Blog Flanela Paulistana Dec 9th, 2008 by Leticia
O governador Mário Covas era um homem simples. Não bebia (apenas tomava guaraná) e não dava bola pras artes. Mas sabia que ele era um, e o interesse do povo era outro. E foi por isso mesmo que São Paulo experimentou, no seu governo, um salto cultural histórico com inúmeras iniciativas, cujos destaques são o tapão definitivo que seu deu na Pinacoteca e o convite para que John Neschling digirisse a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).
Antes de Neschling, a Osesp era praticamente uma repartição pública em que se tocavam instrumentos. A coisa era muito ruim. Não pela presença do Maestro Eleazar de Carvalho, mas porque o corpo de músicos era simplesmente um braço fubá da Administração Pública. Quase como uma conclusão, os caras eram ruins pra caramba.
Lembro que, ao chegar, Neschling cometeu uma ofensa inominável ao ufanismo tapuia: dedetizou a coisa e chamou músicos de fato bons – estrangeiros, muitos deles órfãos do Leste Europeu pós-Muro -, numa equação entre não gastar os tubos e obter um trabalho de ótima qualidade. O pissoal chiou: afinal de contas, nós brasileiros somos maravilhosos em tudo. E foi Neschling também que exigiu uma casa decente para a orquestra. E teve: a Sala São Paulo.
O maestro, além de ser fodão e exigente, tem toda a pinta de ser vaidoso até. Na minha humilde opinião, tem pouquíssima gente que pode se dar esse luxo, e Neschling é um deles. Na opinião de outros, mais vale uma orquestra meia-boca, mas só de gentchiboa, dessas que dá pra chamar pra feijoada lá em casa. Ponto de vista.
Isso fez que bocas espumassem eternamente pelos corredores e coxias. E certamente foi um dos donos dessas boquinhas crispadas que gravou esse vídeo, em que Neschling desce o pau em Serra.
O episódio, aliado ao fato de, na Virada Cultural de 2005, Neschling ter se recusado a se apresentar com a Orquestra ao ar livre por falta de condições técnicas, formou a fofoca toda para que o maestro anunciasse, em meados deste ano, que cumpriria seu contrato até 2010, e só.
Hoje no Estadão há matéria extensa em que ele conta seu ponto de vista.
Fiquei muito triste com essa coisa toda. Gosto do governo Serra, e do Neschling também. E acho que certos setores da Administração têm de ficar longe, muito longe da mentalidade funcionalística-publística. O maestro foi o único que conseguiu a façanha de levar a Osesp para o país inteiro e para as melhores salas internacionais. Para para isso foi necessária uma boa dose de antipatia e pulso firme.
John Neschling nem precisaria desse excelente trabalho em São Paulo pra ter lugar em qualquer parte do mundo. Já a Osesp, não sei como fica, não…
Blog de Luis Nassif
Comentário
Pelo menos no campo da música erudita, a gestão Serra está procedendo a um desmonte cultural em São Paulo. E conseguiu colocar contra si maioria esmagadora da comunidade da música erudita.
Dia desses conversava com velho colega da Escola de Comunicações e Artes da USP. Quando a Universidade Livre de Música Tom Jobim conseguiu se reestruturar – me disse ele – ficou bem à frente da Escola Municipal de Música. Em seguida, houve uma reação da Escola, estabelecendo-se uma competição virtuosa. Percebia-se isso pelo nível dos alunos que passavam no vestibular da USP.
Quando a OSESP (Orquestra Sinfônica de São Paulo) explodiu, continuou, os alunos passaram a estudar quatro horas diárias, porque havia perspectiva pela frente, de uma orquestra de padrão internacional.
Segundo ele – que está desde os anos 70 no setor – jamais a música erudita de São Paulo experimentou salto igual. Ele endossa muitas das críticas feitas ao maestro Nescheling, de temperamento difícil, personalismo. Mas o fato concreto, me dizia ele, é que colocou a música erudita de São Paulo no mapa do mundo. E não se pensou nisso quando se decidiu por seu afastamento.
O primeiro baque foi a destituição da OSCIP responsável pela Universidade Livre de Música e a divisão da ULM por outras entidades. Agora, a destituição de Neschling.
