09/03/2012 - 17:00h Locomotiva emergente falha e reduz otimismo mundial

Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul estão entre as economias dinâmicas que ajudaram o mundo a se recuperar da crise financeira de 2008

Por John Lyons e Bob Davis | The Wall Street Journal, de São Paulo e Pequim | VALOR

Os recentes sinais de fraqueza econômica no Brasil aumentam uma preocupação crescente para a economia global: os mercados emergentes, que impulsionaram o crescimento mundial nos últimos anos, estão desacelerando.

É uma grande preocupação em vista do fardo da crise da dívida europeia e da lenta recuperação dos Estados Unidos. Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul estão entre as economias dinâmicas que ajudaram o mundo a se recuperar da crise financeira de 2008.

Desta vez, porém, não parece que elas terão o mesmo impulso, agora que lidam com problemas como moedas fortes, inflação, déficits e bolhas imobiliárias. “O esforço de carregar nas costas o peso do crescimento mundial começou a desgastar as economias emergentes”, disse o economista Eswar Prasad, da Universidade Cornell, que já deu consultoria de política econômica à Índia e outros países emergentes.

“A capacidade dessas economias de contribuir para uma recuperação global está sendo testada.” As previsões de crescimento estão caindo em todos os países em desenvolvimento. Na segunda-feira, o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao reduziu a meta de crescimento anual do país para 7,5%, depois de mantê-la em 8% desde 2005. Na semana passada, a Índia disse que sua economia cresceu 6,1% no último trimestre de 2011, o ritmo mais lento em dois anos. Os economistas preveem que o crescimento da África do Sul cairá para 2,5% este ano, muito menos que os 7% que o diretor do banco central do país, Gill Marcus, mencionou como meta um ano atrás, para tentar reduzir o alto desemprego.

No Brasil, esta semana o governo informou que a economia cresceu cerca de 2,7% em 2011, menos de metade da taxa prevista pelo Ministério da Fazenda há um ano; e que a produção industrial caiu 2,1% em janeiro, a maior queda desde a crise de 2008. Além disso, o banco central reduziu o juro básico em 0,75 ponto percentual, um corte maior do que o esperado, para estimular o crescimento – o que também acendeu receios de inflação. Claro que a maioria das economias em desenvolvimento continua crescendo mais do que os EUA, a Europa ou o Japão. O investimento estrangeiro nos emergentes está se recuperando, e o aumento no preço das commodities deve ajudar o crescimento em países ricos em recursos naturais, como Brasil e África do Sul. “Os mercados emergentes ainda estão puxando o trem, mas é um trem que anda mais devagar”, disse Mohamed El-Erian, diretor-presidente da Pacific Investment Management Co., que administra cerca de US$ 1,3 trilhão em investimentos.

Em 2009, ele foi um dos que cunharam a expressão “o novo normal” para descrever uma economia global onde os mercados emergentes iriam superar, consistentemente, o crescimento do mundo desenvolvido. El-Erian disse que sua teoria se sustenta, embora a responsabilidade recaia sobre os autoridades políticas da Europa para resolver a crise de dívida no continente e evitar que transborde para outras regiões.

Mas já aconteceu uma importante mudança nesse conjunto variado que é o crescimento global. Em 2010, os economistas falavam de uma “recuperação em duas velocidades”, onde as economias emergentes disparavam à frente enquanto as ricas se estagnavam. Agora, ambas estão diminuindo. Em janeiro, o Fundo Monetário Internacional reduziu em 0,7%, para 5,4%, sua previsão de crescimento em 2012 para os mercados emergentes, feitas apenas três meses antes. O bloco cresceu 6,2% em 2011.

Uma série de fatores explica a perda de impulso. A China está desacelerando deliberadamente para um ritmo de crescimento mais sustentável. Os fluxos de exportação para a Europa e os EUA estão caindo, assim como os fluxos de commodities para a China. Em alguns países pobres, reformas econômicas muito necessárias foram interrompidas, com base na expectativa de que as taxas de crescimento continuariam altas.

No Brasil, autoridades do governo culpam os EUA e a Europa por cortar os juros, enviando uma onda de dinheiro especulativo para essas regiões, supervalorizando o real e prejudicando a competitividade brasileira.

Mas muitos problemas do Brasil são de origem local. Altos impostos, estradas ruins, burocracia extensa e corrupção endêmica tornam o Brasil um dos lugares mais caros do mundo para se produzir mercadorias.

O resultado é que o setor industrial do país, cada vez menos competitivo, está morrendo uma morte lenta, enquanto seus exportadores de commodities e prestadores de serviços, como restaurantes e cinemas, estão indo bem. É uma tendência preocupante, pois a manufatura industrial é a área em que se criam bons empregos para uma população pobre e de baixo nível educacional como a do Brasil.

Um desaceleração na China – o maior parceiro comercial do Brasil, África do Sul e outros exportadores de commodities – terá efeitos no mundo todo. A China compra minério de ferro e soja do Brasil; mais minério de ferro, e magnésio, cobre e outros metais da África do Sul, e carvão e cobre da Índia. Sem falar nos carros e artigos de luxo dos países ricos.

A China cresceu a uma taxa média de 10% durante 30 anos – um feito que nenhum outro país jamais alcançou. Mas seu modelo de crescimento baseou-se demasiadamente em três pilares que estão agora sob pressão: exportações, investimentos em indústrias de capital intensivo e valorização dos imóveis.

O banco de investimento japonês Nomura estima que as exportações da China em fevereiro caíram 15,2% comparadas com um ano atrás. Os preços dos apartamentos nas maiores cidades da China subiram tanto que se tornaram inacessíveis para a maioria da população, prejudicando o boom e criando dores de cabeça para os líderes.

Agora, os líderes chineses deixam claro que os anos de crescimento acima de 10% estão chegando ao fim. A ideia é mudar para um crescimento que dependa mais do consumo doméstico.

Isso pode dar à China uma base mais sólida para crescer bem no futuro. Mas gerenciar a transição e ao mesmo tempo continuar criando empregos será um desafio. A Índia é outra que está lidando com as consequências de um crescimento mais lento. Alguns analistas dizem que ela foi pega desprevenida por essa desaceleração, a qual tornou difícil para o governo cumprir suas promessas de gastos sociais e subsídios para combustíveis.

A África do Sul também está escorregando para baixo das suas previsões de 4% de crescimento feitas no ano passado, prejudicada pela sua enorme dependência de exportações para a China. A produção mineral encolheu 13% em 2011, segurando o crescimento em 3%.

“O desafio imediato que nós enfrentamos é não deixar a situação atual deteriorar”, escreveu na quarta-feira o ministro da Fazenda Pravin Gordhan, num editorial do jornal “Business Day”.

03/01/2012 - 12:35h Os caminhos que restam para as economias emergentes

Por David Wessel | The Wall Street Journal – VALOR

Nos últimos três anos, o mundo foi abalado por terremotos econômicos com epicentros nos países ricos da Europa, nos Estados Unidos e (literalmente) no Japão.

Os efeitos, é óbvio, atrapalharão o crescimento global por algum tempo. Menos óbvio é como essa crise vai alterar as estratégias econômicas na China, Índia, Brasil e outros países emergentes com forte crescimento.

Será que esses países não se importarão? Ou será que a crise os levará a se afastar dos mercados em troca de um controle governamental mais forte? Será que eles desenvolverão uma nova forma de capitalismo – o consenso de Pequim, talvez – que se tornará um modelo para os demais? Existe alguma alternativa bem definida?

Há muito ceticismo nos mercados emergentes, além de um certo gostinho pela desgraça alheia. “O velho paradigma em que os caras inteligentes da Europa e EUA nos passam sermão, apontam o dedo para nós e dizem: ‘Isto é o que você fez de errado’ – isso acabou”, diz Rajiv Kumar, economista formado pela Universidade de Oxford e secretário geral da Federação da Câmera de Comércio e Indústria da Índia.

A crise financeira global revelou os defeitos do capitalismo à moda americana, a inadequação do que os britânicos apelidaram de regulamentação financeira “leve” e a tendência do sistema de cometer excessos periódicos. Mais recentemente, a crise da dívida europeia colocou em evidência a tensão de um estado de bem-estar social de alto custo, na ausência de um vigoroso crescimento econômico que o financie.

O modelo americano continua em apuros três anos depois que as autoridades deixaram o banco Lehman Brothers quebrar. Bilhões de dólares dormem ociosos nos cofres de empresas, enquanto milhões de trabalhadores permanecem há mais de um ano desempregados. O mercado imobiliário continua aos cacos. A paralisia política na área fiscal compromete as autoridades econômicas nos EUA. Tudo isso e outras coisas enfraqueceram o principal argumento em favor do modelo econômico americano: o de que ele funciona.

Alguns anos atrás, quando Henry Paulson ainda era o secretário do tesouro americano, o vice-premier chinês, Wang Qishan, deu-lhe uma espetada. “Hank, eu antigamente escutava você. Você era o meu professor”, lembra Paulson, que visitou a China várias vezes quando estava à frente do Goldman Sachs. “Talvez agora o meu professor não pareça tão inteligente, depois dos erros que cometeu.”

Paulson hoje acrescenta: “Nós demos à China um modelo falho.”

O modelo europeu também não oferece lá muita coisa. Num dos momentos mais reveladores de 2011, Klaus Regling, o chefe do resgate na zona europeia, foi enviado em busca de dinheiro – não a Washington mas a Pequim. A missão não deu resultado, mas causou explosões de desdém de alguns na China com as falhas do modelo europeu.

Jin Liqun, diretor do conselho supervisor do fundo da riqueza soberana chinês, o China Investment Corp., chamou a Europa de “uma sociedade de bem-estar desgastada”, numa entrevista à TV Al Jazeera em novembro.

“As leis trabalhistas geram preguiça e indolência em vez de trabalho duro”, ele disse. “O sistema de incentivos é totalmente fora de esquadro. Por que [...] alguns povos [da zona do euro] têm que trabalhar até os 65, às vezes mais, enquanto em outros países eles se aposentam alegremente aos 55 e vão relaxar na praia? Isso não é justo.”

“O sistema de bem-estar social é bom para uma sociedade [...] quando ajuda aqueles em desvantagem a desfrutar de uma vida melhor”, disse ele. “Mas a sociedade de bem-estar não deveria induzir as pessoas a não trabalhar”.

O modelo japonês voltado à exportação, antigamente tão invejado por quase todo o mundo, hoje em dia foi em grande parte descartado, consequência de uma década de lutas para reavivar o crescimento. Junte-se a isso o golpe do desastre nuclear de Fukushima Daiichi, deflagrado em março passado por um tsunami e um terremoto, e a reputação dos japoneses competentes e eficientes foi abalada.

Mas há alguma alternativa bem articulada para o capitalismo praticado nos países ricos?

Ainda não, diz Joseph Nye, um cientista político da Universidade de Harvard que acompanhou a evolução dos centros globais de poder. “Não é como na Guerra Fria, em que havia uma ideologia alternativa – o comunismo – ou os anos 30, em que havia dois adversários, o comunismo e o fascismo.”

Afinal, a maioria dos atuais mercados emergentes está adotando o capitalismo global e suas instituições. A Rússia está prestes a entrar para a Organização Mundial do Comércio, o clube do livre comércio. A China ambiciona ter um papel maior, e não menor, no Fundo Monetário Internacional, o que as economias de mercado têm de mais parecido com um banco central mundial.

Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, diz que a receptividade da China aos mercados implica em que é mais fácil construir uma rodovia privada em Chongqing que no Estado americano da Pensilvânia.

“Todo mundo que criticou o sistema durante a época da bolha está sendo justificado. E a verdade é que muitas coisas ruins aconteceram”, diz o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, que hoje dirige uma firma de participações. “Mas muito do que as pessoas dizem é falso. Existe o perigo de o pêndulo oscilar muito longe na direção errada”, disse ele, referindo-se à tentação de mercados emergentes de retornar a um controle maior do governo sobre a economia.

Ainda assim, se os mercados emergentes divergirem da rota EUA-Japão-Europa, isso pode ser um momento decisivo. Aqueles que ponderam as rotas que os mercados emergentes podem tomar se dividem, basicamente, em três correntes.

Um grupo vê os mercados emergentes movendo-se numa direção nova, inspirados talvez pelo notável surto de crescimento da China e pela sua mistura de controle governamental e forças de mercado.

