19/11/2009 - 13:07h Mostrando paixão agregadora e forjando biografia. Aécio e Serra travam duelo no rádio

2010: Autoria polêmica de benefício e discurso agregador marcam inserções

http://muitopelocontrario.files.wordpress.com/2009/09/serra_x_aecio.jpg

Vandson Lima, de São Paulo – VALOR

“Olá, sou Aécio Neves. Talvez, muitos de vocês não me conheçam. Há sete anos, governo Minas Gerais e faço isso de maneira apaixonada.”

É assim que o governador mineiro se apresenta, em uma das inserções do PSDB no rádio, que começaram a ser veiculadas nesta semana. São quatro programas de 30 segundos aproximadamente, tendo Aécio e o governador de São Paulo, José Serra, espaço igualmente dividido, com duas inserções cada, feitos de maneira separada e idealizados por seus respectivos marqueteiros.

Ao se apresentar ao eleitor, Aécio vende a imagem de agregador, ao dizer que política é “feita com sensibilidade, novas ideias, convocando as pessoas de bem desse país”. Na outra inserção a que teve direito, o governador mineiro nem sequer aparece. O personagem central é o seu vice e possível candidato ao governo mineiro, Antonio Anastasia.

Já Serra louva conquistas do governo Fernando Henrique Cardoso, do qual fez parte, citando a implantação dos medicamentos genéricos e o programa de combate à AIDS realizações da época em que era ministro da Saúde.

Sempre iniciadas por um locutor, Serra arremata o discurso com frases categóricas como “seriedade e planejamento, essa é a receita do PSDB para melhorar a saúde no Brasil”. A inserção do governador paulistano reaviva uma velha celeuma, ao vaticinar: “Foi durante o governo do PSDB que se criou o seguro-desemprego, maior benefício social do Brasil”. Na verdade, o seguro-desemprego foi instituído pelo decreto 2.283 de 27 de fevereiro de 1986, pelo então presidente José Sarney. O benefício foi inserido no decreto que criou o Plano Cruzado I. Na Constituinte, o tucano apresentou emenda que criava fonte de financiamento ao benefício.

Na campanha presidencial de 2002, ao citar sua proeminência na criação do seguro-desemprego, Serra foi contestado por Almir Pazzianotto, ex- ministro do Trabalho no governo Sarney.

Em mesmo número e duração, as inserções na tevê terão caráter menos personalista. Segundo interlocutores do partido, que participaram da elaboração dos programas, tanto Serra quanto Aécio tratarão de defender a tese de que o PSDB conta em suas fileiras com gestores competentes, sendo os dois pré-candidatos exemplos das bandeiras defendidas pelo partido. “Houve um clamor da militância para que mostrássemos nossa maneira de pensar o país, e que esses programas têm de demonstrar que ambos (Serra e Aécio) têm posições parecidas. Nas entrelinhas, tem que ficar claro que o partido está unido”, diz esse interlocutor.

Para o programa do dia 3 de dezembro, com duração de 10 minutos e ainda não gravado, o PSDB mantém as negociações em aberto. Aécio Neves foi apresentado ontem ao roteiro preparado por Paulo Vasconcellos. Serra deve receber a proposta de Luiz González por estes dias. Ainda que a hipótese de que os dois marqueteiros trabalhem conjuntamente não esteja descartada, ela se torna improvável, já que há dentro do PSDB grande insatisfação com González, em decorrência de manifestação pública do publicitário pela candidatura Serra.

09/11/2009 - 18:03h “CALUMNIA”

guardian.co.uk
No “Guardian”, Eliza no Paraguai


Ecoa pelos jornais paraguaios e também pelo “Irish Times”, da Irlanda, e pelo inglês “Guardian” o lançamento do livro “Calumnia”, dos irlandeses Michael Lillis e Ronan Fanning. Retrata a vida de Eliza Lynch, irlandesa companheira do ditador paraguaio Solano López.
O livro questiona “crônicas brasileiras” da época, como a de que se tratava de uma prostituta -e propõe que Lula, como fez o inglês Tony Blair sobre um episódio da Irlanda, peça desculpas pela ação brasileira nos últimos dois anos da Guerra do Paraguai, dados como “genocidas”. É o que mais ecoa, no Paraguai.

Fonte Toda Mídia, coluna de Nelson de Sá na Folha SP


http://www.filmesraros.com/loja/images/icons/paraguaii4.jpg
Francisco Solano López


‘Villain’ of Brazil-Paraguay war was misunderstood hero, says new book

Eliza Lynch was depicted by Brazil as a warmongering manipulator after South America’s bloodiest war. Irish authors present a more sympathetic account

Eliza Lynch in her ‘Queen of Paraguay’ years. Photograph from the book The Lives of Eliza Lynch: Scandal and Courage

Eliza Lynch in her Queen of Paraguay years

When Brazil won the bloodiest war in South America’s history it cast itself as the victim and Eliza Lynch as one of the chief villains.

The unofficial “Queen of Paraguay“, said the victors, was a gold-digging Irish prostitute who encouraged her adopted country to invade neighbours.

The war ended in 1870 with Brazil battered and Paraguay destroyed: up to 90% of the adult male population were dead, including Francisco Solano López, the demented dictator who had fallen under Lynch’s spell and built her a palace.

She escaped execution but not infamy. Brazilian chronicles depicted her as a warmongering manipulator, and the reputation stuck. She featured alongside Lucrezia Borgia in a 1995 book called The World’s Wickedest Women.

Now, however, a revisionist history by Irish authors has turned the tables by portraying Lynch as a misunderstood hero and Brazil as a near-genocidal aggressor.

The Lives of Eliza Lynch: Scandal and Courage, by Michael Lillis, a former diplomat, and Ronan Fanning, a historian, has brought indignation in Brazil and anger and acclaim in Paraguay. It depicts Lynch as a humane woman who stayed loyal to Paraguay and to her man, even after his reckless policies provoked savage revenge from Brazil.

The book, published in English, Spanish and Portuguese, has prompted calls for Brazilian penitence. “There was no pity shown to Paraguay,” Federico Franco, Paraguay’s vice-president, said at its launch in Asuncíon last week. “Those women, children and elderly people who were raped and murdered deserve a demand for an apology.” Paraguayan academics have called on Brazil’s military to open its war archives.

Lynch was an unlikely interloper into South American history. Born into modest means in Cork in 1833, aged 16, she married a French army surgeon, Xavier Quatrefages. The marriage failed and four years later in Paris she caught the eye of López, who was buying arms for his father, the dictator of Paraguay. He took her back to Asuncíon where she bore him seven children, though they never married. Local elites mimicked the arrival’s Parisian style, but snubbed her as a courtesan.

López inherited power in 1862 and two years later launched the so-called war of the triple alliance against Argentina, Brazil and Uruguay. As the tide turned against him López, paranoid and possibly insane, purged followers in death tribunals known as altars of blood.

Lynch remained steadfast and buried her lover with her bare hands in 1870 after Brazilian troops speared him to death. The country was annihilated. “Paraguay was blasted back to the stone age,” said Fanning, emeritus professor of modern Irish history at University College Dublin. Lynch lapsed into obscurity and died in Paris in 1886, aged 52, her name besmirched.

After years of research in five countries, Fanning and Lillis, an Irish diplomat-turned businessman, pieced together a more sympathetic portrait.

French police files and Paris brothel records showed no evidence Lynch was a prostitute. Nor were there literary or journalistic references to her being a courtesan. The exculpation moved some of her descendants to tears at the Asuncíon book launch.

However the book’s harsh assessment of López prompted anonymous threats ‑ thought to be from Paraguayan extreme nationalists ‑ to the local publisher. “Our lives were threatened,” said Fanning. “The messages said we shouldn’t come or our lives would be in peril.”

The book has also upset Brazil by accusing Emperor Dom Pedro II of needlessly prolonging the war in a bloodsoaked hunt for López and his army’s ragged remnants. “The last two years were close to genocidal,” said Fanning.

The authors have suggested Brazil apologise to its relatively tiny neighbour, just as Tony Blair said sorry to Ireland for the 1840s famine. Brazilian academics have bristled and pointed out that Paraguay started the war.

However, Hugh O’Shaughnessy, a Latin America commentator and author of The Priest of Paraguay, said deep down the continent’s superpower did recognise a historic debt: “The Brazilians do have a bad conscience about it. They pulled the insides out of Paraguay.”

***

Michael Lillis: “Calumnia” echa luz sobre la figura de Elisa Alicia Lynch

La investigación revela datos precisos sobre la vida de uno de los personajes más controversiales de la historia paraguaya.

Por Osvaldo Zayas – La Nación (Paraguay)

Según  Michael Lillis, uno de los autores del libro  “Calumnia”, la investigación echa luz sobre la vida de Elisa Alicia Lynch. Una de las principales leyendas que derrumba el libro es la que cuenta que la compañera del mariscal López era una prostituta. Esa falsa historia fue divulgada por una basta bibliografía, tanto en lengua inglesa como castellana.

Lillis, el irlandés que junto a Ronan Fanning redactaron “Calumnia”.

Según el autor, lo que le dio sustento a las barbaridades escritas sobre Lynch fue una biografía escrita por el argentino Héctor Varela en 1970. Supuestamente se había entrevistado durante horas con la compañera de López. “Él pone en su boca declaraciones sobre su filosofía del amor”.

En esos tiempos, vivió una mujer, esposa de un dramaturgo español de apellido Bermúdez. Ella había escrito un catecismo para esposas y jóvenes mujeres. “Típico del puritanismo católico castellano de la época”. El libro fue dedicado a Juana Pabla Carrillo. Varela toma supuestas declaraciones de la autora para decir que Lynch había sido prostituta y que después se casó con un oficial francés.

“Pudimos probar que ese lado negro que se le atribuían no tenía fundamento. En esos tiempos, el control de la Policía de Francia con las prostitutas era muy estricto. Todas estaban registradas e iban una vez cada tres meses para someterse a exámenes médicos. Elisa no estaba dentro de esos registros”, refirió el investigador.

Para Lillis, más allá de eliminar la visión maniquea sobre Elisa Alicia Lynch, lo que busca la obra es mostrar a un ser humano, con fortalezas y debilidades. Para Lillis y su obra: “Ella se identificó con el Paraguay”.

APORTE CULTURAL DE ELISA

Elisa tenía la mayor biblioteca de Paraguay. Muchos ilustres visitantes dejaron notas y conversaron sobre literatura en el lugar. Poseía y leyó todo lo mejor de la literatura inglesa y francesa de esos años. “No sé si se pueda afirmar que era una intelectual, pero sí que era consumidora de literatura de alta calidad”, expresó Lillis y agregó que Lynch solicitaba constantemente que le trajeran lo último de las letras.