Gosto do Sayad, fui membro do Conselho da ULM, mas sem ter uma participação mais ativa, pedi demissão quando senti a guerra da Secretaria com a OSCIP, a seu pedido passei dicas e idéias para membros da sua equipe.
Mas tenho a impressão que meteu os pés pelas mãos. Era até compreensível que não se quisesse um vice-rei à frente da OSESP. Mas o voluntarismo de Serra ajudou a acelerar esse desmonte.
Trecho da carta de demissão, assinada por Fernando Henrique Cardoso:
Por LPorto
O que fizeram com o maestro é anti ético, fora o desrespeito com o grande profissional..
Link da entrevista, estopim para a demissão, segundo o presidente do conselho Fernando Henrique. Clique aqui.
É claro que o maestro não deu esta entrevista a toa.
Ele veio responder a esta, que o Presidente do conselho não comentou na carta de demissão. Clique aqui.
Blog de Olavo Soares
Uma notícia interessante que saiu hoje foi a demissão de John Neschling do cargo de maestro da Orquestra Sinfônica de São Paulo (Osesp). A história não é relevante apenas pela sua dimensão cultural, e sim por outros aspectos envolvidos.
Neschling é uma unanimidade. Todas as opiniões que se ouve sobre ele batem na mesma tecla: é uma pessoa extremamente competente no que faz, mas ao mesmo tempo é dono de um caráter não dos mais elogiáveis. A grossura com os músicos que comanda é célebre; o maestro, no comando da Osesp, não fazia a menor cerimônia na hora de repreender alguém que estivesse fazendo um trabalho – ainda que só um pouquinho – em desacordo com as ordens do chefe.
Isso ficou bem claro em reportagem que a Piauí publicou no ano passado. O texto é longo e revela o fato de que Neschling é uma personagem que merece, mesmo, um bom espaço. Justamente por essas questões relatadas, sua competência e sua grosseria.
Mas a demissão de agora não se explica unicamente por um, digamos assim, “desvio de comportamento” do regente. A coisa é mais grave. Neschling nunca se entendeu muito bem com José Serra, governador do estado e seu chefe. Do alto de sua arrogância, o maestro não tolerava as ingerências de Serra no seu trabalho. E a coisa só poderia dar em confusão.
Agora Neschling segue o seu caminho. E, o mais importante, espera-se que a Osesp também siga o seu. É inegável que o maestro, em seus mais de 10 anos de trabalho, transformou a cara da orquestra. Tomara que quem o substituirá consiga manter a excelência – e se for um pouquinho menos grosseiro, melhor ainda.
P.S.: falar de música erudita me faz lembrar do trabalho de assessoria que fiz com a Orquestra de Câmera Paulista. Foi uma experiência bem legal. Recomendo a entrevista que fiz com Vera e Tânia, respectivamente viúva e filha de Camargo Guarnieri. Foi divertido.Postado por Olavo Soares.
Blog de Paulo Henrique Amorim
26/dezembro/2008 12:14
Serrágio não consegue conviver com um gênio tropical
. O jornal francês Le Monde – que quando sai com as páginas em branco é melhor do que o PiG (*) – faz comentários entusiasmados sobre Villa-Lobos – “Le génie tropical” – por conta de dois concertos que a Orquestra Sinfônica de São Paulo dará nos dias 30 e 31, sob a regência de John Neschling, ao vivo, na Arte.
. O Monde recomenda o CD da Bis com Neschling e a Osesp com os Choros 2, 3, 10 e 12.
. O Monde compara Villa a Sibelius e Schumann.
. Diz que o Choros # 10 é “bárbaro” e “primitivo” de forma “extraordinária”, embora se perceba a influência da Sagração da Primavera de Stravinsky.
. Sobre Neschling, o Monde diz que ele rege a Osesp e Villa com “excelência”.
. E que Neschling é um “infatigável defensor da música flamboyante e tropical de seu compatriota” (Villa).
. Caro leitor, a partir de 2010, se você quiser assistir a Neschling na direção da Osesp – que Neschling ressuscitou, enquanto Mário Covas e Geraldo Alckmin eram governadores de São Paulo – terá que ir a Paris, provavelmente.
