05/06/2009 - 12:00h Falta uma estratégia para fontes renováveis

Ecoeficiência: Brasil figura timidamente na implementação de energias limpas em relação a outros países

Jander Ramon, para o Valor, de São Paulo

Leo Pinheiro/Valor

Adriano Pires: cada continente deverá buscar alternativas próprias e que considerem suas vantagens competitivas

Ampliar a oferta de energia, reduzir a emissão de gases de efeito estufa e, ao mesmo tempo, garantir que a geração e o consumo do bem sejam feitos com eficiência, constituem desafios importantes a serem enfrentados pelo setor energético em todo planeta nos próximos anos. A agenda para desenvolvimento do setor, afirmam os especialistas, está pautada sobre dois fatores: preservação ambiental e segurança energética.

“O fato é que o mundo continuará crescendo, vamos precisar cada vez mais de energia, e será preciso produzir essa energia com mais eficiência e de forma mais limpa, pois o petróleo não terá o mesmo papel que desempenhou no século 20″, resume o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Adriano Pires.

Fontes renováveis e, preferencialmente, limpas, para geração de energia, como a eólica, solar, de biocombustíveis e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), ganham cada vez mais relevância nas decisões de investimentos públicos e privados em todo o mundo. Com enorme potencial de exploração nesse campo, o Brasil figura timidamente na implementação de estratégias para energias renováveis em relação a outros países, indica um estudo global que acaba de ser concluído pela Ernst & Young.

Entre 25 países, o levantamento posiciona o Brasil em 21º lugar no ranking das melhores estratégias. Há, porém, uma ressalva favorável ao país, admite o estudo: contemplar apenas políticas aplicadas para as fontes eólica, solar, biomassa e geotérmica, desconsiderando a hidreletricidade, principal fonte geradora no Brasil.

“O conceito de energia limpa precisa ser mais debatido. Já vimos plataformas de produção de petróleo extremamente limpas, que parecem hospitais, e usinas de açúcar e álcool fazendo um estrago monstruoso ao seu redor, sem respeito ambiental e social”, pondera Joel Bastos, diretor de sustentabilidade da Ernst & Young.

É na falta de um controle mais rígido sobre o método de produção dos biocombustíveis – uma das principais apostas de energia alternativa – que o país perdeu força no relatório da consultoria internacional. “Temos vantagens excepcionais para a produção dos biocombustíveis, mas existe uma chance de as vendas esbarrarem em nossas falhas. Por isso, precisamos mostrar ao mundo que podemos produzir direito, com normas sociais, ambientais e provar que esse combustível é limpo de verdade”, alerta Bastos. Enquanto isso não acontece, os biocombustíveis acabam sendo relegados a segundo plano, prevalecendo a percepção positiva sobre as energias eólica e solar, essa última muito mais cara do que as demais.

O estudo da Ernst & Young destaca políticas anunciadas por governos para o avanço das energias renováveis, sobretudo eólica e solar. Os EUA lideram o ranking, diretamente impulsionados pelo plano de recuperação econômica apresentado pela Casa Branca, da ordem de US$ 800 bilhões, sendo que uma fatia significativa de investimentos, estimada em 10% do volume global, será destinada às energias alternativas, ganhos de eficiência energética e novas tecnologias.

Para Adriano Pires, cada continente deverá buscar, nos próximos anos, alternativas próprias e que considerem vantagens competitivas locais para a evolução de suas matrizes energéticas. “Dependendo da região do planeta, prevalecerá uma fonte primária. O que ninguém quer mais é ficar dependendo exclusivamente do petróleo dos árabes, embora seja claro que o mundo continuará consumindo petróleo”, avalia. “É uma falácia dizer que os combustíveis fósseis vão acabar. O que se buscará é o uso de tecnologias mais limpas e a exploração das melhores fontes disponíveis em cada lugar”, adiciona.

Nesse cenário, o diretor do CBIE acredita que o Brasil poderá desempenhar um ótimo papel, por reunir de forma ímpar as condições de diversificação de sua matriz energética. “Temos ventos, sol, terras férteis, reservas hídricas, petrolíferas e de urânio. Não podemos abrir mão de nenhuma oportunidade”, sustenta.

Nos últimos anos, ficou constatado, porém, o avanço de fontes poluidoras no parque energético brasileiro, sobretudo com a maior participação de queima de óleo e gás nas usinas térmicas. “Esse é um acidente de percurso, que aconteceu porque, infelizmente, é mais fácil obter um licenciamento ambiental de uma usina movida a óleo do que para uma hidrelétrica; e porque nos leilões de compra de energia nova, há alguns anos, predominou a energia térmica”, observa Pires. “Mas esses acidentes deverão ser corrigidos para o futuro.”

O diretor-executivo da Associação Brasileira dos Pequenos e Médios Produtores de Energia Elétrica (APMPE), Fábio Sales Dias, entende que, mais do que um equívoco pontual, a dificuldade de avanço das energias alternativas no país esbarra sobretudo na ausência de uma política definitiva para o setor. “É um mito achar que eólica, biomassa e PCHs são menos competitivas do que energia térmica. Aparentemente, essa maior presença não avança porque o governo parece temer pela modicidade tarifária”, comenta, ao alertar, entretanto, que basta o país enfrentar escassez de chuvas para que uma maior quantidade de termelétricas serem acionadas e os preços da energia dispararem.

Além da busca pela geração de energia mais limpa, o Brasil e o resto do mundo têm muito a avançar no uso mais eficiente de energia. Atualmente, alguns países desenvolvidos tem feito investimentos pesados nas chamadas “redes inteligentes”, em que há maior controle de perdas e combate ao desperdício. Nesses sistemas, o consumidor pode, por exemplo, definir a fonte de energia pela qual deseja ser abastecido (eólica, nuclear, solar, por exemplo) e controlar até cada ponto de consumo.

06/05/2009 - 09:08h Agência ambiental dos EUA valida o etanol de cana

Agroenergia

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Ricardo Balthazar, de Washington – VALOR

O etanol do Brasil será o único combustível capaz de cumprir as metas previstas para a expansão do consumo de biocombustíveis nos EUA na próxima década se tecnologias avançadas não se tornarem viáveis comercialmente logo, indicou ontem a Agência de Proteção Ambiental (EPA, em inglês).

Uma resolução proposta pela agência define critérios rigorosos para o cumprimento das metas estabelecidas pela legislação americana, que condiciona aumento do consumo de biocombustíveis a reduções substanciais nas emissões de dióxido de carbono e outros gases responsáveis pelo efeito-estufa.

A resolução é o passo inicial de um processo regulatório que levará meses para ser concluído. Embora o objetivo seja estimular mudanças na maneira como os biocombustíveis são produzidos nos EUA, criando incentivos para a adoção de tecnologias mais limpas, a medida também poderá criar oportunidades para usineiros brasileiros interessados em elevar suas vendas aos EUA.

A legislação dos EUA determina que as refinarias do país comprem neste ano 42 bilhões de litros de biocombustíveis e elevem o consumo para 136 bilhões de litros até 2022. A maior parte da demanda gerada por essa obrigação atualmente é atendida pelas usinas de etanol locais, que usam o milho como matéria-prima.

Mas os EUA querem frear a expansão das usinas de etanol de milho, para evitar que seu avanço continue empurrando para cima os preços do grão e gerando dificuldades para criadores de gado, indústrias alimentícias e outros setores. Segundo a lei, a produção de etanol de milho deve alcançar 57 bilhões de litros em 2015 e não poderá passar disso.

Os outros 79 bilhões de litros que as refinarias precisarão comprar para cumprir as metas previstas por lei terão que ser produzidos com tecnologias mais modernas, capazes de assegurar reduções de 20% a 60% nas emissões de gases de efeito estufa associadas ao uso de gasolina. Somente o etanol do Brasil, feito de cana, teria condições de atender hoje aos critérios propostos pela EPA.

Segundo cálculos preliminares apresentados ontem pela agência, o uso do etanol de cana como substituto da gasolina permitiria uma redução de 44% nas emissões de gases-estufa. Para cumprir as exigências da EPA, o etanol de cana precisaria assegurar uma redução de 40% a 50%. O uso de etanol de milho permitiria uma redução de apenas 16%.

Combustíveis mais avançados como o etanol celulósico, que pode ser feito com capim, madeira e diversos resíduos vegetais, poderiam alcançar reduções superiores a 100%, diz a EPA. Mas o etanol celulósico ainda não é produzido em escala comercial em lugar nenhum do mundo e muitos especialistas acham que vai demorar para ele se tornar viável.

A resolução da EPA adota um método controverso para calcular a contribuição das usinas para a mudança do clima. Além das emissões associadas diretamente à produção e à distribuição de biocombustíveis, a agência leva em consideração efeitos indiretos da expansão da indústria no desmatamento e no uso da terra em outras partes do planeta.

A resolução será submetida a consulta pública por 60 dias. A administradora da EPA, Lisa Jackson, indicou que está disposta a rever seus cálculos, submetendo os modelos da agência à análise de cientistas e especialistas do setor privado. Representantes da indústria de etanol nos EUA e no Brasil se mobilizam para convencer a agência de que são capazes de alcançar reduções maiores do que as estimadas pelos modelos da EPA.

Estudos de especialistas brasileiros recrutados pela União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) e encaminhados à EPA sugerem que o uso do etanol do Brasil em substituição à gasolina pode reduzir em 64% as emissões de gases de efeito estufa, mesmo incluindo na conta estimativas sobre o desmatamento e outros efeitos indiretos, se os modelos reconhecerem a adoção de práticas mais modernas pelas usinas.

Na tentativa de atenuar o impacto negativo que a iniciativa da EPA poderá ter para os produtores de etanol de milho, o governo americano anunciou a criação de um grupo especial com a missão de ajudar a indústria doméstica a desenvolver tecnologias mais avançadas. O grupo será formado pelos departamentos de Agricultura e Energia dos EUA e pela EPA.

Numa teleconferência em que a criação do grupo foi anunciada a jornalistas, o secretário de Energia, Steven Chu, disse ontem que a produção de etanol de milho foi “um bom começo” para reduzir o consumo de petróleo nos EUA, mas o investimento em novas tecnologias dará ao país “opções muito melhores”. O governo pretende investir US$ 786,5 milhões neste e no próximo ano para desenvolver a produção de etanol celulósico.

06/05/2009 - 08:49h EUA vetam expansão do etanol de milho

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A limitação ao etanol de milho, favorece o etanol de cana e preserva a produção de alimentos

Decisão favorece produtores brasileiros de etanol

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

O governo Barak Obama divulgou ontem as novas regras para as metas de combustíveis renováveis nos Estados Unidos, que representam uma grande vitória para o etanol de cana brasileiro. Essas regras classificaram o etanol de cana, oficialmente, como mais eficiente na redução da emissão de poluentes que o de milho, produzido nos EUA. Essa classificação abre o caminho para usinas brasileiras concorrerem às cotas de “biocombustíveis avançados” , que serão de 2,2 bilhões de litros neste ano e chegarão a 80 bilhões de litros em 2020.

A Agência de Proteção Ambiental, a Secretaria de Agricultura e a Secretaria de Energia anunciaram as novas referências, segundo os quais o etanol de milho reduz em 16% as emissões de poluentes (em comparação com a gasolina), enquanto o de cana reduz em 44%.

