram. Na minha análise, o que aconteceu desde a quebra do Lehman Brothers levaria talvez dois anos.

FOLHA – O sr. trabalha numa nova série de passos?
ROUBINI
– Não, em vez de ficar prevendo desgraças novas, estou me dedicando a sugerir soluções para a catástrofe.

FOLHA – O Plano Paulson vai funcionar?
ROUBINI
– Não, falta muita coisa. Recapitalizar o sistema bancário, lidar diretamente com os mutuários inadimplentes, fazer uma triagem entre os bancos que merecem ser salvos e os que devem quebrar, muito mais tem de ser feito para que o plano funcione, e eu não vejo isso acontecendo.

FOLHA – O secretário do Tesouro, Henry Paulson, e o presidente do Fed, Ben Bernanke, parecem estar sempre um passo atrás dos acontecimentos.
ROUBINI
– Sim, atrás da curva, e isso prejudica até as ações positivas que eles tomam. Muitas vezes os mercados têm reagido mal a boas iniciativas, porque chegam tarde.

FOLHA – O próximo presidente vai encarar o pior da crise. Qual a diferença fundamental entre a política econômica do democrata Barack Obama e a do republicano John McCain?
ROUBINI
- A principal diferença é que Obama, a quem apóio, tomará ações mais decisivas para lidar com a crise, não deixará o mercado cuidar de si mesmo. Precisaremos de uma intervenção mais formal, e isso estava faltando na última gestão e continuará faltando na de McCain. Essa será a principal diferença entre os dois.

FOLHA – O sr. se incomoda de ter sido apelidado “Sr. Apocalipse”?
ROUBINI
– Não ligo. Não é que eu seja uma pessoa permanentemente pessimista em relação ao mercado, eu serei o primeiro a gritar “a crise acabou!” quando ela acabar e me tornarei um otimista. Creio, na verdade, que ainda há muitas oportunidades na economia global para que mercados emergentes cresçam num ritmo sustentável, mesmo agora. Não é uma questão de otimismo versus pessimismo. É que os eventos das últimas semanas surpreenderam até mesmo o meu pessimismo.

FOLHA – Quando o sr. se sentirá otimista?
ROUBINI
– Quando eu sentir que chegamos ao fundo do poço, o que não aconteceu. Eu vejo uma luz no fim do túnel, mas é uma locomotiva vindo em nossa direção…

07/10/2008 - 09:30h Fim de linha: estatização em massa

VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA SP

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Em plena anarquia do pânico, finança mundial pede ação maciça do Estado a fim de conter desastre ainda maior


ONDE FICA o fim da picada? A desordem nas finanças mundiais acaba de dar sentido concreto à metáfora: sem meias palavras, propõe-se que o fim do caminho agora é a estatização, ainda que provisória, de vastas partes do sistema financeiro euroamericano, além da intervenção estatal maciça nas relações entre credores e devedores do sistema financeiro privado.
A anarquia financeira, a demorada implementação do pacotão dos EUA e a desordem política na Europa provocam corridas. Correntistas sacam seus depósitos na Europa, americanos sacam de seus fundos de investimento, clientes de “hedge funds” sacam suas aplicações. O resultado é pânico ainda maior, seca de crédito e venda em massa de ativos financeiros para atender demandas de saques e a perdas decorrentes da liquidação de ativos, queima total que atinge também ativos brasileiros.
Em parte, a estatização já está acontecendo, como se vê em casos pontuais nos EUA e na Europa. De resto, os maiores BCs do mundo são agora provedores iniciais de crédito para um sistema financeiro privado que congelou de terror.
A solução estatizante terminal foi apresentada da maneira mais simples e direta num editorial de hoje do diário financeiro britânico “Financial Times”, mas está por toda parte -em artigos de economistas de ponta, de grandes gestores de fundo e de grandes bancos. Diz o jornal, no texto “Como salvar os bancos europeus”: “Encerrar o pânico vai requerer algo mais: a recapitalização do setor bancário. Na falta de uma fila de investidores ávidos, a recapitalização ocorrerá ou por meio da conversão forçada de dívida em ações ou de governos comprando eles mesmos uma parte [dos bancos]“.
Isto é: 1) governos devem obrigar os credores a transformar os créditos que têm a receber dos bancos em participação no capital dessas instituições financeiras; 2) governos têm de comprar bancos alquebrados que ainda podem ser salvos. Paul Krugman apresentou a mesma proposta ontem, num “paper” cheio de equações, mas de conclusão simples, que tem repetido faz dias: o governo tem de levar partes dos bancos a fim de recapitalizá-los.
Segundo relato de ontem do BNP Paribas, o bancão francês, o Fed (o BC dos EUA) viria a fazer empréstimos sem garantia para bancos, além de já pagar juros sobre reservas que os bancos têm de manter no banco central: o Fed se alavanca e explode o seu “limite” de empréstimos. “O Fed está morto. Viva o Ben Bernanke Capital Management”, diz sarcasticamente o banco, comparando o Fed a um notório e gigantesco “hedge fund” falido em 1998, o Long Term Capital Management (LTCM).
O BNP relata rumores de que os EUA vão recapitalizar bancos quebrados, subsidiar mais fusões & aquisições bancárias e emprestar dinheiro aos fundos de investimento (”money markets funds”), principais fornecedores de crédito de curto prazo para empresas. O UBS e o Citi sugerem que os governos ofereçam garantias gerais para todos os depósitos e, também, programas estatais de recapitalização de bancos privados. Todo mundo sugere a criação de câmaras de compensação para dar ordem a mercados como os de derivativos de crédito e outros papéis enrolados. Etc. É o fim da linha.

vinit@uol.com.br

02/10/2008 - 09:17h Esclarecendo o risco

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David Leonhardt * – O Estado de São Paulo

Em 1929, Meyer Mishkin era o proprietário de um estabelecimento em Nova York que vendia camisas de seda aos trabalhadores. Quando o mercado de ações faliu naquele mês de outubro, ele se voltou para o filho, na época um estudante da Universidade Municipal, e ofereceu uma versão dos seus sentimentos: “É isso que merecem aqueles ricaços”.

Um ano depois, com os problemas de Wall Street se espalhando para toda a economia, a loja de Mishkin faliu. Ele não tinha mais fregueses o bastante. O seu filho teve que trabalhar para ajudar a sustentar a família e Mishkin nunca mais conseguiu um emprego estável.

