14/07/2008 - 12:35h Esculachou, perdeu

Ricardo Noblat - O Globo

“Quem vive de picaretagem um dia cai”.

(Lula, ao comentar o prende e solta do banqueiro Daniel Dantas semana passada)

dantas2.jpgEm setembro de 2002, ao ser preso na Favela da Grota, no Rio de Janeiro, o traficante de drogas Elias Maluco, assassino do jornalista Tim Lopes, da TV Globo, suplicou a um policial: “Perdi, chefia. Mas não me esculacha”. O banqueiro Daniel Dantas, dono do Grupo Opportunity, perdeu porque abusou de atropelar as leis e de esculachar o Estado.

Lembram de Ricardo Sérgio de Oliveira, diretor da área internacional do Banco do Brasil no governo FHC e arrecadador de recursos para campanhas do PSDB? Ele saiu do banco depois de ter admitido em conversa grampeada pela Polícia Federal que agira no “limite da irresponsabilidade” durante o processo de privatização do sistema de telefonia do país. O que o governo menos desejava na época era a revelação de qualquer indício ou prova capaz de sugerir que Ricardo Sérgio fosse ligado ao presidente.

Pois bem: em meados de 2002, um alto executivo do Opportunity reuniu-se no Rio com um assessor de FHC. E lhe disse que tinha a gravação de uma conversa entre o presidente e Ricardo Sérgio. O assessor deu o recado a FHC. Que então perguntou: “Você ouviu a gravação?”. Não, ele lera a transcrição da conversa.

Dali a alguns dias, FHC recebeu Dantas para um encontro a sós no Palácio do Alvorada.

E atendeu ao seu pedido de não trocar o presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A CVM “é responsável por regulamentar, desenvolver, controlar e fiscalizar o mercado de valores mobiliários do país”. Para tal fim, exerce, entre outras, as seguintes funções: assegurar o funcionamento eficiente e regular dos mercados de bolsa e de balcão; proteger os titulares de valores mobiliários; evitar ou coibir modalidades de fraude ou manipulação no mercado; e garantir a observância de práticas comerciais eqüitativas no mercado de valores mobiliários.

Os negócios de Dantas passam pela CVM.

Nunca antes na história deste país um magnata como Dantas se atreveu tanto a usar meios ilegais para aumentar sua fortuna e se apropriar do Estado ou de parte dele. Era preciso ter aliados no Congresso? Investiu na eleição de deputados e senadores. Era preciso corromper servidores públicos? Corrompeu vários nos governos FHC e Lula.

Era preciso monitorar concorrentes ou se antecipar a eventuais decisões da Justiça contrárias aos seus interesses? Pagou caro para espionar sócios, desafetos e até juízes.

Faltaram a Dantas paciência e talento para fazer a transição política do governo FHC para o de Lula. E a poucos meses da eleição presidencial de 2006 ele cometeu seu mais grave erro: divulgou um falso dossiê sobre contas secretas que Lula e auxiliares teriam no exterior. Imaginou esculachar o governo com a vã esperança de recuperar o status que teve no governo passado. É possível que jamais venha a ser condenado por crimes financeiros, mas sim pela reles tentativa de subornar um delegado da Polícia Federal.

12/07/2008 - 11:14h USA: Mercado imobiliário à beira do colapso

ANÁLISE

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DO “FINANCIAL TIMES” - FOLHA DE SÃO PAULO

COM O preço do barril de petróleo acima de US$ 146 e a oscilação nos mercados mundiais de ações, o tumulto na economia mundial se agravou durante esta semana. Mas o acontecimento mais notável foi o fato de que velhos pecados socialistas agora terão de ser pagos nos Estados Unidos, a terra do capitalismo de livre mercado.
Os problemas afetam duas empresas de financiamento hipotecário coloquialmente conhecidas como Freddie Mac e Fannie Mae e definidas como “empresas patrocinadas pelo governo”. O significado exato dessa descrição pode ser revelado em breve.
Com um passivo combinado de US$ 5,3 trilhões, o equivalente a cerca de 38% do PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos, essas imensas companhias são universalmente vistas como grandes demais para falir.
Já que respondem por cerca de três quartos das novas hipotecas, elas também são importantes demais para que se permita que cheguem à falência.
Caso deixem de existir, o mercado de habitação poderia entrar em colapso, devastando a estabilidade financeira norte-americana.
Mas, se o governo federal tiver de incorporar as dívidas das duas empresas às suas contas, seu passivo financeiro bruto passaria a exceder os 100% do PIB. Felizmente, as coisas ainda não se agravaram a esse ponto, já que os ativos das duas instituições continuam a ter valor.
O verdadeiro problema, demonstrado pela queda vertiginosa nos preços de suas ações, é que o capital de que dispõem parece insuficiente para sustentar seus passivos, dada a escala dos possíveis prejuízos.
William Poole, ex-presidente do Federal Reserve de St. Louis, argumentou nesta semana que a Freddie Mac teria de ser considerada insolvente caso o valor de seus ativos fosse estimado a preços de mercado.
Se for acatada a suposição de que manter a capacidade das duas gigantes para emprestar é fundamental, existam apenas duas saídas: as duas teriam de levantar imensos montantes em capital adicional ou o governo teria de garantir seus passivos de maneira explícita.
Em seu depoimento ao Congresso nesta semana, Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve, encorajou as duas instituições a levantar dinheiro.
Isso certamente seria dispendioso para os acionistas existentes e arriscado para os novos. O governo mesmo poderia investir nessa operação de aumento de capital. Alternativamente, o governo poderia assumir controle direto sobre uma ou ambas as empresas, presumivelmente zerando o valor das ações em circulação.
O nome do processo, aparentemente, seria “conservadoria”. Do lado oposto do Atlântico, o termo usado seria “nacionalização”. E a decisão faria com que a nacionalização do Northern Rock pelo governo britânico parecesse não mais do que uma bagatela.
Os problemas da Fannie Mae e Freddie Mac são importantes em si. Mas são ainda mais importantes pelo que nos dizem sobre a crise em curso: ela continua a se expandir. Os preços das casas continuam a cair nos Estados Unidos, os prejuízos do setor financeiro devem aumentar, o crédito continua apertado, a economia norte-americana continua fraca, o consumo domiciliar está sob pressão cada vez mais intensa e os preços do petróleo estão subindo ainda mais.
Enquanto isso, o Departamento do Tesouro e o banco central estão improvisando desesperadamente. Os mercados de ações ao menos perceberam até que ponto as coisas estão difíceis. Apenas os mais otimistas acreditariam que o pior está por vir. A crise, na verdade, está se agravando.


Tradução de PAULO MIGLIACCI

09/06/2008 - 09:18h Novo status do Brasil conquista admiradores

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Brazil’s new status wins admirers

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By Ruth Sullivan - Financial Times

Institutional investors are likely to take a fresh look at Brazil following ratings upgrades by two big agencies in the past two months. PDF

Standard & Poor’s and Fitch have both upgraded Brazil’s long-term sovereign debt to investment status, which means the country is now considered a safe investment destination unlikely to default on its debts.

It has only gained the lowest rung of the investment grade ladder, a long way from the triple A status of developed economies such as the US, Britain or Germany. But the change will nonetheless make it more attractive to a broader range of international investors such as big US pension funds, which are constrained from investing in countries that have not had their capacity to repay debt positively assessed, say fund managers.

Just six years ago the country was widely seen as being on the brink of bankruptcy and many investors would have found it impossible to see Brazil as an investment-grade country.

“The upgrade opens Brazil to a wider investor audience. A lot of funds will only move into a country when it has investment grade rating,” says Julian Thompson, head of emerging market equities at Threadneedle.

Brazil equity funds have just seen their sixth consecutive week of inflows, totalling $1.4bn (£716m, €901m), compared with net outflows of about $632m before that period, according to Boston-based Emerging Portfolio Fund Research, which tracks global fund flows.

“Investors have been attracted to Brazil based on better than expected recent economic growth and the government’s past commitment to responsible fiscal policies that led to fiscal surpluses and mounting foreign exchange reserves,” says Brad Durham, managing director of EPFR.

The strong flows into Brazil’s equity funds come as emerging markets funds in general have suffered severe outflows. The MSCI Brazil index is up almost 20 per cent since the beginning of January, while the MSCI Emerging Markets index is down more than 3 per cent.

Fund managers see the investment grade more as a seal of approval than dramatically changing fundamentals. “When Mexico gained its first investment grade rating in 2000, North American investors gradually began to add Mexican equities to their portfolio,” says Urban Larson, fund manager of F&C’s Latin American fund. He expects a similar pattern to emerge with Brazil.

