26/10/2007 - 11:22h Tropa da Elite

José Pedro Goulart

Eduardo Rocca/Terra

Polícia Federal em operação de combate à pirataria: “um furo no sistema, ué!”

Ok, você está cheio desse assunto; já leu a respeito, discutiu com os amigos, debateu no trabalho, na sala de aula, enfim. Bom, se é o seu caso, procure outras matérias, eu não vou me importar. Eu vou é botar a minha colher torta nesse bolo que, aliás, vem recheado com muita coisa, menos farinha.

Estou no shopping (onde mais poderia estar?), assistindo ao filme em questão. Há fúria na tela. Na platéia, setenta por cento de adolescentes estão imersos nessa fúria. A música urra: TROPA DE ELITE PEGA UM, PEGA GERAL, TAMBÉM VAI PEGAR VOCÊ – é punk, voz metaleira; o som dolby estéreo amplifica os tiros, os gritos. Atrás de mim um garoto de 16 repete alguns diálogos do filme – quantas vezes terá ele visto o filme para isso? O capitão Nascimento, o mocinho do filme, se culpa, se justifica, se purifica. Nessa ordem. O nome do capitão é Nascimento, veja só, e no filme ele espera o nascimento de um filho. E também torce para que nasça um novo capitão Nascimento. E o “Tropa de Elite” vê “nascer” um ideário de força e repressão que andava latente – mas contido – junto à população.

No Rio, um grupamento do BOPE passa em treinamento perto da praia. A galera pára o que está fazendo e se vira para aplaudir. No cinema, em várias sessões, foram testemunhadas verdadeiras ovações no final. Gritos de “caveira!!” foram ouvidos em outras. Parte da população vê no filme um modo de desatar o nó da questão da insegurança no país: é isso, é preciso reagir com força. O capitão Nascimento tem métodos discutíveis? Ok, mas o próprio filme inicia dizendo que a ação das pessoas depende das circunstâncias. E as circunstâncias no filme estão sempre justificando o arbítrio, a esquematização simplória entre um lado e outro. Os autores do filme avisam que o filme apenas coloca a problemática nas telas, e que o personagem vivido pelo Wagner Moura não é herói.

Mas é mentira.

É evidente que o filme glorifica o capitão Nascimento. Sujeito leal à corporação, incorruptível, que chega a brigar com a mulher quando se viu tomando uma decisão errada – por influência dela – e um companheiro morreu. Sujeito capaz de se enternecer diante de uma mãe que não pode velar o filho morto (então invade a favela e, em troca de alguns sopapos, desenterra o corpo). Nascimento “é” o filme, sua alma, sua justificativa. É por causa dele que o BOPE é aplaudido na rua. E é por causa dele que a polícia se sente liberada de atirar em bandidos correndo em um descampado de dentro de um helicóptero. É por causa dele, pela admiração que provoca, que o menino de 16 anos, atrás de mim no cinema, repete os diálogos do filme. A população baba, esbraveja, acompanha: Caveira!!

“Tropa de Elite” aponta: A culpa é do sistema! O sistema que cria policiais corruptos, o sistema que amordaça e impede que se saia dele. ONGs de mentira, passeatas pacifistas fajutas, jovens de classe média alta sustentando o tráfico. É o sistema. Contra ele a farda, a lógica da repressão e da tortura, a elite da tropa – só a elite é incorruptível. Já vimos esse filme nesse país. Será preciso reprisá-lo?

Aliás, os produtores do filme reclamam que o filme foi pirateado antes de chegar aos cinemas. Ótimo. A pirataria é um furo no sistema, ué. Só que num outro sistema – esse outro que o filme aparentemente desconsidera. Um sistema que cria sub-sistemas, como o da corrupção da polícia. Um sistema permanentemente cioso de suas razões. Um sistema, do qual eu e você fazemos parte, aliás; que precisa, necessita, torce e luta por uma Tropa de Elite que o proteja. E o mantenha.

José Pedro Goulart é jornalista, cineasta e diretor de filmes publicitários.

Fale com José Pedro Goulart: zp.zeppelin@terra.com.br

Ver também

Ganhei meu dia

16/10/2007 - 19:00h Arte brasileira em New York

Trinta e dois artistas brasileiros de primeiro time expõem em Nova York, incluídos na programação da 17ª Feira Anual de Gravadores e da 2ª Semana Cultural Latino-Americana. A exposição começa no dia 22, segunda-feira que vem, e vai até o dia 29. Local: Pratt Institute, 200 Willoughby Avenue. O organizador da mostra é Eduardo Besen, da galeria paulistana Gravura Brasileira.

14/10/2007 - 23:44h Darwin em negativo

“Tropa de Elite” elege seleção natural como princípio e escancara estado de exceção no país

LAYMERT GARCIA DOS SANTOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

Tropa de Elite” está dividindo seus espectadores entre os que o defendem como um filme crítico da “realidade brasileira” e os que o qualificam como “fascista” por tomar partido da violência policial contra “os pobres”.
No entanto parece ter ficado de fora da polêmica um aspecto essencial de sua construção e da perspectiva desenhada pelo diretor José Padilha: o princípio operatório que lhe confere inteligibilidade.
Com efeito, nesta ficção que se apresenta como um documentário, o que fica evidente é que, no Brasil contemporâneo, não existe mais sociedade -o Estado de Direito e a cidadania sumiram pelo ralo e impera a lei da selva (convém lembrar, porém, que se trata de uma selva construída, e é por isso que os filósofos Francisco de Oliveira e Paulo Arantes têm caracterizado a sociedade brasileira, em seus escritos recentes, como um estado de exceção permanente).
Entretanto, a julgar pela óptica do filme, nem interessa mais desconstruir intelectualmente a selva, porque já teria se tornado consenso que ela não tem nem terá conserto.
É supérfluo analisá-la, a crítica teria ficado sem lugar; e o pensamento daqueles que poderiam ajudar a compreender as relações de poder e dominação -Foucault, Deleuze, Nietzsche e tantos outros- já pode ser desqualificado nas salas de aula das universidades como surreais, juntamente com mauricinhos e patricinhas. Nesse sentido, em termos culturais, “Tropa de Elite” nos põe diante da máxima expressão da série “A Que Ponto Chegamos”.
Assim, o filme retrata a “lei” da selva. Mas que lei é essa que, ao mesmo tempo, estrutura a narrativa? O velho e bom princípio biológico darwinista da seleção natural, isto é, a “lei” do mais forte. E se há um “problema” com esse filme, é que ele faz da seleção o seu princípio operatório e a chave do seu sucesso.

