28/08/2008 - 11:15h Sobra PT e falta PSDB na TV em Salvador

Alan Marques/Folha Imagem - 30/7/2008
Serra: governador de São Paulo gravou imagens para as campanhas de Curitiba, Porto Alegre e Teresina

Raquel Salgado - VALOR

Depois de usar a imagem do governador Jaques Wagner (PT) apoiando sua candidatura na convenção do PSDB e de frisar que tem a simpatia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato tucano à Prefeitura de Salvador, Antonio Imbassahy, duas vezes prefeito, dificultou uma possível participação do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), no horário eleitoral. Por ora, a coordenação da campanha não pensa em usar sua imagem.

Além de São Paulo, Serra só apareceu, até agora, no programa do deputado Fernando Gabeira, candidato da coligação PV-PSDB-PPS à Prefeitura do Rio. Serra, assim como o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), já gravaram para a campanha à reeleição do prefeito Beto Richa, em Curitiba, assim como para a campanha de Nelson Marchezan Júnior, candidato do PSDB em Porto Alegre. Serra também gravou para a campanha tucana em Teresina.

Sua situação poderá se complicar. “Além de não ter hoje um mandato como os outros candidatos, não pode contar com um apoio muito militante do PSDB”, diz Paulo Fábio Dantas Neto, diretor do Centro de Recursos Humanos da Universidade Federal da Bahia (UFBA) que estuda há anos a política baiana. No segundo turno, contudo, Imbassahy se fortalece, pois é pouco rejeitado pela população e se apresenta ao eleitorado como uma boa segunda opção.

Na avaliação de Dantas Neto, não é apenas a aproximação de Imbassahy com Wagner e Lula que impede a participação de Serra no pleito soteropolitano. Mesmo sendo muito próximo de um tucano de destaque na política local e nacional, o deputado federal Jutahy Magalhães Junior, Serra precisa ser pragmático e pensar em um palanque competitivo na Bahia em 2010. “A solução mais provável é que o PSDB marche com o Democratas, o que limita os movimentos de Serra neste ano”, diz. Há ainda a aproximação de ACM Neto com Serra e Aécio, que o vêem como um aliado promissor.

Serra, por sua vez, não é grande angariador de votos em Salvador. Na eleição presidencial de 2002 obteve apenas 4,6% dos votos válidos no º turno e 10,6% na segunda etapa.

Depois de evitar maiores comparações com seu falecido avô, o deputado federal e candidato do Democratas, Antonio Carlos Magalhães Neto, resolveu resgatar não só a imagem do senador ACM, mas também reforçar sua campanha com a presença de outros carlistas: a do hoje senador, César Borges, e a do ex-governador da Bahia, Paulo Souto.

“Veja o que o Democratas e o PR já fizeram por Salvador”, diz o narrador do programa de ACM Neto. Uma seqüência de imagens de ruas, avenidas, parques, além de uma maternidade e de jornais anunciando a vinda da Ford para o Estado são apresentadas seguidas por frases que lembram muito uma antiga campanha de Paulo Maluf. A cada obra, um coro diz: “Foi ACM que fez”, “Foi Paulo Souto que fez”, “Foi César Borges que fez”.

Imbassahy e ACM Neto disputam faixas parecidas do eleitorado. O tucano já foi um dos quadros do antigo PFL e foi graças ao apoio carlista que chegou à prefeitura da capital em 1992. Apesar de seguir bem colocado nas pesquisas, Imbassahy caiu de 27% para 18% na última pesquisa Ibope por encomenda da Rede Bahia, da família Magalhães.

O candidato do PT, o deputado federal Walter Pinheiro, após ter arrancado no Ibope, chegando a 13% das intenções de voto (antes tinha 6%), vai ter, já no 1º turno, uma grande ajuda de Wagner. Depois de afirmar que permaneceria eqüidistante no º turno, pois três dos cinco candidatos são da base aliada de seu governo, Wagner decidiu gravar participações no programa de Pinheiro.

O atual prefeito, João Henrique Carneiro (PMDB) tem usado a parceria com Lula e com o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima. Com a desvantagem de ter sua administração atacada por todos os candidatos, o peemedebista partiu para o confronto. O alvo preferido é Imbassahy que, segundo ele, teve oito anos de mandato e não fez nem metade do que João fez em menos de quatro. O prefeito, que tem 15% das intenções de votos, preocupa-se também com a evolução de Pinheiro. Ambos se apresentam como próximos a Lula e Wagner e opositores ao modo carlista de se fazer política. (Colaboraram Ana Paula Grabois, do Rio; Marli Lima, de Curitiba; Sérgio Bueno, do Rio Grande do Sul, e Cesar Felício, de São Paulo)

06/07/2008 - 15:11h Um Escritor na Periferia: a Argentina em Borges

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Beatriz Sarlo e Jorge Luis Borges

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de São Paulo


Os críticos, de forma geral, quase sempre ignoraram que a questão da literatura argentina é central na obra de Jorge Luis Borges, mas não a ensaísta Beatriz Sarlo, uma das vozes mais lúcidas de seu país. Segundo a professora de Literatura, que lança no Brasil seu livro Jorge Luis Borges: Um Escritor na Periferia (Editora Iluminuras, tradução de Samuel Titan Jr., 160 págs., R$ 35), não existe escritor mais argentino que Borges. Cosmopolita e universal, sua obra, segundo Beatriz Sarlo, é perturbada pela tensão entre a mistura e a nostalgia por uma literatura européia que ele não poderia viver integralmente. Como ler Borges sem remetê-lo a Martín Fierro, a Sarmiento ou a Lugones?, pergunta Beatriz Sarlo, que concedeu ao Estado a entrevista abaixo e faz amanhã, às 19h30, uma palestra no encontro Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem, em Porto Alegre.

Mais forte que a literatura argentina, Borges quase perdeu a nacionalidade. Não ocorreria a nenhum crítico dissociar Balzac e Baudelaire da literatura francesa. Borges, ao contrário, navegou, segundo Beatriz Sarlo, na corrente universalista da ”literatura ocidental”. Qualquer citação biográfica de Borges passa necessariamente pelo fascínio por Chesterton ou Kipling ou pela influência da literatura de Kafka, mas quase nunca por nomes como os de José Hernández, Evaristo Carriego, Macedonio Fernández ou Sarmiento, como se Borges tivesse ignorado sua dívida com a tradição literária argentina. O livro da professora argentina lembra que Borges não apenas escreveu ensaios sobre o Martín Fierro, obra maior da literatura argentina, como foi obcecado pelo poema de José Hernández. E, sobretudo, foi um autor que construiu sua originalidade por via da citação, da cópia.

Borges considerava infundada a opinião de que os escritores argentinos estavam desconectados do passado, ou seja, que houvesse uma ruptura entre eles e a Europa, porque, justamente por ser um país novo, haveria um grande sentido de tempo na Argentina. Por que a crítica insiste em tratar Borges como um escritor que nada deve à tradição literária argentina?

Não é essa a posição da crítica nas últimas décadas. Ricardo Piglia, anteriormente, sublinhou a conexão borgiana com a tradição nacional, num ensaio publicado na revista Punto de Vista. Por essa época também escrevi um artigo cujo título era Borges no Sul, um Episódio do Formalismo Criollo, acentuando a localização argentina de alguns temas de teoria literária suscitados por textos de Borges e publicados nos primeiros anos da revista que dirigia com Victoria Ocampo. Mas, mesmo antes, a professora María Teresa Gramuglio tratou da questão na leitura do livro de Borges sobre Evaristo Carriego, poeta menor que o primeiro usa quase como pretexto para expor uma teoria do bairro de Palermo. De modo que o Borges ocupado com labirintos e espelhos, ou seja, o Borges da primeira leitura crítica e das leituras européias, desde o fim dos anos 1970, adquire um novo rosto, como leitor e reescritor de alguns textos fundamentais da tradição argentina.

A senhora define Borges como escritor da periferia, um cosmopolita à margem, mas, nos capítulos finais de seu livro, apresenta o lado político-filosófico do escritor em termos universais. Há algum projeto de desenvolver esse aspecto particular num próximo livro sobre ele?

