15/06/2008 - 19:00h Verissimo

Crônica

O Globo

Rir ou não rir

verissimo.jpgCasal de judeus americanos em visita a Israel entra num clube noturno de Tel Aviv onde se apresenta um cômico local. As piadas do cômico fazem grande sucesso com o público e quem ri mais do que todos é o americano.

Sua mulher estranha. As piadas são em hebraico. O marido não sabe hebraico. Por que está rindo tanto?

— Por que não? — responde o marido. — Eu confio nesta gente!

Dependendo do jornal que você lê, e às vezes do analista num mesmo jornal, o otimismo com a situação do Brasil se justifica, é um delírio ou é um embuste. Poucas vezes na nossa história recente entender o que se passa dependeu tanto da predisposição, ou do preconceito, de cada um. A economia do país raramente esteve tão bem, nunca se comprou tanto carro e casa própria, estamos finalmente a caminho de ter um bendito mercado para sustentar nosso desenvolvimento — ou a caminho do caos. Você decide. Os números não provam nada, ou provam tudo, o que dá no mesmo. Uma correta avaliação é improvável, já que os profissionais da avaliação se contradizem. Os fatos não influem muito na decisão de ser otimista ou catastrófico.

Ou seja: saber hebraico é secundário. Para rir ou não rir das piadas, basta confiar ou não confiar em quem está rindo.

FOFOCA

Com Barack Obama definido como candidato dos democratas à Casa Branca, espera-se para qualquer momento não um atentado contra ele mas uma fofoca sexual, que nos Estados Unidos também costuma ser uma arma. Em países latinos as revelações sexuais não têm o mesmo efeito, portanto não têm o mesmo risco político.

A filha que o Mitterrand tinha com sua amante foi motivo apenas de curiosidade, e de afetuosa surpresa com um pecado menor do velho, e não prejudicaria sua carreira política mesmo se tivesse aparecido antes. E o boato de que o Chirac era amante da Claudia Cardinale só aumentou sua reputação. No Brasil existe um imenso lençol subterrâneo, se este é o termo, de indiscrições conhecidas do poder que nunca vêm à superfície. Tipo todo o mundo sabe mas ninguém publica.

O que é saudável, já que a vida particular do político só é relevante quando surgem falhas de caráter que afetarão o nosso bolso, como uma tara por dinheiro público, e qual é o problema de namorar um pouco se ajuda a relaxar e até a governar e legislar melhor, desde que a patroa não fique sabendo? Mas há quem diga que a falta de inconfidências no mercado se deve a uma insuficiência do nosso setor editorial, que ainda não pôde fazer ofertas convincentes.

Quando morreu Buddy, o labrador dos Clinton, talvez o cachorro com mais histórias para contar do mundo, suspeitou-se que o atropelamento se devesse aos rumores de um contrato milionário para publicar um livro seu, título provável “Memórias da Casa Branca, ou Babando no tapete do Salão Oval”. Buddy, presumivelmente, estava presente nos encontros de Clinton com estagiárias para fins não reprodutivos. Inconfidências de assessores, empregados, amantes etc. são um risco constante para dirigentes americanos e ingleses, incluindo até a família real — no caso dos Estados Unidos, os Kennedy.

As revelações podem ser moderadamente embaraçosas (como a da atriz Angie Dickenson, que descreveu seu caso com John Kennedy como “os quinze segundos mais memoráveis da minha vida”) ou podem acabar com reputações para sempre. Do Bush nunca se soube nada, salvo os atos antinaturais que praticou com o país. Do Barack Obama, devem estar catando.

21/08/2007 - 12:20h "Os criadores de fofocas, podiam obter bons empregos. Subir na hierarquia social. Colocar-se em posição de relevo"

O mal de todos
Terça, 21 de agosto de 2007, 09h22
Claudio Lembo

Reprodução

O Concilio de Trento: Quando a fofoca ganhou força no Ocidente
 
 

Existe um hábito tão entranhado em nosso cotidiano, que sequer é percebido nas relações diárias. Este hábito alcança graus assustadores nas esferas políticas.

