20/10/2009 - 08:16h Capital estrangeiro terá 2% de IOF

dinheirocorrendoMantega confirma criação da alíquota sobre a entrada de investimentos externos em renda fixa e variável

Anne Warth e Ricardo Leopoldo – O Estado SP

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, confirmou ontem a informação antecipada pelo Estado sexta-feira: o governo decidiu impor a taxação de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre a entrada de capital estrangeiro para investimentos em renda fixa e variável.

A alíquota, de 2%, será cobrada apenas na entrada do dinheiro, e não haverá diferença entre recursos de curto e de longo prazo. O investimento estrangeiro direito (IED) continua isento. A decisão entra em vigor com a publicação de medida provisória na edição de hoje do Diário Oficial da União. O Banco Central não participou da elaboração dessa medida. Ontem pela manhã, porém, Mantega conversou sobre o assunto com o presidente do BC, Henrique Meirelles.

O real é uma das moedas que mais se valorizaram ante o dólar em 2009. Até a última quinta-feira, a moeda brasileira ocupava o topo do ranking dos maiores ganhos, com quase 29%. A seguir, vinha o rand sul-africano, perto de 28%. No acumulado até ontem, o dólar caía 26,72% ante o real. Ontem, a moeda americana subiu 0,06% e fechou a R$ 1,711.

Mantega ressaltou que a aplicação de imposto sobre a entrada de capital estrangeiro tem como objetivo evitar “excesso de especulação na bolsa de valores e no mercado de capitais, em razão da grande liquidez que existe hoje no mercado internacional”. Segundo ele, o Brasil é muito atrativo para o investidor externo e a medida foi adotada de maneira preventiva, pois ainda não há entrada maciça de dólares, prejudicial à economia.

Ainda de acordo com o ministro, o objetivo também é proteger a produção nacional, incentivar a volta dos investimentos e preservar o emprego dos trabalhadores. “Queremos impedir um excesso de valorização do real. Quando o real se valoriza, acaba encarecendo as exportações e barateando as importações, e já temos um aumento expressivo das importações e as exportações não estão crescendo como deveriam.”

O ministro destacou que o Brasil trabalha com câmbio flutuante e o objetivo da alíquota não é estabelecer um nível específico da cotação do real ante o dólar, porque a política econômica não tem meta de câmbio. “O que queremos é apenas conter qualquer movimento de valorização excessiva da nossa moeda. Queremos, portanto, reduzir o potencial de eventuais movimentos de volatilidade no câmbio.”

Com bom humor, ele afirmou que “convenceu”, na tarde de ontem, o presidente Lula da necessidade de IOF nessas transações. Questionado se havia alguma dúvida específica de Lula, o ministro respondeu à Agência Estado, de forma educada: “Aí você já está querendo saber demais. O presidente queria ter uma avaliação plena dos pontos positivos e os não tão favoráveis em relação à medida”.

Indústria comemora decisão

A decisão do governo de cobrar imposto sobre o capital estrangeiro investido no País foi recebida com satisfação pela indústria, que há tempos reclama dos efeitos da valorização do real frente ao dólar. “Alguma coisa precisava ser feita, pois no ritmo que vinha, o dólar caminhava para chegar à cotação de R$ 1,50″, disse o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. Segundo ele, a medida anunciada ontem demonstra que o governo está disposto a fazer alguma coisa para impedir que o câmbio continue deteriorando a pauta de exportações do País.

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, afirmou que “a valorização acumulada do real é de quase 30%, sendo que as exportações de manufaturados caíram os mesmos 30% até setembro ante igual mês de 2008. O governo sabe da inquietação dos exportadores, porque afeta o emprego na indústria”.

dinheirocorrendoPedágio para os capitais

Celso Ming – O Estado SP

A decisão de taxar a entrada de capitais com um Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), de 2%, é um jeito de “fazer alguma coisa” para tentar reverter a queda do dólar no câmbio interno.

Esse pedágio vem para encarecer o dinheiro que vem de fora, sem que ele tenha tido tempo de render alguma coisa. Como avisou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a ideia é conter a entrada de capitais especulativos, que se destinem tanto para o mercado de renda fixa (compra de títulos) como para o mercado de ações. O objetivo é cobrar o imposto apenas na entrada e não na saída, tanto maior quanto menor for o tempo de permanência, como anteriormente anunciado.

Em outubro do ano passado, o governo retirou o IOF de 1,5% na entrada de capitais que instituíra em março de 2008, mas alcançava apenas as aplicações estrangeiras em títulos do Tesouro. A decisão não chegou a reverter a tendência do câmbio. Mas, desta vez, a alíquota é mais alta. E alcança também os negócios da Bolsa.

Será inevitável certo impacto tanto na cotação do dólar como no mercado de ações. Mas fica difícil avaliar previamente as proporções desses efeitos. As ações de empresas brasileiras são mais negociadas em Nova York do que em São Paulo e, para aplicação nas bolsas estrangeiras, não há imposição de IOF.

No caso dos negócios com ações, pode-se esperar dois efeitos colaterais. Primeiro, haverá migração dos negócios que normalmente seriam feitos na Bolsa de São Paulo para as bolsas estrangeiras, especialmente para a de Nova York. E, segundo, como as bolsas estrangeiras negociam apenas ações (ou ADRs) de empresas grandes (large caps), parece inevitável, também, que as ações de empresas menores (small caps) sejam relativamente mais prejudicadas do que as das grandes.

O ministro Mantega avisou ontem que pretende apenas atingir o exagero na entrada de capitais. Além disso, o alvo é o chamado capital especulativo. A ideia de atingi-lo pode ser equivocada. Se o capital é especulativo, vem para cá apenas para morder um dinheiro fácil e, em seguida, levantar voo. Se é assim, a valorização do real que eventualmente tenha provocado na entrada seria prontamente invertida por ocasião da saída.

Em geral, intervenções assim têm pouco alcance. Nas primeiras semanas deverão provocar impacto no câmbio, mas não têm força para reverter uma tendência firme. Servem, no entanto, para mostrar serviço.

O governo precisa sequiosamente de capitais externos para financiar as obras da Copa e da Olimpíada, para o pré-sal, para o PAC, para a capitalização da Petrobrás e tanta coisa mais. E o sinal que está passando é de que não quer qualquer capital.

De todo modo, é estranho que mexidas no câmbio, ainda que aparentemente superficiais, como esta, sejam antecipadas a conta-gotas para os mercados. O câmbio define o preço mais importante de uma economia. Não se pode ser leviano com matéria dessa importância. Se é para fazer mudança no câmbio, ela tem de ser feita e anunciada como fato consumado. Não pode ser preanunciada com balõezinhos de ensaio, como aconteceu desde quinta-feira da semana passada, com tempo suficiente para quem quisesse fazer posições ou se desfazer delas no mercado futuro.

dinheirocorrendoA xepa da banana, o dólar e o IOF

VINICIUS TORRES FREIRE – FOLHA SP

Taxar capital externo deve mexer pouco no câmbio; medida não mexe com o pior da especulação no mercado

O IOF sobre investimento externo em ações e renda fixa deve afetar parte pequena do mercado cambial, embora tenda a elevar o custo de capital para empresas. Mais importante, a medida sugere que o governo padece de: 1) interpretação ingênua do que ocorre no mercado; 2) incapacidade de inventar e adotar medidas que contenham excessos especulativos. Isto é, a Fazenda não consegue mexer com o Banco Central -e com bancos.
O mercado de dólares não funciona como uma xepa de feira. Quando sobra banana madura no final da feira, liquida-se a fruta pelo preço possível, sempre mais baixo que no início da manhã. Para o feirante, é melhor ganhar algum pela banana do que jogá-la fora, sem ganhar nada.
Faz meses, o BC tem comprado todo o “saldo do fluxo cambial” (isto é, a sobra de dólares no mercado) e mais um pouco. Logo, aparentemente, não sobram dólares bastantes para que ocorra uma xepa, na qual a moeda americana perderia ainda mais valor em relação ao real.
Porém, o dólar continua a se desvalorizar, como é evidente. Logo, o mercado de dólares não parece funcionar como uma feira de bananas. Mas os mercadores de moedas (bancos) levam em conta oferta e procura. Parece contraditório, mas o mercado de câmbio tem lá suas mumunhas, depende do mercado de juros, não opera apenas à vista e é global, o que enrola muito a avaliação das causas do “real forte”.
Imagine-se que se forme uma fila para a compra de bananas baratas, no fim da feira. Imagine-se ainda que o feirante, ao notar que há muito comprador para bananas maduras, possa adquirir frutas no atacado e a baixo custo de financiamento. A banana barata e a juro zero é o dólar. O BC compra a grande oferta de banana. Os bancos são os feirantes.
Em resumo, tudo se passa como se a promessa de compra de dólares (bananas) pelo BC estimulasse os bancos (feirantes) a trazer ainda mais dólares para o país (pois há a expectativa de baixa adicional do dólar, e não só aqui). Mas há ainda outras tecnicalidades do mercado de câmbio que afetam os preços.
De menos incerto, sabe-se que o mercado crê na entrada de muitos dólares no país, via investimento “produtivo”, nas finanças e via comércio exterior. O dólar perde valor no mundo todo e “custa” pouco (tomar empréstimo em dólar é muito barato). Dada a garantia de que alguém comprará os dólares que se desvalorizam, financiar-se em dólares, no exterior, para oferecer empréstimos em reais é um bom negócio. Em suma, a lei da oferta e da procura funciona, mas por mecanismos mais complicados. E a variação excessiva do real depende ainda de outras condições, como a liberdade dos bancos de “especular” com moedas; ou das compras ou vendas do BC.
Escrever “especulação” é pedir para ser tachado de ingênuo ou coisa pior. Porém, como definir uma variação de preço de R$ 1,60 para R$ 2,50, e de volta a R$ 1,70 em um ano?
Esse foi o preço do dólar num país que não viveu crise cambial, que tinha R$ 200 bilhões de reservas, deficit externo e fiscal controlados etc. A volta do IOF pouco deve afetar a especulação (afora a de curtíssimo prazo). E é difícil imaginar alguma medida de curto prazo a fim de evitar a tendência de alta do real.

vinit@uol.com.br

03/08/2009 - 11:51h Em prol das cotas para a população negra nas universidades

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Natália Maria Alves Machado – Correio Braziliense

Fórum de Mulheres Negras do DF

É muito evidente que, embora haja momentos de confluência, a questão da população negra no Brasil não é unicamente socioeconômica, uma vez que essa mesma população carrega em seus corpos as marcas de uma história e de um presente de desumanização; corpos que são continuamente desqualificados por sua origem cultural e suas características. Os reflexos disso, não apenas ditos por mim, mas pelas estatísticas, são uma enorme ausência de pessoas negras em postos de poder/relevância/mídia/padrões hegemônicos e de elevada presença destas pessoas nos índices de marginalização.

A mobilidade social no Brasil é dificílima, mas pode-se aumentar a renda, também troca-se de roupa, mas nunca de corpo. Não basta matemática financeira para resolver algo tão complexo e, ainda que ocorra uma revolução de valores que reveja esse fenômeno, são necessárias medidas emergenciais. Trata-se de vidas tolhidas, a lentidão de processos históricos arbitrários não dá conta da urgência dessas demandas de humanidade.

Mesmo sanada a questão econômica, o que geralmente não ocorre e torna tudo ainda mais difícil, as marcas da discriminação continuam a prejudicar a trajetória de quem passa por isso. Não se está apenas diante de condenação a uma natureza inferior, mas de uma socialização inferiorizante. A questão é sociológica e não biológica, não custa reafirmar. É como se uma/um negro tivesse que correr uma maratona com toneladas nas costas, toneladas impostas, as toneladas do racismo. As cotas são uma espécie de corretor dessa distorção.

O sistema de cotas é um sucesso. Em todo o país, tem formado profissionais excelentes e com o adicional da diversidade de origens culturais. Isso é fato irrefutável! Ganham os/as cotistas, ganham as universidades, ganha-se em conhecimento, toda a sociedade se beneficia.

Ações contrárias são mostras da reação de quem não enxerga o diferente como digno e quer manter a exclusão para assim também manter privilégios. Todos (as) cotistas são aprovadas no vestibular. Não há critérios facilitadores, há apenas concorrência específica: negros concorrem com negros dentro daquele percentual de vagas. As provas e os critérios são os mesmos. E mesmo assim, além do mérito da prova, pessoas negras, assim como outras pessoas de grupos preteridos, possuem o mérito de uma trajetória de superação. Há menos de 150 anos, o Brasil mantinha senzalas e ainda hoje as mantém em seus padrões de exclusão desumanizadora. Não há esforço individual capaz de ignorar a força das condicionantes de origem estrutural.

Se as cotas são importadas dos EUA? Absolutamente não, e ainda que fossem, importa-se tudo, moda e teorias científicas, inclusive vícios e dominação. Por que agora é errado importar medidas positivas? Não há importação e sim esforço transnacional conjunto e adaptado à realidade de cada país. O Brasil é signatário de acordos internacionais que preveem essas medidas e que aqui representam força de lei. Não há aí inconstitucionalidade, mas sim reparação de uma dívida histórica.

Cotas mudam imagens, possibilidades profissionais, padrões culturais, dinâmica de espaços de poder; criam combinações intelectuais mediante a proximidade de pessoas antes apartadas, podendo inclusive gerar ideias e resoluções; afetam toda uma estrutura e não apenas sujeitos individualizados, levam a sociedade a rever suas regras e a experimentar o poder de nelas intervir; não desqualificam outros grupos ou outras questões, antes abrem espaço para a ampliação da noção de igualdade em todas as formas que esta pode assumir; não excluem outras medidas como a melhoria do ensino no geral, ou distribuição de renda e sim fazem parte desse esforço conjunto para superação das desigualdades de todas as origens.

Nada disso é fácil de ser alcançado, assim como não é fácil dar continuidade ao atual estado das coisas. Para coabitarmos nste mundo não há saídas possíveis fora do esforço de transformação.

28/07/2009 - 10:55h Grupos brasileiros crescem em ranking dos maiores do mundo. Petrobras avança do 37º para o 8º lugar

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Para consultoria, números mostram que empresas do País estão se recuperando mais rápido

Renato Cruz – O Estado SP

As grandes empresas brasileiras estão entre as que mais se valorizaram no mundo no primeiro semestre, avançando no ranking das 300 maiores empresas globais, por valor de mercado, elaborado pela consultoria Ernst & Young. O levantamento mostrou a recuperação das empresas depois do ponto mais crítico da crise mundial, no final do ano passado.

O número de empresas brasileiras na lista passou de cinco, em dezembro, para oito, em janeiro, com três delas entre as 100 maiores: Petrobrás (8º lugar), Vale (46º) e Itaú Unibanco (76º). Entre as 300 maiores, ainda aparecem o Bradesco (120º), a AmBev (147º), o Banco do Brasil (204º) e o Banco Santander do Brasil (254º). O estudo tem como base o valor das ações das empresas ao fim do semestre.

“A recuperação está muito alinhada com os Brics”, disse Paulo Sérgio Dortas, sócio da área de transações corporativas da Ernst & Young, referindo-se ao grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China. “A Rússia e a China também se recuperaram.”

O total de empresas chinesas na lista das 100 maiores passou de oito no fim de 2009 para 11 em junho. No entanto, as três brasileiras entre as 100 maiores foram as que apresentaram a maior valorização, com valor conjunto de US$ 313,8 bilhões. Elas subiram 101%, ficando muito à frente das russas, que acumularam um aumento de 42%, com o segundo melhor resultado entre os países.

A China tem três empresas entre as dez maiores: Petrochina (1º), Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) (3º) e China Construction Bank (6º). A operadora de telecomunicações China Mobile (5º) tem sede em Hong Kong. A Petrochina ultrapassou a americana Exxon Mobil, que ocupava o topo da lista no fim do ano passado e passou para o segundo lugar.

A Petrobrás é a única empresa brasileira entre as 10 maiores. Seu valor de mercado passou de US$ 95,895 bilhões para US$ 164,818 bilhões, avançando do 37º para o 8º lugar no ranking. A Vale subiu do 68º para o 46º lugar, com um valor de mercado de US$ 89,317 bilhões, o que equivale a um crescimento de 48% no trimestre. “A valorização da Petrobrás e da Vale reflete, em grande parte, a recuperação do mercado de commodities”, destacou Dortas.

A alta dos bancos brasileiros, com a entrada de dois deles na lista das 300 maiores empresas, mostra como eles foram pouco afetados pela crise, quando comparados com as instituições de países desenvolvidos. “Uma notícia muito boa foi o avanço da AmBev, que está muito mais ligada à situação do País que ao mercado internacional”, disse o consultor. “É uma empresa que depende mais do mercado interno, e sua recuperação mostra que as classes C, D e E continuam consumindo.”