Creio, com efeito, que meu propósito de reinscrever criticamente Borges na literatura argentina, como matriz formal e ideológica dessa mesma literatura, como o escritor que inventa ou descobre a centralidade do marginal, só quase no final do livro que está sendo lançado no Brasil considera as figurações borgianas com respeito à ordem, em especial no capítulo sobre O Informe de Brodie. Nesse momento, já acertadas as contas com o Borges fundador das margens ”criollas” de Buenos Aires, parece-me que poderia voltar a contos como O Imortal para ver de que modo outras imagens da cidade, mais abstratas e universais, podem ser representadas na literatura. Precisamente é esse o conto que estou relendo neste momento, ao lado de Abenjacán, el Bojari Muerto en Su Laberinto.

Um dos temas mais interessantes de seu livro é a construção da originalidade de Borges, paradoxalmente por meio da cópia, da reescrita de textos alheios. Essa seria uma insinuação de que a veracidade literária representaria uma ficção para Borges, considerando seu pouco apreço pela literatura realista?

A idéia de veracidade é, em si mesma, uma idéia a que estamos acostumados a encontrar nas poéticas realistas, vale dizer, nos textos que se propõem uma representação cujas origens seriam exteriores à literatura: ou seja, uma representação heterônoma. Borges, ao contrário, está profundamente convencido da autonomia do literário, de sua independência a respeito dos referentes sociais diretos. O literário, em Borges, entra em relação com o social por meio da própria literatura, numa cadeia que vai de texto a texto. A dimensão social da literatura não provém de sua relação direta com uma exterioridade social, mas de uma trama social de discursos, geralmente literários, mas não apenas literários. Ou seja, para ele, a relação é sempre entre discursos, ficções. A verdade dessas ficções não responde nem a uma lógica da verossimilhança realista nem à lógica da acumulação de referências ”verdadeiras”, mas a uma lógica mais abstrata, por um lado de grandes categorias e, por outro lado, de argumentos cuja estrutura seja perfeita e fechada. Nesse sentido, a literatura fantástica de Borges é sempre racionalista, diferentemente, por exemplo, da literatura de Cortázar.

A representação de Buenos Aires por Borges, a partir de sua invenção da periferia, é um aspecto pouco analisado pela crítica internacional. Por que a descrição de Borges tende a retratar Buenos Aires com ares do passado, uma cidade impermeável à modernidade, ao contrário da Buenos Aires de Arlt?Borges pretendia fazer uma nova leitura da tradição ou simplesmente tinha nostalgia do século 19?

Borges lembra da cidade de sua infância e, quando volta a Buenos Aires no começo dos anos 1920, frente a uma cidade real em processo de modernização, coloca em seu lugar uma cidade lembrada e imaginária sem vestígios dessa modernidade. Sabe, contudo, que essa cidade está desaparecendo e que, portanto, há que buscá-la nas figuras do bairro e da periferia urbana. Como muitos modernos, Borges não tem vocação futurista, diferentemente de Roberto Arlt. A tecnologia, que para Arlt define a época, não desperta o menor interesse em Borges. Ele, ao contrário de Bioy Casares em A Invenção de Morel, jamais escreveu algo que pudesse evocar as tramas da ficção científica. São sensibilidades diferentes. É mais provável que um escritor da elite tivesse uma perspectiva nostálgica; e que um escritor filho de imigrantes como Arlt seguramente pudesse se ligar melhor ao radicalmente novo. É admissível essa hipótese sociológica, mas, de todas as maneiras, não explicaria o gosto de Borges por ficções cujo motor narrativo fossem as invenções técnicas.

06/07/2008 - 15:06h Um Escritor na Periferia

Martín Fierro, regional e universal

Escritor sustentava que no poema épico argentino, assim como na Odisséia, estavam resumidas todas as histórias possíveis

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Martín Fierro e Borges

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de São Paulo


Na continuação da entrevista, a ensaísta Beatriz Sarlo, autora de Jorge Luis Borges - Um Escritor na Periferia , fala da relação de Jorge Luis Borges com a modernidade européia dos anos 20 e com a cidade de Buenos Aires.

Borges transforma Martín Fierro e subverte o clássico da literatura argentina ao parafrasear e recontar sua história. Isso significa que Borges não concebia Martín Fierro como obra autônoma da tradição ”criolla”, tendo de misturar essa tradição com a herança literária européia?

Borges disse certa vez que no Martín Fierro e na Odisséia estavam todas as histórias. A frase, um pouco hiperbólica, dá a Martín Fierro uma centralidade na tradição ocidental reconhecível apenas por Borges. Contudo, a frase não é hiperbólica na tradição argentina, cujos dois grandes textos do século 19 são Martín Fierro e Facundo, bastante próximos da época de Borges e separados apenas por quatro ou seis décadas. Sobretudo, estavam muito próximos das tradições culturais da família de Borges, que desaprovava Martín Fierro, em especial pelas idéias políticas de seu autor, José Hernández, e também pelo caráter briguento e valentão de seu personagem, indigno de representar o ideal ”criollo” para muitas pessoas do fim do século 19. Ao optar por Martín Fierro sem renunciar à simpatia por outros poemas gauchescos, Borges faz uma escolha determinada pela qualidade do texto, que obriga um escritor argentino das primeiras décadas do século 20 a adotar uma posição frente à alcançada por Hernández. Como diria Harold Bloom, para Borges, é o ”poeta forte” que se precisa corrigir ou completar para conjurar o perigo da influência.

Borges escreveu que Buenos Aires precisava de fantasmas, o que explicaria sua preocupação com a pobreza mítica da cidade e a ameaça da perda de sua identidade por conta do avanço da modernidade. Essa busca por mitos ancestrais seria resposta a uma certa desilusão com a modernidade européia que acabara de testemunhar na Europa dos anos 1920?

Com efeito, como muitos modernos, Borges é um antimoderno: está contra as democracias de massas, qualquer que seja sua linha, e contra a vulgaridade de um capitalismo que já havia arrasado com todos os valores tradicionais. A reação contra a modernidade é um capítulo importante da própria modernidade e Borges, sem dúvida, ocupa um lugar nesse capítulo. O mundo desencantou-se - não há fantasmas nem mitos, acredita Borges, sem observar a emergência de novos mitos e fantasmas; a ordem foi aniquilada; a sociedade tornou-se plebéia e desordenada. Frente a esse diagnóstico, o liberalismo conservador é, finalmente, o continente ideológico dentro do qual Borges se inscreve, ainda que sempre pareça impossível inscrevê-lo em alguma parte.

Seu livro termina com uma análise de O Informe de Brodie, mas, a despeito da comparação entre Swift e Borges, o último teria sido irônico com a expedição do missionário escocês. Borges pretendia mostrar que a saída para a nossa civilização da desordem estava na razão?

Borges acreditava que havia uma saída na razão e que essa saída poderia tornar-se um pesadelo. Borges é sempre agnóstico e pessimista. Talvez por isso, pela ausência do otimismo histórico, seja sempre inteligente, como muitos pessimistas. Se há algo distante do ethos de Borges é a idéia da consolação e reconciliação.

O que é

Publicado no fim do século 19, Martín Fierro é um poema épico em que o autor José Hernández protesta contra as tendência europeizantes do presidente Domingo Faustino Sarmiento. Em duas partes, a obra evoca a colaboração dos gaúchos (argentinos da região dos Pampas) na luta pela independência do país.

Os primeiro versos do Martín Fierro

1

Aquí me pongo a cantar
Al compás de la vigüela,
Que el hombre que lo desvela
Una pena extraordinaria
Como la ave solitaria
Con el cantar se consuela.

2

Pido a los Santos del Cielo
Que ayuden mi pensamiento;
Les pido en este momento
Que voy a cantar mi historia
Me refresquen la memoria
Y aclaren mi entendimiento.

3

Vengan Santos milagrosos,
Vengan todos en mi ayuda,
Que la lengua se me añuda
Y se me turba la vista;
Pido a Dios que me asista
En una ocasión tan ruda.

4

Yo he visto muchos cantores,
Con famas bien obtenidas,
Y que después de adquiridas
No las quieren sustentar:
Parece que sin largar
Se cansaron en partidas.