Traço comum
“Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, explorou a questão da seleção natural pelo seu viés negativo, tal como ela se exerce no mundo miserável do tráfico da periferia. “Tropa de Elite” a explora pelo seu viés positivo, tal como se exerce na aristocracia da polícia.
Mas há um traço comum: ambos glamourizam a violência pura e seduzem o espectador com a atração da afirmação da força sem limites. Diversos filmes do documentarista Harun Farocki, exibidos em junho no Centro Cultural São Paulo, também lidam com o princípio da seleção; mas lá o cineasta tem um “parti-pris” estético-político que é o contrário do de José Padilha.
Trata-se de criar um distanciamento crítico, suscitado pelo comentário do narrador “off”, que permita ao espectador perceber como as sociedades disciplinares e de controle ocidentais (fascistas inclusive) operam a seleção dos mais fracos, sejam eles loucos, prisioneiros, deficientes ou operários, para neutralizá-los e/ou eliminá-los.
E Farocki o faz adotando ora a perspectiva do dispositivo que seleciona, ora o ponto de vista do selecionado, mas sempre mostrando, na imagem, a lógica histórico-social da construção da violência. Nesse sentido, Farocki focaliza a violência pura como violência da sociedade. Não é o que acontece no caso de Padilha. Aqui, a voz “off” nos induz a aderir ao eu do narrador… que é o herói.
Em “Tropa de Elite” estamos diante de uma violência pura naturalizada. O “mais forte” é o “campeão”, e seu sentido é assegurar a sua reprodução como vencedor. O policial Nascimento só pode “retirar-se” para cuidar de seu filho quando e porque já fez um outro filho dentro do batalhão, capaz de assegurar a continuidade da espécie.
É interessantíssimo observar o modo como a formação dos eleitos da tropa de elite se inscreve no interior da narrativa policial tradicional quase como um filme dentro do filme.

“Nascido para Matar”
Stanley Kubrick também dedicara parcela importante de seu “Nascido para Matar” para mostrar os horrores e as humilhações inflingidos aos soldados. Mas ali o objetivo visava a desvendar de que modo a máquina militar norte-americana os desumanizava até que se tornassem máquinas de matar.
Em “Tropa de Elite” o resultado é outro, pois, mesmo com toda a ambigüidade do mundo e as angústias do personagem Nascimento, a mensagem que fica é que nem tudo está perdido no Brasil porque, apesar de tudo, há homens que são “homens”. E eles nasceram para matar… os bandidos pobres, é claro. Vale dizer: para fazer “saneamento básico”, eliminar os inaproveitáveis.
E é aí que o princípio da seleção natural encontra uma perspectiva societária: ao se afirmar dentro dos parâmetros da seleção natural, o mais forte afirma o seu “direito” de fazer limpeza social. Desse modo, a seleção natural positiva se completa com a seleção natural negativa, e os mais fortes de cima se irmanam com os mais fortes vindos de baixo, numa mesma cruzada. Não é à toa que o herdeiro de Nascimento no batalhão é o negro pobre, mas inteligente, que “chega lá”.
O filme de Padilha não é apenas a legitimação da boa polícia. É a legitimação dela como vetor de consagração do estado de exceção em que vivemos.


LAYMERT GARCIA DOS SANTOS é sociólogo e professor titular do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (SP).

14/10/2007 - 19:52h Ganhei meu dia

Primeiro, porque voltando do cinema encontrei um post de Sylvia que disse:

Sylvia
A voracidade de seu blog me surpreendeu.
A quantidade, a diversidade e a qualidade das informações deram um nó na minha cabeça, acostumada a olhar o mundo pelo buraco de uma fechadura.

Não sei se conheço a leitora Sylvia, mas que é um baita encorajamento, isso é.

Segundo, porque quebrando uma reticência para com tudo o que é muito badalado na mídia, assisti ao “Tropa de Elite“, o filme que não foi escolhido para representar o Brasil no Oscar do estrangeiro em Hollywood.

A Globo gostou do filme, eu não. Os estereótipos, de qualquer espécie, me resultam indigestos e essa estória de bandidos e mocinhos made in favela do Rio -mesmo bem filmada- é primária.

PM corrupta, pacifistas idiotas úteis (logicamente maconheiros) e BOPE puro -na purificação redentora do extermínio do mal- parece série B ou novela da Globo (com mais violência e menos sexo, ponto para a… novela).

A moral da estória (se moral há, tenho dúvidas) é que só a violência é pura quando empregada para fazer o bem (eliminar o tráfico). Os policiais corruptos são eliminados pela violência da escolha da elite. O BOPE é brutal na seleção, brutal nas marchas que acompanham o treinamento, brutal no trato de todas e todos os que não representam a missão purificadora. A tortura é o instrumento redentor, permitindo a progressão da “salvação” no interior da favela. A escória é eliminada. O “herói” se robotiza na função exterminadora, preparando um mundo limpo para seu filho.

Simbolicamente os responsáveis do “sistema”, que fazem a força do tráfico, são os consumidores da classe média, que ao mesmo tempo com suas ONGs sociais e suas marchas pacifistas preservam o poder dos marginais.

Ganhei meu dia, porque assistir ao filme me permitiu entender porque a Globo gostou.

E entender, me faz sentir que o dia valeu a pena. Porque gosto da frase do filósofo Spinoza: “Nem rir, nem chorar, mas compreender”.

Luis Favre

12/10/2007 - 20:31h Resíduo, de Carlos Drummond de Andrade na voz de Paulo Autran

12/10/2007 - 19:13h Ouça Paulo Autran recitar Carlos Drummond de Andrade

da Folha Online

Ouça, a seguir, o autor Paulo Autran em leitura de trecho de “Notícias Amorosas”, de Carlos Drummond de Andrade, no “Quadrante” (BandNews).

O quadro de leituras feitas por Paulo Autran levou o Grande Prêmio da Crítica da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) em 2005, ano de estréia da rádio.

O ator carioca morreu nesta sexta-feira (12) aos 85 anos. Autran foi internado ontem em estado grave e precisou ser sedado. Ele já havia sido hospitalizado no sábado passado (5) e recebido alta na terça-feira (9). O ator fazia tratamento de rádio e quimioterapia.

O corpo de Paulo Autran será velado na Assembléia Legislativa de São Paulo, na zona sul da capital paulista.