Frederic Mishkin – neto de Meyer e, até abrir mão do cargo no mês passado, um dos aliados de Ben Bernanke no Federal Reserve – me contou essa história outro dia, e a moral que ela contém é bastante óbvia.

Muitos em Washington temem que o país entre numa espiral rumo a um terrível declínio. E para horror dessas pessoas, elas vêem o público e muitos dos membros do Congresso se transformando em versões contemporâneas de Meyer Mishkin, mais interessados em castigar Wall Street do que em salvar a economia.

Tudo isso pode ser verdade. Mas há boas razões para o ceticismo da população. Os especialistas em política econômica tão desesperados para tomar alguma atitude não foram capazes de contar uma história convincente para explicar aquilo que tanto temem.

Não basta dizer que os mercados poderiam congelar, os empréstimos poderiam se tornar impossíveis e a economia poderia escorregar até entrar no pior declínio desde a Grande Depressão. Por enquanto, a crise teve pouco efeito sobre a maioria dos americanos, a não ser sobre o seu plano de aposentadoria. Assim, o espectro de uma depressão pode soar como alarmismo, e o pacote de US$ 700 bilhões que a Câmara rejeitou esta semana pode parecer um resgate para ricos.

Bernanke e os seus companheiros de preocupação precisam ligar os pontos. Eles precisam ensinar ao público uma pequena lição sobre a economia de uma crise de crédito – como A pode levar a B, B a C e C a Depressão.

Vamos tentar oferecer uma explicação. Por que estamos falando sobre a Grande Depressão, afinal? Praticamente nenhum economista acredita que mesmo um terrível declínio possa sequer se parecer com a Depressão. O governo já respondeu de maneira mais agressiva do que na época de Herbert Hoover. Assim, uma contração semelhante à Depressão – uma queda de 30% na atividade econômica – é muito improvável. O país também está hoje muito mais rico, o que significa que uma parcela muito menor da população vive no limiar do desespero. Não importa o que aconteça, não veremos surgir favelas.

Mas a Depressão ainda é relevante, porque a mecânica básica de como a economia entra numa recessão severa parece muito com aquela que provocou a Depressão. Em ambos os casos, no centro da história há uma crise de crédito.

No início da década de 1930, apesar de tudo que acontecera em Walk Street, a economia dos EUA ainda não entrara em colapso. O gasto dos consumidores e os investimentos em negócios estavam em baixa, mas não de maneira tão drástica.

No fim de 1930, no entanto, vários pânicos começaram entre os bancos. Os investimentos dos bancos iam mal – ou, em certos casos, havia o boato de que fossem mal – e os fregueses nervosos sitiaram as filiais dos bancos para exigir de volta o seu dinheiro. Centenas de bancos acabaram fechando as portas.

Depois de um banco de uma determinada cidade fechar as portas, todo o conhecimento acumulado pelos funcionários do banco desapareceu. Outros bancos não estavam nem de longe tão dispostos a emprestar dinheiro a negócios e residentes locais porque os funcionários credores nestes bancos não sabiam quais clientes era menos confiáveis do que aparentavam ser. A fonte do crédito secou.

“Se um sujeito enxerga uma boa oportunidade de investimento e não consegue acesso ao financiamento, ele não pode aproveitá-la”, destaca Mishkin, agora professor de economia na Universidade de Columbia. “É aí que a economia entra em colapso.” Ou, conforme Adam Posen, outro economista, “foi então que a Depressão de tornou a Grande Depressão”.

Jovem acadêmico de Economia na década de 1980, Bernanke desenvolveu a teoria de que o conhecimento perdido dos funcionários dos bancos foi uma das principais causas da Depressão. Ele se referiu (com o seu co-autor, Mark Gertler) a esse conhecimento perdido como “capital informacional”. Significa que a confiança desapareceu no setor bancário.

O mesmo está ocorrendo agora. Os mercados financeiros são hoje globais, de modo que o problema não é que a falência de um banco possa impedir os clientes de acessar os mercados de crédito. Em vez disso, as desagradáveis surpresas dos últimos 13 meses – o tipo de caos que já foi inimaginável – provocaram um colapso no capital informacional. Os banqueiros agora olham para os clientes antigos e pensam aquele velho refrão de um casamento fracassado: “sinto como se nem mesmo o conhecesse mais”.

O Bear Sterns, por exemplo, deveria ter garantias reais tangíveis e sólidas por trás de algumas das suas dívidas, de modo que certos credores fossem pagos não importando as circunstâncias. Mas não tinha essas garantias, e a dívida não foi paga.

O estágio atual e mais sério da crise começou há duas semanas, depois do colapso do Lehman Brothers e da aquisição da AIG pelo Fed. Esses eventos provocaram mais medo. Em vez de realizar muitos empréstimos, os bancos despejaram seu dinheiro em títulos do Tesouro, que pagam juro baixíssimo, mas também têm risco quase inexistente. Sobre os poucos empréstimos que fizeram, os bancos exigiram taxas de juro mais altas. Nas últimas duas semanas, as taxas de juros continuaram a aumentar, e são essas taxas que deveríamos observar, não o mercado de ações.

O ponto central é que uma economia moderna não pode funcionar quando as pessoas não têm fácil acesso ao crédito. Demora um pouco até isso se tornar óbvio, já que a maioria das empresas e das pessoas não solicita empréstimos vultosos todos os dias. Mas acabará se tornando óbvio, e de uma maneira dolorosa. Já estamos vendo uma escassez no financiamento de automóveis provocar uma queda ainda maior nas vendas do setor automobilístico.

Será que a crise atual poderia ser combatida – será que os bancos poderiam decidir que estão perdendo lucrativas oportunidades de investimento – sem um fundo governamental de US$ 700 bilhões para livrar Wall Street de alguns dos seus valores mobiliários mais assustadores? Claro que sim.

Estaria o Congresso certo em lutar por um programa factível que seja tão barato e rigoroso com Wall Street quanto possível? Absolutamente sim. Mas, afinal, não se trata de Wall Street. Trata-se de reduzir o risco de que algo ruim aconteça. Trata-se de limitar os danos provocados pelos excessos financeiros da década passada.

Infelizmente, não se pode realizar isso sem também oferecer ajuda a Wall Street. É lá que ficam os nossos mercados de crédito, e precisamos que eles voltem a funcionar. “Estamos enfrentando uma grande crise nacional”, como diz o neto de Meyer Mishkin. “Não fazer nada agora é repetir o que foi feito na Grande Depressão.”