Su estilo franco-italiano en la arquitectura perdura hasta nuestros días, sobre todo, según el irlandés, en los interiores de las construcciones. “Cuando los brasileños invadieron Asunción, en 1969, hablaron sobre lo suntuoso de los interiores de las casas. Existen documentos que dan cuenta de los pedidos que hacía López a Europa, que evidentemente eran realizados a solicitud de Elisa”.

En cuanto a la moda, ella estableció un nuevo estilo. Muchas damas dejaron los typoi para utilizar ropa más moderna. Los peinados se fueron diversificando. En la música, se le atribuye haber popularizado la polca europea, antecesora de la paraguaya. Uno de los más claros ejemplos de composiciones de la época es “London karape” “Además, no es una coincidencia menor que el arpa sea el instrumento musical de Irlanda. Es probable que ella la haya introducido”, comentó Lilis.

Existen miles de documentos que fueron recolectados a lo largo de 18 años de investigación para la publicación de “Calumnia”. Estos llenan el sótano de una casa en Francia. Informó Lillis que donarán los materiales a una Academia, dentro de dos meses. Aún no se sabe quiénes recibirán la donación, pero es seguro que los documentos se quedarán en Paraguay.

“Sería muy difícil cuantificar el dinero que se hubiera gastado en una investigación de este tipo”, refirió al explicar que para obtener todos los datos fue necesario conformar un equipo de investigación y recurrir a documentos de Paraguay, Brasil, Francia, Irlanda, Inglaterra, Argentina y hasta Estados Unidos.

07/11/2009 - 15:26h O discreto charme de Buñuel

Jean-Claude Carrière relembra “Meu Último Suspiro”, livro de memórias de Luis Buñuel que elaborou e é reeditado

Divulgação

Catherine Deneuve e Luis Buñuel (1900-1983) nas filmagens de “Bela da Tarde” (67), longa coescrito por Jean-Claude Carrière


MARCOS STRECKER – FOLHA SP


DA REPORTAGEM LOCAL

Octavio Paz dizia que o livro “Meu Último Suspiro”, escrito em 1980, era o melhor “filme” de Luis Buñuel. E era mesmo. Mas não é só. Esse livro de difícil definição sobre o grande mestre do surrealismo, figura iconoclasta e iluminada que se confunde com a formação do cinema desde os anos 20 (”Um Cão Andaluz”, 1929) até a década de 70 (”Esse Obscuro Objeto do Desejo”, 1977), é também uma das melhores publicações sobre a sétima arte.
Só é comparável a “Hitchcock/ Truffaut – Entrevistas” (Cia. das Letras), de 1967, em que o “enfant terrible” da nouvelle vague faz uma minuciosa revisão da obra do diretor de “Psicose”. Os dois livros marcaram época e viraram clássicos.
No caso de “Meu Último Suspiro”, que agora ganha reedição (Cosac Naify/Mostra de Cinema de SP, 376 págs., R$ 55, trad. André Telles), o coautor é também um mestre do cinema, o roteirista francês Jean-Claude Carrière, 78, que coassinou várias obras essenciais de Buñuel (incluindo “Bela da Tarde” e “O Discreto Charme da Burguesia”), já trabalhou com Jean-Luc Godard e é parceiro do diretor Peter Brook.
Em entrevista, Carrière lembra que Buñuel não queria escrever um livro de memórias, então na moda. Para convencê-lo, escreveu um capítulo supostamente narrado pelo cineasta intitulado “Os Prazeres deste Mundo”, sobre bebidas, tabaco e bares. Buñuel gostou e o resultado é um livro de cinema que não analisa nenhum filme e mostra a personalidade fascinante de um dos grandes artistas do século 20.

http://www.cursos.org/fotos/freematerials/bunu.jpghttp://www.monthlyreview.org/mrzine/LuisBunuel260.jpg

Luis Buñuel e imagem de seu filme A idade do ouro

“Luis Buñuel é maior do que sua obra”

Jean-Claude Carrière afirma que “Meu Último Suspiro” é “livro-retrato” e diz que Buñuel é “mais importante que Picasso”

“Não fiz um livro sobre os filmes, mas sobre Buñuel. Truffaut queria saber por que eu tinha mais interesse no homem do que na obra”

DA REPORTAGEM LOCAL

Leia entrevista com Jean-Claude Carrière, que comenta a edição de “Meu Último Suspiro”, que narra episódios na vida do cineasta Luis Buñuel, como a estreia de “Um Cão Andaluz”, a passagem por Hollywood e o exílio no México.
O francês está escrevendo um roteiro com o escritor Atiq Rahimi e acaba de lançar “N’Espérez pas Vous Débarrasser des Livres” (não ache que os livros serão descartados, ed. Grasset), entrevistas conjuntas com Umberto Eco. (MARCOS STRECKER)

FOLHA – “Meu Último Suspiro” é uma obra de Luis Buñuel ou de Jean-Claude Carrière?
JEAN-CLAUDE CARRIÈRE
– Nós escrevemos juntos, como se fosse um roteiro. Na época, tínhamos escrito um roteiro que não pôde ser filmado ["Agon"], pois ele já estava com 80 anos, muito cansado. Como convivi 20 anos com ele, tinha tomado notas sobre sua vida. Ele me contava muitas coisas durante as refeições e os aperitivos. Fiz os cálculos, almoçamos juntos mais de 2.000 vezes. Muitos casais não podem dizer isso… Como conhecia sua vida, propus fazer o livro. Ele disse que não queria, e que todos estavam escrevendo memórias… Para convencê-lo, escrevi eu mesmo o capítulo “Os Prazeres desse Mundo”. Narrei em primeira pessoa dizendo “eu, Buñuel….”. Ele disse: tenho a impressão que eu mesmo escrevi. O livro foi escrito em 1980, ele morreu em 1983. Teve a oportunidade de ver a edição espanhola e gostou.

FOLHA – O livro não é uma biografia no sentido comum. Como vocês chegaram a esse formato?
CARRIÈRE
– Eu o convenci a fazer não um livro de memórias, mas um livro-retrato, que se pareceria com ele. Comecei com “Os Prazeres desse Mundo” pois seria um capítulo curto, não teria a cara de um livro de memórias. Os que conheceram Buñuel dizem que o livro se parece muito com ele. Trabalhamos no México. De manhã ficávamos juntos, à tarde eu escrevia. Foi assim durante várias semanas, até chegarmos a uma versão que agradava aos dois.

FOLHA – Quem escolheu os temas?
CARRIÈRE
– Sugeri alguns capítulos e alguns temas. É o nosso livro, mas é a vida dele. Ele não teria feito o livro sem mim, porque não gostava de escrever, mas sem ele não teria conseguido redigir, porque é a vida dele. Ele não mudou quase nada. Há coisas que eu conhecia muito bem, como a parte surrealista. Mas havia passagens que não conhecia muito, como a Guerra Civil Espanhola. Aí o interroguei de maneira precisa.

FOLHA – É um livro sobre um cineasta que mal discute sua obra. Como foi recebido no seu lançamento?
CARRIÈRE
– Há um charme, que não consigo explicar. Às vezes pego o livro para reler. Ele foi rapidamente traduzido na Espanha, onde fez um enorme sucesso e se tornou um clássico. As pessoas falam muito desse livro, é reeditado com frequência. François Truffaut uma vez me convidou para jantar só para que conversássemos sobre o livro. Ele fez uma edição sobre Hitchcock ["Hitchcock/ Truffaut - Entrevistas"], eu sobre Buñuel. Discutimos como fizemos nossos livros. Ele escreveu sobre os filmes de Hitchcock. Não fiz um livro sobre os filmes, mas sobre Buñuel. Truffaut leu duas vezes o livro. Queria saber porque eu tinha mais interesse no homem do que na obra. Disse que Buñuel é que tinha feito essa escolha. Buñuel não gostava de falar de cinema. Estávamos de acordo que não falássemos de mim. É como se ele estivesse diante de um espelho, e eu estivesse segurando o espelho.

FOLHA – Havia assuntos que ele não queria abordar? Buñuel tinha zonas obscuras em sua vida?
CARRIÈRE
– Ele não gostava de falar de tragédias na sua vida. Não gostava de falar da morte de [Federico García] Lorca, que o marcou muito. Preferia falar dos bons momentos. Por exemplo: não gostava de falar do momento em que precisou pedir demissão do Museu de Arte Moderna de Nova York, episódio em que Salvador Dalí teve responsabilidade. Gostava de guardar os bons momentos com seus velhos amigos. Posso testemunhar que era um homem de grande bondade. É raro encontrar alguém tão generoso que ao mesmo tempo tenha um olhar impiedoso sobre as coisas e as pessoas.

FOLHA – Qual é a importância de Buñuel atualmente?
CARRIÈRE
– Hoje há duas visões. Uma é dizer que era um cineasta surrealista. Outra é a visão hispânica, de que Buñuel é o maior artista espanhol desde Goya. Para qualquer romancista, cineasta, pintor ou filósofo, há um momento em que é inevitável se defrontar Buñuel.
Ele é muito mais importante do que Picasso. Picasso é pintor, mas apenas pintor. Buñuel é um personagem maior do que sua obra, não se reduz a ela. Isso era claro para mim na época, como ainda é hoje.
Por isso o livro se tornou um clássico. Releio com frequência o último parágrafo, em que ele diz que “gostaria de poder se levantar dos mortos a cada dez anos, ir até uma banca e comprar alguns jornais; voltaria ao cemitério e leria sobre os desastres do mundo, antes de voltar a adormecer, sereno”.
Se eu escrevesse um livro sobre Buñuel hoje, o mostraria sobre a tumba. Diria como está o mundo atualmente, para saber o que ele acharia disso. Eu levaria os jornais para ele.

19/08/2009 - 14:17h O currículo de Serra

http://blogdofavre.ig.com.br/wp-content/uploads/2009/03/serra_caricatura3.jpg

por Rui Falcão

“Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer”.
Carlos Drummond de Andrade

rui_falcao.jpgQuem lê a biografia oficial do governador de São Paulo pode ser induzido a acreditar que não lhe faltam credenciais para chegar aonde deseja desde há muito. Nascido de família pobre no bairro paulistano da Mooca, antigo reduto de imigrantes e do operariado fabril do início do século passado, José Serra bem cedo destacou-se na política. Estudante de engenharia, militou na Ação Popular, que o levou à presidência da União Nacional de Estudantes (UNE) até 1964, quando foi proscrita pelo golpe militar. Para fugir da perseguição, recolheu-se ao exílio, inicialmente no Chile e depois em outros países, tendo retornado com a anistia, já economista e engajado na luta democrática.