5

Mas ande otro criollo pasa
Martín fierro ha de pasar,
Nada la hace recular
Ni las fantasmas lo espantan;
Y dende que todos cantan
Yo también quiero cantar.

06/06/2008 - 17:02h Brasil e Argentina juntos pela arte

Sucesso de feira em Buenos Aires, com destaque dos brasileiros, ilustra potencial do mercado vizinho

Maurício Moraes, Buenos Aires - O Estado de São Paulo


É um homem que come. Foi assim que Tarsila do Amaral definiu O Abaporu, sua obra-prima e ponto de partida do pensamento moderno brasileiro. Comer a cultura estrangeira, degluti-la e criar o equivalente nacional foi a utopia modernista, com ecos que ressoam até hoje. Comprada em 1995 pelo colecionador argentino Eduardo Costantini, a tela é um dos destaques do Malba - Museu de Arte Latino Americano de Buenos Aires e o grande chamariz da mostra Tarsila Viajera, a mais badalada desta temporada portenha. Nesta semana, o Brasil ainda foi destaque na ArteBA, por ter a maior representação na principal feira de arte latino-americana, com galeristas brasileiros ávidos por arte argentina. Se nos tempos de Tarsila o cardápio cultural era eminentemente europeu, o menu atual cada vez mais inclui os vizinhos, e vice-versa. A diferença de idioma já não importa. A exemplo do que fez o Brasil com o espanhol, o ensino de português está prestes a ser adotado em todas as escolas da Argentina.

”O Brasil, seguramente, é o país mais bem representado no Malba. A coleção também é identificada com o País”, diz o curador-chefe do museu, Marcelo Pacheco. Cândido Portinari, Lygia Clark, Di Cavalcanti e Hélio Oiticica e outros grandes artistas brasileiros têm obras nas galerias do museu, fundado e presidido por Eduardo F. Constantini, que em 1995 arrematou O Abaporu por U$S 1,25 milhão. A obra que inspirou o movimento antropofágico, de Oswald e Mário de Andrade e companhia, fez Tarsila tornar-se conhecida no país vizinho. Tanto que a mostra Tarsila Viajera, que esteve na Pinacoteca do Estado de São Paulo sob o título Tarsila Viajante, atraiu mais de 80 mil visitantes em oito semanas. O museu já recebeu retrospectivas de Alfredo Volpi e Lasar Segall e mandou para o Brasil um mostra do argentino Xul Solar e co-produziu uma outra de Leon Ferrari com a Pinacoteca, além de manter parcerias com várias instituições brasileiras.

”O aprofundamento do intercâmbio é uma retomada de uma forte relação que existiu nos anos 20, 30 e 40”, diz Pacheco, explicando o hiato posterior como resultado de questões políticas do pós-guerra. Segundo o curador, argentinos e brasileiros se encontravam na Europa, onde estudavam, e na volta aos seus países mantinham contacto. A própria Tarsila teria planejado uma malograda exposição em Buenos Aires, em 1931. Já Cândido Portinari fez sucesso na cidade com uma exposição em 1947. Mas esses intercâmbios, ressalta Pacheco, se deram muito mais pelas relações pessoais entre os artistas que por políticas de fomento governamentais.

Pelo menos na ArteBA deste ano, que ocorreu entre os dias 29 de maio e 2 de junho, o fomento da Embaixada do Brasil foi preponderante para o destaque do País na feira. O incentivo diplomático fez crescer de quatro, em 2005, para nove, em 2008, o número de galerias nacionais, num total de 31 estrangeiras. A feira é a segunda mais visitada do mundo, com mais de 110 mil pessoas, perdendo apenas para a espanhola Arco. A SP Arte recebeu cerca de 15 mil visitantes em sua última edição, com apenas sete galerias internacionais. Os números ilustram o grande potencial do mercado vizinho, que ainda se recupera dos recentes abalos em sua economia.

Além do olhar argentino, os marchands e o governo brasileiro se interessam pelo olhar dos curadores de importantes instituições como a Tate, de Londres, o Lacma (Los Angeles Country Museum of Art), da Califórnia, e o MoMA (Museum of Modern Art), de Nova York, presentes no evento, a maior vitrine de arte latino-americana. O Brasil já é destaque nas coleções destes museus e a porta de entrada para os acervos pode estar em Buenos Aires.

O marchand Oscar Cruz, da galeria paulistana Baró Cruz, participa da feira há três anos. ”É uma ótima oportunidade não apenas para mostrar arte brasileira, mas sobretudo para prospectar artistas argentinos”, conta. Segundo Cruz, o mercado vizinho é muito fechado e por razões diversas, inclusive pelo contexto econômico, as galerias argentinas não participam das grandes feiras internacionais. Daí a pouca proeminência da Argentina no circuito internacional. ”Nós acabamos fazendo esse papel, levando-os para fora”, explica Cruz. Sua galeria representa dez artistas do país vizinho e é a segunda que mais comercializa argentinos no exterior. Ele vê uma perspectiva de bons negócios no país de Jorge Luis Borges, destacando a alta qualidade da produção e os preços baixos se comparados aos do Brasil.

Um destes artistas é Hérman Salamaco. ”Minha primeira exposição individual foi em São Paulo, na Galeria Thomas Cohn, de modo que o Brasil me abriu as portas”, diz. Muitos artistas locais também adentraram o mercado brasileiro pela Bienal do Mercosul, de Porto Alegre, que desde 1997 serve como grande ocasião de intercâmbio dos circuitos regionais, também em termos de linguagem. Há várias diferenças na postura adotada pelos artistas dos dois países. Os argentinos são em geral mais figurativos, narrativos e dramáticos que os brasileiros, quase sempre mais conceituais.

Por muito tempo, tanto Brasil quanto Argentina tiveram os olhos voltados para o Norte, à Europa e aos Estados Unidos. Embora a relação entre os dois principais sócios do Mercosul esteja longe de ser ideal, é cada vez mais intensa no setor cultural. ”Inclusive porque temos problemas semelhantes”, diz Marcelo Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Antes de dar esta entrevista, Araújo esteve no Museo de Bellas Artes de Buenos Aires, onde assinou um protocolo de intenções com o museu portenho. A iniciativa pioneira visa ao intercâmbio entre profissionais das duas instituições, além de ser um laboratório para projetos conjuntos no futuro. Araújo salientou que as instituições argentinas têm prioridade nas relações estrangeiras da Pinacoteca. Segundo ele, houve uma grande aproximação de museus latino-americanos nos anos 70, por questões de ordem ideológica, nos tempos da Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe). ”Hoje o contexto é de necessidade”, diz, afirmando que muito dessa relação se dá mais pela boa vontade das instituições que por mecanismos governamentais que facilitem essa articulação.

RELAÇÃO INEVITÁVEL

Uma boa forma de medir o intercâmbio cultural entre os dois países é o crescimento de cursos de português na Argentina. Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou uma lei que determina a oferta obrigatória da língua em todas as escolas de ensino médio do país. O projeto aguarda votação no Senado, o que pode acontecer nos próximos meses. Neste ínterim, o Congresso abriu o primeiro curso de português para os assessores parlamentares. Buenos Aires, por sua vez, se antecipou e hoje a língua do Brasil é o principal idioma estrangeiro ensinado em 11 escolas da cidade.

”A lei é uma decisão política muito séria para a integração entre os países”, diz Camilla do Vale, diretora da Fundação Centro de Estudos Brasileiros, Funceb. Maior responsável pela difusão do português na Argentina, a instituição ligada à embaixada possui 1.100 alunos em cursos regulares e dispõe de concorridos cursos de capacitação para professores. Uma oficina na distante província do Chaco, por exemplo, reuniu 70 interessados e ”a demanda é muito grande”, segundo a diretora.

Localizado numa rua estreita do centro de Buenos Aires, ladeado por edifícios de arquitetura clássica, o centro possui programação de cinema e literatura e uma biblioteca, além de convênios com várias outras instituições como a Cátedra Livre de Estudos Brasileiros, criada em novembro do ano passado pela Universidade de Buenos Aires. O Brasil também fez sucesso na Feira do Livro, realizada em maio; o estande do País vendeu mais de 3 mil obras em português. O embaixador do Brasil na Argentina, Mauro Vieira, classifica como ”estratégico” o fomento para intercâmbio entre brasileiros e argentinos. Fora do circuito oficial, cartazes nas ruas de Buenos Aires anunciavam shows de Lenine e Maria Bethânia, na mesma semana. Concertos brasileiros são freqüentes, com casa sempre lotada. A fronteira está aberta, é só passar.