Esses índices levam em conta a emissão de poluentes durante o transporte e a distribuição, pela queima de combustível nas usinas. Mas consideram também o controverso cálculo do uso indireto da terra: com o aumento da demanda por milho ou cana para produzir etanol, aumenta o preço dessas commodities e cresce a área cultivada em outros lugares, o que causa desmatamento e, consequentemente, emissão de poluentes. O cálculo foi adotado pelo governo por pressão de grupos ambientais, preocupados com os efeitos dos biocombustíveis no preço dos alimentos e no desmatamento.

Para ser “avançado”, o combustível precisa reduzir em pelo menos 50% a emissão de poluentes, com tolerância de 10 pontos porcentuais. assim, o etanol de cana, que reduz em 44%, está qualificado para abastecer os 80 bilhões de litros de combustíveis avançados que estão na meta da lei de combustíveis renováveis. O etanol de milho ficou de fora.

Para ser qualificado apenas de “renovável”, o combustível precisa reduzir em pelo menos 20% a emissão de poluentes. Como o etanol de milho só reduz emissões em 16% , está comprometida toda a justificativa ambiental do lobby do milho para receber subsídios e manter tarifas sobre o etanol importado.

Como a regra não é retroativa, as usinas de etanol de milho nos EUA continuarão a funcionar e a fornecer para as refinarias. A regra vale para eventuais novas usinas de etanol de milho, que estão abaixo da qualificação ambiental. Portanto, na prática, fica impedida a expansão da produção do etanol de milho.

CELULOSE É MELHOR

O etanol de celulose é o que promove a maior redução nas emissões, de 128%, mas ainda não é viável comercialmente. A diretora da Agência de Proteção Ambiental, Lisa Jackson, deixou claro que, para o governo , o etanol de milho “é apenas uma ponte, uma transição para a próxima geração de etanol”. O preço do milho no mercado futuro caiu 0,1%, refletindo a esperada queda na demanda.

Essas regras ainda vão passar por um período de consultas de 60 dias e o lobby do etanol de milho promete protestar. “Há um grau enorme de incerteza no cálculo do uso indireto da terra, por isso haverá muita revisão”, disse Bob Dineen, diretor executivo da Associação de Combustíveis Renováveis, que representa os produtores de etanol de milho. Segundo os modelos usados por Dineen, o etanol de milho reduz em até 61% a emissão de poluentes.

Joel Velasco, representante da Unica nos Estados Unidos, comemorou o anúncio. “Confirma que há diferenças entre os biocombustíveis”, disse. Biodiesel de soja reduz em 22% e biodiesel de gordura, em 80%.

As novas referências são parte do plano do governo de usar US$ 786 milhões do pacote de estímulo e US$ 1,1 bilhão do Departamento de Agricultura para promover combustíveis alternativos. O plano prevê o aumento da disponibilidade de etanol nos postos, maior produção de veículos flex e mais ajuda para produtores de etanol em dificuldades, já que muitos foram duramente atingidos pela crise e pela queda dos preços.

07/04/2009 - 15:43h Caroço é mais competitivo para produção de biodiesel

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De São Paulo – VALOR

Engana-se quem pensa que o algodão é matéria-prima apenas para as indústrias têxtil e de óleo comestível. Estudos desenvolvidos pela Embrapa Meio-Norte comprovaram não só isso, mas também que o algodão cultivado no Piauí e no Maranhão tem mais potencial para a produção de biocombustíveis que em outras partes do país.

“O caroço do algodão em geral tem um teor de óleo que varia entre 18% e 20% e a produtividade média no Piauí é de 4,3 toneladas de algodão em caroço por hectare. No Maranhão, a produtividade ficou ligeiramente inferior, ao alcançar 4,2 toneladas de algodão em caroço por hectare”, afirma o pesquisador e coordenador da pesquisa José Lopes Ribeiro.

Ele explica que foram feitos vários experimentos até se obter o melhor resultado em produtividade, divulgados no princípio deste ano. “Foram implantados 82 experimentos em sete municípios do Piauí e outros sete no Maranhão”, diz. Segundo ele, no Piauí, os municípios que apresentaram as melhores médias de produtividade foram Baixa Grande do Ribeiro e Uruçuí. Para se ter uma ideia, no primeiro, a variação oscilou entre 3,2 toneladas por hectare a 4,3 toneladas por hectare. Já no segundo, a produtividade média foi de 2,7 toneladas por hectare a 3,4 toneladas por hectare.

No Maranhão, as melhores produtividades foram registradas nos municípios de Tasso Fragoso, com uma variação de 2,7 toneladas por hectare a 4,2 toneladas por hectare, e em São Raimundo das Mangabeiras. Neste último, a produtividade variou de 3,3 toneladas por hectare a 3,9 toneladas por hectare. “As 12 cultivares que mais se destacaram nos ensaios foram recomendadas para o cultivo na região Meio-Norte”, diz.

De acordo com o levantamento sistemático da produção agrícola do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país teve, na última safra, uma área colhida de algodão superior a um milhão de hectares. O Nordeste alcançou 379 mil hectares e o Piauí, 17 mil hectares. A produção brasileira chegou a 3,9 milhões de toneladas. Mas foi a produtividade média no país que mais animou os produtores e pesquisadores, atingindo 3,7 toneladas por hectare.

Outros estudos recentes apontam na mesma direção. A coordenadora de projetos do Pólo Nacional de Biocombustíveis da Universidade de São Paulo (USP), Catarina Rodrigues Pezzo, após uma análise comparativa feita nas cinco regiões do país, concluiu que o biodiesel mais viável e de menor custo é o do caroço do algodão. Pelos seus cálculos, sai a R$ 0,81 o litro, na região Nordeste.

Essa afirmação já havia movimentado o setor em 2007, quando um estudo desenvolvido pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) também demonstrou que o caroço de algodão do Nordeste é a melhor matéria-prima, do ponto de vista econômico, para a produção do biodiesel.

Para a pesquisadora da USP, entre as oleaginosas de peso como a soja e a mamona, o caroço de algodão está na frente por fatores como facilidade de acesso e por resultar em subproduto com valor de mercado. Ela ressalta que o caroço é o subproduto da indústria têxtil e o seu farelo ainda serve para a ração animal, que tem igualmente valor de mercado, e mesmo possuindo um teor de óleo próximo ao da soja – de 14% a 18% – uma das vantagens é não competir com a alimentação, como é o caso da soja.

Na opinião de Catarina Pezzo, o biodiesel é uma alternativa econômica viável para os pequenos produtores, mas salienta que para competir no mercado o projeto só se tornaria viável em uma produção integrada e organizada, por meio de associações ou cooperativas.

De olho nessa possibilidade, a Associação dos Plantadores de Algodão do Mato Grosso (Ampa), que existe desde 1997, e congrega toda a classe produtora de algodão do estado, iniciou há um ano a construção da usina Cooperbio, em Cuiabá-MT, que utilizará entre outras oleaginosas, o caroço de algodão, matéria-prima que possuem de sobra.

Para o presidente da Cooperbio, João Luiz Ribas Pessa, “a possibilidade de se obter óleo do caroço atende à necessidade de melhor utilização deste subproduto, como também em contribuir para a diminuição do custo de produção ao gerar um combustível mais barato que o diesel”. Os associados Cooperbio plantam hoje 405 mil hectares de algodão, produzindo 1,4 milhão de toneladas de algodão em caroço, o correspondente a 530 mil toneladas de fibra e 730 mil de caroço. (R.C.)

01/04/2009 - 18:39h Álcool de cana é menos poluente. É o resultado de uma pesquisa da Embrapa

Pesquisa da Embrapa

Álcool de cana lança 73% menos CO2 que a gasolina

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Portal O Globo

RIO – Na corrida mundial pelos biocombustíveis, o etanol brasileiro ganha mais alguns pontos. Pesquisa da Embrapa revela que o álcool de cana-de-açúcar emite menos 73% de dióxido de carbono (CO2) do que a gasolina, como mostra matéria de Carlos Albuquerque publicada nesta quarta-feira no jornal O Globo. O trabalho, que analisou todas as etapas de produção dos dois combustíveis, com clara vantagem para o etanol, mostra também que, se a queima do solo fosse eliminada do processo de colheita de cana, a diminuição das emissões do principal gás causador do efeito estufa, seria ainda maior.

- Como não adianta termos uma fonte de energia renovável se emitirmos grandes quantidades de CO2 no processo, decidimos aprofundar o estudo do balanço energético em torno dessa produção e calcular o seu custo ambiental. E ele mostrou-se bastante favorável ao etanol brasileiro – explica Segundo Urquiaga, um dos quatro pesquisadores da Embrapa Agrobiologia que realizaram o estudo..

Os pesquisadores avaliaram a quantidade de gases de efeito estufa produzida desde a preparação do solo para o plantio da cana-de-açúcar até o transporte do etanol produzido para o posto e a queima do combustível.

- Para isso, contamos com dados obtidos junto às usinas e empresas que produzem o etanol, que nos informaram os custos de materiais como cimento e ferro cromado, por exemplo, além de quanto gastam com máquinas e para transportar o produto.

A mesma avaliação foi feita com a gasolina: os pesquisadores da Embrapa consideraram a emissão dos gases do efeito estufa, desde a extração do petróleo até a combustão do produto nos motores dos veículos.

Na parte final do estudo, já de posse desses dados, foram avaliados os desempenhos de dois carros, um movido à gasolina pura e outro movido a álcool, num percurso de 100 quilômetros.

O resultado da comparação – levando em conta os custos da produção – mostrou que houve redução de 73% das emissões de CO2 com o carro a álcool em comparação com o veículo que usava gasolina pura.

17/03/2009 - 10:52h EUA e Brasil em lua-de-mel, mas sem álcool

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foto de capa do caderno especial do jornal Valor
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Patrick Brock, The Wall Street Journal, de Nova York – VALOR

Numa reunião na Câmara de Comércio de Nova York, em 2 de novembro de 1863, o pastor James Cooley Fletcher se desdobrou para convencer os empresários locais sobre a importância de estreitar os laços com o Brasil, segundo registro de um jornal da época. Acompanhado dos diplomatas brasileiros Joaquim de Azambuja e Luis Fleury, que traziam uma elogiosa carta da Câmara de Comércio do Rio de Janeiro, Fletcher, um entusiasmado brasilianista, celebrava o início da primeira rota direta de vapores entre as duas principais cidades das jovens nações, Rio de Janeiro e Nova York.

Da pequena frota de vapores subsidiados pelos governos dos dois países, as relações comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos evoluíram desde então para uma balança comercial de pouco mais US$ 53 bilhões em 2008, com saldo positivo de US$ 1,8 bilhão para o Brasil. O diálogo transnacional também passou para esferas muito mais altas e hoje o Brasil é considerado pelos EUA como um importante parceiro no desenvolvimento de relações multilaterais, dizem especialistas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi apenas o terceiro chefe de Estado a ser recebido pelo presidente americano Barack Obama, e o primeiro da América Latina, em um encontro sábado na Casa Branca.