 

12/10/2007 - 19:10h Paulo Autran

CELSO FRATESCHI, ator e presidente da Funarte:

“Paulo é meu padrinho de casamento. Foi uma pessoa muito importante na minha vida pessoal. Como homem público, como ator, ele é sinônimo de teatro. Se perguntar a qualquer brasileiro a que associa a palavra teatro, vai dizer Paulo Autran. Isso só dignifica nossa profissão. Para ele, acho que [a morte] foi um sossesso, porque estava sofrendo mutio com a doença. Mas, para todos nós, é uma perda irreparável.”

12/10/2007 - 18:58h Paulo Autran: uma vida dedicada ao teatro

Ator, diretor e produtor teatral faleceu nesta sexta-feira, aos 85 anos, de enfisema pulmonar

 

Beth Néspoli, do Estadão

Paulo Autran

Celia Thome/AE

Paulo Autran

SÃO PAULO – “Sou apenas um homem de teatro. Sempre fui e sempre serei um homem de teatro. Quem é capaz de dedicar toda a sua vida à humanidade e à paixão existentes nestes metros de tablado, esse é um homem de teatro.” Na voz de Paulo Autran, essas palavras foram ouvidas nos palcos de dezenas de cidades brasileiras no espetáculo Liberdade, Liberdade, um dos muitos grandes sucessos de sua longa carreira. Síntese corajosa da resistência contra o regime militar, a peça estreou no Rio de Janeiro em abril de 1965. E já naquela época, o texto traduzia a carreira do ator, diretor e produtor Paulo Autran – 57 anos dedicados à arte de interpretar.

Veja também:

linkMorreu, aos 85 anos, o ator Paulo Autran

Falecido nesta sexta-feira, 12, aos 85 anos, de enfisema pulmonar, Autran, além do teatro, participou ainda de filmes, entre eles Terra em Transe, de Glauber Rocha, teleteatros e novelas na televisão. Sua carreira tem aspectos bastante originais. Raros são os atores, no Brasil, e no mundo, capazes de enumerar tantos protagonistas em sua trajetória, sobretudo num repertório de peso, como Paulo Autran.

Ao atuar pela primeira vez numa novela já tinha alcançado prestígio e popularidade – seu nome era reconhecido nacionalmente – por sua atuação nos palcos. Afinal, ele havia viajado por todas as regiões do Brasil apresentando desde tragédias gregas e shakespearianas até peças brasileiras de forte comunicação como Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, em palcos, quadras e até mesmo lonas de circo. Tal proeza, reconhecimento nacional através do teatro – atuou em apenas três novelas -, talvez nenhum ator jamais repita. E não só porque os tempos mudaram. Essa é trajetória é original mesmo dentro de sua geração.

Curiosamente, sua estréia profissional só se deu aos 27 anos, mais precisamente no dia 13 de dezembro de 1949, no Rio, na peça Um Deus Dormiu Lá em Casa, de Guilherme Figueiredo. Nessa peça, contracenava com a atriz Tônia Carrero, responsável pelo convite ao ator amador, que ela vira num palco de Copacabana, atuando na peça À Margem da Vida, de Tennessee Williams. Apesar da data de sua estréia profissional, quase ao fim da temporada anual, Paulo Autran ganhou os principais prêmios de ator daquele ano. “Não foi bom para mim. Era muito imaturo e, na época, fiquei completamente idiotizado”, contou em entrevista ao Estadão.

A verdade é que, até então, não estava preparado para os percalços e glórias da nova profissão. Advogado formado na famosa faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, Autran entrara pouco antes para o teatro amador como muitos jovens de sua época. Afinal, em 1943 o teatro brasileiro ingressara no modernismo com um grupo de amadores dirigidos por Ziembinski. “Eu não me sentia dentro de um movimento, ninguém sentia assim na época. Simplesmente fazíamos teatro. Éramos atraídos para isso. E todo mundo dizia que eu era muito ‘natural’ em cena.” Tendo nascido no Rio, por conta das mudanças de endereço do pai, delegado, Autran cresceu em São Paulo.

Fã de Dulcina de Moraes, freqüentava teatro desde os oito anos de idade. Naquela época, o palco era tomado pelos grandes atores, de gestos ‘grandiloqüentes’, voz impostada. O movimento amador veio para mudar não só a hierarquia em cena, passando a dar igual valor a atuação, direção, iluminação e cenário, como também para mudar um estilo de representação. E o temperamento de ator de Autran – rigoroso na técnica, sóbrio, elegante, capaz de criar modulações de voz, de intenções e de gestos no limite da filigrana, adequava-se como uma luva às novas exigências do palco.

Estreou no TBC em 1946 como amador, antes da profissionalização da casa fundada por Franco Zampari. Foi numa excursão ao Rio, com um grupo amador dirigido por Abílio Pereira de Almeida que foi ‘descoberto’ por Tônia. Depois da entrada no mundo profissional com Um Deus vieram outras peças e outros prêmios. Foi salvo da ‘idiotia’ por Adolfo Celi, o seu grande mestre, um dos muitos diretores italianos contratados pelo Teatro Brasileiro de Comédia. “Com ele aprendi que a arte de interpretar exigia muito mais do que ser ‘natural’ em cena.” Em 1951, o produtor Franco Zampari contratou Autran para o TBC e Tônia para a companhia cinematográfica Vera Cruz. Voltou então a São Paulo, declaradamente a cidade de seu coração.

No TBC, onde ficaria de 1951 a 1955 faria sua formação, sob a tutela de vários diretores de grande prestígio, como Ziembinski, Albert D’Aversa, Ruggero Jacobi e, sobretudo, Adolfo Celi. Nesse teatro, a meca do teatro brasileiro na época, amadurece como ator e, segundo ele própria afirmava, percebe o quanto precisa aprender, livrando-se da empáfia do jovem ator premiado. No TBC, atua em nada menos do que 18 peças, em pouco mais de quatro anos, entre elas Antígona, de Sófocles; Seis Personagens em Busca de um Autor e Assim É se lhe Parece, de Luigi Pirandello; Mortos sem Sepultura, de Sartre e Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias.

