17/11/2009 - 11:03h ”A expressão que gringo mais fala hoje é Minha Casa, Minha Vida”

José Antonio Grabowsky: Presidente da PDG Realty; segundo executivo, interesse dos investidores ficou claro na última emissão de ações feita pela PDG

Patrícia Cançado – O Estado SP

Por parte da concorrência, a PDG Realty é vista como uma incorporadora de banqueiros que nunca bateu um prego na vida. Mas a imagem não incomoda a empresa. Pelo contrário: a crença é que essa mentalidade é fator de sobrevivência no setor. Criada por um fundo de participações de ex-sócios do Pactual, a PDG exibe hoje, após uma bem-sucedida captação de recursos na Bolsa, uma das situações de caixa mais confortáveis do mercado. Ao lado da MRV, é considerada uma das incorporadoras que mais podem lucrar com o programa do governo Minha Casa, Minha Vida. “Essa é a expressão que os gringos mais falam hoje”, diz o fundador e presidente da PDG, José Antonio Grabowsky. A seguir, principais trechos da entrevista:

A PDG acabou de concluir uma captação na Bolsa, colocando R$ 784 milhões no caixa. Por que ela levantou todo esse dinheiro?

A gente sabe que vai precisar de dinheiro no segundo trimestre de 2010 e já levantou o capital. As pessoas já estão enxergando, mas não é tão simples para todos, que o nosso negócio, principalmente à medida que vai entrando num processo de escala e industrialização, é de engenharia financeira. O resto é meio commodity. A ciência está no planejamento financeiro de longo prazo, porque senão você realmente quebra, como várias empresas estiveram perto de quebrar, porque chegaram em 2007 achando que era só comprar terreno, lançar e que o dinheiro aparecia em algum lugar.

No meio da crise, vocês também se viram sem crédito?

Nós fomos os únicos que fizeram uma operação de debêntures conversível com o BNDESPar – uma forma que o governo encontrou no meio da crise para ajudar o setor. Na época, era um seguro. Não havia nenhuma outra forma de captação. Mas precisávamos ter certeza que sobreviveríamos caso o estrago aumentasse. Com aquele dinheiro(R$ 270 milhões), se o estrago fosse enorme, a PDG teria sido talvez a única sobrevivente.

Vocês se arrependeram?

Hoje, que o mercado melhorou, muita gente fala: “Pô, vocês não se arrependem? Acabou saindo baratinho para eles.” Não tem problema. As debêntures agora vão deixar de ser uma dívida. Além disso, decidimos fazer um follow on (nova emissão de ações). Todos os investidores maravilhosos que dois anos atrás a gente sonhava em ser recebido – e ninguém queria nos receber – hoje estão querendo comprar ações da PDG.

É efeito Minha Casa, Minha Vida?

Essa é a expressão que gringo mais sabe falar. Todo mundo sabe o que é o plano, acompanha nos detalhes. Pela primeira vez o Brasil tem um plano realmente consistente. O País também está numa situação macroeconômica que permite fazer esse tipo de gasto público. O FGTS nunca esteve com tanto dinheiro, por causa de criação de emprego, da característica demográfica da população. No começo, a gente estava muito cético, achava que ia ser uma coisa eleitoreira. A grande beleza dele é ter sido muito simples. É o plano Robin Hood: quanto menos o cara ganha, mais ele ganha de subsídio. E aconteceu um fenômeno. Antes, eu só conseguia vender para famílias com renda a partir de R$ 2,5 mil. E hoje vendo para famílias com renda a partir de R$ 1,5 mil. Esse é um novo mercado para nós.

Qual o tamanho desse mercado ?

Segundo o IBGE, são 11 milhões de famílias com renda entre R$ 1,5 mil e R$ 2,5 mil. Se 1% delas estiver se casando, mudando, separando, serão necessárias 110 mil unidades. É realmente um mercado muito grande, fora toda a velha discussão do déficit habitacional, que são os famosos 8 milhões de unidades, dos quais 2 milhões estão nessa faixa de renda. Eu diria que hoje demanda não é o problema. O grande problema é conseguir produzir para essa turma ganhando dinheiro. E poucas empresas sabem fazer isso.

Esse sujeito está conseguindo financiamento fácil?

Tem boa parte do problema que é das empresas e outra é da Caixa. Depois que você está com tudo certinho, são 90 dias para sair um financiamento, no máximo. O problema é que muitas empresas, principalmente as novatas, não vão conseguir fazer as coisas e vão botar a culpa na Caixa – e a culpa não é dela. Se você realmente achar que vai dar um jeitinho e que a Caixa não vai exigir tudo o que está na lista, mesmo que algumas coisas possam ser consideradas absurdas, você vai empacar e o financiamento não vai sair. O primeiro grande gargalo está dentro das empresas. Poucas estão estruturadas para operar com volume e ter velocidade.

O programa provocou uma corrida por terrenos?

A disputa não é igual à de 2007, quando 21 empresas tinham acabado de lançar ações em Bolsa, estavam com R$ 12 bilhões no caixa, disputando o mesmo terreno e fazendo o mesmo tipo de produto, notadamente em São Paulo. Hoje você tem cinco ou seis empresas grandes, mas estão espalhadas pelo Brasil inteiro.

As empresas aprenderam a administrar melhor o caixa depois da crise?

Tem gente que agora sabe fazer melhor e vai continuar tentando crescer. Mas são poucos. Acho que a maioria aprendeu que é melhor voltar a ter um tamanho médio, voltar a fazer o que sabe.