Secretário no governo Montoro, em 1982, iniciou então uma escalada eleitoral ininterrupta: duas vezes deputado federal, senador, prefeito e governador. Nos entreatos, foi derrotado duas vezes na disputa da Prefeitura de São Paulo, ocupou dois ministérios sob FHC e perdeu para Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 2002, ocasião em que os marqueteiros da campanha o promoveram a melhor ministro da Saúde do mundo”.

Trajetória e títulos à mostra, José Serra crê, assim, estar pronto, mais até que seu concorrente tucano (1), o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, para atingir o cume da carreira política, substituindo na Presidência da República aquele que o preteriu e cujo currículo – à luz do preconceito – sequer se equipara ao dele.

Mas na biografia não autorizada, de ex-parceiros, de anônimos colegas de partido ou de adversários (que ele considera detratores), despontam outras características, vícios ou virtudes a depender do intérprete.

Diz-se, por exemplo que sua ambição desmedida de poder o compele a destruir um por um e todos quantos pareçam contrariar seus desígnios. Para ilustrar, citam os casos da governadora do Maranhão, Roseana Sarney, e do ex-governador Geraldo Alckmin. Acusam-no, também, de romper acordos e palavra empenhada, basta ver o compromisso passado em cartório de cumprir os quatro anos de mandato na Prefeitura de São Paulo.(1)

Autoritário e insone, corre a lenda que o governador atravessa madrugadas acossando assessores e secretários, disparando-lhes e-mails inquisidores. Para felicidade geral, consta que sua excelência acorda tarde, talvez por concordar com Drummond que, dormindo, os problemas do Estado “o impeçam de morrer”.

Fatos ou versões, é inquestionável que José Serra já escolheu as armas para, quem sabe, sua derradeira e obstinada batalha. Aquela com que espera vencer foi forjada no arsenal do tucanato e retemperada pelos escudeiros de uma certa mídia. Trata-se da proclamada supremacia gerencial do PSDB, uma espécie de viúva Porcina da administração pública.

Ocorre que a contenda abrirá novas frentes, inclusive aquela que mais vulnera o governador, qual seja a comparação de projetos para o Estado e para o País. E, nesse campo, a crise econômica mundial levou de roldão o modelo neoliberal, privatista e socialmente excludente implantado por Fernando Henrique Cardoso, de cujo governo o pretenso candidato foi um dos expoentes.

Se hoje o atual governador tenta exorcizar o passado e seu antigo mestre, pela rejeição que este lhe pespega, é inegável que ambos – sutis diferenças à parte – lideram no PSDB a operação política, ideológica, midiática, jurídica para derrotar o projeto petista, bem como tentar barrar o processo de mudanças em andamento.

Ainda recentemente, o pretendente tucano, durante evento na cidade paulista de Jaguariúna (29 de junho) disse que “Índia e China estão indo bem, mas o Brasil não tem uma política econômica de desenvolvimento”. E, menos de um mês depois, pontificando sobre a crise econômica, FHC criticou o presidente Lula, afirmando que, estivesse ele no governo, os problemas seriam tratados “com responsabilidade”.

Nos oito anos do segundo, política “responsável” foi alienar patrimônio público, privatizar, integrar o Brasil de forma subordinada ao mercado mundial, revogar conquistas sociais, endividar o país e torná-lo vulnerável às crises do capitalismo no período. Vale lembrar que, desde o governo FHC, os tucanos tornaram-se conhecidos pela voracidade com que investem contra o patrimônio público, transferindo para grandes empresas o controle das estatais responsáveis pela prestação dos serviços essenciais e de interesse estratégico para o desenvolvimento nacional (telefonia, mineração, siderurgia, energia elétrica, bancos, ferrovias, saneamento básico). As privatizações de FHC transferiram para grandes empresas cerca de US$ 105 bilhões de patrimônio público, pelo câmbio vigente na época (1 US$ = 1 R$). Foi a maior transferência realizada no mundo na época da hegemonia neoliberal.

Daí a herança maldita que legou ao sucessor.

Na ótica do governador, a política de desenvolvimento seria a que pratica em São Paulo, naturalmente com as limitações que sua própria turma engendrou. Ou seja, sem os bancos públicos, que foram alienados – o último deles, a Nossa Caixa, por ele mesmo. Também sem as empresas de energia, vítimas da privataria de seus antecessores, tendo a última delas (a CESP Porto Primavera) sobrevivido à sanha tucana por falta de interessados nos leilões, em que pese ter sido oferecida a preço de pechincha.

Catalogado como liberal-desenvolvimentista numa tese de mestrado defendida em 2006 pelo professor André Guiol, no programa de História da Universidade Federal Fluminense (Teoria e Debate, no. 82, pág. 27), José Serra tenta diferenciar-se da ortodoxia neoliberal.

Mas que os incautos não se iludam: o transformismo do governador, se o afasta do núcleo duro do neoliberalismo, não o desobriga dos compromissos matriciais com as privatizações, nem com a flexibilização dos direitos sociais e trabalhistas. Até porque ele age em sintonia com os setores que espera representar e servir, caso venha a derrotar o projeto do presidente Lula: o grande capital industrial e o capital financeiro, engajados na aliança PSDB-DEM, expressão política e eleitoral da centro-direita.

Paradoxo dos paradoxos, graças à articulação de poderosos interesses e a uma sedutora abertura para o vasto aparelho da administração pública, o governador consegue a proeza de aglutinar, em torno de si, praticamente todos os partidos – à exceção do PT, PCdoB e PSOL – que dão suporte ao governo Lula em Brasília.

Tais apoios lhe possibilitam, além da aprovação rápida de projetos, o bloqueio a qualquer CPI que investigue malversação de recursos públicos – o caso Alstom e a corrupção em empreendimentos da Companhia Habitacional de Desenvolvimento Urbano (CDHU) são os mais clamorosos.
O candidato do campo conservador conta ainda com proteção e simpatia da grande mídia, que estendeu em torno dele uma espécie de cordão sanitário. E aproveita-se do espírito republicano do presidente Lula, pirateando as generosas verbas federais repassadas ao Estado, ao tempo em que discrimina prefeitos petistas, tentando vergá-los com a odiosa prática do “pires na mão”.

É nesse cenário que o candidato presumido crê ser possível fugir do contraste de projetos e acomodar-se ao discurso fácil – e falso — de dar continuidade às boas obras do governo Lula, imprimindo-lhes melhoras graças a sua propalada “competência, seriedade, capacidade gerencial e de planejamento”.

Por mais que a escapada tenha sucesso – hipótese menos provável – há profusão de fatos, circunstâncias, dados e argumentos para desmascarar o mito da capacidade gerencial dos tucanos. Sobretudo se, à frente das forças de oposição ao candidato da centro-direita, estiver alguém familiarizado(a) com as décadas de gestões tucanas e capaz de apresentar alternativas, de projeto e de gestão, ao modelo hoje imperante no Estado.

Apesar de toda a blindagem, a capacidade gerencial e a competência no planejamento do atual governador estão em xeque. Escavando (o verbo é este mesmo, devido às dificuldades de acesso e pouca transparência) as contas de 2008 do governador, constata-se que não foram atingidas mais de metade das metas propostas para diferentes setores da administração. Obras importantes para o Estado e para o portfólio eleitoral de José Serra, como o Rodoanel (iniciado por Mário Covas) e o Metrô computam atrasos no cronograma, a despeito de aportarem recursos do PAC e do governo federal, o que não ocorria sob FHC.

São Paulo, aliás, é o maior beneficiado com recursos do governo federal, quer através de transferências obrigatórias, quer por investimentos em projetos do PAC. O governo Lula autorizou e é fiador do governo do Estado em financiamentos internacionais que somam mais de US$ 4 bilhões para execução de obras do Metrô, do Rodoanel, recuperação de estradas e de diversas obras de saneamento básico e ambiental, durante os últimos dois anos. Do mesmo modo, o BNDES emprestou mais de R$ 1,8 bilhão ao governo do Estado, também para execução de diversas obras.
Além do não cumprimento das metas e do atraso na entrega de obras – sintomas de falhas de planejamento – a atual gestão vem elevando a carga tributária bruta, que, de 9,04% do PIB em 2006, saltou para 9,77% em 2008. O mesmo ocorreu com os contribuintes, cuja carga per capita anual aumentou de R$ 1.964,43 para R$ 2.268,75 no mesmo período analisado pela Assessoria de Finanças da Liderança do PT na Assembléia Legislativa de São Paulo.(2 )

O aumento da receita, que resultou num excesso de arrecadação de R$ 13 bilhões num orçamento previsto em R$ 117 bilhões deve-se ao crescimento econômico do País, superior a 5% em 2008, mas também à introdução e violenta ampliação pelo governo Serra da substituição tributária.

Truculenta e arbitrária, aplicada a pretexto único de combater a sonegação, a chamada substituição tributária vem provocando uma autêntica derrama entre pequenos, médios e grandes empresários, afugentando muitos deles para outros Estados, em prejuízo dos empregos e da economia paulistas. Além do que, tem o efeito perverso de anular o impacto da isenções e desonerações tributárias propiciadas pelo governo Lula para mitigar os efeitos da crise mundial.

De acordo com este regime, que anteriormente era restrito a setores com peso expressivo na arrecadação (cigarros, bebidas, combustíveis), o atacadista paga antecipadamente o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e depois cobra do varejista. Como o imposto, cumulativo, incide sobre o valor de mercado do produto, difícil de apurar, a Secretaria da Fazenda estabeleceu preços de referência. Por não considerar diferenças entre produtos e regiões, gerou-se injustiças em rede, além de inviabilizar a tradicional prática de descontos do comércio varejista. Pior de tudo: caso ocorra cobrança a maior – o que é freqüente –, não haverá restituição.

Nem por estar arrecadando mais (nos primeiros quatro meses de 2009 houve queda relativa da receita) o governo do Estado cuidou melhor dos servidores públicos, os quais, além de não terem sua data base respeitada, estão excluídos da política do salário-mínimo regional – uma das peças de resistência do marketing eleitoral serrista.

Com efeito, acompanhando a evolução dos gastos com pessoal em relação à receita corrente líquida do Estado, revela-se um brutal arrocho salarial: de 49,27% em 2000, os gastos com pessoal (que incluem a folha de pagamento dos servidores) despencaram para 40,81% em 2008, bem abaixo do limite de 49% da receita corrente líquida fixado pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

O arrocho, aliado à sistemática morosidade na realização de concursos públicos, na ausência de políticas de valorização profissional dos servidores, é um dos fatores que explicam a queda na qualidade dos serviços prestados à população. Está na origem, ainda, do conflito entre as polícias civil e militar na frente do palácio do governador, que agravou uma dupla crise: da segurança pública e da autoridade do governador.
Na segurança, por sinal, o governador deixou de investir R$ 580 milhões do previsto, sendo mais de R$ 70 milhões em inteligência policial. A incapacidade de aplicar o que estava disponível no orçamento estende-se à assistência social (menos R$ 70 milhões); à Habitação (- R$ 259 milhões); ao saneamento e energia (- R$ 224 milhões); nos transportes metropolitanos (- R$ 520 milhões).