Em 1956, funda sua própria companhia com Tônia Carrero e, claro, o mestre Adolfo Celi na qual estréia no papel de Otelo numa interpretação unanimemente elogiada. Décio de Almeida Prado, o então respeitado crítico do Estado, escreveu que Autran não precisa altear o tom de voz para passar toda a autoridade, a força e a dor do general Otelo. A companhia termina em 1961, mas nesse curto período encena 17 peças, entre elas Fim de Jogo, de Beckett e Lisbela e o Prisioneiro, de Osman Lins. E foi na Cia. Tônia-Celi-Autran que ele conheceu seu primeiro retumbante fracasso, na peça Frankel, de Antonio Callado. “Era um drama ambientado no Xingu. No terceiro dia de peça, tinha quatro pessoas na platéia. E não foi muito além disso. Tivemos que suspender a temporada logo depois da estréia.”

Em compensação, logo depois de desfeita a companhia dirigida por Celi, Autran atuaria no musical My Fair Lady e iria viver um estrondoso sucesso. Em seguida, viria Liberdade, Liberdade, Depois de Queda, de Arthur Miller, Édipo Rei e O Burguês Fidalgo e Morte e Vida Severina, todos grandes sucesso de público. “Uma coisa aprendi nesses anos todos de teatro. Não há regras”, diria Autran em entrevista sobre os percalços da profissão. Sim, porque após essa série de sucessos, a coisa mudaria de figura. “Veio uma série de montagens mornas. Não eram um grande sucesso, nem um grande fracasso. De alguma forma, parecia que eu só fazia o já esperado de mim.”

O impressionante é que nessa ‘série morna’ Autran enumera Macbeth, de Shakespeare; As Sabichonas, de Molière e Assim É… Se lhe Parece, de Pirandello. Pela primeira e única vez na sua vida, Autran afastou-se do palco durante seis meses. “Precisava pensar o que estava acontecendo na minha carreira.” Chegou a conclusão de que ser a um só tempo ator e produtor atrapalhava. Decidiu então ‘oferecer-se’ ao diretor Antunes Filho. Foi assim, sob a batuta de Antunes, na peça Em Família, de Vianinha, em 1972, que recuperou seu bem-sucedido casamento com o palco. E nunca mais parou.

O mais jovens, aqueles que não tiveram a oportunidade de vê-lo em muitos desses grandes papéis – teatro é arte efêmera – certamente ainda puderam comprovar o seu talento nos seus últimos trabalhos. Por exemplo, na detalhada composição para o velhinho judeu da peça Visitando o Senhor Green. Os mais ousados, que esperam no camarim após o espetáculo para um abraço ao ator, invariavelmente surpreendiam-se com a diferença entre Autran e seu alquebrado Sr. Green. Mesmo fumando muitos cigarros diários, vício que lhe valeu algumas pontes de safena, Paulo Autran ostentava disposição invejável. Se não estava atuando, podia ser visto quase todo fim de semana na platéia dos teatros paulistanos. Jamais deixou de acompanhar a cena teatral.

Inquieto, nos últimos anos ainda arrumou tempo e energia para excursionar pela direção e apostar em novos talentos. Assim, dirigiu Vestir o Pai, de Mário Viana, protagonizada pela atriz Karin Rodrigues, uma grande amiga, por quem nutria profundo amor, e com quem se casou. E atuou na peça Adivinhe Quem Vem para Rezar, o primeiro texto levado ao palco do dramaturgo Dib Carneiro Neto, editor do Caderno 2.

Diante de um ator como Paulo Autran, o risco não é o excesso de reverência, mas o seu oposto – não dimensionar a importância de sua arte. Foi no bojo de uma renovação da cena que ele começou sua carreira, o surgimento do teatro moderno. Saíam de cena os arroubos do astro personalista, entrava o ator com inteligência para dissecar um personagem, revelar e ampliar seus sentimentos e contradições, aliando em iguais medidas intensidade e contenção. Outras inovações vieram, atores de sua geração arriscaram-se em experimentações. Paulo Autran não. Mas cuidou sim de aprimorar o modelo que adotou ao limite da minúcia, o que pôde ser plenamente comprovado na montagem de O Avarento, seu último trabalho no palco. Quem viu, não esquece sua interpretação do sovina Harpagon rica de detalhes, precisa nos tempos de humor. Se existir céu, Molière certamente o receberá de braços abertos.

07/10/2007 - 14:46h O ano em que daremos férias à tropa de elite


Nem tudo se perdeu: ainda há o cidadão comum

Jurandir Freire Costa*

O Estado de São Paulo

Dois filmes brasileiros, O Ano em que meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, e Tropa de Elite, de José Padilha, candidataram-se a representar o Brasil na competição pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. O primeiro foi escolhido, dividindo as opiniões divulgadas pela mídia. Deixo a quem compete o trabalho de dizer qual deles dispõe das qualidades técnicas e artísticas com mais chances de premiação. De minha perspectiva, importante é discutir a imagem da cultura brasileira apresentada pelos dois. Desse aspecto, julgo que ambos sejam extremamente bem-sucedidos.

No filme de Cao Hamburger, o Brasil dos anos 70 é visto pelo olhar de um garoto, cujos pais são obrigados a fugir da repressão policial no período da ditadura militar. A criança deveria ser deixada com o avô, que, nesse entretempo, morre. Sozinho e sem ter a quem recorrer, o menino é cuidado pela comunidade judaica, à qual o avô pertencia. No final, a mãe retorna. O filme dá a entender que tanto ela quanto o marido haviam sido torturados e o último havia morrido. O menino é exilado com a mãe e, ao se despedir carinhosamente dos que o ajudaram – em especial do velho vizinho do avô, figura central no enredo -, pensa em off que “ser exilado é ter um pai que se atrasa tanto, tanto, que nunca chega”.

Tropa de Elite, ao contrário, mostra o Brasil de hoje. Precisamente, o Rio de Janeiro de 1997, por ocasião da visita do papa João Paulo II. O pano de fundo é totalmente diverso: favelas, tráfico de drogas, corrupção policial e, por fim, as entranhas do Bope, a tropa policial de elite que dá título ao filme. Se o inferno tivesse alguma feição, com certeza seria algo semelhante ao que o diretor nos faz ver. Nos guetos marginais das favelas, miséria socioeconômica e miséria moral dão-se as mãos na corrida desenfreada de delinqüentes e policiais para provar quem consegue ser mais violento. Tortura, sanguinolência, delação, falta de escrúpulos, tudo fede à mais estúpida desumanidade. José Padilha não poupa talento e recursos dramatúrgicos para deixar-nos cara a cara com o que de mais macabro produzimos em matéria de desrespeito à vida e à dignidade da pessoa. Instituições falidas e indivíduos desencantados debatem-se como moscas tentando escapar da maligna teia de destruição que se contrai e os tritura de forma inexorável. É o lado do Brasil cronicamente inviável, fluindo num jorro de imagens que comovem, dão repulsa e fazem pensar.