31/05/2008 - 21:05h Erotic Stories by women

Edited by Richard Glyn Jones and A. Susan Williams
Penguin books

Erotic Stories by women é uma antologia publicada pela Penguin books, organizada por Richard Glyn Jones e A. Susan Williams. Richard G. é escritor e editor, já compilou mais de vinte antologias, incluindo Killer couples - um estudo da loucura a dois. Por dez anos ele dirigiu sua pequena editora onde publicou, por exemplo, Jorge Luis Borges. A. Susan é pesquisadora da Universidade de Londres, o seu foco é a literatura produzida por mulheres, é dela a introdução a esta antologia que abarca trabalhos escritos por mulheres de diferentes países: Japão, Rússia, França, Botswana, Estados Unidos, Canadá, China, etc. O Brasil, infelizmente, não está representado por nenhuma autora.

Os Contos foram organizados de forma cronológica e vão de 1882 aos nossos dias o que reflete, segundo Susan, grande diversidade histórica e cultural. Algumas poucas histórias foram extraídas de trabalhos mais longos, mas os organizadores tomaram o cuidado de publicar textos que fossem completos, mesmo nesse caso. Como afirma a autora da introdução, uma consideração sobre o significado da palavra Erótico não poderia faltar numa antologia que tem este título. Erótico, como é sabido, vem do grego, mas, se pergunta Susan, em que extensão a palavra era usada para descrever a paixão sexual sentida pelas mulheres já que a sociedade ateniense era comandada pelos homens? Sugere que seria, inclusive, mais apropriado chamar essa sociedade de ‘androcracia’ ao invés de democracia já que o poder não emanava realmente do ‘povo’ como sugere a palavra e sim do homem. “Relegar a mulher a um papel puramente biológico era perfeitamente natural”, explica Eva Canterella.

Susan prossegue explicando que, até muito recentemente, trabalhos escritos por mulheres estavam quase ausentes das coleções de ficção erótica. O bestseller Histoire d’O (1954) de Pauline Réage, é uma exceção, foi um dos raros livros de conteúdo erótico escrito por uma mulher, porém, observa Joan Smith, a autora replicou o discurso masculino no qual o homem domina a mulher. É a história de uma moça que se torna, por escolha própria, “escrava sexual de um grupo de homens que a torturam, estupram, batem e humilham até que ela desista de toda liberdade ou vontade.” As autoras representadas nesta antologia rejeitaram estas convenções e encontraram outra forma de escrever sobre desejo, explica Susan.

A primeira história, Violette, é um episódio da novela Le roman de Violette que foi publicado anonimamente em Bruxelas em 1882, hoje sabe-se que foi escrito pela Marquesa de Mannoury D’Ectot. Violette é uma criada de dezesseis anos que foge da casa – e das garras - de seu patrão, vai procurar ajuda na casa do narrador desta história. Este, com muita ternura e respeitando a vontade de Violette, vai lhe mostrando os caminhos do prazer.

Outras escritoras francesas presentes nesta antologia são Colette, com o conto Mitsou, (1919) e Simone de Beauvoir com Marcelle (1942). É preciso entender de forma muito ampla o conceito de erótico para que se inclua nele este conto de Beauvoir que tem, isso sim, muito de engajamento feminista. Marcelle, uma mulher inteligente, procura um ‘homem de gênio’, entrega-se a um poeta que, ela imagina, seria este homem. Sofre, se anula, aceita as condições e os caprichosos do homem criador, a tudo justifica e ao ser rejeitada, descobre que não precisa mais procurar este homem, pois, em meio às lágrimas, percebe que ela sim, era ‘uma mulher de gênio’.

Algumas das autoras desta antologia são mundialmente conhecidas: Kate Chopin, Katherine Mansfield, Gertrude Stein, Isabel Allende…, outras são conhecidas somente no seu país de origem ou regionalmente. Siv Holm, escritora dinamarquesa, tornou-se famosa após a publicação de sua novela autobiográfica (em partes) I, a Woman (1965) que mais tarde foi adaptada para o cinema. É um extrato da novela que encontramos nesta antologia. Trata-se da história de uma mulher que ‘se libera da sua família e da vida numa pequena cidade. O livro chocou a sociedade na época porque mostrava uma mulher que quer – e encontra – sexo fora do casamento e sem compromisso de qualquer relacionamento durável. ’ Nesse extrato escolhido para a antologia percebemos também a reflexão da personagem sobre a escrita, o momento em que toma a decisão de comprar uma máquina de escrever, em que se pergunta sobre o que vai escrever e decide que só pode começar escrevendo sobre si, seus desejos. “É, provavelmente, o caminho mais seguro e mais honesto.”(….) “Deve ser fácil se você escrever do mesmo jeito que pensa.” Conclui.

Alifa Rifaat é uma escritora egípcia que, diz a apresentação, trabalha unicamente dentro da cultura árabe. O título do trabalho apresentado neste livro é My World of the Unknown (1971), um conto fantástico em que a personagem apaixona-se por um djinn, um espírito presente na cultura islâmica, aqui ele aparece na forma de uma serpente. É um conto delicado e impregnado de sensualidade. Outra escritora que preferiu falar de sexo de forma indireta, ou seja, através da ficção científica, foi Joanna Russ. Ela afirma que ‘É impossível escrever sobre sexo de forma direta.’ No seu conto, An Old-fashioned girl, a narradora apresenta às amigas o seu homem-robô.

Bessie Head (1937-1986)é sul africana, filha de uma escocesa e um zulu, nasceu num hospital psiquiátrico (prisão, dizem outros) para onde a sua mãe foi enviada para o resto da vida por causa da união ilícita com um negro. Bessie é a autora do conto, The collector of treasures, onde, como em muitos dos outros trabalhos da autora, o tema é a injustiça de que tantas mulheres africanas são vítimas. Dikeledi, personagem principal do conto, aceita casar-se com um homem insensível e egoísta porque não tinha outra saída, órfã, vivia na casa do tio que queria livrar-se dela. O marido a abandona com três filhos, ela trabalha duro e consegue alimenta-los e educa-los sozinha. Um dia, talvez contrariado por ver a mulher se dando bem sem ele, o marido aparece para reclamar sexo e mordomias. Uma mulher negra não tinha condições de recusar sexo ao marido, reflete Dikeledi e, fingindo aceitá-lo, prepara o seu banho, o jantar, bebidas e uma faca bem afiada com a qual arranca fora o seu membro. Um excelente conto, o erótico, aqui, acho que fica na conversa entre Dikeledi e uma vizinha que narra a sua vida sexual. Ela tem a sorte de ter um marido atencioso e, com pena da amiga que desconhece o prazer na cama, propõe-lhe que sirva-se do seu marido enquanto ela estava grávida. Dikeledi agradece a atenção, mas, sabiamente, recusa a oferta.

A japonesa Amy Yamada é famosa no seu país e relativamente conhecida nos Estados Unidos, viveu em Nova York e muitos dos seus trabalhos são traduzidos para o inglês. O universo de Kneel Down and Lick My Feet, o conto apresentado nesta antologia, é o dos clubes de sadomasoquismo. A narradora trabalha em um destes clubes e vai contando sobre o trabalho, a importância de se amarrar bem as cordas, por exemplo, e, uma das partes mais interessantes, a linguagem usada nestes lugares. “A linguagem é uma das coisas mais críticas neste tipo de jogo.” Avisa. “Você tem que falar de um modo altivo, mas é preciso também mostrar respeito e ser educada.” A narradora é uma ‘rainha’. “Nós, rainhas, somos personagens extremamente importantes, no final das contas. Nós temos que usar palavras que elevam nossas ações. Pense nelas fora de contexto e você não pode se impedir de rir.” “Escravos que exaltam cada ação da rainha chamam meu xixi de água sagrada.” É um dos melhores contos do livro, em minha opinião.

