07/04/2009 - 20:05h Os limites do bonapartismo

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David Rieff – VALOR

Sarkozy pode se dar ao luxo de dar as costas a seu partido, em vista do colapso total da oposição socialista

Após quatro décadas, a França retornou ao comando militar unificado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). De uma tacada, o presidente Nicolas Sarkozy derrubou um dos pilares da política francesa – e do legado de Charles de Gaulle, fundador do próprio partido político de Sarkozy.

A decisão é coerente com a maneira como Sarkozy governou desde sua eleição em 2007. Quer se trate de buscar uma reforma para o sistema judiciário francês, redesenhar seu mapa administrativo, propor uma nova aliança de países mediterrâneos, ou aparentemente por fim à ambígua política externa francesa – de alinhamento e não alinhamento com os Estados Unidos -, Sarkozy é pura ambição.

O problema é que um número excessivo de decisões de Sarkozy revelaram-se puramente simbólicas, como a malfadada União Mediterrânea; mal concebida, tal como a reforma judiciária, à qual se opõe virtualmente toda a magistratura; ou abertamente motivada por autointeresse, como a reforma administrativa, que de alguma maneira conseguiu abolir apenas os departamentos e administrações regionais controlados pela oposição socialista.

Muita gente no UMP, partido governante de Sarkozy têm se manifestado cada vez mais publicamente, ao expressar sua insatisfação com seu método de tomada de decisões. Na realidade, em vez de conceder séria margem para tomada de decisões a seu primeiro-ministro, François Fillon, ou ao gabinete de Fillon, Sarkozy trouxe praticamente todas as alavancas de poder para si e seus assessores dentro do palácio do Eliseu.

Com efeito, poucas observadores informados duvidam de que Jean-David Levitte, principal assessor de política externa de Sarkozy, tenha influência muito maior do que o ministro de Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner. Analogamente, em questões de política interna, a ministra do Interior, Michele Alliot-Marie, nada tem que se aproxime da agenda poderosa de Claude Guéant, assessor histórico de Sarkozy e diretor-geral do gabinete presidencial.

A despeito dos hábitos autoritários de de Gaulle ou de François Mitterrand, a personalização da presidência por Sarkozy é inédita na história da Quinta República. Sarkozy faz pouco segredo de seu desdém por membros de seu próprio partido, atraindo para seu gabinete socialistas como Kouchner e Rama Yade, vice-ministro para Relações Exteriores, e nomeando socialistas aposentados da cena política, como o ex-primeiro-ministro Michel Rocard, para comandar comissões nacionais e representar a França em negociações de tratados internacionais. Sarkozy pode se dar ao luxo de dar as costas a seu partido, em vista do colapso total da oposição socialista, que quase certamente perderá a eleição em 2012.

Se Sarkozy governasse com eficácia, esses desvios políticos e institucionais poderiam parecer uma lufada de ar fresco em uma sociedade cujas instituições parecem cada vez mais inadequadas diante dos problemas de uma sociedade multiétnica e pós-industrial (ainda que a dirigista França tenha conservado sua base industrial melhor do que muitos outros países ricos).

Foi assim que muitos dos que apoiavam o pleito presidencial de Sarkozy o viam. Apesar das diferenças de políticas, Sarkozy seria para a França o que Margaret Thatcher fora para o Reino Unido: um líder que tiraria o país de seu impasse, conservando os melhores aspectos de dirigismo, mas finalmente dando aos empreendedores espaço para crescer, reprimindo a criminalidade e reformando o ensino.

Mas Sarkozy não governou com eficácia, como deixam abundantemente claro o desencanto de seu partido consigo e dados de pesquisas. O caráter frenético de sua presidência – iniciativa transbordando em iniciativa, cada uma delas sendo a solução transformativa para o problema imediato e toda oposição sendo denunciada como eivada de mentira, ma fé e covardia – desgastou-se.

Em relação a diversas questões, especialmente salários, impera a liberalização do emprego, e a reforma do judiciário e da educação secundária, programas anunciados com tremendo alarde tiveram de ser adiados ou cancelados. Quase invariavelmente, Sarkozy atribuiu a culpa ao ministro em questão, e então avançou para o tema seguinte que atraiu seu interesse. Enquanto isso, sua obsessão com o domínio do ciclo diário de notícias, não importa quão volátil o pretexto, continua inclemente. Ele já chegou a aparecer em cenas de crime – não provocados por distúrbios urbanos, mas de crimes passionais privados, onde nenhuma razão de Estado poderia justificar a presença do presidente da República.

Em vista do estado patético da oposição socialista, é difícil ver que preço, se algum, Sarkozy pagará por seu histórico na presidência. Mas esse estilo de governo – essencialmente uma campanha eleitoral, e não um governo – praticamente assegura que quase nada de real importância poderá ser realizado.

Em recente entrevista coletiva à imprensa, o presidente americano Barack Obama comentou abominar fazer comentários precipitados sobre questões de grande relevância pública antes de ter absoluta certeza de conhecer o assunto em questão – e antes que tivesse segurança de sua opinião sobre o tema. Muitos franceses desejariam que tal autodisciplina pudesse contaminar Nicolas Sarkozy. Dado seu temperamento, porém, isso dificilmente parece provável de acontecer. Em consequência, um governo no qual muitos tinham colocado grandes esperanças está descambando em demagogia e ineficácia.