*O autor escreve para o ‘The New York Times’

26/09/2008 - 10:57h De Keynes a Paulson

http://www.businessweek.com/magazine/content/04_15/art04_15/0415_20innova.jpg
John Maynard Keynes

David Ignatius* – O Globo

Henri Paulson com Bushhttp://blogs.denverpost.com/lewis/wp-content/photos/paulson.JPG

Em tempos como este, quando mesmo os mais sóbrios analistas especulam se estamos caminhando para outra Grande Depressão, é melhor respirar fundo, ir ao porão e tirar a poeira de um exemplar de um modesto estudo de John Maynard Keynes, de 1936, chamado “A teoria geral de emprego, juros e dinheiro”.

A maioria se lembra de Keynes da universidade, como aquele que defendia o déficit orçamentário para encorajar o crescimento em períodos de desaceleração. E isso era certamente parte de seu argumento. Mas, ao revisitar “A teoria geral”, chama a atenção o fato de ser um livro sobre pânicos econômicos e a psicologia do mercado que os produz — e a conseqüente necessidade de intervenção do governo.

Alguns trechos poderiam ter sido escritos esta semana para descrever as sucessivas quebras de Bear Stearns, Lehman Brothers e AIG.

O problema com os mercados financeiros, argumentou Keynes, era que os investidores eram periodicamente tomados por uma forma extrema do que chamou de “preferência de liquidez”, que os fazia aplicar dinheiro apenas nos investimentos mais seguros. “É da natureza dos mercados (…) que, quando a desilusão cai sobre um mercado superotimista e sobrecomprado, deveria cair com uma força súbita e até catastrófica”, escreveu ele.

“Depois de surgir, a dúvida se espalha rapidamente”.

É uma ótima descrição de Wall Street nos últimos meses.

Saímos de uma bolha de superentusiasmo, na qual os juros deram pouca atenção ao risco, para um estado de pânico no qual as instituições financeiras têm tanta aversão ao risco que não querem emprestar a ninguém.

A idéia revolucionária de Keynes era que os mercados financeiros não se autocorrigiam, como argumentavam economistas clássicos. Deixada a si própria, Wall Street poderia cair em uma armadilha de liquidez em que os mercados ficariam congelados e o investimento produtivo cessaria. Então restava ao governo tomar medidas para restaurar a confiança e estimular o investimento.

“Eu concluo que a tarefa de organizar o volume atual de investimento não pode ser deixada em mãos privadas”, escreveu ele.

O que nos traz ao secretário do Tesouro, Henry Paulson, e à crise atual. Desde o resgate do Bear Stearns, em março, Paulson vem tentando injetar dinheiro nos mercados. Mas cada medida de resgate somente prepara para o desastre seguinte — então Paulson passa de Bear Stearns para Fannie e Freddie para AIG, e agora para um pacote de US$ 700 bilhões.

Que conselho Keynes daria a Paulson e ao presidente do Fed, Ben Bernanke? Seu primeiro impulso, imagino, seria reiterar que os mercados, deixados a si próprios, não vão resolver esse tipo de crise.

Eles precisam de ajuda do governo — neste caso, em uma escala que teria assustado até Keynes. Mas se as medidas são tomadas sem amplo apoio político, elas só podem aumentar a ansiedade popular. Isso é uma preocupação hoje: que o pânico de Wall Street atinja Main Street.

O biógrafo de Keynes, Robert Skidelsky, ressalta que ele sempre tentou englobar as conseqüências sociais e políticas da política econômica.

Um verdadeiro resgate keynesiano deveria fazer mais que socorrer investidores tolos. Por exemplo, se os contribuintes vão comprar uma fatia da maior seguradora do país, talvez essa empresa possa ser a pedra fundamental de um novo sistema de seguro-saúde universal.

“Quando o desenvolvimento do capital de um país se torna o subproduto das atividades de um cassino, o trabalho acaba ficando malfeito”.

Keynes não iria querer nacionalizar esse cassino; ele mesmo era um investidor ativo. Mas ele nos lembra de que os objetivos públicos são mais bem servidos por instituições públicas.

*David Ignatius é colunista do “Washington Post”

22/09/2008 - 17:28h Professor e banqueiro jogam por terra dogmas do mercado

http://www.bloomberg.com/apps/data?pid=avimage&iid=iKxS3iDjh3oQ

Ben S. Bernanke, do Fed, e Henry M. Paulson, do Tesouro, são autores da maior intervenção governamental da história dos EUA, que envolve US$ 700 bilhões

PETER BAKER – FOLHA SP

DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON

http://resistir.info/financas/imagens/paulson_bernanke.jpgNos últimos 12 meses, enquanto a economia dos EUA vem tropeçando de crise em crise, o presidente do Federal Reserve, Ben S. Bernanke, vinha avisando o secretário do Tesouro, Henry M. Paulson, Jr, que o agravamento da situação poderia acabar por obrigar a uma intervenção federal abrangente.

Estudioso de longa data da Grande Depressão, Bernanke tinha consciência aguda do que poderia acontecer se não fossem tomadas medidas decisivas. O momento em que essa ação se tornou inevitável chegou na noite de quarta-feira. Menos de 24 horas depois de o Fed ter socorrido a gigantesca seguradora American International Group, ficou claro que a turbulência que agitava Wall Street só estava se agravando e que as soluções pontuais não estavam funcionando.

Falando ao telefone de sua sala de trabalho, Bernanke disse a Paulson que era chegada a hora de se adotar uma estratégia abrangente que o Congresso teria que aprovar. Paulson entendeu. Relutante, nos últimos dias, em submeter ao Congresso um plano que os legisladores tinham avisado que teria poucas chances de ser aprovado rapidamente, ele temera que uma possível rejeição tivesse efeito negativo ainda maior sobre os mercados. Mas, em dois telefonemas, na noite de quarta e na manhã de quinta-feira, ele concordou que não havia escolha.

“Aconteceu de maneira dramática”, disse Paulson em entrevista na sexta-feira. “Só havia um jeito de tranqüilizar os mercados e fazer frente a um congelamento muito grande e amplo do mercado de crédito. Não houve cálculos políticos. A necessidade da ação ficou avassaladoramente evidente.” E foi assim, simplesmente, que o reservado Bernanke, ex-professor de uma das mais respeitadas universidades americanas, e Paulson, ex-operador arrojado de Wall Street, lançaram aquela que seria a maior operação de resgate econômico governamental dos tempos modernos, que rivaliza com a guerra do Iraque em custos e que, ao mesmo tempo, pode redefinir o papel de Washington no mercado nos anos por vir.