Justin Yifu Lin, ecomista-chefe do Banco Mundial, recorda num livro recente o “ceticismo generalizado nos círculos acadêmicos internacionais”, quando a China implantou, no final dos anos 70, reformas que protegiam grandes empresas estatais nos “setores tradicionais”, ao mesmo tempo em que criavam empreendimentos privados em “novos setores de mão-de-obra intensiva”. Segundo essa visão da história, outros países em desenvolvimento seguiram o “Consenso de Washington” ao desmontar toda e qualquer restrição aos mercados – “e acabaram com suas economias em colapso e estagnadas no longo prazo”.

Li, ao mesmo tempo em que reconhece problemas no crescimento chinês, argumenta que, em geral, “as oportunidades e desafios que os países desenvolvidos encaram são diferentes daqueles dos países em desenvolvimento”. China, Índia e outros países com grande oferta de mão-de-obra devem adotar estratégias econômicas diferentes daquelas adotadas por outros, um argumento que reforça a ênfase chinesa em promover investimento em vez de consumo e em exportar para criar empregos.

Mas à medida que surgem rachaduras na história de sucesso chinesa – rebeliões aqui e ali, casos espetaculares de corrupção, acidentes com trens de alta velocidade – parte do brilho se dissipou. De fato, François Godement, um francês especializado na Ásia, descreve a China como dividida entre versões rivais do seu próprio modelo: de um lado o crescimento na cadeia tecnológica de valor, a qual ele chama de modelo Cantão, baseado na próspera província costeira; de outro, o experimento de Chongking no centro da China, que é marcado por pesados subsídios.

Uma segunda corrente sustenta que os mercados emergentes não vão prosperar rejeitando o capitalismo ocidental, mas sim executando-o melhor, talvez encontrando uma maneira de frear a sua tendência a excessos financeiros, ao mesmo tempo preservando a eficiência dos mercados.

“A América Latina já tentou diversos modelos”, diz Liliana Rojas-Suarez, uma economista de origem peruana que hoje dirige o Centro para o Desenvolvimento Global, um centro de estudos de Washington. “Esse modelo” – mercado, empreendimento privado, políticas macroeconômicas ortodoxas – “está funcionando para eles”.

Rojas-Suarez aponta o presidente peruano de centro-esquerda, Ollanta Humala, como um exemplo do segundo modelo. Ela observa que, apesar de alguma retórica de campanha, Humala não se desviou muito do curso de governo anterior. Afinal, a economia peruana cresceu robustos 8,8% em 2010 e a previsão de crescimento para 2011 é de 6,7%. “O custo para um governo de esquerda de mudar o que é, até agora, visto como sucesso é muito grande”, diz ela.

Ernesto Zedillo, o ex-presidente do México, atualmente professor da Universidade de Yale, afirma que a Europa não enxergou o que os mexicanos entendem sobre como responder à crise econômica. “A América Latina, depois de tantos anos, aprendeu suas lições”, disse ele. “Nos anos 80, quando nós nos comportávamos como os eurpeus fazem hoje, sempre ficávamos para trás.” Nos anos 90, diz ele, já não foi assim.

A conclusão a que ele chegou, e vem repetindo desde então: mercados reagem exageradamente, então as políticas de governo têm de reagir com exagero ainda maior. Países ricos não aprenderam essa lição, diz ele, atacando a “lentidão, a parcimônia, a hesitação, o conflito político observado na Europa e nos EUA.”

Um terceiro grupo vê o que Zoellick, do Banco Mundial, chama de “pragmatismo implacável”, uma busca por resultados quase desprovida de qualquer ideologia.

Nessa linha, Olivier Blanchard, um professor francês do Instituto Tecnológico de Massachusetts, o MIT, e hoje economista-chefe do FMI, diz: “Se eu fosse um jovem país emergente, o meu moto seria: vá devagar.”

Ele aconselha esses países a desenvolver lentamente sistemas financeiros modernos, adotando somente aquelas inovações que funcionaram em outros lugares, e derrubando as barreiras para investimentos estrangeiros apenas gradualmente. E ele desenvolveria com cuidado regras para o mercado de trabalho para evitar a esclerose que infecta algumas economias ricas. “As instituições têm vida própria”, diz ele.

Das suas viagens ao redor do mundo, Zoellick conclui: “As pessoas estão buscando por aquilo que funciona. Foi muito importante ter um modelo que começou funcionando no Japão, na Coreia, em Taiwan e depois se espalhou para outros países no sudeste asiático e para a China.”

Será que os mercados emergentes concluíram que os modelos americano e europeu não funcionam? “Ainda não, mas pode acontecer”, diz ele. Vai depender de os EUA, a Europa e o Japão resolverem ou não os seus problemas nos próximos anos.

27/11/2011 - 10:47h ‘Brasil pode se tornar desenvolvido em 20 anos’


Para economista criador dos Brics, Brasil, Rússia, Índia e China não podem mais ser considerados países emergentes

27 de novembro de 2011

DANIELA MILANESE , CORRESPONDENTE / LONDRES – O Estado de S.Paulo

Antes do fim desta década, um representante dos Brics ocupará a chefia do Fundo Monetário Internacional. Até 2020, o yuan e o real passarão a compor o Direito Especial de Saques (SDR, na sigla em inglês), “moeda” do FMI, ao lado do dólar, euro, iene e libra. O Brasil tem as maiores chances de se tornar um país desenvolvido, o que pode ocorrer em 20 anos.

Jim O’Neill continua sonhando com o futuro dos Brics. A história da criação do conceito, a evolução dos países e suas perspectivas estão no livro The Growth Map: Economic opportunity in the Brics and Beyond (O Mapa do crescimento: as oportunidades econômicas nos Brics e além), que terá lançamento global em 5 de dezembro e deverá ter versão em português em 2012.

Em entrevista exclusiva à Agência Estado, em Londres, ele mantém o tom sempre otimista e contemporizador. Admite que a grave crise da zona do euro afetará os Brics, mas acha que a China, longe de ser uma bolha prestes a estourar, tem capacidade de contrabalançar os problemas do velho continente.

Para ele, os Brics não têm coerência como grupo político, por serem países muitos diferentes. Porém, precisam fazer parte da governança global. O’Neill prevê que eles se tornarão parte de um novo grupo, um G-9, menor e mais efetivo do que o G-20, a ser formado também por Estados Unidos, Japão, zona do euro, Reino Unido e Canadá.

Fanático por futebol e torcedor do Manchester United, ele diz que estará no Brasil para a Copa de 2014 – afinal, esteve em todos os quatro últimos mundiais. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O sr., em algum momento, imaginou que o conceito dos Brics se tornaria tão famoso?

Eu nunca imaginei, isso mudou minha vida profissional. É extraordinário.

Se pudesse voltar no tempo, teria feito alguma escolha diferente?

Nos três primeiros anos, eu pensei sobre o México. Mas, quando olho para trás, não me arrependo. Na época, a escolha do Brasil foi a mais controversa.

A inclusão do Brasil foi sua maior aposta. Arriscado, não?

(Risos) Foi muito arriscado. Pessoas no Brasil dizem isso ainda hoje. Mas, como eu já estava no mercado há muitos anos, eu sabia da importância das metas de inflação. Isso foi o que realmente me influenciou.

No livro, o sr. menciona a resistência do seu colega do Goldman Sachs, Paulo Leme. Ele foi contra a inclusão do Brasil?

Ele ficou surpreso, não estava muito disposto. Mas, depois, ele deu muito apoio.

O sr. diz que a maior conquista do Brasil foi o controle da inflação. Algumas pessoas acreditam que o BC acaba de abandonar as metas de inflação. Como avalia?

Não acho que tenha abandonado. Mas não está tão independente como já foi. Talvez tenha apenas sido muito astuto quando olhou os problemas externos três meses atrás.

O sr. está preocupado com o controle da inflação no Brasil?

Não muito. Existe outro fator importante aqui: o Brasil tem o desafio da doença holandesa neste momento. O real subiu tão fortemente que as autoridades brasileiras precisam fazer algo. De certa forma, eu até admiro o fato de o Banco Central tomar certos riscos. Mas, eles precisam ter cuidados, é claro.

O sr. fala sobre o risco que a apreciação cambial traz ao País. Estamos vendo muita pressão no câmbio nos últimos dias com a crise europeia. Seria essa a reversão desordenada que o sr. teme?

A situação na Europa se tornou muito problemática nas últimas semanas, especialmente em relação à Europa. As autoridades europeias precisam ser mais decisivas, pois o mercado está muito nervoso. Falta confiança sobre as decisões políticas na Europa.

Essa turbulência pode afetar fortemente o real?

Já está afetando. A situação é muito frágil. Para ser honesto, muito vai depender da China. Se a China mostrar mais liderança, se a inflação lá cair e eles cortarem os juros e permitirem mais valorização da moeda, será muito importante para contrabalançar a crise na Europa.

Mas os Brics serão afetados pela crise europeia?

Claro, já estamos vendo isso. A zona do euro é um grande mercado. Isso afeta todo mundo, inclusive os Brics. Mas, deixe-me enfatizar: nos próximos 12 meses, o crescimento do PIB dos Brics será provavelmente igual a uma nova Itália. Precisamos manter essas coisas em perspectiva. É claro que a crise europeia pode afetar os Brics. Mas os Brics podem contrabalançar.

O sr. acredita que o Brasil entrará em recessão técnica?

Os dados mais recentes apontam que o PIB poderá se contrair no quarto trimestre. Mas acho que será temporário. Não tenho certeza de que o País entrará em recessão técnica.

Qual a taxa de crescimento que o sr. projeta para o Brasil nos próximos anos?

A tendência está entre 4% e 5%.

O sr. diz que os Brics não podem mais ser chamados de mercados emergentes. Qual é a perspectiva para que se tornem países desenvolvidos?

Acho que o Brasil tem, provavelmente, a maior chance. Até o fim desta década, a renda per capita terá dobrado. A economia está hoje perto de US$ 2 trilhões e o PIB per capita, próximo de US$ 15 mil. Talvez até o fim desta década seja de US$ 30 mil. Em 20 anos, o Brasil pode se tornar um país desenvolvido.

O que ainda precisa ser feito no Brasil?

Mais investimentos do setor privado e inovação.

Por que devemos acreditar que a China não é uma bolha, como o sr. argumenta? Há muita preocupação sobre a qualidade dos empréstimos, as dívidas locais e os preços das moradias.

Essa é uma visão muito popular. As pessoas precisam entender que os preços das casas na China estão caindo porque as autoridades estão tentando conter a alta. Não é um boom típico do Ocidente. É claro que não é o estouro de uma bolha, é o governo tentando conter.

O livro passa impressão de que o sr. não está tão entusiasmado com Rússia e Índia. É isso?

Interessante escutar isso. Eu estava tentando ser realista sobre os desafios. Sua conclusão está certa, eles ainda precisam fazer muitas coisas. O Brasil e a China estão à frente.

O sr. diz que os Brics têm limitações como grupo político porque são países muito diferentes.

O único ponto em comum é que eles têm populações muito grandes. E o desejo de ter mais sucesso.

Outro ponto em comum é a corrupção.

Sim. Mas há países do G-7 com esses problemas também. Muitas pessoas falam disso com mentalidade muito ocidental. Veja o que ocorreu na Itália nas últimas décadas: a Itália não está livre da corrupção.

Os Brics são ameaça ao G-7?

Não chamaria de ameaça. Os encontros de cúpula dos Brics destacam os acontecimentos econômicos do G-7. Foi como um oficial sênior do G-7 me disse recentemente: “Não podemos resolver nada sem a China”.

Como deve evoluir a governança global?

Todos os quatro Brics se tornarão parte de um novo grupo, menor que o G-20. Até o fim da década, estarão entre as dez maiores economias. Se a zona do euro sobreviver, se tornará apenas um grupo. Então, teremos Estados Unidos, Japão, a zona do euro, os quatro Brics e talvez o Reino Unido e o Canadá, no que seria o novo G-9.

O sr. também escreve que uma moeda comum dos Brics é muito improvável. Mas e a inclusão do yuan e até do real no Direito Especial de Saques (SDR, na sigla em inglês), a ‘moeda’ do Fundo Monetário Internacional?

Até 2020, sem dúvida é possível. Com base nas recentes definições do G-20, está claro que o yuan entrará até 2015. E o real poderia entrar até 2020.

E quando veremos um membro do Bric como chefe do FMI?

Em algum momento antes do fim desta década. Talvez o Armínio (Fraga, ex-presidente do Banco Central).