Dado revelador das intenções do candidato: os investimentos em publicidade vêm num crescendo, tendo superado, nos últimos dois anos, tudo quanto se destinou, por exemplo, para o combate às enchentes.

A enumeração das falhas de planejamento e gestão é exaustiva, mas cabe apontar um último exemplo, também de 2008, que são os investimentos executados abaixo do previsto. Entre estes, os do Metrô, que, para um valor orçado de R$ 2 bilhões, teve liquidados pouco mais de R$ 1,3 bilhão. No caso da Sabesp, a relação foi de R$ 1,5 bi orçados para R$ 841 milhões executados.

Na contramão do governo Lula, o candidato em processo não tem concedido qualquer forma de compensação ao municípios para reporem as perdas de repasse de arrecadação do ICMS resultantes da queda relativa de receita dos primeiros meses do ano. Age da mesma forma em relação às universidades estaduais, a quem deixou de repassar pelo menos R$ 50 milhões no primeiro trimestre de 2009.

Que não se diga serem as contas publicadas pelo governo do Estado invenção dos adversários ou algum ardil do “kit PT” — chavão serrista para inculpar os outros pelas ações (ou omissões) do governador. Assim foi quando do choque entre as polícias; dos erros bisonhos e sucessivos das cartilhas da Secretaria da Educação; do desabamento com mortes da estação do Metrô e – mancha indelével para um ex-presidente da UNE – a invasão do campus da USP pela tropa de choque do governador.

Focado nas eleições de 2010, a despeito de dissimular seu intento, o candidato de sempre tem, pois, contra si um desastre administrativo em marcha e a débâcle de seu modelo de desenvolvimento, ancorado nas privatizações, na concentração de renda, na exclusão das maiorias sociais, no menosprezo aos funcionários públicos, no abandono das políticas sociais, no descaso para com a saúde, a educação e a segurança públicas.

Eis o currículo real de quem opera para tentar dar cabo de um ciclo de profundas mudanças políticas, econômicas, sociais, culturais iniciado no Brasil com a eleição do presidente Lula. Eis o verdadeiro perfil do pretenso candidato dos conservadores de ontem e de hoje. Trata-se, então, de decidir: ou avançar no projeto em curso com uma mulher de coragem ou retroceder com o delfim de FHC. A sorte está lançada.


(1)Tucano: ave predadora dos ranfatídeos ue costuma andar sempre em bando; tem voo curto e pula de galho em galho.
(2)Para ver relatório completo das Contas de 2008 e a nota técnica referente a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2010, acesse o site da bancada, no endereço www.ptalesp.org.br

Rui Falcão é deputado estadual PT-SP
Fonte: Revista Teoria e Debate agosto de 2009

31/03/2009 - 20:09h In memoriam

[hellen9.jpg]
Hellen Levitt (foto de autor desconhecido)

Helen Levitt, uma das mais importantes fotógrafas do Século XX, que capturou momentos de lirismo nas ruas de sua nativa Nova York, faleceu aos 95 anos enquanto dormia em sua casa, em Manhattan no último domingo, dia 29 de março. Sua morte foi confirmada por seu irmão, Bill Levitt. Nascida em agosto de 1913, Levitt cresceu no Brooklyn, em Nova York. Depois de sair colégio ela foi trabalhar para um fotógrafo comercial. Ela comprou uma máquina fotográfica Leica e começou a fotografar as crianças nas ruas. Ainda uma jovem fotógrafa apaixonou-se pela vida de um bairro pobre, que percorreu assiduamente fotografando as brincadeiras das crianças na rua, seus desenhos no chão e nas paredes e as suas ousadias numa festa de Carnaval – em plena crise econômica na primeira metade do século passado e entre as duas Guerras Mundiais (crise dos finais dos anos 30 e começos dos anos 40. Depois de uma breve experiência no cinema, voltou novamente ao mundo que se sentia mais à vontade onde permaneceu durante mais de 70 anos.

Fonte Images & Visions

28/03/2009 - 20:55h Canova for ever

canova_nu2.jpg

Antônio Canova – Nu

Antônio Canova
1757-1822

Expoente máximo da escultura neoclássica européia, Antonio Canova quis devolver à escultura a simplicidade e a pureza características da antiguidade.

Antonio Canova nasceu em Possagno, república de Veneza, em 1º de novembro de 1757. Órfão desde a infância, foi trabalhar como aprendiz no ateliê de Giuseppe Bernardi, também chamado Torretti, que lhe proporcionou uma formação eminentemente barroca.

Em 1779 mudou-se para Roma e estudou as grandes obras clássicas, que exerceram sobre ele profunda impressão. O grupo “Dédalo e Ícaro”, realizado em seu próprio ateliê veneziano, foi a primeira obra a assinalar o abandono do estilo barroco.

Após dois anos de viagens, quando visitou Nápoles e as ruínas de Herculano e Pompéia, Canova regressou a Roma em 1781 e realizou a obra que lhe deu grande prestígio, “Teseu e o Minotauro”, cuja perfeição anatômica foi possível graças a sua prática diária de desenho.

Recebeu depois a incumbência de realizar dois monumentos funerários, dos papas Clemente XIII e Clemente XIV, ambos em Roma.

Dessa época romana é também a escultura “Eros e Psiquê”, da qual realizou duas versões, uma conservada em Paris e outra em São Petersburgo. Nela o artista demonstrou total domínio da estética clássica, sobretudo na textura que deu à pele das figuras e na espontaneidade do panejamento.

Quando Roma foi invadida pelos franceses, Canova transferiu-se para Viena, mas em 1802 aceitou o convite de Napoleão para pintar, em Paris, retratos do imperador e de sua família, idealizados à maneira das esculturas romanas.

Essa característica se pode observar em “Paulina Borghese como Vênus vencedora”, e nas duas estátuas de Napoleão — uma em bronze e outra em mármore — nu e de corpo inteiro, completadas em 1811.

A convite do papa, depois da queda definitiva de Napoleão, Canova regressou a Paris, onde conseguiu a devolução das obras de arte italianas confiscadas durante a invasão napoleônica, fato que lhe valeu o título de marquês de Ischia.

Antonio Canova faleceu em Veneza em 13 de outubro de 1822. Embora sua obra — como a de todos os neoclássicos — tenha sido acusada de fria, mais tarde a crítica do século XX reconheceria nele um escultor acadêmico de suma maestria e elegância.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil

27/03/2009 - 20:08h A divina

margaretbourkewhite1.jpg

© Foto de Oscar Graubner. A fotógrafa Margaret Bourke-White no topo do edifício Chrysler Building. Nova York, 1934

 

Margaret Bourke-White (1904 – 1971) nasceu em Nova Iorque, em 14 de junho de 1904. Tornou-se fotógrafa quando estudava em Cornell University. Ela era aluna de Clarence White na Columbia University e mais tarde abriu seu estúdio em Cleveland onde se especializou em fotografia arquitetônica. Margaret foi a primeira fotógrafa da revista Life. Era uma mulher de esquerda que fez várias viagens para a ex-União Soviética (URSS). Em 1931 publicou “Olhos sobre a Rússia”. Profundamente consciente de seu papel, foi a única fotógrafa estrangeira a cobrir os territórios ocupados da União Soviética depois da invasão do exército alemão em 1941. Após a Segunda Guerra Mundial ficou interessada na campanha de não-violência promovida por Gandhi. Nos anos 50, a fotógrafa foi diagnosticada como portadora do mal de Parkinson. Ela recém tinha completado 50 anos quando teve de abandonar a carreira para lutar contra a doença. Foi operada no cérebro por duas vezes, em 1959 e em 1961. Faleceu em 27 de agosto de 1971, aos 67 anos de idade.

Fonte Images & Visions

21/03/2009 - 22:41h Robert Mapplethorpe

Robert Mapplethorpe Nació en Long Island en 1946, en el seno de una familia acomodada y de tradiciones consolidadas. A los 16 años se fue de casa para instalarse en Brooklyn y estudiar pintura y escultura.

Su interés por la fotografía fue creciendo a medida que crecía su interés por las imágenes prohibidas de los sex-shops. Sus primeros collages provienen de recortar fotografías de las revistas pornográficas.

Comenzó su carrera fotográfica usando una Polaroid, y con la única finalidad de poder usar estas fotografías como inspiración y guía de su pintura. Sus primeras fotos fueron autorretratos y retratos de su compañera sentimental Patti Smith (cantante-artista y poeta de reconocido talento).

Poco a poco fue mejorando su técnica y ampliando su repertorio a base de hacer retratos en sus círculos más cercanos, los cuales los formaban artistas, compositores, estrellas del cine porno y la mayoría de la escena underground de Brooklyn. Entre los retratos que realizó podemos encontrarnos con personajes de fama mundial como el excéntrico Andy Warhol, el escritor William Burroughs (El almuerzo Desnudo), el poeta Jim Carroll (al que retrató durante una relación sexual gay) o al cantante Mick Jagger.

El escándalo siempre rodeó su obra y sus exposiciones estaban llenas de polémica y prohibiciones. Y es que en muchas ocasiones, la temática de sus fotos, sobrepasaba con creces lo “socialmente aceptado”: desnudos, relaciones sadomasoquistas, genitales erectos y parejas homosexuales. Pero su intención no era escandalizar, el trataba de encontrar lo inesperado y de capturar imágenes que no se hubieran visto antes.

En una de sus declaraciones dijo: “Me encontraba en el lugar adecuado para sacar esas fotos y sentí la obligación de hacerlas”. En cualquier caso su trabajo no termina aquí, ya que también tiene series espléndidas dedicadas a los retratos de celebridades o la belleza de los flores.

Sabemos que también se inició en el mundo del cine con una serie de cortometrajes, pero la crudeza de las imágenes y el escándalo le impidieron hacer carrera en este sector. Sus películas rara vez se han visto y son realmente difíciles se conseguir. Algunos de los títulos son : “Robert Anillándose El Pezón” o “Patti Cambiándose La Compresa”. Murió de SIDA el 9 de marzo de 1989. Antes de morir fundó The Robert Mapplethorpe Fundation, Inc, una fundación que por un lado financia investigaciones médicas sobre el SIDA y por otro programas institucionales sobre fotografía.