Parceria

O plano de comprar US$ 700 bilhões em ativos problemáticos com dinheiro dos contribuintes foi traçado por dois homens que até dois anos atrás não se conheciam e não se movimentavam nos mesmos círculos, mas que a história aproximou. Se Bernanke é a força intelectual dessa dupla improvável, e Paulson, seu homem de ação, o fato é que eles conseguiram criar uma parceria ímpar em sua corrida para sustar a turbulência financeira e impedir a economia de afundar.

Como convém a seus papéis e personalidades, Paulson tornou-se o rosto público da equipe -ele pretende aparecer em quatro “talk shows” no domingo-, enquanto o menos visível Bernanke fornece as bases históricas da estratégia forjada.

Nesse caminho, eles deixaram de lado as posições defendidas por muito tempo pela administração em relação à regulamentação e ao envolvimento do governo nas empresas privadas, chegando a reverter decisões no prazo de 24 horas e a justificá-las como soluções práticas a ameaças graves. “Em tempos de crises financeiras, não há lugar para ideólogos”, disse Bernanke a colegas na semana passada, segundo testemunha de uma reunião.

A natureza pontual e improvisada de seu esforço converteu o presidente Bush e os democratas no Congresso em virtuais espectadores, às vezes incertos sobre o que virá a seguir, reagindo com assombro à nova dinâmica do poder na capital. A cada vez que os legisladores tentavam entender o que estava acontecendo e que papel poderiam exercer, com as eleições cada vez mais próximas, Paulson e Bernanke apareciam no Capitólio para mais uma reunião noturna e os surpreendiam com mais uma novidade.

Os dois homens vêm trabalhando desde cedo e até tarde, acompanhando os mercados asiáticos e atendendo a telefonemas com seus colegas europeus, depois falando ao telefone um com o outro, oito ou nove vezes por dia. Para ajudá-lo a suportar os longos dias de trabalho, Paulson recorre a inúmeras Diet Coke. Chamado pelo Senado a testemunhar duas vezes na semana passada, ele pediu para ser liberado.

“Ele me falou que tinha dormido apenas quatro horas”, disse o senador democrata Christopher J. Dodd, presidente do Comitê de Bancos. Mas a boa vontade de Dodd tem limites. Ele contou que respondeu: “O público quer saber o que está acontecendo.” Bernanke (cuja bebida preferida é a Dr. Pepper Diet) faz questão de deixar seu gabinete até a meia-noite para dormir pelo menos um pouco, mas seus amigos dizem que os sinais de cansaço são evidentes nele.

Alan S. Blinder, seu amigo de longa data e ex-vice-presidente do Federal Reserve, recorda-se de ter visto Bernanke em uma conferência no mês passado em Jackson Hole, Wyoming. “Sua aparência era de alguém que carregava o peso do mundo nos ombros.”. E isso foi antes da semana passada.


Personalidades

Bernanke assumiu seu cargo em fevereiro de 2006, e Paulson cinco meses mais tarde. Ambos são republicanos e ambos foram nomeados por Bush, mas suas origens são muito diferentes. Bernanke, 54, administrava a política acadêmica do departamento de economia da Universidade Princeton, da qual foi presidente, desenvolvendo um estilo conciliador. Paulson, 62, chegou à presidência do Goldman Sachs falando duramente ao telefone e ocasionalmente dando socos na mesa.

“Hank é um sujeito hiperativo, do tipo que sempre tenta resolver o problema e seguir adiante”, disse Allan B. Hubbard, ex-assessor de economia nacional de Bush. “Ele está sempre impaciente para resolver as coisas. Já Ben age de maneira muito mais discreta. Ele reflete muito. É um pensador incrível, alguém que sabe ouvir, que sabe analisar e que não se deixa intimidar por ninguém. Acho que eles fazem uma ótima parceria.”
Bernanke fala em termos grandiosos e Paulson despeja o jargão contundente de Wall Street, mas o que uniu os membros da nova dupla dinâmica de Washington foi em parte o beisebol. O secretário do Tesouro é torcedor dos Chicago Cubs, e o presidente do Fed torce pelos Boston Red Sox, mas em Washington passou a torcer pelos Nationals e a dividir ingressos de temporada com o chefe do Estado-Maior da Casa Branca, Joshua B. Bolten.

Nem Paulson nem Bernanke, porém, haviam tido envolvimento profundo no processo político. Em seus esforços para trabalhar juntos em Washington, eles se cercaram respectivamente de assessores vindos do Goldman e de profissionais de carreira do Fed. Paulson recusou o primeiro convite para entrar para o gabinete. Ele mudou de idéia apenas depois de um trabalho extenso de lobby e convencimento feito por Bolten, antigo executivo do Goldman, e de Bush ter se comprometido a deixá-lo dirigir de fato a economia política, diferentemente de seus predecessores.

O Martelo, como Paulson é apelidado desde seus tempos de jogador no time de futebol americano de Dartmouth, levou a Washington a intensidade que é sua característica. “Ele é um furacão. Está acostumado a viver num mundo turbulento”, disse John H. Bryan Jr., amigo íntimo de Paulson e ex-executivo-chefe da Sara Lee Corporation. “Está acostumado a viver num mundo de “deadlines”, decisões e muita pressão.”
Paulson, que é membro da igreja Cientista Cristã, não fuma nem bebe. Uma vez, num coquetel em que estava fazendo um discurso, recordou um de seus ex-colegas do Goldman, Andrew W. Alper, Paulson acidentalmente tomou um gole de vodca de um copo, pensando tratar-se de água.

Seu rosto ficou vermelho e seus olhos lacrimejaram por uma hora. “Mas ele continuou firme”, disse Alper. Bernanke tem um apelido menos evidente, “Helicopter Ben”, que lhe foi dado depois de um discurso que proferiu em 2002, falando sobre as injeções emergenciais de dinheiro do Fed para manter a liquidez do sistema, como alimentos despejados de helicópteros para ajudar vítimas de enchentes ou outras catástrofes.

Para Bernanke, a crise atual é o ponto culminante de toda uma vida passada tentando entender como o sistema funciona desde o ponto de vista teórico. Bernanke deixou claro muito tempo atrás que ele sabia que algum dia poderia ser convocado a pôr em prática os frutos de seus estudos.

Vincent R. Reinhart, um ex-funcionário do Fed, disse que as pesquisas de Bernanke sobre a crise financeira do Japão na década de 1990 reforçaram sua opinião de que crises do mercado requerem intervenções governamentais agressivas. Numa festa que promoveu em 2002 para o 90º aniversário do famoso economista Milton Friedman, Bernanke, então um dos diretores do Federal Reserve, falou sobre os erros cometidos pelo país diante da Grande Depressão e prometeu não repeti-los. “Não o faremos de novo”, disse ele.