O sr. menciona isso no livro. Mas a indicação dele seria impossível no governo Dilma Rousseff.

Eu sei. Só estava tentando destacar que há pessoas preparadas.

13/10/2011 - 09:04h Brics rejeitam reduzir acumulação de reservas

Por Assis Moreira | VALOR

De Paris

Brasil, China e África do Sul, que integram o grupo denominado Brics, e mais a Argentina rejeitam nova ofensiva de países desenvolvidos para que reduzam o ritmo de acumulação de reservas internacionais, ainda mais no cenário atual de crescente volatilidade.

Uma proposta no G-20 visa países com reservas “claramente acima de níveis de precaução”, ou seja, acima do considerado necessário. O foco é essencialmente a China, com seus US$ 3,2 trilhões de reservas internacionais.

Somente os Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – têm mais de US$ 4 trilhões de reservas internacionais. Certos analistas acham que a China vai acumular mais US$ 600 bilhões somente no ano que vem.

Para se proteger contra capitais de fluxos voláteis ou como resultado de estratégia de crescimento baseada em exportações, o que normalmente inclui políticas cambiais, vários emergentes têm acumulado enormes volumes de reservas internacionais.

Robustas reservas em várias economias, incluindo o Brasil, têm sido consideradas essenciais para ajudar esses países a atravessar crises globais. A acumulação de reservas serve como um colchão contra choques externos.

Mas críticos notam também que isso vem com custos para os países e que a acumulação de reservas, se excessiva, pode trazer um ônus para o sistema monetário internacional, com má alocação de recursos.

O confronto continua dentro do G-20. Para vários emergentes, o máximo que o grupo deve propor é que o Fundo Monetário Internacional (FMI) continue a trabalhar no desenvolvimento de medida para avaliar o volume de reservas adequadas que abranja melhor as circunstâncias de cada país.

Diante da crescente volatilidade nos mercados financeiros e da maior aversão ao risco, os emergentes enfrentam pressões no seu balanço de pagamentos. Seja por meio da fuga de capital, do menor ganho com exportações, entre outros. Na visão de vários países, o uso de uma forma de medição que inclua várias fontes de riscos pode ser útil nesse contexto.

Na avaliação de países como o Brasil, a análise de reservas adequadas mais diretamente vinculadas a fundamentos (como políticas cambial e monetária) deveria encorajar o setor privado, incluindo agências de classificação de risco, a usar a mesma medida.

13/10/2011 - 08:46h Bolsas dos Brics formam aliança

A partir de 2012, investidores poderão aplicar nos principais índices de cada uma das bolsas de valores; acordo foi assinado ontem

13 de outubro de 2011

SABRINA VALLE / RIO – O Estado de S.Paulo

Presidentes das principais bolsas de valores de países emergentes do mundo, incluindo a BM&FBovespa, se reuniram ontem na África do Sul para anunciar uma aliança sem precedentes que ampliará o acesso a esses mercados e deve fomentar as economias locais. A começar no primeiro semestre de 2012, investidores poderão aplicar, em moeda local, em uma série de produtos dos chamados Brics – Brasil, Rússia, Índia, Hong Kong (como representante inicial da China) e também África do Sul.

“Estamos unindo as economias mais dinâmicas do mundo em desenvolvimento”, disse o presidente executivo da Bolsa de Hong Kong, Charles Li, citando um mercado de US$ 9 trilhões que reúne 9.481 empresas. “São países que cada vez mais direcionam o crescimento mundial e vêm ganhando importância econômica e política.”

Demanda. A união, anunciada ontem durante a reunião anual da Federação Mundial de Bolsas em Johannesburgo, veio da percepção de que há uma clara demanda dos investidores a produtos de países emergentes. As bolsas viram uma oportunidade para esses mercados, em crescimento, se expandirem globalmente num momento em que os seus rivais, em mercados desenvolvidos na Europa e nos Estados Unidos, enfrentam desafios.

“A pista está livre para crescermos”, disse o presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto. “É a internacionalização dessas bolsas. Os Brics viraram uma classe de ativos internacional.”

A iniciativa que democratiza o acesso a mercados emergentes reúne a BM&FBovespa, a Micex russa, a National Stock Exchange of India (NSE), da Índia, a Hong Kong Exchange como o representante Chinês inicial, e a Johannesburg Stock Exchange (JSE), da África do Sul. A NSE e a BSE Ltd. (ex-Bombay Stock Exchange) já assinaram cartas de apoio e vão aderir à aliança após a finalização de algumas pendências.

Essas sete bolsas movimentam US$ 422 bilhões por dia, reúnem 18% do volume de contratos de derivativos negociados em bolsas no mundo, e têm uma capitalização (soma dos valores de mercado de todas as empresas cotadas) de US$ 9 trilhões.

A aliança será implementada em três fases, com a primeira contemplando a listagem cruzada dos principais índices dessas bolsas e de derivativos de índices, com produtos de futuros e opções. Isso significa que o Índice Ibovespa será lançado como produto nas bolsas dos Brics, assim como os principais índices dessas bolsas serão listados no Brasil, negociados sempre na moeda local do investidor. Essa fase será implementada entre meados e o fim do primeiro semestre de 2012.

“O investidor brasileiro, o administrador de recursos, os fundos de pensão, as fundações, o institucional, passam a ter uma possibilidade estratégica para sua carteira de investimentos”, disse Edemir Pinto.

Também está sendo criado um índice único de países emergentes que combinará, de forma ponderada ainda em definição, todos esses outros índices já existentes. Também se estuda a criação de índices setoriais, como de empresas de mineração. A segunda fase não tem data programada.

“Coletivamente, como grandes produtores ou consumidores de commodities, miramos ganhar a influência em preço e em poder, globalmente, que merecemos”, disse Li.

Na terceira fase, será desenvolvida uma série de novos produtos, que poderão incluir futuros e ETFs (negociado como uma ação, mas que reúne vários papéis). “Será uma aliança duradoura e perene”, disse Pinto. “Essa aliança permite a construção de várias pontes, e uma delas é a possibilidade de dupla listagem. Pode acontecer, com algumas bolsas, e não no curto prazo.”

Investidor. No Brasil, o acesso ao pequeno investidor é defendido por Edemir Pinto, mas a decisão ficará a cargo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que ainda precisa aprovar as operações com o Banco Central (BC).

Segundo ele, a CVM também estará atenta para fechar possíveis brechas que possam surgir, possibilitando a investidores burlar a cobrança de taxas, como o IOF. O presidente da NSE, Ravi Narain, disse que os Brics se traduzem melhor em índices do que em ações individuais.

Ele lembra que é difícil para um investidor indiano aplicar em mercados internacionais, mas que a aliança torna muito mais conveniente o acesso a índices estrangeiros, já que a operação pode ser feita em moeda local, com fuso horário local e com os agentes de liquidação com os quais o investidor já tem uma relação.

28/06/2011 - 08:37h Entre Brics, Brasil lidera crescimento renda-PIB

Francine De Lorenzo | VALOR

De São Paulo

A evolução da renda per capita em comparação com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no Brasil é a melhor entre os Brics (grupo que ainda inclui Rússia, Índia, China e África do Sul), disse ontem o economista Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da FGV. Para ele, o país foi o único entre a elite dos emergentes a crescer reduzindo a desigualdade social.

Segundo os números apresentados durante o 1º Fórum BID para o Desenvolvimento da Base da Pirâmide na América Latina e Caribe, em São Paulo, os rendimentos medidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) tiveram um crescimento anual de cerca de 1,8 ponto porcentual acima do PIB entre 2003 e 2009, enquanto na China o avanço veio dois pontos abaixo da expansão da economia durante o intervalo. Segundo Neri, a renda real entre os brasileiros mais pobres cresceu 68% de 2001 a 2011, enquanto a dos ricos avançou 10% em igual período.

O estudo mostra que a taxa de crescimento da renda dos 20% mais ricos no Brasil é inferior à registrada nos demais Brics, ao mesmo tempo em que a taxa de crescimento da renda dos 20% mais pobres só é menor que a contabilizada pela China.

Desde 2003, o país ganhou quase 50 milhões de consumidores, o equivalente a uma Espanha. Somente nos 21 meses encerrados em maio passado, 13,3 milhões de brasileiros foram incorporados às classes A, B e C, somados aos 36 milhões que migraram entre 2003 e 2009. “Isso é reflexo do crescimento econômico com redução da desigualdade social durante muitos anos. O que está por trás é o aumento da educação e do trabalho formal, a redução da natalidade e o ciclo eleitoral”, explicou Neri. “Todo ano de eleição a renda média do brasileiro sobe muito.”

Simultaneamente, a base da pirâmide social vem diminuindo com rapidez. Apenas no último ano a redução foi de quase 12%. “O grande passaporte para a saída da pobreza é a educação”, disse o economista da FGV, lembrando que programas do governo federal como o Bolsa Família também contribuem para essas mudanças no cenário.

O levantamento mostra ainda que a probabilidade de se migrar da classe E (renda familiar até R$ 751,00) para níveis mais altos da pirâmide social é de 27% para quem tem até um ano de estudo, enquanto que para aqueles que permanecem na escola por 12 anos ou mais esse percentual chega a 53%.

Já a chance de permanecer nas classes ABC no período mais recente é 2,8 vezes maior que a apresentada no início da série da pesquisa. Nas capitais, a chance de permanência no alto da pirâmide é 25% maior que nas áreas periféricas do país, embora esse índice venha caindo.

O estudo apresentado pelo economista da FGV ainda destaca que a cidade considerada “mais rica” do Brasil é Niterói, no Rio de Janeiro, onde 30,7% da população faz parte da classe A. Na sequência aparecem no ranking da pesquisa as cidades de Florianópolis (27,7%), Vitória (26,9%), São Caetano (26,5%), Porto Alegre (25,3%), Brasília (24,3%) e Santos (24,1%). “A região Sul é a que apresenta a menor desigualdade social no Brasil”, afirmou Marcelo Neri.

08/11/2010 - 09:15h Brics e Europa se unem contra os EUA


Em recado a americanos, países preparam documento para exigir que sejam abandonadas medidas que prejudicam a economia mundial

Jamil Chade CORRESPONDENTE / BASILEIA – O Estado de S.Paulo

Os Brics e a Europa se unem para exigir que a declaração final da cúpula do G-20 nesta semana inclua um chamado político para que países abandonem a adoção de medidas que acabem colocando em risco as demais economias. O chamado que será proposto será um recado direto ao governo dos Estados Unidos, depois que o Fed anunciou a injeção de US$ 600 bilhões em sua economia.

A medida gerou críticas de emergentes e europeus. Neste fim de semana, porém, o presidente do Fed, Ben Bernanke, defendeu a decisão de injetar liquidez no mercado.

A partir de hoje, na Coreia do Sul, começa a fase final da negociação do texto da declaração final da cúpula. Ontem, ativistas coreanos tomaram as ruas e a polícia de Seul foi obrigada a usar força e até gás de pimenta para dispersar os manifestantes.

Fontes próximas à negociação confirmaram que o apelo para um reforço da mensagem contra atitudes como a dos Estados Unidos será um dos principais pontos de atuação das diplomacias da Europa, China, Rússia, Índia e Brasil. A ofensiva tem como meta a de tentar obrigar governos a coordenar suas políticas, além de forçar muitos a desenvolver estratégias de recuperação que considerem a situação dos demais países.

Negociadores mais irônicos chegam a afirmar que finalmente os Brics e a Europa começaram a se entender dentro do G-20, ainda que seja para atacar de forma unânime os Estados Unidos. “Isso está parecendo mais um G-19 contra 1 que o G-20 harmonioso e confiante que víamos há dois anos”, disse uma fonte próxima à negociação. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), uma ação coordenada do G-20 para salvar a economia mundial poderia gerar 52 milhões de empregos no médio prazo. Mas a constatação é de que a lua de mel no G-20 é coisa do passado.

De fato, a pressão sobre os americanos começou no fim de semana. Bancos centrais de todo o mundo pedem do Fed uma explicação sobre sua decisão. A medida, para muitos, ameaça fortalecer o risco de uma bolha de ativos nos mercados emergentes, já que a experiência nos últimos dois anos revelou que a injeção de liquidez na economia americana não está sendo absorvida e os recursos acabam aquecendo o fluxo de capital especulativo nos mercados emergentes.