Evelyn Lau deve ser a escritora mais jovem desta antologia, ela é canadense, de família chinesa e nasceu em 1971. Decidiu cedo que queria escrever, mas a família, sobretudo a mãe queria que ela fosse médica. A exigência e pressão eram tão grandes que, com 14 anos, Evelyn deixou a casa dos pais e foi viver na rua, casa de amigos eventualmente ou ainda albergues. Para viver prostituiu-se e, durante todo o tempo manteve um diário que foi publicado com o título de Runaway: Diary of a street kid, traduzido para o português como A fugitiva - diário de uma menina de rua. O livro tornou-se um bestseller no Canadá, depois disso Evelyn já publicou outros livros e recebeu vários prêmios. Nesta antologia podemos ler o conto Fetish Night, retirado de Fresh girls, seu livro de 1993.

A vantagem de uma antologia como esta é a possibilidade de se conhecer escritoras muito diferentes umas das outras. Se, numa livraria, eu desse de cara com um livro de Alifa Rifaat, Amy Yamada etc, o nome não me chamaria a atenção, hoje eu não sairia dali sem eles.
Leila Silva Terlinchamp - Cadernos da Bélgica
Na foto: Colette, Simone de Beauvoir.

Fonte Rosebud - Livros
Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

19/05/2008 - 15:49h Passado, presente, e memória na voz de Kathleen Battle

Soprano norte-americana fala ao Estado sobre sua carreira após apresentação com a Sinfônica Brasileira, no Rio

“Amantes”, música do filme Adagas voadoras, na voz de Kathleen Battle

João Luiz Sampaio - O Estado de São Paulo

‘A diversidade de influências é o que define o cantor. É na maneira de reunir estilos, épocas e gêneros que encontramos os aspectos únicos de uma voz.’ Assim a soprano norte-americana Kathleen Battle definiu suas origens como cantora, em entrevista ao Estado, na manhã de sábado. Kathleen está no Rio, onde fez na sexta sua primeira apresentação na cidade, ao lado da Orquestra Sinfônica Brasileira, com regência do maestro Roberto Minczuk.

‘Cresci ouvindo música country com meus pais, música gospel na igreja, R&B com meus irmãos e, aos 13 anos, quando comecei a estudar piano, passei a conhecer a música clássica. Não acho que um desses elementos tenha sido decisivo na minha carreira. Todos eles foram fundamentais no processo de encontrar a minha própria voz’, disse a soprano.

Battle surgiu no cenário no final dos anos 80, com um timbre muito bonito, delicado, aliado a uma técnica precisa que logo a levou aos principais teatros da ópera mundo afora. Com o tempo, no entanto, a atuação fora dos palcos foi ganhando igual repercussão em sua carreira - o temperamento difícil, testemunhado por empresários, colegas cantores, maestros, fez com que cada vez menos ela fosse convidada a se apresentar. Já se vão alguns anos em que se ouve pouco dela e, então, eis que ela reapareceu, em abril, cantando para o papa Bento XVI em Washington e, agora, na temporada da OSB.

Kathleen não responde perguntas sobre seu temperamento. E ponto final. Você pode tentar circular, dar a volta, entrar por outra porta… Esqueça, não. Ela fala, no entanto, da dificuldade de encontrar tempo para si mesma no ritmo frenético de uma carreira internacional e, ao mesmo tempo, de como consegui-lo, o que é fundamental para um cantor. Aos jovens artistas, dá apenas um recado - ‘cantem de acordo com a sua idade’. ‘Há sempre a tentação de cantar com outra voz que não a sua, de tentar arriscar demais. Não há nada de errado em soar jovem, pelo contrário. A voz cresce, à medida que seu ritmo natural é respeitado’, diz. Ela elege Bach e Mozart como os dois compositores com os quais tem mais identificação - e é categórica ao afirmar que, em uma época de profunda especialização, com recriação de técnicas da época em que as obras foram escritas, o cantor não pode se furtar jamais de emprestar a sua individualidade aos papéis. Sobre a relação com os spirituals, a música negra americana de caráter sacro, diz que se sente muito à vontade, mas ressalta: ‘A tradição de cantoras desse repertório remonta a Marian Anderson, Leontyne Price, Jessye Norman, que são todas vozes mais pesadas, escuras, que a minha. Procurei, portanto, uma maneira própria de interpretá-las.’ E, pronto, acabaram-se os dez minutos de conversa, não sem que antes ela elogiar o Coral Infantil da UFRJ, com o qual havia se apresentado na noite anterior, interpretando Azulão, de Jayme Ovalle. ‘Eles cantam como se fossem uma só voz. Essa experiência de cantar em conjunto pode ser definitiva na formação do cantor.’

Azulão, com letra de Manuel Bandeira, foi o destaque da apresentação de sexta. Ela começou o programa com a interpretação de duas árias de ópera, Una Voce Poco Fa, de Rossini, e O Mio Babbino Caro, de Puccini. Em seguida, cantou Melodia Sentimental, de Villa-Lobos, e Elegia, de Granados. Foi a vez então da canção de Jayme Ovalle e, no final da noite, três spirituals. A voz já perdeu um pouco da agilidade e da clareza nas articulações e, em muitos momentos, a intenção se sobrepõe à técnica, com certa dificuldade na manutenção das linhas de canto. Mas algo, então, acontece. Jorge Luis Borges sugeriu que talvez seja o passado a substância de que é feito o tempo. A citação vem à mente em certas passagens do concerto, quando o timbre de outra época reaparece - uma articulação, um fraseado, uma construção de clímax. Ele, no entanto, logo se desfaz. Ouvimos o concerto com a memória como filtro; e fica difícil não pensar no que teria sido o auge jamais concretizado de uma carreira interrompida e abandonada cedo demais. Mas o coro infantil volta ao palco para o bis. ‘Vai Azulão/ Azulão companheiro vai/ Vai ver minha ingrata/ Diz que sem ela/O sertão não é mais sertão/ Ah, voa, Azulão/ Azulão, companheiro vai…’ Tudo se encaixa perfeitamente, a voz da soprano corre solta, suave, em direção ao silêncio; e, embalado na melodia encantadora de Jayme Ovalle, o texto de Manuel Bandeira nos relembra que na simplicidade há muita beleza. E que, mesmo apenas por um momento, o recomeço é possível.

12/05/2008 - 10:29h Documentário pode interessar aos fãs de tango, mas entedia os cinéfilos

Crítica/”O Último Bandoneón”

Divulgação
Cena de “O Último Bandoneón’, documentário argentino sobre tango que está em cartaz em SP


CRITICO DA FOLHA DE SÃO PAULO

Jorge Luis Borges (1899-1986), que foi um escritor imenso, mais do que grande, achava que o tango corresponde ao lado sentimental, quase desprezível da alma argentina. Como quase tudo nas opiniões de Borges, isso era controverso. Cortázar, por exemplo, outro magnífico escritor, era fã.
Mas Borges interessa justamente por suas intervenções heterodoxas. Ele dizia, quando o acusavam de não ser argentino, que não devia ser mesmo, porque “os argentinos gostam de Paris, e eu prefiro Londres”: só com isso punha uma pá de cal, mas com que classe, no nacionalismo.
Ele também podia ser malvado. Ao comentar um filme argentino, lembra que lhe disseram tratar-se “de um dos melhores filmes argentinos”. E completava: “portanto, um dos piores do mundo”. O tempo passou e nos acostumamos mesmo a entoar loas ao cinema argentino. Esquecemos que a produção de um país seja qual for é, em média, muito fraca.
É dessa fraqueza que sofre “O Último Bandoneón”, documentário -em cartaz na cidade desde a última sexta-feira- extremamente convencional do diretor Alejandro Saderman. Aqui, não há como comparar com o melhor do documentário ou do documental brasileiro.
Podemos esquecer dos que -como Eduardo Coutinho e Andrea Tonacci sobretudo-, entre nós, trabalham tão intensamente esse limite entre o real documentado e a ficção, entre real vivido, representação, apropriação e verdade.