David Rieff é autor de “At the Point of a Gun: Democratic Dreams and Armed Intervention” (A queima roupa: sonhos democráticos e intervenções armadas). Seu livro mais recente, “Swimming in a Sea of Death: A Son´s Memoir” (Nadando num mar de morte: memória de um filho), trata de sua mãe, a romancista e crítica Susan Sontag. © Project Syndicate/Europe´s World, 2009. www.project-syndicate.org

23/02/2009 - 13:48h França: O ”bonapartismo” do presidente

Gilles Lapouge* – O Estado SP

Nicolas Sarkozy é um “bonapartista”, escreveu um dos mais brilhantes analistas políticos franceses, Alain Duhamel (recordemos que Bonaparte é o nome da família de Napoleão).

Depois disso, muitos puseram-se a murmurar e a se perguntar. Mas a bem da verdade, a resposta é simples. Sim, Alain Duhamel tem razão. E tem razão por um motivo indiscutível: ninguém sabe direito o que é “bonapartismo”. É um grande saco vazio no qual cada um coloca o que bem quiser.

Desde o surgimento desse termo, no século 19, os franceses ofereceram pelo menos dez modelos de “bonapartismo”. Procurando bem, sempre se pode encontrar uma variedade onde encaixar Sarkozy.

Limitemo-nos aos dois tipos mais usuais. O primeiro se refere ao próprio Napoleão Bonaparte. Político experiente, militar genial, adepto de um governo forte e autoritário: “Um mosquito que voasse sem ordem sua era um inseto revoltoso”, disse certa vez o escritor e intelectual François-René de Chateaubriand.

Está claro que Sarkozy é um pouco mirrado para vestir semelhante roupagem. Em muitos aspectos, ambos não têm nada em comum. Os dois têm baixa estatura. E daí? Napoleão era um homem de altíssima cultura, enquanto Sarkozy é um deserto cultural.

Napoleão foi um militar e chegou ao trono por um golpe, é fato, mas também por meio de sua campanha heroica na Itália. Ele surgiu dos bramidos da revolução. Mas seu gênio foi primeiro “trancar” a revolução antes de construir um novo Estado em muitos aspectos retrógrado (houve um retorno ao Império). Nesse sentido, a comparação seria quase ofensiva para Sarkozy.

Examinemos então a segunda acepção da palavra “bonapartismo”. Essa toma como modelo não Napoleão, mas seu sobrinho, que foi eleito presidente em 1848 e deu um golpe de Estado em 1851. Victor Hugo chamava-o de “Napoleão, o Pequeno”. Mas Napoleão III não era tão nulo como o escritor dizia. E chegou a ter alguns méritos.

Durante seu governo, a França conheceu uma formidável expansão industrial. É mais frequentemente nesse segundo sentido que se recorre à palavra “bonapartismo”. Entende-se por isso um regime político forte, uma democracia plebiscitária, a concentração de poder e uma reverência pela “modernidade”.

Esses traços poderiam se aplicar a Sarkozy. Neles se encontram suas qualidades e seus defeitos: vontade de dispensar os intermediários (como os ministros) e de criar um vínculo direto com o povo, voluntarismo e abandono cego ao mercado (ao menos no início de seu mandato).

Em comum, Napoleão III e Sarkozy têm também uma espantosa hiperatividade. Ambos têm duas ideias por hora. Napoleão III cultivou sua amizade com o grande capital (assim como Sarkozy se aproxima das fortunas francesas).

Ambos são fascinados pelas aparência. Sarkozy adora relógios Rolex e iates suntuosos. Um jornal inglês da época destacou em Napoleão III “a cultura da ostentação e a submissão aos amigos ricos.”

Seria possível assinalar um outro traço comum aos dois chefes de Estado. Eles são autoritários, mas ao mesmo tempo, e contraditoriamente, são flexíveis. Eleito como o “arauto do liberalismo”, desde as primeiras ondas da crise global, Sarkozy mudou completamente e assumiu a frente de uma cruzada mundial contra o capitalismo selvagem.

Percebe-se, portanto, que Duhamel não estava errado ao assinalar o “bonapartismo” de Sarkozy. A fórmula de Duhamel é justa sob a condição de que o modelo de Sarkozy não seja o de Napoleão, o Grande, mas do sobrinho, Napoleão III. O que não é desonroso. Napoleão III não foi um mal dirigente. Sem grandeza, mas, às vezes, eficaz.

Desejemos ao menos que Sarkozy não conheça o futuro de nenhum dos dois Bonapartes. O primeiro foi enviado pelos ingleses para morrer na ilha de Santa Helena. O segundo foi esmagado pelos exércitos prussianos de Bismarck.

* Giles Lapouge é correspondente em Paris

Leia também meu artigo escrito logo após a eleição de Sarkozy à presidência da França

Reflexões pessoais sobre o governo Sarkozy, as eleições legislativas e a esquerda