Música compuesta e interpretada en piano preparado por Gabriel Massera

15/02/2009 - 17:57h Cartier-Bresson: o olhar do século 20

O jornalista Pierre Assouline escreveu a biografia, agora lançada no Brasil pela editora L&PM, sobre o fotógrafo francês

http://coeurdejade.canalblog.com/albums/cartier_bresson/m-vin.jpg

 http://anodafrancanobrasil.cultura.gov.br/wp-content/uploads/2008/12/henri-cartier-bresson131.jpg

 

 

 

 http://iamiam.ca/musing/wp-content/uploads/cartier-bresson-henri-jean-paul-sartre-and-jean-pouillon.jpg

Luiz Zanin Oricchio – O Estado SP

Você com certeza já deve ter visto algumas dessas imagens: Sartre na Pont des Arts, Gandhi, um casal se beijando em Paris, um garoto sorridente carregando duas garrafas de vinho na Rue Mouffetard, o rosto trágico de Edith Piaf. São de Henri Cartier-Bresson (1908-2004), sinônimo de fotografia no século 20. Contra sua vontade, ele fundou uma escola e um estilo. A teoria do “instante decisivo”, a opção pelo preto-e-branco, a Leica, a recusa ao uso do flash – tudo isso constituiu uma mitologia em torno do homem que elevou a fotografia à condição de arte (teve exposições em Nova York e no Louvre num tempo em que a fotografia era considerada apenas registro técnico). Ao mesmo tempo, com Robert Capa, fundou o fotojornalismo. Virou ícone e mito mas fez questão de manter sua vida pessoal numa zona de sombra. Seu biógrafo Pierre Assouline tenta levantar o véu de mistério que cerca esse personagem em Cartier-Bresson – O Olhar do Século, que sai agora pela L&PM (tradução de Julia da Rosa Simões, 352 págs., R$ 56).

Assouline não se contenta em fazer uma biografia convencional. Além de reconstruir a vida de Cartier-Bresson (designado, na França, pela sigla HCB), procura compreender seu processo de trabalho, entender o que faz de uma foto dele algo único, singular, inimitável. Assouline tem prática na coisa. Entre outros, já biografou personalidades como Georges Simenon, Gaston Gallimard e Hergé, o criador de Tintin. É jornalista cultural do Le Monde e mantém no ar o blog literário de maior sucesso em seu país (http://passouline.blog.lemonde.fr/), com milhares de acessos e centenas de comentários por dia. Certo, é na França, mas mesmo assim, invejável.

Compreensão implica entendimento do contexto. HCB vem de família rica. Essa contingência, independente da vontade do sujeito pois ninguém escolhe o berço em que nasce, pode conduzir à soberba, à indiferença ou a nada disso. Já a riqueza do jovem Henri fazia-o sentir culpa em relação às classes desfavorecidas. Menino, recortou do jornal L?Echo de Paris o artigo intitulado De Onde Vem o Dinheiro? e o pregou em cima do espelho, para vê-lo todas as manhãs. A culpa é elemento importante na motivação, ensinou Freud (”Não é a fé, é a culpa que remove montanhas”, dizia).

Isso pode em parte explicar a escolha de temas, mas de onde vem a “estética” das fotos de HCB, sua incomparável noção de volume, os retratos famosos, instantâneos que parecem resumir toda uma vida dos fotografados? Nesse caso é preciso lembrar que a primeira vocação de Cartier-Bresson foi a pintura – ele ama Cézanne, em particular. Mas também a literatura, tendo Proust como guia de toda a vida. “São suas verdadeiras referências culturais”, escreve Assouline. “São seus ?fotógrafos? de cabeceira.” O jovem Henri cuida também da parte “técnica” e se matricula na escola de André Lothe, onde trabalha a pintura e, em especial, o desenho. Vai com regularidade ao Louvre e copia obras dos mestres. De Lothe apanha o “vírus” da geometria. Adota como seu o lema da Academia de Platão: “Quem não for geômetra, não entre.”

O curioso é que, na composição da personalidade de HCB, o espírito de geometria tenha de se afinar com o que parece ser seu oposto – a convivência com Breton e Aragon, e portanto com o surrealismo, seu flerte com o inconsciente, o acaso e o desejo. Dessas exigências contrárias ele tira a síntese que seria a grande lição de Lothe: não existe liberdade sem disciplina. Na verdade, o que acontece nesses anos de formação é menos a aquisição de uma técnica ou o aprendizado de um ofício do que a formação de um olhar. Olhar que, por sua vez, encontra na flexibilidade de um aparelho fotográfico alemão o seu veículo perfeito. Esse é um dos casamentos do século: HCB e a sua Leica.

União que poderia ser menos fértil caso HCB fosse um artista de gabinete. Pelo contrário, ele se mostrou viajante incansável, tendo morado em vários países. Além disso, buscou sempre fazer-se presente onde as coisas aconteciam, ou poderiam acontecer. Esteve na guerra civil na Espanha, foi feito prisioneiro durante a 2ª Guerra Mundial, escapou e assistiu à Liberação de Paris. Registrou, com terror, a caça aos colaboracionistas. Estava na Índia quando Gandhi foi assassinado e foi dos últimos a vê-lo com vida. Em contato com o inesperado da experiência, era insuperável na escolha daquele momento único no qual o obturador deve ser disparado para captar uma imensidão de vida em uma fração dela. Toda a arte da fotografia está na escolha desse momento, que HCB definiu como o “instante decisivo”. Por isso, um dos seus personagens, Sartre, pôde defini-lo como “o homem que fotografou a eternidade”.

Em tempo: o próprio Henri Cartier-Bresson odiava ser fotografado. Só deixou sua imagem ser captada em raras e especiais ocasiões.

http://4.bp.blogspot.com/_mmP80g0QO-U/SK8RCH6u2VI/AAAAAAAADYU/rJ09fCN-gKY/s400/HenriCartierBresson.jpg

”Tive toda a liberdade, esse era nosso pacto”

Assouline fala sobre seu biografado, de quem foi amigo

Luiz Zanin Oricchio


Você é biógrafo e era amigo de Cartier-Bresson. Essas duas condições não se contradizem?

Não há contradição, mas complementariedade. Eu tinha toda a liberdade e jamais refreei meu espírito crítico. Caso contrário eu não poderia escrever e teria renunciado ao projeto. Era nosso pacto.

No fim do volume você escreve que o livro é produto de cinco anos de conversas, correspondência, pesquisas, etc. Como organizou o material?

Exatamente da mesma maneira que as outras nove biografias que escrevi. Recolhi material durante alguns anos e, em seguida, coloquei tudo no chão, olhei as peças do quebra-cabeça, ajeitei-as e escrevi.

Duas reaparições constantes na vida de HCB, que fazem pensar no “rosebud”, de Welles: a frase “de onde vem o dinheiro” e sua faca de estimação Opinel.

A frase é seu rosebud escrito, Opinel, seu rosebud objeto. Isso guiou sua vida. A frase o influenciou porque ele era complexado pelo fato de ser filho de família rica.

A trajetória de HCB parece surpreendente – da pintura à foto e da foto de volta à pintura. Como compreendê-la ?

Nem tão surpreendente assim, porque se trata menos da pintura do que do desenho. Ele formou seu olhar de fotógrafo no Louvre e na Academia Lothe. O importante não é nem o material e nem a técnica. É o olhar.

Em todo caso, essa formação parece bastante paradoxal: da pintura (da educação com Lothe, vem o senso de geometria e a admiração por Piero della Francesca); da convivência com os surrealistas, o trabalho com o inconsciente, o amor pelo acaso, etc. Como conciliar tudo isso?

O surrealismo é a sua juventude. A geometria é seu ser profundo. É o ying e o yang, o surrealismo e a geometria. Ele é produto dos dois. Da loucura na razão, a emoção que corrige a regra, é isso a irrupção permanente do surrealismo em seu espírito de geometria. Pode-se mesmo dizer, em alusão a Pascal, que HCB é o encontro entre o espírito de fineza e o espírito de geometria.

HCB era um viajante, cobriu guerras, esteve em vários países em momentos importantes como o assassinato de Gandhi, por exemplo. Você o imagina fora do contexto de um século tão violento e cheio de contradições como o século 20?

Não imagino. Eu o tomo como ele é e no tempo em que ele viveu. Imaginar um outro HCB seria da ordem da ficção científica.

Alguns aspectos técnicos são interessantes em sua carreira. Por que o preto-e-branco e não as cores? Por que a Leica e não outra câmera?

Abaixo a técnica! O preto-e-branco correspondia à sua sensibilidade. Quanto à Leica, era o aparelho que melhor correspondia, por sua leveza, sua manejabilidade, sua discrição, ao seu desejo de ser repórter.

A teoria do instante decisivo, o preto-e-branco, etc. – para HCB tudo isso diz respeito a uma estética ou a uma ética da imagem.

Uma somada à outra.

Entre as viagens de HCB notei a ausência de América Latina, com exceção de Cuba. Por quê?

Uma vida não é suficiente para esgotar o mundo. Ele era europeu antes da guerra. Com uma longa permanência no México. Em seguida, voltou-se para a Ásia.

As relações de HCB com o cinema são muito interessantes, em especial sua colaboração com Jean Renoir. Por que ele não seguiu esse caminho?

Porque ele compreendeu que seria melhor fotógrafo que cineasta. A foto é o individualismo, a solidão, a liberdade. O cinema é o coletivo, o grupo, o peso.

Muitas vezes os biógrafos tentam esgotar o assunto. Notei que você preserva um lado “misterioso” de HCB…

Concordo plenamente. Guardemo-nos da tentação de tudo explicar.

Por que as biografias e como explica o sucesso de seu blog sobre literatura?

Em relação ao blog é a fidelidade dos leitores a um blog que, por sua vez, lhes é fiel porque temos um encontro marcado em torno de um novo artigo a cada dia. E depois há a questão da credibilidade. Quanto ao porquê da biografia, eu precisaria escrever um tratado para lhe responder. Tenho uma nova biografia em preparação, sobre um personagem em relação ao qual ninguém pensa e com uma forma que pretende revolucionar o gênero…

15/02/2009 - 16:50h O baú das preciosidades de Julio Cortázar

Muitos textos inéditos aparecem nos 25 anos da morte do escritor

http://www.literatura.us/cortazar/jc_desk.jpg

Luiz Zanin Oricchio – O Estado SP

Há 25 anos, no dia 12 de fevereiro de 1984, morria em Paris o escritor Julio Cortázar. Passado esse quarto de século, a data traz algo mais relevante que o artificialismo das efemérides: a editora espanhola Alfaguara promete, para maio, um sólido volume de inéditos do autor, reunidos sob o título de Papeles Inesperados.