Não há nenhum Fletcher hoje pressionando o governo americano a melhorar o relacionamento com o Brasil, mas o momento atual é favorável, segundo vários especialistas. Embora ainda ocorram embates sobre questões comerciais, há boas perspectivas de cooperação em áreas como combate ao tráfico de drogas, mudanças climáticas e relações multilaterais. O governo Obama também tem sinalizado um posicionamento mais flexível em relação a Cuba, o que provavelmente agradaria o governo Lula. Além disso, o Brasil é visto como um país que desfruta de boas relações na América Latina de maneira geral, o que pode ajudá-lo a servir de ponte para um novo diálogo entre os EUA e a região, dizem os especialistas. Após uma reunião com Lula sábado, Obama disse que pretende usar o relacionamento com o Brasil para reforçar os laços com a América Latina.

É claro que a grandiosidade da crise econômica nos EUA e no mundo, e os conflitos no Iraque e no Afeganistão podem dificultar que o governo de Obama dê prioridade à América Latina em sua agenda internacional num futuro próximo, diz o cientista político Riordan Roett, da Universidade Johns Hopkins. “A atitude atual é benigna, mas a escalada da violência no México, fruto da guerra contra o narcotráfico, o policiamento da fronteira com esse país e os efeitos da queda nas remessas de imigrantes devem ganhar mais destaque na agenda do governo Obama” em se tratando de relações com a América Latina, diz Roett, que recebeu em 2000 a medalha da Ordem de Rio Branco das mãos de Fernando Henrique Cardoso.

O convite de Obama para Lula visitar Washington também é um bom sinal, diz Roett, para quem a cooperação entre os dois países no contexto atual é muito mais abrangente do que as questões bilaterais, especialmente com o papel preponderante do Brasil na construção de mecanismos multilaterais. “Se Obama quiser ativar a Rodada Doha, vai precisar do Brasil.” Brasil e EUA se reúnem novamente no início de abril, na conferência do G-20 em Londres, e em 17 de abril para a V Cúpula das Américas, em Port of Spain, Trinidad e Tobago.

Segundo Luiz Alberto Moniz Bandeira, professor aposentado de política exterior do Brasil da Universidade de Brasília, os dois países “não podem deixar de se considerar, (pois) são as duas maiores massas geográficas, demográficas e econômicas do continente”. Moniz aponta também a diminuição na importância dos EUA para as exportações brasileiras, que passaram a ser dominadas pela União Europeia e países emergentes. “O Brasil quer se aproximar dos EUA apenas na medida em que os EUA queiram se aproximar do Brasil”, diz Moniz.

Em entrevista coletiva em 25 de fevereiro, logo após se reunir em Washington com Hillary Clinton, o chanceler Celso Amorim disse que uma prioridade para reativar as negociações multilaterais para o comércio mundial é a confirmação pelo Congresso do indicado para o cargo de representante comercial dos EUA, Ron Kirk. A nomeação ainda está pendente, enquanto pesam sobre Kirk questões relativas a sua declaração de renda.

“O diálogo entre os dois governos realmente evoluiu nos últimos anos e acredito que o governo Obama continuará desenvolvendo isso”, diz Julia E. Sweig, diretora de estudos latino-americanos do Council on Foreign Relations, um centro de pesquisas que tem sede em Nova York e se descreve como não-partidário e independente. A política comercial entre os dois países, contudo, ainda “não foi bem resolvida”. Embora haja muito interesse no Brasil, diz Sweig, especialmente em relação às recentes descobertas petrolíferas e à indústria do etanol, a falta de conhecimento aprofundado sobre o país pode ser um obstáculo para as relações entre os dois países. “O pessoal da política exterior (do governo Obama) está preocupado com México, Cuba e, em terceiro lugar, o Brasil. Mas ainda existe um grande déficit de conhecimento sobre o Brasil e como dialogar com o país em meio à classe política em Washington”, diz.

Questões comerciais também se interpõem entre os dois países. Um dos pontos de debate é a tarifa de US$ 0,14 por litro de álcool combustível importado do Brasil nos EUA. Ela foi mantida na legislação agrícola aprovada em 2008 e está em vigor até o fim de 2010. A demanda por álcool combustível nos EUA vem crescendo, mas o país tem sua própria produção, à base de milho, e os produtores locais têm bastante influência em Washington.

“Barack Obama quer expandir a produção de energia renovável na América Latina de uma maneira que promova a auto-suficiência e crie mais mercados para fabricantes e produtores americanos de biocombustíveis”, diz o plano para a América Latina divulgado ano passado pelo então candidato. Obama reafirmou sua posição ao dizer após a reunião com Lula que o etanol é um “tema tenso” entre os dois países, que não vai mudar de um dia para o outro.

Joel Velasco, representante-chefe para a América do Norte da União da Indústria de Cana-de-Açúcar do Brasil (Unica), tem esperança de que políticos contrários à tarifação apresentem novas emendas que modifiquem a legislação agrícola. Velasco diz que os senadores e deputados das regiões costeiras tendem a apoiar a redução da tarifa, já que não produzem etanol e geralmente são obrigados a pagar mais caro pelo produto. Ele cita como favoráveis à redução da tarifa os senadores republicanos Richard Lugar e Judd Gregg.

Representantes dos senadores confirmaram que eles apoiam a redução da tarifa, mas disseram que no momento não há planos de introduzir nova legislação. Gregg chegou a apresentar em junho do ano passado um projeto de lei para reduzir a tarifa para US$ 0,12 por litro, sob o argumento de que a medida baixaria o preço da gasolina – na época o barril de petróleo estava acima de US$ 140, enquanto agora flutua na casa dos US$ 40. O projeto acabou morrendo no Congresso.

Gregg tinha sido indicado para ocupar a Secretaria de Comércio, um cargo que vem rendendo dor de cabeça a Obama, mas acabou desistindo sob a alegação de que havia “diferenças irresolúveis” com a política do novo presidente. O cargo em questão ainda está vago e Obama indicou recentemente o ex-governador do Estado de Washington Gary Locke, que aguarda confirmação.

16/03/2009 - 17:11h Porque Obama deveria apostar no Brasil

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Robert Amsterdam
The Huffington Post

Why Obama Should Bet on Brazil

Despite the well worn campaign slogan, so far Washington’s new foreign policy under President Barack Obama and Secretary of State Hillary Clinton seems to embody a blend of both continuity and change, depending on the situation. By and large we have seen a reactionary series of policies, as the new president has been thrust into a game with the cards already dealt. However, with the visit to Washington on Saturday March 14 of Brazilian President Luiz Inácio Lula da Silva — the first Latin American head of state to be received by Obama at the White House — a fresh hand is being dealt, giving the president a chance to define his administration and mark a clear departure from the policies of the past.

For years Latin America has been waiting for its day in the sun as a privileged partner of the United States; to be treated fairly, with respect, and joined in action toward the fulfillment of mutual goals for the Western Hemisphere. With the visit of Brazil, now graduated to the status of a true regional and global power, the administration should seek to support and enhance its role of responsibility, proving to the skeptics that we don’t need or want a unipolar hemisphere, but rather a multi-lateral and institutional framework for stable and prosperous relations.

There are many compelling reasons for Obama to seek a close relationship with Brazil and establish a new partnership, one that would bring immediate benefits to both parties (while carrying very low risk and political costs). Despite being diplomatically stretched thin by Mideast conflicts, Brazil is a sure bet that Obama should not pass up.

The first reward of a new partnership with Brazil would be felt in terms of regional security. This South American nation of 196 million citizens is enjoying the benefits of four consecutive successful democratic governments, making it one of the top BRIC economies with a decade of growth and strong forecasts for the future, despite suffering the current woes of the crisis along with everyone else. The economic growth has been matched by proactive diplomacy, as Brazil has grown into a much stronger regional leadership role over the past 10 years.

In terms of military and defense matters, they are an essential player, having just overseen the historic first meeting of the NATO-like South American Defense Council of UNASUR (Union of South American Nations). When incidents arise between Latin American countries, such as the recent Colombia-Ecuador conflict, it is Brasilia, not Washington or the OAS, that is called in first as the trusted mediator.

The second imperative for Obama to give the Brazilians a red carpet welcome is economic. Amid the uncertain breakdown of global financial institutions, where governments find themselves learning how to be bankers, Brazil is ironically ahead of the curve. As noted by a recent article in the Economist, analysts such as Goldman Sachs have praised Brazil’s state involvement in the banking sector, which combined with lower public sector debt and responsible fiscal policy has prepared the country for a better survival than most. Mohamed El-Erian, chief executive at Pimco, has even been quoted by Reuters as saying that China and Brazil offer better stock investments for the future than the United States: “The case for optimism comes from the fact that these countries entered today’s global crisis with better initial conditions.”

In terms of trade, the partnership is a natural fit with room to grow. The United States imports the most from Brazil and exports the most (about 15.7% and 16.1% respectively for 2007). Furthermore, if the Obama administration has any hopes of beating back a worldwide return to protectionism, Brazil’s cooperation is essential. According to a new report from the Inter-American Dialogue, Brazil is now one of the most influential participants in the Doha talks and shares many U.S. objectives: “By eliminating critical stumbling blocks that have frustrated regional negotiations, a breakthrough in Doha on agriculture could facilitate U.S.-Brazilian bilateral trade discussions and perhaps set the stage for reviving hemispheric trade talks.”

Energy and climate cooperation could also revolutionize the U.S.-Brazil relationship, however I am not confident that the Obama administration has the political will at this juncture to recognize that Brazil is the solution to energy independence — at the cost of cutting tariffs and U.S. farm subsidies for ethanol. It is notable that Brazil is in the position of lecturing the United States on protectionism, and it would be a helpful first step for Obama to show that he is listening.

Nevertheless, if the security, economic, and trade benefits of this relationship were not motivation enough, there is also the fact that Lula is ideally positioned to help Obama handle the most challenging and dangerous threat to the hemisphere: President Hugo Chavez of Venezuela. After more than a decade in power and several constitutional revisions to consolidate power and weaken democratic and legal institutions, developments in Venezuela are rapidly worsening. Private property seizures are accelerating (not just oil, but food companies), crackdowns against the opposition and media are intensifying, the state increasingly tolerates violent attacks against the student movements and the Jewish community, and President Chavez is holding a growing number of political prisoners beyond the reach of law (disclosure: I represent one such political prisoner, Eligio Cedeño).

We need to understand that Chavez is neither a dictator nor a model democrat, and any effort to improve the situation cannot be carried out alone. As Chavez has already empowered Lula to serve as an interlocutor to Washington, Brazil has the opportunity to become the most effective and pragmatic voice to speak to the Chavez government, helping to reign in the more destructive trends, if not subtly assisting the U.S. effort to isolate the world’s foremost petrocrat (though friendly with Chavez, the Brazilians aren’t thrilled about $6 billion in Russian arms coming into the region). Dealing with the regional problems presented by Venezuela is not about punishing Chavez or causing collateral damage to its citizens, but rather seeking engagement with Bolivia, opening the door to the new government in Cuba, and encouraging economic initiatives from Central America to the Andes. If Washington is able to run from the same playbook as Brasilia, Chavez will have a much more difficult time dismissing these efforts to promote stability and democracy as a malicious neoliberal agenda.