Although Brazil is the last of the Bric countries (the others being Russia, India and China) to gain investment grade status, many Latin America and Bric fund managers are overweight in the country’s stocks.

“We’ve been fans of Brazil for a long time . . . and expect to maintain an overweight position. Any increase [in weighting] will depend on new companies coming to market,” Mr Thompson says.

Investor appetite has traditionally focused on commodities in a country with significant natural resources, but domestic stocks are beginning to gain some attention as domestic spending and consumption grows. “Brazil is the place where we see the most exciting opportunities,” says Stefan Herz, Latin American fund manager at Charlemagne Capital, an emerging market fund specialist.

“There have been so many initial public offerings in Brazil in the past few years and the emergence of new sectors.”

The information technology, real estate and healthcare sectors have also made a debut. “It is the only Latin American country where this has happened.”

Brazil makes up more than 67 per cent of the weighting of Charlemagne’s Magna Latin America fund.

Nicholas Morse, Schroders Latin America fund manager, is also positive on Brazil. Schroders’ $1.9bn Luxembourg-listed Latin America fund counts Brazil as the “largest overweight country in the portfolio”. The company’s $14.5bn Bric fund is also overweight in Brazilian equities .

On a short term outlook, Mr Morse says equity and fixed income markets have already discounted Brazil’s investment upgrade. But from a longer term perspective, “the status is good for foreign direct investment, especially for sectors [such as] infrastructure”.

At Threadneedle, where 22 per cent of the Global Equity Markets fund is in Brazil, compared with 18 per cent in Russia, 11 per cent in China and just 4 per cent in India, Mr Thompson also sees the attraction of investing in property. “The demand for middle income residential property is strong and remains relatively good value.”

He emphasises the importance of good stock-picking. “Once an investment grade rating has happened, the country [debt] risk has been reduced so there is not so much improvement to come. Then it is more about stock-picking.”

In the financial sector, the fund is looking outside banks, which are growing their loan books strongly but not their earnings, and at companies such as Redecard, a credit card transaction processor.

Another outcome of the rating change is that investor confidence will be boosted enough to encourage investors to look beyond traditional commodities and move into domestic stocks, says Mr Larson of F&C.

F&C’s Latin American Equity fund has been adding Brazilian domestic companies to its portfolio with AmBev, the brewery, which Mr Larson is expecting to show strong volume growth this year. The fund has also added Unibanco to its bank holding and invested in the stocks of All, a railway company, and Localixa, an auto rental company.

But some concerns still remain in the investment community, particularly the spectre of rising inflation and the question of whether current strong commodity prices can be sustained.

29/05/2008 - 17:34h Mais uma agência de risco eleva Brasil a ‘grau de investimento’

Fitch eleva Brasil para grau de investimento

Anúncio se segue ao da Standard & Poor’s, que foi a 1ª entre as 3 maiores a conceder o grau de investimento

Da Redação - portal O Estado SP

lula_caricatura2.jpgSÃO PAULO - A Fitch Rating, uma das três maiores agências de classificação de risco, elevou o Brasil para grau de investimento nesta quinta-feira, 29. A mudança na classificação passou de BB+ para BBB-, que é a primeira escala na classificação de grau de investimento. Com a nova classificação, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) passou a subir. Às 15h30, a alta é de 0,65%. Antes da notícia, operava em queda de 0,14%.

A Fitch Ratings destaca que “a elevação do rating reflete a melhora dramática das contas externas e do setor público do Brasil, que reduziu bastante a vulnerabilidade do país a choques externos e de câmbio e fortaleceram a estabilidade macroeconômica e melhoraram as perspectivas de crescimento para o médio prazo”.

Segundo a agência, as autoridades estabeleceram um “histórico de compromisso com inflação baixa e um superávit orçamentário primário que dirimiu preocupações anteriores quanto à sustentabilidade fiscal no médio prazo”.

“A melhora impressionante nas finanças externas, resultante, em parte dos preços mais altos das commodities, mas também de boa gestão política, ao lado do status de credor soberano líquido, tornou o Brasil bastante mais resistente a choques financeiros globais e aumentou a credibilidade de seu quatro de referência macroeconômico”, disse Shelly Shetty, diretora sênior do grupo de ratings soberanos da Fitch.

Ela acrescentou que “um consenso cada vez maior em todo o espectro político quanto às políticas macroeconômicas também reduz o potencial para um afastamento marcante do quadro atual”.

Para o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, a nova classificação de risco dada ao Brasil, desta vez pela Fitch Rating, significa que o País está tendo cada vez mais reconhecida a sua melhora de fundamentos. Segundo Meirelles, a confirmação vai determinar a melhora da qualidade do investimento no Brasil. Investimento de longo prazo e recursos que têm, em geral, a maior contribuição para setor produtivo, acrescentou o presidente do BC.

Primeira nota

O anúncio da Fitch se segue ao da Standard & Poor’s, que se tornou a primeira entre as três maiores agências de rating do mundo a conceder o grau de investimento ao País, ao elevar, no último dia 30 de abril, a nota brasileira de BB+ para BBB-. A outra grande agência classificadora, a Moody’s, mantém o rating brasileiro um nível abaixo do grau de investimento, em Ba1, com perspectiva estável.

No último dia 18 de abril, a agência de classificação de risco de crédito japonesa R&I (Rating and Investment Information) também elevou o rating do Brasil para BBB-, grau de investimento. A R&I foi a segunda agência japonesa a conferir este status ao Brasil. Em junho de 2007, a Japan Credit Rating (JCR) havia elevado a nota da dívida de longo prazo em moeda estrangeira do Brasil para BBB-.

O que significa o grau de investimento?

A nova nota significa que os títulos da dívida do Brasil agora são considerados com baixo risco de crédito. Na prática, o grau de investimento funciona como uma permissão para que instituições e investidores estrangeiros apliquem seus recursos em papéis da dívida brasileira. O resultado é que essa classificação deve atrair ainda mais recursos estrangeiros.

Ou seja, o real deve se apreciar ainda mais frente ao dólar; e as ações de empresas, principalmente de bancos, serão melhor avaliadas pelos investidores e devem subir muito nos próximos dias.

Do ponto de vista da economia real, esta classificação pode atrair mais investimentos para o País, melhorando mais as condições macroeconômicas. Além disso, as empresas conseguirão captar recursos com taxas mais baixas e terão lucros maiores.

27/05/2008 - 09:15h Negócios com ações da Nossa Caixa dobram em 2 dias

Movimento financeiro saltou de R$ 8,68 milhões para R$ 15,67 milhões e suscitou as suspeitas da CVM

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Renée Pereira - O Estado de São Paulo

O volume financeiro das ações da Nossa Caixa na quarta-feira, antes do anúncio da negociação com o Banco do Brasil (BB), quase dobrou em relação ao de segunda-feira. Segundo levantamento da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec-MG), com dados da Economática, os negócios saltaram de R$ 8,68 milhões para R$ 15,67 milhões.

O número de operações subiu de 725 para 994, um salto de 37%. Já o preço das ações da instituição teve alta de 2,83% no período. Na semana anterior ao anúncio, a média era de 583 negócios por dia, com volume negociado inferior a R$ 10 milhões.

Essa forte movimentação suscitou as suspeitas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que decidiu investigar se houve informação privilegiada de alguns investidores, até porque o número de operações não subiu na mesma proporção que o volume financeiro. Ou seja, as operações teriam sido feitas por um número restrito de investidores.

Analistas do mercado financeiro reconhecem que o volume negociado foi claramente estranho. Mas, segundo eles, a movimentação começou a ficar mais forte já na segunda-feira. “Isso pôde ser verificado com clareza porque as ações da Nossa Caixa não têm muita negociação, o que destoou da movimentação diária”, disse um analista que não quis se identificar.

Na sexta-feira, depois do feriado e do anúncio das duas instituições, a negociação com as ações da Nossa Caixa explodiram. Segundo a Apimec-MG, o número de negócios saltou para 4.824 operações e o volume financeiro, para R$ 190,52 milhões, aumento de 565% e 2096%, respectivamente. Nesse dia, as ações ordinárias da instituição tiveram um avanço de 31,52%, para R$ 36,3. No pregão de ontem, os papéis subiram 3%, para R$ 37,39.

Na opinião do presidente da Apimec-MG, Paulo Ângelo Carvalho de Souza, os números mostram claramente uma movimentação fora da normal. Além disso, ele acredita que, mesmo na sexta-feira, depois do anúncio, as negociações de ações da Nossa Caixa deveriam ter sido suspensas pela Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).

