24/07/2008 - 12:50h Supla e João Suplicy misturam rock e MPB no Brothers of Brazil, que tem temporada no Mistura Fina

Irmãos de sangue e de música

Publicada em 24/07/2008

Christina Fuscaldo - O Globo

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Supla e João Suplicy são os Brothers of Brazil

RIO - Pai de família tranqüilão, João Suplicy atende o telefone de seu apartamento no Rio, disponibilizando o tempo que for necessário para bater um papo sobre o Brothers of Brazil. Solteirão do rock, Supla pega o celular, não ouve quase nada do que a repórter diz, mas decide continuar a entrevista assim mesmo. Isso porque ele está em estúdio, em São Paulo, e tem poucos minutos de intervalo. Mas falar sobre o projeto, que iniciou junto ao irmão mais novo há oito meses e que terá temporada no Mistura Fina a partir desta quinta-feira, faz com que o primogênito da família Suplicy perca a noção da hora. E também da lista de lugares por onde o dueto já passou:

Veja o Brothers of Brazil no Rock in Rio Lisboa

- Fizemos o primeiro show no Made in Brazil, que fica ao lado do pub mais punk de Camden Town (Londres), um que Amy Winehouse freqüenta. Depois, tocamos no Guanabara, no Buffalo, que é onde bandas que já estão no circuito se apresentam. Todos os dias foram bem cheios. Também fomos a Bruxelas, Paris, Los Angeles, Santa Mônica, Nova York. Fizemos show no Rock in Rio Lisboa… Vamos agora ao Rio, depois tem Bahia, Curitiba, Porto Alegre…

Ouça ‘Brothers of Brazil’

Ouça ‘Vanity funk’

Ouça ‘My samba’

Ouça ‘Stay tranqüilo’

Era para ser só um encontro informal entre Supla e João, que estavam fazendo shows pela Europa na mesma época. Mas a parceria inusitada entre o punk rocker e o apaixonado por música brasileira acabou consolidada no momento em que Bernard Rhodes, ex-empresário do The Clash, batizou a dupla de “Brothers of Brazil”. Aí, não tinha mais como voltar atrás: Supla voltou a tocar bateria e dar atenção à MPB e João resgatou o roqueiro que tinha dentro de si com seu violão em punho.

- Eu sempre gostei de rock, a coisa que mais ouvi foi Beatles. Mas depois enveredei para o samba e para a bossa nova. Meu irmão também curte MPB, mas a bateria dele é mais pesada. Foi o primeiro instrumento dele - comenta João. - Musicalmente, a gente buscou um ponto em comum, coisa que parecia difícil, porque um não tem nada a ver com o outro: eu faço MPB e Supla é todo punk. Acho que não seria possível se não fôssemos irmãos. As vozes timbram bem juntas, por sermos irmãos. E temos liberdade de falar “isso aí não dá”. Acabamos encontrando mais afinidades compondo em inglês.

Esta é a primeira vez que João (34 anos, marido da apresentadora do “Casseta & Planeta” Maria Paula e pai de Maria Luiza e Felipe) faz parceria com Supla (42 anos, namorado de Brijitte West, vocalista da banda de punk rock New York Loose). Antes, os dois só tinham trabalhado juntos no disco “Bossa furiosa”, que o segundo lançou em 2003. Mas o caçula apenas emprestou seu violão ao disco do irmão.

Tenho personalidade forte, mas a gente sempre deixa prevalecer o bom senso, sem ego, porque ego destrói tudo


- João participou em oito músicas. Gravei metade do disco no estúdio em que o Beastie Boys gravava, em Nova York, e depois coloquei só eu e ele nessas outras faixas. Todo mundo gostou da parte dele, só que eram minhas músicas. No Brothers of Brazil, a gente realmente está compondo juntos. Não é aquela coisa de ele dizer: “Edu”, que é como ele me chama, “vem cantar na minha música?” Fazemos melodias juntos. Cada um é bom em um negócio e a gente vai misturando - diz Supla.

O repertório do show, que fica em cartaz até 7 de agosto no Mistura, vai de Dorival Caymmi a Ramones, passando por parcerias dos irmãos, entre elas “Brothers of Brazil”, que inicia e encerra o show, “Samba around the clock”, “I love the french”, “Stay tranqüilo” e “My ballon”. Estão no roteiro também brigas ensaiadas e/ou espontâneas, porque, afinal, João Suplicy e Supla são irmãos. “Mulher americana” já é um dos pivôs.

- Fizemos essa para a namorada do meu irmão, porque ele estava com saudades - entrega João. - A gente tem bastante atrito, sim. Mas já incorporamos ao show, porque deixamos rolar naturalmente. E, no palco, somos só nós dois, vozes, violão e bateria.

- Meu irmão quer tocar essa droga e nem ensaiamos ainda - replica Supla. - Tenho personalidade forte, mas a gente sempre deixa prevalecer o bom senso, sem ego, porque ego destrói tudo. Com a gente, é briga de amor. Falei de fazermos uma música chamada “I hate Beatles” e primeiro João falou: “Que é isso? Pára.” Mas depois ele adorou.

O sucesso a jato do Brothers of Brazil fez com que João e Supla fossem convidados para apresentar um programa na Rede TV. “Brothers” estréia em agosto, com direção de Fabio Embu (o Homem Berinjela do “Pânico”).

- O “Brothers” vai ser diário. Às segundas, terças e quartas, vamos ao ar ao vivo. Nas quintas e sextas, o programa será gravado. Não posso falar muita coisa ainda, só que será um espaço para variedades e que estou encarando como um desafio - declara João.