Dá para se manter na Bolsa com essa filosofia? Os analistas de mercado costumam não perdoar o crescimento lento.

Elas podem se manter, mas sem liquidez, sem ninguém acompanhando. Hoje você só deve ter só quatro ou cinco empresas (Cyrela, Gafisa, PDG, MRV e Rossi) cobertas por vários analistas importantes. As outras sumiram do radar. Nesse follow on ficou nítido que os investidores querem empresas com tamanho. Antigamente, todo mundo falava em fazer R$ 2 bilhões de VGV (valor geral de vendas). Isso acabou. Poucas fazem esse volume.

O que se viu de consolidação até agora no setor foram empresas com dificuldade financeira se associando ou sendo incorporadas por maiores. Não haverá uma união de grandes, como MRV com PDG, por exemplo?

Pode ser uma ideia (risos). Mas acho difícil uma grande consolidação. Enquanto tiver essa oportunidade de crescimento grande pela frente, eu sempre vou achar que vou crescer mais rápido que ele e ele do que eu. Outro problema continua sendo aquela história de empresas que eram familiares, com muito ego envolvido. Então, fica difícil você conseguir estruturar um negócio entre empresas saudáveis. A gente até teria maior facilidade, porque temos cabeça de banco. Mesmo nas que não estavam saudáveis, nunca achamos vantagem em fazer uma aquisição. E nós participamos de todos os data rooms (sala de informações onde ficam os dados financeiros) delas.

Vocês já conversaram com a MRV?

Com a MRV, não. Mas a gente já conversou com várias dessas médias empresas saudáveis e não sai negócio. Tem várias empresas boas, principalmente num foco que a PDG quer ter uma presença maior, que é classe média em São Paulo. Por isso, vamos criar uma empresa para atuar mais forte nesse segmento.

12/11/2009 - 10:27h Apagão é alerta para o crescimento do país

De Olho na Bolsa

ColunistaDaniele Camba – VALOR

O apagão que tomou conta de boa parte do Brasil durante a noite de terça-feira e a madrugada de ontem pegou as pessoas de surpresa. Algumas ainda estavam no trabalho, outras no trânsito e muitas em casa, acabando de assistir a novela do horário nobre da Globo. Já os investidores não se surpreenderam e nem se assustaram com o enorme contratempo. Pelo menos é isso que o comportamento da bolsa ontem revelou. Aqueles que esperavam quedas significativas das ações de energia elétrica se depararam com oscilações muito comportadas. Algumas caindo um pouco, outras subindo, mas nada comparado ao tamanho do problema na noite do dia anterior.

Foto DestaquePara os analistas, o mercado praticamente ignorou o apagão, já que o fato é decorrência de uma fatalidade meteorológica e não da falta de estrutura do sistema elétrico brasileiro. “Não podemos dizer que existe um problema associado à sustentabilidade do suprimento de energia já que os reservatórios se mantêm em níveis elevados, sem maiores problemas com relação ao fluxo hidrológico”, diz o analista da Ativa Corretora Ricardo Corrêa.

Esses mesmos profissionais, no entanto, acreditam que o problema pode servir de alerta sobre a dificuldade que o atual sistema elétrico terá para suprir a demanda adicional que vai surgir com o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro crescendo em torno de 5% e 5,5% ao ano de forma sustentada pelos próximos anos. “É importante haver uma discussão sobre a infraestrutura do setor elétrico no longo prazo”, diz o analista da Itaú Corretora Marcos Severine. “Se não forem feitos investimentos, especialmente em geração, a oferta atual de energia não é suficiente para abastecer um país crescendo a taxas de 5,5% ao ano”, afirma ele.

As contas do analista deixam claro o tamanho desses investimentos. Para cada 0,5 ponto percentual a mais no PIB, existe uma necessidade de 1 gigawatt (GW) médio a mais por ano, o que significa entre R$ 8 a R$ 9 bilhões de novos investimentos. Se o crescimento do PIB pular de 4% para 5,5%, serão necessários 3 gigawatts (GW) a mais, algo como R$ 24 a R$ 27 bilhões de investimentos extras, explica Severine.

A partir do momento que as companhias começarem a fazer esses investimentos de forma mais intensiva, o setor deixará de ser considerado financeiramente previsível e um bom pagador de dividendos. “As elétricas passarão a ser vistas como empresas de alto crescimento, de capital intensivo e com a perspectiva de retornos crescentes”, diz o analista da Itaú Corretora.

Para todos os gostos

Houve desempenhos das ações de energia para todos os gostos. As preferenciais (PN, sem direito a voto) série B da Celesc, por exemplo, caíram 1,93%, enquanto as PNB da Cesp subiram 2,76%. Os papéis do setor vinham sendo positivamente influenciados pela divulgação dos resultados do terceiro trimestre que, de forma geral, vieram acima das expectativas. Para os analistas, as ações da Eletrobrás seriam as mais afetadas por um possível impacto do apagão. Mesmo assim, eles acreditam que isso parece pouco provável, diz Ricardo Corrêa, da Ativa Corretora, em relatório. As PNB da estatal subiram 0,04% e as ordinárias (ON, com voto) caíram 0,28%.