A explicação, completa o executivo, é que se trata de um negócio que pode não se realizar. “Esses anúncios precisam ser feitos, mas há de se ter mais cautela para que tais informações sejam passadas com clareza e precisão e após o pregão da Bolsa.” Ele citou também o caso da Agência Nacional do Petróleo (ANP), cujo anúncio de uma grande reserva de petróleo no País causou especulações com papéis da Petrobrás.

LEILÃO OU VENDA

A polêmica em torno da venda da Nossa Caixa também continua entre os bancos privados, que reivindicam a realização de um leilão. Um dos pontos primordiais do processo está relacionado ao fato de que os depósitos judiciais - em torno de R$ 16 bilhões - da Nossa Caixa, um dos grandes atrativos, apenas podem ficar com bancos oficiais. Por isso, o valor do banco seria reduzido se uma instituição privada o comprasse.

Há, porém, pareceres de juristas renomados no mercado, como Adilson Abreu Dallari e Luís Roberto Barroso, que contestam essa tese. Os documentos, a que o Estado teve acesso, mostram que eles consideram inconstitucional a determinação para que o depósito judicial tenha de ficar com banco oficial. Para eles, isso viola os princípios constitucionais de livre iniciativa e livre concorrência.

Além disso, os juristas destacam que a lei diz que os depósitos devem ser feitos “preferencialmente” em bancos oficiais. Ou seja, a escolha da instituição fica a critério do juiz.

24/05/2008 - 12:19h Fazendo caixa: CVM investiga operações com ações da Nossa Caixa antes do anúncio

Volume de negociação na Bolsa de São Paulo subiu 50% na quarta-feira

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Felipe Frisch e Juliana Rangel - O GLOBO

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informou ontem que está investigando as operações recentes com as ações do Banco do Brasil (BB) e da Nossa Caixa, antes do anúncio do início das negociações do BB pela instituição paulista, na última quarta-feira.

Segundo a autarquia, o foco da investigação será nos papéis da Nossa Caixa.

De uma média de 566 negócios por dia em maio, até o dia 20, os papéis do banco estadual tiveram 662 negócios na terça-feira e 994 na quarta-feira, 50% a mais, segundo dados da Economática.
O fato relevante só foi divulgado após o fim do pregão na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Até então, as ações da Nossa Caixa subiam 8,66% no mês.

Ações da Nossa Caixa chegaram a subir 42% As ações da Nossa Caixa foram o grande destaque ontem na Bovespa, o primeiro dia de negociação após o anúncio feito na quarta-feira. Os papéis abriram em alta de 35,68% e, na máxima do dia, chegaram a subir 42,71%, mas a alta acabou desacelerando: as ações fecharam com ganhos de 31,52%, a R$ 36,30, contra R$ 27,60 na quarta-feira.

Já as ações do BB caíram 2,81%, negociadas a R$ 28,33.

— Está claro para o mercado que a compra será um bom negócio para a Nossa Caixa.

Mas não dá para afirmar o mesmo em relação ao BB, porque não se sabe quanto ele vai pagar, se haverá troca de ações e qual será a relação de troca. Ainda há muitas dúvidas — disse o analista da Coinvalores, Marco Aurélio Barbosa, ao justificar a queda das ações do BB.

A Nossa Caixa lançou ações na Bovespa em outubro de 2005, no Novo Mercado (segmento que reúne empresas com práticas de gestão transparente e de proteção ao acionista minoritário). Os papéis chegaram a alcançar a máxima de R$ 50,71 em novembro de 2006. Em 2008, as ações acumulavam alta de 17,4% até a última quarta-feira.

Retorno sobre patrimônio da Nossa Caixa abaixo do setor Segundo o gerente de análises do Modal Asset, Eduardo Roche, o desempenho dos papéis é decepcionante.

— O retorno das ações sobre patrimônio projetado para este ano era de 6%. A média do setor é acima de 20% no Brasil — compara.

24/05/2008 - 12:09h Fazendo caixa: para Serra venda da Nossa Caixa é para investir

‘Venda financiará obras’, diz Serra

Milton F. da Rocha Filho e Ana Luísa Westphalen - O Estado de São Paulo

Diante da reação dos principais bancos privados do País, pedindo que o banco estadual paulista Nossa Caixa seja vendido em leilão aberto, e não diretamente ao Banco do Brasil, como foi anunciado na noite de quarta-feira, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), interrompeu o repouso em Campos do Jordão para defender, em entrevista, a venda para o banco federal.

Segundo ele, a venda para o Banco do Brasil tem a vantagem de ser mais rentável para o caixa do governo do Estado. Isso porque na Nossa Caixa estão depositados cerca de R$ 16 bilhões em depósitos judiciais que, pela lei, só podem estar em bancos públicos.

“É natural pensar que a proposta do BB será sempre melhor para o Estado de São Paulo, pois implicará trazer mais recursos”, afirmou Serra. “Se a Caixa fosse vendida para bancos privados, os depósitos judiciais não iriam para o banco que a comprasse.”

Segundo o governador, caso a venda se concretize, os recursos serão usados em obras em estradas, no sistema de transporte, em educação, saúde e saneamento. “Vamos procurar fazer aquilo que seja melhor para o Estado de São Paulo, esse é o critério do governo e vamos trabalhar para que nós tenhamos mais recursos para investir.”

Ontem, após o Estado publicar uma declaração do presidente do Banco Itaú, Roberto Setubal, favorável a um leilão que garanta maior transparência na venda da Nossa Caixa, todos os principais bancos saíram em defesa da mesma tese.

O governador explicou que o interesse na compra da Nossa Caixa partiu do Banco do Brasil e o governo concordou em receber a proposta. “Estamos conversando com o Banco do Brasil. Isso depois vai ter que ser examinado pela Assembléia Legislativa. Não é um assunto para resolver hoje ou amanhã.”

Serra disse que não está participando das negociações e não conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a esse respeito. “Toda a conversa foi entre a Secretaria da Fazenda e a direção do Banco do Brasil; eu apenas acompanhei.”

PRÓXIMOS PASSOS

Reunião realizada ontem, em São Paulo, entre o presidente do Banco do Brasil, Antonio Francisco Lima Neto, e o presidente da Nossa Caixa, Milton Luiz de Melo Santos, acertou os próximos passos para o acerto do negócio. O primeiro passo será assinar um acordo de confidencialidade das informações da Nossa Caixa, o que deverá ocorrer na terça-feira. Se a conversa for adiante, a etapa seguinte será uma auditoria na Nossa Caixa .

Do lado paulista, quem vai conduzir a negociação será o secretário da Fazenda, Mauro Ricardo. Ele terá um encontro na segunda-feira com dirigentes da Nossa Caixa. Nas negociações deverão ser usadas informações que estão sendo levantadas pelos bancos Fator e Citi, contratados no início do ano para fazer um estudo sobre as estatais de São Paulo.

Negociação sem licitação é ilegal, dizem juristas

Para Ives Gandra, realização do negócio sem leilão fere artigos da Constituição e da Lei de Licitações

Andrea Vialli - O Estado de São Paulo

A operação de compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil, sem a realização de um leilão, é inconstitucional, dizem juristas. De acordo com Ives Gandra Martins, o negócio fere os artigos 173 e 175 da Constituição Federal e também a Lei 8.666, de licitações. “Estou convencido de que um leilão, nesse caso, é imprescindível”, afirmou em entrevista ao Estado.

Segundo o jurista, o fato de o Banco do Brasil ser uma sociedade de economia mista - parte do capital é estatal, outra parte é negociada em bolsa de valores - o torna equivalente a um banco privado, no processo de aquisição. “Caso contrário, fere o artigo 173 da Constituição Federal, que afirma que sociedades de economia mista estão sujeitas às mesmas regras aplicadas às empresas privadas”, diz. “A Lei de Licitações reforça isso: todo bem público a ser vendido deve passar por uma licitação.”

Para Ives Gandra, o negócio é claramente ilegal. “Se a venda for feita, certamente cairá no Judiciário.” Além disso, diz, a não realização de um leilão contraria o artigo 175 da Constituição Federal - que “incumbe ao Poder Público, na forma da lei, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, sempre através de licitação, a prestação de serviços públicos.” Segundo ele, um leilão seria o caminho correto, pois daria transparência à aquisição e asseguraria o melhor preço pela instituição, a exemplo do que ocorreu na privatização do Banespa.

O jurista Marçal Justen Filho, especializado em direito administrativo e licitações, tem a mesma opinião. “A alienação de bens e direitos da administração pública deve ser feita por meio de licitação. E o Banco do Brasil não pode ter benefícios em face de outros bancos privados.” Segundo Justen, a não realização de licitação quando há obrigatoriedade pode ser considerada crime.