Com base nos dados do estudo, Dortas apontou que já existem sinais de que a retomada do crescimento começa a acontecer mais rápido que o esperado, puxada pelos Brics. “O Brasil e a China são os carros-chefe, e estão surpreendendo quem só esperava uma recuperação para 2010.”

As empresas americanas e europeias perderam espaço na lista das 300 maiores do primeiro semestre, com um crescimento da Ásia. “Apesar de ainda estarem em primeiro lugar, essas economias têm perdido pujança”, apontou. O total de empresas americanas entre as 300 maiores manteve-se estável, com perdas de posições para muitas delas, enquanto o número de empresas europeias caiu de 110 para 95. Entre as 100 maiores, a presença europeia passou de 46 para 35 companhias.

Depois de cair 22% no primeiro semestre de 2008 e 33% no segundo, o valor das 300 maiores empresas voltou a crescer, com expansão de 8%, ou US$ 1,1 trilhão. No ano passado, perderam US$ 11,3 trilhões.

13/07/2009 - 11:39h O mundo se resume a Brasil e China

De Olho na Bolsa

Daniele Camba – VALOR

Desde que a atual crise financeira deu os seus primeiros sinais, no início do segundo semestre do ano passado, o que mais se falou é do descolamento positivo do mercado brasileiro (o “decoupling”), consequência direta dos sólidos fundamentos econômicos do país. Essa, no entanto, é uma meia verdade. Os gráficos mostram que, além do Brasil, os investidores estrangeiros também foram para a bolsa da China, à procura dos melhores retornos entre os países emergentes.

Um estudo feito pela RC Consultores revela como a bolsa brasileira e a chinesa se alternaram na preferência dos investidores internacionais, com ganhos muito interessantes. Desde o início da crise, é possível perceber três momentos bem distintos entre os dois mercados. No primeiro, entre setembro do ano passado – quando houve a quebra do banco americano Lehman Brothers e a crise internacional de fato se deteriorou – e fevereiro deste ano, o Índice Shangai teve um desempenho muito melhor que o Índice Bovespa, especialmente em janeiro e fevereiro deste ano. Entre 15 de setembro, dia da quebra do Lehman, e o fim de fevereiro, o Índice Shangai se valorizou em dólar 0,21%, enquanto o Ibovespa caiu 45,11% na moeda americana.

Num segundo momento, entre março e maio deste ano, o mercado brasileiro nitidamente tem um desempenho melhor que o chinês. Nesse período, o Ibovespa teve uma alta de 67,95% em moeda americana e o Índice de Shangai de apenas 26,63%. No último movimento, que começou no mês passado e vai até hoje, os dois mercados inverteram as posições, com o Índice Shangai subindo 18,12% e o Ibovespa registrando uma queda de 9,39%, ambos em dólar.

“Houve uma polarização entre Brasil e China, com o investidor estrangeiro preferindo ora a bolsa chinesa, ora a Bovespa”, diz o economista-chefe da RC Consultores, Marcel Pereira, responsável pelo estudo. Esse fluxo maior ou menor de recursos internacionais explica boa parte do movimento cambial desde o começo da crise. “É um comportamento inédito já que, historicamente, o câmbio sempre esteve ligado muito mais ao lado real da economia e menos ao fluxo para ativos financeiros”, diz Pereira.

Até fevereiro, quando o saldo líquido (diferença entre compras e vendas de ações) de estrangeiros na Bovespa continuava fortemente negativo, o câmbio se aproximava dos R$ 2,40 por dólar. A partir de então, esses investidores trocaram a China pelo Brasil e, no fim de maio, até quando durou a valorização da Bovespa, o dólar chegou a R$ 1,94.

“Não foi uma simples coincidência as ações subirem no mesmo momento em que o real se valorizou frente o dólar; foi a entrada de dinheiro externo na bolsa que fez as ações subirem e o dólar cair”, explica o economista-chefe da RC Consultores. Por fim, desde junho, com a saída de uma parte dos recursos estrangeiros, o Ibovespa caiu e o dólar voltou a se valorizar ante o real, fechando a sexta-feira em R$ 2,00.

A atual crise só reforçou a preferência pelas bolsas chinesa e brasileira que já vinha ocorrendo nos últimos anos. Entre 2003 e 2007, o Ibovespa, por exemplo, acumulou uma valorização de 1.031% em dólar (é esse percentual mesmo, não é erro de digitação). Já entre agosto de 2006 e outubro de 2007, o Índice Shangai subiu 287,96% na moeda americana. Os fundamentos macroeconômicos explicam essa predileção pelos mercados financeiros dos dois países. Em primeiro lugar está a China, cujo Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos anos cresceu a taxas de dois dígitos. No caso do Brasil, a história é bem mais modesta, pelo menos em termos de crescimento do PIB. No entanto, a razoavelmente recente estabilidade econômica trouxe junto uma importante evolução dos fundamentos do país.

É importante lembrar, no entanto, que as duas economias já deram alguns sinais de alerta que vale a pena considerar. “No Brasil, há uma piora na situação fiscal, enquanto na China a economia cresce bem menos do que nos últimos anos”, diz Pereira. “Além disso, existem dúvidas sobre a força do mercado de crédito chinês, mesmo com o pacote de estímulo do governo.”

Também não é à toa que os dois mercados prediletos são de países altamente relacionados às commodities: o Brasil como produtor e a China tanto como produtor quanto como consumidor. O ciclo de alta dessas matérias-primas, como petróleo, minério de ferro e aço entre 2003 e o primeiro semestre de 2008, trouxe prosperidade para os dois países. Consequentemente, atraiu olhares e bolsos cheios internacionais.

O futuro das commodities no médio prazo também é um fator a se pensar quando se fala do destino das bolsas brasileira e chinesa. “Recentemente, houve uma valorização de algumas matérias-primas, como o petróleo, mas graças apenas a um movimento especulativo por parte dos investidores, já que não existe um aumento de demanda real”, completa Pereira.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

E-mail: daniele.camba@valor.com.br

15/06/2009 - 11:01h Emergentes vivenciam novo boom. Será exuberância irracional ou sinais de crescimento forte?

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Ming Uong/The New York Times

Há sinais de uma retomada econômica global, com pouca ajuda da Europa e dos EUA

Por VIKAS BAJAJ e KEITH BRADSHER   newyorktimes_folha2.gif

Mumbai, Índia
Investidores em Londres e Nova York têm testemunhado primeiros sinais de uma tênue retomada, mas seus colegas nos países em desenvolvimento dizem estar assistindo a uma recuperação plena.
Após uma queda esmagadora, os mercados de ações nos países emergentes navegam numa onda de otimismo de que a recuperação da economia global seja iminente e estaria sendo liderada pelo mundo em desenvolvimento, especialmente a China. Embora os mercados emergentes ainda estejam muito abaixo dos picos que alcançaram há mais de um ano, os investidores estão novamente vendo suas chances de crescimento como melhores que as de EUA ou Europa.
O resultado disso é que o índice acionário Nifty, da Índia, deu um salto de mais de 60% nos últimos três meses. O índice acionário chinês CSI 300, de Xangai e Shenzehen, e a brasileira Bovespa tiveram alta de cerca de 35% cada durante o mesmo período. Comparada com isso, a alta de cerca de 25% do índice Standard & Poor’s 500 parece modesta.
“Houve uma corrida para a porta de saída no quarto trimestre”, disse Gonzalo Pangaro, gerente de portfólio no Fundo de Ações de Mercados Emergentes T. Rowe Price. “O mercado está começando a perceber que, embora esses mercados enfrentem problemas, os problemas são administráveis.”
A produção industrial vem se recuperando na China, e o mesmo ocorre com as vendas de carros na Índia e o varejo no Brasil.
Pode tudo isso ser exuberância irracional? As avaliações atuais são extremamente fortes: os preços das ações no Nifty indiano e na Bovespa estão cerca de 20 vezes maiores que os rendimentos. No CSI 300, os preços estão 29 vezes maiores que os rendimentos (os analistas se guiam pelo axioma de que ações de uma empresa vendidas por cerca de 15 vezes os rendimentos são corretamente precificadas).
A visão otimista é que esses índices preço/rendimento altos refletem o retorno do interesse pelo risco nos mercados, algo que normalmente acompanha uma perspectiva mais positiva, e a crença de que esses países estariam preparados para retomar um crescimento econômico forte.
A visão cética diz que as economias teriam de saltar para índices de crescimento de dois algarismos para justificar essas avaliações e que isso só pode indicar a formação de uma bolha.
Os mercados emergentes normalmente apresentam oscilações maiores que os países desenvolvidos. Cada uma das grandes economias em desenvolvimento -os países Bric, ou seja, Brasil, Rússia, Índia e China- enfrenta fraquezas que podem prejudicar sua recuperação.
Os fluxos de exportações e investimento estrangeiro, cruciais para muitos países em desenvolvimento, continuam anêmicos. Os gastos governamentais vêm tomando parte do lugar deles, mas os déficits fiscais crescentes em países como a Índia podem limitar o que os governos podem fazer para estimular suas economias.
Por enquanto, fala-se pouco em cautela. Na Índia, o mercado acionário subiu ainda mais quando o governo saiu vitorioso das eleições nacionais, no mês passado.
Madhabi Puri-Buch, executiva-chefe da Icici Securities, em Mumbai, disse que a Índia tem condições melhores que outros países de superar a crise porque o consumo interno continua a crescer. As vendas da maior montadora de automóveis do país, por exemplo, a Maruti Suzuki, cresceram mais de 10% em maio. “Os conselhos de direção da maioria das empresas estão dizendo que precisamos traçar planos de crescimento futuro, e não tanto que deveríamos estar nos preparando para um inverno prolongado”, disse ela.
Outros analistas afirmam que os fundamentos da economia indiana não melhoraram suficientemente para justificar o grande crescimento.
Na China, a produção industrial começou a se recuperar, e as importações de commodities vêm aumentando. Mas a recuperação se concentra em setores domésticos que se beneficiam do programa de estímulo do governo. As exportações ainda sofrem dificuldades.
“Prevemos que a atividade manufatureira continue a se ampliar nos próximos meses, auxiliada pelos estímulos oferecidos pelo governo”, disse Jing Ulrich, diretor do JPMorgan Chase na China.
Mercados emergentes da Ásia oriental também dão sinais de recuperação. A economia de Taiwan, por exemplo, encolheu 10,2% no primeiro trimestre em comparação com o mesmo período do ano passado, mas a aproximação com a China continental elevou a confiança dos investidores.
Bancos centrais em toda a região têm mantido os juros baixos, e alguns, como o das Filipinas, têm reduzido os índices para contrabalançar as exportações fracas.
A Indonésia esteve protegida contra a recessão global por seu grande mercado doméstico e sua dependência limitada das exportações. E o país está se beneficiando do aumento da demanda internacional por seus recursos naturais.
No Brasil, prejudicado pela queda nos preços de commodities, a produção industrial tem crescido a cada mês desde janeiro, embora ainda esteja muito mais baixa que no período correspondente de 2008.
Apesar da recessão, o mercado acionário brasileiro vem subindo. “Quando houve pânico, os investidores fugiram para os EUA para comprar títulos do Tesouro”, comentou Alessandra Ribeiro, economista da consultoria Tendências. “Agora estão diversificando outra vez. O Brasil é claramente um dos escolhidos.”

Vikas Bajaj reportou desde Mumbai, e Keith Bradsher desde Dongguan, China. Colaborou Andrew Downie, em São Paulo

27/05/2009 - 11:03h País recebe US$ 5,7 bilhões em investimentos estrangeiros

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Dinheiro para a produção entrou entre abril e 26 de maio; ingresso de investimento financeiro também cresceu

 

Sérgio Gobetti, BRASÍLIA – O Estado SP

 


Em menos de dois meses, o Brasil já absorveu cerca de US$ 9 bilhões do mercado internacional para investimentos produtivos e especulativos, refletindo os bons ventos que voltaram a rondar a economia brasileira e que estão por trás da recente melhoria dos indicadores financeiros, como bolsa de valores e taxa de câmbio.

Em abril, os investimentos estrangeiros diretos (IED) somaram US$ 3,4 bilhões, número comparável aos que eram registrados no ano passado, antes do agravamento da crise internacional. Os investimentos em ações trouxeram outros US$ 630 milhões. Em maio, os dados parciais são ainda mais expressivos: US$ 2,5 bilhões entraram no país para IED e nada menos do que US$ 2,3 bilhões foram para a bolsa até o dia 26.

Os investimentos de renda fixa também estão crescendo neste mês, rendendo outros US$ 811 milhões de ingressos líquidos. Os bons fundamentos macroeconômicos do país estariam, segundo o governo, por trás desse movimento.

“Mais do que a quantidade, a qualidade dos ingressos é positiva, pois são investimentos de longo prazo, que denotam interesse efetivo no País”, disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.

Para analistas do mercado, entretanto, o afluxo de capital estrangeiro pode revelar interesses mais imediatistas, que levam os investidores a preferir o Brasil a outros países emergentes. Os exportadores também se preocupam com o crescimento da entrada de recursos do exterior, já que eles tem levado à valorização do real, que torna menos competitivos os produtos brasileiros no mercado externo.

O clima de confiança também fez crescer os investimentos brasileiros no exterior, que somaram US$ 2,8 bilhões em abril, depois de sucessivos meses de retiradas líquidas. Nesse caso, entretanto, a saída de dólares afeta negativamente o balanço de pagamentos.

No cômputo geral do fluxo de dólares, o Brasil registrou um ingresso líquido de US$ 4,5 bilhões entre abril e maio, invertendo tendência anterior de perda. Somente em maio, na parcial do dia 26, o saldo positivo do chamado fluxo cambial chega a US$ 3,1 bilhões.

Das reservas internacionais mantidas pelo BC, o valor líquido em caixa somava US$ 190,5 bilhões no final de abril. O estoque de operações em linhas com compromisso de recompra totalizava US$ 4 bilhões, enquanto o de empréstimos em moeda estrangeira somava US$ 6,7 bilhões.

NÚMEROS

US$ 4,5 bilhões
foi o ingresso líquido de dólares registrado pelo Banco Central, pelo fluxo cambiam, entre abril e maio

US$ 3,1 bilhões
é o resultado do fluxo cambial até o dia 26 de maio, segundo o BC

US$ 190,5 bi
eram as reservas internacionais do BC em abril

26/05/2009 - 12:04h Fundamentos económicos bons leva aplicadores internacionais a dar preferência pelos ativos brasileiros

De Olho na Bolsa:
Fluxo externo já é o maior da história

Daniele Camba – VALOR

Em um dia bastante chocho devido o feriado nos EUA e no Reino Unido em homenagem a todos os mortos em guerras (Memorial Day), os novos números sobre investimento estrangeiro vieram a calhar. No mês, até dia 20, o saldo líquido (diferença entre as compras e vendas) está positivo em R$ 4,683 bilhões, uma das melhores cifras desde o início de 2007, perdendo apenas para abril do ano passado (mês em que o Brasil foi alçado ao grau de investimento pela primeira vez), positivo em R$ 6 bilhões. O melhor número, no entanto, é no acumulado do ano que, até dia 20, está positivo em R$ 9,8 bilhões, o maior fluxo externo da história, desde que os estrangeiros passaram a poder aplicar na Bovespa, em 1994, a partir de uma regulamentação conhecida como Anexo IV. Até agora, o melhor saldo anual foi em 2003, de R$ 7,495 bilhões, exatamente no ano em que a bolsa brasileira começou a sua trajetória de cinco anos consecutivos de valorização.

Em dólar, segundo cálculos da própria bolsa, o saldo deste ano continua sendo recorde, de US$ 4,618 bilhões. Até então, o maior era o de 1996, de US$ 3,372 bilhões. O fluxo atual de entrada de recursos na bolsa é ainda mais animador se comparado aos números dos últimos dois anos, desde que a crise financeira internacional se instalou no mundo. Entre 2007 e 2008, houve uma saída líquida de R$ 28,9 bilhões. Só no ano passado, a fuga foi de R$ 24,6 bilhões. Pois é exatamente essa volta dos investidores estrangeiros a grande patrocinadora da acentuada recuperação da Bovespa desde abril, a despeito do movimento negativo da bolsa americana. Para se ter ideia, no ano, em dólar, o Índice Bovespa acumula uma alta de 56,30%, enquanto o índice Standard and Poor’s de 500 empresas (S&P-500) cai 1,80% e o índice Dow Jones, 5,69%.

Esse caminhão de dinheiro desembarcando no mercado brasileiro é, segundo analistas, um sinal de que esses investidores já vislumbram uma recuperação da economia mundial se não este ano, no mais tardar em 2010. Como os fundamentos tanto do Brasil quanto das empresas locais são superiores aos da maioria dos outros países, os aplicadores internacionais dão preferência pelos ativos brasileiros de risco.