Limitações
Em “O Último Bandoneón”, estamos diante da moça disposta a viver de seu bandoneón, mesmo que para tanto tenham de tocar em ônibus, do maestro que recria uma orquestra de tango, de aulas de dança, espetáculos do gênero. E entrevistas, pilhas de entrevistas.
Se do ponto de vista cinematográfico “O Último Bandoneón” tem muitos limites, a verdade é que pode muito bem chegar ao público que se interessa por tango em particular ou mesmo por dança de uma maneira geral.
Do falar portenho, das visitas a locais típicos, às pessoas típicas, às músicas tradicionais, tudo favorece esse contato. Não falta nem mesmo essa crença tão latino-americana de que, não fossem os nossos ritmos, os europeus morreriam sem ter como externar seus sentimentos. Esses aspectos singelos do universo musical estão contemplados também.
Num mundo tão regressivo em matéria de usos e costumes, reviver o começo do século 20 pode não ser, hoje, apenas um prazer de sexagenários. Os fãs do ritmo têm por que se esbaldar. Os cinéfilos não têm muito como não se entediar. (INÁCIO ARAUJO)


O ÚLTIMO BANDONEÓN
Produção:
Argentina, 2005
Direção: Alejandro Saderman
Com: Marina Gayotto, Natalia Arroyo, Rubén Jurado e outros
Onde: em cartaz no Reserva Cultural 4 (classificação: livre)
Avaliação: ruim

05/05/2008 - 17:26h Nélida Piñon em Buenos Aires: “minha geografia literaria é a liberdade”

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“La audacia de Borges fue imaginar que el mundo era Argentina”

En esta entrevista, Nelida Piñon, habla de sus últimas obras y de una historia de la literatura no oficial

Por Susana Reinoso
De la Redacción de LA NACION

Su literatura exhibe una poética profunda y sin tiempo. Y cuando habla, su sabiduría parece provenir de un alma cuya antigüedad excede en mucho su cronología.

La escritora brasileña Nélida Piñon habla y escribe como si un misterio insondable la habitara: “Mi geografia literaria es la libertad. No tengo miedo. Como no pienso en el éxito ni en los premios cuando escribo, puedo ser una aventurera en cualquier geografia cósmica y en cualquier parte de la Tierra. A lo que no puedo renunciar es a la lengua portuguesa”.

Este año, se espera en español su ensayo Aprendiz de Homero, que acaba de publicar en portugués. Allí rastrea la trayectoria civilizadora y los grandes maestros del pensamiento narrativo. Y también el primer volumen de sus memorias, Corazón andariego. Ambas obras a cargo de Grupo Santillana.

“Ese corazón andariego soy yo”, dice la notable narradora como si hiciera falta. “Mi vida entre dos culturas –la gallega de mi familia y la brasileña- es el fundamento. He tenido la fortuna de nacer con un doble imaginario. Soy una mujer con dos visiones del mundo”, subraya.

La ganadora del Premio Príncipe de Asturias de las Letras 2005 estuvo en la Feria del Libro de Buenos Aires para hablar sobre el padre de la novela moderna brasileña, Joaquim Machado de Assis, y de su último trabajo literario traducido al español, Voces del desierto (Alfaguara).

-Como Kafka, que escribió en alemán, y tantos otros ¿podría usted haber elegido una lengua literaria distinta a la portuguesa?

-En el caso de Kafka parece una naturalidad histórica, no crees? Cuando yo era muy joven –tendría 16 años- me pregunté sobre esa posibilidad. Pero hubiera sido renunciar a la grandeza del portugués. Hubiera sido un acuerdo espurio para facilitar mi trayectoria literaria. Y no lo quise así. Sé que no elegí el camino más fácil. Pero elegí, sin arrepentimientos, ser una escritora brasileña.

-¿Qué le brindó la lengua portuguesa?

-Cuando asumí como presidenta de la Academia Brasileña de Letras, la mayor institución cultural de mi país fundada por Machado de Assis y Joaquim Nabuco, dije que me sentía como una brasileña reciente. Ya no tengo ese sentimiento, pero durante muchos años me sentí como si hubiera golpeado hacía poco tiempo la puerta del corazón brasileño. Y de ese modo tenía que hacer un doble esfuerzo por interpretar ese país. Como una cristiana nueva que no abjura de su anterior creencia, me tocaba mirar desde un ángulo singular por el hecho de ser de familia inmigrante gallega. Esto me ha dado una antigüedad, porque me siento como una mujer de 5000 años. Aunque soy nueva en América, soy antigua en algún sitio y he aportado esta antigüedad a mi mirada americana. La lengua portuguesa, además, ganó modernidad al llegar a Brasil…

-Como el español en América latina.

-Exacto. En el momento en que ingresamos en la corriente atlántica, el espíritu del portugués fue afectado. Empezamos a buscar interpretaciones y palabras que se ajustaran al nuevo espíritu de América.

-¿La historia de la literatura comete muchas injusticias, como el olvido al que se condenó a Machado de Assis?

-Es inevitable, porque muchas veces hay un epicentro decisorio que varía. Ese epicentro no siempre favorece el periférico. Y a Machado de Assis lo tuvimos siempre en el periférico. Machado, un genio extraordinario, fue el primer gran narrador de América Latina, el padre de la novela moderna, el que se atreve a tomar el mundo urbano como hilo conductor de su narrativa. Hace de Río de Janeiro la metáfora de Brasil. Por eso hay que considerarlo como el extraordinario intérprete de Brasil. La tendencia en nuestros países es buscar a los intérpretes en la sociología o en la enseñanza social. Pero creo que la psiquis brasileña, sus laberintos y su misterio están en la obra de Machado. Y a través de la obra de creación se puede incursionar en lo humano.

-¿Machado es a Brasil lo que Borges, a la Argentina?

-Borges es, para las últimas generaciones, un escritor cuya audacia fue imaginar que el mundo era Argentina. No hacía falta estar en la Argentina para ser argentino. El circula por el mundo, como si estuviera en la calle Posadas, de Buenos Aires. Y tiene una vocación universal. A mi juicio fue muy argentino. El abolió fronteras para las últimas generaciones. E inventó universos. Hasta un punto fue él quien ayudó a liberar el concepto de ciudades imaginarias. En ese sentido es un escritor extraordinario, a quien admiro profundamente.

-En Voces del desierto, la mujer parece detener el tiempo para que no corra sangre. ¿Sería el papel deseable para el género en un mundo dispuesto a la guerra?

-Convendría que lo fuera, pero no estoy segura. Es impredecible lo que la mujer vaya a hacer con su trayectoria. Lo importante es que ponga las pautas para hacer algo inaugural. Esa criatura tendrá que ser puesta a prueba, por si la sociedad es tan dañina que lo devasta todo y no deja espacio para la redención moral. Seria un atrevimiento. Pero hay que saber que la libertad exige una responsabilidad ética muy grande. Desde ese espacio inaugural, ella pueda aportar un elemento inesperado.

-¿Por qué los políticos prescinden de los intelectuales?

-Porque son egocéntricos y cada vez más incultos. Para ellos el libro es una abstracción. Además, piensan que los intelectuales son incómodos, un peso desagradable. Y con ideas no se gobierna. Creación, ideas y acción pública no se llevan. Ha pasado muy pocas veces en la historia. Para los políticos las ideas siempre están vinculadas a un sueño imposible y peligroso.

-¿Por qué el hombre necesita historias para sentirse vivo?

-Porque nuestra historia personal es insuficiente. Siempre tenemos que contrastarla con las de los otros, sea el vecino o quien fuera. Eso tiene que ver con un sentimiento de vacío que sólo puede ser llenado con la intriga, con el rumoreo. Para avanzar hacia sí mismo el hombre tiene que saber qué pasa en la casa del otro. Es inevitable: si no sé de tu vida, la mía reduce su dimensión. Estoy convencida de que no se puede volver a casa todos los días, desde el trabajo o de donde sea, sin llevar una pequeña intriga en el bolso. No se puede llegar a casa y decirle a otro: “No he vivido nada”. Uno siempre tiene que dar pruebas al otro de que ha vivido una aventura diaria. Hay que legitimar lo cotidiano. Entonces uno llega y cuenta una historia ampliada. No somos narradores simples, nuestra vida personal no lo permite. Quien vuelve a su casa en silencio es muy peligroso. Le falta horizonte, imaginación y acepta una vida traducida, sin darse el trabajo de traducirla. Los escritores no inventamos la literatura, sino la poética. Ha sido la sociedad humana la que, desde el principio de la tribu, exigió que alguien le contara su historia. Por eso la comunidad acepta la invención literaria como si fuera suya.