O mercado ontem teve um pregão volátil, com o Índice Bovespa oscilando entre o campo positivo e o negativo. O indicador fechou o dia em leve alta de 0,19%, aos 66.431 pontos, caminhando a passos largos para alcançar a pontuação máxima deste ano, de 67.239 pontos, registrada em 19 de outubro. O mercado continuou na linha otimista ontem depois que dados da China mostraram recuperação econômica.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

E-mail: daniele.camba@valor.com.br

11/11/2009 - 18:24h Mercado de ações considera que apagão é problema isolado

Pelo menos quatro analistas financeiros consultados pela Agência Estado, argumentaram que o mercado viu o apagão como um problema isolado e nada relacionado a dificuldades estruturais, como o ocorrido em 1999. “São duas situações completamente distintas”, disse um analista de instituição financeira de São Paulo.

Ações das companhias de energia mantêm desempenho positivo; analistas não creem em dificuldades estruturais


Apagão

Bairro do Ipiranga, São Paulo. Foto: Erik P. Zado/AE


Kelly Lima, da Agência Estado

SÃO PAULO – O apagão que atingiu parte do Brasil na noite de terça-feira, 10, passou incólume pelo mercado durante todo o dia de quarta-feira, sem qualquer efeito para as companhias de energia elétrica com papéis negociados na Bolsa de Valores de São Paulo. Pelo menos quatro analistas financeiros consultados pela Agência Estado, argumentaram que o mercado viu o apagão como um problema isolado e nada relacionado a dificuldades estruturais, como o ocorrido em 1999. “São duas situações completamente distintas”, disse um analista de instituição financeira de São Paulo.

Ele destacou que o mercado em geral não viu motivos para fazer alarde sobre o ocorrido, já que “qualquer sistema como o do Brasil é passível de ter problemas como este”. “As pessoas estão agora forçando a barra tentando imaginar como seria na Copa ou na Olimpíada, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra”, disse, lembrando que ao contrário da época do apagão ocorrido em 1999, atualmente há investimentos em infraestrutura que cada vez mais diminuem os gargalos do setor elétrico, fazendo com que o risco de falta de energia caia também.

Para a analista Rosângela Ribeiro, da SLW, a ocorrência do apagão pode até trazer um lado positivo para o setor elétrico, que é de chamar a atenção dos agentes – em especial do governo federal – para problemas de crédito ou mesmo outras pendências que o setor tem hoje, como a renovação das concessões. “Diante do fato ocorrido, acaba tendo um holofote em cima do setor. E isso pode trazer benefícios e evitar que daqui a pouco sejam detectados problemas estruturais. Ou seja, pode acelerar investimentos que talvez estivessem caminhando lentamente”, comentou.

Já um terceiro analista, de instituição financeira do Rio, destacou que há uma diferença radical entre o apagão ocorrido ontem e o de 1999, que faz com que o mercado reaja com tamanha tranquilidade: hoje há sobra de energia. “Temos uma sobra em torno de 4 mil MW pelos próximos três anos. Isso faz toda a diferença para aquela época”.

Por volta das 16h, entre as empresas de energia com ações negociadas na Bolsa, Cemig PN avançava 0,74%, Cesp PNB subia 1,81% e Cteep registrava alta de 0,02%, enquanto Eletrobrás PNB recuava 0,32% e seus papéis ON cediam 1,29%, Eletropaulo PN registrava queda de 0,90%, Light ON cedia 0,12%. No mesmo horário, a Bovespa valorizava-se 0,17%, aos 66.419 pontos.

Europa fecha em alta

As ações europeias fecharam no maior nível em três semanas nesta quarta-feira, impulsionadas por empresas do setor financeiro e mineradoras, à medida que o apetite por ativos de risco, como ações, cresceu após a divulgação de dados macroeconômicos positivos da China. O índice FTSEurofirst 300, que mede o desempenho dos principais papéis do continente, terminou em alta de 0,31%, a 1.013 pontos, maior patamar de encerramento desde 22 de outubro.

Nos mercados de câmbio, o euro chegou a alcançar US$ 1,5051 mais cedo, ficando a uma pequena distância da máxima do ano, de US$ 1,5064. Contudo, depois disso, o dólar se recuperou com os investidores decidindo realizar os acentuados ganhos obtidos durante a noite. Isso derrubou o euro novamente para abaixo de US$ 1,50.

Em Londres, o índice FT-100 subiu 36,20 pontos (0,69%) e fechou com 5.266,75 pontos; em Paris, o índice CAC-40 avançou 28,80 pontos (0,76%) e fechou com 3.814,39 pontos; em Frankfurt, o índice Dax-30 subiu 55,15 pontos (0,98%) e fechou com 5.668,35 pontos.

(com Suzi Katzumata, da Agência Estado, e Reuters)
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09/11/2009 - 09:57h “Há entusiasmo incontido no câmbio”

Regulador: Henrique Meirelles diz ver excesso de euforia também na bolsa, mas não necessariamente uma bolha


Peter MacDiarmid/Getty Images
Foto Destaque
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirma que o crescimento de 8% do PIB é insustentável e deve se estabilizar em patamar mais baixo



Sergio Lamucci e Cristiano Romero, de Londres – VALOR

O ritmo de crescimento da economia brasileira exibido no segundo e no terceiro trimestres, na casa de 8% em termos anualizados, é “insustentável”, devendo arrefecer no próximo ano, avalia o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles. Segundo ele, as previsões do mercado apontam para uma expansão entre 4,5% e 5% em 2010, o que sugere estabilização da taxa anualizada num número menor que os 7,8% observados no segundo trimestre e os cerca de 8% esperados para o terceiro.