A pergunta é inevitável: o que nos aconteceu entre 1970 e 2007? Várias hipóteses podem ser levantadas. A que mais facilmente vem à tona é de ordem político-econômica. Perdemos, afirmam alguns, as aspirações da geração 1968. Nosso destino histórico foi entregue à sede de lucros materiais e o resultado veio a galope: individualismo à outrance, consumismo, cinismo, evasão pelo entretenimento e adoração drogada do próprio corpo. A tese é discutível em alguns pontos, mas, certamente, há algo de verdade na explicação. A decadência da política – numericamente controlada por parlamentares que agem como mafiosos -, o endeusamento irracional da economia e a presença intrusiva da moral do espetáculo na vida cotidiana contribuíram, em muito, para o aparente aumento da insensibilidade em face do bem comum ou das carências do próximo.

José Padilha, entretanto, vai adiante. Quaisquer que tenham sido as causas da mudança, mostra ele, o efeito cultural foi além do imaginável. A desagregação da hierarquia dos valores éticos lesou o cerne da pessoa moral, ou seja, a capacidade que devemos ter de decidir entre o certo e o errado e dar sentido à própria vida. Em O Ano em que meus Pais Saíram de Férias, os rivais políticos sabiam por que matavam e morriam. Os defensores da ditadura achavam que torturar e assassinar dissidentes significava proteger o Brasil do perigo comunista; os partidários da democracia ou do socialismo, por seu turno, queriam restaurar o Estado de Direito democrático ou realizar a revolução. Na bela metáfora da ida para o exílio, posta na boca do garoto, isto fica patente. A esperança de um mundo melhor confundia-se com a expectativa do reencontro com o pai. O reencontro, embora indefinidamente adiado, já era presentemente vivido. Dizer que o exílio era a condição de quem esperava por um pai que nunca chegava era dizer que depois do exílio o pai e seus ideais poderiam vir a ser reabilitados.

Em Tropa de Elite, essa moral comum às utopias messiânicas dá lugar à mais desoladora desistência. Policiais corruptos ou justiceiros, marginais e estudantes usuários de drogas ilegais não sabem o que buscar, exceto sobreviver hoje e amanhã. Agem como sonâmbulos presos num pesadelo. Tudo que importa é abolir o tráfico ou manter o tráfico. Nenhum dos personagens parece sentir-se exilado, pois o deserto ético transformou-se no último horizonte de suas existências. No que dizem, palavras como violência e paz, justiça e injustiça, autoridade e obediência, soam vazias e apenas fazem eco a sentimentos de vingança, ressentimento, culpa ou autopunição. Criaturas supérfluas em um mundo supérfluo.

É aqui que o corte entre os dois filmes salta aos olhos. Visto com mais atenção, Tropa de Elite poderia ser grafado no plural, sem perda de conteúdo. Na verdade, as supostas elites retratadas no filme são duas: a policial e a universitária. O detalhe nada tem de irrelevante. Nele se repete um dos mais lastimáveis fenômenos da cultura brasileira, qual seja, a recalcitrante incapacidade de nossa autodeclarada elite de agir, de fato, como uma legítima elite. Elite – faça-se justiça à tradição lingüística – é o conjunto dos melhores. E os melhores, no credo democrático-humanitário, são os que mais contribuem para fortalecer os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade. Ora, a pretensa elite nacional jamais se conduziu segundo esses princípios, donde a relação promíscua que sempre manteve com o que a polícia pode ter de mais abusivo e imoral.

Inicialmente, o retrógado senhoriato rural, candidato bastardo à elite, usou a polícia para confinar a realidade dos guetos pobres nas letras de samba e desfiles de carnaval. Foi a época de ouro das “anedotas, champanhotas” e do famigerado “sorry, periferia”. Na atualidade, a sandice cultural mudou de tom, mas fundamentalmente continuou a mesma. A polícia foi, de novo, usada para deixar que os mesmos guetos se convertessem em entrepostos de drogas ilegais. Só que a criatura fugiu ao controle do criador. Os piores do andar de baixo – como reza o preconceito – se deram conta, rapidamente, de que podiam extorquir e explorar quanto quisessem os piores do andar de cima. Daí para a emancipação da tutela policial o passo foi curto. Em duas ou três décadas, os guetos marginais passaram de quitanda de drogas a centros de treinamento intensivo em sordidez moral para policiais. A leviandade político-social continuaria impune, não fosse um fato novo: o montante de dinheiro circulante com o comércio de drogas permitiu que a nata da delinqüência se armasse até os dentes para defender a prosperidade de seus negócios. Conclusão: a sociedade brasileira, uma vez mais, tem sua agenda de problemas comandada pela inconseqüência de uns poucos. O mesmo tipo de grupúsculo social, que outrora insistiu em negar a indecência humana das favelas, voltou a recorrer à truculência repressiva. Desta feita, para conter os excessos da aberração que pôs no mundo e acabou nos tornando reféns de bandidos e policiais corruptos.

Boa parte do desconforto provocado por Tropa de Elite vem do fato de percebermos que o odioso ciclo do crime não tem saída, posto que se alimenta da própria deterioração. Combater o comércio de drogas e armas com Bopes é querer extirpar a violência com mais violência, isto é, com mais da mesma coisa. Faz sentido discutir com seriedade se a legalização das drogas ilegais seria um antídoto possível para a situação; insensato é persistirmos vendo o problema pelas lentes dos habitantes desse submundo. Nesta guerra entre aspas, o inimigo não são os infelizes do lado de lá ou do lado de cá; o inimigo é a consciência degradada dos que consideram que, para o populacho, favela está de bom tamanho. Ou eliminamos essa mentalidade torpe de nossa vida cultural ou nos condenamos a suportar mais e mais carnificina.

Um dos maiores méritos de Tropa de Elite é deixar claro que a banda podre da polícia nada mais é do que o espelho da banda podre de elites que usurparam o direito a portar um nome ao qual jamais fizeram jus. Policiais corruptos e brutalizados, marginais guetificados e usuários irresponsáveis de drogas ilegais não nasceram da cabeça de Zeus. Eles são o refugo de uma ordem sociocultural que manteve o gozo dos direitos democráticos reservado a uma minoria civicamente analfabeta, moralmente míope e culturalmente descomprometida com a construção de uma nação brasileira digna deste nome.