-¿Cuál es la ciudad más literaria de Brasil?

-Si hablo de Machado de Assis, tengo que decir que es Río de Janeiro. Machado no cuenta la historia de Río, sino la de Brasil. Río de Janeiro es para Machado de Assis un escenario teatral. El sertón (desierto) brasileño sirvió muchas veces de escenario mítico. La materia de la realidad tiene que pasar por muchos filtros para ganar verosimilitud. Todo sirve para convencer en el arte.

-¿La lectura puede ayudar a la gente a preservarse en los países asolados por la violencia?

-Nos conviene creer eso, porque la lectura es una expresión de la civilización contra la barbarie. Es como si trabáramos batallas para enfrentar a aquellos que quieren hacernos renunciar a nuestro humanismo. Y la lectura es extraordinaria. Basta leer a Antígona para responder esa pregunta. Por eso es tan raro que la sociedad lea cada vez menos. Y eso se nota. Hoy, en el ascensor, saludé a dos brasileños que no reconocieron mi acento, porque hablé en español. Ellos hablaban un portugués indigente y hacían chistes indigentes. Hay que ser brillante en la ironía. De inmediato pensé: “¡Dios mío! Ya no es posible encontrar gente que suspenda la realidad con una frase”. Es raro que te sorprenda alguien con una frase comprometedora. Al contrario, te expulsan.

-Cunde una sensación de no pertenencia.

-Exacto, es como si tú no pertenecieras ya a un universo cosmopolita, culto y civilizado. Todo es muy indigente. Y además la gente está renunciando al uso pleno de la lengua. Una sola palabra define todo. ¿Donde ha quedado el mundo de las ideas y los conceptos? ¿Debajo de la alfombra?

-Pensando en el erotismo de Voces del desierto, ¿no cree usted que el vértigo de lo cotidiano ha afectado ese elemento que atraviesa todos los vínculos?

-El erotismo está en todas las expresiones. También entre los amigos, y no hace falta que uno tenga conciencia de que es erótico en un gesto o en un anhelo temporario. Vivimos con tanta velocidad, con tanto estrés, con tanta presión, que sólo queda el sexo mecánico. Pero ese sentimiento inefable del cuerpo, que es el erotismo, está desapareciendo. La gente ya no tiene una mirada erótica, que no es de lujuria, sino de complicidad. Hoy ya no se hace el amor para dos, sino para la mirada de un tercer observador que evalúa tus habilidades. Esto provoca una obsolescencia muy fuerte y te obliga a acelerar mucho más una vida que tendría que ser vivida con otra plenitud. Parece que tuvieras que dar pruebas evidentes de que no estás muerto. Es un miedo terrible a dejarse atrapar por la finitud.

-Y aparece el botox para extender la vida…

-Vivimos en una sociedad que se vanagloria de su juventud, de los pechos grandes, de la delgadez, de la cirugía estética, del botox en todas partes. Eso es la expresión del descontento con el propio ser. Es la no aceptación de quien eres. Y además no le da tiempo al cuerpo a vivir la dramática emoción de su envejecimiento, que es algo impresionante. Cada mañana te das cuenta que tus movimientos son distintos, que tienes que caminar de una determinada manera para no caerte. Es muy fascinante. Una experiencia única. Entonces simulas que la cara que ves no es la tuya. Pero ¿a quien se la pediste prestada? A quien le estás pagando copyright?

-Usted, que es aprendiz de Homero, ¿con qué personaje homérico se identifica?

-Creo que Paris y Elena son dos tontos. Aquiles me parece interesante. Pero el mayor de todos es Ulises, por mucho más que por su astucia. Ulises es quien aprenderá a envejecer. Es quien, en verdad, sabe que puede perderlo todo y entonces engaña a las fuerzas de la naturaleza para llegar un día, quién sabe, a Ítaca. Es el gran sobreviviente de Troya. Todos hacen su acuerdo con la eternidad, pero quien sobrevive es Ulises. Es quien cruza todas las épocas.

09/04/2008 - 04:24h Produtividade sobe acima do salário este ano

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Sergio Lamucci e Cibelle Bouças - Valor

Nos 12 meses até fevereiro, a produtividade do trabalho na indústria cresceu 4,6%, acelerando o ritmo em relação ao ano de 2007, quando o indicador subiu 4,1%. Esse aumento de eficiência - tanto em 2007 como nos 12 meses até fevereiro - superou o ganho real médio dos salários, que ficou em 3,1% no ano passado e agora recuou para 2,85%, segundo pesquisa divulgada ontem pelo IBGE. É mais um sinal de que o crescimento da indústria ocorre de modo sustentável, sem pressões inflacionárias relevantes.

Magdalena Gutierrez/Valor
Bráulio Borges, economista da LCA Consultores: aumento firme de produtividade mostra um cenário favorável para a evolução da inflação

A diferença entre produtividade e salário passou de 1 ponto percentual no ano passado para 1,8 ponto. Isso equivale a uma queda de 1,7% do custo unitário do trabalho (CUT) em termos reais, uma boa notícia para o controle da inflação. Há algumas pressões localizadas, como em indústrias extrativas e no setor de coque, refino de petróleo e álcool, mas o quadro geral é bastante favorável.

“O CUT negativo mostra que os ganhos de produtividade das empresas superam os reajustes acima da inflação concedidos aos trabalhadores”, diz o economista Bráulio Borges, da LCA Consultores. Em 2007, o CUT, que mede o custo da mão-de-obra para produzir uma determinada mercadoria, teve queda de 0,96%, descontada a inflação. Para ele, isso é fundamental num momento em que as companhias enfrentam outras pressões de custos, como eventuais elevações dos preços de matérias-primas e insumos. “É uma tendência que ajuda a reduzir repasses do atacado para o varejo.”

Para o Departamento de Pesquisa e Estudos Econômicos do Bradesco, a trajetória do CUT mostra que, ainda que os salários estejam aumentando - um reflexo do aquecimento no mercado de trabalho - , a expansão da produtividade na indústria é mais intensa, o que minimiza os impactos da alta salarial em diferentes setores. O CUT tem ficado em terreno favorável para a inflação de bens industriais. Para os economistas do Bradesco, isso não quer dizer, porém, que a demanda não esteja extremamente aquecida e que não seja necessário um ajuste nos juros. Na avaliação do banco, a indústria enfrenta fortes pressões de custos por conta do aumento nos preços das commodities. O Bradesco aposta em um aumento na taxa Selic, começando por uma alta de 0,25 ponto percentual já na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da semana que vem.

Borges destaca o fato de o crescimento da produtividade ocorrer com aumento simultâneo da produção, que cresceu 6,85% nos 12 meses até fevereiro, e do número total de horas pagas aos trabalhadores, com alta de 2,12% no período. Não há destruição de emprego, pelo contrário. É um aumento de eficiência virtuoso, que ocorre com mais força na indústria de transformação. No segmento, a produtividade subiu 4,7%, enquanto que as indústrias extrativas tiveram elevação de 3,5%.

Para Borges, a maturação do investimento é importante para explicar os fortes ganhos de eficiência da indústria. Com o forte crescimento das compras de máquinas e equipamentos, as empresas apostam na modernização dos processos produtivos, diz Borges.

Os maiores destaques são os segmentos de máquinas e equipamentos e fabricação de meios de transporte. No primeiro, a produtividade cresceu 8,3%, ao passo que o salário médio caiu 5,9%, descontada a inflação. Nesse caso, a diferença entre a produtividade e os salários ficou em 14,2 pontos percentuais, uma situação muito confortável do ponto de vista da inflação. A produtividade na fabricação de meios de transporte (onde está a indústria automobilística) avançou 8%, bem mais que o 1,71% do ganho real médio dos salários. Para o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, isso indica que, nesses dois segmentos, uma parcela maior dos ganhos de produtividade está indo para a empresa. “Em tempos de altas generalizadas dos preços de commodities, o aumento dos salários compete com os aumentos de custo de matéria-prima. Se os custos de matéria-prima não tivessem subido tanto, talvez os ganhos salariais pudessem ser maiores nessas empresas.”