Aviso prévio

Na entrevista da sexta-feira, Paulson disse que Bernanke já vinha avisando havia muito tempo da possibilidade de chegada de um momento como o da semana passada.

“Muito tempo atrás, talvez há um ano já, Ben, que é um economista de primeiro nível, me disse: “Quando se olha para a bolha imobiliária e a correção, se a queda nos preços for suficientemente grande, a única solução pode ser uma intervenção governamental em grande escala’”, contou Paulson. “Ele falou sobre o que aconteceu quando houve outras situações históricas semelhantes.” Paulson disse que concordara, mas que esperava que a situação não chegasse a isso. “Eu sabia que ele tinha razão, teoricamente”, disse ele. “Mas eu tinha alguma esperança, e ele também, de que, com toda a liquidez que havia dos investidores, depois de uma certa queda chegaríamos ao fundo, e que a queda terminaria.”
Ainda na segunda-feira passada, Paulson estava ouvindo de legisladores democratas e republicanos sêniores, incluindo o líder da maioria na Câmara, Steny H. Hoyer, e o deputado de Ohio John A. Boehner, líder republicano da Câmara, que não havia chances de o Congresso aprovar qualquer legislação antes de seus membros deixarem a cidade, em setembro. Mesmo o deputado Barney Frank, proponente de um papel mais ativo do governo no mercado, disse na segunda que a questão teria que ser resolvida pelo próximo presidente e pelo novo Congresso, em setembro.

Na terça, porém, os problemas só estavam se agravando. O Lehman Brothers entrara com pedido de concordata. O Merril Lynch concordara em ser comprado pelo Bank of América, e a AIG estava à beira do colapso. Paulson e Bernanke montaram uma operação de US$ 85 bilhões de socorro à AIG e a apresentaram a Bush.

Mas os dois avisaram ao presidente que a operação talvez não fosse o suficiente para estabilizar a crise mais ampla. Um alto funcionário da administração, que pediu anonimato para comentar deliberações internas, parafraseou nos seguintes termos a mensagem que Bernanke e Paulson transmitiram a Bush: “É possível que depois disto ainda haja problemas, e, se houver, vamos procurá-lo outra vez”.

Eles o fizeram dois dias mais tarde, quando a queda vertiginosa de ações e o congelamento do mercado de crédito deixaram claro que a estratégia caso por caso não estava funcionando. Paulson tinha conversado com Bush ao telefone ao longo de toda a quarta e a manhã da quinta. A decisão de tomar uma medida radical, que abrangesse o sistema inteiro, foi finalmente tomada apenas após uma seqüência interminável de teleconferências envolvendo funcionários do Fed, do Tesouro e da “Securities and Exchange Commission” (órgão que regula o mercado de capitais), recordou um participante, quando Bernanke declarou: “Temos que ir ao Congresso”. Paulson concordou.

Na tarde de quinta-feira, Bernanke e Paulson, acompanhados do presidente do SEC, Christopher Cox, foram à Casa Branca explicar seu plano. “O presidente disse “vamos fazer’”, contou um funcionário. “Não houve hesitação.” Em questão de horas, Paulson e Bernanke estavam no gabinete da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, fazendo um resumo para transmitir aos líderes do Congresso a plena gravidade da situação. Os parlamentares ficaram abalados, mas ofereceram apoio hesitante. Divididos entre os imperativos conflitantes de entrar em ação ou de voltar a seus Estados para fazer campanha, eles pareciam alternar-se entre gratidão e ressentimento com relação à nova dupla poderosa de Washington. Alguns falavam do “presidente Paulson”, e outros reclamavam de um presidente não eleito do banco central prestando socorro de centenas de bilhões de dólares.

Paulson e Bernanke foram criticados por agirem com agressividade excessiva e também por não serem agressivos o suficiente. O senador republicano Jim Bunning, do Kentucky, disse que eles estavam matando o livre mercado. R. Glen Hubbard, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Bush, achou que eles deveriam ter agido antes.

“A oportunidade para uma ação ousada obviamente teria sido melhor se tivessem agido meses atrás”, disse ele. “Mas antes tarde que nunca.” No final, o que deixou frustrados tantos parlamentares e economistas foi a percepção de que ninguém tinha uma idéia melhor a propor. Então eles esperaram Paulson e Bernanke lhes darem mais detalhes sobre o que queriam fazer.

Tradução de CLARA ALLAIN

16/09/2008 - 08:52h Roleta-russa financeira

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Paul Krugman* – O Estado SP – O Globo – Folha SP

O sistema financeiro dos Estados Unidos entrará em colapso nos próximos dias? Não acredito, mas também não estou muito certo. Ocorre que o Lehman Brothers, um dos maiores bancos de investimento, está ameaçado de colapso. E ninguém sabe o que acontecerá depois.

Para compreender o problema, é preciso saber que o antigo mundo dos bancos, no qual instituições instaladas em enormes edifícios de mármore aceitavam depósitos e emprestavam dinheiro no longo prazo, em grande parte desapareceu e foi substituído por aquilo que se costuma chamar de “sistema bancário sombra”.

Os bancos de depósitos, que ocupam os edifícios de mármore, agora se limitam a desempenhar um papel menor na canalização de recursos dos poupadores para os tomadores; a maior parte dos negócios é feita mediante complexos acordos elaborados por instituições comerciais, como o falecido Bear Stearns e o Lehman.

Acreditava-se que o novo sistema trabalharia melhor, diluindo e reduzindo os riscos. Mas, com a crise da habitação e a conseqüente crise do crédito hipotecário, ficou evidente que o risco não chegou a ser reduzido, mas ocultado: os investidores, em sua maior parte, não tinham idéia do grau de exposição em que se encontravam.

E, como as incógnitas desconhecidas se tornaram incógnitas conhecidas, o sistema presencia corridas pós-modernas aos bancos. Não são as mesmas que se viam na versão antiga: com poucas exceções, não estamos falando de multidões de poupadores desesperados batendo furiosos nas portas fechadas dos bancos. Falamos de telefonemas frenéticos e mouses clicando, enquanto os operadores do mercado financeiro conseguem arrancar linhas de crédito e tentam reduzir o risco dos parceiros. Mas os efeitos econômicos – congelamento do crédito, queda abrupta do valor dos ativos – são os mesmos das grandes corridas aos bancos da década de 30.