Na visão de outros especialistas, no entanto, o negócio pode ser concretizado, mesmo sem leilão. “A aquisição é viável juridicamente, pois trata-se de transferência de ativos dentro da esfera do patrimônio público”, afirma Alessandro Octaviani, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

“Não há alienação do patrimônio público, ou seja, transferência do público para uma empresa privada. O leilão pode ser feito para dar transparência ao processo, mas, nesse caso, não há obrigação legal”, afirma Gilberto Bercovici, professor de direito econômico da Universidade de São Paulo (USP).

SINDICALISTAS

Ontem pela manhã, em reunião com o presidente do Banco do Brasil, Antônio de Lima Neto, lideranças sindicais manifestaram preocupação quanto à preservação de direitos e a possíveis demissões caso o negócio se concretize. O presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Luiz Claudio Marcolino, disse que espera do Banco do Brasil respeito aos contratos vigentes entre a Nossa Caixa e seus funcionários. “Quando ocorreram as privatizações de bancos, na década de 90, o que vimos foi a redução de postos de trabalho e o fechamento de agências em todo o País.”

Para o deputado estadual Davi Zaia (PPS-SP), presidente da Federação dos Bancários de São Paulo, as negociações entre o governo de São Paulo e o Banco do Brasil colaboram para intensificar a concentração do setor financeiro. Mas critica os questionamentos feitos por Bradesco e Itaú. “Existe um processo de concentração, mas não é justo que somente os bancos privados possam participar disso.”
COLABOROU JOSÉ HENRIQUE LOPES

23/05/2008 - 16:07h “Wall Street Journal”: nova descoberta pode elevar Brasil a potência petrolífera

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BBC - Portal O Globo

LONDRES - O jornal americano ‘Wall Street Journal’ diz na edição desta sexta-feira que a nova descoberta de petróleo na Bacia de Santos, anunciada na quarta-feira, “esquenta especulações” sobre a ascensão do Brasil ao grupo dos grandes exportadores globais e de que o país tem reservas suficientes para “aliviar a pressão sobre os crescentes preços do petróleo”.Segundo a reportagem, “a descoberta é a última em uma série de ações bem sucedidas da empresa, aumentando as esperanças de que o Brasil será a nova grande novidade em petróleo global”.”Com o preço do petróleo batendo novos recordes, grandes descobertas no Brasil iriam aumentar o otimismo da indústria energética de que o país poderia suprir petróleo suficiente para manter o ritmo da crescente demanda”, diz o jornal.” Nas negociações na quinta-feira, na Bolsa de Nova York, o preço do barril caiu US$ 2,36, ou 1,8%, para US$ 130,81 o barril, em parte diante da perspectiva de maior suprimento vindo do Brasil”, afirma o Wall Street Journal.Segundo o jornal, as descobertas seriam especialmente bem-vindas nos Estados Unidos, garantindo uma nova fonte de petróleo em seu hemisfério.”O foco de atenção é a Bacia de Santos, uma série de campos de petróleo potenciais enterrados sob milhas de águas ocêanicas, terra e uma teimosa camada de sal. A perfuração exploratória em diferentes campos produziu petróleo bastante similar, alimentando uma excitante nova teoria: de que a bacia pode ser um contínuo mega-depósito de petróleo.”O jornal afirma, no entanto, que apesar do otimismo, observadores dizem que há boas razões para ceticismo.”A exploração e a extração de petróleo em águas super-profundas são uma empreitada cara e arriscada. O sal que fica sobre os potenciais campos soma desafios técnicos porque muda de lugar e é propenso a mudanças bruscas de pressão. E apesar dos avanços na tecnologia de imagens geológicas, é impossível saber a quantidade e a qualidade do petróleo escondido em um depósito até que ele comece a jorrar - um processo que leva anos.”Mas, segundo o WSJ, os investidores não estão esperando para apostar neste potencial.”A fatia da Petrobras negociada publicamente aumentou tanto este ano que o valor de mercado da companhia ultrapassou o de empresas de nomes conhecidos, como a General Electric e a Microsoft “, afirma o jornal.Segundo a reportagem, só com as reservas já encontradas o Brasil, provavelmente, chegaria ao topo dos exportadores latino-americanos.”Para um país que começa a abandonar seu passado como país em desenvolvimento volátil, tanta bonança pode ser bom ou ruim. O dinheiro do petróleo vai encher os cofres do governo, mas também pode deixar o Brasil tentado a adotar hábitos esbanjadores de outros grandes exportadores de petróleo”, conclui o WSJ.

18/04/2008 - 05:45h Governo vai alterar a tributação de petróleo e gás

Silvia Costanti / Valor

Edison Lobão, ministro das Minas e Energia: “Percebo um clamor nacional no sentido de uma melhor distribuição”

Daniel Rittner - VALOR

A descoberta de reservas gigantes de petróleo na camada pré-sal da costa brasileira fará o governo mexer na tributação do setor. Não há pressa em concluir os estudos, mas já existem avaliações preliminares: a forma mais rápida e viável de mudança é preservando o modelo atual, de contratos de concessão, com um decreto presidencial aumentando as participações especiais (tributo que varia de 10% a 40% e é cobrado só de campos com alta produtividade).

Esses pagamentos, hoje concentrados excessivamente no caixa do Estado e municípios do Rio, devem ser mais bem distribuídos. Além disso, as gerações futuras precisam beneficiar-se da exploração dos recursos naturais recém-descobertos - o que, na prática, significa criar vinculações para destinar os royalties a investimentos em infra-estrutura ou a um fundo para uso futuro, em vez de gastos com custeio ou despesas supérfluas.

Essas avaliações foram feitas ao Valor por duas importantes autoridades do governo na área energética. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, afirmou que “os técnicos estão estudando” a melhor forma de atualizar a legislação do setor. Ele disse não ter formado convicção sobre o regime de exploração mais adequado à nova realidade brasileira: contratos de concessão, partilha da produção ou prestação de serviços. Mas adiantou que a redistribuição de royalties é um tema a ser tratado.

“O petróleo não pertence a A, B ou C. Então, é bom que todos participem. É razoável e justo que municípios e Estados onde o petróleo foi encontrado se beneficiem, mas a concentração existe hoje e percebo um clamor nacional no sentido de melhor distribuição”, disse Lobão ao Valor, fazendo a ressalva de que não se trata de uma posição fechada. “Só sou a favor da democratização dos bens”, esclareceu.

Em dois meses, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado apresentará proposta de redistribuição dos pagamentos. O presidente da CAE, Aloizio Mercadante (PT-SP), vê inconsistências na divisão atual dos royalties e participações especiais, em que o Rio fica com 86% dos recursos entregues aos Estados e nove prefeituras fluminenses têm 62% do que é distribuído aos municípios.

Para não diminuir as receitas ao Rio, a proposta do Senado deverá prever um “mecanismo de transição”, segundo Mercadante, em que o Tesouro do Estado e dos municípios fluminenses continuarão recebendo a mesma fatia dos royalties pagos atualmente, mas ficarão com parte menor do bolo futuro, advindo dos megacampos.

É certo que qualquer redistribuição das receitas do petróleo e do gás natural enfrentará resistências de bancadas de Estados, além do Rio, como Espírito Santo, Bahia e Rio Grande do Norte, hoje beneficiados. O deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP), titular da Comissão de Minas e Energia, diz que a Câmara insistirá na aplicação mais criteriosa das receitas petrolíferas, que hoje financiam desde shows musicais até calçadões. Ele também está preocupado com o uso indiscriminado dos royalties no pagamento da folha de pessoal de municípios. “Eles não podem servir para gastos de custeio”, frisou.

A discussão sobre como distribuir os royalties e o regime de exploração das reservas brasileiras está sendo feito por grupo coordenado pelo Ministério de Minas e Energia, que parte da seguinte pergunta: uma vez constatado o real volume aproximado das reservas recém-descobertas, qual será o ritmo de exploração delas? Isso implica decidir se compensa produzir aceleradamente no médio prazo (com vistas a incrementar a exportação) ou produzir menos e guardar o grosso das reservas para uso posterior, assumindo o pressuposto de que o petróleo será recurso natural cada vez mais estratégico e, diante da possível escassez em décadas, mais valorizado.

Uma coisa é consenso dentro do governo: mudou o nível de risco de exploração do petróleo no país e tornou-se provável, para uma empresa petrolífera, encontrar óleo em abundância em boa parte da camada pré-sal, no território que vai do Rio a Santa Catarina. Sem risco, o sistema regulatório precisa mudar. Em princípio, o modelo mais indicado, na visão preliminar do governo, é elevar a cobrança de participações especiais, definida em decreto, sem a necessidade de ajustes na Lei do Petróleo, de 1997.