A enorme diferença entre o desempenho da Bovespa e da Bolsa de Nova York (Nyse) é algo que merece toda a atenção. Pode ser um sinal de alerta, que o mercado brasileiro poderá passar por uma fase de realização de lucros, ou que o americano irá se valorizar. “Essa distância entre as duas bolsas é muito grande e no mínimo estranha até pela histórica correlação que existe entre ambas”, diz o gestor de renda variável da Infinity Asset Management, George Sanders. Na visão dele, no que depender da onda de notícias, é o Índice Bovespa que ficará quieto no seu canto. “O Ibovespa na casa dos 51 mil pontos já reflete todos os indicadores econômicos positivos que saíram recentemente; ou saem novos números bons, o que parece pouco provável, ou as ações ficarão onde estão”, completa Sanders. Ontem, o Ibovespa fechou em tímida alta de 0,49%, aos 50.816 pontos, com volume financeiro de apenas R$ 1,5 bilhão.

Melhor que um, pior que outro

Em relatório divulgado ontem, a Ativa Corretora faz uma análise dos balanços do primeiro trimestre. O lucro líquido de 122 companhias brasileiras de capital aberto nos primeiros três meses do ano caiu 26% ante o mesmo período de 2008. Já comparado ao último trimestre do ano passado, os resultados do primeiro trimestre de 2009 representam um crescimento de 13%. Uma possível leitura desse levantamento é que o pior momento da crise já pode ter ficado para trás, mas ainda é muito cedo para dizer que tudo vai bem, obrigada. Para este trimestre, a Ativa recomenda ações voltadas ao mercado interno, como teles, elétricas, shopping centers, consumo, tecnologia, varejo e logística.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

E-mail: daniele.camba@valor.com.br

24/05/2009 - 13:01h Como os chineses combatem a crise

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Wieland Wagner * – Der Spiegel – O Estado SP

Tudo é pintado de vermelho brilhante, desde o teto das barracas protegendo a multidão de compradores, até os banners que os estimulam a comprar. Wang Shiqin, um lavrador de 62 anos, chegou ao mercado nas primeiras horas da manhã. Como muitos consumidores, já comprou um aparelho de TV, mas quer também comprar seu primeiro refrigerador – tudo subsidiado pelo governo chinês.

A atmosfera é uma mistura de carnaval e de comício nesse mercado em Feidong, cidade da Província de Anhui, na zona rural, a três horas de trem de Xangai. Os vendedores promovem a altos brados seus aparelhos domésticos, especialmente as marcas internas, que se beneficiam da campanha do governo para combater a crise financeira global.

Os chineses estão entre os mais disciplinados poupadores do mundo, economizando quase cinco vezes mais do que sua renda disponível nas contas bancárias, como os alemães fazem. Mas agora o Partido Comunista deseja promover o consumo coletivo.

Os 800 milhões de agricultores do país são estimulados a se tornar os necessários novos clientes da fábrica global da China. É a mesma opinião do Ocidente, onde não se deixa escapar o menor grão de otimismo sugerindo que a crise em breve vai acabar.

Na semana passada, o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, disse cautelosamente que a economia global estaria “perto de uma reviravolta”. Um artigo de capa do jornal de negócios alemão Handelsblatt dizia que “o mergulho vertiginoso da economia alemã parece ter sido controlado”. As exportações da Alemanha podem estar saindo do vermelho graças, em parte, à Ásia.

Mas mesmo os membros do governo em Berlim não se arriscam a uma previsão se esta é uma tendência real de reversão ou apenas fogo de palha. A China parece ser a principal responsável por essa ponta de otimismo. O Ocidente, por seu lado, está esperando um aumento de interesse da China por seu maquinário, seus produtos e know-how.

O Ocidente espera que milhões de consumidores chineses, como o agricultor Wang, acabem substituindo os consumidores europeus e americanos, que estão comprando menos e menos produtos “made in China”, desde que a crise começou. Só em abril, a exportações chinesas despencaram 22%.

REGIÕES ATRASADAS

Não é preciso muito para convencer as massas chinesas a gastar o seu dinheiro, à medida em que se entusiasmam com suas compras, como em Anhui e outras províncias – particularmente nas regiões relativamente mais subdesenvolvidas do país – para onde Pequim atualmente vem canalizando enormes somas de fundos federais.

“Jiadian Xiaxiang”, ou “Aparelhos domésticos para os povoados”, é o título da campanha veiculada hoje na China. O programa de estímulo econômico é direto: os compradores precisam se identificar como agricultores. Depois de comprar seu novo aparelho de TV, máquinas de lavar roupa ou celulares, os clientes recebem um desconto de 13% sobre o valor da compra dos órgãos fiscais locais.

Pequim está usando programas de estímulo similares para promover a compra de carros. Um imposto cobrado sobre a compra de alguns carros pequenos foi reduzido à metade, chegando a 5%. O governo está gastando cerca de US$ 755 milhões, esperando estimular as vendas de veículos nas zonas rurais. E parece que isso está funcionando. Só no mês de março, os chineses compraram 770 mil carros novos, um aumento de 27% em relação ao mês anterior, e um novo recorde de vendas.

O programa de estímulo ajudou a China a superar os Estados Unidos como o maior mercado automobilístico do mundo. E esses programas, financiados com a ajuda de reservas monetárias vigorosas, podem também beneficiar o Ocidente.

Dificilmente um outro país está injetando dinheiro de modo tão entusiasta num ciclo econômico extenuado, e em nenhum outro lugar o governo está intervindo de modo tão rigoroso e profundo no mercado como na China.

A China foi um dos primeiros países a anunciar um programa de estímulo econômico. Em novembro de 2008, o governo lançou um plano de dois anos para injetar quatro trilhões de yuans (cerca de US$ 608 bilhões) na economia. Ou seja, quase sete vezes o que o governo alemão investiu na sua economia.

Desde o início da crise, Pequim lançou novos projetos de infraestrutura quase que imediatamente. Alguns deles tinham sido planejados para longo prazo, enquanto outros eram novos. Abrangiam a pavimentação ou consertos de 300 mil quilômetros de estradas, como também um investimento de US$ 92 bilhões em novas rodovias, duas vezes mais do que no ano anterior.

No ano passado, Pequim tinha congelado muitos projetos, de um lado para reduzir a poluição durante os Jogos Olímpicos e de outro para esfriar um pouco uma economia superaquecida. Como parte dessa estratégia, o banco central chinês aumentou seis vezes sua taxa de juros antes da crise, mas depois reverteu freneticamente o curso e reduziu as taxas cinco vezes consecutivas. Agora os responsáveis pelos planos econômicos em Pequim estão pisando de novo no acelerador, em todos os setores da economia.

O governo e o Partido Comunista estão rapidamente reduzindo a escala das suas preocupações com a proteção ambiental e a sustentabilidade, que nos últimos anos era muito grande, na China e no exterior. Em apenas dois dias, o Ministério do Meio Ambiente do país aprovou apressadamente 90 projetos num total de US$ 36 bilhões, incluindo usinas elétricas, fundições de alumínio, fábricas de cimento e usinas de aço.

Esse processo de aprovação acelerado foi apelidado, sem qualquer ironia, de “Passagem Verde”.

Os comunistas da China estão, repentinamente, de novo no seu elemento. Eles se acostumaram muito bem às campanhas do governo, e isso remonta ao tempo em que Mao Tsé-tung invocou o “Grande Salto para a Frente”, nos anos 50, e mais tarde lançou a Revolução Cultural.

NO MESMO BARCO

Hoje, o inimigo público número um do partido é a crise global, que se propagou a partir dos Estados Unidos, grande mercado exportador de Pequim. A China também está inquieta com seus investimentos financeiros nos Estados Unidos. Com cerca de um terço das reservas cambiais, de US$ 1,9 trilhão, investido em títulos do Tesouro americano, a China é o maior credor da superpotência ocidental. Em outras palavras, chineses e americanos estão basicamente sentados no mesmo barco furado.

Para proteger seus devedores de um colapso, os chineses não têm outra escolha senão continuar comprando títulos do Tesouro dos Estados Unidos. No entanto, Pequim procura tirar vantagem da crise para se colocar como alternativa aos Estados Unidos e uma futura superpotência. É gratificante para a liderança chinesa observar como o Ocidente busca soluções que têm um cheiro de capitalismo de Estado.

Os líderes chineses têm uma boa chance de vencer essa competição global, pelo menos a curto prazo. Afinal, a economia de mercado planejada é o seu território. Além disso, o Partido Comunista não tem um Parlamento eleito democraticamente para se preocupar a respeito, um Parlamento que possa tentar influenciar na sua “economia de mercado com características chinesas”. E podem ordenar que seus bancos estatais façam empréstimos para as empresas, muitas delas também estatais.

Só em março, os bancos chineses aumentaram o volume de empréstimos para as empresas em cerca de US$ 292 bilhões. Como resultado, os investimentos nas fábricas e no setor imobiliário nas áreas urbanas subiram mais de 30% de janeiro a abril.

OS GESTORES ONIPOTENTES

O partido também enviou seus funcionários para visitar empresas por todo o país. A finalidade dessas visitas foi determinar quais empresas precisavam de ajuda do governo e, ao mesmo tempo, pressionar os diretores de empresas locais para não exonerarem trabalhadores nem fechar fábricas, o que já tinha desencadeado uma onda inicial de protestos no fim do ano passado.

De início, a crise pegou o Partido de surpresa na Província de Guangdong, polo exportador a sudeste da China , na fronteira com Hong Kong. Quando milhares de fábricas de propriedade privada que produziam produtos baratos, como sapatos e brinquedos, estavam sendo fechadas, cerca de 20 milhões de trabalhadores migrantes perderam o emprego. Mas as autoridades locais garantiram que os desempregados receberiam seus salários de volta.

Em Xangai, os gestores da crise, do Partido Comunista, são virtualmente onipotentes. Nessa cidade de arranha-céus, as autoridades comunistas controlam as mais importantes e as maiores empresas, desde as cadeias de supermercados até a maior montadora chinesa. Recentemente, um bilhão de yuans foi gasto para salvar a SVA, fabricante de aparelhos de TV de tela plana. “O partido é a chave para superarmos as dificuldades econômicas”, disse Yu Zhengsheng, chefe do Partido Comunista em Xangai.

A meta coletiva dos estrategistas econômicos chineses é chegar a um crescimento de 8%, que a liderança em Pequim considera o nível mínimo necessário para preservar a sempre invocada harmonia social nesse enorme país.

De fato, a China deverá anunciar uma estimativa de crescimento no fim do ano em completa sintonia com o planejado – independente se o número real seja exatamente 8% ou, por exemplo, 7,8%.

DEPENDÊNCIA DA EXPORTAÇÃO

No primeiro trimestre de 2009, a terceira maior economia do mundo cresceu 6,1%. Um crescimento decepcionante, quando comparado com os dois dígitos registrados até 2007. No entanto, a República Popular ainda está em boas condições, em relação ao Ocidente , que vem mergulhando numa recessão.

O primeiro-ministro Wen Jiabao já sugeriu que ainda tem “muita bala na agulha” para proteger seu país contra um colapso econômico. Mas abrindo novas estradas, rodovias e aeroportos, Pequim está somente aumentando a nocivamente alta proporção desses investimentos na economia em geral, que já excedia 40% em 2007.

Oferecer isenções fiscais para carros e aparelhos de TV não vai resolver o real desafio da China, que é se libertar da dependência das exportações a longo prazo e estimular o consumo interno.

Para alcançar esse objetivo, a China tem de acabar com as grandes diferenças entre ricos e pobres. Nos anos 80, os chineses das cidades ganhavam duas vezes mais do que os habitantes das zonas rurais. Em 2008, esses ganhos são 3,3 vezes maiores do que os dos trabalhadores do campo.

A República Popular precisa urgentemente desenvolver um sistema previdenciário sustentável, bem mais amplo do que o previsto nos planos. Muitas das 1,3 bilhão de pessoas que vivem na China não têm nem uma assistência médica adequada e nenhuma aposentadoria significante.

A China, que chegou por último à industrialização, precisa de empresários privados dispostos a assumir riscos desenvolvendo suas próprias marcas de alta tecnologia. Mas, em vez disso, os responsáveis pelo planejamento econômico continuam a inflar essas apáticas e gigantescas empresas estatais com seus empréstimos.

Até o banco central em Pequim, no seu mais recente relatório, expressou preocupação de que a China precisa acelerar “em termos de inovação e reformas”.

Em vez disso, os chefões do partido nas províncias querem perpetuar a glória do Partido, levantando edifícios suntuosos de aço e concreto. Ni Jinjie, conhecido comentarista financeiro, alertou que, se Pequim continuar oferecendo dinheiro indiscriminadamente, “a estrutura da nossa economia pode rapidamente se desequilibrar”.

A nova bolha da China já está começando, silenciosamente, a inflar os mercados. Em Schenzen, onde o índice da bolsa disparou em mais de 50% este ano, os reguladores do mercado sentiram a necessidade de lançar um alerta oficial para os investidores chineses: “Cuidado com o perigo de se especular cegamente com ações”.

*Wieland Wagner é correspondente da Der Spiegel desde 1995

22/05/2009 - 09:52h Crise global vai continuar mesmo depois da recessão

ENTREVISTA – NOURIEL ROUBINI

Para economista, movimento atual de recuperação das Bolsas não é sustentável

Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem
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O economista Nouriel Roubini concede entrevista em São Paulo; para ele, o crescimento do Brasil neste ano ficará entre 0 e -1%

DENYSE GODOY – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Nouriel Roubini à Folha ontem, após participar de seminário promovido pela Serasa Experian em São Paulo.

FOLHA – O senhor está sorrindo hoje! É difícil vê-lo assim nas fotos, nas imagens da televisão… Isso contribui para a sua fama de “Doutor Apocalispe”?
NOURIEL ROUBINI –
[Fica sério] A crise econômica é um assunto tão grave que, quando estou falando a respeito, simplesmente acho que sorrir não é apropriado. As pessoas me chamam de “Doutor Apocalipse” porque fui o primeiro a prever o atual desastre, mas prefiro ser chamado de “Doutor Realista”.
Não vejo, à nossa frente, uma depressão ou uma longa recessão, como muitos apontam. Creio que vamos sair desta crise no ano que vem. Ainda estou preocupado, no entanto, com determinados aspectos econômicos de curto prazo.

FOLHA – Alguns analistas afirmam já detectar aqui e ali sinais de recuperação da economia americana. Quais indicadores realmente apontam o começo de um restabelecimento e quais não devem ser interpretados assim?
ROUBINI –
Os índices mais importantes a acompanhar são os relativos a consumo, investimento das empresas, produção industrial e mercado imobiliário. Eles continuam caindo. Só que estão recuando menos do que o observado no ano passado -se apresentassem o mesmo ritmo de queda dos últimos meses de 2008, não estaríamos em uma recessão, mas em uma depressão profunda. Isso não significa uma luz verde, mas uma luz amarela, na minha opinião. Não se pode tomá-los como indicativos de retomada.

FOLHA – Então, em que ponto da crise nos encontramos agora?
ROUBINI –
Eu havia afirmado que a recessão dos EUA duraria 24 meses. Como começou em dezembro de 2007, deve terminar em dezembro de 2009. Transcorridos 17 meses, já passamos de dois terços do caminho, portanto, em termos de recessão. Entretanto, não chegamos nem perto do fim da crise bancária ou de crédito -esta deve levar mais dois ou três anos para passar.

FOLHA – O senhor quer dizer que não se deve comemorar o fato de já ser possível avistar o final do período de contração?
ROUBINI –
Sim. No caso de economias avançadas como os EUA, a Europa e o Japão, o cenário para os próximos dois anos é de crescimento abaixo do potencial. O potencial americano é de um avanço de 2,75% a 3% ao ano, mas ficará abaixo de 1% em 2010, o que é medíocre. Apesar de não estar mais em uma recessão, tecnicamente falando, o sentimento no país será o de estar porque o desemprego seguirá subindo por ao menos um ano e meio. Assim aconteceu nas últimas duas retrações, em 1991 e 2001, e tende a se repetir.

FOLHA – Quais são as perspectivas para o Brasil?
ROUBINI –
O Brasil deve no máximo apresentar crescimento zero neste ano; o mais provável é que tenha uma pequena retração do PIB [Produto Interno Bruto], entre 0 e 1% negativo. Após fortes quedas no último trimestre de 2008 e no primeiro deste, o desempenho fica positivo no segundo, pelas nossas previsões. A sorte do Brasil é possuir um mercado doméstico robusto a ser explorado. Já as exportações dependem mais da recuperação do preço das commodities, que dependem da retomada da China. Com uma agressiva política de governo, a China realmente tem reagido nos últimos meses.