Essa é a questão: as linhas de defesa criadas para impedir novas corridas aos bancos, principalmente o seguro dos depósitos e o acesso a linhas de crédito do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), protegem apenas os que ocupam os edifícios de mármore, que não estão no centro da crise atual. O que cria a possibilidade concreta de 2008 tornar-se uma reedição de 1931.

Agora, os estrategistas estão cientes dos riscos. Antes de ser investido da responsabilidade de salvar o mundo, Ben Bernanke era um dos nossos maiores especialistas em economia da Grande Depressão.

Portanto, no ano passado, o Fed e o Tesouro elaboraram uma série de planos de ajuda específicos e foram criadas linhas de crédito especiais, com siglas impronunciáveis, disponíveis para instituições comerciais. O Fed e o Tesouro intermediaram um acordo que protegeu os parceiros do Bear – os que estão do outro lado de seus acordos -, embora não seus acionistas. E ainda na semana passada, o Tesouro assumiu o controle da Fannie Mae e do Freddie Mac, gigantescas instituições hipotecárias patrocinadas pelo governo.

Mas as conseqüências dessas operações de resgate estão deixando as autoridades nervosas. Em primeiro lugar, assumiram grandes riscos com o dinheiro dos contribuintes. Hoje, por exemplo, a maior parte da carteira do Fed está vinculada a empréstimos respaldados por garantias duvidosas. Além disso, as autoridades temem que suas operações de resgate estimulem comportamentos de risco no futuro. De fato, parece que, se a regra for cara, você ganha; se for coroa, os contribuintes perdem.

O que nos leva ao caso do Lehman, que sofreu enormes prejuízos relacionados ao setor da habitação e enfrenta crise de confiança. Como muitas instituições financeiras, o Lehman tem um balanço patrimonial enorme – deve vastas somas, mas lhe são devidas vastas somas. Tentar liquidar rapidamente esse balanço poderia instalar o pânico no sistema financeiro. Por isso, representantes do governo e executivos de bancos privados passaram o fim de semana reunidos no Fed de Nova York, procurando elaborar um acordo para salvar o Lehman, ou, pelo menos, fazer com que sua queda fosse menos violenta.

Mas o secretário do Tesouro, Henry Paulson, foi categórico. Afirmou que não abrandaria o acordo colocando na linha mais recursos públicos. Muitos pensaram que ele estivesse blefando. Eu estava preparado para começar a coluna de hoje do seguinte modo: “Quando a vida lhe dá o Lehman, dê uma ajuda ao Lehman.”

Mas não houve nenhuma ajuda e, ao que tudo indica, nem mesmo acordo. Aparentemente, Paulson está apostando que o sistema financeiro – fortalecido por essas linhas de crédito especiais – possa enfrentar o choque da concordata do Lehman. Logo saberemos se ele foi corajoso ou louco.

Evidentemente, a resposta real ao problema atual teria sido a adoção de uma medida preventiva, antes que a situação chegasse a esse ponto. Mesmo deixando de lado a óbvia necessidade de regulamentar o sistema bancário sombra – se as instituições precisam ser salvas como os bancos, devem ser regulamentadas como os bancos – por que estávamos tão despreparados diante desse último choque?

Quando o Bear afundou, muitos falaram da necessidade de um mecanismo de “liquidação ordenada” dos bancos de investimentos em concordata. Bem, isso ocorreu há seis meses. Onde está esse mecanismo? E então aqui estamos nós, com Paulson achando, aparentemente, que tentar a roleta russa com o sistema financeiro americano foi a sua melhor opção.

*Paul Krugman escreve para o The New York Times

15/09/2008 - 05:22h Fed comanda operação de guerra para segurar crise global de crédito

Na iminência da quebra do Lehman Brothers, BC americano orquestra medidas para resguardar outras instituições

O Estado de São Paulo – Agências Internacionais, Nova York


O fracasso nas negociações para a venda do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos americano, após o principal candidato à compra, o Barclays, ter desistido do negócio, colocou a instituição à beira da liquidação. Mas o medo da crise que a quebra do banco provocaria nos mercados financeiros globais precipitou ontem uma série de medidas, que envolvem a ampliação da ajuda do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) aos bancos e uma linha de crédito de US$ 70 bilhões para instituições em dificuldades, criada por um grupo de dez bancos internacionais.

Além disso, o Bank of America fechou acordo para a compra do Merrill Lynch, o terceiro maior banco de investimentos dos EUA, o que ajuda a restaurar a confiança nos mercados. E a American International Group, gigante dos seguros americana, que também vem sendo afetada com a crise das hipotecas de alto risco, deve anunciar hoje uma grande reorganização .

Uma das principais medidas anunciadas ontem pelo Fed é a ampliação dos tipos de garantias que os bancos podem apresentar para conseguir linhas especiais de crédito. Essas linhas foram aumentadas de US$ 175 bilhões para US$ 200 bilhões. A ampliação da ajuda do Fed às instituições financeiras é uma reviravolta em relação à decisão anterior do governo americano – depois de duras críticas – de não mais socorrer as vítimas da crise de crédito.

O primeiro socorro foi em março, ao Bear Sterns, quando o Fed intermediou negociações envolvendo US$ 30 bilhões para que o JP Morgan Chase ficasse com o banco. No fim de semana passado, as gigantes Fannie Mae e Freddie Mac receberam um aporte de US$ 200 bilhões.

A incerteza criada após o impasse nas negociações para a venda do Lehman Brothers acabaram forçando o banco central americano a tomar uma nova atitude nesse sentido. O Fed participou de uma série de reuniões nos últimos três dias com representantes das principais instituições financeiras em Wall Street “para identificar debilidades potenciais no mercado à luz dos problemas de uma grande instituição financeira, e para considerar as respostas apropriadas”, disse o presidente do órgão, Ben Bernanke. Os passos anunciados ontem, segundo Bernanke, “têm como objetivo mitigar os riscos e alterações potenciais nos mercados”.

O medo de uma quebra do Lehman Brothers, com seu potencial efeito devastador sobre os mercados financeiros globais, também foi a mola propulsora da decisão de dez bancos – Bank of America, Barclays, Citibank, Credit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, JP Morgan, Merrill Lynch, Morgan Stanley e UBS – de criarem um fundo de US$ 70 bilhões para ajudar instituições financeiras em dificuldades. Cada um dos bancos entra com US$ 7 bilhões no fundo.