O regime de prestação de serviços é visto como afugentador de investimentos estrangeiros e, portanto, o menos desejado. Mas avalia-se também o sistema de partilha da produção. Nesse regime, as empresas que exploram petróleo no país entregam quantidades volumosas - às vezes mais de 80% - da produção a uma estatal.

O Brasil teria uma excentricidade se adotasse esse modelo com uma estatal, a Petrobras, com capital aberto e ações em bolsas internacionais. Como fechar o capital da Petrobras seria inviável, a alternativa para adotar a partilha seria criar uma nova estatal, menos operacional e mais gerencial. Ou seja, não furaria poço, mas representaria a União, tornando-se “guardiã” dos recursos petrolíferos, ficando com parte do óleo produzido pelas companhias, Petrobras ou multinacionais. Até agora, contudo, segundo fontes do governo, tudo são apenas hipóteses teóricas.

A ministra chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, reagiu com perplexidade à pergunta sobre a possibilidade de o governo criar uma nova empresa estatal petrolífera, após as descobertas de novas áreas de exploração na camada do pré-sal. “Nunca escutei uma história dessa!”, disse. (Colaborou Cláudia Safatle, de Brasília)

18/04/2008 - 05:40h Novas jazidas vão modificar regulamentação do petróleo

Daniel Rittner, Cláudia Safatle, Cláudia Schüffner e Samantha Maia - VALOR

A descoberta de reservas gigantes de petróleo na camada pré-sal da costa brasileira fará o governo mudar, no mínimo, a tributação do setor. Mas, dentro e fora do governo, já ocorre um debate muito mais amplo, sobre a alteração ou não do modelo de exploração dessas reservas - o que traz dúvidas sobre a extensão das mudanças e seus impactos para investidores e para a própria Petrobras.

Se a mudança for apenas para permitir maior participação do país no lucro da indústria, ela poderá ser feita por meio de mudanças na alíquota da Participação Especial (PE), o que não exige alterar a Lei do Petróleo (9.478/97). Porém, mudanças mais profundas, que envolvam nova repartição e alteração na alíquota dos royalties ou mesmo novo modelo de exploração, teriam de ser levadas ao Congresso. Se isso acontecer, a discussão pode levar anos.

No governo, não há pressa em concluir os estudos, mas por avaliações preliminares a forma mais rápida e viável de mudança é preservar o modelo atual, de contratos de concessão, e, por decreto presidencial, aumentar as participações especiais (tributo que varia de 10% a 40% e é cobrado só de campos com alta produtividade). A cobrança justificaria-se por ter-se reduzido muito o risco de exploração no país.

Associadas à concepção do menor risco aparecem as propostas de partilha da produção. Nesse regime, as empresas que exploram petróleo entregam quantidades volumosas - às vezes mais de 80% - da produção a uma estatal. Nos países que o adotam, a estatal não tem ações em bolsa. Por isso, começam a surgir defensores de uma nova empresa pública do setor, que faria a gestão do modelo, sem furar poços. Na Petrobras, uma ala tem defendido o fechamento das áreas do pré-sal ainda sem concessão para investidores estrangeiros.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, reagiu com perplexidade à pergunta sobre a possibilidade de o governo criar uma nova empresa petrolífera: “Nunca escutei uma história dessa!”

A discussão da partilha dos royalties - hoje concentrados no Rio de Janeiro - está mais avançada. “O petróleo não pertence a A, B ou C”, disse o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, ao Valor, admitindo uma revisão dos critérios em vigor.

16/04/2008 - 09:23h A mídia no poço de petróleo

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Confesso que não percebo a lógica de alguns jornalistas. Uma autoridade do governo diz que é possível que o Brasil tenha reservas de petróleo gigantescas e que as reservas do “Carioca”, na Bacia de Santos, podem ser cinco vezes maiores que as do Tupi, tudo isto a confirmar e verificar. Os jornais transformam está declaração em um furo, sem checar se existe alguma novidade nesta declaração, e as bolsas se entusiasmam com o “furo” jornalístico, isto prova que o governo nomeia pessoas incompetentes?

Leiam a nota de Dora Kramer hoje e a seguir o artigo da Folha, também de hoje. Tudo confirma que nenhum segredo foi violado, nenhuma declaração foi além do que já tinha sido dito e publicado e os investidores não foram enganados com nenhuma informação manipulada.

Mas jornais e rádios continuam atacando o governo e dando destaque ao que não tem importância.

Leiam e julguem vocês mesmos. LF

Erro de pessoa

Dora Kramer

“O ex-deputado Haroldo Lima, hoje diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, certamente não se precipitou sobre descobertas da Petrobrás por má-fé.

Como político, agiu conforme a lógica de uma atividade que utiliza a versão sem preocupação rigorosa com fato consumado.

Isso não o absolve do erro crasso. Ao contrário, amplia a culpa do dano aos responsáveis por sua nomeação.

Evidencia a inadequação das indicações políticas para cargos que exigem formação, conhecimento e treino sobre os códigos e mecânica do setor. Quem não tem intimidade com o que faz nem dispõe da visão completa sobre como se faz, em algum momento faz bobagem.”

Dados circulam desde o final de 2007

DA SUCURSAL DO RIO - FOLHA DE SÃO PAULO

As informações sobre o potencial da área de exploração conhecida como Carioca (bloco BM-S-9) circulam entre analistas do setor, consultores e publicações estrangeiras desde o fim do ano passado.
A própria ANP, em nota, afirmou que a informação sobre o potencial do campo Carioca já havia sido publicada na coluna “What’s New in Exploration”, na edição de fevereiro da revista “World Oil” -uma publicação especializada sediada em Houston, no Texas.
No texto, o jornalista Arthur Berman relata a descoberta de três campos gigantes no litoral brasileiro, Tupi, Júpiter e Carioca: “Se os relatos sobre o tamanho potencial da estrutura de Carioca/Pão-de-Açúcar se mostrarem corretos, com a estimativa de 33 bilhões de barris de óleo (a média entre 25 bilhões e 40 bilhões de barris), e as reservas estimadas de Tupi e Júpiter forem precisas, em 6,5 bilhões de barris cada uma (a média entre 5 bilhões e 8 bilhões), o Carioca/Pão-de-Açúcar seria o terceiro maior campo de óleo do mundo”.
Antes, no dia 17 de dezembro, o site norte-americano “Next Energy News” relatou que a Petrobras havia descoberto o maior campo de petróleo dos últimos 30 anos, com potencial cinco vezes maior do que o verificado em Tupi. A publicação credita a funcionários da estatal brasileira a informação de que o campo Pão-de-Açúcar poderá produzir até 40 bilhões de barris de petróleo.
Também em dezembro, no dia 11, a agência de notícias especializada em negócios “Business News Americas” relatou a existência de duas áreas de exploração na bacia de Santos que poderiam ser maiores do que o campo de Tupi -e credita a informação a um relatório do banco de investimento UBS Pactual, divulgado em dezembro. Além do UBS Pactual, o Crédit Suisse também distribuiu, em novembro, um relatório sobre a Petrobras intitulado “O novo paradigma da exploração”. O texto detalha as principais ações de exploração da estatal em quatro campos do pré-sal: Tupi, Caxaré, Pirambu e Carioca.
Uma das fontes de informação mais utilizadas pelos jornalistas que cobrem o setor nos Estados Unidos são os relatórios da IHS, uma consultoria com sede em Englewood, no Colorado. Ela produz relatórios, artigos e estudos sobre diversas indústrias -da aeroespacial à do petróleo-, cobrindo a atuação de empresas em todo o mundo. Mas muitas dessas informações não estão abertas ao público, são vendidas. Por meio da IHS, é possível acompanhar as atividades de exploração da Petrobras na bacia de Santos, por exemplo. O serviço pode custar até US$ 5.000 por ano. (ROBERTO MACHADO)

15/04/2008 - 12:19h Crise nas bolsas: falta ou sobra testosterona?

Hormônios influenciam ganho na bolsa de valores

Estudo com operadores de Londres relaciona alto nível de testosterona a lucro

Cortisol, hormônio ligado ao controle do estresse, subiu com a variação do resultado do operador e em resposta à volatilidade do mercado

RICARDO BONALUME NETO

DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA DE S.P.