São textos que prometem: 11 contos nunca antes publicados, um capítulo que ficou fora da versão final do romance O Livro de Manuel, 13 poemas e quatro entrevistas que o escritor fez a si mesmo. Entre os papéis foram encontrados ainda 11 novos episódios do livro Um Tal Lucas, uma narrativa intitulada Os Gatos, e mais três textos avulsos que deveriam ter sido incluídos em uma das obras mais conhecidas do escritor, Histórias de Cronópios e de Famas. Há também vários “sueltos”, artigos ensaísticos sobre pintura, literatura, política e viagens. Farto material, suficiente para uma obra póstuma de 450 páginas, como está projetando a Alfaguara.

O material, segundo o diário espanhol El Pais, estava guardado em cinco caixotes e foram recuperados e inventariados por Aurora Bernárdez, primeira mulher de Cortázar, e pelo pesquisador argentino Carlos Álvarez, especializado na obra cortazariana.

Apenas após a publicação desse material inédito se terá ideia do seu valor literário. Mas, desde já, se pode dizer que sua importância histórica é imensurável. Cortázar foi um contista de mão cheia e algumas de suas coletâneas estão entre os clássicos universais do gênero como Bestiário, Alguém Que Anda por Aí e Octaedro. Basta lembrar que um dos seus contos, Las Babas del Diablo, foi adaptado para o cinema por ninguém menos que Michelangelo Antonioni no filme Blow Up – Depois Daquele Beijo, um clássico dos anos 60.

De qualquer forma, o material trará à tona a eterna discussão sobre a publicação póstuma de inéditos. Se não foram publicados em vida do escritor foi porque ele assim o desejou. Mas até que ponto o artista é o melhor juiz de sua própria obra? Sempre é bom lembrar que Kafka pediu ao seu melhor amigo, Max Brod, que destruísse todos os manuscritos após sua morte. Para o bem da humanidade, Brod traiu o amigo.

http://eblogtxt.files.wordpress.com/2009/01/julio_cortazar3.jpgCortázar, ao que se saiba, não deixou nenhuma instrução do gênero. Simplesmente ignorou esses escritos e deixou-os repousando em silêncio enquanto construía uma das obras mais sólidas da literatura hispano-americana do século passado. Esses inéditos não cobrem um período específico de sua vida, mas abrangem quase a totalidade de sua carreira literária. Segundo informações da editora, há entre eles textos dos anos 1930, quando Cortázar era ainda um simples professor de província e nunca havia publicado, o que só viria a acontecer em 1946 quando Jorge Luis Borges, que então dirigia a revista Los Anales de Buenos Aires, deu espaço para um estranho conto chamado A Casa Tomada. Mas há também textos mais recentes, que acompanham a trajetória do escritor praticamente até 1984, ano da sua morte. Pode-se dizer, então, que esses inéditos significam a descoberta de um Cortázar subterrâneo, ignorado até agora. De que maneira esses textos poderão conduzir a reavaliações da obra ou da biografia é assunto para ser pensado depois que forem lidos.

Qualquer que seja o seu valor, pode ser que sirvam como pretexto para reavivar a discussão em torno de uma obra que, além da intrínseca importância literária, foi das mais estimulantes do século passado. Cortázar celebrizou-se como autor de contos fantásticos (A Casa Tomada é um deles), mas não pode ser reduzido a essa etiqueta, embora tenha se tornado um autor clássico nesse gênero.

Mas obras como O Jogo da Amarelinha ou Livro de Manuel nada têm de fantástico, pelo menos não no sentido convencional do termo. Rayuela, título original de O Jogo da Amarelinha, é considerada a sua obra-prima, e continua a ser um romance desafiador até hoje. Narra, em dois tempos, a vida de um alter ego de Cortázar, o intelectual argentino Horácio Oliveira. Na primeira metade do livro, o quarentão Horácio vive em Paris um caso de amor com a uruguaia Maga. Na segunda, expulso da França, ele retorna à Argentina. O livro pode ser lido de maneira convencional, em linha reta, ou saltando de um capítulo a outro, segundo uma chave de leitura predeterminada. Há capítulos “dispensáveis”, que podem ser pulados em determinada sequência de leitura.

No entanto, o leitor experimentado em Cortázar logo descobre que esses capítulos dispensáveis são na verdade os essenciais. Alguns deles põem em cena um personagem aparentemente secundário, o escritor Morelli, que discute literatura com Horácio e com seus amigos do Clube da Serpente, agremiação informal de artistas malditos dispersos por Paris. O livro é, ao mesmo tempo, a narrativa e seu questionamento, conteúdo e forma convergindo na crítica radical da literatura contemporânea e seus impasses.

Esse aspecto da obra foi detectado por um dos principais ensaístas literários do Brasil, Davi Arrigucci Jr., que o analisa em O Escorpião Encalacrado, livro de exegese literária que teve a aprovação do próprio Cortázar. O título é citação de um trecho de O Jogo da Amarelinha: “El alacrán, cansado de ser un alacrán, pero necesitado de su propia alacranidad para dejar de ser un alacrán.” Um escorpião que, cansado de si, crava em si o próprio ferrão para deixar de ser um escorpião. Metáfora para formas narrativas cansadas, a linguagem que precisa ser destruída pela linguagem, para que nova linguagem possa nascer.

Essa a “poética” de Cortázar, um escritor do jogo, do improviso, da criação. Um escritor jazzístico, que tinha em Charlie Parker seu modelo maior de artista (A Parker é dedicado seu conto O Perseguidor). Gosto pelo lúdico que repercute na obra do mais badalado escritor latino-americano da atualidade, o chileno Roberto Bolaño (1953-2003).

12/01/2009 - 16:34h Maysa: duas biografias são relançadas na esteira do programa

http://jornale.com.br/zebeto/wp-content/uploads/2008/07/maysa-matarazzo.jpg

Lauro Lisboa Garcia – O Estado SP

Além de material de arquivo pessoal (cartas, diários, bilhetes etc.), a minissérie Maysa – Quando Fala o Coração, de Manoel Carlos, tem como base de consulta a biografia de Lira Neto, Maysa – Só Numa Multidão de Amores. Na esteira do programa, outros dois livros sobre a cantora acabam de ser relançados: Maysa (edição independente, 202 págs., R$ 35), de José Roberto Santos Neves, e Meu Mundo Caiu – A Bossa e a Fossa de Maysa, de Eduardo Logullo (Novo Século Editora, 248 págs., R$ 29,90).

Publicado pela primeira vez em 2005, o livro do capixaba Santos Neves foi pautado pela ligação de Maysa (1936-1977) com o Espírito Santo, por causa da família. Mas como ela “transcendeu todos os limites artísticos e territoriais”, o autor ampliou seu enfoque para o Brasil e o mundo. Além dos familiares, entrevistou gente importante da música próxima a ela, como Roberto Menescal, Tito Madi e Ricardo Cravo Albin. O livro tem belas fotos da cantora na infância, no casamento com André Matarazzo, no palco e num encontro com Edith Piaf (1915-1963), entre outras.

A biografia de Logullo também reúne imagens raras e procura fazer “um retrato onírico” da cantora, contextualizando a trajetória da grande cantora e compositora na história do País durante cinco décadas. São duas boas fontes de informações para quem quer se aprofundar no entendimento dessa personalidade fascinante, diante da qual ninguém fica indiferente.

07/12/2008 - 14:06h Roosevelt é exemplo para eleito

http://www.edumed.org.br/cursos/neurociencia/personagens/roosevelt.jpghttp://readwritenow.files.wordpress.com/2008/03/obama_sc_04_01_2007-731285.jpg

William E. Leuchtenburg*, The New York Times – O Estado SP

Na noite da eleição de 8 de novembro de 1932, Herbert Hoover, na companhia de amigos em sua casa no campus da Universidade de Stanford, acompanhava as apurações que traziam um veredicto sobre uma presidência iniciada com tanta esperança em março de 1929.

A campanha havia sido brutal. Detroit tivera de mobilizar a polícia para proteger o presidente da fúria de trabalhadores desempregados do setor automotivo entoando “Enforquem Hoover!” “Tenho viajado com presidentes desde a época de Theodore Roosevelt e nunca vi um deles ser vaiado por homens que lotaram as ruas para hostilizá-lo”, disse um agente.

As apurações na noite da eleição superaram os piores temores de Hoover. O presidente levou a maior surra de todos os tempos na história do Partido Republicano e seu adversário, Franklin D. Roosevelt, tornou-se o primeiro democrata a entrar na Casa Branca com a maioria do voto popular desde Franklin Pierce, 80 anos antes.

Duas características tornaram essa derrota particularmente amarga. Uma foi que Hoover sabia que o resultado foi mais uma rejeição ao presidente do que uma expressão de aprovação do desafiante. A outra foi que, apesar de ser um pária, ele deveria servir por mais quatro meses – até 4 de março de 1933. A 20ª Emenda, mudando a posse para janeiro, só entraria em vigor em 1937. Ele estava fadado a ser o último presidente “lame-duck” (sem poder no fim de mandato) da velha ordem.

Hoover resolveu aproveitar esse período para salvar sua presidência. Mal os votos foram contados, Hoover convidou o governador Roosevelt para conversar com ele. A abertura deu toda a aparência de uma oferta excepcionalmente generosa para compartilhar o poder com o homem que o havia vencido. Mas, na verdade, era o primeiro passo de um esquema para desfazer os resultados da eleição. Hoover agiu, como escreveu posteriormente o historiador Frank Freidel, “como se sentisse que era seu dever salvar a nação, aliás o mundo, da loucura dos eleitores americanos”.

Em 22 de novembro, Hoover recebeu Roosevelt na Casa Branca. Durante toda a reunião, Hoover tratou seu sucessor como se ele fosse um garoto estúpido que precisasse exercitar verbos intransitivos. Ele tentou forçar o presidente eleito a endossar as políticas interna e externa de seu governo.

Ciente das intenções de Hoover, Roosevelt sorriu, fez que sim, mas não fez nenhum acordo. Um Hoover frustrado mais tarde prometeu: “Eu ainda não acabei com Roosevelt.” Hoover voltou ao ataque em fevereiro. Ele enviou ao presidente eleito uma carta intimidatória de dez páginas na qual errava a grafia do nome Roosevelt.

Por causa da fuga de ouro e da corrida aos bancos, Hoover escreveu que havia “uma firme degradação da confiança no futuro”. Suas políticas sábias, ele afirmou, haviam trazido uma recuperação no verão de 1932. Mas, desde então, disse ele, houve um acentuado declínio, pois o país ficara inseguro com a eleição de Roosevelt, temendo que o novo presidente embarcasse em experiências radicais. Hoover concluiu pedindo para Roosevelt restaurar a confiança declarando publicamente que não haveria “nenhuma interferência” na moeda e “o orçamento seria inquestionavelmente equilibrado, mesmo que fosse preciso aumentar a tributação”.