“É normal que esse processo se estabilize num ritmo menor e mais sustentável”, disse Meirelles em entrevista exclusiva ao Valor na sexta-feira. No fim de semana, ele participou da reunião do G-20 financeiro, em Edimburgo, na Escócia.

O presidente do BC ressaltou a importância da recuperação do investimento, que deve fechar 2009 com retração superior a dois dígitos. “Não há dúvida de que é muito importante a retomada dos investimentos, que os empresários se antecipem à demanda futura, não esperando que o uso da capacidade atinja o limite”, afirmou ele.

O presidente do BC acredita, no entanto, que os investimentos serão feitos. Ele observou, mencionando previsão do BNDES, que a formação bruta de capital fixo (medida do que se investe na construção civil e em máquinas e equipamentos) deve avançar com força em 2010, ajudando a impulsionar o PIB.

Meirelles foi cauteloso ao falar da formação de bolhas de ativos no Brasil e no exterior. Disse que existe, no mercado brasileiro, “excesso de euforia” na bolsa e no mercado de câmbio. Ele não crê, porém, que esteja se formando uma bolha especulativa no segmento de commodities e acha que uma perturbação dos mercados, lá fora, dependerá principalmente da ação do Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) nos próximos meses e da implementação, ou não, das medidas prudenciais que estão sendo recomendadas pelo G-20 após a recente crise mundial.

Valor: Robert Shiller (autor do livro “Exuberância Irracional”) diz que há uma nova bolha no mundo, o eco da bolha anterior. Como o sr. avalia esse fenômeno?

Henrique Meirelles: O Federal Reserve, numa escala maior, e alguns outros bancos centrais, em escala menor, estão em meio a uma política expansionista, visando combater a crise. Essa política tem um componente quantitativo – a compra de títulos, a compra de crédito etc – que aumenta o tamanho do balanço do Fed e dos outros BCs, e também uma taxa básica em algumas situações muito próxima de zero. Dentro de um processo de alta liquidez, é esperado que aconteça alguma distorção na formação de preços de ativos. Isso pode levar à supervalorização de alguns ativos. A questão é saber se o Fed e os outros BCs, mas principalmente o Fed, vão começar a fazer um processo de saída dessas medidas a tempo de não permitir o prosseguimento da sobrevalorização de ativos, o que, aí sim, poderia ter consequências para a economia.

Valor: Que tipo de bolha temos neste momento?

Meirelles: Há três tipos de bolhas, com componentes concomitantes e similares, mas com algumas características diferentes. A primeira, e que é a mais perigosa e que causa mais prejuízos, é a bolha de crédito. Um exemplo clássico disso foi a bolha no mercado imobiliário e do mercado de crédito nos Estados Unidos. Toda a sociedade americana estava superalavancada. O segundo tipo são as bolhas que surgem e são corrigidas a tempo. Isto é, se o processo que conduziu à bolha, como uma expansão monetária, é corrigido a tempo, há um processo de correção. Os prejuízos ficam para os investidores.

Valor: É uma bolha de ativos?

Meirelles: Ambas são bolhas de ativos, mas uma não é relacionada a uma bolha de crédito e não tem uma duração muito prolongada. O terceiro tipo de bolha é um intermediário. Não é uma bolha de crédito, mas é resultado de uma expansão monetária um pouco maior do que seria desejável. Esta causa um pouco mais de prejuízo, apesar de não ser tão grave como a bolha de crédito. No presente momento, há um risco, porque não se sabe até que ponto as novas regras prudenciais, em desenvolvimento pelo Conselho de Estabilidade Financeira por recomendação do G-20, para serem implementadas pelo Comitê da Basileia, serão aplicadas por todos os países relevantes a tempo, principalmente pelos EUA, e até que ponto isso poderia prevenir uma bolha de crédito, a mais grave. Existe esse risco, mas não quer dizer que vá acontecer.

Valor: Onde está o risco?

Meirelles: A situação dos EUA é um pouco mais complicada porque eles têm mais de um regulador e mais de um supervisor. Não é apenas dizer que o Fed tem que fazer isso ou aquilo. As bolhas que não são as de crédito vão depender do quão cedo o Fed vai retirar seus mecanismos de estímulo. Acredito que os alertas dos BCs são úteis. Não apenas as autoridades monetárias e prudenciais dos diversos países devem saber dos riscos, mas também e principalmente os investidores. São eles que conduzem à formação de bolhas.

Valor: Shiller diz que há uma bolha no mercado de commodities. Além disso, a bolsa brasileira teve valorização em dólar superior a 130% este ano. Que riscos o Brasil corre?

Meirelles: Bolhas de crédito no Brasil não existiram e não serão permitidas por este Banco Central; 95% da regulamentação que será proposta pela Basileia já está aplicada e implementada no Brasil. Essa primeira incerteza quanto à implementação de novas regras prudenciais não existe no Brasil. O que vier a faltar será implementado imediatamente. Em relação às commodities, uma das coisas mais difíceis da análise econômica é definir quando existe ou não uma bolha. Este foi o grande problema dos últimos anos. É por isso que a regra prudencial é importante no caso do crédito, porque você define claramente normas para prevenir a bolha, e no crédito você tem critérios mais quantitativos.

Valor: Por que no caso das commodities é mais difícil enxergar uma bolha?