FOLHA – Os seus críticos argumentam que o senhor previu essa crise diversas vezes nos últimos anos, por isso acertou.
ROUBINI –
Ouvi essa história de que até mesmo um relógio parado está certo duas vezes por dia. Mas essas críticas são tolas e injustas, pois não fiz previsões genéricas sobre a crise, basta ler com atenção tudo o que escrevi. Fui bastante específico, dei detalhes sobre os problemas financeiros, quando e como seriam os seus desenvolvimentos. Por exemplo, falei, um ano e meio atrás, que dois grandes bancos de investimento dos EUA iriam à lona em dois anos. Adivinhe. Levou sete meses apenas para o colapso do Lehman Brothers e do Bear Stearns. Pode-se dizer na verdade que eu fui até muito otimista quando falei de prazos.

FOLHA – Onde o senhor tem investido o seu próprio dinheiro?
ROUBINI –
Nos últimos três anos, deixei na poupança ou em títulos de depósito interbancário, bem longe do mercado financeiro. Aí me falam: “Você ganhou quase zero”. Bem, é melhor ganhar zero do que perder 50%, não é? Continuo fora do mercado financeiro porque ainda vejo riscos de recuos macroeconômicos e no lucro das empresas, além de turbulências no setor financeiro. É claro que vai chegar o tempo de recuperação do preço dos ativos financeiros em nível global. Porém, só vejo isso ocorrendo daqui a um ano ou até um ano e meio. Não acredito que a escalada recente das Bolsas seja sustentável, porque o movimento está indo além do que os dados sobre a economia permitem. Por esse motivo, pode haver uma correção.

FOLHA – Como tem sido a vida de economista-celebridade? O que mudou na sua rotina?
ROUBINI –
Não acho que eu seja uma celebridade porque não tenho vida de celebridade. Trabalho 12 horas por dia, sete dias por semana, e gasto 80% do meu tempo viajando pelo mundo. Se eu fosse celebridade, não estaria passando a vida a conversar com jornalistas e outros pesquisadores -eu estaria pegando uma praia no Rio de Janeiro [risos]. É muito trabalhoso fazer análise porque requer que visitemos o mundo inteiro para falar com pessoas, empresários, investidores, autoridades. Não tenho uma bola de cristal.

FOLHA – Circula uma piada segundo a qual os únicos que estão lucrando com a atual crise são os advogados, por causa das falências de empresas, e os economistas, que nunca deram tantas palestras. Entendo que o seu trabalho seja desgastante; no entanto, é uma oportunidade de ganhar dinheiro e fazer o seu nome no planeta todo.
ROUBINI –
O momento é bastante complexo e interessante para os economistas. Aconteceram mais coisas no último ano e meio do que nos 70 anteriores. Só acho que não se pode dizer que alguém está tirando vantagem da pior crise financeira desde a Grande Depressão. Há enormes custos humanos, sociais, fiscais. É muito sério. Eu e os outros economistas estamos engajados em ajudar o mundo a entender o que aconteceu e a buscar uma solução.

22/05/2009 - 09:17h Temor sobre rebaixamento de países ricos afeta mercados

 Agência pode reduzir nota do Reino Unido; Bolsa cai 2,26%

TONI SCIARRETTA – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Três dias após o mercado global falar em fim da crise e testar novos recordes, voltou a prevalecer ontem o pessimismo em relação às dificuldades enfrentadas pelas maiores economias do mundo para melhorar a saúde do sistema financeiro e criar condições para sair da recessão.
Ontem, o mau humor foi catalisado pela possibilidade de o Reino Unido perder o status de economia de risco zero de calote de sua dívida (leia texto na página B9). A agência Standard & Poor’s colocou em revisão para possível rebaixamento a nota “AAA”, a melhor na escala de risco, devido à expansão da dívida britânica.
Mas o temor do mercado é que o mesmo aconteça com os EUA, maior economia do mundo e que aumentou consideravelmente seu endividamento para conter os efeitos da crise.
Na próxima semana, o Tesouro dos EUA vai leiloar um lote gigante de US$ 101 bilhões em títulos públicos. A notícia derrubou em até 1,3% o preço dos papéis e elevou em 4,68% os juros dos títulos de dez anos, que atingiram 3,35% ao ano -em janeiro, eram 2,5%.
No mercado internacional de câmbio, o dólar americano recuou 0,9% em relação ao euro e 0,6% diante do iene, mantendo-se nos menores patamares desde janeiro deste ano.
Para acentuar o pessimismo, o ex-presidente do Federal Reserve Alan Greenspan também rompeu o silêncio para afirmar que os bancos americanos precisam levantar muito mais capital (leia texto na página B10) e que há um potencial enorme de perdas de crédito ainda não contabilizadas. Segundo Greenspan, essas perdas só serão estancadas quando os preços dos imóveis se estabilizarem, o que pode estar longe.

Aversão ao risco
O resultado foi um retorno da aversão ao risco, movimento que derrubou ontem preços de ações, commodities e moedas emergentes em todo o mundo.
O petróleo recuou 1,6%, para US$ 61,05, em Nova York.
A Bolsa de Nova York teve baixa de 1,59% no índice Dow Jones e de 1,68% no S&P 500. A Bolsa Nasdaq recuou 2,26%.
No Brasil, até o discurso otimista do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sobre sinais “bastante claros” de recuperação da economia foi entendido como um recado de que a redução de juros poderá ter fim em breve.
Na BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros), os juros para janeiro de 2010 subiram de 9,26% para 9,34%, enquanto as taxas para janeiro de 2011 passaram de 9,73% para 9,88% ao ano.
A Bolsa brasileira terminou a sessão em baixa de 2,26%, com o Ibovespa em 50.087 pontos. Durante a tarde, o índice chegou a cair 3,27% e voltou a trabalhar abaixo dos 50 mil pontos. “A Bovespa não teve motivo para se descolar e acompanhou o mercado lá fora. Os dados de desemprego até vieram melhor que o esperado, mas não permitiu um descolamento”, disse Kelly Trentin, analista da corretora SLW.
“O pessimismo internacional abriu espaço para correção na Bolsa”, disse Newtons Rosa, economista-chefe da Sul América Investimentos.
Após três dias de queda, o dólar comercial voltou ontem a subir. Terminou o dia com valorização de 0,39%, novamente a R$ 2,037. Um dia após comprar cerca de US$ 1,2 bilhão em “cash” dos bancos, o BC voltou a adquirir a moeda americana. O volume, no entanto, não passou de US$ 52 milhões, um dos menores em maio. “O dólar deve cair mais até o final do mês, depois pode ter alguma recuperação”, disse Sidnei Nehme, diretor da corretora NGO.

18/05/2009 - 13:41h Repensando a crise

http://www.agenciasindical.com.br/imagens/geral/Consumo%2025%20de%20marco%20sabado.jpg

Amir Khair* – O Estado SP

De dois meses para cá, as análises sobre a crise financeira internacional tendem para uma visão menos pessimista em relação às previsões do início do ano. Apesar de algumas críticas, o anúncio dos testes de estresse nos principais bancos dos Estados Unidos foi bem recebido pelo mercado, com reflexo na valorização das bolsas em todo o mundo.

Embora a prioridade das políticas econômicas nos diversos países tenha sido atacar os problemas financeiros da crise, ainda permanecem incertezas quanto aos efeitos sobre a economia real.

As exportações despencaram em todo o mundo, gerando nas empresas menos produção, que, junto com a desconfiança de empresários e consumidores sobre o futuro, agravaram ainda mais o quadro econômico. Uma redução na oferta e procura por bens e serviços trouxe, por sua vez, graves consequências sociais pela elevação dos índices de desemprego, causando um círculo vicioso que leva a mais redução na atividade econômica.

Deixada ao mercado a interrupção desse ciclo, os riscos de um aprofundamento da crise teriam sido maiores. As ações articuladas em fóruns como o G-20 e as tomadas por cada país isoladamente parecem estar produzindo alguns frutos.

Com exceção do Leste Europeu, as economias de países emergentes estão reagindo com maior velocidade do que a economia do centro irradiador da crise, os Estados Unidos. Já as economias da Europa e do Japão, fortemente vinculadas à americana, poderão levar mais tempo para sair da crise – mais ainda do que os Estados Unidos -, pelos indicadores mais recentes e pelas avaliações de organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

O que preocupa é se as medidas tomadas até então serão suficientes para promover novo ciclo de crescimento econômico ou se deverá emergir um novo paradigma que transforme as relações internas e externas dos países para um nível diferente do que prevaleceu nas últimas décadas.

É emblemática a relação simbiótica dos dois gigantes – Estados Unidos e China – em que o primeiro compra do segundo parcela importante de bens e serviços, usando para isso um endividamento crescente, cujo resultado no longo prazo é o enfraquecimento do dólar perante as demais moedas e commodities. A China, por sua vez, financia esse endividamento e corre o risco de ver suas reservas internacionais de US$ 2 trilhões se desvalorizarem com o derretimento do dólar. Essa relação também atinge, de forma menos intensa em volume, outros países, especialmente na Europa e o Japão.

É possível que o modelo que prevaleceu até agora tenda a se exaurir e as políticas econômicas poderão passar para uma maior sustentação no desenvolvimento dos seus mercados internos, sem contudo retroceder para um protecionismo pernicioso. Da globalização econômica decorreram novas formas de produção, distribuição, comunicação e inovação, permitindo a obtenção de custos decrescentes e preços mais estáveis internacionalmente. Isso pressionou as empresas nacionais a se reordenarem para o enfrentamento da concorrência internacional.

Por outro lado, é essencial que os governos nacionais criem as condições básicas para a convivência das empresas nesse ambiente de maior competitividade. As ações voltadas para a redução de custos de infraestrutura, do sistema tributário e de investimento em mão de obra e inovação, obedecendo aos cuidados necessários com o meio ambiente, são estratégicas para o desenvolvimento sustentado. Mas só isso não basta. O mais importante é o desenvolvimento do mercado interno, que deve ser a âncora da sustentabilidade econômica e social de qualquer país. Nesse aspecto há muito por avançar.

As enormes discrepâncias de renda e riqueza inter e intra países constituem o maior empecilho ao desenvolvimento de um novo paradigma. É preciso uma alteração de rumo, com a adoção de políticas econômicas e sociais que reduzam as desigualdades e fortaleçam a renda das camadas da base da pirâmide social, o que trará, sem dúvida, como uma de suas consequências, a incorporação de milhões de pessoas ao mercado de consumo e de trabalho.

É fundamental, ainda, o Estado adotar políticas sociais abrangentes em educação, saúde, previdência e assistência social, para que ocorra um desenvolvimento sustentável e em bases socialmente mais avançadas.

Os recursos do Estado para seguir esse novo paradigma poderão brotar do próprio crescimento econômico e de um sistema tributário que tenha como objetivo central a justiça fiscal.

A crise ensinou que a total liberdade usufruída em escala internacional pelo sistema financeiro foi o seu algoz. O sistema financeiro deve ser um poderoso aliado no desenvolvimento econômico e social. Para tanto, deve passar por forte regulação em escala internacional para o estabelecimento de padrões mínimos de segurança e, nacionalmente, deve ser estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do país e a servir aos interesses da coletividade.

Entre as questões que vários estudiosos colocam como proposição está ainda a de um novo sistema monetário internacional, com a criação de uma moeda internacional desligada de países individuais e que consiga se manter estável no longo prazo. Dessa forma, poderiam ser removidas as deficiências inerentes ao uso de moedas nacionais, como o dólar. Isso pode se tornar viável caso os Estados Unidos continuem a se enfraquecer economicamente diante de novos atores globais.

Esse é um debate que requer aprofundamento e busca de consensos.

*Amir Khair, consultor, é mestre em Finanças Públicas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV)

18/05/2009 - 11:22h Bolsas dos emergentes estão engordando

De Olho na Bolsa:
Emergentes tiram a barriga da miséria

Daniele Camba – VALOR

A crise internacional pegou todos os países, sem distinguir grandes ou pequenos, bons ou maus. Os mercados caíram muito e, de forma geral, na mesma proporção. Agora, com a sensação de que o olho desse furacão ficou para trás, as bolsas deram uma arrancada desde o mês passado. A recuperação se deu de forma ainda mais acentuada nos mercados emergentes. Inclui-se nessa lista o Brasil. A alta foi tamanha que boa parte dessas bolsas conseguiu zerar as perdas do ano e ainda mostrar ganhos acumulados consideráveis. Algumas bolsas registram valorizações no ano, em dólar, entre 30% e 50%. Isso porque o primeiro semestre nem chegou ao fim.

A bolsa brasileira se destaca ainda mais dentro desse grupo de felizardas. No ano, o Índice Bovespa sobe 46,91% na moeda americana. Esse retorno só fica atrás, e por um triz, da bolsa da Rússia, com alta de 48,17%. O país vem se beneficiando da valorização gradual do petróleo, que chegou a bater a mínima de US$ 37,41 e, na sexta-feira, já estava em US$ 57 o barril.

A grande questão é: por que os mercados emergentes se recuperaram tanto ao menor sinal de melhora no cenário internacional? Há várias respostas. Uma delas é que, de 1994 para cá, quando houve a crise do México, esta é a primeira crise deflagrada num país desenvolvido – os Estados Unidos. “Exatamente por esse motivo, seria natural que os ativos de emergentes se recuperassem antes e mais”, diz o superintendente de renda variável do banco Itaú, Walter Mendes.

A melhora dos fundamentos econômicos dessas nações ao longo dos anos também explica o fôlego maior das bolsas de países em desenvolvimento. Mendes lembra, por exemplo, que, em 1994, eles tinhas reservas internacionais pífias. Já hoje a China tem reservas na casa dos US$ 2 trilhões, a Rússia, dos US$ 500 bilhões, e o Brasil, de US$ 200 bilhões. Nada mau. Esses países também adotaram políticas econômicas mais ordotoxas, além do câmbio flutuante.

Os investidores brasileiros têm motivos para acreditar que o mercado local poderá ter um desempenho ainda melhor que os demais emergentes à medida que os fundamentos melhorarem. Diferentemente de outros países, o Brasil ainda possui uma taxa de juros alta e uma baixa participação do crédito no Produto Interno Bruto (PIB). “O país ainda tem muito espaço para evoluir e os ativos devem refletir esses progressos quando eles ocorrerem”, acredita o superintendente do Itaú.

De volta aos fundamentos

Nas últimas semanas, analistas e investidores têm se perguntado se a recente recuperação das bolsas não foi exagerada. Mendes discorda. Não dá para bater o martelo, mas, ao que tudo indica, os piores momentos da crise parecem, de fato, já terem passado. “Só teremos certeza disso quando saírem os primeiros dados concretos de recuperação econômica, o que deve começar a ocorrer apenas a partir do terceiro trimestre”, diz ele, que acredita que o fantasma do Ibovespa na casa dos 29 mil pontos é página virada. Aliás, aqueles que compraram ações quando a bolsa estava nesses níveis devem estar rindo à toa. Da mínima de 29.435 pontos, em 27 de outubro do ano passado, até sexta-feira, o Ibovespa acumula valorização de 66,49%.

Depois de tantos solavancos, especialmente desde setembro de 2008, com a quebra do banco americano Lehman Brothers, a bolsa brasileira, enfim, retomou a sua tendência de alta de longo prazo, que vem desde 2003, acredita Mendes. “A recuperação de agora deve ser bem mais racional; longe do pessimismo exagerado dos últimos meses e da euforia exacerbada que marcou 2007, antes da derrocada do ano passado”, completa Mendes. O Itaú mantém a estimativa do Ibovespa em 55 mil pontos para o fim deste ano e de 65 mil pontos para 2010.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

E-mail: daniele.camba@valor.com.br

17/05/2009 - 11:56h Empresas voltam a captar no exterior

Companhias brasileiras já levantaram este ano mais de US$ 3 bi; movimento deve ampliar oferta de crédito no País

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Leandro Modé – O Estado SP

O otimismo que contagiou os investidores estrangeiros nas últimas semanas, responsável por grande parte da recente valorização do real e do Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa), começa a se espalhar para outros mercados. Um deles é o de dívida corporativa.

Depois de enfrentarem enormes dificuldades para obter crédito entre setembro e dezembro do ano passado, empresas brasileiras voltam, aos poucos, a vender bônus no exterior.

Há ao menos dois pontos importantes nesse movimento. O primeiro deles é a confirmação da percepção externa positiva sobre o Brasil, uma vez que companhias brasileiras têm conseguido condições de financiamento melhores do que suas pares de países como Rússia e México. O segundo ponto é o efeito que essas captações podem ter sobre o crédito doméstico.

No auge da crise internacional, o mercado global de capitais ficou paralisado. Com isso, empresas brasileiras que costumavam tomar dinheiro emprestado lá fora tiveram de recorrer a bancos nacionais, prejudicando outros tomadores, como as pessoas físicas. Um caso exemplar foi o da Petrobrás, que em novembro precisou de um empréstimo de emergência de R$ 2 bilhões e acabou no guichê da Caixa Econômica Federal – tipo de operação incomum no País.