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Hormônios não afetam apenas humores; aumentam a chance de fazer fortuna ou cometer bobagens em uma bolsa de valores. Uma pesquisa mostrou que operadores do mercado financeiro que começam a trabalhar com altos níveis de testosterona no sangue tiveram lucros acima da média.

A pesquisa, feita com operadores em Londres, mostrou ainda que o hormônio cortisol, ligado ao controle do estresse, aumenta de acordo tanto com a variação dos resultados do operador quanto em resposta à volatilidade do mercado.”Eu costumava trabalhar em Wall Street e observava alguns operadores tomarem atitudes não-racionais, e a pesquisa foi uma tentativa de explicar isso”, disse à Folha por telefone o líder do estudo, John Coates, professor do Departamento de Fisiologia, Desenvolvimento e Neurociência da Universidade de Cambridge, Reino Unido, e também da sua escola de administração de empresas.

Coates e o colega Joe Herbert, do departamento de fisiologia da mesma universidade, fizeram medidas de hormônios no local de trabalho de 17 operadores -homens de 18 a 38 anos com rendas anuais que variavam de 12 mil a mais de 5 milhões de libras.

As medidas eram feitas a partir de amostras de saliva às 11h e às 16h. Nenhum dos operadores tomou medicação ou comeu algo que pudesse interferir no sistema endócrino, nem recebeu notícia de caráter pessoal que pudesse afetar o humor (e os hormônios).

A testosterona é produzida em parte nos testículos, em parte no córtex adrenal (a região mais externa das glândulas supra-renais). Ela medeia o comportamento sexual e comportamentos competitivos.”O papel da testosterona já foi notado antes em atletas”, diz Coates. Ela aumenta em esportistas se preparando para uma competição, ainda mais se eles ganham, além de diminuir nos que perdem. O efeito aumenta a confiança e a propensão a correr riscos e eleva as chances de ganhar de novo.”

Como a testosterona provou estar associada a ganhar e perder, e o cortisol tem um papel na resposta ao estresse e à incerteza, desenvolvemos a hipótese de que esses esteróides responderiam à tomada de risco financeiro”, escreveram os dois autores em artigo na edição de hoje da revista “PNAS” (www.pnas.org), da Academia de Ciências dos EUA.

Eles previram que a testosterona aumentaria em dias lucrativos e o cortisol aumentaria pelo estresse das perdas acima da média. Os resultados confirmaram a primeira previsão, mas sugerem que o cortisol está mais vinculado à incerteza do que à perda de dinheiro.

Eles alertam, porém, que testosterona em excesso pode ser algo negativo: o operador fica muito ousado e assume riscos perigosos. Segundo Herbert, isso pode influenciar outras pessoas que trabalham sobre grande pressão e têm de tomar decisões rápidas -como controladores de tráfego aéreo-, podendo alterar seu desempenho.

09/04/2008 - 19:18h Interesse nacional

Merval Pereira - O Globo

O que vem a ser o “interesse nacional”? Como definir as bases da participação do Brasil num mundo que cada vez mais exige uma integração internacional para o desenvolvimento sustentável? Para tentar responder a essas perguntas e debater a nossa atualidade, está chegando às bancas e livrarias do país a revista “Interesse Nacional”, uma idéia do embaixador Rubens Barbosa, que no número de estréia trava um bom debate com o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, sobre nossa política externa na América do Sul. O conselho editorial da revista é plural, com nomes como o do exportavoz de Lula André Singer, os advogados João Geraldo Piquet Carneiro e Joaquim Falcão, o ex-governador de São Paulo Cláudio Lembo, o presidente da Bolsa, Raymundo Magliano, o geógrafo Demétrio Magnoli, o sociólogo Sérgio Fausto e o jornalista Roberto Pompeu de Toledo.

Na apresentação, fica definido que “a democracia e a inserção internacional são parte do interesse nacional brasileiro, aquela como valor, esta como objetivo. Se a democracia é um valor que queremos preservar, e se a inserção internacional é hoje, mais do que nunca, uma condição do desenvolvimento, resta perguntar como se inserir no mundo para fortalecer a democracia e promover o desenvolvimento”.

No editorial, os editores defendem que o lugar de um país no mundo global e a sua capacidade de gerar bem-estar às suas populações dependem “das escolhas que ele internamente souber fazer, corrigir ou sustentar, ao longo do tempo, a partir de uma determinada interpretação de seus interesses e valores comuns e de uma certa leitura das oportunidades e riscos que o ambiente externo oferece à sua realização”.

Estaria a política externa brasileira na América do Sul correspondendo às escolhas certas? O embaixador Rubens Barbosa defende que não. Para ele, do ponto de vista do interesse nacional, “não estão claramente identificados nem os objetivos políticos e econômicos do Brasil nem as prioridades para o desenvolvimento de uma agenda brasileira para a região”.

Na sua opinião, o Brasil não parece estar captando corretamente o significado das transformações políticas que estão ocorrendo na região “em função do declarado viés ideológico que norteia a nossa atuação externa.

Assim, nossos interesses estão sendo crescentemente afetados e continuam carentes de uma resposta adequada.

O que vemos é uma agenda que não é a nossa sendo executada por nós”.

Ele atribui essa indefinição à “dualidade de interlocução externa”, dividida entre a assessoria internacional da Presidência da República e o Itamaraty, que “tem tornado mais difícil a formulação de uma política externa clara para a América do Sul, visto que, em muitos casos, o profissionalismo diplomático é deixado de lado e substituído por motivações políticopartidárias e ideológicas que nem sempre coincidem com os interesses nacionais mais permanentes”.

A disputa pela liderança regional com a Venezuela e a construção de uma imagem de parceiro generoso e não imperialista levaram o governo brasileiro, analisa Barbosa, “a distribuir ajuda financeira e prometer investimentos, nem sempre podendo compatibilizar as iniciativas bilaterais dentro de uma estratégia de integração”.

Já o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, defende o ponto de vista de que o Brasil optou “por uma associação com países de seu entorno, com os quais comparte história, valores e possibilidades de complementação econômica”.

Por essa razão, diz ele, a América do Sul, transformouse em prioridade de sua política externa. “Essa opção decorre da percepção brasileira acerca das potencialidades da América do Sul no mundo de hoje, mas, sobretudo, no de amanhã”.

Ele passa a enumerar as razões dessa prioridade: “O continente tem o maior e mais diversificado potencial energético do planeta, se levarmos em conta suas reservas hidrelétricas, de gás e de petróleo, além de sua capacidade de produção de biocombustíveis.

A América do Sul possui a maior reserva de água doce do mundo”.

“Sua agricultura ocupa lugar de destaque, não só pela extensão e fertilidade de suas terras, como pelos avanços científicos e tecnológicos alcançados nos últimos anos. Suas jazidas minerais são enormes e diversas”.

Marco Aurélio Garcia ressalta que “para um mundo que se mostra (e se mostrará mais ainda) ávido de energia, água, alimentos e minérios, os fatores antes alinhados mostram quão relevante pode ser a contribuição da região para o desenvolvimento da humanidade. Some-se a tudo isso a rica biodiversidade do continente, o tamanho de sua população, a extensão e a diversidade de seu território e clima”.

O assessor especial da Presidência destaca, claramente defendendo a Venezuela, que “América do Sul conseguiu superar a era das ditaduras. Todos os seus atuais governos foram eleitos em pleitos marcados pela lisura e pela amplitude da participação popular”.

Para ele, “a efervescência social que se pode detectar em alguns países é expressão da incorporação recente de milhões de homens e mulheres — antes excluídos da cidadania real — na vida política.

Isso explica, em grande medida, os choques desses novos personagens com a obsolescência dos sistemas políticos e instituições herdadas do passado”.

O ingresso da Venezuela no Mercosul pode representar uma mudança qualitativa no bloco, afirma Garcia. A alegada “instabilidade” da Venezuela deve ser vista, segundo ele, como uma razão suplementar para apressar o ingresso desse país no Mercosul. “Devese a todo custo evitar o isolamento de Caracas do contexto sulamericano”.

09/04/2008 - 19:11h Banco Mundial mostra o preconceito da imprensa brasileira

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*por Rui Falcão

rui_falcao.jpgUma avaliação do Banco Mundial (BIRD) sobre como a imprensa brasileira (escrita) cobre os fatos associados ao Bolsa Família constitui-se em testemunha eloqüente do preconceito, da má vontade, má fé e ignorância de grandes veículos de comunicação em relação ao programa e, por extensão, à implementação de ações do governo Lula em cumprimento ao preceito constitucional que obriga o Estado brasileiro a respeitar os direitos sociais.