Desde ontem, os xerifes das finanças internacionais estão reunidos na Basileia, num encontro que promete ser um ensaio para a tensão na cúpula do G-20, na quinta-feira, em Seul. “O que foi feito precisa ser explicado”, cobrou um alto funcionário do BC argentino. “Há muitos países irritados e o clima não é bom”, admitiu. Henrique Meirelles, presidente do BC, é o representante brasileiro na reunião.

Traição. Do lado europeu, banqueiros ressaltam não entender como é que os Estados Unidos tomaram tal rumo, poucas semanas depois de assinar uma declaração entre ministros de Finanças em que ficava claro que governos serão “vigilantes” em relação ao impacto de suas medidas nos demais parceiros. O comportamento americano chega a ser classificado de “traição”. Agora, Berlim e Paris insistem que precisam de garantias políticas de que tais práticas não vão se repetir. “A pressão será forte sobre os Estados Unidos no G-20″, admitiu um dos presidentes de BC de um país escandinavo.

Do ponto de vista americano, seus representantes também negam que tenham violado o espírito da declaração dos ministros. Washington não acredita que o impacto de suas medidas seja profundo no fluxo de capitais aos emergentes e insiste que é do interesse de todos ver a maior economia do mundo crescer.

“Não estamos tentando criar inflação. Nosso objetivo é o de dar estímulo adicional para ajudar a economia a se recuperar e evitar a desinflação potencial”, explicou Bernanke. “Acho que todos concordam que isso seria o pior resultado.” Ele alertou que a economia americana sofreu uma “desinflação significativa” desde o começo da crise.

Alguns BCs concordam com Bernanke. “Precisamos da economia americana forte e com sinais de recuperação”, admitiu Mohamed Al Jasser, governador do BC da Arábia Saudita. “Entendo que Brasil e outros mercados estejam preocupados. Mas temos de pensar qual outra medida os americanos têm hoje para relançar sua economia”, afirma.

Mas a tese não tranquilizou os emergentes nem a Europa. Há alguns dias, o governo alemão de Angela Merkel já havia alertado que a atitude do Fed “apenas criava problemas extras ao mundo”. Merkel deve ser uma das vozes mais duras contra os Estados Unidos.

Superávit. Alemanha, Brasil e China ainda vão voltar a rejeitar os planos americanos de criar um teto para superávits de países. A proposta do Fed era de que esse teto seria de 4% dos PIBs nacionais, num esforço para equilibrar as contas do planeta. Negociadores, porém, garantem que Brasil, os demais países do Bric e Europa bloquearão qualquer tentativa dos americanos de recolocar o tema na agenda.

Pequim, Berlim e Brasília defenderão a tese da redução dos déficits públicos como maneira de equilibrar as contas, algo que já havia sido fechado na cúpula do G-20, em Toronto.

27/04/2009 - 10:51h Traduzir as palavras em atos: aumentar o poder de voto do Brasil e dos Brics no FMI é adequar a instituição a nova realidade

”Influência do Brasil é maior que seu poder de voto”

 

http://ndn1.newsweek.com/media/69/dominique-strauss-kahn-YR32-wide-horizontal.jpg
Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI

Patrícia Campos Mello, WASHIGNTON – O Estado SP

 


O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, afirmou ontem que a influência do Brasil no Fundo já aumentou muito, independentemente da reforma da estrutura de votos na instituição. “Na última reforma de cotas, os votos do Brasil passaram de 1,4% para 1,8%, o que não muda muita coisa”, disse. “Mas o Brasil está se tornando um dos países mais importantes da economia mundial. A importância do que o Brasil diz na cena internacional e o papel desempenhado pelo presidente Lula são mais relevantes do que os votos que o País tem no Fundo”, afirmou ele em entrevista de encerramento da reunião.

Strauss-Kahn reforçou que a reforma nas cotas é importante, pois é necessário que o Fundo reflita a nova realidade econômica mundial. “Mas China, Brasil e Índia não estão esperando nova mudança nas cotas para serem ouvidos pelo conselho do Fundo e do Banco Mundial.”

O comitê de desenvolvimento determinou que uma nova mudança na estrutura de votos da instituição será concluída até janeiro de 2011. Em abril de 2008, foi concluída uma reforma nas cotas, o Brasil passou de 1,4% dos votos para 1,8%.

A mudança ainda não foi aplicada porque depende de aprovação legislativa de alguns países. Mas o Fundo precisa ser recapitalizado e os países emergentes argumentam que a mudança foi insignificante, então haverá uma segunda reforma nas cotas até janeiro de 2011.

A crise financeira foi classificada como “um desastre humano e de desenvolvimento” no comunicado divulgado ao fim da reunião do comitê de desenvolvimento do Fundo. Strauss Kahn, Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, e Agustín Carstens, presidente do comitê, exortaram os países a liberar rapidamente os recursos prometidos para o Fundo.

Os líderes do G-20 decidiram, em Londres, no dia 2, elevar de US$ 250 bilhões para US$ 750 bilhões o total disponível para empréstimos. Mas, até agora, poucos países deram dinheiro para o Fundo, entre eles o Japão, que liberou US$ 100 bilhões. O Congresso dos EUA está adiando a liberação de US$ 100 bilhões. O Brasil apresentou exigências para dar os recursos prometidos. “Exortamos a todos os doadores que acelerem a liberação dos recursos e aumentem o montante que se dispõem a dar para o Fundo”, disse o comunicado.

07/04/2009 - 10:05h “Fico muito impressionado com Lula e sua equipe”

”Quanto maior a crise, mais creio nos Brics”

Economista-chefe do Goldman Sachs, que criou o termo Brics, diz que emergentes podem ser potências até 2027

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Luciana Xavier e Daniela Milanese – O Estado SP

 


Se alguém acreditava que o sonho dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) estava ameaçado pela atual crise global, a resposta dada pelo criador do termo, Jim O’Neill, economista-chefe do Goldman Sachs, é “não”. “Quanto mais a crise avança, mais confiante fico em relação aos Brics”, disse O’Neill, por telefone, de Londres, em entrevista exclusiva ao AE Broadcast Ao Vivo. O termo Bric foi criado em 2001 para designar as principais economias emergentes do mundo, que poderiam ser potências até 2050. Esse prazo já havia sido encurtado por ele para 2035. Agora, O’Neill crê que a virada pode chegar em 2027.

Os Brics foram afetados pela crise. Mas o sr. escreveu um artigo para a revista ‘Newsweek’ dizendo que o sonho dos Brics não acabou e que, com a crise, a virada pode vir mais cedo. Como?

Há duas razões para isso. Se você olhar como a economia dos Brics tem se comportado na corrida até esta crise, com exceção do Brasil, todos cresceram mais forte nos últimos sete anos e meio do que havíamos previsto. Foi muito mais do que nossas conservadoras suposições. A segunda razão é que a crise diz respeito ao fim da alavancagem do consumo americano e da necessidade de alguém ocupar esse lugar no mundo. Quanto mais a crise avança, mais confiante fico de que alguém vai despontar dos Brics, em particular a China. É só pensar nas respostas que a China tem dado à crise.Entre outras coisas, a China fala em dar um grande passo em direção à reforma de seguro social. Se o fizer, isso levará à aceleração maior do consumo.

A China poderá ser tão poderosa quanto os Estados Unidos?

A China poderá ultrapassar os EUA por volta de 2027. Claro que não dá para pensar que isso vai ocorrer muito mais cedo, pois no fim do dia a economia americana ainda é mais de três vezes maior do que a da China. A China responde por cerca de 7% do PIB mundial enquanto os EUA, 25%. Mas a China já é maior do que a Alemanha e provavelmente nos próximos dois anos deve ser maior do que o Japão. E acho que ao longo da próxima década, dados os progressos na Índia e no Brasil, acho que ambos estarão em posição de desafiar as pequenas, mas importantes, economias da Europa que fazem parte do G-7 como Itália, França e até Alemanha e Reino Unido.

O sr. acredita que o Brasil terá recessão este ano?

Como o 4º trimestre (de 2008) foi muito ruim, o Brasil vai, tecnicamente, mostrar recessão com PIB em zero ou levemente negativo no 1º trimestre. Mas depois deve ter desempenho melhor. Não acho que terminará o ano em recessão.

O que o sr. achou da iniciativa do Brasil de emprestar dinheiro ao Fundo Monetário Internacional (FMI), como prometeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no encontro do G-20?

Por que não? Acho que é algo muito bom. Mostra o comprometimento do Brasil com as reformas do Fundo. O Brasil parece ávido em mostrar esforço. Acho que é um gesto muito importante e toda vez que vejo o Brasil envolvido em ações desse tipo, fico muito impressionado com Lula e sua equipe. É algo muito inteligente a se fazer.

No ano passado, o sr. disse que os Brics guiariam o mundo para o fim da crise. O sr. ainda crê nisso?

Acho que, pelo fato de a crise ser muito severa, precisamos de uma combinação das duas coisas. A China precisa continuar a ter desempenho melhor que os demais Brics. Mas precisamos que a severidade da crise nos EUA tenha um fim.

17/03/2009 - 10:37h Para seu criador, Bric pode ser ampliado

Leo Pinheiro/Valor

Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o responsável pela criação do termo Bric: o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA

Iván Rothkegel, The Wall Street Journal, de Nova York – VALOR

Nos últimos anos, Bric tornou-se uma das palavras da moda do mundo financeiro. A sigla para Brasil, Rússia, Índia e China passou a representar o ápice do reequilíbrio de forças econômicas da globalização. Nos próximos 50 anos, esses países iriam se tornar grandes potências mundiais e a economia global não seria dominada apenas por Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão.

A pior crise que o mundo presenciou desde a Grande Depressão, contudo, está batendo pesado nos Brics e o “Wall Street Journal Americas” considerou que seria o momento oportuno para revisitar o conceito. O Bric ainda é válido ou, assim como a previsão de que o barril de petróleo chegaria a US$ 250, é outro símbolo dos excessos do mundo dos investimentos antes do colapso do Lehman Brothers?

Para obter as respostas, conversamos com Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o homem que cunhou o termo. Sua resposta: o conceito é tão válido como nunca, embora possa ser expandido para incluir países como o México ou Indonésia ou excluir outros, como a Rússia. A seguir, trechos editados da entrevista, feita em 26 de fevereiro:

WSJ:Como o sr. chegou ao conceito?

O´Neill: Até 2001, eu era um dos diretores de pesquisa econômica da Goldman Sachs mundialmente. E minha maior especialidade era como economista-chefe de câmbio. No fim dos anos 90, passei a ficar mais interessado na China e na questão cambial chinesa. Então esse é o primeiro aspecto. Mas muito mais importante nesse contexto (foi que) por volta de 11 de setembro (de 2001) me tornei o único diretor de pesquisa econômica mundial para a Goldman Sachs. Então eu precisava buscar aquilo que seria a minha marca. O cara que dividia o posto comigo antes, Gavin Davis, era um pensador econômico excepcionalmente poderoso e estava no cargo antes de eu chegar. Ele liderou a análise cíclica do G7 nos anos 80 e isso é um dos motivos por que a Goldman se tornou tão bem conhecida. E então eu estava pensando: ‘Como posso fazer algo que tenha o mesmo impacto para nossa firma e nossos clientes?’ Isso era o que estava na minha cabeça. Tudo aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo, quando houve o 11 de setembro, e eu acho que a verdadeira lição do 11/9 para mim, além do horror, foi uma mensagem de que a globalização tinha de ser diferente. Se eu combinasse aquilo com meu fascínio já forte pela China, foi isso que me levou a sonhar com a expressão Bric.

WSJ: Por que Bric?

O´Neill: Escrevi um artigo em novembro de 2001 chamado ‘O mundo precisa de melhores Brics (soa como a palavra ‘tijolo’, em inglês) econômicos’. É porque três desses países, menos o Brasil, tinham algo fundamentalmente bem diferente começando a acontecer nos anos 90 e potencialmente no futuro. No caso da Rússia era o fim da União Soviética. No da China era a adoção da economia de mercado. No da Índia era o boom mundial de tecnologia. E então, com grandes populações nesses três lugares-chave, minha visão era que com a globalização esses três países iam ser participantes importantes. A grande coisa que coincidiu com isso foi o aparecimento de Lula na cena (internacionalmente). E se você lembrar em 2000, 2001 as pessoas achavam que depois da desvalorização na Argentina o Brasil ia ser um desastre sob Lula. A coisa que chamou minha atenção no Brasil, e foi completamente subestimada por todo mundo, foi a introdução das metas de inflação (em 1999). Quando vi isso, pensei ‘pera aí, não são apenas esses três países que serão muito diferentes, se o Brasil for tratar a meta de inflação de maneira séria, o Brasil será diferente’. E pensei, sabe, que o Brasil deveria estar lá também. É um país de 160 milhões de pessoas, talvez chegando a 200 milhões. O Brasil, se mantiver a inflação sob controle, vai ser uma das maiores economias do mundo.