Entretanto, se a “elite” perdeu a cabeça e alma, isso não quer dizer que tudo esteja perdido. Em uma espécie de contraponto à crua denúncia feita por José Padilha, Cao Hamburger assinala o contraste existente entre o Brasil dos restos humanos e o Brasil do cidadão comum. Este último cidadão, em 1970 como em 2007, apesar da pouca visibilidade social, não sucumbiu à moral da descrença. Sua vida, na superfície, é prosaica, mas, no fundo, é o que mantém este país de pé. Trata-se do indivíduo ordinário, que não é santo ou herói, mas, simplesmente, alguém capaz de agir com correção e honradez, se a urgência da questão o exigir. Sem rompante ou bravata, ele cultiva as virtudes cívicas elementares, como apreço pelo trabalho, pela honestidade e pela decência. Embora movido pelo egoísmo narcisista, pela tentação do oportunismo ou pela sedução do sucesso midiático, como qualquer um de nós, também sabe ser compassivo e solidário se assim for necessário. São esses brasileiros que no filme de Hamburger protegem o pequeno personagem, mesmo pondo em risco o próprio bem-estar. São eles a verdadeira tropa de elite dos ideais democráticos de homens como frei Caneca e Joaquim Nabuco; é apostando neles que traremos de volta os órfãos ainda exilados do sonho Brasil.

Para os desesperados, isso é idiotice sentimentalóide de quem não vê que “este país não presta”; para os cínicos, a súmula da mediocridade piedosa. Penso de modo diferente. Penso que esses cotidianos exercícios de respeito pelo outro e de crença no próprio poder de mudar são a quintessência da riqueza material, moral, intelectual e espiritual de um povo. Por meio deles, quem sabe, chegará o ano em que daremos férias às elites e às tropas que nos envergonham e nos privam de viver num país à altura da maioria de nós.

Dois filmes a serem vistos e revistos; dois grandes cineastas, eles sim, exemplos da elite que queremos ter.

* Jurandir Freire Costa, psicanalista, é professor do Instituto de Medicina Social da UERJ e autor, entre outros livros, de A Inocência e o Vício (Relume-Dumara, 2002) e O Vestígio e a Aura (Garamond, 2004)

Assista ao trailer do filme Tropa de elite

Tropa de Elite

05/10/2007 - 15:11h Nelson Freire – Um trecho difícil dos Concertos para piano de Brahms – Documentário "Nelson Freire" de João Moreira Salles

Nelson Freire ganha o prêmio mais influente da música clássica

da Folha Online

O pianista mineiro Nelson Freire, 62, conquistou um Gramophone, o prêmio mais influente da música clássica no mundo, concedido pela revista britânica homônima. Ele ganhou o prêmio de “gravação do ano” pelo trabalho “Brahms: Piano Concertos”, lançado pelo selo Decca. O anúncio foi feito na última quinta-feira (4).

“No auge da forma, Nelson Freire executa os concertos para piano e orquestra de Brahms com sonoridade assertiva e inteligência musical. O suntuoso acompanhamento da Orquestra Gewandhaus, regida por Chailly, faz deste um dos melhores registros das obras de Brahms”, descreveu a Folha em 15 de dezembro de 2006.

Em 2003, o pianista ganhou uma homenagem no cinema com o lançamento do documentário “Nelson Freire”, dirigido por João Moreira Salles. Um dos pontos altos do filme é a leitura das cartas que Nelson Freire recebeu de seu pai e de sua professora, ainda no começo da carreira.

03/10/2007 - 18:04h Lançamentos: Longe de Ramiro

A Livraria da Vila e a Editora 34
convidam para o lançamento do livro
LONGE DE RAMIRO
de Chico Mattoso

Terça-feira, 16 de out. de 2007
das 18h30 às 21h30

Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915
Vila Madalena
Tel. (11) 3814-5811
www.livrariadavila.com.br

   

02/10/2007 - 23:07h Reverse Graffiti : Ossario : Alexandre Orion


OSSARIO : ART LESS POLLUTION
Urban Intervention: ALEXANDRE ORION
Music: INSTITUTO
Video: BIG BONSAI
WWW.OSSARIO.NET

OSSÁRIO : ARTE MENOS POLUIÇÃO
Intervenção: ALEXANDRE ORION
Música: INSTITUTO
Vídeo: BIG BONSAI

WWW.OSSARIO.NET

01/10/2007 - 12:53h Lula critica falta de apoio ao futebol feminino

Segundo o presidente, as mulheres não são valorizadas por entidades esportivas.
Lula voltou a prometer que vai ‘zerar’ déficit de bibliotecas no país.

Do G1, em São Paulo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou o seu programa semanal “Café com o presidente” desta segunda-feira (1º) com críticas às entidades esportivas que controlam o esporte feminino no Brasil, especialmente o futebol. Segundo Lula, a derrota das meninas da seleção brasileira feminina de futebol para a Alemanha, na final da Copa do Mundo, disputada na China, demonstra que o país ainda está começando um processo de transformação na área.

“Assisti ao jogo pela televisão. Acho que essa seleção enaltece o nome do Brasil e o esporte nacional. Mas as meninas não estão sendo valorizadas como deveriam ser pelas entidades que cuidam do esporte feminino no país”, disse Lula, sem apontar as entidades responsáveis pelo tema. Oficialmente, controla a equipe liderada pela atacante Marta, eleita a melhor jogadora do mundo, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

O presidente, porém, valorizou o segundo lugar no Mundial. “Elas precisam levantar a cabeça, pois o estamos começando um processo grande no país”.

Bibliotecas

A exemplo do que já havia ocorrido durante visita do presidente à Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, na sexta-feira (28), Lula voltou a prometer “zerar” até 2008 o número de municípios brasileiros sem biblioteca.

“O brasileiro lê pouco. Estamos ampliando o programa nacional de bibliotecas escolares para beneficiar 30 milhões de alunos e 85 mil escolas públicas. Pretendemos levar biblioteca, ao menos uma, para todos os municípios brasileiros”, disse o presidente.

Educação

Como também ocorreu em programas anteriores, Lula discursou sobre o tema educação. “Tenho a responsabilidade de resolver, se não toda, parte do problema da educação no Brasil. Estamos fazendo investimentos nessa área. Já aumentamos de oito para nove anos o tempo de permanência de uma criança na escola. Investimos em escolas técnicas e estamos resolvendo os problemas do ensino universitário. Trabalhamos para recuperar o tempo perdido. Meu compromisso é terminar o mandato com mais dez universidades federais novas, 48 extensões universitárias e 214 escolas técnicas profissionais”, prometeu.

