01/08/2009 - 18:32h Boris Vian
A Espuma dos Dias
Levemente, o mundo de Vian vai-nos surpreendendo e encantando, enquanto percorremos capítulos e capítulos de um mundo alegre, leve e descontraído, ao som de um Jazz imaginado sob os arranjos dos melhores intérpretes. A Espuma dos Dias banha-nos desta forma descomprometida e sincera, rica em imensos sentidos.Aquilo que inicialmente parece ser uma história feliz, vai perdendo o brilho, vai encolhendo. Mas é uma bela, senão a mais bela história de amor. Um amor sincero e puro, que atravessa tempos e sociedades de vícios. Outro amor que cede às prioridades individuais. Outra amor cujo destino se desconhece. Mas é a mais bela história de amor.
Boris Vian, como me parece impossível de evitar, envolve-nos nas suas ideias e nos pensamentos, familiarizando-nos com os seus ódios e apreços enquanto artista – e que artista: cineasta, tradutor, escritor, editor, saxofonista, compositor, entre outros que provavelmente desconheço, ou que só imagino. A Espuma dos Dias floresce em sentidos e metáforas, dissimuladas no non-sense requintado e sem jeito nenhum do autor; a acessibildade da sua escrita pode enganar-nos quanto à sua consciência de ser vivo e de homem, sujeitando-se o leitor a decifrar as milhares de críticas presentes no livro, tendo como contrapartida perder esta riqueza de escrita profunda e sincera.
Felizmente, encontrei uma boa tradução, com imensas notas, que me remetia para o francês original, que contém mil e um trocadilhos linguísticos, reflexo da nascente catastrófica que era Vian. É, portanto, a edição da Relógio de Água que aconselho (vivamente), visto que estas notas e esta boa tradução ajudaram imenso à compreensão do livro.
O título A Espuma dos Dias faz todo o sentido assim que acabamos de devorar a obra. É um nome tão banal e quase sem objectividade… Quem não poderia ter dias assim?
por André Forte
A Espuma dos Dias
Boris Vian
Relógio D’Água
2001

Blog A espuma das artes
É lindo, arrancou-me o coração de imediato…
(Tinha escrito…)
“Oiço Radiohead e Jeff Buckley e extasio-me até me perder em espasmos…Penso em ti e só consigo pensar em “sentir os teus seios no meu peito, as minhas mãos cruzadas sobre o teu corpo, os teus braços à volta do meu pescoço, a tua cabeça perfumada na curva do meu ombro, a tua pele palpitante, o cheiro que vem de ti…”, leio Pessoa e o meu cérebro enche-se de sensações, disperso-me…sorrio…a espuma dos dias toca-me…
Vian foi escritor, compositor, músico, cronista de jazz, actor…Contudo, foi provavelmente na literatura que deixou o maior e melhor legado. Escreveu livros lindos e estranhos – cativou-me automaticamente. “A espuma dos dias” é um tratado de humor negro, eivado de metáforas inteligentes e carregadas de uma deliciosa ironia crítica, até cáustica…O ambiente surreal e ilógico que cria demonstra a vontade do autor em inovar, o que todavia não lhe trouxe o reconhecimento da Crítica na altura, que lhe Apelidou as suas histórias de estranhas, caóticas, disparatadas, absurdas. Foi incompreendido pelas mentes curtas da altura.
A história gira essencialmente à volta de quatro amigos, Colin, Chick, Alise e Chloé, e da sua amizade, amor, vícios…As constantes referências àquelas coisas que no geral todos nós consideramos como a espuma da vida são deliciosas – o estar apaixonado, a boa culinária, o venerar um escritor (por exemplo, “Jean Sol Partre” – Vian recorre muitas vezes a deformações satíricas de nomes). Mas tudo isto sempre construído em cenários surreais e metafóricos. O enredo avança passando de uma (quase) história de amor para uma tragédia, dando a sensação de que o escritor melífluamente vai criticando os excessos típicos da natureza humana, deixando transparecer uma certa reprovação e ridicularização sarcástica pela adoração excessiva – e imbecil!? – por aquelas coisas individuais que movem a vida de cada um…a ironia é de tal forma marcada que o livro acaba com “Aproximavam-se, a cantar, onze rapariguinhas cegas do Orfanato Júlio o Apostólico.” O livro, e a sua obra em geral, está fortemente marcada por um estilo sarcástico, crítico, daí as recorrentes alusões críticas à Igreja, Estado, guerra, excessos idiotas…Não vou adiantar muito mais sobre a história em si – leiam. O livro é brilhante, faz parte da espuma dos dias, é um verdadeiro “arranca-corações”.
Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C’est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m’en vais déserter
Depuis que je suis né
J’ai vu mourir mon père
J’ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j’étais prisonnier
On m’a volé ma femme
On m’a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J’irai sur les chemins
Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d’obéir
Refusez de la faire
N’allez pas à la guerre
Refusez de partir
S’il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n’aurai pas d’armes
Et qu’ils pourront tirer
Il s’est levé à mon approche
Debout, il était bien plus p’tit
Je me suis dit c’est dans la poche
Ce mignon-là, c’est pour mon lit
Il m’arrivait jusqu’à l’épaule
Mais il était râblé comme tout
Il m’a suivie jusqu’à ma piaule
Et j’ai crié vas-y mon loup
Fais-moi mal, Johnny, Johnny, Johnny
Envole-moi au ciel… zoum!
Fais-moi mal, Johnny, Johnny, Johnny
Moi j’aim’ l’amour qui fait boum!
Il n’avait plus que ses chaussettes
Des bell’ jaunes avec des raies bleues
Il m’a regardé d’un œil bête
Il comprenait rien, l’malheureux
Et il m’a dit l’air désolé
Je n’ferais pas d’mal à une mouche
Il m’énervait! Je l’ai giflé
Et j’ai grincé d’un air farouche
Fais-moi mal, Johnny, Johnny, Johnny
Je n’suis pas une mouche… zoum!
Fais-moi mal, Johnny, Johnny, Johnny
Moi j’aim’ l’amour qui fait boum!
Voyant qu’il ne s’excitait guère
Je l’ai insulté sauvagement
J’y ai donné tous les noms d’la terre
Et encor’ d’aut’s bien moins courants
Ça l’a réveillé aussi sec
Et il m’a dit arrête ton charre
Tu m’prends vraiment pour un pauve mec
J’vais t’en r’filer, d’la série noire
Tu m’fais mal, Johnny, Johnny, Johnny
Pas avec des pieds… zing!
Tu m’fais mal, Johnny, Johnny, Johnny
J’aim’ pas l’amour qui fait bing!
Il a remis sa p’tite chemise
Son p’tit complet, ses p’tits souliers
Il est descendu l’escalier
En m’laissant une épaule démise
Pour des voyous de cette espèce
C’est bien la peine de faire des frais
Maintenant, j’ai des bleus plein les fesses
Et plus jamais je ne dirai
Fais-moi mal, Johnny, Johnny, Johnny
Envole-moi au ciel… zoum!
Fais-moi mal, Johnny, Johnny, Johnny
Moi j’aim’ l’amour qui fait boum!