WSJ: Por que Bric e não MRIC, com o México em vez do Brasil?

O´Neill: Em retrospecto, a coisa que realmente deu um grande impulso ao Bric foi, dois anos depois, quando fizemos nossa primeira análise de 2050 e mostramos que os quatro países juntos poderiam ser maiores que o G7 em 2036. Então, depois de dois anos em que (o Bric) se tornou algo enorme, e com muitas pessoas perguntando por que não México, por que não Turquia, escrevemos um grande estudo dizendo como os Brics são sólidos e analisamos por que os próximos 11 países em população não estavam lá. Dos 11, para ser honesto, um deles, o México, tem provavelmente justificativas para ser incluído. Por isso muitas vezes brinco com as pessoas que talvez eu devesse ter chamado BRICM, com um M de México.

WSJ: O conceito pode ser expandido?

O´Neill: Conceitualmente, acho que sim. Digo, por volta de 2005, quando escrevemos um estudo sobre como os Brics eram sólidos, sugeri que o que realmente constitui um Bric (…) é o seguinte: um país do mundo emergente que tenha o potencial de ter pelo menos 3% do PIB mundial. Isso significa que, se algum dos atuais quatro Brics não puder realizar seu potencial, talvez ele não devesse (estar lá). Mas também significa que o México tem definitivamente esse potencial e levanta a possibilidade de que países com grandes populações, como a Indonésia, também possam.

WSJ: O sr. acha que, ao longo do tempo, as pessoas começaram a usar o conceito de uma maneira diferente da que o sr. pretendia?

O´Neill: Às vezes. Em 2007 em particular eu estava preocupado que toda a coisa do Bric estava virando uma febre insustentável no mundo do investimento. Muitas pessoas estavam elaborando fundos Bric. Um banco criou um Brict com um T de Turquia no fim etc. etc. E as pessoas estavam colocando dinheiro em fundos Bric em 2007, embora a relação entre preço e estimativa de lucro por ação da China e da Índia fossem mais que o dobro da dos EUA. E isso era claramente, como dissemos na época, insensato.

WSJ: O sr. acha que os Brics, como estão, formam um conceito sustentável?

O´Neill: Decididamente. Muita gente tola colocou dinheiro em fundos Bric em 2007 e 2008 e perdeu dinheiro. As pessoas não deveriam se esquecer que, desde que introduzimos a sigla, o índice Bric MSCI ainda está em alta de algo como 120%, enquanto o S&P 500 está em baixa de uns 20%. Ou seja, são apenas as pessoas que compraram essas coisas quando elas estavam extremamente caras que perderam dinheiro. Nunca presumimos que nos próximos 30 anos, mais ou menos, esses países sustentariam taxas de crescimento próximas das que vinham crescendo, com a exceção do Brasil. Nossa premissa para o crescimento chinês é de 5,8%. Nos primeiros sete anos da sigla Bric, a China cresceu quase ao dobro do que presumimos. Por isso, a grande desaceleração da China não ameaça nem um pouco sua parte no sonho do Bric.

WSJ:E suponho que ao fim do período o sr. leva em conta um crescimento muito mais lento para a China.

O´Neill: Entre 2011 e 2050, ou seja, descartando esta década, temos o seguinte: 4,3% para o Brasil, 5,2% para a China, 6,3% para a Índia e 2,8% para a Rússia. A China vai crescer mais que isso este ano! Quando você olha para o pensamento da moda atual, as pessoas acham que o descasamento não aconteceu. Se você olha para o consumo interno, há evidências bem claras de que, embora tenha desacelerado um pouco, o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA, e o tem feito há três anos, para o crescimento global. Por isso, não acho que, até agora, esta crise tenha ameaçado nem um pouco o conceito do Bric. Deixe-me acrescentar um ponto controverso. Acho que o fato de os Brics serem sólidos vai ajudar a tirar os EUA desta bagunça porque vai permitir que as exportações americanas se recuperem e sejam uma parte importante do futuro da economia americana.

WSJ: O fenômeno Bric foi associado com um boom em commodities liderado pela China e pela Índia. Agora, quando a poeira assentar, o que vai acontecer com esse boom de commodities? Como os Brics vão lidar com isso?

O´Neill: De certa maneira, a Índia tem lidado com ela particularmente bem porque a alta dos preços das commodities não era boa para o país. Você está certo, especialmente no caso do Brasil, claro, que as pessoas associam o Bric com commodities. Rússia e Brasil são ambos grandes produtores de commodities e China e Índia são ambos grandes importadores de commodities. A grande alta dos preços de commodities, que se pode argumentar ter sido causada pela China crescendo 12% durante uns três anos, foi realmente boa para Rússia e Brasil, mas na verdade bastante ruim para a Índia, e eu diria que uma possível surpresa este ano, caso consigamos parar a deterioração da crise de crédito, é que a Índia pode se sair muito melhor mais cedo do que as pessoas pensam. O declínio nos preços das commodities é um grande fator positivo para a Índia.

WSJ: Mas é um grande fator negativo para Rússia e Brasil.

O´Neill: Argumentei durante três anos que não seria possível realmente dizer se Rússia e Brasil justificariam seu status de Bric até que passassem por um períodos de preços de commodities fracos.

WSJ: Então este é um teste maior para Brasil e Rússia do que para Índia e China?

O´Neill: Este não é nenhum teste para China e Índia. É decididamente um teste para Rússia e Brasil. E é um bom teste.

WSJ: Eles passarão?

O´Neill: Acho que a evidência no Brasil já é sim. A estrutura macroeconômica de melhores práticas que Lula adotou sete anos atrás está (…) demonstrando que o Brasil pode lidar com essa crise. O Brasil dos anos 70 aos 90 estaria tão ruim quanto a Rússia. Não estou certo de que a Rússia possa enfrentá-la e temo que não possa. Até agora, esta crise está demonstrando que a Rússia é dependente demais de commodities.

WSJ: Quando o sr. fala sobre o Brasil conseguindo enfrentar, o que quer dizer?

O´Neill: A moeda enfraqueceu, o mercado acionário enfraqueceu, mas diferentemente de crises brasileiras passadas eles não tiveram de aumentar as taxas de juros para conter a saída de capital, o que é um sinal muito poderoso.

WSJ: Já vimos a China tirar proveito de algumas oportunidades de compra para conseguir acesso a alguns recursos nacionais. O sr. acha que as empresas brasileiras podem ir ao ataque também?

O´Neill: Em minha experiência nos mercados financeiros, e esta é provavelmente a sexta crise que enfrento, o que define a longevidade e o sucesso das pessoas e empresas é como elas transformam uma crise numa oportunidade. É uma coisa muito difícil de fazer. Não dá para ignorar ou minimizar os problemas desta crise, mas ao mesmo tempo o melhor momento para expandir é perto do fim de uma crise.

WSJ: O sr. acha que estamos perto do fim da crise?

O´Neill: Desenvolvemos um indicador da crise em outubro, depois que o Lehman quebrou, que consiste numa série de diferentes variáveis do mercado monetário. Este indicador está agora (26 de fevereiro) de volta ao nível de quando o Bear Stearns quebrou. Isso me sugere que, embora estejamos obviamente numa recessão mundial muito severa, a crise financeira está mais perto do fim que do começo.

WSJ:No Brasil, por exemplo, há números contraditórios. Algumas pessoas estão assustadas com os números da produção industrial, mas houve listas de espera para a compra de alguns carros depois que o governo ofereceu alguns incentivos.

O´Neill: A psicologia dos mercados financeiros será sempre a mesma. De algumas maneiras a comunidade de investimento financeiro é realmente estúpida. As pessoas estão sempre assustadas quando não deviam e estão sempre empolgadas quando deviam estar assustadas. Por que as pessoas estavam comprando fundos de ações do Bric no começo de 2008, quando a valoração das empresas chinesas era o dobro das americanas? Em segundo lugar, a produção industrial estava realmente fraca no Brasil? É a mesma coisa em qualquer país do mundo. Mas todos esses dados não deveriam surpreender as pessoas, porque refletem o fato de que o sistema financeiro mundial parou em outubro. Por isso o que você tem de olhar realmente é para o consumidor. Se as pessoas estão começando a gastar um pouco mais em lugares como o Brasil, e ouvi a mesma coisa na China, isso é realmente importante.

WSJ: Mas as coisas ainda parecem bem feias. A produção está caindo em todas as partes, os EUA não fecharam ainda um plano coerente para lidar com os bancos…

O´Neill: Não digo que a crise econômica tenha acabado, o que estou dizendo é que a intensidade da crise financeira está mais próxima do fim.

WSJ: E o mercado financeiro antecipa a economia real.

O´Neill: Sim. Isso sugere para mim que em seis meses os números de produção industrial serão melhores. Não no mês que vem, em seis meses. A chave para isso tudo é a China. Se a China for melhor no segundo semestre deste ano, o que eu fortemente acho que acontecerá, então todo o caso do Bric vai voltar a ficar muito popular bem rapidamente.

16/03/2009 - 17:11h Porque Obama deveria apostar no Brasil

 http://www.huffingtonpost.com/contributors/robert-amsterdam/headshot.jpg

Robert Amsterdam
The Huffington Post

Why Obama Should Bet on Brazil

Despite the well worn campaign slogan, so far Washington’s new foreign policy under President Barack Obama and Secretary of State Hillary Clinton seems to embody a blend of both continuity and change, depending on the situation. By and large we have seen a reactionary series of policies, as the new president has been thrust into a game with the cards already dealt. However, with the visit to Washington on Saturday March 14 of Brazilian President Luiz Inácio Lula da Silva — the first Latin American head of state to be received by Obama at the White House — a fresh hand is being dealt, giving the president a chance to define his administration and mark a clear departure from the policies of the past.

For years Latin America has been waiting for its day in the sun as a privileged partner of the United States; to be treated fairly, with respect, and joined in action toward the fulfillment of mutual goals for the Western Hemisphere. With the visit of Brazil, now graduated to the status of a true regional and global power, the administration should seek to support and enhance its role of responsibility, proving to the skeptics that we don’t need or want a unipolar hemisphere, but rather a multi-lateral and institutional framework for stable and prosperous relations.

There are many compelling reasons for Obama to seek a close relationship with Brazil and establish a new partnership, one that would bring immediate benefits to both parties (while carrying very low risk and political costs). Despite being diplomatically stretched thin by Mideast conflicts, Brazil is a sure bet that Obama should not pass up.

The first reward of a new partnership with Brazil would be felt in terms of regional security. This South American nation of 196 million citizens is enjoying the benefits of four consecutive successful democratic governments, making it one of the top BRIC economies with a decade of growth and strong forecasts for the future, despite suffering the current woes of the crisis along with everyone else. The economic growth has been matched by proactive diplomacy, as Brazil has grown into a much stronger regional leadership role over the past 10 years.

In terms of military and defense matters, they are an essential player, having just overseen the historic first meeting of the NATO-like South American Defense Council of UNASUR (Union of South American Nations). When incidents arise between Latin American countries, such as the recent Colombia-Ecuador conflict, it is Brasilia, not Washington or the OAS, that is called in first as the trusted mediator.

The second imperative for Obama to give the Brazilians a red carpet welcome is economic. Amid the uncertain breakdown of global financial institutions, where governments find themselves learning how to be bankers, Brazil is ironically ahead of the curve. As noted by a recent article in the Economist, analysts such as Goldman Sachs have praised Brazil’s state involvement in the banking sector, which combined with lower public sector debt and responsible fiscal policy has prepared the country for a better survival than most. Mohamed El-Erian, chief executive at Pimco, has even been quoted by Reuters as saying that China and Brazil offer better stock investments for the future than the United States: “The case for optimism comes from the fact that these countries entered today’s global crisis with better initial conditions.”

In terms of trade, the partnership is a natural fit with room to grow. The United States imports the most from Brazil and exports the most (about 15.7% and 16.1% respectively for 2007). Furthermore, if the Obama administration has any hopes of beating back a worldwide return to protectionism, Brazil’s cooperation is essential. According to a new report from the Inter-American Dialogue, Brazil is now one of the most influential participants in the Doha talks and shares many U.S. objectives: “By eliminating critical stumbling blocks that have frustrated regional negotiations, a breakthrough in Doha on agriculture could facilitate U.S.-Brazilian bilateral trade discussions and perhaps set the stage for reviving hemispheric trade talks.”