Três dias depois de escrever essa carta, Hoover disse a um senador arquiconservador que “se essas declarações forem feitas pelo presidente eleito, ele terá ratificado todo o principal programa do governo republicano, isto é, o abandono de 90% do chamado New Deal”.

Para outro senador, Hoover deixou claro que pedira a seu sucessor que renunciasse à ajuda aos donos de imóveis residenciais sobrecarregados pelas hipotecas, aos projetos de obras públicas e ao programa de desenvolvimento econômico do Tennessee, particularmente afetado pela depressão. Ele também queria que Roosevelt erguesse barreiras tarifárias e impusesse um imposto nacional sobre as vendas. Roosevelt, que considerara a carta “impertinente”, deixou passar alguns dias, mentindo que sua resposta havia sido extraviada.

Ele não se deixaria ser relacionado com um governo moribundo e impopular, e rejeitou fazer qualquer declaração. Ele não permitiria que Hoover lhe roubasse os louros da vitória. Em 4 de março, Roosevelt anunciou à nação um novo começo.

Barack Obama devia considerar a seqüência dos acontecimentos Hoover-Roosevelt em sua caminhada pelos campos minados do período entre agora e 20 de janeiro. Diferentemente de Roosevelt, que ficou quase invisível nos meses antes de sua posse, Obama tomou uma iniciativa na semana passada. Esse curso contribuirá para uma transição suave. Mas o presidente eleito também deveria seguir o exemplo de Roosevelt, evitando uma colaboração com um governo de saída e desacreditado, sob pena de ficar enredado em acordos políticos antes de ser investido no cargo.

*William E. Leuchtenburg é autor de uma biografia de Herbert Hoover a ser publicada

21/11/2008 - 17:52h “Os Irmãos Karamabloch”

CARLOS HEITOR CONY


Escreveu mais do que a história de sua família. Fez a primeira parte de sua autobiografia

FAMÍLIA DE 17 PESSOAS chegou ao Rio de Janeiro em 1922, na terceira classe do “Re d’Italia”. Eram ucranianos, genericamente russos, mas, sobretudo, judeus. O patriarca, Joseph Bloch, tivera uma gráfica em Kiev, chegara a imprimir o dinheiro do efêmero governo de Kerenski. Decidira tentar inicialmente os Estados Unidos, mas a cota de imigrantes para aquele país estava fechada, a alternativa foi vir para o Brasil.
Este não foi o início dos Blochs.
Antes da viagem, já se podia falar numa “saga”, com lances que um dos descendentes do clã acaba de lançar: “Os Irmãos Karamabloch” (Companhia das Letras, 344 págs., R$ 48).
Para levantar a sua história, Arnaldo pesquisou durante sete anos, foi a Jitomir e Kiev, entrevistou muita gente e foi testemunha da etapa final de um império da comunicação que teve ascensão e queda -como, de resto, todos os outros impérios tiveram e terão.
O assunto era bom e vasto. Muitos o tentaram, mas desanimaram por um motivo ou outro. Uma biografia tradicional, com princípio, meio e fim, na linguagem correta e oficial para este gênero de livro, com obediência da ordem cronológica e sem assumir deliberadamente a lenda e a história, não daria o resultado que Arnaldo Bloch conseguiu. Antes de mais nada, ele usou a linguagem e a técnica do romance -gênero no qual estreou, com “Amanhã a Loucura”, e continuou com “Talkshow”.
O charme do livro é que o narrador funciona como personagem da trama, recurso que Proust e outros memorialistas também usaram.
Evidente que o foco principal é dedicado aos três Blochs que Otto Lara Resende, frasista famoso, que também é personagem do livro, chamou de “Irmãos Karamabloch”.
Ou seja, os filhos do patriarca: Boris, Arnaldo e Adolpho. As filhas de Joseph funcionam, na narrativa, como o coro das tragédias gregas: comentam a ação, sugerem e sofrem, de certa forma, as conseqüências.
Uma noite dos anos 80, Leonardo e Iná, pais de Arnaldo, trouxeram o rebento para jantar em minha casa, trazendo também o Rodian, um setter que era parente da minha Mila.
Naquela época, Arnaldo estava numa encruzilhada vocacional: por gosto e influência de sua geração, queria se dedicar à música -e era bem dotado para isso. Sentia apelos pela literatura e pelo jornalismo, mas, se dependesse dele, naquela ocasião, seria um músico, intérprete ou compositor.
O pai não era contra, mas preferia que Arnaldo fosse escritor. Daí que me pediu para conversar com o filho. Conversa vai, conversa vem, Arnaldo saiu lá de casa levando alguns livros que lhe indiquei, inclusive um de Balzac, “Grandeza e decadência de César Biroteau”. Levou também Kafka, Goethe e outros.
Mais tarde, após ocupar diversos cargos na empresa da família, foi para “O Globo”, onde, hoje, assina uma crônica semanal e faz reportagens especiais. Um dia, me procurou com os originais de seu primeiro romance, que seria publicado pela Nova Fronteira e que hoje tem uma edição de bolso. Depois veio o segundo, já na Companhia das Letras, que apostou em Arnaldo e patrocinou sua ida a Kiev.
Foi longa a escritura do livro, mais romance do que biografia, embora seja as duas coisas. Basta citar o princípio e o fim da ação: o pai de Arnaldo no salão escuro do apartamento, olhando em silêncio a praia de Copacabana. Cena que se repete ao final, fazendo da ação principal um enorme flashback, em que misérias e grandezas compõem um movimentado gran guignol que lembra Dostoiévski em alguns momentos, em outros o Máximo Gorki de “Os Pequenos Burgueses”.
A figura de Abrascha, que se tornaria Adolpho e que na opinião do tio Jorge “nem era para ter nascido”, ocupa grande parte do primeiro plano da narrativa. Com suas contradições, a compulsão pelos grandes gestos e a submissão aos momentos de cólera, nem sempre justa, fazem dele um dos personagens mais polêmicos, que encantou e provocou ódios de duas gerações de jornalistas e banqueiros.
Por isso mesmo, o livro do seu sobrinho-neto só podia ser escrito como Arnaldo o fez. Sem elogio e sem censura. Não funcionou como o biógrafo preocupado com o rigor histórico e a opinião da crítica. Escreveu mais do que a história de sua família. Fez a primeira parte de sua possível autobiografia.

13/11/2008 - 17:06h Homem de sentimentos fortes

http://www.dvdrama.com/imagescrit2/v/i/c/vicky_cristina_haut.jpg

Jornalista americano Eric Lax fala de seu biografado, resumindo 36 anos de entrevistas com o cineasta

Antonio Gonçalves Filho – O Estado SP

 

 

Iniciado em 1971, o livro Conversas com Woody Allen (Cosac Naify, 512 págs., R$ 65) do jornalista norte-americano Eric Lax, cobre metade da vida do mais engraçado cineasta dos EUA, que abandonou o trem de Fellini para pegar o vagão de Bergman e embarcar no chamado cinema “sério”, ao filmar, em 1978, o hoje clássico Interiores, seu rito de passagem. Woody Allen, diretor de Vicky Cristina Barcelona, que estréia amanhã, em São Paulo, confirma em sua entrevista, publicada na página ao lado, que é a pessoa menos indicada para falar de seus filmes. E também que não faz o mínimo esforço para acabar com a fama de anti-social.

Apenas uma pessoa, o jornalista Eric Lax, seu biógrafo, parece capaz de arrancar dele declarações que joguem alguma luz sobre esse autor que pouco se importa com o público, chegando a usar como título de trabalho de um seus mais badalados filme, Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa) a palavra Anedonia (que significa incapacidade de sentir prazer). Lax, em sua entrevista exclusiva ao Estado, garante que, apesar do título exótico, Allen não é uma pessoa indiferente. “Na realidade, é um homem de sentimentos fortes, embora controlado”, define o jornalista.

Lax diz que todas as entrevistas foram editadas sem cortes, embora admita ter aceitado sugestões de Allen e inserido alguns esclarecimentos para que suas declarações não parecessem ininteligíveis como as de Casey Stengel, o treinador do New York Yankees.

O título original de Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), era Anhedonia (Anedonia), que significa a incapacidade de sentir prazer, algo muito próximo à imagem que se tem de Woody Allen, considerando seus filmes. Você classificaria seu biografado de indiferente?

Como muitas pessoas engraçadas, Woody tem uma visão melancólica da vida. Não diria que é indiferente. Na realidade, é um homem de sentimentos fortes, embora controlado. Ele não se permite sentimentos extremos de euforia ou infelicidade. Ao contrário, move-se dentro de uma faixa estreita de emoção, que o protege e permite que se concentre em seu trabalho. Nunca encontrei em minha vida alguém tão disciplinado. Não importa como se sinta, ele se obriga todos os dias a escrever e a estudar clarineta. Essa disciplina é uma das razões de sua prolífica produção.

Entre os filmes favoritos de Woody Allen estão A Rosa Púrpura do Cairo, Match Point e Maridos e Esposas. E você, quais são os filmes que considera os mais reveladores de sua personalidade?

Todos os três filmes citados representam parte da filosofia pessoal de Woody. A Rosa Púrpura do Cairo trata da diferença entre a fantasia, como mostrada nos filmes vistos pela personagem de Mia Farrow, Cecília, e a realidade. Seria maravilhoso se o galã saísse da tela e Cecília pudesse fugir com ele, mas isso é apenas um sonho. A realidade é que Cecília vive em plena Depressão americana dos anos 1930 e é casada com um um homem egoísta e rude. Já Match Point traduz sua desconfiança de que não há nenhum Deus olhando por nós para nos recompensar ou punir. Se escolhemos matar alguém e não formos pegos pela polícia, então podemos seguir em frente. Woody argumentaria, contudo, que, mesmo diante de um universo indiferente, devemos agir dentro da lei, porque isso dá satisfação pessoal e, se assim não fosse, seria o caos. Ele diria: faça o bem, mesmo que não receba nenhuma recompensa. Mas fazer o bem por conta própria é provavelmente mais difícil do que por conta de uma ameaça religiosa. O Sonho de Cassandra, creio, é uma espécie de conclusão de Match Point: alguém comete um crime, mas sua consciência não o deixa em paz.

Alguns críticos ficaram frustrados com as poucas revelações da vida pessoal de Allen em seu livro. Por que evitou perguntas pessoais em seu livro?