“A crise levou os bancos no mercado internacional a retraírem suas operações de crédito. Com isso, houve um congestionamento, uma redução da capacidade de o sistema financeiro atender a todos”, disse ao Estado, em outubro, o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Fabio Barbosa.

A entidade estima que o capital externo responda por cerca de 20% do total de crédito no País. “Uma melhora no exterior vai se refletir positivamente na oferta de financiamentos”, diz o economista-chefe da Febraban, Rubens Sardenberg.

Entre janeiro e meados de maio, as empresas captaram lá fora pouco mais de US$ 3 bilhões. Para se ter uma ideia, em todo o segundo semestre de 2008, essas operações totalizaram pouco mais de US$ 500 milhões. O governo também aproveitou a oportunidade e já levantou US$ 1,75 bilhão neste ano.

Segundo profissionais do mercado financeiro, há várias outras captações no radar. O Estado apurou que a Eletrobrás já contratou até banco para comandar uma emissão. Petrobrás, Vale e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também estão analisando opções.

“Os bancos percebem as melhores condições e vão atrás das empresas, que, por sua vez, estão desengavetando projetos de emissão”, diz o vice-presidente da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), Alberto Kiraly.

Quem reabriu o mercado para as emissões brasileiras no exterior foi o Tesouro, que em janeiro captou US$ 1,25 bilhão. Em fevereiro, a Petrobrás obteve US$ 1,5 bilhão. Em março, os investidores se retraíram e não houve emissão brasileira.

Abril foi o mês mais forte da retomada até agora: a Odebrecht fez uma operação de US$ 200 milhões, a Telemar, de US$ 750 milhões, e a JBS-Friboi, de US$ 700 milhões. Em maio, o Tesouro voltou ao mercado e levantou US$ 750 milhões. Segundo o governo, a demanda foi muito superior à oferta.

A Odebrecht também percebeu uma procura bastante superior ao que foi oferecido. “Poderíamos ter captado mais do que os US$ 200 milhões”, conta o diretor financeiro da companhia, Paulo Cesena.

Líderes da emissão da Odebrecht, Santander e o Itaú BBA dizem que vem mais por aí. “As empresas estão olhando o mercado com atenção. Vai ter muita coisa”, afirma o diretor de Operações Estruturadas do Santander, Jean Pierre Dupui. “Estamos assistindo ao renascimento desse mercado”, diz Douglas Chen, vice-presidente sênior da Itaú Securities.

FRASES

Rubens Sardenberg
Economista da Febraban

“Uma melhora no exterior vai se refletir positivamente na oferta de financiamentos (no Brasil)”

Jean Pierre Dupui
Diretor do Santander

“As empresas estão olhando o mercado com atenção. Vai ter muita coisa”

Douglas Chen
Vice-presidente da Itaú Securities

“Estamos assistindo ao renascimento desse mercado”

10/05/2009 - 10:15h ”País se recupera e vai crescer em 2010”

Economista vê sinais de melhora da atividade e diz que no fim do ano o ritmo de crescimento pode ser de 3,5% a 4,5%

 

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080602/img/4.12.imagem_pastore.jpg
Affonso Celso Pastore

Fernando Dantas – O Estado SP

 


Em 2010, o Brasil já terá saído da recessão e, no fim de 2009, pode apresentar um ritmo de crescimento entre 3,5% e 4,5%. A avaliação é do economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC). No momento, porém, o País já está em recessão técnica, definida como a queda por dois trimestres consecutivos do PIB – o último de 2008 e o primeiro deste ano, que ainda não foi divulgado, mas para o qual se espera desempenho negativo, em razão dos resultados já conhecidos, como a produção industrial.

Pastore admite que não consegue explicar a alta atual das bolsas mundiais, em um momento no qual a produção industrial da Europa e do Japão recuou para níveis do fim da década de 90. Mas ele indica alguns fatos que podem causar, apenas parcialmente, o otimismo: o alívio em relação a países do Leste Europeu, o pacote de saneamento dos bancos americanos e o desempenho da China.

Sua esposa, a economista Maria Cristina Pinotti, aventa outra possibilidade: a de que a super-injeção de liquidez dos bancos centrais dos países ricos, especialmente dos Estados Unidos, possa estar inflando o preço dos ativos. Mas Pastore frisa que são apenas hipóteses. Classificando os tempos de “estranhos”, ele diz, referindo-se à alta recente dos mercados: “Pode publicar aí que eu não sei explicar.”

Como o sr. vê a atual maré de otimismo?

Depende do que você está usando para medir o otimismo. Se forem as bolsas de valores, que estão num rali (movimento de alta), eu pediria para você olhar a produção industrial da zona do euro, que está hoje abaixo do nível que estava em 1998. A mesma coisa ocorre com Japão e Reino Unido. A dos Estados Unidos caiu menos. Um artigo em progresso, do Barry Eichengreen (economista americano), calcula que a queda da produção industrial mundial em 1929 e a queda agora, nos nove primeiros meses da crise, é a mesma. Não vai ser uma crise igual à que começou em 1929, porque os governos estão tomando ações. Dei o dado para mostrar que, do lado real, as economias estão muito mal.

Então por que as bolsas sobem?

Sabemos que o preço das ações têm duas componentes, a do valor fundamental e a da bolha. O valor fundamental depende da expectativa de lucro, e o resto é bolha. Com essa desaceleração na economia, a expectativa de lucro tem de ser muito baixa, e eu não tenho explicação racional para esse rally. Acho que nenhum economista de vertente neoclássica terá. Agora, tentando elaborar um pouco mais, podemos pensar na probabilidade dos chamados eventos de catástrofe. O mercado olha uma probabilidade razoavelmente alta desses eventos e reduz o preço dos ativos. Se há uma correção, se é eliminada ou reduzida a probabilidade daqueles eventos, os preços podem subir.

Isso aconteceu?

Houve algumas correções desse tipo nos últimos tempos. Na última reunião do G-20, foi tomada a decisão de colocar US$ 750 bilhões no Fundo Monetário Internacional (FMI), com o intuito precípuo de fazer políticas de ajuste econômico no Leste Europeu, o que reduziu muito a probabilidade de uma catástrofe derivada de um default (não pagamento) de algum ou alguns daqueles países. Nos Estados Unidos, antes do plano Geithner (do secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner), havia uma indefinição completa sobre como ia se resolver o problema da crise bancária. Veio o plano Geithner, que sofreu muitas críticas, respeitáveis, mas não se pode negar que o plano encaminha uma solução para o problema do sistema bancário. E há também a preocupação com a desaceleração da China, que derruba o preço das commodities. Mas, com uma série de decisões tomadas pelo governo chinês, agora se acha que dá para crescer 7%, 7,5%, mais do que os 6% que se previa antes.

Ainda assim, o sr. diz não ter explicação racional para a alta das bolsas?

Exato, tudo aquilo eu consigo entender. O que não consigo entender é quando o teste de estresse (aplicado pelo governo americano aos bancos) aponta que o Bank of America precisa de US$ 35 bilhões de capital, e na hora que isso é anunciado, o preço da ação do banco sobe 17,5%. Por que o mercado aplaude e gosta? A minha esposa Maria Cristina (Pinotti, economista e sócia de Pastore) fez uma hipótese sobre a alta do mercado que considero respeitável. Quando esta crise começou, havia o risco de ser como a de 1929, se não fosse pela reação muito forte de expansão fiscal e do Federal Reserve (Fed, banco central americano), cujo balanço triplicou de US$ 800 bilhões para US$ 2,4 trilhões, praticamente multiplicou por três.

Qual o e efeito disso?

Injetou-se liquidez dentro dos Estados Unidos, no sistema bancário, nas mãos dos fundos, de todo mundo, para empurrar a economia para cima. Ao injetar essa liquidez toda, deve se ter criado demanda por ativos. É como se, para tratar um dependente de drogas com síndrome de abstinência, se desse mais drogas. Mas não posso afirmar que seja isso que está levantando o mercado acionário. Não há provas empíricas.

Como o sr. vê a situação atual do Brasil?

O Brasil tecnicamente entrou em recessão, já que alguém inventou que tecnicamente dois trimestres consecutivos de queda do PIB caracterizam tecnicamente uma recessão. Se é isso, temos dois, o último do ano passado e o primeiro deste ano. Esse último dado ainda não foi oficialmente divulgado, mas, com a produção industrial, já se pode fazer uma estimativa preliminar, e sabe-se que o PIB teve uma contração.

Mas a economia parece já estar se recuperando.

Sim, no segundo trimestre, já começou uma lenta recuperação, e deve continuar no terceiro e no quarto trimestres do ano. Projetamos queda de 1% do PIB este ano, mas, no fim de 2009, o Brasil vai estar crescendo. Vai apontar para uma taxa positiva, mais alta, significativa, eu não sei exatamente que taxa vai ser essa, ninguém sabe, pode ser algo entre 3,5% e 4,5%. No ano que vem, acho que já estaremos fora da recessão. Vamos crescer de novo, bem menos do que antes da crise, porque o mundo será hostil, ainda vai estar em recessão, com preços de commodity baixos e fluxos de capital ruins.

Como o sr. avalia a forma com o Brasil reagiu a crise?

O Brasil adquiriu a possibilidade de fazer políticas macroeconômicas contracíclicas, o que nunca tivemos. Nós desdolarizamos a dívida pública, baixamos a dívida externa, aumentamos as reservas, e hoje, quando tem crise mundial, podemos baixar a taxa de juros – no passado, tínhamos de subir, lá no passado tinha de subir taxa de juros. Hoje podemos aumentar gasto público e baixar receita, quando lá atrás tínhamos de fazer o contrário. O Brasil e outros grandes emergentes, como a China e a Índia, tem sistemas financeiros que não foram contaminados pela crise bancária porque não estavam em ativos de bolha nem ativos tóxicos. É óbvio que vamos crescer mais que o mundo rico, mas o que não é óbvio é que o rabo balance o cachorro. Não é óbvio que o desempenho de Brasil, China e Índia faça o mundo sair da crise antes.

E a trajetóriados juros no Brasil, qual deve ser?

Na ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), a advertência do Banco Central é de que o mercado está pessimista quanto à inflação lá do ano que vem. Na verdade, se a atividade econômica recuperar muito rapidamente, o mercado estará certo, se a atividade econômica não recuperar, estará errado. Eu não sei em que velocidade vai se recuperar, me eximo de dar um palpite sobre isso. Acho simplesmente que, com hiato de produto (diferença entre o que pode se produzir com a atual capacidade e o que se está produzindo efetivamente) atual do Brasil, a direção da taxa de juros é para baixo.

A recente valorização do real o surpreendeu?

Há três semanas, enviamos um relatório especial da consultoria alertando que o real poderia se valorizar, que estava se apreciando. O fluxo de capitais está voltando. Os bônus da Odebrecht, da Telemar, do Friboi, a entrada de recursos na bolsa, tudo isso são fluxos de capital que entraram no Brasil porque o Brasil está melhor em termos de fundamentos macroeconômicos.

O sr. concorda com a política fiscal que foi seguida em razão da crise, com desoneração tributária, redução de superávit primário, aumento dos gastos correntes?

Uma recessão, quando se pode seguir política fiscal contracíclica, requer que ela seja feita na dimensão daquilo que é possível. É natural, portanto, que o Brasil dê isenção de impostos, aumente um pouco o gasto, reduza a meta de superávit primário. Acho que a componente contracíclica foram duas: a queda automática de receita que sempre acontece numa recessão, que foi grande, e as isenções tributárias que o governo fez, para automóveis, para geladeiras, para material de construção, para evitar crescimento de desemprego, para evitar no fundo que se instalasse uma recessão maior. Isto é contracíclico. O aumento de gastos que o governo fez com essa política não é contracíclico coisa nenhuma.

Como assim?

Porque esse aumento foi decidido muito antes de começar essa recessão. Isso não é política contracíclica, isso é política de aumento de gasto de custeio (despesa de pessoal está incluída nesse conceito de custeio), que acabou gerando efeitos contracíclicos. O mundo de vez em quando dá voltas estranhas, você atira que não vê e mata o que não vê. Tem gente que tem sorte. Eu acho que o Lula teve essa sorte. A sorte foi que, no frigir dos ovos, aquela decisão errada lá atrás, de aumentar o gasto de custeio, acabou provocando um aumento de transferência para funcionários públicos que de uma forma ou de outra gera um aumento de consumo que ajuda a tirar o Brasil mais rapidamente da recessão.

Quem é:Affonso Celso Pastore

Doutorado em Economia pela Universidade de
São Paulo (USP)

Ocupou o cargo de secretário da Fazenda do Estado de São Paulo

Esteve à frente do Banco Central do Brasil de 1983 a 1985

É sócio-fundador e consultor da A. C. Pastore e Associados

É professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas

05/05/2009 - 09:42h Emergentes puxam recuperação, diz Mobius

Segundo megainvestidor, potencial de crescimento e bons fundamentos beneficiam países

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Cynthia Decloedt – O Estado SP

A perspectiva para os mercados emergentes continua positiva e esses países devem desempenhar papel fundamental este ano e nos anos seguintes na atividade econômica global, disse ontem o diretor executivo da Templeton Asset Management, Mark Mobius, um investidor que administra US$ 20 bilhões em ativos de emergentes.

“Brasil e Rússia são países ricos em recursos naturais e, embora os preços das commodities tenham recuado, a tendência de longo prazo é de alta e esses países vão se beneficiar da demanda global por petróleo, aço, alumínio, celulose e outras commodities”, destaca Mobius em seu site na internet. Ele prevê expansão de 7% a 8% na economia chinesa.

Segundo Mobius, os países emergentes se beneficiam das características relativamente sólidas de seus fundamentos e do potencial de crescimento mais acelerado do que dos países desenvolvidos. Ele disse ainda que o crescimento dos emergentes deve também ser “rejuvenescido” pelas medidas fiscais e de flexibilização monetária que os governos e bancos centrais estão tomando.

As declarações do investidor deu novo ânimo ao mercado acionários brasileiro, levando a BMF&Bovespa a atingir o maior nível em sete meses, acima dos 50 mil pontos.

MAIORES GANHOS

Mobius destaca que os mercados acionários dos emergentes terminaram o primeiro trimestre com retorno positivo, citando o índice MSCI de Mercados Emergentes, que encerrou o período com retorno médio de 1% em dólar.

Os mercados latino-americanos ofereceram os melhores ganhos, com o índice MSCI para América Latina apresentando retorno de 4,9% em dólar; dentro dele, Brasil e Chile registraram ganho de dois dígitos, de 12,5% e 13,6%, respectivamente.

Os dez índices de ações com o melhor desempenho este ano são de emergentes, com liderança do Peru e da China. Desde 23 de março, quando Mobius disse que a base da tendência de alta estava sendo formada, o índice de mercados emergentes MSCI subiu 23%, comparados a 14% do índice global.

Mobius acredita que as bolsas dos mercados emergentes estão com tendência de alta, o que deve renovar o apetite comprador dos investidores estrangeiros.

Segundo ele, os mercados emergentes estão construindo a base para o próximo rali. Entre os mercados destacados por Mobius estão África do Sul, Turquia, Brasil e empresas chinesas listadas na Bolsa de Hong Kong.

As ações de mercados emergentes podem se transformar em um mercado ascendente no fim deste ano, pois a queda nas taxas de juros e a redução da inflação tornam os papéis mais atrativos, disse Mobius.

A concordata da Chrysler e outros “riscos de curto prazo” podem atrasar um pouco essa recuperação porque os especuladores podem apostar que as ações vão cair.

“Estamos num momento de criação do próximo período de ascensão do mercado”, disse o investidor. “O que está acontecendo agora vai continuar talvez até o fim do ano, quando, então, haverá um ponto de ruptura.”

05/05/2009 - 08:53h V de vitória?

Toda Mídia

NELSON DE SÁ – FOLHA SP

nelsondesa@folhasp.com.br

Começou com blogs registrando à tarde que a Bolsa havia voltado aos 50 mil pontos. Daí para manchetes de sites e portais, noite adentro com números finais e enunciados como “salta” ou “dispara 6,59%” e “fecha acima dos 50 mil” e “no maior nível desde setembro”, com eco depois nos telejornais. Para a Folha Online, “a euforia veio da China”.
No “Financial Times”, o editor de mercados citou Brasil e outros para dizer que “os mercados acreditam que a China realizou de algum jeito uma recuperação em forma de V”. Bateu no fundo e voltou, como um “sinal de vitória” da China. Na reportagem, o “FT” destacou que as “exportações do Brasil saltaram” com a China. “Wall Street Journal” e Bloomberg também vincularam a reação à China.