Lastly, there is an important synergy to the social context and visionary ambition of these two presidents. When Lula first became president in 2003, there were wild accusations and pessimistic predictions of the damage his “socialist” leanings would bring to the economy, a tone of criticism that is mimicked in the United States today.

For what it is worth, like Obama, Lula has risen to the country’s highest office from very humble origins, riding a narrative of hope, possibility, and the sudden sense of enfranchisement of politically excluded groups. Overcoming the odds to reach the presidency, both Lula and Obama have sought to conquer fears of radicalism with measured pragmatism. Lula has successfully surrounded himself with capable advisors able to maintain good relations with countries as different as Venezuela and the United States, such as Minister of Strategic Affairs, Roberto Mangabeira Unger, who upon observing Chavez’s attempt to use Moscow as a lever against the United States, told the New York Times “Unlike other South American countries we don’t go around buying things, and we are not interested in some kind of balance-of-power politics to contain the United States.”

So far the Brazilian strategic approach has been successful and constructive, and one that the United States should want to see replicated across the region. Among the young democracies of Latin America and beyond, two alternatives are currently on offer — the traditional, lackluster offer from the United States, and the alternative coalition led by authoritarian petroleum exporters (Russia, Venezuela, Iran, and others), united mainly by anti-Americanism, and vaguely pursuing some form of non-institutional multilateralism. It should be no surprise that the latter is winning over many converts, especially in light of the fact that Venezuela is pouring three times the amount of aid into the region than the United States, whose paltry contributions to humanitarian projects outside of the war on drugs is negligible.

The time is now for Obama to launch a new partnership with Latin America’s biggest and best democracy, and for once in history make the region a top priority for U.S. foreign policy. Unlike dealing with Moscow over Iran or meting out carrots and sticks in the Mid-East, with Brazil efforts are much more likely to be met with a serious and genuine response to achieve progress. It is certainly a bet worth taking.

16/03/2009 - 09:13h Brasil vai à OMC pelo etanol

País volta a questionar subsídios dos EUA ao produto

Jamil Chade, GENEBRA – O Estado SP

Um levantamento feito pelo próprio governo americano coloca em dúvida a capacidade dos Estados Unidos de cumprirem sua meta de expandir a produção de etanol no país na próxima década. O resultado veio no mesmo momento em que o Brasil cobrou uma explicação dos EUA na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre seus subsídios ao etanol. A diplomacia americana rejeitou classificar os programas de ajuda como incentivos ilegais e ignorou o pedido de esclarecimentos.

Na quinta-feira, o Itamaraty questionou os americanos e pediu um esclarecimento sobre o apoio financeiro dado ao setor de biocombustíveis. O Brasil queria saber se um programa de incentivo fiscal não seria um subsídio agrícola ilegal, que estaria contribuindo para distorcer o mercado. Os incentivos seriam de US$ 100 milhões por ano em redução de impostos.

Em resposta ao pedido de esclarecimento do Brasil, o governo americano alegou que já havia dado explicações e alertou que “não concordava” com a interpretação de que os incentivos pudessem ser classificados como subsídios agrícolas. Para os diplomatas americanos, o assunto nem sequer é um debate agrícola e os programas já teriam sido notificados como incentivos numa área industrial.

O questionamento do Brasil na OMC ainda não é uma disputa legal. O tema foi apenas levantado em um comitê regular da OMC. No ano passado, Brasil e Canadá iniciaram consultas para questionar a política de subsídios dos EUA na OMC, incluindo três programas de apoio à produção de etanol.

META

Estudo feito pelo Departamento de Energia americano indicou que o país dificilmente conseguirá atingir sua meta de 36 bilhões de galões de etanol até 2022, como foi estipulado em 2007. No mundo, a produção de etanol dobraria até 2020, com 50 bilhões de galões. Em 2030, esse volume chegaria a 80 bilhões. Mas, os americanos não conseguiriam atingir sua meta diante das dificuldades em produzir milho suficiente para ser transformado em etanol.

15/03/2009 - 10:10h Obama e Lula discutem ação anticrise e tensão comercial

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Líderes falam em traçar uma estratégia conjunta para reunião do G20, em abril

Presidente americano não se compromete a levantar barreiras sobre o álcool do Brasil e diz que tensão não acabará “da noite para o dia”

SÉRGIO DÁVILA – FOLHA SP

DE WASHINGTON

No primeiro encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama, no Salão Oval da Casa Branca, os presidentes falaram em traçar estratégia conjunta contra a crise econômica a ser apresentada na reunião do G20, em abril em Londres. Criticaram ainda a recente onda de protecionismo e prometeram avançar a agenda comum de biocombustíveis, apesar da negativa do americano em levantar barreiras tarifárias ao álcool brasileiro por ora.
Obama convocou o economista-chefe da Casa Branca, Lawrence Summers, para participar da parte ampliada do encontro, que no total durou cerca de duas horas, o dobro do tempo inicialmente previsto. O democrata defende uma ação global coordenada contra a recessão mundial atual.
A aliança entre o país mais rico do mundo e a maior economia da América Latina em torno da crise marca um novo grau na relação bilateral e o início oficial do trato entre os dois líderes, que até ontem não se conheciam pessoalmente.
“Pretendemos ter uma série de reuniões em nível ministerial nos próximos dias e semanas”, disse Obama, sobre o G20 (maiores economias do mundo), “para coordenar nossas atividades para fortalecer o crescimento econômico global”. Em encontro posterior com jornalistas brasileiros na sede da Embaixada do Brasil, Lula confirmaria a parceria.
“Foi muito importante a proposta de Obama para constituirmos um grupo de trabalho Brasil-EUA a fim de preparar um trabalho conjunto na reunião do G20″, disse.
Nos próximos dias, o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) e a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, além de outros representantes do alto escalão dos dois governos, se encontrarão a fim de fazer um esbolo de plano de ação, que envolve, de acordo com Lula, regulação financeira e ações de estímulo fiscal.

Divergência
Num clima bem-humorado, em que ambos os líderes fizeram e ouviram brincadeiras, Lula e Obama pareceram concordar apenas sobre a crise. Ambos defenderam posições conflitantes em relação a medidas protecionistas e barreiras impostas ao álcool brasileiro nos EUA. Obama reconheceu que a questão do biocombustível “tem sido um ponto de tensão entre os dois países”.
“Isso não vai mudar da noite para o dia, mas eu acho que conforme nós continuemos a desenvolver as ideias, o comércio, a negociação em torno da questão do biodiesel, com o tempo essa fonte de tensão pode ser resolvida.”
Já Lula respondeu que não entendia como um combustível poluente como o petróleo não era taxado, mas uma fonte limpa como o álcool brasileiro era. “Mas não espero uma resposta imediata, isso é um processo”, disse o brasileiro, para emendar com um convite para que seu colega norte-americano andasse num carro de tecnologia flex quando visitasse o Brasil -viagem que o democrata confirmou que pretende fazer em breve. Obama respondeu que seu carro já era flex.
“Mas um dos problemas aqui nos EUA é que não temos postos suficientes com biocombustíveis, mas essa é a razão pela qual temos de mudar o sistema de distribuição aqui.”
Os EUA aplicam tarifa de US$ 0,54 por galão (cerca de 3 litros) de álcool brasileiro, o que inibe a entrada do produto. Brasil e EUA produzem 70% do álcool mundial. As exportações brasileiras de álcool somaram 5,16 bilhões de litros em 2008 -45,7% mais que 2007. O maior comprador foram os EUA -2,8 bilhões de litros.
Sobre protecionismo, Obama defendeu a medida “Buy American” (compre produtos americanos, em tradução livre), aprovada recentemente pelo Congresso, dizendo que sua equipe trabalhou para que a emenda não violasse as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“Tenho certeza de que o presidente Lula vai dar passos semelhantes no Brasil para assegurar que não estamos retrocedendo no quesito do comércio mundial”, afirmou. Lula disse que os países estiveram muito próximos da conclusão da Rodada Doha de liberalização de comércio, mas “questões eleitorais nos EUA” atrapalharam.
Lula é o primeiro latino-americano a ser recebido na Casa Branca desde a posse de Obama, em janeiro, e o terceiro líder mundial, depois dos primeiros-ministros Taro Aso (japonês) e Gordon Brown (britânico). Nos últimos dias, assessores obamistas chamaram o país de “parceiro global”.
O brasileiro chegou à Ala Oeste da Casa Branca às 10h56 locais (11h56 de Brasília). Na comitiva, estavam os ministros Amorim, Dilma Rousseff (Casa Civil), o assessor Marco Aurélio Garcia e o embaixador Antonio Patriota. Eles participaram no salão Roosevelt da parte ampliada da reunião, que durou 50 minutos. Do lado americano, além de Summers, estavam o assessor de Segurança Nacional (NSC, na sigla em inglês), James Jones, um de seus vices, Mike Donilon, o número 2 do Departamento de Estado, James Steinberg, e o responsável pela América Latina do NSC, Dan Restrepo.
A meia hora seguinte os dois passaram no Salão Oval, o escritório presidencial, onde conversaram na presença dos intérpretes. Nos 40 minutos finais, os jornalistas entraram. De lá, o anfitrião levou Lula até a saída no jardim das Rosas.

15/03/2009 - 09:50h Presidente dos EUA avisa que barreira ao etanol não cai já

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Obama admite que discussão sobre biocombustível brasileiro no país é fonte de tensão; Lula diz que não esperava resposta imediata

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

O presidente dos EUA, Barack Obama, admitiu ontem que a tarifa de importação sobre o etanol brasileiro não vai ser eliminada no curto prazo. “Eu sei que a questão do etanol brasileiro entrando nos Estados Unidos tem sido uma fonte de tensão entre os dois países”, disse Obama. “E isso não vai mudar da noite para o dia, mas na medida em que continuamos construindo nossa troca de ideias sobre o comércio de biodiesel, com o tempo essa fonte de tensão pode ser resolvida.”

Ao lado de Obama, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que não esperava mesmo uma resposta imediata e, com o tempo, o Brasil provaria que o biocombustível é uma “alternativa extraordinária”.

“Ninguém consegue mudar sua matriz energética da noite para o dia”, ressaltou o presidente brasileiro. “Graças a Deus o Brasil já detém há 30 anos essa tecnologia.”

Lula disse a Obama que iria levá-lo para andar de carro “flex fuel” quando ele fosse ao Brasil. “Você vai se sentir muito confortável”, disse o presidente brasileiro.

Obama contou que já teve um carro bicombustível nos EUA, mas ressaltou que o problema é que existem poucos postos para abastecimento no país.

Segundo Lula, os dois também conversaram sobre a necessidade de desenvolver projetos de biocombustíveis em terceiros países, como os da África.

15/03/2009 - 09:38h Lula encontra Obama e anuncia ação conjunta para cúpula do G20

Brasil e EUA vão constituir grupo com objetivo de apresentar plano na reunião que discutirá saídas para a crise

 

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

 


Os presidentes Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva vão constituir um grupo formado por Estados Unidos e Brasil para apresentar um plano de ação na reunião do G20, que vai discutir saídas para a crise mundial no dia 2 de abril, em Londres. “Foi muito importante a proposta de Obama para constituirmos um grupo Brasil-EUA para preparar um trabalho conjunto na reunião do G20″, disse Lula ontem, em entrevista coletiva, após o encontro que teve com o presidente americano na Casa Branca.