30/09/2007 - 20:50h Raimundo Carrero e Zuenir Ventura: Jornalismo e literatura

Enviado por Miguel Conde, de Porto de Galinhas

“Jornalismo e literatura” é dessas temas recorrentes e inevitáveis em festas literárias e encontros do tipo. A conversa ontem entre Raimundo Carrero e Zuenir Ventura aqui na Fliporto foi interessante. Os dois tentaram distinguir jornalismo e literatura, e falar dos pontos de contato entre um e outro nos próprios trabalhos.

Ventura disse que jornalismo e literatura têm um longo casamento, “como qualquer outro, com altos e baixos”. A década de 1950, no Brasil, era um momento de alta proximidade, com resultados ruins, disse. Era a época das matérias cheias de literatices, onde a estrela, como escreveu Paulo Francis, era o repórter, não o assunto.

Ventura lembrou a reforma no texto jornalístico iniciada pelo “Diário Carioca”, e depois adotada em outros jornais, para tornar as reportagens tão objetivas quanto possível. No manuel de redação escrito por Carlos Lacerda para a “Tribuna da Imprensa”, lembrou, o uso de adjetivos e advérbios era proibido.

- Praticamente tínhamos que enviar um memorando se quiséssemos usar um adjetivo ou advérbio no texto – brincou.

Na década de 1970, continuou, elementos literários voltaram a ser introduzidos, com mais moderação, no texto jornalístico. Hoje, o uso desses recursos expressivos se nota principalmente nos livros de reportagem, acredita.

Carrero se admitiu dono de uma coleção enorme de recortes de notícias de jornal, que usa como pontos de partida para as histórias de seus livros.

- Do início ao fim, o jornal é um grande romance – disse.

Ele fez distinções: o jornalismo expõe, a literatura esconde; o jornalismo tenta ser preciso, a literatura é ambígua.

- O jornalismo trabalho com fatos verificáveis, a literatura com a invenção – acrescentou Ventura.

E depois, para mostrar que nem sempre é assim, concluiu:

- Às vezes me pergutam se eu acredito em tudo que é publicado nos jornais. Eu digo que claro que não. Afinal, eu sou jornalista.

28/09/2007 - 12:37h Estréia já consolida Fliporto no calendário cultural

Foi dada a largada para a maratona da Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Fliporto), evento cultural e turístico que movimenta o já badalado balneário do Litoral Sul do estado neste fim de semana. Uma apresentação da Orquestra Criança Cidadã, formada por crianças e adolescentes carentes da comunidade do Coque, no Recife, abriu oficialmente – embora com mais de uma hora de atraso – a programação da terceira edição do Fliporto, que este ano traz na lista de homenageados Gabriel García Márquez, Moacyr Scliar – que participa como convidado e palestrante do evento – Gabriela Mistral e Clarice Lispector.

Com a casa cheia mesmo antes do início das palestras marcadas para esta quinta, o Fliporto já comemora o sucesso de público. A julgar pela movimentação intensa no Hotel Armação, quartel-general da festa – onde ainda acontecem os últimos ajustes do festival – o evento pode começar a se gabar de ter se consolidado no calendário cultural pernambucano. E a fama traz na esteira de eventos paralelos, como o festival gastronômico promovido por vários restaurantes de Porto, e as festas temáticas na Casa Latino-América, onde acontece a parte menos ortodoxa do Fliporto.(Do portal Pernambuco.com)

23/09/2007 - 16:37h Primavera

Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.

A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor. Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade.

Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Texto extraído do livro “Cecília Meireles – Obra em Prosa – Volume 1“, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 1998, pág. 366. Enviado por Gloria Flugel.

19/09/2007 - 11:22h Una ventana a la literatura de Brasil

CULTURA : TRES ESCRITORES CONTEMPORANEOS DE BRASIL, VIENEN A BUENOS AIRES ACOMPAÑAR EDICIONES EN CASTELLANO

Buscan acercar universos creativos que se ignoran a pesar de ser vecinos.

Diego Erlan

En la Mercearia San Pedro, un bar-librería del barrio bohemio de San Pablo, cuelgan libros de la editorial Eloísa Cartonera y en los estantes se ven ejemplares de O silencieiro, de Antonio Di Benedetto, y Dinhero Quemado, de Ricardo Piglia, uno de los autores argentinos más leídos de Brasil. En una de las mesas, Marcelino Freire y Joca Reiners Terron beben cerveza y hablan de literatura. Son escritores nacidos a fines de los años sesenta y forman parte de la nueva generación de autores brasileños, que de a poco comienza a leerse en la Argentina.

¿Por qué, mientras Caetano Veloso llena estadios, no hay un interés sólido por la literatura brasileña? “No sólo existe una proximidad fatal de las dos culturas sino que hay, sobre todo, una enorme tradición literaria en el Brasil que no podemos desatender”, escribe Cristian De Nápoli en el prólogo al libro Terriblemente felices (Emecé), una selección de los cuentos y relatos de la narrativa brasileña actual. Allí participan Reiners Terron, Freire y también otros destacados como Sergio Sant’ Anna y Luiz Ruffato. Este libro se suma a los lanzamientos de Manos de caballo (Interzona), de Daniel Galera y Dos hermanos (Beatriz Viterbo), de Milton Hatoum, quien junto a Galera y Ruffato están en Buenos Aires, en el mes cultural del Brasil, para presentar los libros mañana, a las 19, en la Funceb (Esmeralda, 969).

Milton Hatoum entiende que el idioma sea una dificultad para ambos países, pero no un problema: “A veces no sé si Brasil es una isla o la isla es la Argentina. Porque hablamos un perfecto portuñol. Se habla mucho de integración, pero creo que los libros hacen el diálogo entre las culturas“. El gran tema de su novela Dos hermanos es la búsqueda de la identidad. Y el autor entiende que los orígenes son plurales. No así el origen de su libro, que estuvo marcado por Esaú y Jacob (1904), de Machado de Assís, un autor que considera inspirador para los escritores contemporáneos. “En la actualidad hay voces, estilos y autores que intentan encontrar su voz narrativa”, dice Hatoum.