Energy and climate cooperation could also revolutionize the U.S.-Brazil relationship, however I am not confident that the Obama administration has the political will at this juncture to recognize that Brazil is the solution to energy independence — at the cost of cutting tariffs and U.S. farm subsidies for ethanol. It is notable that Brazil is in the position of lecturing the United States on protectionism, and it would be a helpful first step for Obama to show that he is listening.

Nevertheless, if the security, economic, and trade benefits of this relationship were not motivation enough, there is also the fact that Lula is ideally positioned to help Obama handle the most challenging and dangerous threat to the hemisphere: President Hugo Chavez of Venezuela. After more than a decade in power and several constitutional revisions to consolidate power and weaken democratic and legal institutions, developments in Venezuela are rapidly worsening. Private property seizures are accelerating (not just oil, but food companies), crackdowns against the opposition and media are intensifying, the state increasingly tolerates violent attacks against the student movements and the Jewish community, and President Chavez is holding a growing number of political prisoners beyond the reach of law (disclosure: I represent one such political prisoner, Eligio Cedeño).

We need to understand that Chavez is neither a dictator nor a model democrat, and any effort to improve the situation cannot be carried out alone. As Chavez has already empowered Lula to serve as an interlocutor to Washington, Brazil has the opportunity to become the most effective and pragmatic voice to speak to the Chavez government, helping to reign in the more destructive trends, if not subtly assisting the U.S. effort to isolate the world’s foremost petrocrat (though friendly with Chavez, the Brazilians aren’t thrilled about $6 billion in Russian arms coming into the region). Dealing with the regional problems presented by Venezuela is not about punishing Chavez or causing collateral damage to its citizens, but rather seeking engagement with Bolivia, opening the door to the new government in Cuba, and encouraging economic initiatives from Central America to the Andes. If Washington is able to run from the same playbook as Brasilia, Chavez will have a much more difficult time dismissing these efforts to promote stability and democracy as a malicious neoliberal agenda.

Lastly, there is an important synergy to the social context and visionary ambition of these two presidents. When Lula first became president in 2003, there were wild accusations and pessimistic predictions of the damage his “socialist” leanings would bring to the economy, a tone of criticism that is mimicked in the United States today.

For what it is worth, like Obama, Lula has risen to the country’s highest office from very humble origins, riding a narrative of hope, possibility, and the sudden sense of enfranchisement of politically excluded groups. Overcoming the odds to reach the presidency, both Lula and Obama have sought to conquer fears of radicalism with measured pragmatism. Lula has successfully surrounded himself with capable advisors able to maintain good relations with countries as different as Venezuela and the United States, such as Minister of Strategic Affairs, Roberto Mangabeira Unger, who upon observing Chavez’s attempt to use Moscow as a lever against the United States, told the New York Times “Unlike other South American countries we don’t go around buying things, and we are not interested in some kind of balance-of-power politics to contain the United States.”

So far the Brazilian strategic approach has been successful and constructive, and one that the United States should want to see replicated across the region. Among the young democracies of Latin America and beyond, two alternatives are currently on offer — the traditional, lackluster offer from the United States, and the alternative coalition led by authoritarian petroleum exporters (Russia, Venezuela, Iran, and others), united mainly by anti-Americanism, and vaguely pursuing some form of non-institutional multilateralism. It should be no surprise that the latter is winning over many converts, especially in light of the fact that Venezuela is pouring three times the amount of aid into the region than the United States, whose paltry contributions to humanitarian projects outside of the war on drugs is negligible.

The time is now for Obama to launch a new partnership with Latin America’s biggest and best democracy, and for once in history make the region a top priority for U.S. foreign policy. Unlike dealing with Moscow over Iran or meting out carrots and sticks in the Mid-East, with Brazil efforts are much more likely to be met with a serious and genuine response to achieve progress. It is certainly a bet worth taking.

13/03/2009 - 11:21h O Brasil que incomoda

Ruy Baron / Valor
O presidente Lula, que se encontra com Barack Obama neste fim de semana em Washington, reflete a imagem de um país que já não é confundido com republiquetas

Por Marta Barcellos, para o Valor, do Rio

É pouco provável que Barack Obama cometa gafes ao referir-se ao Brasil no encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Washington, neste sábado. Os tempos em que um presidente americano podia confundir o país com a Bolívia, como fez Ronald Regan em 1982, parecem fazer parte de um passado distante, especialmente quando um líder de reconhecido porte intelectual chega à Casa Branca. No entanto, pode-se afirmar que o mérito de distinguir o Brasil, agora, não é apenas de Obama. Ao ganhar relevância econômica e política, nos últimos anos, o país deixou para trás a difusa imagem de mais uma “república das bananas” para ganhar contornos nítidos no noticiário internacional. Nas últimas semanas, por exemplo, os correspondentes estrangeiros não tiveram muito tempo para reportagens pitorescas sobre verão ou carnaval: precisavam também analisar o impacto da crise financeira internacional no país e explicar a estratégia adotada pelo governo para enfrentá-la.

Mas a ideia de que bastaria nos livrarmos dos olhares preconceituosos, folclóricos ou desinformados para cairmos nas graças da opinião pública internacional revelou-se uma falácia. Estar em evidência pode significar também contrariar interesses e dar munição para que apontem, com embasamento, nossas mazelas. É o que mostra uma pesquisa do instituto GlobeScan, de Londres, realizada em 21 países. Mesmo bem cotado em relação aos demais, o Brasil viu aumentar a percepção negativa sobre sua influência no mundo justamente em quatro países ricos: Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e França.

Segundo o levantamento, a visão predominantemente negativa dos americanos em relação ao Brasil aumentou de 19% para 23% no último ano. No caso da França, essa percepção subiu de 23% para 33% dos entrevistados, e no Reino Unido, de 31% para 35%. O resultado negativo mais surpreendente veio da Alemanha, onde 40% das pessoas disseram que o Brasil exerce má influência no mundo, proporção que estava em 28% na pesquisa anterior. Na perspectiva alemã, ao contrário dos outros três países, a visão negativa passou a superar a positiva, de apenas 30%. O quadro é bem diferente, por exemplo, do radiografado nos Estados Unidos, onde, embora maior, a visão negativa do Brasil corresponde à metade das opiniões favoráveis, de 47%.

O Brasil segue o padrão verificado na avaliação da China, Rússia e Índia, seus companheiros no grupo de principais economias emergentes (o chamado Bric) – com o detalhe de que os dois primeiros foram destacados na pesquisa divulgada globalmente pelo instituto, pois a visão negativa sobre ambos passou de uma média de 33% para 40%, e de 34% para 42%, respectivamente. Na avaliação feita pelos alemães, China, Rússia e Índia registraram pioras na imagem mais expressivas do que no caso brasileiro.

Para Sam Mountford, diretor de pesquisas da GlobeScan, os efeitos da crise econômica na pesquisa são difíceis de mensurar, já que a maior parte das entrevistas aconteceu no final do ano passado, quando a dimensão real da turbulência ainda não fora percebida pelo público. Mesmo assim, ele acredita que a avaliação mais negativa recebida pelo Brasil nos Estados Unidos, Alemanha, França e Reino Unido deve estar relacionada ao desenvolvimento econômico do país. “O Brasil é cada vez mais notícia”, diz Mountford. “Há muita discussão sobre o crescimento do Brasil, China, Rússia e Índia na mídia desses países e é bastante provável que essas pessoas estejam começando a se sentir ameaçadas – do ponto de vista econômico, não político”, ressalta.

“Existe um preço para a maior exposição internacional”, concorda o cientista político Amaury de Souza, consultor da MCM Associados. “Na América do Sul, por exemplo, já somos vistos como os novos yankees.”

O publicitário Nizan Guanaes, presidente do Grupo ABC, acredita que a imagem do Brasil não poderia estar melhor no exterior, por consequência das conquistas econômicas e institucionais dos últimos anos, e atribui qualquer variação nessa percepção ao incômodo causado pela competição internacional. “Talvez fosse mais fácil gostar do Brasil do mulato faceiro do que do gigante”, diz. “Não dá para querer ser sempre o queridinho, ainda mais quando se está travando embates de mercado, em um mundo cada vez mais protecionista.”

A maior visibilidade do país aconteceu principalmente em função de a sigla Bric ter caído no gosto popular, lembra Amaury de Souza. Ao surfar na promissora onda das nações que seriam os “tijolos” (”bricks”, em inglês) a sustentar o crescimento global, o Brasil conseguiu projeção e distinção, mas também passou a ser visto como parte de um bloco. É justamente a imagem desse conjunto de países que pode estar em questão, diz Matias Spektor, doutor em relações internacionais pela Universidade de Oxford e coordenador do MBA de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo ele, os países do Bric tendem a perder espaço com a crise econômica, enquanto os Estados Unidos veem aumentar sua própria importância – o que estaria implícito na pesquisa da GlobeScan. Na média, a visão negativa sobre os Estados Unidos caiu de 47% para 43%, enquanto a positiva aumentou de 35% para 40%, refletindo também a eleição de Barack Obama. “A opinião pública espera que a solução da crise venha por meio da liderança americana, e não que passe pelo Bric, cuja imagem agora está mais próxima da de tijolos desmoronando”, compara Spektor. Ele destaca que a situação da economia internacional hoje é mais hostil, e o clima de tormenta aumenta a tensão entre os países.

Mas a imagem do Brasil vai além de sua identificação como integrante do Bric, o que é evidenciado pela sexta posição ocupada na média de avaliações feitas sobre 15 países, atrás apenas de Alemanha, Canadá, Grã-Bretanha, Japão e França. Essa é a boa notícia do levantamento, diz o professor da FGV. Spektor observa que, nesse ranking geral, o Brasil está acompanhado justamente por países que também pleiteiam uma cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas: Alemanha, Japão, Índia e África do Sul. A pretensão brasileira, ressalta, não pode ser vista apenas como uma forma de aumentar o status ou a visibilidade do país. “Ganhar influência e poder nas relações internacionais sempre vem junto com um custo.”

Um exemplo de responsabilidade que aparece com a conquista de status internacional é a questão ambiental, apontada como uma das fragilidades da imagem brasileira por uma pesquisa qualitativa paralela ao estudo, na qual os entrevistados explicaram sua opinião sobre o país. Nessa pequena amostra, conta Mountford, foi detectada uma forte preocupação com as perdas da floresta amazônica e a percepção de que o governo brasileiro, apesar do desenvolvimento econômico, não combate o problema como deveria. Nesse grupo de pessoas, entrevistadas pela BBC, também foram mencionados problemas como a corrupção e a desigualdade na distribuição da riqueza no país. A democracia e o desenvolvimento econômico foram os destaques positivos.

Os comentários mostram um conhecimento da realidade brasileira impensável algumas décadas atrás, quando os correspondentes estrangeiros tentavam explicar planos econômicos estapafúrdios, nas reportagens, enquanto seus leitores imaginavam índios andando pelas ruas das cidades. “Isso mudou radicalmente”, diz Mery Galanternick, que começou a trabalhar na sucursal brasileira do “New York Times” na década de 1960. “O Brasil agora chama a atenção pelo que está fazendo de relevante. Passou a ser considerado um ‘player’ global.”

Jens Glüsing, correspondente da “Der Spiegel”, acredita que a redução do Brasil a um país de mulheres bonitas e futebol ocorre na mesma proporção em que muitos brasileiros veem os alemães apenas como bebedores de cerveja. “As pessoas com mais formação são bem informadas sobre o Brasil, conhecem detalhes da economia e da política. A imagem do presidente Lula, entre os formadores de opinião, é melhor lá fora do que aqui, até porque há uma comparação com o [presidente da Venezuela] Hugo Chaves.”

O calcanhar de Aquiles brasileiro, que poderia explicar a virada na visão alemã do país na pesquisa GlobeScan, é a política ambiental. “Nesse aspecto, e acredito que somente nele, a imagem do país deve estar realmente piorando na Alemanha”, diz Glüsing. O jornalista foi a Brasília no ano passado para cobrir a visita da primeira-ministra Angela Merkel, e recorda-se da “saia justa” que representou a coincidência entre a chegada da governante alemã e a renúncia da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Para o cientista político Amaury de Souza, a sensibilidade ao tema ambiental extrapola os limites da Alemanha, berço do primeiro partido verde do planeta. “Não nos damos conta da reação que as notícias negativas sobre ambiente geram no exterior”, afirma Souza. “O que para nós é tolerável, para eles é execrável.”