PENSANDO BEM
Ato contínuo, “analistas esperam que o PIB do Brasil encolha menos do que haviam previsto anteriormente, pelos sinais de recuperação”, deu a Bloomberg. É o resultado de uma nova enquete do Banco Central nas finanças.

PERDAS APAGADAS
Na manchete on-line do “New York Times”, no final do dia, Wall Street “apaga as perdas de 2009 com salto das ações”. No “WSJ”, “sobe em 2009″. Para o “NYT”, “uma marca que era impensável” até semanas atrás.

DE VOLTA À CHINA

Na página 3 do “China Daily”, junto à reportagem sobre o pacote asiático contra a crise, “Visita do presidente do Brasil vai expandir vínculos”. Era uma entrevista com o embaixador Clodoaldo Hugueney, prevendo “resultados em todas as áreas, comércio, investimento, cooperação” -e dizendo que as reuniões entre os dias 18 e 20 abrem caminho para “um acordo de cinco anos”. A visita de 2004, sublinha o jornal estatal, foi seguida do “boom” no comércio. Mas o embaixador cobrou mais investimento, ainda “muito pequeno”.Leia a integra da coluna de Nelson de Sá na Folha de São Paulo

26/04/2009 - 10:16h Crise global: ‘Economia ficará fraca por 3 anos”


Stephen Roach: presidente da divisão Ásia do Banco Morgan Stanley; conhecido pelo pessimismo e por ter previsto a crise, economista diz que rali recente do mercado se mostrará ‘desapontador’

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Leandro Modé – O Estado SP

 


Em um breve perfil na Wikipédia, a enciclopédia online mais consultada do mundo, o economista americano Stephen Roach é definido como um “urso permanente”. No mercado financeiro, o grande mamífero peludo é o símbolo do pessimismo. Embora rechace a qualificação, dizendo que tenta ser apenas “realista”, Roach é amplamente conhecido pelas previsões catastrofistas. Durante anos – e muito antes de a atual crise estourar -, Roach, que comandava até 2007 o departamento econômico do Banco Morgan Stanley, alertou para os desequilíbrios da economia global. Em síntese, chamava a atenção para o consumismo dos americanos, para a política monetária frouxa do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) e para o excesso de poupança nos países asiáticos, notadamente a China. O tempo mostrou que ele estava certo. Olhando para a frente, Roach diz que só vê alguma recuperação tênue da economia global em 2010. Por isso, avalia que o rali das últimas semanas nas bolsas mundiais se mostrará desapontador. “Minha visão é que, após um boom extraordinário e insustentável, haverá um movimento de volta que deixará a economia fraca por ao menos três anos”, disse ao Estado, por telefone, de Cingapura. Há cerca de dois anos, Roach comanda a divisão da Ásia do Morgan Stanley.

Temos visto alguma recuperação nos mercados financeiros, especialmente em países emergentes. É sustentável?

Ainda é muito cedo para termos um sinal preciso da economia global. É bem possível que o pior em termos de contração tenha ficado para trás, mas ainda veremos uma recessão severa no mundo. O mais importante é que qualquer recuperação, quando vier, será limitada. O mercado financeiro está antecipando uma recuperação mais forte, algo em que não acredito.

Ou seja, é cedo demais?

Sim, esse rali vai se mostrar desapontador, uma vez que veremos alguma recuperação só em 2010.

A principal razão para essa melhora é o relativo otimismo com o plano americano para resgatar os bancos. Como o sr. o avalia?

Não concordo que essa seja a principal razão. Nos últimos três meses, houve leves sinais de melhora da atividade econômica, do mercado imobiliário, do consumo nos EUA e das exportações de países emergentes. Mas, a despeito disso, penso que o conceito do plano do secretário (Timothy) Geithner para os bancos é bom, pois contempla um mecanismo para estabelecer um preço para os ativos tóxicos e sua retirada dos balanços dos bancos. A questão é se os investidores vão participar. Em resumo, é bom na teoria, mas há dúvidas sobre a execução.

É preciso ver se vai funcionar na prática, então.

Exatamente. Há também a questão de privatizar os ganhos e socializar as perdas. Há uma possibilidade séria de que a conta venha a ser paga pelos contribuintes americanos.

É inevitável a estatização do sistema bancário americano?

O governo está fazendo tudo o que pode para evitar uma nacionalização formal. Não está claro se no fim da linha ainda veremos uma nacionalização mais profunda, ainda que o governo tenha assumido boa parte de várias instituições.

O sr. falou em alguns números melhores na economia global nos últimos meses, mas espera uma recuperação apenas em 2010. Não soa contraditório?

Há uma expressão que define bem isso: ainda são números ruins, mas não tão ruins como antes. Refletem apenas o fato de que tivemos um raro declínio na atividade econômica nos últimos seis ou sete meses. A maior parte dele decorre do congelamento dos mercados de crédito e de capitais após a quebra do Lehman Brothers. Não é normal esperar que esse ritmo de queda se mantenha. Então, algum freio nessa deterioração poderia provocar certo otimismo. Algo com o que não concordo.

O sr. afirmaria que em alguns países a situação parou de piorar?

Não. Isso é explicado por um conceito técnico, segundo o qual há uma grande diferença entre melhora e desaceleração das taxas de queda.

O FMI informou esta semana que espera a primeira recessão global desde a 2ª Guerra. Qual o seu cenário?

Nos meus 30 anos de projeções econômicas, raramente concordo com o FMI. Mas acho que, dessa vez, a expectativa deles para 2009 é bem próxima da minha, que é de um recuo de 1,5% no PIB mundial. A recessão alcançou o mundo todo. Acredito que, mesmo para 2010, qualquer recuperação será fraca. O PIB mundial talvez cresça entre 1,5% e 2%.

Qual a expectativa para a China?

Acho que os números da China também serão fracos. O crescimento neste ano deve ficar entre 6% e 6,5%, levando-se em conta os dados já divulgados do primeiro trimestre. Não acho que a economia chinesa crescerá tão rapidamente quanto a projeção oficial do governo, de 8%. A queda em relação ao desempenho anterior é significativa, e se explica pela fraqueza na demanda externa e porque a China é muito dependente dessa demanda.

Quais as consequências desse enfraquecimento da China para países que exportam bastante para lá, como o Brasil?

Essa é uma das razões pelas quais o Brasil terá uma contração neste ano. A principal compradora de matérias-primas do mundo é a China. Em 2007, a expansão chinesa foi de 13%. Em 2009, ficará perto da metade disso. Ou seja, não teremos mais o superboom de commodities dos últimos anos. Com isso, grandes fornecedores de matérias-primas como Brasil, Nova Zelândia e Austrália sentirão impacto relevante.

Sei que o sr. não é responsável pelas projeções do Brasil, mas a previsão do Morgan Stanley para o PIB brasileiro em 2009 – retração de 4,5% – causou surpresa por aqui. O sr. realmente acredita que esse é um número crível?

Espero que sim. Já fui responsável pela equipe econômica e acho que eles têm boas razões para a projeção.

Olhando a partir de hoje, como o sr. vê a ideia de “descolamento” dos emergentes?

É uma piada. Como esperar que economias em desenvolvimento, em que grande parte do crescimento dependia da demanda externa, iam descolar? O rápido crescimento das economias emergentes era uma história maravilhosa, mas resultava de dois movimentos: explosão do comércio global e aumento da parcela das exportações no PIB, sobretudo na Ásia. Com a desaceleração do comércio, a maioria das economias emergentes falhou em estimular a demanda doméstica. Todas as economias desenvolvidas estão em recessão. Basicamente, a ideia de descolamento foi uma piada, uma piada de mau gosto.

Durante anos, o sr. alertou para os desequilíbrios globais. Como avalia as medidas que os governos estão adotando para estimular suas economias?

Os governos estão fazendo o que podem para limitar a queda. Mas há o risco de que estejam focando demais o reestímulo do consumo nos EUA, o que é uma estratégia pobre. Essa foi uma das razões chave para que os EUA entrassem nessa confusão. Os consumidores compraram além de suas possibilidades, o que criou as duas bolhas que estouraram: no crédito e no mercado imobiliário. Tentar recriar outro período de excesso de consumo e encorajar os americanos a consumir, em vez de poupar, é um grande erro. Realmente me preocupo que essas políticas de estímulo resultem em desequilíbrios semelhantes nos EUA. Para cada dólar de excesso de consumo nos EUA, há um dólar de poupança em algum lugar do mundo.

O que fazer para evitar isso?

Esse é um problema global, portanto, deveríamos ter políticas que lidassem com a questão da poupança mundial – concentrada principalmente na Ásia – e com os déficits (em conta corrente e fiscal) nos EUA. Os chineses têm de consumir mais e os americanos, poupar mais. Não estou convencido de que as políticas atuais atingirão esse objetivo.

O G-20 poderia agir para isso?

Fiquei muito desapontado com o comunicado da última reunião do G-20. Creio que o grupo falhou ao encaminhar esse problema dos desequilíbrios globais. O texto mencionou a questão de relance e não trouxe uma proposta de ações concretas para lidar com o tema. Os esforços do G-20 que devem ser celebrados estão basicamente relacionados ao fortalecimento do FMI.

Olhando dois ou três anos à frente, a inflação é um risco no mundo?

Não. O buraco entre oferta e demanda na economia mundial é de tal ordem que inflação não será problema no período de três a cinco anos. Há muita fraqueza no mercado de trabalho e no consumo.

O sr. é conhecido como um pessimista. Mas, no início do ano, no Fórum Econômico Mundial, foi chamado de otimista pelo colunista do ‘Financial Times’ Martin Wolf. Como se define neste momento?

Martin fazia uma brincadeira. Na sessão de abertura do Fórum, eu disse que via uma recessão muito séria e um período de fraqueza na economia mundial durante os próximos três anos. É o meu pronunciamento habitualmente “bearish” (pessimista). Mas Martin disse que eu não estava “bearish” o bastante. Alguns jornalistas escreveram que eu havia mudado meu ponto de vista. Não quero ser conhecido como pessimista nem como otimista, mas como realista. Minha visão é que, após um boom extraordinário e insustentável, haverá um movimento de volta que deixará a economia fraca por ao menos três anos. Não creio que seja otimismo.

O sr. poderia resumir as causas dessa crise, em poucas palavras?

Foi um problema sistêmico causado por instituições financeiras, governos, legisladores, consumidores – especialmente nos EUA – e um problema particular: uma política monetária pobre do Fed de Alan Greenspan. Essa política gerou a bolha de ativos, não prestou atenção à estabilidade financeira e ignorou a responsabilidade regulatória.

Como vê a proposta da China de criar uma moeda de reserva do FMI para substituir o dólar?

É uma proposta que deve ser seriamente considerada. Com exceção dos últimos meses, o dólar vinha se desvalorizando havia seis anos. Daqui para a frente, essa é a tendência. Muitos gestores no mundo vão preferir aplicar recursos em uma cesta de moedas e, assim, reduzir o peso do dólar.

01/04/2009 - 09:57h Mercados de ações dos emergentes sobem e descolam dos desenvolvidos

Joanna Slater, The Wall Street Journal – VALOR

Este ano os mercados acionários estão seguindo caminhos separados, em contraste com o colapso geral ocorrido ao longo do ano passado.

Nos primeiros três meses de 2009 houve uma ampla divergência no desempenho dos mercados, do sofrível até o excelente. Ações de países em desenvolvimento, como Brasil e China, tiveram desempenho bem melhor do que as da Europa e dos Estados Unidos.

Isso representa uma acentuada mudança em relação ao fim do ano passado, quando as bolsas do mundo todo desabaram em uníssono, e a única disparidade no desempenho foi na intensidade da queda.

Apesar de que um trimestre não constitui uma tendência, a divergência pode ser um sinal de que o medo dos investidores do mundo todo está diminuindo um pouco.

Os investidores não estão mais vendendo ações indiscriminadamente. Em vez disso, estão tentando identificar quais as ações, em todo o mundo, que vão gerar lucros se uma recuperação econômica começar a se firmar, mesmo se as perspectivas mundiais para este ano continuarem sombrias.

“Talvez isso indique que nós já saímos da fase aguda da crise e passamos para uma fase mais crônica”, diz William Sterling, da Trilogy Global Advisors, que administra US$ 8,5 bilhões em ações nos mercados globais.

O Índice Mundial Dow Jones, que exclui ações dos Estados Unidos, caiu 13% em dólares no trimestre, comparado com uma queda de 14% na Média Industrial Dow Jones. O índice da Morgan Stanley que acompanha as bolsas nos mercados emergentes subiu 5,4% em dólares.

Depois de serem duramente atingidos no ano passado, os mercados emergentes se saíram especialmente bem. Os índices de referência do Brasil e da Rússia aumentaram, ambos, 9% nas moedas locais. As ações de empresas domésticas da China – em geral fechadas para os investidores estrangeiros – lideraram a turma, com o Índice Composto de Xangai subindo 30% (ele teve um declínio de 65% no ano passado).

Michael Hartnett, diretor de estratégia para investimentos internacionais da Banc of America Securities-Merrill Lynch, diz que houve três elementos combinados que apoiaram os mercados emergentes: sinais de que a economia chinesa estava se estabilizando; a relativa força das ações de empresas financeiras nesses mercados; e o rápido retorno de alguns investidores a investimentos mais arriscados, em março.

Na categoria média ficaram mercados como Japão e Canadá, onde os declínios foram modestos em comparação com os EUA. No Japão o índice Nikkei de 225 ações caiu 8%, ao passo que no Canadá o Composto S&P/TSX perdeu 3% do valor.

Na Europa os declínios trimestrais foram semelhantes, ou piores, que os dos EUA, com os índices de referência da Alemanha, França e Reino Unido caindo de 11% a 15%

Não surpreende que o setor com pior desempenho mundialmente tenha sido o financeiro, que caiu 24% em dólares, com base em um índice do Morgan Stanley que acompanha um amplo leque das bolsas mundiais.

Mas nenhum setor realmente brilhou. Os setores de melhor desempenho foram o de informática, que conseguiu um pequeno ganho de 0,6%, seguido pelo de materiais básicos, com baixa de apenas 3,7%.

Para os investidores americanos, o dólar foi uma pedra no sapato. A moeda americana conseguiu um bom avanço, apesar de uma queda no fim do trimestre. Isso corroeu os lucros provindos de ações no estrangeiro e aumentou os prejuízos, uma vez que a maior parte das moedas estrangeiras equivaliam a menos dólares no fim do trimestre.

A diferença de desempenho entre os mercados globais representa um desafio para os investidores. Se houver uma volta à pressão de venda generalizada e à extrema volatilidade que caracterizaram os mercados financeiros no fim do ano passado, então as bolsas poderão voltar a movimentar-se em sincronia. Mas se a divergência continuar, será cada vez mais importante acertar na escolha dos mercados vencedores e perdedores.

“Veremos uma desconexão entre os mercados” se as ações conseguirem se estabilizar por um período prolongado, diz Uri Landesman, administrador sênior de carteira da ING Investment Management em Nova York. “Pode ser verdade que a maré cheia levanta a maioria dos barcos, mas não igualmente.”

Landesman dá preferência a mercados como Brasil e Canadá. Segundo ele, estão bem posicionados para se beneficiar de uma recuperação nos preços de commodities como o petróleo, após uma estabilização da demanda global.

Outros administradores de fundos dizem que veem razões para preferir as ações dos EUA e Ásia às da Europa. A lógica é que a intensa reação do governo americano à atual crise vai ter efeito, levando a uma recuperação de algumas das exportações asiáticas que despencaram no abismo no ano passado.

Mais ainda, “as empresas asiáticas e as economias asiáticas possuem o balanço patrimonial (necessário) para sobreviver à atual situação”, diz Stephen Auth, diretor de investimentos para mercados globais da Federated Investors, que administra US$ 28 bilhões.

Auth diz que durante o primeiro trimestre sua firma transferiu dinheiro de suas carteiras internacionais da Europa para a Ásia. Acrescenta que a firma prefere ações americanas, e não as internacionais de modo geral. O principal motivo é seu pessimismo em relação às ações europeias, as quais representam uma proporção significativa dos índices de referência que excluem os Estados Unidos.

“Acreditamos que a ‘Chimérica’ (China e EUA) está se movimentando mais depressa, e de modo geral está em melhor forma do que a Europa”, diz ele. “Em parte porque a Europa nem percebeu ainda a extensão do seu problema.”

Um fator a favor da Europa é que as ações estão sendo negociadas a preços baixos. Um relatório recente de analistas do Citigroup recomendou que os investidores comprem mais ações europeias e britânicas do que o sugerido por um índice de referência, exatamente por esse motivo. Em meados de março essas ações estavam sendo negociadas a nove vezes o valor do lucro por ação estimado para 2009, segundo o Citigroup, comparado com doze vezes para ações americanas e ações asiáticas, excluindo o Japão.