Infelizmente, os leitores em geral, com exceção dos assinantes do jornal Valor Econômico, não puderam ter acesso ao conteúdo do documento, por razões óbvias: os meios de comunicação aos quais coube a carapuça recusaram-se até agora a divulgá-lo. É, pois, com o propósito de fazê-lo chegar ao conhecimento geral que transcrevo aqui o resumo, com base no que foi noticiado no Valor.
O Banco Mundial observa, de início, que a imprensa brasileira acompanha o Bolsa Família com atenção raramente vista em casos semelhantes no mundo, e tem preferência por mostrar mais as suas falhas que as suas virtudes. Assim, por exemplo, diz o estudo, a imprensa está mais preocupada com os desvios do programa – como a inclusão irregular de beneficiários – do que com eventuais imperfeições, como a existência de excluídos que deveriam ser contemplados e que por algum motivo não o foram ainda.

O documento informa que o Banco Mundial, ao contrário da imprensa nacional, avalia positivamente o programa e sugere a outros países que imitem a experiência brasileira. E, com tato diplomático, os pesquisadores do BIRD, para prevenir a opinião pública desses países quanto ao risco de incompreensão da natureza e dos objetivos do programa, a exemplo do que ocorre no Brasil, decidiram levar a eles também o debate estampado nas páginas dos jornais brasileiros. “O Bolsa Família é como jabuticaba, uma criação original do Brasil, que deu certo”, afirmou a pesquisadora Kathy Linders, do Departamento de Desenvolvimento Humano do Banco Mundial, uma das responsáveis pelo estudo, em entrevista ao jornal Valor Econômico.

Para a pesquisa, foram escolhidos seis jornais, três deles de circulação nacional, e acompanhados desde 2001, quando tiveram início, no governo FHC, programas de transferência de renda condicionada aos mais pobres, como o Bolsa-Escola e o Bolsa-Alimentação, reunidos pelo governo Lula no Bolsa Família.

Parêntesis, para um comentário: como era de esperar, o Banco Mundial, ao pressupor uma continuidade entre os programas de ambos os governos, deixa de lado a radical diferença doutrinária e política que distingue um do outro: os programas sociais de FHC, cunhados na ideologia neoliberal, limitavam-se a ajudar os pobres, aliviá-los das agruras da pobreza, assumida não como um produto da desigualdade gerada pela prevalência do poder das elites na gestão dos recursos públicos, mas como uma fatalidade, enquanto os do governo Lula visam a resgatar uma dívida social do Estado brasileiro, a atender aos direitos sociais, inscritos na Constituição Federal de 1988.

Para os neoliberais do Banco Mundial, e para os tucanos, que lhe são subservientes, as reivindicações sociais e culturais podem ser aspirações legítimas, mas jamais direitos. A visão neoliberal rejeita todo enfoque coletivo do direito: o indivíduo é o único sujeito juridicamente titular de direitos; e os violadores do direito somente podem ser indivíduos que devem assumir, como indivíduos, a plena responsabilidade. Ou seja, a pobreza é assunto restrito unicamente à esfera privada, nada cabendo ao Estado senão promover a “filantropização” das políticas sociais — no lugar do atendimento aos direitos sociais —, mediante estímulo a ações de “responsabilidade social” empresarial e iniciativas pontuais de primeiras-damas, como o programa “Comunidade Solidária” de FHC.

A visão neoliberal vê o mercado – e não o Estado - como o principal coordenador dos conflitos de interesse na sociedade e concebe essa sociedade composta por indivíduos atomizados. Dentro dessa lógica da suposta inexistência da sociedade, substituída pelo mercado, os indivíduos passam a ter de sobreviver por conta própria no mercado, em que são obrigados a competir uns com os outros e a incorporar maneiras de se tornarem competitivos. Aos menos capazes de se aliviar do fardo das desigualdades, resta perecer, assim como falecem as empresas ineficientes.

Retomando o estudo do Banco Mundial: desde 2001, quando o governo FHC passou a dar alguma atenção para os programas sociais, de cunho assistencial, o debate na imprensa foi pautado por avaliações favoráveis às transferências de renda. Já as críticas aos problemas de implementação aumentaram sensivelmente após 2003, ano em que assumiu o governo Lula. O número de artigos sobre a Bolsa Família publicados entre 2003 e 2006 foi quase o dobro do total de artigos sobre o tema, no governo FHC, observa o estudo.

Os pesquisadores constataram que, entre os “temas quentes” da imprensa, os relatos sobre fraudes e controles, que ocupavam 10% das matérias durante o governo FHC, passaram a constar de 50% dos artigos publicados, em 2004, no governo Lula. Nos anos seguintes, com a implementação das providências de controle e revisão do cadastro tomadas por Lula, o tema perdeu importância relativa, até ocupar menos de 20% dos artigos em 2006.

Os técnicos do Banco Mundial comentam também que a imprensa nem sempre diferencia entre problemas causados por fraudes e irregularidades burocráticas, de um lado, e desconhecimento de regras ou erros em formulários, de outro, o que, na avaliação dos especialistas, dá aos leitores uma impressão equivocada sobre a natureza dos “desafios” do programa. A propósito, enfatizam que um terço das notícias sobre irregularidades tem como fonte o próprio governo, as suas agências de controle ou os ministérios. Somente em mais de um quarto das notícias foi a imprensa quem investigou e encontrou problemas. Está aí uma notícia que a imprensa em geral jamais fez chegar ao conhecimento do leitor, acrescentamos nós, num evidente propósito de desqualificar o sistema de acompanhamento e controle do programa por parte do governo Lula.
Segundo informa Valor Econômico, em reunião com autoridades do Ministério do Desenvolvimento Social e da Presidência da República, em 01/04/2008, os técnicos do banco sugeriram “campanhas e cursos para que os jornalistas adotem os termos técnicos no tratamento noticioso das irregularidades dos programas”.
Seria muito profícuo que tais campanhas e cursos começassem por informar que existem diferentes abordagens da pobreza e distintos modos de combatê-la. A maneira de definir e lidar com a pobreza revela conflitos sociais, ideológicos e políticos entre grupos de interesses, entre classes, partidos políticos e agências multilaterais, entre outros. A imprensa brasileira está longe de ser neutra nesse debate, como mostra o estudo do Banco Mundial.
A seguir, tais campanhas e cursos poderiam contribuir para remover preconceitos sociais e morais existentes na sociedade brasileira, que inspiram boa parte das críticas da imprensa ao Bolsa Família. E por detrás de uma abordagem limitada de pobreza (à renda, por exemplo), as campanhas e cursos poderiam apontar a existência da dimensão da desigualdade — questões de acesso à educação, ao trabalho, contextos políticos e sociais perversos e sua reprodução, étnicos, de gênero e de reconhecimento social, gerados, entre outros, por uma situação econômico-social iníqua, que privilegia elites minoritárias, há séculos no controle do poder do Estado e que impede a grande maioria do povo brasileiro de se apoderar da própria cidadania.

O discurso moral dos “falcões do colunismo” distingue o bom pobre do mau pobre. Graças a esse artifício, evitam indispor-se com seus eleitores contrapondo-se frontalmente a um programa aprovado pela maioria do povo brasileiro, ao mesmo tempo em que abrem espaço à sua retórica de desqualificação, por supostamente produzir efeitos inversos aos pretendidos, serem ineficazes e eleitoreiros.

Parte das críticas ressalta o efeito indesejável da concessão de benefícios. Um deles é que os benefícios seriam tantos que os beneficiários passam a não querer trabalhar mais. Essa visão reflete, mais do que um preconceito, falta de informação sobre a situação na qual boa parte da população brasileira vive. De fato, o Bolsa Família gera alívio imediato na economia familiar, mas não é suficiente para que as famílias vivam unicamente dele.

Ademais, como observa a pesquisadora Sarah Mailleux Sant’Ana, o trabalho é compreendido pelos beneficiários do Bolsa Família não apenas como um modo de obter renda, mas também como meio de inserção social que lhes permite serem reconhecidos e respeitados como cidadãos úteis ao conjunto da sociedade. A maioria das pessoas desempregadas oficialmente ou que não têm empregos estáveis realiza trabalhos informais e temporários para aumentar a renda familiar, mas também trabalhos não remunerados que fortalecem os laços de solidariedade.