Preocupado com a imagem externa, o governo brasileiro contratou no fim do ano passado a Companhia da Notícia (CDN) para trabalhar de forma integrada à Secretaria de Comunicação Social (Secom) em ações voltadas principalmente aos Estados Unidos, Europa e Ásia. “Faremos um trabalho de divulgação dos esforços do governo para combater o desmatamento”, diz Rodrigo Baena, diretor internacional da Secom. Em um primeiro momento, o trabalho na área ambiental será direcionado para o monitoramento do que é publicado pela imprensa internacional, explica Andrew Greenlees, vice-presidente da CDN. “Percebemos que existem muitos equívocos em relação a dados, que são divulgados ou interpretados de forma incorreta.”

Na licitação para a contratação da agência, em abril do ano passado, o governo demonstrou preocupação com duas áreas, que deveriam ser alvo de propostas detalhadas por parte das candidatas: etanol e tecnologia da informação (TI). Vencedora da concorrência, a CDN constatou em seus estudos um alto grau de conhecimento do etanol brasileiro, ao contrário do setor de TI. A crise internacional, porém, acabou por mudar o foco e a agenda econômica do país, tornando o assunto menos relevante. “Estamos discutindo agora quais temas serão prioridade”, diz Greenlees. “Mas já percebemos algumas oportunidades de divulgação, como na área de energia, na qual há muito interesse e veículos especializados.”

O alcance de ações de divulgação, no entanto, tornou-se motivo de controvérsia desde que o governo anunciou o gasto anual de R$ 15 milhões no projeto. “O Brasil não vai conseguir controlar o que é publicado sobre a Amazônia, onde estão muitos pesquisadores estrangeiros”, diz Glüsing, da “Der Spiegel”, lembrando do impacto das reportagens sobre a região feitas pela “Nature”, uma das revistas científicas mais conceituadas do mundo. “Mais importante do que melhorar a imagem, é melhorar a realidade”, diz ele. Nesse sentido, a próxima reunião das Nações Unidas sobre mudança climática, marcada para o fim do ano em Copenhagen, poderia ser uma oportunidade efetiva para o Brasil, diz Matias Spektor. “Mas somente se houver uma mudança de atitude”, ressalta. “Para ser um ‘player’ importante, é preciso assumir um custo, fazer coisas que não são necessárias quando se é um jogador secundário.”

No caso do ambiente, o Brasil não tem como fugir do papel de líder, acredita o professor Celso Lafer, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e ministro das Relações Exteriores durante o governo Fernando Henrique Cardoso. A floresta, a matriz energética limpa, a biodiversidade e o etanol tornam as decisões do país fundamentais para o resto do planeta, independentemente do desejo de assumir essa liderança. “É um caso em que se mistura o ’soft power’ e o ‘hard power’ “, afirma, referindo-se aos conceitos celebrizados pelo cientista político americano Joseph Nye, e que também servem para classificar as formas de inserção internacional de um país.

Quando ministro, Lafer teve uma conversa com o jornalista americano Larry Rohter transcrita no livro “Deu no New York Times”, no qual o correspondente conta histórias de sua experiência no Brasil. Nela, ambos concordavam com vocação do Brasil para exercer atração e influência por meio do “soft power”, mais relacionado à cultura, ao esporte e aos valores. O outro caminho, o “hard power”, seria o do poder militar ou econômico – impensável naqueles anos, em que a estabilidade da moeda ainda não se traduzira em crescimento. Para Lafer, as duas formas de poder são cada vez mais complementares. “A eleição de Obama representou a recapitalização do ’soft power’ para os Estados Unidos”, exemplifica.

Da mesma forma, governantes que deveriam discutir questões bilaterais de impacto acabam pautados por casos que mobilizam a opinião pública de seus países, como o da brasileira Paula Oliveira, que afirmou ter sido agredida por neonazistas na Suíça, ou do menino Sean Goldman, cuja guarda é disputada pelo pai americano e avós brasileiros.

Casos assim são importantes na construção da imagem de um país? Para Matias Spektor, assuntos dessa natureza são passageiros, e não dominam de fato as agendas dos países. Já Lafer acha que essas questões são relevantes, e os governos não têm como fugir delas. “É a velha história: todo presidente quer pautar a imprensa, e toda imprensa quer pautar o presidente.”

07/03/2009 - 11:04h Indústria cai em todo o mundo

EUA, Japão, Argentina, Chile e Coreia tiveram retração

Patrícia Lara – O Estado SP

Os resultados da produção industrial em janeiro no Brasil foram decepcionantes. Ainda assim, com seus 2,3% de crescimento, o Brasil é um dos poucos países que conseguiram sair do campo negativo após a paralisia produtiva que se espalhou pelo mundo no fim de 2008.

Entre os países que já divulgaram dados de janeiro, apenas a Coreia do Sul conseguiu apresentar um número positivo. A produção industrial sul-coreana cresceu 1,3% em janeiro em relação a dezembro de 2008 e despencou 25,6% no primeiro mês de janeiro, ante igual mês de 2008. Em dezembro, a produção na Coreia havia recuado 9,6% em relação a novembro.

Entre os países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), apenas a Rússia já divulgou dados de janeiro. Com a economia altamente ligada às exportações de petróleo, a produção industrial despencou 19,9%, em janeiro contra dezembro, e 16% ante igual mês de 2008. Em dezembro, a produção russa, no entanto, havia subido 3,8% no comparativo mensal.

Na região, a Polônia mostrou que a sua produção encolheu no primeiro mês do ano 5,8%, ante dezembro, e 14,9%, no comparativo anual.

A Argentina registrou um tombo no seu ritmo produtivo em janeiro. Houve queda de 6,1% em relação a dezembro, em bases sazonalmente ajustadas. No resultado anual, a contração foi de 4,6%, após ajustes sazonais.

No Chile, a queda da produção se acelerou para 8,9% em janeiro, na comparação anual, após recuar 3,7% em dezembro.

ÁSIA

Com economia fortemente orientada pelo desempenho de suas exportações, o quadro produtivo de Taiwan mostrou deterioração acentuada. Houve queda recorde da atividade fabril de 43,11% em janeiro ante o mesmo mês de 2008, de acordo com dados ainda preliminares. O desempenho vem na sequência de um declínio de 32,04%.

Ainda na região asiática, mas inserido no grupo dos chamados desenvolvidos, o Japão viu sua produção cair 10,0% em janeiro, ante dezembro, mês que já havia mostrado queda de 9,8%. Nos EUA, a produção industrial cedeu 1,8% em janeiro, no mês, após queda de 2,4% em dezembro.

06/03/2009 - 12:26h Descasamento, desligamento: abrindo a caixa preta da vida econômica

 

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*Ricardo Abramovay – VALOR

Não há desafio atual mais importante que o de transformar as bases materiais e energéticas em que se exprime o extraordinário aumento de renda do mundo contemporâneo. Para enfrentá-lo, são necessárias três rupturas fundamentais. A primeira é de natureza teórica: a ciência econômica faz abstração do conteúdo material e energético da reprodução social e se dedica apenas à maneira como a fartura e a escassez se traduzem nos preços. A segunda ruptura é contábil: não se trata mais de medir a riqueza social somente por aquilo que se compra e vende, e sim com base na ideia da ecologia industrial de que as economias modernas são organismos vivos, cujo metabolismo precisa ser permanentemente avaliado. A terceira ruptura é política e embute a ousadia de que o crescimento econômico talvez não seja o objetivo mais relevante para o bem-estar, ao menos naquelas sociedades que já atingiram alto grau de abundância material.

É notável o avanço de vários países da OCDE na formulação deste problema. Os termos decisivos são descasamento ou desligamento (decoupling, delinking): eles sinalizam para a quebra do vínculo entre crescimento econômico e uso dos recursos. Isso supõe o estabelecimento de uma contabilidade dos fluxos de insumos e detritos que se encontram não somente nos processos produtivos, mas também no consumo. Além da famosa (e muito criticada) pegada ecológica, existe hoje um conjunto amplo de indicadores e de institutos de pesquisa voltados a conhecer de perto as bases materiais e energéticas em que repousam o funcionamento da sociedade. Por incrível que possa parecer, este é um objetivo que não faz parte da ciência econômica, ao menos da maneira como é convencionalmente ensinada.

Há diversas técnicas para medir o avanço deste salutar descasamento entre a riqueza e seu fundamento biofísico. A “contabilidade nacional agregada de fluxos materiais” já é hoje amplamente utilizada na União Europeia. A Alemanha, o Japão e a Suíça elaboram relatórios governamentais públicos a este respeito, estimando o material necessário à produção de bens e serviços. O Japão tem como objetivo nacional chegar a uma “sound material-cycle society”, uma sociedade baseada num ciclo de vida saudável de sua base material. Seus relatórios ambientais partem da constatação de que “o crescimento econômico rápido associa a geração de vasto montante de lixo à crescente escassez de recursos”. O país gera 470 milhões de toneladas de lixo anualmente e seus aterros estão com os dias contados: 7,7 anos ao longo de todo o arquipélago e 3,4 anos na região metropolitana de Tóquio.

Uma das medidas básicas da contabilidade de fluxos materiais (Material Flow Account) é o peso físico daquilo que forma o processo produtivo. É claro que o impacto de um quilo de areia é bem diferente do estrago que um quilo de mercúrio pode provocar. Ainda assim, o livro, cujo título parodia a obra de Adam Smith (The Weight of Nations – Material Outflows From Industrial Economies, organizado por Emily Matthews e publicado pelo World Resources Institute), é uma referência incontornável.

Metade a três quartos dos insumos industriais da Alemanha, da Holanda, do Japão e dos Estados Unidos volta ao meio ambiente como lixo, após utilização. O requerimento material total (Total Material Requirement) necessário ao aparato produtivo (e que inclui tanto importações quanto “fluxos ocultos”, como erosão agrícola ou perda de solo na construção civil) varia de 45 toneladas per capita no Japão a mais de 80 toneladas per capita nos Estados Unidos.

É bem verdade que a eficiência aumenta ao longo do tempo nos países estudados. Cada unidade de PIB vai sendo produzida com quantidade menor de matéria e energia. Estes ganhos, no entanto, são largamente contrabalançados pelo crescimento econômico e pelos padrões de consumo destes países. O descasamento é apenas relativo à quantidade de materiais e energia por unidade de PIB. No entanto, em termos absolutos, a quantidade de lixo por habitante e a de materiais e energia utilizados no processo produtivo continua aumentando. A conclusão do livro organizado por Matthews é inequívoca: “a mudança econômica estrutural [em direção a uma economia de serviços] e os ganhos de eficiência tecnológica, sozinhos, têm poucas chances de trazer real redução no uso de recursos e na produção de rejeitos”.

A elevação do contingente populacional que, sobretudo na Ásia e na América Latina, passa a dispor de renda para partilhar ao menos de parte do padrão de consumo característico dos países centrais, só vem agravar este problema. Relatório recente da Goldman Sachs (The Expanding Middle: The Exploding World Middle Class and Falling Global Inequality) prevê a entrada de quase 1,5 bilhão de pessoas no que se pode chamar de “classe média mundial” até 2030, algo como 70 milhões de pessoas (com renda) por ano.

As conquistas recentes na luta contra a pobreza (e, até, embora em menor proporção, contra a desigualdade) são notáveis e marcam a vida de muitos países, além dos BRIC. No entanto, estes indicadores materiais sobre a relação entre sociedade e natureza mostram que poder corretivo espontâneo do crescimento e do progresso técnico não será capaz, por si só, de evitar o rochedo que se avizinha e as pressões sobre os recursos existentes que esta nova afluência vem reforçar.

A liderança mundial dos próximos anos não estará nas mãos dos países que vão crescer, vencer a pobreza e reduzir a desigualdade, e sim daqueles que conseguirem fazê-lo modificando o conteúdo material e energético da vida econômica. O que supõe não o mimetismo de acreditar que petróleo, biocombustíveis para motores a combustão interna e grandes obras para exportação formam o caminho do futuro, e sim a transição para sistemas produtivos que preservem o patrimônio natural, se apoiem no consumo cada vez menor de matéria e energia e valorizem a biodiversidade.