Em comparação com fevereiro do ano passado, o ritmo de expansão da produtividade mais do que dobrou, saindo de um crescimento de 2,1% para 4,7%, observa Thaís Zara, economista da Rosenberg Consultores Associados. A variação da folha de salário médio real foi menor, saindo de 1,6% para 2,85%. “O ganho de produtividade acima do aumento da folha mostra que parte dos ganhos ficaram retidos na indústria, não se traduziram totalmente em poder de compra extra para os trabalhadores, pelo menos na maioria das áreas.” Pelos cálculos do Valor, as diferenças entre produtividade e salário mais significativas ocorreram nos setores de máquinas e equipamentos, borracha e plástico, meios de transporte, madeira, vestuário, calçados e couro.

Fernando Sarti, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), avalia os números com mais otimismo. Para ele, as indústrias estão conseguindo responder à demanda aquecida com ganhos de produtividade, mas elevando pouco os custos trabalhistas, o que ajuda a contrabalançar o aumento dos custos com insumos. “As indústrias estão conseguindo responder com produção sem ter tantas pressões.” Sarti também considera que a expansão de produtividade em alguns setores, como o de máquinas e equipamentos e minerais não-metálicos - que elevaram mais a produção que as horas pagas e não registraram aumento significativo no uso de capacidade instalada nos últimos meses - também pode refletir a maturação de investimentos iniciados em anos anteriores.

No setor de coque, refino de petróleo e álcool a situação é menos favorável. A produtividade caiu 5,4% nos 12 meses até fevereiro, período em que a produção aumentou 4,7% e o número de horas pagas, 10,7%. Vale diz que o segmento “teve vários problemas de produção no ano passado, com paradas técnicas em plataformas que atrapalharam o refino também”. Borges lembra que o setor também sofreu com o atraso no aumento esperado da capacidade instalada. As empresas contrataram mais, mas não houve a expansão produtiva no tempo que se esperava. O salário médio real cresceu 1,75% no segmento, mas, como a produtividade teve queda, o CUT registrou alta de 7,6%, indicando pressão de custo.

As indústrias extrativas também viram a produtividade, com alta de 3,5%, crescer menos do que os salários (aumento de 8,1%). Para Borges, o problema aí é a falta de mão-de-obra qualificada, enfrentada por empresas como a Vale do Rio Doce. Ele acredita, porém, que são problemas localizados. A situação geral da indústria é positiva, e os salários não aparecem como ameaça inflacionária consistente.

25/03/2008 - 13:13h Buenos Aires acolhe exposição de Tarsila do Amaral

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Quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral; artista brasileira ganha mostra na Argentina

Efe, em Buenos Aires - Folha Online

O Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba) iniciará sua temporada com uma mostra única sobre a artista brasileira Tarsila do Amaral, a exposição “Tarsila Viajante”.

A exposição, que começa no próximo sábado (29), inclui 80 pinturas, 60 desenhos e cadernos de viagem e reúne três obras mais emblemáticas: “Antropofagia”, “A Negra” e “Abaporu”, quadro o qual deu origem ao chamado movimento antropofágico. A mostra já foi exibida na Pinacoteca em São Paulo.

A pintora (1886-1973) manteve nos anos 1920 uma estreita relação com intelectuais argentinos como Jorge Luis Borges, e fora do Brasil sua obra só foi reconhecida em estreitos círculos culturais.

A mostra, que será inaugurada em Buenos Aires, vai ser “uma grande descoberta” para os argentinos, afirmou o curador-chefe do Malba, Marcelo Pacheco.

“Tarsila Viajante” recolhe obras que a artista produziu nos anos 1920 durante suas viagens por Europa, Brasil, a ex-União Soviética e o Oriente Médio.

Será a primeira vez que uma retrospectiva individual de toda a obra de Tarsila poderá ser vista na Argentina.

Pacheco disse que a exposição é uma oportunidade única para ver reunidas as obras fundamentais de Tarsila, uma das melhores artistas do século 20, e cuja particularidade é que a visão de suas obras permite entender o mundo contemporâneo.

“Tarsila tem a ver com a construção da cultura, da literatura, do cinema e da fotografia européia e latino-americana; do culto e do popular”, disse.

“Tarsila Viajante”, organizada pela curadora Regina Teixeira, ficará em exposição no Malba entre 29 de março e 2 de junho.

22/03/2008 - 12:31h Brasil vibrará en Buenos Aires

Por Susana Reinoso - adncultura*com

Que Rubem Fonseca llegue a Buenos Aires para la próxima Feria Internacional del Libro, por inaugurarse el 24 de abril, constituye una excelente noticia. Hombre sencillo de pocas palabras, “alérgico” a la prensa y cuya literatura es admirada más allá de las fronteras de su lengua portuguesa, Fonseca es uno de los protagonistas de un programa más amplio que la embajada de Brasil en Buenos Aires y la Fundación Centro de Estudios Brasileños (Funceb) desarrollarán este año. En mayo próximo, uno de los ejes de la participación brasileña en la feria será la comparación entre dos próceres del olimpo literario iberoamericano: Borges y Machado de Assis. Machado es un renovador de la narrativa en lengua portuguesa y también uno de los grandes olvidados. Este año, con motivo de cumplirse el centenario de su muerte, se realizará, en la Casa de las Américas de Cuba, un congreso internacional como homenaje. La delegación brasileña se completará con editores y poetas, cuya obra está en ascenso en el mundo literario del vecino país.

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* * *

Pero el plato fuerte de Brasil en Buenos Aires comenzará un día después de la inauguración de la muestra de libros. Merced a un acuerdo entre la Funceb y la Universidad de San Andrés, este otoño marcará el debut de un posgrado en cultura brasileña por dictarse en ambas instituciones. La casa de estudios presenta la propuesta académica casi al ritmo brasileño: “Si la bossa nova pudo ser pensada como promesa de felicidad y el tropicalismo como descenso a los infiernos es porque esas músicas exhiben algo más que un estilo musical o una forma de cantar: ambas hablan de la manera en la que en Brasil distintas manifestaciones culturales tienden a condensar la textura de lo real y de lo imaginario”. Según Florencia Garramuño, que, por la universidad, será una de las profesoras del posgrado, el objetivo del diplomado será comprender la urdimbre de las distintas expresiones artísticas y culturales que componen ese mosaico de fusiones que se conoce como “cultura brasileña”. El diplomado recorre la cultura en la periferia urbana, las poblaciones del Amazonas, la literatura y la música, las fiestas populares, el cine, las artes visuales y la religión, con su notable cruce de rituales y estéticas artísticas, revela Camila do Valle, directora de la Funceb.

Un testimonio de ese cruce será presentado en el Centro Cultural Rojas el 8 de abril próximo. Dueños de la encrucijada (Arte Brujo) es el título del libro de los artistas Juan Batalla y Dany Barreto, donde el arte y la antropología entretejen una impactante simbología de raíz africana que goza de excelente salud como una subcultura rioplatense, en las orillas del mainstream . Una expresión artístico-religiosa de esa influencia africana es el culto kimbanda, llegado de Brasil y resignificado en el Uruguay, con la adoración de orixás, deidades propias del norte brasileño, inusuales en nuestra geografía. A contrario de lo que pueda suponerse, las calles porteñas acogen a más de 3000 templos del culto kimbanda. La investigación de Batalla y Barreto abre una vertiente fascinante sobre la estética religiosa de esos templos, algunos de los cuales eligen el arte figurativo y otros, el abstracto. “Frente al empobrecimiento de otras religiones -observan Barreto y Batalla-, surge un crecimiento de estos cultos de raíz afrobrasileña. En estos templos, ves arte todo el tiempo: las coreografías, las danzas, los altares, la música, la comida e, incluso, las palabras en portugués, guaraní y yorubá [lengua africana].”

Ese espectáculo artístico-religioso puede tener lugar exactamente ahora en cualquier barrio de Buenos Aires. Dicen los autores que cada día es menos excepcional encontrar un templo donde un promedio de 100 personas expresen, por ejemplo, su gratitud y adoración a Iemanjá, la bella orixá del mar.

sreinoso@lanacion.com.ar