Meirelles: Definir o preço adequado para commodities, num mundo em transformação como este, com a incorporação da massa de consumidores asiáticos no mercado e com a alta demanda, é difícil. Não dá para saber se os preços já estão acima de um nível mais sustentável ou não. Antes da crise, o petróleo chegou a atingir quase o dobro do preço atual. É difícil afirmar o quanto disso é resultado de movimento especulativo e o quanto é simplesmente um aumento da demanda. O Fed está afirmando que não vai permitir um surto inflacionário nos EUA. Mas, como existe incerteza, alguns investidores estão procurando diversificar suas aplicações. Isso significa euro, commodities, outras formas de ativos, moedas de economias sólidas. Uma parte disso de fato está ocorrendo, mas é difícil e um pouco prematuro dizer que existe uma bolha de commodities. A bolha você só conhece se e quando ela estoura.

Valor: Uma alta das bolsas muito forte, e não apenas no Brasil, num intervalo tão pequeno, não caracteriza de algum modo uma bolha?

Meirelles: Pode caracterizar ou não. É normal que tenhamos em momentos de saída de crise movimentos de valorização muito acentuados. Nós tivemos isso na década de 30 e em outras saídas de crise. Muitas vezes, isso é prematuro. O mercado, tentando antecipar uma recuperação, move-se um pouco antes da hora e às vezes há movimentos de correção. O mercado internacional está tentando se situar a esse respeito e isso explica a volatilidade. O que temos alertado, e diversos bancos centrais estão fazendo isso, bem como outras autoridades econômicas brasileiras, é sobre sinais de possíveis componentes de euforia.

Valor: Por exemplo?

Meirelles: Movimentos de investidores que caracterizam pouca análise, um certo comportamento de manada. O alerta contra a euforia é importante, contra aquilo que se chamou no passado de “exuberância irracional”, para que se evite que se chegue na bolha. Mas isso não quer dizer que já esteja num patamar de bolha.

Valor: O excesso de euforia no Brasil está restrito ao mercado acionário?

Meirelles: Está ocorrendo um pouco também no mercado de câmbio. Quando converso com investidores do mundo todo, começo a ver um clima de entusiasmo incontido.

Valor: O senhor viu isso no seminário Financial Times/Valor?

Meirelles: Não vi no seminário nenhum sinal de exuberância irracional. As manifestações me pareceram muito sólidas. Principalmente porque foram feitas por investidores de longo prazo no Brasil. São empresas que estão no país há décadas e estão dizendo que acreditam no seu futuro. Isto é extremamente saudável.

Valor: Mas o que preocupa, então?

Meirelles: Os movimentos que possam levar a distorções de preços, gerar correção. É um alerta que o BC fez há vários meses e que outros bancos centrais estão fazendo. Uma preocupação global.

Valor: Depois das crises, os BCs passaram a olhar não apenas os índices de preços, mas também a inflação de ativos. O BC brasileiro também está fazendo isso?

Meirelles: Estamos falando de diversos tipos de ativos. Uns são ativos cujo componente preço é diretamente relacionado a um crédito concedido para comprar esses ativos. Nesse caso, há muita confusão quando se fala, por exemplo, da crise japonesa dos anos 80 e 90.

Valor: Por quê?

Meirelles: Um dos grandes impulsos do mercado acionário japonês foi a compra de ações pelos bancos, financiada por depósitos, como aconteceu nos EUA na década de 20. Apesar de ter ocorrido no mercado de ações, aquela bolha foi muito impulsionada pelo crédito, o que é diferente de simplesmente o investidor, com dinheiro real, apostar o seu capital. Isso é diferente de o banco comprar ação ou financiar diretamente o especulador.

Valor: Essa dinâmica se repetiu nos EUA na recente crise?

Meirelles: Sim. O sistema financeiro americano financiou a bolha imobiliária, como uma bolha de crédito. Adotaram-se critérios de concessão de crédito excessivamente liberais. Isto, o BC brasileiro monitora com rigor.

Valor: Como?

Meirelles: O componente preço se torna importante na medida em que ele passa a ser relevante como garantia do crédito. Ou seja, o BC olha prudencialmente o mercado de crédito. Não pode estar tentando controlar os preços da economia. O BC olha o crédito e o componente preço na garantia do crédito. Nos EUA, os bancos financiaram fortemente os ativos, os preços ficaram inflacionados, os valores dos empréstimos também inflaram, as garantias caíram de preço radicalmente e os bancos quebraram.

Valor: O senhor disse que a apreciação do câmbio tem um componente de euforia. Deve-se tentar conter esse movimento?

Meirelles: O sobrepreço ou o movimento especulativo, qualquer que seja ele, leva a uma correção. Cedo ou tarde. No caso do câmbio no Brasil, isso vai ficar claro ao longo do tempo através dos números de conta corrente, investimento estrangeiro direto. Quando a economia estiver em pleno processo de consolidação de uma recuperação já ocorrida, caso tenha havido sobrepreço, como muitos analistas dizem que há, então, teremos um processo de correção.

Valor: O que o BC pretende fazer?

Meirelles: O que o BC faz são intervenções, visando evitar distorções na formação de preços.

Valor: Por exemplo?

Meirelles: Excesso ou falta momentânea de liquidez pode gerar distorções de preços importantes. Um exemplo ocorreu no fim do ano passado. Por razões diversas, principalmente nos mercados futuros, por causa do problema dos derivativos, faltou liquidez e isso levou a uma sobredesvalorização do real. Claramente, houve uma distorção grande na formação de preço, então, o BC entrou vendendo reservas e dólares no mercado futuro. Neste ano, configurou-se em alguns momentos um problema de liquidez por excesso de entrada de recursos. Houve um dia em que o BC comprou bilhões de dólares, o que significa que o BC também interveio naquele momento para evitar uma distorção na formação de preço. Isto se conjuga com a política do BC de tirar partido dessa mudança de liquidez em dólares, que tem prevalecido na economia brasileira nos últimos anos, para acumular reservas e reforçar a capacidade de resistência do país a crises.