25/03/2009 - 14:06h Plano dos EUA é “roubo” para o contribuinte, diz Prêmio Nobel

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Joseph Stiglitz

DA REUTERS – Folha SP

O plano do governo americano para se livrar dos ativos “tóxicos” dos bancos é um “roubo” ao contribuinte dos EUA, por expô-lo a risco excessivo, e dificilmente irá funcionar enquanto a economia continuar enfraquecida, disse o Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz.
“O plano do [secretário do Tesouro, Timothy] Geithner, está repleto de falhas”, disse em Hong Kong. Para Stiglitz, o plano apresentado anteontem por Geithner para retirar até US$ 1 trilhão em ativos problemáticos dos balanços do bancos oferece “incentivos perversos”.
Segundo ele, o governo dos EUA está usando o contribuinte como garantia caso esses ativos se desvalorizem, ao mesmo tempo em que cede a possível alta, ou lucros em potencial, para os investidores privados.
“De forma bem sincera, isso equivale a um roubo do povo americano. Eu não acredito que isso vá funcionar porque acredito que haverá muita revolta contra colocar tantas perdas sobre os ombros dos contribuintes americanos.”
Mesmo que o plano limpe os balanços dos bancos de gigantescas dívidas “tóxicas”, as preocupações com o cenário econômico podem fazer com que as instituições continuem a não se mostrar dispostas a novos empréstimos, ao mesmo tempo em que as perspectivas de uma maior carga tributária para pagar os planos de estímulo do governo podem afetar ainda mais os consumidores americanos, disse Stiglitz.
Alguns legisladores republicanos também demonstraram preocupação com os incentivos oferecidos pelo governo, que pode dar aos investidores privados quase 93% dos fundos para comprar ativos problemáticos. Mas o presidente dos EUA, Barack Obama, disse que o plano é fundamental para a recuperação da economia.
Stiglitz, que é professor da Universidade Columbia e ex-economista-chefe do Banco Mundial, também pediu que os líderes do G20 se comprometam na reunião da semana que vem a fornecer mais recursos aos países em desenvolvimento e disse que a China deve ter mais poder no FMI.

25/03/2009 - 13:12h Ainda longe de um resgate bancário bem-sucedido

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Martin Wolf – Financial Times – VALOR

Se o plano funcionar, pode convencer o americano comum de que seu governo está distribuindo privilégios para Wall Street

Estou cada vez mais preocupado. Nunca esperei muito dos europeus ou dos japoneses. Mas esperava, de fato, que os EUA, sob o comando de um novo presidente popular, fossem mais decisivos do que vêm sendo. Em vez disso, o Congresso deixa-se cair num frenesi populista e o governo fica só esperando pelo melhor.

Caso alguém ainda duvide dos perigos, basta apenas ler as análises mais recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI). Projetam contrações entre 0,5% e 1% na produção mundial de 2009, e entre 3% e 3,5% na dos países com economias mais avançadas. Sem dúvida, é a pior crise econômica no mundo desde a década de 30.

É preciso avaliar os planos de estímulo à demanda e resgate de sistemas bancários levando em conta este pano de fundo lúgubre. De forma inevitável, o foco está nos EUA, epicentro da crise e maior economia mundial. O que emergiu no país foi uma hostilidade explosiva ao setor financeiro. O Congresso discute uma tributação retrospectiva penal dos bônus não apenas da imensa seguradora AIG, mas de todos os receptores de dinheiro do governo sob o programa governamental de recuperação de ativos problemáticos (Tarp, na sigla em inglês). E o procurador-geral do Estado de Nova York, Andrew Cuomo, defende identificar pelo nome os que receberem bônus nas empresas socorridas. Isto, claro, é um convite a um linchamento.

Está evidente por que isso ocorre: a crise quebrou o contrato social dos EUA: as pessoas eram livres para ter sucesso ou fracassar, sem auxílio. Agora, em nome do risco sistêmico, os planos de resgate despejaram somas desconcertantes em instituições falidas que derrubaram a economia. A resposta parlamentar é desastrosa. Caso essas ideias sejam aprovadas, levarão a um êxodo de funcionários de alta capacitação dos bancos dos EUA, minarão a disposição para expandir-se o crédito, destruirão a confiança em acordos assinados com o governo e ameaçarão o Estado de Direito. Presumo que os parlamentares tenham a expectativa de que o presidente os salve de sua tolice. O simples fato de que tais ideias possam ser levadas em conta é um sinal claro da fúria existente.

Este também é o pano de fundo do “programa de investimento de parceria público-privada”, anunciado na segunda-feira pelo secretário do Tesouro, Tim Geithner. Nas palavras do Tesouro, “o programa de investimento público-privado, usando entre US$ 75 bilhões e US$ 100 bilhões de capital do Tarp e de investidores privados, criará poder de compra de US$ 500 bilhões para a aquisição de ativos problemáticos – com potencial para ampliar-se a US$ 1 trilhão ao longo do tempo”. Sob este plano, o governo entra com praticamente toda a parte financeira e arca com quase todo o risco, mas usa o setor privado para avaliar o preço dos ativos. Em troca, os investidores privados obtêm recompensas – talvez recompensas generosas – com base em seu desempenho, via participação patrimonial ao lado do Tesouro.

Eu vejo isto como o “programa de socorro via fundos abutre” (como costumam ser chamados os fundos que compram ativos agonizantes na expectativa de uma recuperação). Será que vai funcionar? Depende do que se quer dizer com “funcionar”. Este não é um mecanismo de um mercado genuíno, porque o governo está subsidiando riscos assumidos. Os preços podem acabar mostrando que não são baixos o suficiente para atrair compradores, ou altos o suficiente para satisfazer os vendedores. Mesmo assim, o programa poderia de fato melhorar o estado horrendo dos livros de negociação dos bancos. Isso não pode ser algo ruim, pode? Bem, sim, pode, caso atrapalhe o caminho de soluções mais fundamentais. Isso porque quase ninguém – certamente o Tesouro também não – acredita que este programa acabará com a subcapitalização crônica das finanças dos EUA. Poderia, é verdade, deixar um pouco mais claro quanto ainda precisa ser revisto para baixo no valor dos ativos nos livros de longo prazo dos bancos.

Por que este programa poderia atrapalhar o caminho da recapitalização necessária? Há dois motivos: primeiro, o Congresso pode decidir que o programa torna a recapitalização menos importante; segundo e mais importante, este plano provavelmente tornará a recapitalização pelo governo ainda mais impopular. Caso o esquema funcione, vários dos gestores de fundos ganharão grandes retornos. Temo que isto convenceria o americano comum de que seu governo está em uma empreitada de distribuição de privilégios a benefício de Wall Street. Agora, imagine o que aconteceria se, depois de os “testes de estresse” dos maiores bancos do país ficarem prontos, o governo concluir – surpresa! – que precisa fornecer mais capital. Como persuadirá o Congresso a pagar?

O perigo é que este programa alcançará, na melhor hipótese, algo não particularmente muito importante – tornar os créditos anteriores mais líquidos – ao custo de dificultar algo que é essencial, a recapitalização dos bancos. Isto é importante porque o governo descartou a única forma de reestruturação das finanças dos bancos que não custaria nenhum dinheiro público adicional: a troca de dívida por patrimônio, ou seja, uma falência de verdade.

Economistas que respeito, como Willem Buiter, por exemplo, condenam esta relutância de imediato. Não há dúvida de que a decisão de bancar os credores de todas as instituições financeiras significativas para o restante do sistema cria receios quanto ao futuro: algo terá de ser feito a respeito do problema “grande demais para falir” que isto cria. Ante isto, o Tesouro insiste que hoje uma onda de falências minaria a confiança nas promessas passadas do governo e geraria novas incertezas. Infelizmente, esta não é uma visão maluca.

Temo, contudo, que a alternativa – uma recapitalização adequada do setor público – também se mostrará impossível. A provisão de dinheiro público a bancos é inaceitável para uma população cada vez mais enfurecida, enquanto o controle dos bancos recapitalizados pelo governo é inaceitável para os banqueiros ainda influentes. Parece ser um impasse. A única saída, sobre a qual o sucesso do plano de segunda-feira poderia ser considerado, seria se a maior transparência trazida pelos novos fundos permitisse aos grandes bancos levantar capital suficiente nos mercados privados. Se isso fosse alcançado na escala necessária – e estamos falando de várias centenas de bilhões de dólares, se não trilhões – o novo programa seria um grande êxito. Mas, mesmo na hipótese de sucesso de definição do preço de ativos e créditos problemáticos, não creio que isso seja suficiente para assegurar esse objetivo. Num mau momento econômico mundial, será que os investidores estarão dispostos a aplicar as enormes quantias requeridas por instituições financeiras imensas e complexas, com histórico comprovado de má administração? A confiança, uma vez destruída, não retorna fácil.

A conclusão, infelizmente, é deprimente. Ninguém pode ter certeza de que os EUA já tenham uma solução viável para seu desastre bancário. Ao contrário, com o público enfurecido, o Congresso em marcha de guerra, o presidente tímido e uma política que depende da capacidade do governo em injetar dinheiro público em instituições subcapitalizadas, os EUA estão num impasse.

Cabe a Barack Obama encontrar uma saída. Quando ele se reunir no grupo de 20 líderes mundiais em Londres na próxima semana, não terá condições de declarar que já a encontrou. Se isto não é assustador, então não sei o que pode ser.

Martin Wolf é colunista do “Financial Times”.

24/03/2009 - 10:36h Plano Geithner: Política financeira do desespero

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Paul Krugman, THE NEW YORK TIMES * – O Estado SP

No fim de semana, The Times e outros jornais noticiaram os detalhes, que haviam vazado, do plano de salvamento dos bancos elaborado pelo governo Obama. Se os artigos estiverem corretos, o secretário do Tesouro, Tim Geithner, convenceu o presidente Barack Obama a reciclar a política do governo Bush – especificamente, o plano “cash for trash” (dinheiro por lixo) abandonado, há seis meses, pelo então secretário do Tesouro, Henry Paulson.

É mais do que uma decepção. Na realidade, isso me enche de desespero. Afinal, acabamos de passar pela tempestade provocada pelas bonificações pagas pela AIG aos seus executivos. Ao mesmo tempo, o governo não conseguiu dirimir as indagações a respeito do que os bancos estão fazendo com o dinheiro dos contribuintes.

E agora Obama aparentemente montou um plano financeiro que, em essência, pressupõe que os bancos são fundamentalmente sadios e que os banqueiros sabem o que estão fazendo. É como se o presidente estivesse determinado a confirmar a crescente percepção de que ele e sua equipe econômica não têm senso de realidade, que sua visão econômica está obnubilada por vínculos excessivamente estreitos com Wall Street. Quando Obama se der conta de que precisa mudar de curso, seu capital político talvez já tenha desaparecido.

Falemos um pouco da situação. Neste exato momento, nossa economia é arrastada para o buraco por um sistema financeiro deficiente, paralisado pelas enormes perdas dos títulos atrelados a hipotecas e outros ativos. Como os especialistas em História da economia poderão explicar, é uma situação que continua se repetindo, em nada diferente de dezenas de outras crises semelhantes ocorridas ao longo dos séculos. Existe um procedimento consagrado pela prática para tratar dos efeitos de uma crise financeira abrangente: o governo assegura a confiança no sistema garantindo muitas dívidas dos bancos. E, ao mesmo tempo, assume o controle temporário dos bancos, para limpar seus livros contábeis.

É o que a Suécia fez no início dos anos 90. É também o que nós fizemos depois da debacle das instituições de poupança e empréstimos dos anos Reagan. Não há motivo para, agora, não fazermos a mesma coisa.

Mas o governo Obama, como o do Bush, aparentemente procura uma saída mais fácil. O elemento comum aos planos de Paulson e de Geithner é a insistência em que os ativos podres valem muito mais do que qualquer um está disposto a pagar. E, portanto, o plano deve usar o dinheiro dos contribuintes para que os preços dos ativos podres cheguem a níveis “justos”. Paulson propôs que o governo pagasse diretamente pelos ativos. Geithner propõe um esquema complicado, segundo o qual o governo empresta dinheiro a investidores privados, que o usam para comprá-los. A ideia, afirma o principal assessor econômico de Obama, é usar “a capacidade e a experiência do mercado” para estabelecer o valor dos ativos tóxicos.

Mas o plano de Geithner oferece uma aposta segura: se os valores dos ativos subirem, os investidores lucrarão, mas se caírem, abandonarão a dívida. Portanto, não se trata de deixar que os mercados façam seu trabalho. Trata-se de uma forma indireta de subsidiar.

Deixando de lado o custo provável da operação para os contribuintes, há algo estranho ocorrendo. Na minha opinião, é a terceira vez o governo Obama lança um remanejamento do plano Paulson, cada vez acrescentando coisas supérfluas e garantindo que estão fazendo algo completamente diferente.

Mas o problema real é que não funcionará. Sim, os ativos podres talvez sejam um tanto subvalorizados. O fato é que os executivos do setor financeiro apostaram literalmente seus bancos na convicção de que não havia bolha da habitação e na crença de que níveis de endividamento sem precedentes com a compra da casa própria não constituíam nenhum problema. Perderam a aposta. E nenhuma mágica financeira – pois o plano de Geithner não passa disso – poderá mudar esse fato.

Perguntarão: por que não adotar o plano e ver o que acontece? Uma resposta é que o tempo está se esgotando: a cada mês que passa sem que se encontre uma solução para a crise financeira, mais 600 mil empregos serão eliminados.

Mas o mais importante é que Obama está desperdiçando sua credibilidade. Se seu plano falhar – como quase certamente falhará – é improvável que consiga convencer o Congresso a desembolsar mais recursos para fazer o que ele deveria ter feito logo de início.

Entretanto, nem tudo está perdido: o público quer que Obama consiga o que pretende; o que significa que ele ainda pode salvar seu plano de ajuda aos bancos. Só que o tempo está se esvaindo muito depressa.

*Paul Krugman é articulista

24/03/2009 - 10:21h O Plano Geithner

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090324/img/economia.jpg

Celso Ming – O Estado SP

O mercado financeiro comemorou com grandes altas nas bolsas a exposição do plano de Parceria Público-Privada de resgate dos bancos feita pelo secretário do Tesouro americano, Tim Geithner.

É um esquema que prevê a remoção dos chamados ativos podres dos balanços dos bancos sem a estatização prevista por muitos especialistas e, em princípio, rechaçada pela sociedade americana. Espera-se que, depois de tantos trilhões de dólares em gastança de recursos públicos, o plano tenha custo relativamente baixo para o contribuinte.

A proposta prevê que os bancos apresentarão seu pacote de ativos podres dos quais pretendam se desvencilhar à Corporação Federal de Seguro de Depósito (FDIC, na sigla em inglês) e esta promoverá um leilão do pacote ao setor privado. Geithner espera que fundos de pensão, fundos de investimentos e investidores privados se interessem pelos ativos, hoje sem mercado. O Tesouro, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e o FDIC se encarregarão de fornecer os recursos que entrarão como financiamento ou como garantia no repasse ao setor privado.

Assim, fica contornada a maior dificuldade para lidar com os tais ativos podres: não se sabia a que preço comprá-los ou colocá-los no mercado.

O principal atrativo para o setor privado é a perspectiva de alta rentabilidade. Hoje o tal lixo tóxico praticamente não vale nada. Mas boa parte das hipotecas agora invendáveis deverá ser honrada no seu devido tempo de maturação, especialmente depois que for renegociada com os mutuários em novas condições.

A principal vantagem para o setor público é a de que não terá de despender muitos trilhões de dólares (em emissões de títulos) para capitalizar os bancos. E estes se livrarão da carga destrutiva que os está ameaçando de naufrágio. Do ponto de vista do sistema e da economia mundial, a expectativa é a de que, uma vez livres da sua maior encrenca, os bancos possam retomar as operações de crédito e, assim, contribuir para tirar a economia americana (e global) da ameaça de depressão em que se encontra.

Agora, algumas dúvidas sobre a eficácia do programa:

Em primeiro lugar, não está claro se haverá algum instrumento que incentive ou obrigue os bancos a se desfazerem de ativos que supostamente têm tão elevado potencial de rentabilidade. O simples fato de finalmente poderem se livrar do seu lixo tóxico é, por si só, um atrativo. Mas não parece suficiente.

Em segundo lugar, o processo parece demorado e não se sabe até quando o mercado aguardará seu desfecho, especialmente se os bancos pretenderem barganhar cada passo ou ganhar tempo para garantir mais vantagens, como tem ocorrido. Convém ter em conta que agora banco não quebra. Se essa decisão for levada às suas últimas consequências, os bancos poderão chantagear as autoridades.

Terceira dúvida, provavelmente não será tão fácil separar ativos bons de ativos ruins porque foram empacotados e reempacotados em unidades de difícil desmembramento.