Outra boa notícia para os mercados financeiros é a compra do Merrill Lynch pelo Bank of America. O terceiro maior banco de investimentos dos Estados Unidos também vinha atravessando momentos de grande turbulência, e fechou o segundo trimestre com prejuízo de US$ 4,6 bilhões. Para analistas, com uma eventual quebra do Lehman Brothers, o Merrill Lynch poderia se transformar na próxima vítima, com conseqüências ainda mais imprevisíveis para os mercados.

Segundo o Wall Street Journal, o Bank of America vai pagar US$ 29 por ação do Merrill Lynch, em uma transação de cerca de US$ 44 bilhões. Ironicamente, até o sábado, o Bank of America era considerado um forte candidato à compra do Lehman.

Com toda essa movimentação, o que ainda não fica claro é o destino do próprio Lehman Brothers. Com 158 anos de atividade, a instituição foi derrubada pela crise das hipotecas de alto risco, o subprime, e acumula US$ 85 bilhões em ativos podres, principalmente os de caráter imobiliário. Ontem, uma das hipóteses aventadas para o banco, segundo o The New York Times, seria fazer com que as subsidiárias do Lehman permanecessem solventes, enquanto a holding seria liquidada.

09/09/2008 - 12:07h O poder da deflação

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PAUL KRUGMAN – DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA SP

SALVAR AS instituições de crédito hipotecário salvará o mundo? Quem dera fosse simples assim.

A tomada de controle das gigantes Fannie Mae e Freddie Mac era decerto a coisa certa a fazer, e a maneira pela qual foi realizada também merece elogios. O plano ajudará a sustentar instituições que desempenham papel crucial na economia, enquanto reduzirá os custos para os contribuintes ao mais ou menos zerar os valores dos ativos dos acionistas.

Mas a medida precisa ser vista em contexto mais amplo, o da tentativa do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) e do Departamento do Tesouro de conter os efeitos adversos da crise financeira. E essa é uma luta que as autoridades parecem estar perdendo.

Passou muito tempo desde que Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, declarou que uma bolha nacional no setor de habitação era “altamente improvável”. Tivemos a tal bolha e, desde que ela estourou, dois anos atrás, os preços dos imóveis residenciais vêm caindo mais rápido do que o fizeram durante a Grande Depressão.

A queda nos preços das casas, por sua vez, conduziu ao muito temido fenômeno da “deflação de dívidas”. Sim, deflação: os preços estão subindo no varejo, mas o valor dos ativos, aqueles que importam nos balanços, está em rápida queda.

Como observou o economista Irving Fisher em 1933, quando indivíduos e empresas altamente endividados encontram dificuldades, em geral vendem ativos e usam os proventos para saldar suas dívidas. O que Fisher apontou, no entanto, foi que vendas como essas terminam por se tornar contraproducentes nos momentos em que todos agem do mesmo jeito: a queda resultante nos preços de mercado solapa as posições financeiras dos devedores mais rápido do que é possível liquidar as dívidas. Assim, a deflação nos preços dos ativos pode se tornar um círculo vicioso.

E uma das conseqüências do que ele chamou de “estouro de liquidação” é uma severa desaceleração econômica. É isso que está acontecendo agora, e a deflação de dívidas passa por problemas especialmente espinhosos porque os principais protagonistas do mercado estão altamente alavancados -ou seja, seus ativos foram em larga medida adquiridos com dinheiro que tomaram de empréstimo.

Como definiu Paul McCulley, do fundo de investimento Pimco, em ensaio recente intitulado “O Paradoxo da Desalavancagem”, nos últimos meses mais ou menos todas as instituições financeiras estavam tentando reduzir sua alavancagem, mas a queda nos valores dos ativos ainda assim fez com que suas dívidas crescessem, como proporção de seus ativos totais.

E os números continuam a piorar. Em julho de 2007, Ben Bernanke, atual presidente do Fed, sugeriu que os prejuízos com o mercado de títulos hipotecários de risco (”subprime”) seriam de menos de US$ 100 bilhões. No mês passado, o total ultrapassou os US$ 500 bilhões e seguem crescendo.

O que nos conduz a Fannie e Freddie -as duas únicas instituições de grande porte que não haviam entrado na corrida da desalavancagem, e é por isso que respondem no momento por 70% dos novos empréstimos hipotecários. Mas suas fundações financeiras foram solapadas pela deflação de dívidas, mesmo que seus empréstimos demonstrem mais responsabilidade que a média.

Assim, era preciso resgatar as duas instituições, ou a deflação de dívidas teria se tornado ainda pior. Mas será o suficiente?
Duvido. A crise financeira nos EUA se parece muito com a do Japão no final dos anos 1980, que levou a uma desaceleração de uma década e preocupou muito economistas americanos e o Fed. Imaginávamos se a mesma coisa poderia acontecer aqui, e economistas do Fed desenvolveram estratégias que supostamente deveriam impedir esse desfecho. Acima de tudo, a resposta a uma crise financeira ao estilo japonês deveria envolver uma combinação muito agressiva de cortes nos juros e medidas de estímulo fiscal, para impedir que uma crise virasse forte desaceleração na economia real.

Quando surgiu a crise atual, Bernanke de fato agiu de forma muito agressiva no corte dos juros e fornecimento de fundos ao setor privado. Mas o crédito se tornou mais, não menos, escasso. E o estímulo fiscal foi tanto pequeno demais quanto mal direcionado.

Como resultado, o esforço de conter a crise parece estar fracassando. Os preços dos ativos continuam a cair, os prejuízos ainda crescem, e o índice de desemprego acaba de atingir sua marca mais alta em cinco anos.

A cada mês que passa, os EUA parecem mais japoneses.

Portanto, sim, resgatar Freddie Mac e Fannie Mae foi uma boa idéia. Mas isso acontece no contexto de uma luta econômica mais ampla. E parece que estamos perdendo.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

25/07/2008 - 16:45h Krugman defende ação do BC no Brasil

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O economista
Paul Krugman,
que vê Brasil
líder dos emergentes

FOLHA SP – DA REPORTAGEM LOCAL

FOTO Moacyr Lopes Jr –

23.jul.08/Folha Imagem


DENYSE GODOY – FOLHA SP

Não, não vai ser a China. O papel de grande líder das nações emergentes caberá ao Brasil, na avaliação do economista americano Paul Krugman, 55, embora a economia brasileira esteja crescendo menos do que poderia, segundo ele. As deficiências do Brasil, porém, impedem um crescimento maior sem inflação agora. “Não se pode ter uma política que leve o crescimento a um ritmo superior ao seu potencial”, disse. Por isso o economista apóia a elevação dos juros pelo BC.