Segundo Lula, o grupo vai unir Brasil e Estados Unidos para debater que tipo de regulamentação financeira será necessária, como serão reconstituídos os fluxos de crédito internacional e como aportar mais recursos em instituições multilaterais para financiar os países em desenvolvimento.

Apesar de declarar a aliança com os EUA para o G20, Lula mostrou ter algumas divergências em relação à abordagem americana e voltou a dizer que os EUA são os maiores responsáveis pela crise financeira global. “A crise econômica surgiu no coração dos países ricos, eles têm a responsabilidade de achar saídas. Os Estados Unidos sabem que têm mais responsabilidade”, declarou.

Lula, Obama e suas comitivas se reuniram por quase duas horas para discutir a crise econômica mundial, o problema do protecionismo, biocombustíveis e as relações dos Estados Unidos na América Latina.

A comitiva de Lula chegou às 10h56 à Casa Branca, para o encontro que começou pontualmente às 11h. Ele foi o primeiro presidente latino-americano a se encontrar com o novo presidente americano.

No lado brasileiro, participaram da reunião a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores), o embaixador Antonio Patriota, o assessor para Assuntos Internacionais Marco Aurélio Garcia e a chefe de gabinete de Amorim, Maria Laura. No lado americano, James Steinberg, subsecretário de Estado; general James Jones, titular no Conselho de Segurança Nacional; Thomas Donilon, vice no Conselho; Dan Restrepo, assessor para assuntos de Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional; e Larry Summers, presidente do Conselho de Assessores Econômicos.

Lula comemorou a união com os EUA para encontrar soluções anticrise, mas manifestou ter posições diferentes das apresentadas até agora pelo governo americano. Ele defendeu, por exemplo, a nacionalização dos bancos como parte da solução da crise. “Aqui nos Estados Unidos falar a palavra estatização, nacionalização, é uma coisa difícil, mas concretamente precisamos fazer o dinheiro voltar ao mercado”, disse. “Se o povo não acredita no atual sistema financeiro, quem pode dar solução se não o Estado?” Ele também fez uma crítica aos resgates dos bancos. “A solução da crise não é a gente ficar dando dinheiro para os bancos.”

Na frente de Obama, Lula também se disse preocupado com o fato de os Estados Unidos estarem aumentando muito seu endividamento e reduzindo o crédito disponível para os países emergentes. “Isso terá de ser discutido no G20.”

O presidente americano quer ter o Brasil como aliado nas discussões anticrise do G20 em Londres. Os EUA defendem um pacote de estímulo coordenado entre os países do grupo. Já a Europa quer dar prioridade para uma maior regulamentação transacional do sistema financeiro, medida que agrada também ao Brasil. “Não podemos abrir mão de regulamentação financeira e vamos discutir a dimensão dessa regulamentação no G20″, disse Lula. Obama e o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, defendem um aumento substancial dos recursos do FMI para que o fundo possa auxiliar economias em crise, como as do Leste Europeu, e viabilizar um estímulo fiscal global. Os EUA aumentariam sua contribuição para o FMI, mas esperam que outros países, entre eles Brasil, China e Índia, façam o mesmo.

Os dois presidentes se comprometeram a combater o protecionismo, mas jogaram um balde de água fria no avanço do comércio mundial. “Nosso objetivo é que pelo menos não haja retrocesso (no comércio)”, disse Obama, comentando o protecionismo. “Será difícil para nós concluirmos uma série de tratados de comércio em meio a uma crise econômica.” Obama afirmou que a secretária de Estado, Hillary Clinton, e Celso Amorim vão se encontrar para discutir formas de combater o protecionismo.

FRASES

Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente do Brasil

“A crise econômica surgiu no coração dos países ricos, eles têm a responsabilidade de achar saídas. Os Estados Unidos sabem que têm mais responsabilidade”

“A solução da crise não é a gente ficar dando dinheiro para os bancos”

Barack Obama
Presidente dos EUA

“Nosso objetivo é que pelo menos não haja retrocesso (no comércio)”

“Será difícil para nós concluirmos uma série de tratados de comércio em meio a uma crise econômica”

THE NEW YORK TIMES

A versão online do jornal reproduziu, com texto de agências de notícias, Lula dizendo que Obama está “convencido” de que o encontro do G20 no mês que vem “pode resolver a crise econômica”. O jornal contou a brincadeira de Lula com Obama quando disse que não gostaria de estar na posição do americano. O texto termina falando do desejo manifestado por Obama de conhecer o Rio de Janeiro.

CLARÍN X

O jornal argentino trouxe a seguinte manchete em sua versão online: “Lula se encontra com Obama e defende que não se perca tempo apontando culpados”. O texto destacou a afirmação do brasileiro sobre a necessidade de os países buscarem uma solução para a crise no encontro do G-20. A reportagem tratou ainda da declaração de Lula sobre a “responsabilidade histórica” de Obama.

EL PAIS

O jornal espanhol destacou declaração de Obama de que os EUA “têm muito a aprender com o Brasil” no campo de energias renováveis. O texto fala do convite de Lula a Obama para que conheça um carro flex quando vier ao Brasil. “Viagem que o presidente americano disse que pretende fazer em breve”, destaca. A reunião, completou o jornal, “foi descontraída e com brincadeiras dos dois lados”.

BBC

O serviço online da inglesa BBC trouxe Lula pedindo a atenção de Obama para os “riscos” do protecionismo. A reportagem informa que o brasileiro defendeu ainda uma ação contra crise no encontro do G-20. O texto destaca que Lula foi um dos primeiros líderes internacionais a visitar Obama na Casa Branca, concluindo: “Um indicativo do crescimento da importância do Brasil na cena internacional.”

11/03/2009 - 09:53h “Brasil está talhando um papel poderoso no comércio internacional”, escreve o Wall Street Journal

Lula diz que pedirá a Obama combate ao protecionismo

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John Lyons, The Wall Street Journal, de Brasília

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou ontem que uma crescente onda de protecionismo por parte dos países ricos ameaça as economias do mundo emergente, e prometeu fazer lobby para que os Estados Unidos adotem um acordo de livre comércio com a Colômbia, ainda que isso possa prejudicar parte das exportações de seu próprio país aos EUA.

Numa entrevista ao Wall Street Journal que antecede uma visita de Estado aos EUA no fim de semana, Lula foi bastante crítico quanto a uma recente onda de medidas protecionistas em países que normalmente promovem o livre comércio. Um exemplo: a cláusula para compra de produtos americanos incluída no mais recente pacote de estímulo aprovado pelo Congresso dos EUA, ainda que ela tenha sido modificada para assegurar que o país cumpra regras de comércio internacional.

Lula advertiu que a crise financeira global ameaça prejudicar o desenvolvimento e reivindicou ajuda financeira e outras medidas para prevenir a maior disseminação da crise.

“Não podemos aceitar a ideia de que por conta da irresponsabilidade de banqueiros, e por conta da irresponsabilidade de uns governantes, que não fiscalizaram e não regulamentaram, o mundo pague a conta, sobretudo o povo mais pobre”, disse.

O Brasil é um defensor inusitado do comércio mais aberto. Altas tarifas de importação tornam muitas mercadorias caras demais para boa parte dos brasileiros. O país se opôs aos esforços americanos para unir o continente num enorme acordo de livre comércio, argumentando que as condições propostas pelos EUA eram duras demais para os parceiros comerciais latino-americanos.

O Brasil está pressionando agressivamente pela retomada das negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio por um acordo comercial global. Mas os argumentos de Lula ressaltam a profundidade com que a crise financeira está mudando o panorama até de países que pareciam estar sobrevivendo à crise melhor que outros. Lula disse acreditar que o Brasil evitará a recessão este ano, ainda que EUA, Europa e Japão se contraiam. Mas novos dados divulgados ontem mostraram a economia brasileira desacelerando rapidamente – com crescimento de apenas 1,3% no quarto trimestre de 2008, ante igual período do ano anterior.

Lula disse que conter o protecionismo é sua grande prioridade numa reunião que tem programada com Obama, no sábado. “Qualquer protecionismo poderá, no curto prazo, parecer favorável, mas no longo prazo será uma lástima para os países, e sobretudo na economia global, levando em conta necessidades que os países mais pobres têm de vender produtos para os países mais ricos.”

O ex-líder trabalhista tem se posicionando cada vez mais como um defensor global de países emergentes como África do Sul, Índia e outros em fórums como a reunião dos líderes do Grupo das 20 maiores economias em Londres, no mês que vem.

Na reunião com Obama, disse Lula, ele também planeja discutir propostas que podem ser debatidas na reunião do G-20. Entre essas medidas, disse Lula, estão a revitalização das negociações na Organização Mundial do Comércio, maior compromisso em evitar políticas comerciais protecionistas, diretrizes mais rígidas para a regulamentação de instituições financeiras, incluindo limites à alavancagem, e compromissos por parte dos países ricos de aumentar o crédito para exportações e outras atividades nas nações em desenvolvimento.

Não muito tempo atrás, a tentativa do Brasil de influenciar questões globais poderia ser ignorada. Mas o país, maior exportador mundial de açúcar, café, minério de ferro, carne e frango, está lentamente talhando um papel poderoso em áreas como comércio internacional.

As relações com o Brasil estão se tornando uma prioridade para os EUA. Enormes descobertas de petróleo no litoral podem fazer do país um importante fornecedor do combustível para os EUA num momento em que a produção do México e da Venezuela declina. O Brasil também pode exercer um papel importante na melhora das relações dos EUA com a América Latina, que atingiu novos pontos baixos no ano passado quando a Venezuela e a Bolívia expulsaram embaixadores americanos e o Equador declarou que acabaria com o uso pelos EUA de uma base militar no país.

Lula, por exemplo, disse que está exortando o presidente venezuelano, Hugo Chávez, a reduzir a intensidade de sua retórica anti-EUA e ver a mudança na Casa Branca como uma oportunidade de reformar as relações. Em contraparte, ele está reivindicando que os EUA também desmanchem o embargo comercial contra Cuba, uma mancha há bastante tempo nas relações regionais.

“Não existe mais nenhuma razão humana, sociológica ou política (para manter o embargo a Cuba). Precisa ter um olhar pelo futuro, e não pelo passado. Não podemos ficar fazendo política no século XXI sobre os fatos que (aconteceram) no século 20.”

Os EUA já declararam que esperam reduzir as restrições a viagens e transferências de dinheiro para Cuba.

Operário que não concluiu os estudos e perdeu um dedo num acidente de trabalho, a inusitada ascensão de Lula ao poder lhe dá uma enorme reserva de boa vontade numa região com uma profunda divisão entre ricos e pobres.

Embora boas, as relações entre os EUA e o Brasil são relativamente subdesenvolvidas. A pedra angular é um acordo para desenvolver tecnologia para biocombustíveis – uma área na qual o Brasil é forte.

O passado pobre de Lula aumentou as expectativas de que ele será capaz de estabelecer um relacionamento especialmente produtivo com Obama, cujo próprio passado não pressagiava o poder. O brasileiro foi efusivo em seus elogios ao presidente americano.