Parece um complexo psicológico coletivo. Ou ainda mais. Uma deformação de caráter que atinge a todos. É grave. Possui raízes históricas profundas. No Ocidente, surgiu nos escaninhos da Idade Média e tomou corpo com o Concílio de Trento, lá no longínquo ano de 1563.

Esta doença social abate-se sobre todos, sem distinção. Acentua-se em determinados segmentos. Quanto mais diferenciada a pessoa, maior a incidência. A endemia é contagiosa e devastadora.

Importante é expor, de pronto, esta enfermidade social. Ao torná-la pública, indicando suas causas, certamente, pode-se minorar os efeitos da praga nascida tão distante no tempo e tão presente no nosso dia-a-dia.

Trata-se do disse-me-disse, a bisbilhotice. Ou mais claramente, o mexerico. Enfim, a fofoca, hábito nacional tão popular quanto o próprio futebol. Duas pessoas se encontram. De pronto, uma terceira sofre maledicência.

A endemia é violenta. Por vezes, transforma-se em epidemia. Agride imagens plasmadas em muitos anos. Em segundos, destrói reputações. Fere a honra e os traços marcantes de diferentes personagens.

Encontra-se presente em todas as partes. É universal. Do balcão do mais singelo dos bares à mesa sofisticada do mais exclusivo restaurante sempre surge a fofoca. Ela alimenta as refeições.

Não se encontra ausente do gabinete do qualificado executivo e muito menos do espaço da mais modesta micro empresa. À foca, por vezes, dá-se o nome de informação privilegiada. Paga-se até para conhecê-la.

A maledicência possui origem remota. Nos costumes brasileiros, ingressou por intermédio dos colonizadores ibéricos. Vale o diagnóstico para a América espanhola, portanto.

Ao chegarem, os ibéricos traziam em suas caravelas, além da pólvora, os princípios inquisitoriais. Delatar, captar verdades ou inverdades, transmiti-las aos agentes da Inquisição constituía-se em procedimento exemplar.

Os autores das delações, os criadores de fofocas, podiam obter bons empregos. Subir na hierarquia social. Colocar-se em posição de relevo. Participar do butim. Levar vantagem.

Tão próprios da cultura latino-americana, estes traços se vinculam diretamente à Inquisição, este tribunal religioso que deformou as consciências. Alterou a convivência entre pessoas, gerando dor e profundas angústias.

Na América portuguesa, jamais se instalaram Tribunais do Santo Ofício da Inquisição, como aconteceu na América espanhola. Mas, as conseqüências das atividades dos agentes inquisitorias repercutiram de maneira comum.

Os visitadores do Santo Ofício percorreram o espaço português da América meridional. Iam em busca de infiéis e de heréticos. De passagem, arrecadavam patrimônios. Destruíam famílias. Agrediam culturas.

Como herança, os visitadores deixaram a prática da delação. Com o fim da Inquisição, no primeiro quartel do século XIX, restou o habito da maledicência. De captar meias verdades e transformá-las em fatos notórios.

Em toda a América ibérica, preservou-se esta forma anômala de expor fatos e acontecimentos. Sempre recolhidos a partir dos desvãos das casas. Sempre mediante o uso de insídias.

Fala-se mal de tudo e de todos. Proclama-se a imperfeição. Um niilismo insano assume todas as situações. Coroe todas as conquistas. Nada vale. Tudo torna-se frágil. Descartável.

Esta forma de agir gera uma depressão coletiva. Uma exaustão sem paralelo. Leia-se as últimas entrevistas reproduzidas pelos meios de comunicação. Retratam enfado ilimitado. Uma descrença generalizada.

Importante romper este ciclo maléfico. As causas encontram-se em nosso passado comum. A Inquisição criou medos e privilégios. Vitimou pessoas e costumes. Gerou esta vontade indomável de praticar maledicência. Levou ao complexo de culpa.

A prioridade zero da América ibérica vai além de romper os obstáculos econômicos. Precisa vencer a prática autofágica do falatório. Ai vai dar certo. O difícil é cortar a língua.

TERRA MAGAZINE

Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.

Fale com Cláudio Lembo: claudio.lembo@terra.com.br