Escrevi uma biografia de Woody há 17 anos e publiquei uma edição atualizada quando ele e Soon Yi Previn se casaram. Esse livro está cheio de detalhes da vida pessoal de Woody. Já Conversas com Woody Allen não é uma biografia, mas um olhar sobre a evolução do artista nos últimos 36 anos. Versa sobre um diretor e sua obra. Concluímos, ele e eu, que seria melhor organizá-lo do jeito que está, acompanhando ano a ano essa produção, do que esperar para rememorar fatos que aconteceram, 20, 30 ou 50 anos antes. Este livro é como um álbum em que cada conversa foi registrada na época, sem modificações, permitindo que o leitor possa imaginar como Woody se sentia, por exemplo, nos anos 1970, quando começou.

Quando você o conheceu, em 1971, Woody disse que havia algo de imaturo, de segunda classe, na comédia, quando comparada ao drama. Em sua opinião, o que fez, então, o diretor escolher o primeiro gênero em sua estréia?

Ele era realmente bom na comédia e foi assim que construiu sua carreira. Esperava que os estúdios, depois que ele tivesse feito um nome como cômico, financiassem seus dramas, o que, de fato, acabou acontecendo.

Depois da biografia de Woody Allen, você publicou alguns outros livros no gênero, entre eles as vidas de Humphrey Bogart e Paul Newman. O que é mais difícil: escrever sobre um ídolo morto ou um autor vivo?

A biografia de uma pessoa viva é, por definição, incompleta e ninguém, incluindo aí o biografado, sabe o que acontecerá no futuro. Então, podem acontecer reviravoltas que venham a desmenti-la. Se o sujeito está morto, então o escritor tem as entrevistas e documentos para trabalhar e a história pode ser vista como um todo. Woody jamais reclamou de nenhuma revelação que tenha feito sobre sua vida, mesmo a de que casou virgem, aos 20 anos. Verifiquei pelo menos duas vezes cada informação sobre sua vida.

Allen reconheceu que você é uma das poucas pessoas que realmente o conhecem bem. O que o fez mudar de idéia a seu respeito, considerando que sua primeira entrevista com ele foi um desastre?

Conversas correm bem quando ambos estão confortáveis. Ele era uma pessoa muito tímida na primeira vez que nos vimos e eu estava mais nervoso do que deveria, então trocamos apenas algumas palavras. As respostas dele foram sucintas e pensei que nunca mais nos veríamos. Mas não. Ele me telefonou, fizemos uma nova entrevista e as coisas melhoraram, a ponto de sermos amigos desde então.

Nas entrevistas, Woody Allen mostra-se autodepreciativo, embora bastante honesto, mas evita explicar seu lado anti-social. Por que ele nunca vai a festas em sua homenagem e recusa receber prêmios?

Creio que sua timidez crônica seja a resposta. Ele não suporta fazer conversas tolas e detesta prêmios em geral. Diz que os prêmios, de certa forma, prejudicam o artista, argumentando que, se você aceita um prêmio, aceita também a opinião de quem o deu e terá de aceitá-la novamente se essas mesmas pessoas decidirem que seu filme seguinte é um fiasco. Para ele, a platéia-alvo de seus filme é ele mesmo, embora, claro, fique muito feliz quando um filme como Match Point, que é talvez aquele que mais o agrada, faz sucesso junto ao público e tenha ressonância crítica.

Seu livro, como disse, é um álbum que contempla metade da vida de Woody Allen. Além de sexo e sua admiração por filmes europeus, qual é o tema mais freqüente das conversas entre vocês?

Esportes, livros e crianças, além da seus filmes, que ocupam boa parte dessas conversas.

Woody Allen tem algum projeto irrealizado, algo ambicioso que ainda pretende fazer?

Sim, ele gostaria de fazer um filme chamado American Jazz, sobre o desenvolvimento do jazz.

Allen já pensou em escrever a autobiografia, como disse em algumas entrevistas, o que leva automaticamente à pergunta: ele não autorizou a publicação de alguma passagem de seu livro?

Posso garantir que as entrevistas foram publicadas na íntegra, sem edição, em todos os países onde o livro foi lançado. No Brasil, inclusive.

12/11/2008 - 18:22h Não se fazem mais homens assim

puccini.jpg

Último grande romântico da ópera italiana e influenciador dos musicais modernos, Puccini é homenageado pelos 150 anos

Eduardo Fradkin – O Globo

Dois gênios se encontram e fazem um mexerico que entra para o anedotário da música clássica. A iniciativa é do russo Dmitri Shostakovich, que inquire o inglês Benjamin Britten sobre sua opinião a respeito do italiano Giacomo Puccini. O interpelado responde: “Eu acho as óperas dele horrorosas”. Shostakovich retruca: “Não, Ben, você está errado. Ele fez óperas maravilhosas, mas música horrorosa”. Esse talvez seja o exemplo mais notório do desprezo de alguns modernistas do século XX por Puccini. Ele viveu até 1924, mas estilisticamente nunca se afastou muito de meados do século anterior, no qual nascera. Mais especificamente há 150 anos, a serem festejados no próximo dia 22 de dezembro.

Festejados por quem? Todos os amantes de doces melodias e enredos sentimentais baseados em dramas de cunho realista. Essas eram as especialidades do aniversariante e os principais motivos para ataques num século em que tais atributos foram considerados populismo de apelo fácil.

Chegou a ser taxado de efeminado, logo ele que cultivava fama de galanteador (“sou um caçador de aves selvagens, libretos operísticos e mulheres atraentes”, dizia). Parte da vanguarda e da crítica podem ter esnobado seu romantismo, mas não as platéias, que têm prestigiado suas óperas ao longo do tempo. Esta semana, dois recitais gratuitos o homenageiam.

O primeiro é hoje, às 18h30m, no Istituto Italiano di Cultura (Av. Antônio Carlos 40), com vários cantores e uma pianista num programa que traz árias de seis óperas. Na sexta, às 19h30m, a série “Ópera nas igrejas” apresenta uma versão para vozes e piano de “Suor Angelica”, de um só ato, na Paróquia Santa Mônica, no Leblon (Rua José Linhares 96).

Em tempos recentes, a reputação de Puccini foi bastante reabilitada.

Ironicamente, para alguém às vezes chamado de retrógrado, ele se mostra afinado com os dias atuais. Sua influência é palpável em musicais popularíssimos.

E isso é reconhecido por autores do gênero. A dupla Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, por exemplo, recontou a história da ópera “Madama Butterfly” em “Miss Saigon” e usou uma melodia dessa mesma fonte em outra famosa produção, “Les misérables” (na canção “Bring him home”).

O musical “Rent”, de 1996, é inspirado em “La bohème”, composta exatamente um século antes.

puccini_boheme.jpg


Operista criticava obras de colegas

Quem melhor, portanto, do que um cantor que transita entre o mundo da ópera e o dos musicais para opinar sobre o que o compositor tem de melhor? Com a palavra o barítono astro da Broadway Paulo Szot: — Puccini amava sopranos e tenores….
para barítono e mezzo-soprano não tem muita coisa. Mas eu adoro mesmo assim. Eu tive a oportunidade de cantar “La bohème” muitas vezes, por esse motivo é minha favorita.

A última montagem em que cantei foi em Bordeaux, em 2007. Quem sabe um dia encaro “Gianni Schicchi”? Opa, melhor seguir o conselho de Szot e procurar sopranos e tenores, então. A japonesa Eiko Senda cita “Madama Butterfly” — sobre uma conterrânea abandonada com um filho no colo por seu amante americano — como a ópera mais completa do italiano. Mas não é sua preferida.
— Eu gosto especialmente de “Edgar”, que é pouco montada no Brasil.

Adoro as melodias e a história — afirma a cantora, citando a segunda ópera da carreira de Puccini, um retumbante fracasso. — Já fiz “Madama Butterfly” muitas vezes. Sempre perco cinco quilos em cada apresentação.

É cansativa física e emocionalmente.

É muito dolorosa para qualquer mulher, ainda mais para quem tem um filho, como eu.

— Os personagens de Puccini equivalem aos personagens das novelas de hoje — diz o tenor Fernando Portari, que atuará numa montagem de “La bohème” na Deutsche Oper de Berlim em dezembro.

— Ele foi um profundo conhecedor da alma feminina — elogia a soprano Céline Imbert, cuja ópera favorita é “Suor Angelica”.

Uma das críticas mais comuns que se faz a Puccini é também um dos maiores deleites de seus fãs: o abuso das cordas em uníssono. Ele explorou a técnica da violinata, em que as cordas da orquestra, em diferentes oitavas, vão se agregando a uma melodia cantada pelo solista num crescendo de intensidade. O maestro Ricardo Prado rejeita a acusação de sacaroso que ocasionalmente ainda recai sobre o compositor por conta disso: — Uma de suas qualidades era a orquestração. Para lembrar apenas um exemplo, as cordas que acompanham Scarpia e Tosca no dueto “E qual via scegliete?”, no segundo ato da “Tosca”, são de uma escrita sofisticada e beleza extraordinária.

Em algumas óperas tardias, Puccini usa harmonias mais arrojadas, com dissonâncias e bitonalidade, sob influência de inovações trazidas por Debussy, Stravinsky e outros. Isso é particularmente notado em “La fanciulla del West” (elogiada por Anton Webern) e em “Turandot”, sua última grande obra-prima que ficou incompleta devido a um tratamento experimental para câncer na garganta que lhe tirou a vida. Embora tivesse reclamado das tendências mais radicalmente modernas de seu tempo (“música sem lógica que não faz sentido”, disse certa vez), Puccini se manteve antenado com as novidades.

Numa viagem a Florença em seu último ano de vida, assistiu a “Pierrot Lunaire”, obra atonal de Schoenberg. O musicólogo Luiz Paulo Sampaio lembra outros casos: — Sua correspondência com Giulio Ricordi (editor de suas óperas) mostra bem como ele reagiu aos modernistas, seus contemporâneos. Após ouvir “Pelléas et Mélisande”, destacou as “extraordinárias qualidades harmônicas e os delicados efeitos instrumentais” de Debussy. E concluiu: “Interessante, apesar de seu colorido sombrio e sem relevos, como o hábito de um monge franciscano”. Em relação à “Salomé” de Strauss, registrou o sucesso da obra mas disse que “a orquestra parecia uma salada russa mal misturada”. Sua reação à “Sagração da primavera” foi de choque: “a coreografia é ridícula e a música, mera cacofonia. Há alguma originalidade e um certo talento, mas, no todo, mais parece a criação de um louco”.

Sorte de Shostakovich e Britten que Puccini não tenha vivido para ouvir algumas de suas obras mais iconoclastas. Provavelmente retribuiria os comentários cáusticos que os dois lhe dirigiram.

Madama Butterfly de Puccini – Ópera imaginária