“Rezo por Obama mais do que por mim mesmo”, disse Lula. “As políticas de Bush para o Brasil eram dignas. Mas acho que podem ser infinitamente melhores com Obama.”

O desdém de Lula por bancos de investimento remonta ao período imediatamente posterior a sua eleição, em 2002, quando firmas dos EUA e da Europa puxaram uma forte baixa dos títulos da dívida externa brasileira, prevendo que Lula arruinaria a economia. A economia brasileira permaneceu sobre bases sólidas, e seu sistema financeiro está intacto.

De fato, Lula disse que a crise ofereceu uma oportunidade para se criar uma economia na qual os financistas de Wall Street tenham um papel menor.

“O mundo será menos falso”, disse. “A economia que vai contar é a que produz milho, arroz, um parafuso, um carro, um terno, um relógio.”

06/03/2009 - 12:26h Descasamento, desligamento: abrindo a caixa preta da vida econômica

 

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*Ricardo Abramovay – VALOR

Não há desafio atual mais importante que o de transformar as bases materiais e energéticas em que se exprime o extraordinário aumento de renda do mundo contemporâneo. Para enfrentá-lo, são necessárias três rupturas fundamentais. A primeira é de natureza teórica: a ciência econômica faz abstração do conteúdo material e energético da reprodução social e se dedica apenas à maneira como a fartura e a escassez se traduzem nos preços. A segunda ruptura é contábil: não se trata mais de medir a riqueza social somente por aquilo que se compra e vende, e sim com base na ideia da ecologia industrial de que as economias modernas são organismos vivos, cujo metabolismo precisa ser permanentemente avaliado. A terceira ruptura é política e embute a ousadia de que o crescimento econômico talvez não seja o objetivo mais relevante para o bem-estar, ao menos naquelas sociedades que já atingiram alto grau de abundância material.

É notável o avanço de vários países da OCDE na formulação deste problema. Os termos decisivos são descasamento ou desligamento (decoupling, delinking): eles sinalizam para a quebra do vínculo entre crescimento econômico e uso dos recursos. Isso supõe o estabelecimento de uma contabilidade dos fluxos de insumos e detritos que se encontram não somente nos processos produtivos, mas também no consumo. Além da famosa (e muito criticada) pegada ecológica, existe hoje um conjunto amplo de indicadores e de institutos de pesquisa voltados a conhecer de perto as bases materiais e energéticas em que repousam o funcionamento da sociedade. Por incrível que possa parecer, este é um objetivo que não faz parte da ciência econômica, ao menos da maneira como é convencionalmente ensinada.

Há diversas técnicas para medir o avanço deste salutar descasamento entre a riqueza e seu fundamento biofísico. A “contabilidade nacional agregada de fluxos materiais” já é hoje amplamente utilizada na União Europeia. A Alemanha, o Japão e a Suíça elaboram relatórios governamentais públicos a este respeito, estimando o material necessário à produção de bens e serviços. O Japão tem como objetivo nacional chegar a uma “sound material-cycle society”, uma sociedade baseada num ciclo de vida saudável de sua base material. Seus relatórios ambientais partem da constatação de que “o crescimento econômico rápido associa a geração de vasto montante de lixo à crescente escassez de recursos”. O país gera 470 milhões de toneladas de lixo anualmente e seus aterros estão com os dias contados: 7,7 anos ao longo de todo o arquipélago e 3,4 anos na região metropolitana de Tóquio.

Uma das medidas básicas da contabilidade de fluxos materiais (Material Flow Account) é o peso físico daquilo que forma o processo produtivo. É claro que o impacto de um quilo de areia é bem diferente do estrago que um quilo de mercúrio pode provocar. Ainda assim, o livro, cujo título parodia a obra de Adam Smith (The Weight of Nations – Material Outflows From Industrial Economies, organizado por Emily Matthews e publicado pelo World Resources Institute), é uma referência incontornável.

Metade a três quartos dos insumos industriais da Alemanha, da Holanda, do Japão e dos Estados Unidos volta ao meio ambiente como lixo, após utilização. O requerimento material total (Total Material Requirement) necessário ao aparato produtivo (e que inclui tanto importações quanto “fluxos ocultos”, como erosão agrícola ou perda de solo na construção civil) varia de 45 toneladas per capita no Japão a mais de 80 toneladas per capita nos Estados Unidos.

É bem verdade que a eficiência aumenta ao longo do tempo nos países estudados. Cada unidade de PIB vai sendo produzida com quantidade menor de matéria e energia. Estes ganhos, no entanto, são largamente contrabalançados pelo crescimento econômico e pelos padrões de consumo destes países. O descasamento é apenas relativo à quantidade de materiais e energia por unidade de PIB. No entanto, em termos absolutos, a quantidade de lixo por habitante e a de materiais e energia utilizados no processo produtivo continua aumentando. A conclusão do livro organizado por Matthews é inequívoca: “a mudança econômica estrutural [em direção a uma economia de serviços] e os ganhos de eficiência tecnológica, sozinhos, têm poucas chances de trazer real redução no uso de recursos e na produção de rejeitos”.

A elevação do contingente populacional que, sobretudo na Ásia e na América Latina, passa a dispor de renda para partilhar ao menos de parte do padrão de consumo característico dos países centrais, só vem agravar este problema. Relatório recente da Goldman Sachs (The Expanding Middle: The Exploding World Middle Class and Falling Global Inequality) prevê a entrada de quase 1,5 bilhão de pessoas no que se pode chamar de “classe média mundial” até 2030, algo como 70 milhões de pessoas (com renda) por ano.

As conquistas recentes na luta contra a pobreza (e, até, embora em menor proporção, contra a desigualdade) são notáveis e marcam a vida de muitos países, além dos BRIC. No entanto, estes indicadores materiais sobre a relação entre sociedade e natureza mostram que poder corretivo espontâneo do crescimento e do progresso técnico não será capaz, por si só, de evitar o rochedo que se avizinha e as pressões sobre os recursos existentes que esta nova afluência vem reforçar.

A liderança mundial dos próximos anos não estará nas mãos dos países que vão crescer, vencer a pobreza e reduzir a desigualdade, e sim daqueles que conseguirem fazê-lo modificando o conteúdo material e energético da vida econômica. O que supõe não o mimetismo de acreditar que petróleo, biocombustíveis para motores a combustão interna e grandes obras para exportação formam o caminho do futuro, e sim a transição para sistemas produtivos que preservem o patrimônio natural, se apoiem no consumo cada vez menor de matéria e energia e valorizem a biodiversidade.

Ricardo Abramovay , professor titular do Departamento de Economia da FEA/USP, é coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa) e pesquisador do CNPq. www.econ.fea.usp.br/abramovay/

05/03/2009 - 10:46h Petrobrás quer usinas de álcool

Em meio à crise do setor, estatal anuncia que vai comprar participação de até 40% em usinas

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Kelly Lima – O Estado SP

A Petrobrás anunciou ontem que dará início às compras na área de etanol. O presidente da Petrobrás Biocombustíveis (PBio), Alan Kardec, informou que a intenção é comprar participações de até 40% em usinas. “Não queremos ser majoritários nem nessas aquisições nem nos novos projetos”, disse. O investimento da estatal ocorre num momento em que a crise financeira internacional acentuou as dificuldades da indústria sucroalcooleira, com ameaça de cancelamento de projetos ou quebra de usinas. O plano da empresa é investir US$ 2,4 bilhões em biocombustíveis entre 2009 e 2013.

Segundo Kardec, a estatal quer participar com, pelo menos, 20% do total do crescimento do setor de etanol no País. “Não é nossa intenção abocanhar uma fatia do mercado existente, mas sim do mercado que vai existir”, disse. Ele afirmou ainda que os processos de aquisição devem ser concluídos até o fim do primeiro semestre. “Estamos loucos para anunciar, mas há um termo de confidencialidade que nos impede.” O executivo fez questão de descaracterizar a decisão como uma operação de socorro às usinas.

“A Petrobrás adiou em dois anos, para 2015, a meta de exportação de 4,75 bilhões de litros de álcool”, disse Kardec, comentando que a crise “arrefeceu os ânimos de alguns investidores” que seriam parceiros da estatal no negócio. “A crise influenciou a cabeça de alguns. Não a da Petrobrás, mas em alguns casos temos de acompanhar o ritmo dos investidores.”

Para o diretor da consultoria Canaplan, Luiz Carlos Corrêa Carvalho, a mudança de estratégia da Petrobrás “sinaliza que a estatal quer antecipar a sua produção de etanol”, que seria mais demorada nos chamados projetos “greenfield”, ou seja, de novas usinas. “Nos projetos greenfield a companhia começa do zero, do plantio das mudas de cana”, disse Carvalho. Ele destaca que a Petrobrás precisará de investimento bem menor na aquisição de usinas já prontas.

A crise já provocou, no início do ano, grande queda na colheita de cana-de-açúcar na principal região produtora nacional, o Centro-Sul. A sobra de safra é um dos sinais mais evidentes da desaceleração dos investimentos. Usinas em São Paulo, que tinham início de operação prevista para o primeiro bimestre, não ficaram prontas, e duas dezenas de projetos sofreram corte de verbas em Mato Grosso do Sul.

Kardec reconheceu que a decisão de entrar em usinas de etanol é uma “mudança de estratégia da companhia”. “Antes, pensávamos apenas no mercado internacional e na participação em novos projetos.” Ele admitiu que o processo de reestruturação do setor sucroalcooleiro e as dificuldades enfrentadas por algumas usinas estimularam as compras.

NÚMERO

US$ 400 milhões dos US$ 2,4 bilhões previstos para serem investidos em biocombustíveis até 2013 serão desembolsados ainda este ano

05/03/2009 - 10:28h UE impõe tarifa à importação de biodiesel dos EUA, diz ‘FT’

Comitê de comércio da Comissão Europeia determinou tarifas entre 29 e 41 euros por 100 quilos do combustível

Deise Vieira – Agência Estado

SÃO PAULO – A União Europeia anunciou tarifas temporárias antidumping e anti-subsídios sobre a importação de biodiesel norte-americano, informa nesta quinta-feira, 5, o jornal ‘Financial Times’.

O comitê de comércio da Comissão Europeia determinou tarifas entre 29 e 41 euros por 100 quilos por um período inicial de seis meses, de acordo com o jornal.

A comissão deve publicar no dia 12 de março uma decisão formal sobre as tarifas, que devem entrar em vigor no dia seguinte. Segundo o Financial Times, após um período inicial, as tarifas podem ser ampliadas para até cinco anos. As informações são da Dow Jones.

31/01/2009 - 15:02h “Power broker”: dez anos depois, Brasil dá a volta por cima em Davos


Amorim condena novas barreiras

Crise aumenta risco protecionista e torna urgente a conclusão de Doha

Rolf Kuntz – O Estado de São Paulo

O chanceler Celso Amorim qualificou como “mau sinal” a inclusão de uma emenda contra a importação de ferro e aço no pacote fiscal enviado ao Congresso pelo presidente Barack Obama. Pela cláusula, não terá acesso aos benefícios fiscais anticrise quem realizar obras de infraestrutura com material importado. “Tudo isso é preocupante”, disse o ministro, “porque não há doença mais contagiosa que o protecionismo.”