Valor: É justificável continuar acumulando reservas?

Meirelles: Sim. A crise mostrou que mais reservas é melhor do que menos. Num quadro de excesso de liquidez em dólar, no momento em que o Fed fizer a saída do processo (de estímulo monetário), teremos talvez uma certa reversão, e aí será muito importante termos reservas para evitar crises de liquidez. Então, é altamente conveniente acumular reservas.

Valor: O Brasil cresceu 7,8% no segundo trimestre e, agora, há analistas prevendo alta anualizada de mais de 8% no terceiro. Esse crescimento é sustentável?

Meirelles: Estamos falando de duas previsões. Da previsão de crescimento, a taxas anualizadas, do terceiro trimestre, e das previsões de crescimento para 2010. Se olharmos as duas, com o mercado prevendo algo entre 4,5% e 5% para o ano que vem e essa previsão de 8% para o terceiro trimestre, então, não é sustentável. As previsões estão dizendo que não. Essa taxa anualizada deve se estabilizar num número menor; 4,5% a 5% é diferente de 8%, o que é normal na medida em que o Brasil saiu da crise rapidamente e entrou em processo de recuperação. É normal que esse processo se estabilize num ritmo menor e mais sustentável.

Valor: Apesar desse crescimento, os investimentos não estão voltando aos níveis pré-crise. Não estão atrasados?

Meirelles: Não há dúvida de que é muito importante a retomada dos investimentos, que os empresários se antecipem à demanda futura, não esperando que o uso da capacidade atinja o limite. Os investimentos estão sendo retirados das gavetas. A previsão do BNDES é que a Formação Bruta de Capital Fixo do ano que vem deve crescer muito e ser, inclusive, um dos impulsos ao crescimento. É um alerta válido aos empresários: “corram e não fiquem atrasados”.

Valor: Os empresários não estariam ressabiados, preocupados com a possibilidade de uma nova recessão mundial?

Meirelles: Não acredito. Os índices de confiança empresarial da FGV mostram recordes históricos, inclusive, com algo muito importante que é o fato de o índice de confiança estar acima da média histórica em todos os setores. Isso é que determina investimento. Apesar de existir uma preocupação com o cenário externo, a dúvida está muito mais relacionada a quem é dependente de exportação. As indústrias que podem direcionar a produção para o mercado doméstico estão mais otimistas.

Valor: O aquecimento do mercado de trabalho tem sido um impulso mais forte do que a ocupação de capacidade ociosa na indústria?

Meirelles: Vamos aguardar porque são vários fenômenos. Um deles é que a empregabilidade aumentou numa parte do setor industrial, mas não atingiu ainda o mesmo nível em que estava no ano passado. Uma boa parte dessa redução do desemprego se deu na construção civil, que tem nível salarial médio menor. E o crescimento desse setor tende a se estabilizar conforme o índice de construção entre no ritmo do estímulo. Estamos num momento de avaliação.

17/10/2009 - 09:47h Taxação de capital externo: Meirelles não foi informado sobre a decisão de Lula

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Guido Mantega e Henrique Meirelles


Presidente do Banco Central, que é contrário à taxação de capital externo, estava ontem nos EUA

MARCIO AITH – FOLHA SP

REPORTAGEM LOCAL

Até o final da tarde de ontem, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, não havia sido avisado de qualquer medida oficial para controlar a entrada de dólares no país.
Quando soube dos relatos de que o governo pretende taxar o capital externo, Meirelles estava em viagem aos Estados Unidos. Buscou notícias sobre o assunto com assessores. Ficou tranquilizado quando soube da suposta negativa do presidente Lula sobre o assunto -na verdade, indagado sobre o tema, o presidente foi dúbio.
Meirelles é contrário a intervenções para conter a valorização excessiva do real. Primeiro, porque acredita que elas trazem mais malefícios do que benefícios à economia. Na melhor das hipóteses, costuma dizer, elas são inócuas.
No entanto, o presidente do BC sabe que sua opinião é isolada. Ele fora inclusive informado da existência de um núcleo de técnicos, dentro do Ministério da Fazenda, empenhado em propor mecanismos para conter a valorização cambial.
Esse núcleo, que trabalha à revelia do BC, é liderado pelo economista Emílio Garofalo, que estava encostado no BC e se transformou em assessor especial do ministro Guido Mantega (Fazenda). Garofalo é especialista em câmbio e trabalhou, por bom tempo, na área de comércio exterior da Fiesp, entidade que defende controles à entrada de capital para conter a alta do real, que encarece as exportações da indústria.
Antes de viajar, Meirelles acreditava que as ideias de Garofalo ainda não estavam maduras. A dúvida estava em propor apenas a taxação dos investimentos em renda fixa, o que poderia ser inócuo, ou de todos os dólares que entram na economia, medida extrema.
Meirelles conversou sobre as duas alternativas com o próprio Lula. Na ocasião, Meirelles disse ao presidente que o BC já havia esgotado seu principal instrumento cambial: a compra de dólares.
Segundo o presidente do BC, as compras de dólares desde janeiro estão R$ 3 bilhões acima do fluxo cambial. Ou seja, o banco está comprando mais dólares do que entram no país. O real seguiu mesmo assim sua rota ascendente.