. José Serrágio tanto fez que Neschling pediu o boné e não vai renovar o contrato com a São Paulo.
. A mediocridade de José Serrágio não podia respirar do mesmo oxigênio (poluído) de Neschling (e Villa).
. Tudo começou quando Serrágio (de pedágio, os mais altos do Brasil) era prefeito de São Paulo.
. (O leitor se lembra: ele assinou, na Folha (*), documento em que dizia que ficaria no cargo de prefeito até o fim.)
. Serrágio mandou Neschling levar a Osesp para uma “Virada” cultural.
. Neschling perguntou ao intermediário se, no local (um parque aberto), haveria mictório para 100 músicos.
. O interlocutor disse que não.
. Neschling disse que, sem mictório, a orquestra não poderia tocar.
. O interlocutor ficou de resolver o problema.
. Não resolveu.
. E a Osesp não foi.
. Serrágio ficou uma fera e jurou destruir Neschling.
. Foi o que começou a fazer, assim que rasgou o documento da Folha (*) e foi ser governador de São Paulo (provisoriamente, já que, em 2010, ele assume a Presidência …)
. Tanto fez – disse que Neschling ganhava demais… – que Neschling foi embora.
. É isso, caro leitor.
. Serrágio é a cara de São Paulo.
. Se você mora em São Paulo, compre o CD da BIS e vá à forra…
Blog de Paulo Henrique Amorim 22/janeiro/2009 10:00
Entre Toscanini e Furtwangler, FHC e Pedágio vão escolher o maestro de Hitler
. A colonista (*) da Folha (**) Mônica Bergamo fez uma reportagem irretocável – do ponto de vista do José Pedágio e de FHHC (o que esperar de um colonista (*) da Folha (**)?
. Leia o press release de José Pedágio, governador de (e tudo para) São Paulo
. Pedágio demitiu Neschling por causa de um mictório.
. O resto é uma sequência de arbitrariedades de um Putin que não pode conviver com o talento (diga aí, caro leitor, que talento habita, por exemplo, o secretariado do Pedágio?) e a critica.
. John Neschling é irascível.
. E, na raça, construiu uma obra que ficará gravada na história cultural do Brasil.
. Ele e Mário Covas.
. Pedágio e Fernando Henrique Cardoso não deixarão impressões digitais na história cultural do Brasil.
. FHC, o Farol de Alexandria, rompeu o contrato de Neschling que ia até 2010.
. E disse que foi por justa causa.
. O típico argumento daqueles empresários do Conselho da Osesp, empresários tucanos que estão em busca de emprego (diante das atribulações terminais de suas empresas).
. O argumento do Farol é que Neschling é um desbocado.
. Quando era presidente da República, seu Ministro das Comunicações, Sérgio Motta, disse que o trabalho da antropóloga Ruth Cardoso não passava de masturbação.
. O que o Farol fez?
. Nada.
. Disse que o Serjão, sabe como é, é o temperamento dele.
. Foi o que eu pessoalmente ouvi, numa entrevista coletiva no Hotel Hay Adams, a um quarteirão da Casa Branca, quando FHC visitou Bill Clinton.
. O Farol faz o que Pedágio manda.
. Antes de tomar posse do primeiro Governo, em Miami, no Hotel Fontainebleau, eu, correspondente da Globo, perguntei a ele se Serra seria ministro de seu Governo.
. Nem pensar, ele disse.
. Se o Serra sentar numa cadeira do Ministério ele vai querer mandar no Governo todo.
. E ali na minha frente conversou por telefone com o futuro Ministro, inimigo de Pedágio até hoje, ele, sim, confirmadíssimo, Pedro Malan.
. Serra foi ministro duas vezes: do Planejamento e da Saúde.
. Quem mandou o farol nomear Serra?
. Serjão.
. Serjão une Serra e FHC até a morte – e até Luxemburgo.
. Putin e o Farol não conseguiriam ter Toscanini como diretor da orquestra.
. Toscanini era insuportável.
. Um gênio furibundo.
. O Farol e o Pedágio preferem Furtwangler.
. Aquele que serviu a Hitler com devoção.