Nenhum governo, argumentou Amorim, deve ter a ilusão de tomar uma medida protecionista sem provocar reações. Além disso, os países maiores devem ter liderança no combate às barreiras comerciais.

Ainda não se pode, no entanto, julgar a tendência da nova administração americana, ressalvou Amorim, porque a cláusula “buy American” (compre produtos americanos) foi introduzida por um parlamentar, na Câmara de Representantes. O projeto, com esse dispositivo, já foi aprovado na Câmara e ainda poderá ser revisto no Senado.

O presidente Barack Obama, lembrou Amorim, conversou por telefone com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no começo da semana, e mencionou a necessidade de concluir a Rodada Doha de negociações comerciais. “Acho que foi sincero”, disse o chanceler.

Em 16 de março, o presidente Lula irá a Nova York para um evento sobre biocombustíveis, promovido pelo Wall Street Journal. Há possibilidade, segundo ele, de um primeiro contato com Obama na visita, mas isso dependerá de um acerto.

Os dois temas – como evitar maior protecionismo e como retomar a Rodada Doha – serão discutidos hoje por negociadores de vários países, num hotel de Davos, em encontro coordenado pelo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. Trata-se de fato de um só assunto, porque, se as negociações não forem retomadas e concluídas, o risco de ações protecionistas será muito maior.

A União Europeia, observou Amorim, já anunciou a decisão de elevar a tarifa de importação de produtos lácteos. “É um péssimo sinal”, acrescentou. A crise internacional cria um ambiente propício ao fechamento das economias e à multiplicação de medidas prejudiciais ao comércio.

Esse risco torna mais urgente a reativação das negociações e o revigoramento dos compromissos contra o protecionismo. Não basta cuidar da superação da crise financeira, disse o ministro. Esse detalhe, segundo ele, não foi considerado na elaboração do programa do Fórum Mundial: muitas sessões foram dedicadas à crise das finanças e poucas ao comércio.

Se as negociações globais forem retomadas, acrescentou o ministro, o correto será partir dos pontos acordados até 2008 e consolidados no chamado pacote de julho. O valor desse pacote é muito grande, segundo Amorim. Não teria sentido, segundo ele, jogar fora todas essas conquistas e começar novamente do zero.

Dez anos depois, Brasil dá a volta por cima em Davos

Em 1999, o País enfrentava uma crise cambial e um novo surto de inflação

Depois de dez anos, a volta por cima: o Brasil pôde apresentar-se ontem, num almoço paralelo à reunião do Fórum Econômico Mundial, como “parte da solução, e não do problema”. Essas palavras foram ditas pelo executivo-chefe do Banco Itaú para a América Latina, Ricardo Villela Marino.

Como num jantar há dez anos, o governo brasileiro foi representado pelo ministro de Relações Exteriores. Em janeiro de 1999, no lugar de Celso Amorim, o chanceler era Luiz Felipe Lampreia. O real estava desvalorizado, o País enfrentava uma crise cambial e um novo surto de inflação parecia ameaçar as conquistas do ajuste implantado em 1994. A moeda brasileira, havia dito na véspera o secretário adjunto do Tesouro americano, Lawrence Summers, deixara de ser real para tornar-se virtual: real.com. A piada fez sucesso em Davos.

Desta vez, a crise começou nos Estados Unidos e manifestou-se pouco depois na Europa, sem poupar nem sequer os maiores bancos suíços. No Brasil, disse Villela Marino, não houve subprime nem excesso de risco nos empréstimos. Os padrões de segurança dos bancos brasileiros – relação entre capital e aplicações – excedem os padrões de Basileia, fixados pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS).

O presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, participou do almoço. Também discursou, e começou comparando os fundamentos macroeconômicos do Brasil e dos Estados Unidos, para afirmar a maior solidez das condições brasileiras. Há dez anos, num jantar em ambiente de velório, um empresário brasileiro pediu ao então ministro da Economia da Argentina Domingo Cavallo a receita para salvar o Brasil.

Cavallo atendeu com visível prazer e dissertou longamente sobre como o governo argentino havia encontrado a receita do crescimento com estabilidade. Três anos depois, a paridade imaginária entre o peso e o dólar seria rompida, de forma desastrosa, e o Tesouro argentino daria um calote histórico.

Naquela noite, o desastre mais visível era o do Brasil, atingido pelas ondas de choque da crise russa. Lampreia aguentou os desatinos durante um bom tempo, mas acabou perdendo a paciência e, com a polidez possível, enquadrou Cavallo e os empresários brasileiros deslumbrados.

Ontem, o presidente da Petrobrás, além de comparar os fundamentos macroeconômicos de Brasil e Estados Unidos, ainda se permitiu comentar as prováveis dificuldades do presidente Barack Obama para atender às expectativas internacionais em relação às suas medidas. Depois, falou sobre os planos do Brasil no setor de energia e sobre a contribuição dos biocombustíveis para a preservação ambiental. O País, lembrou, deverá investir US$ 2,8 bilhões na produção de etanol e de biodiesel nos próximos cinco anos.

O chanceler Amorim começou comentando o título oficial do almoço, inscrito no programa do Fórum. Há 30 anos, disse o ministro, o título seria algo como “Brasil, país do futuro”, ou “Brasil, gigante adormecido”. Mas o evento, desta vez, foi rotulado como “Brazil, power broker”. Não há tradução direta: “power broker” é alguém influente, levado em conta em decisões importantes, capaz de modificar relações de poder. Em resumo, um ator relevante.

O Brasil, disse Amorim, poderá ser menos afetado que outros países pela crise porque iniciou um programa de investimentos antes do agravamento da situação, uma espécie de política anticíclica antecipada. Mencionou também como uma das vantagens o poder de consumo resultante das políticas sociais. Externamente, o país se tornou menos vulnerável, de acordo com o ministro, porque diversificou seus parceiros comerciais e depende menos dos Estados Unidos (cerca de 14% das das exportações brasileiras).

Mas a posição de power broker, afirmou o ministro, depende em grande parte do trabalho de integração sul-americana e tem sido exercido, por exemplo, na mediação em casos de conflito na região. Sobre a ausência do presidente brasileiro, uma explicação de mercado: “Há mais demanda de Lula do que oferta de Lula”. O presidente, argumentou, já esteve três vezes em Davos e neste ano decidiu participar do Fórum Social em Belém.

27/01/2009 - 10:54h Investimento estrangeiro é recorde

Em 2008, apesar da crise global, IED no País somou US$ 45 bilhões, melhor resultado desde 1947, segundo o BC

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Sérgio Gobetti – O Estado SP

O Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Brasil bateu o recorde em 2008, atingindo a surpreendente cifra de US$ 45 bilhões, apesar de todo o pessimismo decorrente da crise financeira internacional. Foi o melhor resultado desde 1947, segundo os registros do Banco Central (BC).

O IED reúne todas as transações financeiras de entrada de dólares para investimentos produtivos ou aquisição de empresas no Brasil. Com esse resultado, o valor do IED mais do que compensou o déficit em transações correntes do ano passado, que atingiu US$ 28,3 bilhões, o pior resultado desde 1998.

A conta de transações correntes registra o saldo das operações de comércio, serviços e rendas do País com o exterior. Em2007, ela havia registrado superávit de US$ 1,5 bilhão.

Em 2008, a conta corrente foi deficitária tanto porque o saldo da balança comercial diminuiu – de US$ 40 bilhões em 2007 para US$ 24,7 bilhões no ano passado – quanto porque o déficit da balança de serviços piorou, com o aumento das remessas de lucros e dividendos ao exterior.

REMESSAS

No ano passado, as empresas multinacionais instaladas no Brasil aproveitaram os altos lucros obtidos no País e transferiram US$ 33,8 bilhões para tentar melhorar as contas de suas matrizes no exterior.

Levaram mais vantagem as empresas que fizeram essas remessas antes da desvalorização do real, a partir de setembro, mas muitas ainda faziam transferências em dezembro por causa da necessidade de ajudar as matrizes no fechamento de balanço anual.

Os analistas esperavam que, a partir do agravamento da crise financeira internacional, o movimento do IED acompanhasse a saída de dólares decorrente de remessa de lucros e dividendos e do refluxo de investimentos em títulos públicos e ações.

Nos últimos quatro meses, o Brasil perdeu mais de US$ 10 bilhões de investimentos especulativos. O IED, ao contrário, se manteve em alta e chegou a somar, em dezembro, US$ 8,1 bilhões – o segundo maior valor mensal da série do Banco Central.

Até mesmo o Banco Central foi surpreendido por esses números. Até agosto, quando o IED acumulava um valor de US$ 24,6 bilhões, projetava-se um ingresso de total de US$ 35 bilhões no ano – ou seja, mais US$ 10 bilhões. Desde setembro, entretanto, o movimento se intensificou e houve um ingresso de mais US$ 20,5 bilhões, principalmente para participação no capital de empresas.

“A despeito da crise, o investidor estrangeiro continua acreditando nos fundamentos da economia brasileira e essa credibilidade é disseminada por vários setores econômicos”, disse o chefe do Departamento Econômico do Banco Central , Altamir Lopes.

AGRICULTURA

O maior crescimento de Investimento Estrangeiro Direto ocorreu no setor de agricultura, pecuária e extração mineral, que pulou de US$ 4,7 bilhões em 2007 para US$ 13 bilhões em 2008. O alto valor de investimento verificado em dezembro (US$ 8 bilhões), por exemplo, foi influenciado por uma operação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que vendeu 40% da subsidiária Namisa para uma companhia formada por acionistas japoneses.

A venda da Namisa somou US$ 3,08 bilhões, segundo comunicado da CSN enviado à Bolsa de Valores de São Paulo. Mesmo descontando essa operação, o valor dos Investimento Estrangeiro Direto em dezembro foi substancial.

Altamir observou que esses recursos ingressaram no País pelo negócio, mas saíram em seguida em um investimento da CSN no exterior. Isso fez com que o Investimento Brasileiro Direto (IBD) somasse US$ 3,148 bilhões em dezembro.

Ou seja, essa operação teve um efeito nulo sobre o resultado global da balança de pagamentos, que terminou o ano com um superávit de US$ 2,9 bilhões. O balanço de pagamentos é resultado de todas as transações correntes e financeiras realizadas pelo País com o resto do mundo.

No ano passado, o Investimento Estrangeiro Direto ajudou o Brasil a ter um superávit financeiro ligeiramente maior do que o déficit corrente.

ONDE ESTÁ O DINHEIRO

Investimento Estrangeiro Direto (IED) nos principais setores, segundo levantamento do Banco Central

Extração de Minerais Metálicos: US$ 10,645 bilhões

Serviços Financeiros: US$ 5,109 bilhões

Metalurgia: US$ 4,984 bilhões

Comércio (Exceto veículos): US$ 2,564 bilhões

Produtos Alimentícios: US$ 2,226 bilhões

Atividades Imobiliárias: US$ 1,721 bilhões

Coque, derivados de Petróleo e Biocombustíveis: US$ 1,568 bilhões

Construção de edifícios: US$ 1,386 bilhões

Extração de Petróleo e gás natural: US$ 1,339 bilhões

26/01/2009 - 11:16h Petrobras: no Brasil, estatal acelera e planeja US$ 174 bi de investimentos até 2013

Do Rio – VALOR

A partir desta segunda-feira, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, começa uma maratona de viagens, conferências com analistas e entrevistas para detalhar o monumental plano de investimentos de US$ 174,4 bilhões até 2013. Esse valor é 55% maior do que o previsto no plano estratégico anterior.