17/10/2009 - 09:22h Lula autoriza taxação de capital externo

Capa Folha de S.Paulo - Edição São Paulo

Presidente dá sinal verde para a elaboração de uma medida provisória criando imposto para tentar conter alta do real

Ideia é taxar mais o capital de curto prazo e aliviar tributação sobre os dólares que permanecem mais tempo no país

KENNEDY ALENCAR – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer taxar a entrada de capitais estrangeiros no país. Autorizou a equipe econômica do governo federal a redigir uma medida provisória para implementar a tributação.
O objetivo é desestimular o ingresso de capital de curto prazo, chamado de especulativo. O governo tem dados mostrando que cresceu muito esse tipo de entrada de dinheiro, que valoriza o real e encarece as exportações do país. Só neste ano, o dólar se desvalorizou 26,8% ante o real.
O Planalto decidiu que, quanto menos tempo o capital externo ficar no Brasil, mais imposto pagará. Quanto mais tempo permanecer, menos imposto será cobrado. Não ocorrerá cobrança depois do cumprimento de determinado prazo de permanência.
Questionado em Cabrobó (PE) sobre eventual tributação ao capital externo, Lula disse que não gosta de dar “palpites” na área econômica nem antecipar decisões de governo.
“Essa coisa de economia a gente não pode falar. Estou viajando há três dias, vou voltar no fim de semana, e não tem nenhuma previsão de a gente fazer qualquer taxação em lugar nenhum. Não me pergunte o que eu não posso falar”, afirmou o presidente.
A decisão do governo é de estender a tributação também para o mercado acionário, e não apenas sobre renda fixa, aplicação que já foi tributada no passado por meio do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
De junho a agosto, o ingresso de capital de curto prazo somou US$ 322 milhões, segundo o Banco Central. Nos três meses anteriores, ele havia sido de US$ 186 milhões.
Esse ingresso de capital externo contribui para a valorização do real em relação ao dólar, o que traz dificuldades a setores exportadores.
O governo vinha resistindo a adotar a taxação, por avaliar que era interessante, durante a fase mais aguda da crise internacional, a imagem de um país que recebe capital externo. Isso ajudava o discurso do presidente Lula de que o Brasil se recuperava mais rapidamente do que outros países.
No entanto, com a desvalorização do dólar, que chegou ao patamar de R$ 1,70, o governo resolveu agir. A fórmula encontrada evita punir o capital de longo prazo, que chega ao Brasil para bancar investimentos e gera empregos.
A medida deve ser divulgada até o início da próxima semana. A Folha apurou que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, convenceu o presidente a adotá-la. O governo teme que setores exportadores prejudicados pelo dólar baixo façam demissões em massa e gerem problemas econômicos e políticos.
O governo descarta uma mudança no câmbio flutuante, por avaliar que tem poucos instrumentos. Um deles é agir pontualmente na taxação de capital externo de curto prazo, que vem ao Brasil lucrar com a alta taxa de juros na comparação com outros países. A taxa básica, a Selic, está hoje em 8,75%.
Mantega defende uma queda da taxa na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) na próxima semana. O Copom é o órgão formado pela direção do BC que se reúne a cada 45 dias para fixar a Selic. O BC, porém, avalia que a recuperação econômica do Brasil é forte e que não haveria justificativa para reduzir a Selic.

Entrada de dólares

Nos últimos quatro meses, houve um forte aumento na entrada de capital estrangeiro na Bolsa de Valores e no mercado de renda fixa, tanto de curto como de longo prazo. Com isso, esses indicadores já voltaram ao nível pré-crise e mantêm o ritmo de crescimento. No ano, já entraram US$ 13 bilhões na Bolsa e US$ 3,5 bilhões de investimentos em títulos.
Essa entrada de recursos já levou o Banco Central a revisar a estimativa para investimentos estrangeiros no mercado de ações e renda fixa neste ano.
Até junho, era esperada uma entrada de US$ 3 bilhões no país nessa área. Agora, a previsão subiu para US$ 22 bilhões, número que deve ser revisto novamente até o fim do ano. Em 2008, com a saída de recursos provocada pela crise, o saldo ficou positivo em apenas US$ 6,3 bilhões.
Na tentativa de enxugar esses dólares, as compras do BC no mercado de câmbio já estão próximas de US$ 20 bilhões. Esse dinheiro vai para as reservas internacionais, que ultrapassaram em outubro o patamar recorde de US$ 230 bilhões.
Colaboraram a Sucursal de Brasília e a enviada especial a Cabrobó

17/10/2009 - 08:57h Controle do câmbio no grito

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Celso Ming – O Estado SP

Lá pelas tantas, sempre alguém do governo passa um torpedinho avisando que está em estudo a cobrança de um imposto (em princípio, um Imposto sobre Operações Financeiras – IOF) na entrada de capitais a fim de tentar parar a derrubada das cotações do dólar no câmbio interno.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, parece dar força para esse tipo de pressão quando afirma, como o fez quinta-feira, que está muito preocupado com a forte queda do dólar no câmbio interno. Logo ele, Mantega, que fez lobby para que o Brasil recebesse rapidamente o grau de investimento, de maneira a se candidatar a capitais abundantes e baratos, e aplaudiu quando isso aconteceu.