Uno de ellos, sin duda, es Daniel Galera, que con una prosa vertiginosa, minuciosa y urbana recrea la ciudad donde nació, Porto Alegre. “Intenté convertir a la ciudad en una especie de mapa geográfico de la psicología del personaje”, explica Galera. Y el mayor desafío de su generación, dice, fue conseguir destacar en una escena superpoblada.

La narrativa de Luiz Ruffato también plantea el tema de la identidad. Su condición de hijo de agricultores sin tierra determinó sus preocupaciones como escritor. Cuando comenzó a escribir se sorprendió al no encontrar personajes proletarios en la historia de la literatura de su país, pródiga en representar a la elite. Dice por e-mail: “Conocía bastante bien los deseos y ambiciones de la clase media baja, siempre desplazada, rostros anónimos que caminan por las ciudades soñando una vida mejor. Ese es mi universo”.

Hay un “universo a mi alrededor” canta Marisa Monte. Y sí, la música es lo que más se conoce del otro lado de la frontera.

Perfiles de los autores que vienen a Buenos Aires

Ruffato Básico
Nació en Cataguases (Minas Gerais) en 1961. Publicó los libros de cuentos “Histórias de Remorsos e Rancores” (1998), “(Os sobrevivientes)” y, entre otros, la serie “Inferno provisório”, con relatos sobre la vida del proletariado de su pueblo.

Galera Básico
Hijo de un inmigrante libanés musulmán y de una brasileña cristiana de origen libanés, nació en Manaos en 1952. Publicó tres novelas: “Relato de un cierto Oriente” (1989), “Dos hermanos” (2000) y “Cinzas do Norte” (2005).

Hatoum Básico
Nació en San Pablo, en 1979, pero vivió en Porto Alegre. Fundó la editorial Livros do Mal, donde publicó “Dentes guardados” y “Até o día em que o cao morreu”. “Manos de caballo” (2006) se editó en Companhia das Letras y fue finalista del premio Jabuti.

30/08/2007 - 11:44h Fora povo!

por Verissimo

Pesquisa recente concluiu que a elite brasileira é mais moderna, ética, tolerante e inteligente do que o resto da população. Nossa elite, tão atacada através dos tempos, pode se sentir desagravada com o resultado do estudo, embora este tenha sido até modesto nas suas conclusões. Faltou dizer que além das suas outras virtudes a elite brasileira é mais bem vestida do que as classes inferiores, tem melhor gosto e melhor educação, é melhor companhia em acontecimentos sociais é incomparavelmente mais saudável. E que dentes!

A pesquisa reforça uma tese que tenho há anos segundo a qual o Brasil, para dar certo, precisa trocar de povo. Esse que está aí é de péssima qualidade. Não sei qual seria a solução. Talvez alguma forma de terceirização, substituindo-se o que existe por algo mais escandinavo. As campanhas assistencialistas que tentam melhorar a qualidade do povo atual só a pioram, pois se por um lado não ajudam muito, pelo outro o encorajam a continuar existindo. E pior, se multiplicando. Do que adianta botar comida no prato do povo e não ensinar a correta colocação dos talheres, ou a escolha de tópicos interessantes para comentar durante a refeição? Tente levar o povo a um restaurante da moda e prepare-se para um vexame. O povo brasileiro só envergonha a sua elite.

Se não tivéssemos um povo tão inferior, nossos índices sociais e de desenvolvimento seriam outros. Estaríamos no Primeiro Mundo em vez de empatados com Botswana. São, sabidamente, as estatísticas de subemprego, sub-habitação e outros maus hábitos do povo que nos fazem passar vergonha.

Que contraste com a elite. Jamais se verá alguém da elite brigando e fazendo um papelão numa fila do SUS como o povo, por exemplo. Mas o que fazer? Elegância e discrição não se ensina. Classe você tem ou não tem. Mas o contraste é chocante, mesmo assim. Esse povo, decididamente, não serve.

Se ao menos as bolsas-família fossem Vuitton…

O Estado de São Paulo e O Globo

10/08/2007 - 01:06h Caetano Veloso y Gilberto Gil

08/08/2007 - 00:04h Lábios que beijei – Caetano Veloso

19/06/2007 - 12:11h Dure réalité pour le Musée d’art naïf de Rio

Le Musée international d’art naïf de Rio de Janeiro, l’une des attractions culturelles de la ville, dans le quartier traditionnel de Cosme Velho, a lancé un SOS, après avoir fermé ses portes le 14 mars, faute de moyens.

“On ne pouvait plus continuer comme ça, à mendier de l’argent partout”, regrette le créateur de cette petite structure, Lucien Finkelstein, 75 ans, un Français habitant à Rio depuis 1948. Le musée a reçu douze mille visiteurs en 2006, pour moitié, des touristes étrangers. Sa collection, réputée, est souvent sollicitée à travers le monde. Pour continuer d’assurer son fonctionnement, il faudrait l’équivalent de 200 000 euros.

“Cette maison du XIXe siècle n’a jamais été adaptée, reconnaît la directrice et fille du fondateur, Jacqueline Finkelstein. La réserve n’est pas isolée, il y a des infiltrations, parfois des inondations, et les termites attaquent les tableaux.”

AVALANCHE DE COURRIELS

Le musée avait ouvert en 1995, dans la maison acquise par Lucien Finkelstein pour y présenter une petite partie de sa collection, six mille oeuvres glanées au hasard de ses voyages. “Le Brésil est devenu le centre de l’art naïf, car on y découvre encore de nouveaux peintres authentiques, de talent”, assure-t-il. Désireux de montrer au public ses peintures d’une centaine de pays, il en a fait don à sa fondation, installée dans le musée. La mairie de Rio s’était engagée à financer le projet par une subvention de 100 000 euros, irrégulièrement versée.

“La contrepartie exigée, la disponibilité pour les écoles publiques, coûte presque plus que la subvention”, assure Jacqueline Finkelstein, qui travaille bénévolement. Le musée avait publié plusieurs livres, mais il n’en a plus les moyens, pas plus que d’imprimer des brochures destinées aux touristes qui montent au Christ rédempteur depuis la gare voisine. Le SOS a provoqué une avalanche de courriels, des manifestations de solidarité et des propositions d’aide de deux entreprises, la compagnie pétrolière brésilienne Petrobras et la filiale locale de Michelin. “Un collaborateur du ministère de la culture est même venu de Brasilia. Mais en quatre ans, le ministre Gilberto Gil n’a jamais visité le musée et aucun représentant de la France ne s’est manifesté”, regrette Lucien Finkelstein.

Annie Gasnier pour Le Monde