Depois de adiamentos e da interferência direta do presidente Luis Inácio Lula da Silva, Gabrielli apresentou na sexta-feira o plano de negócios para o período 2009-2013, no qual, ao invés de pisar no freio adiando investimentos como os de refino, a companhia pisou no acelerador.

“É um plano robusto e importante para a continuidade do crescimento da Petrobras e de toda a cadeia de supridores”, disse o presidente da estatal.

O executivo frisou que os valores refletem ainda os altos preços do petróleo no ano passado. “Mas já notamos uma queda dos custos e queremos reduzir esses investimentos para realizar todos os projetos a um custo menor”, disse Gabrielli.

Para isso a Petrobras irá, segundo seu presidente, modificar processos de contratação, criar novas formas de editais e iniciar uma “nova abordagem” com fornecedores. “Vamos batalhar com fornecedores para garantir o emprego e a renda, mas a custos competitivos”.

Foram confirmadas as obras das refinarias de Pernambuco (2011), Maranhão (em 2013 e 2014), Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj, em 2012), Ceará, Rio Grande do Norte. São todos projetos da área de Abastecimento para onde foram direcionados US$ 46,9 bilhões. A área de Exploração e Produção receberá quase o dobro desse valor. Serão US$ 92 bilhões (53% do total), sendo US$ 47,9 bilhões para novos projetos, dos quais US$ 28 bilhões para o pré-sal.

Ali a Petrobras prevê produzir 219 mil barris de petróleo por dia em 2013, com o início da produção comercial nos campos Tupi e Guará em 2012 e Iara em 2013. O volume aumenta para 582 mil barris/dia em 2015 e para 1,8 milhão de barris/dia em 2020, o que equivale a quase toda a produção atual da Petrobras no Brasil, que demorou 55 anos para ser atingida.

Para todo o país, o plano da Petrobras é fechar 2013 produzindo 2,68 milhões de barris, volume que aumenta para 3,34 milhões em 2015 e para 3,92 milhões de barris/dia em 2020, sem incluir o gás.

A meta de produção foi considerada “surreal” por um analista especializado de um grande banco que pediu para não ter seu nome divulgado.

“Minha leitura é que o plano não vale muita coisa. Dizer que vai investir US$ 174 bilhões e depois que não vai gastar isso se os custos não caírem é uma forma elegante de dizer: por razões políticas estou falando um número alto, mas não vou gastar, então esquece isso”. Na avaliação desse analista o ponto mais importante é 2009. Este ano a Petrobras planeja investimentos de US$ 28,6 bilhões, do quais US$ 18,1 bilhões terão que ser financiados considerando um preço médio de US$ 37 por barril de petróleo do tipo Brent.

A companhia informou que já obteve US$ 11,9 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), equivalentes a R$ 25 bilhões, que correspondem a um quarto dos R$ 100 bilhões que o banco recebeu do Tesouro Nacional para injetar no setor produtivo a custos subsidiados. Gabrielli informou que esse empréstimo pode ser maior. Outros US$ 5 bilhões, equivalentes a R$ 11 bilhões, virão de bancos nacionais e estrangeiros.

O plano estratégico prevê ainda US$ 10,6 bilhões para gás e energia, US$ 16,8 bilhões para a área internacional, US$ 2,4 bilhões para biocombustíveis e US$ 2,1 bilhões para a distribuição. Para a área corporativa foram destinados US$ 3,5 bilhões. (CS)

16/01/2009 - 12:04h Para Hillary, taxação a Brasil deve se manter

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Decisão de Barack Obama de prorrogar permanência no País do embaixador Clifford Sobel visaria à política de biocombustíveis

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

A futura secretária de Estado americana, Hillary Clinton, deu sinais de que o governo de Barack Obama não será favorável à eliminação das tarifas de importação sobre o etanol brasileiro. Em perguntas enviadas pelo senador republicano Richard Lugar como parte do processo de confirmação de Hillary no cargo, a futura secretária afirmou ser “importante que a cooperação entre o Brasil e os EUA na área energética não prejudique os produtores americanos de biocombustíveis”.

“Queremos assegurar que a atual cooperação energética com o Brasil seja ambientalmente sustentável e espalhe os benefícios de energia alternativa na região, ao mesmo tempo em que amplie o mercado para produtores americanos de energia verde”, disse Hillary, segundo documento obtido pelo Estado. “Mas também é importante que os produtores americanos de biocombustíveis não sejam prejudicados pelos esforços para aumentar a cooperação Brasil-EUA”, disse a futura secretária de Estado.

Questionada por Lugar sobre a possibilidade de se estabelecer memorandos de entendimento sobre segurança alimentar, e posteriormente tratados de investimento e tributário com o Brasil, Hillary disse: “A atual relação Brasil-EUA nos dá uma base para uma relação mais aprofundada entre os dois países. Há uma série de questões em que esperamos trabalhar com nossos parceiros brasileiros para disseminar a governança democrática, oportunidade e segurança nas Américas. Eu gostaria de ter sua assessoria para identificar as áreas.”

O senador republicano perguntou a Hillary se o governo Obama pretende mudar sua política para a América Latina para melhorar o papel do país na região, já que os EUA vêm perdendo influência. “O presidente eleito deixou claro que após anos de pressão por reformas de cima para baixo, precisamos de uma agenda nas Américas que trabalhe para promover democracia, segurança e oportunidades de baixo para cima.” Hillary afirmou que algumas políticas do governo de George W. Bush para a região serão mantidas, mas adaptadas para “os desafios que estão surgindo”.

O jornal The Washington Post informou ontem que o presidente eleito prorrogou por um período ainda não definido a permanência do embaixador americano no Brasil, Clifford M. Sobel, diplomata ligado ao círculo de amigos do presidente Bush.

Mas o jornal não indicou as razões da decisão tomada por Obama. Aparentemente, a medida teria sido motivada, segundo o jornal, pelo desejo de que Sobel continue no posto em razão de suas boas relações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem Obama espera trabalhar em um amplo plano de cooperação energética regional.

Ex-membro do comitê nacional do Partido Republicano, Sobel foi uma peça fundamental na busca por um entendimento de Lula com Bush na área de biocombustíveis. Em uma reunião realizada em Washington, há dois anos, tanto o presidente brasileiro quanto o americano concordaram em adotar um plano piloto de ajuda ao desenvolvimento de tecnologia em vários países.

DOADOR

Sobel, identificado pelo Washington Post como “um importante doador” para campanhas de Bush, foi também embaixador dos EUA na Holanda, antes de servir no Brasil. Geralmente, os embaixadores americanos permanecem por quatro anos em seus postos. Mas quando há uma eleição presidencial nos EUA, eles costumam renunciar antes da votação para facilitar a escolha de novos representantes diplomáticos.

Quando o novo presidente americano aceita a renúncia, o encarregado de negócios assume provisoriamente as funções até a designação de um novo embaixador. Sobel foi nomeado em 2006 e, teoricamente, teria mais dois anos servindo no Brasil.

30/11/2008 - 11:57h A oposição e a reforma tributária

RICARDO BERZOINI e MAURÍCIO RANDS


Os oposicionistas precisam explicar por que insistem em retardar os benefícios que advirão da nova reforma

http://blog.sindpd.org.br/up/s/si/blog.sindpd.org.br/img/REFORMA.jpg

OS PARTIDOS de oposição no Brasil têm feito campanha defendendo a reforma tributária. O governo Lula enviou em 2003 uma primeira PEC com o objetivo de racionalizar nosso sistema tributário. A proposta acabou sendo desidratada, sobretudo porque os governadores roeram a corda. O debate continuou e, no segundo mandato, o Executivo encaminhou ao Congresso a PEC 233, incorporando a reflexão feita com Estados, municípios e entidades da sociedade civil.

A Comissão Especial da Câmara, tendo como presidente o deputado Palocci e como relator o deputado Mabel, intensificou o debate e aprovou um substitutivo que agora pode ir ao voto do plenário. A proposta cria o IVA federal, incorporando Cofins, PIS/Pasep e CSLL. Unifica o ICMS em uma só alíquota, mantendo 2% com o Estado de origem, acabando com a guerra fiscal e convalidando os incentivos fiscais concedidos até este ano. Para compensar os Estados menos desenvolvidos pela perda do poder de atrair investimentos via incentivos, a proposta reorganiza o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional.

Para que nenhum Estado perca com a reforma, cria-se um Fundo de Equalização de Receitas. O substitutivo reduz o prazo de compensação dos créditos tributários, desonera a folha de pagamentos -reduzindo de 20% para 6% a contribuição patronal ao INSS-, e acaba com os 2,5% do salário-educação. Elimina a “carga tributária invisível”, unificando tributos, simplificando procedimentos, inclusive ampliando a nota fiscal eletrônica e, portanto, tornando mais simples e barata a administração tributária, cria o Código de Defesa do Contribuinte e prevê alíquotas reduzidas para biocombustíveis a fim de incentivar uma boa política energética ambiental.

No geral, o projeto visa racionalizar e simplificar nosso sistema tributário, ampliando a base imponível. Com isso, pode-se aumentar a formalização da economia brasileira. Que todos paguem os tributos, para que todos paguem menos. A lógica é a da neutralidade dos efeitos para que nenhum ente federado saia perdendo e todos se beneficiem de um sistema mais racional, em um jogo que não é de soma zero.

Embora a reforma esteja sendo discutida em detalhes há anos, os partidos de oposição insistem em obstruir a pauta da Câmara. Alegam que ainda pretendem sugerir alterações. Imaginam “uma elevação da carga tributária”, sem jamais indicar como ela se daria. Apresentam-se como instrumentos daqueles que, vendendo a dificuldade ou a discordância, almejam obter vantagem de última hora. E continuam sem apresentar alternativa global factível. Chegam a invocar as incertezas da crise para propor mais um adiamento.

Esquecem que a própria PEC já prevê uma transição de 2 a 10 anos para sua implantação. O PT e os partidos aliados estão prontos para votar o texto e abertos a negociar aperfeiçoamentos no plenário. Não concordam é com o adiamento de uma reforma que trará benefícios para o país e para cada setor econômico. Por que retardar a desoneração da folha das empresas e as vantagens advindas para aumentar a competitividade e a oferta de empregos? Por que adiar os benefícios da unificação e simplificação de tributos? Por que atrasar os benefícios ambientais?

Os partidos de oposição precisam explicar ao povo brasileiro por que insistem em retardar os benefícios que advirão do novo modelo tributário. Para que, da oposição, não se pense que a incoerência de se opor a uma reforma que retoricamente defende deve-se ao temor de que o governo Lula consiga brindar o país com mais uma realização estratégica para o seu desenvolvimento.

RICARDO BERZOINI , deputado federal (SP), é presidente nacional do PT.

MAURICIO RANDS , deputado federal (PE), é líder do PT na Câmara.