Brothers of Brazil: Qui (24 e 31 de julho e 7 de agosto), às 21h, no Mistura Fina (Rua Rainha Elizabeth 769, Arpoador - RJ - tel.: 2523-1705). R$ 30.

19/07/2008 - 19:23h Antonio Carlos Jobim e Gerry Mulligan

Samba de uma nota só
One note samba

09/09/2007 - 13:16h Ludwig, Miles e Elizeth por Verissimo

A Sinfonia nº 3 de Ludwig van Beethoven era para se chamar Sinfonia Buonaparte, em homenagem a Napoleão, que então levava os ideais da Revolução Francesa a toda a Europa na ponta de suas baionetas republicanas. Como Goya, outro entusiasta inicial de Napoleão, Beethoven não tardou em se desiludir com o herói auto-ungido imperador e rasgou a página com sua dedicatória da 3ª Sinfonia, que reintitulou Eroica, e que passou a ser uma exaltação do espírito libertário e da grandeza humana. E ficou como exemplo máximo da sinfonia clássica e o parâmetro para
julgar tudo que foi composto antes ou depois no gênero, por ele e por outros - uma revolução não na política mas na sensibilidade européia, e na forma de fazer música.

Karajan - Beethoven Symphony No. 3 ‘Eroica’ - Part 1

Karajan - Beethoven Symphony No. 3 ‘Eroica’ - Part 2

Anos depois, Beethoven comporia sua Missa Solemnis e assim como sua sinfonia heróica dispensara um herói ideal, substituído pelo ideal do compositor, a Missa era uma obra de devoção em que Deus quase não aparecia - pelo menos não com as deferências que le dedicara Bach nas suas paixões e missa - e a deidade mais evidente era o próprio Beethoven, fazendo outra revolução dos sentidos.

Bernstein - Beethoven - Missa Solemnis (D-Dur, opus 123) Credo II

E ele não descansou aí. Seus últimos quartetos para cordas - angulosos, desconcertantes, dificílimos de tocar e, na época, de ouvir - são hoje considerados os precursores, os primeiros acordes, da música moderna. Sua complexidade só foi igualada, anos mais tarde, nos quartetos para cordas do Béla Bartók. O crítico Edward Said escolheu os últimos trabalhos de Beethoven como protótipos do “estilo tardio”, aquelas zonas de criatividade excêntrica e isolamento pessoal (no caso de Beethoven, agravado pela surdez) a que certos artistas ascendem, quase sempre deixando público perplexo e críticos incompreensivos para trás. E que só são redimidas quando o artista não está mais aí para ouvir as desculpas, já que todo estilo tardio é prelúdio de morte. Beethoven também foi o protótipo do artista que não se contenta em ser pioneiro uma vez só.

Como o Miles Davis. Que não chegou a ser um dos que revolucionaram o jazz no fim dos anos 40 e começo dos 50, com o “be-bop”, embora tenha participado de algumas gravações com Charlie Parker e outros pioneiros do novo estilo, mas liderou a revolução seguinte. Reuniu um grupo de músicos jovens como Lee Konitz, Gerry Mulligan e John Lewis num noneto com tuba e trompas para tocar os arranjos de Mulligan e, principalmente , de Gil Evans, baseados no trabalho inovador deste para a banda de Claude Thornhill. Nascia o jazz “cool”, em que as experiências com tonalidades e variações cromáticas coletivas valiam tanto quanto os solos, e era uma projeção da maneira de tocar do próprio Miles, com seu trompete sem vibrato e sua distribuição reflexiva de espaços numa frase. O “cool” foi a base do que se convencionou chamar de jazz da Costa Oeste, predominantemente branco, mas Miles ficou em Nova York e liderou a antítese do que ele mesmo tinha criado, o “hard bop”, ou um bop ainda mais quente do que o original. Depois de gravar alguns discos históricos (Miles Ahead, Sketches of Spain, Porgy n’Bess) com uma grande orquestra e arranjos luxuriantes de Evans, que lhe valeram tanta popularidade e dinheiro que ele poderia muito bem ter se acomodado por aí, Miles fez outra revolução. Entrou num estúdio com um grupo bem selecionado e apenas alguns esboços tonais sobre os quais improvisar e fez um dos discos definitivos da história do jazz, Kind of Blue - diferente de tudo que tinha feito antes.

Kind of Blue: Made in Heaven - Miles Davis

Kind of Blue: So What by Miles Davis

O estilo tardio de Miles foi a sua fusão do jazz com o rock. Confesso que fui um dos que ficaram para trás quando ele começou a usar tranças e sandálias e a tocar com a garotada. Mas acho que Beethoven o entenderia.

Onde entra a Elizeth Cardoso nesse trio? Ela também foi multipioneira, ou pelo menos pioneira duas vezes. Era uma cantora popular clássica, com grande prestígio, mas não se poderia descrevê-la como inovadora.

Elizeth Cardoso 1952 “Ingratidão”

A chamavam de “Divina”. Tinha um estilo mais antigo do que o de cantoras “cool” que começavam a surgir na época, como a Maysa. Mas foi dela a voz que, junto com o piano, a regência e os arranjos de Antonio Carlos Jobim, as composições de Tom e Vinicius de Moraes e a batida diferente do violão de João Gilberto no LP Canção do Amor Demais, de 1958, inaugurou a bossa nova.

E, como o Miles Davis, depois de participar de uma revolução, ela liderou a contra-revolução. Em 1965 o disco Elizeth Sobe o Morro trouxe um reconhecimento inédito a compositores do samba tradicional como Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Nelson Sargento, além de Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho. Elizeth só difere de Ludwig e de Miles porque não teve um estilo tardio. Foi a mesma, divina, até a última nota.

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