Outro preconceito refere-se ao destino dos benefícios. Nas Ciências Sociais, aprende-se que a categoria economia não é compreendida pelas pessoas somente pela renda, mas também pela ação (e sentido) social que a renda e os laços sociais criam. No trabalho de campo, realizado por Sant”Ana, observou-se que a maioria das famílias entrevistadas gasta os recursos recebidos na sobrevivência direta e imediata, mas outras fazem investimentos. A imprensa ignora o papel social, de expectativa de reconhecimento e inclusão, associado a esses investimentos. É o caso de duas beneficiárias: uma comprou um tanque para lavar roupa para fora, que o aluga para vizinhas e o empresta para amigas; outra parcelou a compra de um aparelho de DVD com parte do Bolsa Família para criar um cinema comunitário em sua casa, cobrando R$0,50. Nas festas de crianças, os filmes são oferecidos gratuitamente. Ao proceder dessa maneira, o que elas têm em mente é não somente capitalizar a renda, investir para que possam gerar mais renda, mas também fortalecer seus laços sociais e solidários, observa a pesquisadora, potencializando dessa forma as possibilidades de sua inserção social e de reconhecimento como cidadãos livres e ativos.

Nesse sentido, gastar parte do dinheiro do Bolsa Família no cabeleireiro para participar de um casamento pode ser considerado não um desvio de finalidade, mas um investimento de trocas simbólicas: o gasto na boa apresentação pessoal é uma deferência para com os noivos e convidados. Reciprocamente, em um momento posterior de necessidade, as pessoas assim honradas poderão retribuir de modo solidário. As mulheres que cuidam das crianças dos outros gratuitamente asseguram que, quando precisarem, seus filhos também serão cuidados.

Isso é dizer que sobreviver é assegurar o atendimento das necessidades biológicas e ao mesmo tempo assegurar um lugar (social) na comunidade. A escala da renda não é o bastante: pode-se ser rico (financeiramente) e fraco (socialmente); pobre (financeiramente) e forte (socialmente), afirma Sant’Ana. Sobreviver é ser capaz de se manter socialmente. Nesse sentido, as trocas são indispensáveis: mais que a movimentação de dinheiro e de bens, é a sensação de compartilhar de um destino comum que importa. É preciso relacionar-se, criar aliados, ou seja, abrir-se, ser visto para que os objetos necessários (móveis, tanques, bicicletas) circulem.

É desse modo que os próprios beneficiários percebem o Bolsa Família. A grande maioria dos entrevistados demonstra satisfação, não diretamente com a materialidade do benefício (a transferência de renda), mas com outras iniciativas, como o Programa Nacional de Agricultura Familiar, o acesso à eletricidade, o acesso aos remédios nas farmácias populares, o acesso à saúde e melhorias na escola. A relação com a vizinhança, de acordo com os entrevistados, também melhorou com o fortalecimento de laços de solidariedade e de novas amizades. Por aí se pode observar que o programa desempenha um papel relevante na garantia de uma autonomia mínima, na capacidade de planejar o futuro, no consumo e na qualidade alimentar, entre outros.

Outro preconceito, que poderia ser desfeito nas campanhas e cursos, é que o Bolsa Família seria um instrumento político de manipulação eleitoral, uma recaída no clientelismo clássico. Esquece-se, assim, deliberadamente que na esfera pública de direitos inscreve-se a obrigação do Estado de assegurar o direito à subsistência a todos os habitantes de uma nação. A esse respeito lembra-se que sob os auspícios do governo Lula, em setembro de 2006, foi aprovada no Congresso Nacional a Lei Orgânica da Segurança Alimentar, que consolida a concepção de uma renda mínima como direito do cidadão. Essa lei dissocia o direito à subsistência de iniciativas de um partido político ou de um governo e insere-o na agenda social brasileira como obrigação legal do Estado. A não garantia desse direito representa uma violação dos direitos fundamentais e lesão do direito à vida.

Também faz parte do conjunto de preconceitos morais dos falcões do colunismo a obsessão por responsabilizar os pobres pela situação precária em que vivem. A denúncia desse preconceito, indissociável do pensamento neoliberal, poderia ser utilizada pedagogicamente nas campanhas e cursos sugeridos pelo Banco Mundial, para suscitar a discussão na imprensa sobre o papel do Estado no resgate da dívida social.

Rui Falcão, 64 anos, jornalista e advogado, é deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores. Foi deputado federal, presidente do PT e secretário de governo na gestão Marta Suplicy

07/04/2008 - 15:01h Perversidade, futilidade e ameaça

Aloizio Mercadante - O Globo

aloizio_mercadante.jpgPerversidade, futilidade e ameaça. Esses são os argumentos básicos que, de acordo com Albert O. Hirschman, os conservadores utilizam para criticar políticas que podem introduzir mudanças progressistas na ordem social. Como tais políticas perseguem, em geral, objetivos nobres, os conservadores não podem a elas se opor frontalmente. É necessário desqualificá-las. Assim, tenta-se mostrar que elas produzem efeitos inversos aos pretendidos (argumento da perversidade), ou que elas não têm resultados (argumento da futilidade), ou ainda que tais políticas põem em risco outras conquistas (argumento da ameaça).

No Brasil, ante o êxito das internacionalmente elogiadas políticas sociais do governo Lula, a retórica conservadora vem assestando suas baterias contra seus principais programas, notadamente o Bolsa Família. Argumenta-se que o Bolsa Família não diminui a evasão escolar e tem pouco impacto distributivo (argumento da futilidade), que tal programa aumenta a dependência dos beneficiários em relação ao poder público, em vez de promover sua autonomia como cidadãos (argumento da perversidade), e ainda que o Bolsa Família, ao usar escassos recursos públicos de forma fútil, põe em risco a necessária melhoria da educação (argumento da ameaça).

Mas vamos aos fatos.
Os resultados do suplemento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE), de 2006, sobre acesso a programas de transferência de renda, são elucidativos. Os dados demonstram, em primeiro lugar, que os programas, que beneficiam cerca de 10 milhões de lares brasileiros (18,3% do total), estão bem focados nos domicílios de baixa renda e nas famílias mais numerosas. Com efeito, o rendimento médio per capita dos domicílios que receberam benefícios era, em 2006, de R$ 172, contra R$ 699 daqueles que não receberam.

Ademais, os domicílios beneficiados têm, em média 4,6 moradores, contra 3,4 moradores dos lares que não recebem auxílios. Outro dado importante tange ao fato de que, nos domicílios beneficiados, 67,9% dos moradores se declararam pretos ou pardos, ao passo que, nos não-beneficiados, tal número foi de apenas 43,4%, o que indica que tais programas podem contribuir para diminuir as desigualdades raciais.

Em segundo, a pesquisa também comprovou que os programas melhoram a situação social dos beneficiados e reduzem o trabalho infantil. A Pnad captou que, embora tenha aumentado, em todos os domicílios, a posse de bens duráveis, graças ao crescimento econômico e ao incremento dos rendimentos, esse aumento foi maior nos lares que receberam os benefícios. No que tange ao trabalho infantil, verificou-se o mesmo fenômeno. Houve redução em todos os domicílios, mas a redução naqueles que recebem benefícios (de 15,6%, em 2004, para 14,4%, em 2006) foi maior do que a verificada nos que não auferem (de 9,8% para 9,6%, no mesmo período).

Entretanto, o resultado mais interessante desse suplemento da Pnad diz respeito à educação. Os dados demonstram que os domicílios beneficiados apresentam altas taxas de freqüência escolar, muito próximas às apresentadas pelos domicílios não-beneficiados, o que não deixa de surpreender, dadas às grandes desigualdades na renda dessas duas classes de domicílios. Saliente-se que nas regiões Nordeste e Norte, principais beneficiadas pelo programa, os índices de freqüência escolar dos domicílios beneficiados são até maiores do que os dos demais domicílios para a faixa etária do ensino obrigatório (7 a 14 anos).

Embora seja ainda muito cedo para se aferir o impacto real desses programas na educação do brasileiro, tais informações, somadas aos estudos específicos realizados pelo Ipea e o Banco Mundial, permitem inferir que os programas sociais do governo Lula estão bem focados, têm efeitos relevantes na redução da pobreza e da desigualdade social e criam condições para que seus beneficiários tenham uma “porta de saída” nas oportunidades geradas pela educação. Contudo, a melhoria da educação, condição sine qua non para garantir essa porta de saída, continua a ser o principal desafio estrutural do Brasil.

Assim sendo, a retórica conservadora contra o governo Lula e seus programas sociais vem se tornando cada vez mais ideológica e sem sustentação empírica. Tende a repetir os surrados argumentos da perversidade, da futilidade e da ameaça. Se continuar assim, corre o risco de não apresentar resultado algum, ou de produzir resultado contrário ao esperado, ainda que tenha o potencial de ameaçar, no futuro, essas conquistas de todos os brasileiros.

ALOIZIO MERCADANTE , 53, economista e professor licenciado da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), é senador da República pelo PT-SP.