A seguir as confissões de um escritor, normalmente fantasiado de jornalista, procurando sua inspiração
* Em 1979, « brincando », Sophie Calle solicitou a vários desconhecidos de passar várias horas em sua cama para ela ficar ocupada ininterruptamente durante oito dias, ela os fotografou e eles tinham que responder a suas perguntas.
** do livro de Sophie Calle, La visite guidée.
(Na foto, eu e uma amiga que conheci em Parati)
No primeiro dia na Flip, em Paraty, um amigo escritor me conta o segredo de quem estréia na literatura: “seu livro é como uma criança de quatro anos atravessando a presidente Vargas. Com sorte, quem sabe, chega do outro lado da rua”.
Um mergulho na Festa Literária de Parati me mostra isso: uma quantidade imensurável de escritores famosos e anônimos (é, muita gente publica e continua no anonimato) vaga pelos milhares de leitores que lotam a cidade. Milhares de leitoras, eu diria: quer fazer sucesso, escreve para as senhoras entre 35 e 60 anos, são as que gostam tanto disso que mandam legiões da categoria para formar uma maioria impressionante numa festa dessas.
É. Dia 10 meu “Mentiras do Rio” deve chegar nas livrarias. Vamos ver, então. No café, de onde eu estava quando meu amigo misturava trânsito e literatura, via a mesa com autores paulistas e a turma da Companhia das Letras, congraçamento total. Conheci, de leve, o Marcelino Freire. Cara muito simpático. Estava na parte VIP da coisa, como mostrou a Ivana, que vi e acabei não conhecendo. Pena. Na festa de autores da Record, era outro o grupo que eu vi, todos em festa, de um clube do qual ainda me sinto um penetra tratado com alguma condescendência.
Fiquei numa pousada que, acho, devia ser em Angra dos Reis; meia hora de caminhada até o centro histórico, todo dia. Bom exercício, ajuda a consolidar a imagem de escritor marginal. Tão marginal que até minha mulher me trocou pelo Gay Talese. Na hora em que eu lançava meu livro na OFF Flip, o cara falava. Eu disse a ela: vai lá, pelo menos alguém da família vê um escritor para contar depois aos amigos. Teve meu incentivo, mas não precisava ficar com aquele sorriso, caramba. Também, depois desse flagra abaixo, proibi a ida dela à palestra do Chico Buarque. Não se pode confiar nas ruivas. Nem no Chico.

Até preparei minha estréia na Flip, maquiavelicamente. Mandei um conto, adaptado, para o concurso da Piauí, para publicar na edição que circularia na Flip. E, claro, não levei. O que ganhou estava bem bom. E o meu eu boto aqui, juro que não vai virar hábito. Mudei até o final para que sobreviva à rejeição da revista e, um dia, seja publicado na edição de minhas obras completas. Em alguma das 180 páginas aceitas pelo editor.
Ela Negou
Não é fetiche. Nem obsessão. Eu tentei explicar, fumamos uma carteira de cigarro discutindo. Ela, sempre sem tirar os olhos dos meus olhos, disse que eu não tinha entendido nada e teimou, se recusou a fazer essa coisa simples, esse gesto besta, seria um carinho, sinal de consideração, eu disse a ela. Estupidez, ela disse. Se não for perversão, brincou.
Ela era contraditória, eu disse, logo que acendi o primeiro cigarro, na brasa do cigarro dela (ela fica linda quando deixa escapar devagarinho a fumaça pelos lábios entreabertos, criando uma cortina cinza entre meus olhos e aqueles olhos negros, mar profundo onde mergulho meu olhar apaixonado _ ela destestava quando eu dizia coisas como essa).
Lembrei da reclamação dela, logo no início, naquele dia em que eu me maravilhei por acordar e ver, ainda deitada ao meu lado, aquela mulher saída de alguma propaganda de leite desnatado, nua e rósea, os cabelos negros derramando fios sobre os lábios vermelhos que falavam comigo e me recriminavam.
Lembrei que ela tinha dito que eu era desmazelado. Relaxado, insistiu; como se procurasse adjetivo mais convincente. Queria que eu mudasse, estava claro. Eu mudaria, eu faria o que me pedisse, desde que aqueles lábios continuassem ao meu lado, e perto de mim continuassem os dedos distraídos, de unhas delicadas e esmalte vermelho, afastando os fios negros que a atrapalhavam enquanto falava.
Eu não me tratava, era desleixado, insistia ela, e eu concordava, mudo, hipnotizado pelos olhos, cabelos, unhas, tons de rosa,vermelho e negro que a luz forte da janela coloria em reflexos que me atordoavam.
Essa foi uma discussão anterior, como eu disse, foi logo no início, quando ela reclamou, depois de uma noite de gemidos, suor e carinho; e pediu que eu mudasse. Ela gostava de minhas idéias ligeiramente disparatadas, minhas utopias, minhas paixões estéticas e minha ingenuidade política, contou, antes de me levar para a cama. E por isso acordamos juntos naquela noite, a primeira, e em várias outras. Mas, ao acordar daquela primeira vez, queria mais que minhas idéias, paixões e ingenuidade. Eu não me cuidava, e isso não era bom.
Não voltou ao assunto, mas eu me lembrava disso sempre que ela se levantava, pescava a lingerie em alguma dobra do lençol, entrava em um daqueles vestidos luxuosos que sempre usava, e se despedia de mim com um beijo daqueles lábios escandalosamente vermelhos, beijo jogado ao ar por dedos delicados, gestos de sereia hollywoodiana.
Nessa última noite, em que fumamos como viciados, já estava com o vestido, branco como eu adorava ver cobrindo o corpo forte, doce, quando pedi a ela. E ela. sem deixar de mirar meu rosto, disse não.
Depois de algum tempo, eu a puxei pelos braços, e ela caiu, ficou no chão, os olhos para o teto. Sentei ao lado dela, pedi desculpas; ela me pediu um cigarro. Fumando, pedi de novo que deixasse de teimosia. Eu pedia uma bobagem. E ela me pediu o cinzeiro. Cruzou os braços. Já não me olhava.
E continuou assim, linda e mal-humorada, recusando-se, negando.
Com os braços cruzados, parecia acariciar os ombros, me provocava, e eu, de pé, quase faço uma besteira. Pedi de novo. Implorei.
Mas nem assim ela teve a consideração, o carinho, a piedade de virar o rosto. Não queria. Não fez.
E eu em pé, de chapéu novo, sapato engraxado, gravata borboleta.
Que eu queria tanto, tanto, mostrar a ela.