Por ocasião do anúncio prévio deste plano há seis semanas, Geithner anunciou que os bancos seriam submetidos a testes de estresse para se saber até onde precisam de socorro oficial. É um procedimento que pode levar muito tempo.

Euforia – As bolsas saudaram o Plano Geithner com altas estrondosas. Ainda é preciso saber se apostam no saneamento (ou a não estatização) dos bancos ou na retomada do crédito. As duas hipóteses dependem de muita coisa.

17/03/2009 - 10:06h Fuga para emergentes pode ser opção

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Catherine Vieira e Nelson Niero, Valor, do Rio e de São Paulo

Os títulos do tesouro americano não são mais o parâmetro de “risco zero” no mercado global? Conceitos como “fuga para qualidade” estão sob revisão, desde que a bússola econômica perdeu o norte? O Primeiro Mundo não é mais o mesmo depois da implosão de ícones de seu poderio empresarial?

Se questões como essas começaram a perturbar o sono do investidor estrangeiro, ele pode estar suscetível a uma ideia que começa a ganhar força entre economistas e gestores: talvez esta seja a hora dos chamados emergentes, e uma suposta comprovação da teoria é que empresas e bancos que têm operações fortes em países como China, Índia e Brasil vêm conseguindo respirar melhor na crise financeira global. Mas vamos aos fatos.

Os efeitos práticos dessa que é a percepção de muitos formadores de opinião de investidores globais ainda não são completamente nítidos, mas há quem já vislumbre alguns sinais, como o fluxo positivo de investidores estrangeiros no mercado de ações brasileiro em fevereiro. Óbvio que esse suspiro ainda é muito pouco para sustentar uma direção para os ativos ou sinalizar uma reabertura do mercado como alternativa de financiamento para as companhias. No entanto, nesses tempos de dureza, não há muito a que se apegar.

É preciso ponderar que a torcida é grande. Mais que uma simples retomada do mercado brasileiro, a volta das captações das empresas por meio do lançamento de títulos e, principalmente, de ações seria a confirmação de que os quatro anos de sucessivas emissões recordes não foram apenas um ponto fora da curva – apesar da euforia excessiva do mercado em 2007.

Entre 2004 e 2007, cerca de cem companhias foram à bolsa e um recorde absoluto de ofertas públicas foi registrado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Foi uma experiência e tanto para um país no qual o mercado de capitais como opção de financiamento de longo prazo parecia uma lenda.

Agora, há aquela sensação incômoda de que voltamos ao zero. A relação entre valor de mercado das empresas e o Produto Interno Bruto (PIB) sugere isso: depois de chegar perto de 100% em 2007, voltou aos níveis de 2004 no ano passado (47,6%). O número de operações em análise e já registradas em 2009 é extremamente desanimador e os prognósticos são de que pelo menos até o fim do ano não se verá um cenário muito diferente.

Mas se estamos com dificuldades de passar pela “marolinha” do presidente Lula e o ano será praticamente nulo para o mercado de capitais, há indícios de que o país está mais bem preparado para a crise do que em outras épocas.

A euforia da fase anterior deixou como herança um caixa gordo em algumas companhias e também em muitas carteiras de fundos de participações em empresas. O sistema financeiro, depois da crise da década de 90, também parece mais sólido do que seus pares no exterior (sem esquecer que os bancos brasileiros ganham muito com títulos públicos e não precisam de muita ousadia para sobreviver).

A expectativa entre gestores e analistas é que, passados estes momentos de nebulosidade, as emissões voltem a florescer no Brasil – mesmo que em ritmo menor que 2007. “Apesar das nossas qualidades, não dá para superar o fato de que a liquidez secou”, observa a presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Maria Helena Santana. Ela diz que os instrumentos foram testados e que os eventuais problemas que surgiram foram sendo contornados.

Entre esses problemas, um dos cruciais é a questão de governança empresarial no país. Muitas novatas foram à bolsa sem o devido preparo, empurradas por bancos de investimento, e companhias tradicionais, consideradas exemplares, envolveram-se em operações arriscadas com derivativos, para a surpresa de seus acionistas.

A queda do PIB no quarto trimestre, que projeta um número anualizado entre os piores do mundo, foi outro balde de água fria, já que as empresas podem não crescer no ritmo esperado. Ainda assim, há um certo otimismo entre os participantes do mercado, especialmente porque o país, assim como China e Índia, vem sendo escalado entre os que reúnem melhores condições competitivas no tumultuado cenário global de hoje.

“Passada a tormenta inicial, os diferenciais positivos do Brasil neste novo cenário começam a ser visualizados com mais clareza”, observa Marcelo Mesquita, que após mais de dez anos no UBS abriu sua própria gestora de recursos, a Leblon Equities. O estrategista assinala que a presença estatal já é forte também por aqui, inclusive no setor financeiro e nas empresas listadas, como a Petrobras.

A petroleira, aliás, que é a principal ‘blue chip’ da Bovespa, é vista como um trunfo para alguns, já que as ações caíram muito. Apesar das mazelas de governança nas quais anda tropeçando nos últimos tempos, a Petrobras tem, por conta dos projetos do pré-sal, uma perspectiva como nenhuma outra do setor. “A Petrobras vai ser uma Exxon”, compara Mesquita.

Uma Exxon estatal pode até parecer atraente no momento em que o governo americano vira sócio de bancos, mas esse viés estatizante pode cobrar seu preço mais adiante, principalmente no que diz respeito à governança.

Mesquita lembra que os bancos locais também sofreram na bolsa por conta da revoada sem critério que ocorreu no pós-crise, apesar de muitas das instituições locais terem fundamentos sólidos. A atratividade nos preços desses ativos já levou a Leblon a montar duas posições relevantes em dois bancos médios, por exemplo.

O estrategista global de câmbio do HSBC, David Bloom, é um dos que acreditam que os emergentes são o futuro. Mas não de forma generalizada: China, Brasil e Índia encabeçam a lista. Este momento poderá ser lembrado como o ponto de virada para um período em que essas economias passarão a ter mais importância no xadrez global. “Já não dá para dizer que os EUA são seguros e o resto do mundo não. Nada mais é intocável.”

O banco inglês amorteceu as perdas com crédito nos Estados Unidos com os resultados robustos obtidos no Brasil e em países do oriente. A General Electric, pouco à vontade com seus números em sua terra, declarou recentemente que os emergentes são prioridade, fazendo coro ao que vem se tornando um mantra empresarial.

A forte regulação e o juro ainda alto também são vantagens competitivas do Brasil. Esses fatores ajudaram os investidores locais a ficarem menos vulneráveis aos ativos tóxicos que causaram perdas mundo afora, embora não tenha evitado as perdas com derivativos.

Os bancos de investimento são regulados e supervisionados pelo Banco Central e a CVM. As ofertas de ativos securitizados também passam pelo crivo dos reguladores. “Há uma atuação muito coordenada, que busca evitar zonas de sombra e manter sempre a transparência”, afirma Maria Helena

No entanto, pode não funcionar exatamente assim. O Novo Mercado, que tinha como princípio garantir os direitos dos investidores, registrou em 2008 operações no mínimo polêmicas, que colocaram em xeque vantagens consideradas certas pelos acionistas.

Os fundos de pensão, que possuem uma carteira de R$ 415 bilhões e investem pelo longo prazo, são impedidos de aplicar no exterior e têm uma participação média baixa no mercado de ações. Isso não evitou rentabilidades reduzidas em 2008, mas ainda mantém esse grupo com um colchão de segurança e apetite pelos projetos de longo prazo. “Temos aproveitado oportunidades em infraestrutura e na bolsa”, diz Wagner Pinheiro, presidente da Petros, o segundo maior fundo de pensão do país.

Os fundos de participação em empresas também estão em situação confortável. Nos últimos anos, captaram cerca de R$ 50 bilhões para investir, mas a concorrência das ofertas públicas iniciais elevou os preços dos ativos e dificultou a efetiva aplicação desses recursos em projetos. Em meados de 2008, estimava-se que mais de R$ 20 bilhões ainda estavam disponíveis. Na semana passada, o empresário Eike Batista anunciou que criará um fundo de até US$ 10 bilhões.

Os chamados administradores de fortunas optaram, com a crise, por ficar com os recursos mais líquidos, esperando por um momento de maior clareza para voltar a alocar os ativos. “Visitamos quase todos e em média estão com 70% a 80% dos recursos em caixa”, contou Mesquita, convicto de que os valores voltarão a ser aplicados no mercado, em algum momento.

11/03/2009 - 10:47h Perto do alívio do Citi, o PIB vira fichinha

Daniele Camba – VALOR

O desempenho da economia brasileira ladeira abaixo no último trimestre do ano passado surpreendeu até os mais pessimistas. O Produto Interno Bruto (PIB) caiu 3,6% no quarto trimestre de 2008 na série com ajuste sazonal ante o terceiro trimestre do ano passado. Essa é a maior retração desde 1996, quando o levantamento começou a ser feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Era uma notícia mais do que suficiente para que a bolsa fosse ladeira abaixo. Mas para a felicidade dos investidores, a divulgação ocorreu exatamente no mesmo dia que, em carta enviada a funcionários, o presidente mundial do Citigroup, Vikram Pandit, informou que a instituição teve lucro no primeiro bimestre deste ano. Com uma informação tão alvissareira, de um dos bancos com as piores sequelas da crise de crédito internacional, o PIB brasileiro horrendo virou fichinha.

A Bovespa ignorou terminantemente a notícia local e, junto com as principais bolsas do mundo, subiu de forma acentuada. O Índice Bovespa passou o dia com alta significativa e fechou com valorização 5,59%, aos 38.794 pontos. Para se ter ideia de como o bom humor foi generalizado, dos 66 papéis que fazem parte do índice, apenas três caíram: as preferenciais (PN, sem direito a voto) da Gol, TAM e Votorantim Celulose e Papel (VCP). Faz todo sentido o mercado ignorar o desempenho ruim do PIB brasileiro num dia em que o cenário externo parece um pouco melhor. Essa crise é internacional e, à medida que ela se dissipar, aumentam as chances do mundo voltar aos trilhos com cada país refletindo seus próprios fundamentos. E nesse quesito, o Brasil vai bem, obrigada. Até o quadro internacional ficar feio, o PIB vinha crescendo de forma consistente e a estabilidade econômica se mostrava cada vez mais consolidada.

Em vez de o mercado olhar a retração do PIB como um copo meio vazio, resolveu olhá-lo como meio cheio. Com uma queda da economia nesta magnitude, cresceram as apostas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) pode cortar em até dois pontos percentuais a taxa básica Selic na reunião de hoje

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“Até o começo da semana, os mais otimistas acreditavam numa redução de um ponto e meio de uma vez só, hoje (ontem) esses mesmos profissionais já defendem que o Copom pode, e deve, cortar dois pontos nesta reunião”, diz o gerente para pessoa física da Corretora Gradual, Evandro Soeiro Campos. Ele acredita que, com a alta de ontem, uma boa parte dessa expectativa de um corte mais generoso da Selic já está embutida nos preços das ações. No entanto, se isso de fato se consumar hoje, é possível que a Bovespa continue surfando na onda de valorização, pelo menos pelos próximos dias. Vale lembrar que todas essas possibilidades dependem do cenário externo, que continua sendo a variável mais importante. E o pregão de ontem é a maior prova disso. “Se as notícias internacionais voltarem a ser negativas, todas essas hipóteses vão por água abaixo e a bolsa retoma a toada de queda”, alerta o gerente da Gradual.

Em condições normais de temperatura e pressão, quedas de juros sempre favorecem a bolsa, tanto pelo lado da economia quanto pelo fluxo de investidores. Pelo lado da economia porque, entre outros motivos, as empresas passam a ter crédito mais barato e a roda da economia volta a funcionar melhor. Já pelo aspecto financeiro, ganhando menos na renda fixa, os investidores levam seus recursos para a renda variável. O volume financeiro da bolsa ontem, de R$ 4,5 bilhões, pode ser um sinal interessante de uma queda gradual de aversão ao risco. Nos últimos meses, com a deterioração da crise, o giro diário da bolsa tem oscilado entre R$ 3 bilhões e R$ 3,5 bilhões.

Leia a integra da coluna no jornal VALOR

23/02/2009 - 10:13h EUA liquidam bancos e avaliam estatização

No mês, extinção de instituições é a maior desde 1993; ações de grandes grupos despencam com risco de serem tomadas pelo Estado

Ganha força no país a opção de o governo assumir controle de grandes bancos, como Citi e Bank of America, para serem saneados e depois vendidos

http://www.whereistheoutrage.net/wordpress/wp-content/uploads/2009/02/bank-of-america.jpghttp://images.publicradio.org/content/2008/04/17/20080417_citibank_3.jpg

FERNANDO CANZIAN – FOLHA SP

DE NOVA YORK

Os EUA liquidaram nos primeiros 40 dias deste ano o equivalente a mais da metade dos bancos fechados em 2008 inteiro, quando foram extintas 25 instituições, um recorde recente. Sete bancos foram fechados só na primeira semana de fevereiro, o maior número em um mês desde 1993.
Aos acionistas desses bancos, 13 médios e pequenos, foram impostas perdas totais, e suas agências, distribuídas entre os concorrentes, assim como as contas dos clientes. A expectativa é que até 1.000 dos 8.348 bancos dos EUA sejam liquidados nos próximos três anos pela FDIC, a agência federal que supervisiona o sistema.
Na semana passada, as ações dos quatro principais bancos dos EUA (Citigroup, Bank of America, JPMorgan Chase e Wells Fargo) derreteram na Bolsa de Valores de Nova York.
O Citi vale hoje 10% do que valia há um ano, e suas ações despencaram 44% na semana. Por trás da fuga dos investidores está o temor crescente de que algumas dessas instituições, especialmente Citi e Bank of America (BofA), sejam estatizadas. Se isso ocorrer, os acionistas perdem tudo.
O próprio presidente do Fed (o banco central dos EUA), Ben Bernanke, e o ex-presidente da instituição, Alan Greenspan, já consideraram abertamente a opção, pois o governo vai ficando sem alternativa para lidar com a virtual falência desses bancos, vistos como “grandes demais para cair”. “Qualquer que seja a decisão, há um forte compromisso dessa administração de manter os bancos privados e de devolvê-los ao setor privado o mais rapidamente possível”, declarou Bernanke.
Na sexta-feira, o presidente do Comitê de Bancos do Senado, o democrata Cristopher Dodd, disse que a estatização “não seria bem vinda”. “Mas minha preocupação é que talvez sejamos obrigados a isso [estatizar], pelo menos por um período curto”, afirmou.
Entre os republicanos, o senador Lindsey Graham afirmou que a opção de estatizar “deve estar sobre a mesa”.
Na sexta, enquanto as ações dos bancos despencavam em Nova York, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, procurou acalmar os ânimos dizendo que o governo de Barack Obama “acredita fortemente que o modo de irmos adiante é com um sistema bancário privado e suficientemente regulado”.
Mesmo assim, as ações do conjunto de bancos listados na Bolsa de Nova York caíram 7%. As do Citigroup e Bank of America (BofA), cerca de 10%.
Citi, BofA, JPMorganChase e Wells Fargo já receberam US$ 140 bilhões em injeções de dinheiro público desde outubro (o maior acionista do BofA já é o governo dos EUA, com 6%). Apesar desses aportes, o valor de mercado dos quatro bancos encolheu em US$ 402 bilhões (um terço do PIB do Brasil) desde então.
Esses bancos concentram o grosso dos chamados ativos “tóxicos”, que travaram o sistema financeiro americano e que são a causa da atual crise, considerada a maior desde os anos 1930. Os títulos “tóxicos” são resultado de empréstimos feitos pelos bancos sem garantias reais suficientes e largamente lastreados pelo setor imobiliário, onde os preços das casas estão em queda livre há dois anos. Em alguns casos, um único dólar em garantia real dada ao banco chegou a financiar outros US$ 35 em empréstimos.
Para voltarem à atividade normal, esses bancos precisam ser limpos desses ativos. O principal problema é que o governo não chegou ainda à conclusão de quanto pagar pelos títulos “tóxicos” e como proteger o contribuinte das perdas. Por isso, a opção pela estatização ganha força no país.
Se adotada, o governo não precisa “precificar” os ativos “tóxicos”. Além disso, imporia perdas totais aos acionistas que fizeram apostas arriscadas, afastaria os dirigentes e poderia mais à frente, depois de limpo, revender o banco.
O maior temor dos EUA é que o país mergulhe em uma espiral recessiva parecida com a do Japão nos anos 1990. No país asiático, isso ocorreu justamente porque o governo demorou anos para atacar uma crise bancária de proporções mais modestas, mas parecida com a atual nos EUA. Outro exemplo mais ou menos da mesma época foi a Suécia, que resolveu estatizar bancos com problemas rapidamente, o que acelerou a saída da crise.