Na falta de desmentidos enérgicos na área pela Fazenda, o próprio presidente Lula se encarregou ontem de avisar que “não existem estudos no governo para taxação de coisa nenhuma”.

Mas, voltando às inquietações de Mantega, é bom ter em conta que o governo enfrenta preocupações contraditórias. Há a escalada da valorização do real, mas há também as preocupações igualmente importantes ou ainda mais. O governo precisa, por exemplo, atrair novos capitais externos. Anote aí:

Tem de arrumar recursos para financiar as obras da Copa do Mundo em 2014 e da Olimpíada de 2016. Precisa atrair capital externo para a Bolsa, que é o jeito de viabilizar reforço de capital para a empresa brasileira, para que se livre da dependência excessiva do crédito interno. Precisa captar recursos externos para municiar o Tesouro e os bancos estatais. Tem de buscar dinheiro para o PAC, para o desenvolvimento do pré-sal e para mostrar serviço no Programa “Minha Casa, Minha Vida”, que não consegue avançar. E por aí vai. Não seria com uma taxação de capital que o governo mandaria o recado correto para os investidores estrangeiros que pretende atrair.

Há sempre aqueles que advertem que é preciso impedir o estrago provocado pelo capital especulativo. E aí há pelo menos dois equívocos. O primeiro é entender que o afluxo de capitais especulativos seja relevante. Não é. E, mesmo se fosse, esse capital já teria em si próprio o conserto do estrago no câmbio. Se é especulativo, é porque vem para morder um dinheiro no mole e logo ir embora. Se ajuda a derrubar o dólar na entrada, logo em seguida, na saída, reverte o movimento. Ou seja, o segundo equívoco está em achar que o capital especulativo só age numa ponta do câmbio.

Em todo o caso, sempre pode prevalecer o ponto de vista de que essas taxações são inevitáveis e, então, elas acontecerão, como em março de 2008, também na administração Mantega.

Se acontecerem, estarão prejudicando o financiamento dos projetos do governo e encarecendo os investimentos de capital fixo das empresas brasileiras. Além disso, provavelmente não mudarão a trajetória do dólar no câmbio interno.

Os aflitos de sempre dirão que “é preciso fazer alguma coisa”. E, na falta de algo consistente a fazer, saem essas declarações vagas com o objetivo de segurar a cotação do câmbio no grito.

Se for para segurar o dólar, é preciso abandonar o sistema de câmbio flutuante. Mas isso muda a política econômica e leva o risco de desarrumar toda a economia. Decididamente, não contem com coisas assim às vésperas das eleições.

17/10/2009 - 08:36h ”Não há previsão para taxar capital externo”, diz Lula

Em viagem ao Nordeste, presidente diz que o governo não estuda retorno do IOF para investimento estrangeiro

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Leonencio Nossa, Adriana Fernandes Fabio Graner e Renata Veríssimo, CABROBÓ, BRASÍLIA – O Estado SP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem em Cabrobó (PE) que o governo não estuda a renovação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para entrada de capital estrangeiro no País.

“Essa coisa de economia a gente não pode falar. Estou há três dias viajando. E não tem nenhuma previsão de fazer taxação alguma”, disse. Ante a insistência de repórteres, Lula disse que é “muito cuidadoso” em relação a assuntos econômicos e que o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, “é muito responsável”.

“Quando sai uma notícia errada, quem perde é o Brasil, é o povo brasileiro”, afirmou o presidente. Ele disse que não costumar “dar palpites em economia”. Citou como exemplo o processo de definição da alíquota da taxa básica (Selic) de juros. E comentou que, recentemente, saiu uma notícia segundo a qual ele e Henrique Meirelles haviam acertado entre si a taxa, às vésperas de uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), colegiado do BC encarregado de definir a taxa. “Isso nunca existiu. Eu não discuto taxa básica de juros”, disse.

A informação de que o governo discute taxar a entrada de capital estrangeiro causou preocupação em parte do empresariado, diante do aumento do custo do dinheiro a tomar junto ao mercado de capitais. A Agência Estado apurou que alguns empresários procuraram ontem o governo querendo informações detalhadas sobre o assunto. Alguns economistas e administradores também ligaram, mas para apoiar a ideia da taxação, que pode ser anunciada na próxima semana.

A taxação é uma das alternativas seriamente consideradas na equipe econômica para conter a valorização do real ante o dólar. A decisão sobre a medida pode sair “em breve”, segundo revelou ontem uma fonte. Integrantes do governo vinham defendendo que a medida fosse adotada já na segunda-feira.

Outra alternativa em discussão, e cuja chance de efetivação pela equipe econômica tem aumentado nos últimos dias, é a de o Tesouro Nacional entrar no processo de compra de dólares por meio do Fundo Soberano do Brasil (FSB). O governo já tem uma fórmula pronta para que isso seja feito sem impacto no superávit primário das contas públicas, mas depende da regulamentação do FSB. Há quem defenda que o dinheiro já depositado no FSB seja utilizado de imediato para comprar dólares.

Depois, o fundo seria reforçado com novos títulos.

A medida seria menos “heterodoxa” do que a tributação, argumenta uma fonte, já que o mercado ainda se ressente de capital externo para investimentos.

O fato é que o Ministério da Fazenda procura alternativas urgentes porque considera pouco o que o BC está fazendo, que é comprar somente o fluxo de dólares que entra no País. A visão é que o BC precisa ser mais agressiva não só na quantidade, mas também no preço, atuando de forma menos previsível.