A seguir, trechos da entrevista que concedeu ontem à Folha, por telefone, do Rio. Ele esteve no Brasil por dois dias participando de seminários.

FOLHA – Qual é a sua análise da atuação dos bancos centrais dos emergentes, como o brasileiro, que acaba de elevar os juros?

PAUL KRUGMAN - Eu diria que faz sentido, mas não posso julgar se o tamanho e o ritmo do aumento de juros estão certos.
Nos países avançados, o problema é a deflação e uma ameaça de colapso no mercado financeiro. Na maior parte do mundo emergente, as pressões são inflacionárias.

FOLHA – Aumentar os juros é a melhor alternativa no caso de uma inflação causada primeiramente pela alta dos preços das commodities?

KRUGMAN - A minha avaliação é de que, nos EUA, não é desejável usar a política monetária para lutar contra a inflação de commodities. No Brasil, muito do que está acontecendo é explicado pelos alimentos, mas não tudo. Olhando para os EUA, temos um mercado de trabalho muito fraco. No Brasil, é o contrário.

FOLHA – É possível combater a inflação sem desistir totalmente de crescer?

KRUGMAN - Sim. Entretanto, se os indicadores dizem que o país está crescendo acima do potencial, é preciso fazer alguma coisa para segurar a inflação. Não tenho provas convincentes de que o Brasil possui uma taxa de crescimento potencial de mais de 5% [ao ano]. Não se pode ter uma política que leve o crescimento a um ritmo superior ao seu potencial.

FOLHA – Como vê o novo cenário mundial, em que EUA e Europa continuam sendo as economias mais importantes, porém surgem novos grandes atores, como China e Índia?

KRUGMAN - Ninguém sabe realmente como esse novo mundo vai se desenvolver, se será preciso um poder hegemônico ou não. Esperamos que não, porque não temos um.

FOLHA – E qual é o papel do Brasil nesse mundo?

KRUGMAN - O Brasil está em uma posição bastante interessante porque é o maior país em desenvolvimento que não é a China nem a Índia. A China e a Índia têm as suas especificidades, e é difícil colocar qualquer uma delas no papel de líder para os outros emergentes, porque, de certa forma, elas são grandes demais para fazer parte de alianças. Então, é o Brasil que está rumando para a função de líder dos emergentes.

FOLHA – Nas comparações com o crescimento da Índia e da China, o Brasil fica em desvantagem. O senhor está dizendo, então, que essa comparação não é justa?

KRUGMAN - Apesar de tudo, o Brasil é um país muito mais rico. Não é razoável esperar que o Brasil cresça tão rápido como a China. A China partiu de uma pobreza tão grande que um mínimo de modernidade é um avanço notável. Comparar com o crescimento da China é injusto, mas o Brasil está crescendo menos do que poderia.

FOLHA – A que se deve isso?

KRUGMAN - As explicações usuais dizem respeito à educação, que não é boa como deveria ser. Nos países asiáticos de elevado crescimento, a educação é surpreendentemente melhor do que se esperaria, mesmo o país tendo muita pobreza. Se esse é o motivo? Não sei.

FOLHA – Os EUA já se encontram mergulhados em uma recessão?

KRUGMAN - A definição oficial de recessão nos EUA é dada por um comitê. Não temos uma definição formal, então fica difícil. Independentemente da palavra, a situação que temos claramente nos últimos seis meses é a economia crescendo, mas devagar demais. A questão é se o comitê vai decidir chamar isso de recessão, porque a maior parte de nós sente como uma recessão, com certeza.

FOLHA – O presidente George W. Bush e o presidente do Fed (banco central americano), Ben Bernanke, poderiam ter feito alguma coisa diferente para evitar que a situação chegasse ao ponto em que está?

KRUGMAN - O melhor teria sido tomar uma posição [quanto às operações com hipotecas de alto risco] entre o final de 2004 e o começo de 2005. Se o Fed tivesse começado a cortar os juros no começo de 2007, talvez pudesse ter evitado isso tudo. A redução da taxa só veio em agosto de 2007, pois antes não estava óbvio para todo mundo que havia um problema. No entanto, acho que Bernanke tem o crédito de estar agindo com a agressividade que um banco central nunca teve.

FOLHA – Quais são os principais desafios para o próximo presidente?

KRUGMAN - Ele vai ter que mostrar trabalho imediatamente. Em um ano os resultados precisam aparecer, senão terá que assumir a recessão como sua.
Ademais, será necessário fazer a reforma do sistema de saúde.

FOLHA – Em termos de projetos, dá para saber para qual direção Barack Obama e John McCain (candidatos à Presidência dos EUA) estão caminhando?

KRUGMAN - McCain quer fazer o que Bush fez, só que melhor, e isso é o máximo que é possível dizer. Sobre Obama, não sabemos ainda. Ele claramente é um democrata liberal, mas não sabemos se é um reformador modesto ou se é alguém que vai realizar grandes mudanças.

FOLHA – Alguma esperança em relação a ele?

KRUGMAN - Eu tenho esperança. Se bem que, falando de Obama, não se pode usar a palavra “esperança” [risos]. Sempre que uso o termo “esperança” na minha coluna. recebo dezenas de cartas perguntando se estou tirando sarro de Obama [o candidato utiliza a palavra nos seus slogans]. Estou preocupado, acho que ele tem uma tendência de ser cauteloso demais, de correr para o que as pessoas chamam de centro. Espero que se mostre mais determinado.

FOLHA – Para os que reclamam do protecionismo dos EUA, quem, entre Obama e Mccain, seria mais liberal em termos de comércio?

KRUGMAN - Nenhum dos dois.
Não vamos ter novamente um grande apoio dos EUA à globalização. Mas provavelmente também não teremos um período de grande protecionismo.
É provável que McCain seja mais protecionista. Para Obama, se existem acordos [multilaterais], os EUA devem obedecer a eles, enquanto McCain pode dizer que os tratados existem mas o país mudou de idéia.

FOLHA – Algum dos dois poderia ser mais simpático ao álcool de cana-de-açúcar, considerando que o biocombustível de milho não parece ser uma boa idéia e o preço do petróleo está nas alturas?

KRUGMAN - Os 5% da população dos EUA a quem interessa que o país mantenha essas medidas malucas [de incentivo ao álcool de milho] são os que têm poder de decisão política. A resposta é não, nada vai acontecer.