Ricardo Abramovay , professor titular do Departamento de Economia da FEA/USP, é coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa) e pesquisador do CNPq. www.econ.fea.usp.br/abramovay/

07/02/2009 - 10:32h Brasil é o único que não sofrerá “forte desaceleração” nos próximos 6 meses, prevé OCDE

OCDE prevê piora na economia brasileira

Andrei Netto – O Estado SP

Seis meses depois da explosão da crise do sistema financeiro internacional, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) diagnosticou a “desaceleração” da economia brasileira. A análise, revelada ontem, em Paris, foi feita a partir dos Indicadores Compostos Avançados e revela que as perspectivas econômicas dos países desenvolvidos e emergentes para os próximos seis meses são as piores verificadas desde os anos 1970. Mesmo assim, o Brasil ainda enfrenta uma situação menos grave se comparada a de 34 grandes mercados.

Os Indicadores Compostos Avançados servem para indicar a tendência de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no horizonte de um semestre. De acordo com o levantamento, o Brasil é o único não classificado com avaliação “forte desaceleração” dentre os 35 analisados. Pelo método utilizado, quedas abaixo de 100 pontos são interpretadas como declínio da atividade econômica em um futuro próximo – de quatro a oito meses. Além de ter o melhor indicador (total de 98,8 pontos), o Brasil é país é o que menos perdeu desempenho em 12 meses (-5,4 pontos).

“Está claro que os efeitos da crise financeira global se mostraram com algum atraso no Brasil”, explicou ao Estado, Gyorgy Gyomai, economista da OCDE e autor do relatório. Segundo ele, os indicadores de comércio assinalavam um panorama favorável para o Brasil mesmo quando outros países davam sinais de declínio da atividade. “Os mais recentes eventos, como a evolução das exportações, mostram que a economia brasileira reagiu com atraso e que a crise também afetará o país”, estima. “Não está claro se o declínio da atividade será menos dramático no Brasil ou se ele seguirá com retardo a desaceleração das economias OCDE.”

As estatísticas, relativas a dezembro, também apontaram a perspectiva de aprofundamento da recessão em países industrializados e emergentes. Na zona OCDE, a desaceleração foi de 8,2 pontos em 12 meses, chegando a 92,9 pontos. Na zona euro, a queda foi de 8,2 pontos em relação a 2007, com 93,8 pontos. Nos Estados Unidos, o recuo foi de 9,5 em um ano, com total de 91,3 pontos.

Todas as grandes sete maiores economias – Estados Unidos, Japão, China, Alemanha, França, Reino Unido e Itália – estão em fase de “forte desaceleração” da atividade, segundo a entidade. A maior queda na comparação anual entre os países do G7 foi registrada pela Alemanha, com recuo de 11,8 pontos, para 90,9 em dezembro. O indicador no Japão caiu para 92,2 em dezembro, uma queda de 7,3 pontos em relação ao mesmo período do ano passado.

“Os indicadores compostos avançados para a maior parte dos países da OCDE atingiram níveis jamais vistos desde os anos 1970, no momento dos choques petrolíferos”, diz o texto.

Dentre os demais BRICs – China, com recuo de 14 pontos no ano e total de 87,6 pontos; Índia, com 7,5 pontos e soma de 94,4 pontos; e Rússia, com queda de 17,7 e total de 86,7 pontos – também são classificados como “em forte desaceleração”.

27/01/2009 - 11:29h Retrato da crise

Celso Ming – O Estado SP

celso_ming2.jpgAs contas externas, que registram todo o movimento da economia com os demais países ao longo de um período, são as primeiras a sofrerem o impacto de uma crise global. E isso já vai claramente apontado nos números finais de 2008 que ontem o Banco Central divulgou.

O rombo geral em Conta Corrente, onde não é computada a entrada líquida de capitais, foi de US$ 28,3 bilhões, o primeiro déficit em 6 anos.

A desaceleração das exportações junto com a aceleração das importações tiveram lá seu peso. Mas foi decisiva a disparada da remessa de lucros e dividendos para o exterior, que saltou de US$ 22,4 bilhões em 2007 para US$ 33,9 bilhões em 2008. Só nos três últimos meses de 2008 as remessas para fora foram de US$ 21 bilhões.

Não se trata de fuga de capitais, como acontecia a cada crise do passado no Brasil. Desta vez, a principal explicação para essa paulada foi o movimento imposto às filiais das empresas estrangeiras no País: no meio da crise, as matrizes ficaram sem caixa lá fora e obrigaram suas controladas a remeterem de volta suas disponibilidades.

Esse fenômeno é novo no Brasil e não deve se repetir em 2009. Por isso, é perfeitamente plausível contar com um déficit em Conta Corrente até mais baixo neste ano. De todo modo, as projeções sobre esse item são disparatadas. O Banco Central projeta US$ 52 bilhões, volume um pouco maior do que o do ano passado. Mas o mercado, cujos números são aferidos pelo Banco Central na pesquisa semanal Focus, trabalha com metade disso.

O dado mais impressionante é o vigor dos Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) que, apenas em dezembro – portanto em plena crise -, injetaram US$ 8,1 bilhões no País, o que totalizou US$ 45,1 bilhões ao longo do ano, o correspondente a 1,78% do PIB, bem mais do que os US$ 30 bilhões projetados pelo Banco Central.

A força dos investimentos estrangeiros tem várias explicações. A primeira é a de que, apesar da crise, o comportamento da economia brasileira é razoável, o que contribui para atrair capitais de longo prazo. Mas começa a influenciar um fator circunstancial. O Brasil é o B de uma sigla que ficou em evidência. Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) foi uma invenção do economista Jim O?Neill, do Goldman Sachs, para caracterizar os quatro emergentes com maior probabilidade de se tornarem ricos em menos de 40 anos. Trata-se de uma sigla fortuita, que nem obedece à ordem alfabética, mas que pegou. O crescente protagonismo em eventos internacionais colaborou para o aumento da percepção de que está chegando a hora de o Brasil deixar de ser o país do futuro para ser o do presente.

Assim, estrategistas dos grandes negócios passaram a enxergar o Brasil como o país que não pode ficar fora de uma carteira de investimentos de longo prazo.

Para 2009, as projeções sobre o IED também são disparatadas, o que não deixa de ser normal, nas circunstâncias. O Banco Central, por exemplo, prevê um IED de US$ 30 bilhões. Mas as expectativas do mercado, medidas pelo Focus, apontam um total 23% menor, de US$ 23 bilhões.

Mas esta é uma crise de comportamento imprevisível. A esta altura, qualquer projeção para contas externas não passa de exercício de futurologia.

CONFIRA

Fim da arbitragem? – Há meses, ninguém mais se queixa de que os especuladores estão tomando empréstimos lá fora e mandando dólares para o Brasil de maneira a tirar proveito dos juros internos.

Os juros no Brasil continuam sendo os mais altos do mundo, os externos caíram para mais perto do zero e a alta do dólar garante, no câmbio, mais reais por dólar trazido para o Brasil.

No entanto, os investimentos em carteira fecharam o ano negativos: saída líquida de US$ 4,3 bilhões. No ano anterior, foram US$ 48,4 bilhões (positivos). Ou seja, na crise a a tal arbitragem sumiu.

23/01/2009 - 09:10h Sem grandes ilusões

Anna Carolina Negri / Valor

Krugman: “No curto prazo, estou muito nervoso. Espero estar errado, mas acho que provavelmente vamos ter um plano de recuperação da economia nos próximos meses que será insuficiente”

Por Robinson Borges, de São Paulo – VALOR

A esperança não venceu o medo do economista americano Paul Krugman. Considerado um dos mais severos críticos do governo de George W. Bush, o vencedor do Prêmio Nobel de Economia do ano passado diz se sentir aliviado com a mudança na Casa Branca, mas confessa estar intranqüilo com o cenário que se desenha para a economia americana. “Na verdade, no curto prazo, estou muito nervoso. Não acho que, mesmo com o novo governo, que está quase pronto para fazer o que é necessário, isso vá ocorrer”, disse Krugman em entrevista concedida anteontem ao Valor. “Espero estar errado sobre isso, mas acho que provavelmente vamos ter um plano de recuperação da economia nos próximos meses que será insuficiente, mais uma vez”, prosseguiu o célebere colunista do “New York Times”.

Árduo defensor de mais regulação dos mercados e de gastos públicos intensos, Krugman considera que as propostas divulgadas pela equipe econômica do recém-empossado presidente Barack Obama são tímidos para enfrentar a dimensão da crise atual. “Todas as soluções apresentadas me parecem meias medidas”, criticou o professor de Princeton. “O pacote fiscal parece limitar o avanço do desemprego, mas não preveni-lo. O plano de socorro aos bancos parece que serve para evitar catástrofes, mas não é suficiente para recuperar o sistema.”

Em sua perspectiva, os efeitos colaterais da crise atual serão terríveis: “O PIB dos EUA vai começar a crescer um pouco no fim do ano, mas o desemprego deve continuar muito alto nos próximos dois ou três anos. Provavelmente, o desemprego vai começar a cair no ano que vem, mas permanecerá alto.”

AP

Barack Obama na terça-feira, a caminho da posse: “O problema é a dimensão da crise que ele tem de enfrentar. Isso significa que a celebração não deve durar muito, especialmente do lado econômico”, afirma Krugman

 

De linhagem progressista, há tempos Krugman dá sinais do seu temor sobre o perigo dos excessos cometidos pelo mercado. Há dez anos, ele acendeu o farol amarelo da academia quando lançou um livro com o provocativo título “O Retorno da Grande Depressão”. Em menos de 200 páginas, ele analisava as crises internacionais que assolaram a América Latina e Ásia na década de 90 e advertia: a dramática queda da atividade econômica dos países emergentes não era um fenômeno isolado. Ao contrário do que pregavam seus colegas ortodoxos, argumentava que havia uma exagerada confiança nas políticas macroenconômicas, e que elas não seriam capazes de banir o fantasma da grande depressão da economia global. Krugman enxergava nos episódios dos países emergentes o presságio “funesto de que os problemas da depressão não haviam desaparecido”.

Uma década depois, com um Prêmio Nobel nas mãos e a maior recessão econômica nos EUA desde a Grande Depressão na cabeça, Krugman encontrou uma boa oportunidade para relançar o livro com uma edição revista e atualizada. Rebatizado de “A Crise de 2008 e a Depressão Econômica” (Campus/Elsevier), o título com prefácio do economista André Lara Resende chega às livrarias na próxima semana com um inevitável tom profético. “Tive um pouco desse sentimento de ‘não avisei?’ No entanto, gastei os últimos dez anos me preocupando com a crise que enfrentamos hoje. É importante ver que isso tudo não é completamente sem precedentes, que é possível observar as lições do Japão, da Argentina e da Ásia”, disse Krugman.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Depois de oito anos criticando severamente o ex-presidente George W. Bush, como o sr. se sente agora que a Casa Branca é ocupada por Barack Obama?

Paul Krugman: É um grande alívio. Do ponto de vista político, nossa democracia sobreviveu aos oito anos de Bush. Agora temos pessoas muito inteligentes no novo governo, o que é uma boa coisa. O problema é a dimensão da crise que Obama tem de enfrentar. Isso significa que a celebração não deve durar muito, especialmente do lado econômico, mas não apenas nesse aspecto. Há muitos outros a serem contornados. Não estou tão otimista quanto gostaria de estar.

Valor: A esperança não venceu seu medo?

Krugman: Na verdade, no curto prazo, estou muito nervoso. Não acho que, mesmo com o novo governo, que está quase pronto para fazer o que é necessário, isso vá ocorrer. Espero estar errado sobre isso, mas acho que provavelmente vamos ter um plano de recuperação da economia nos próximos meses que será insuficiente, mais uma vez. Mas, no final das contas, vamos fazer o que é necessário. Enquanto isso, seremos extremamente afortunados se escaparmos de uma taxa de desemprego de 9% ou mais nos Estados Unidos… Não sei como dizer isso… Todas as soluções apresentadas me parecem meias medidas. O pacote fiscal parece limitar o avanço do desemprego, mas não preveni-lo. O plano de socorro aos bancos parece que serve para evitar catástrofes, mas não é suficiente para recuperar o sistema.

Valor:
É uma questão de dose, isto é, seria preciso pôr mais dinheiro, ou está se fazendo a coisa errada?

Krugman: A escala dos planos é menor e muito distante das necessidades reais. A injeção de US$ 350 bilhões no setor financeiro, que para muita gente é muito dinheiro, não é. O valor necessário de injeção de capital no sistema bancário no curto prazo seria de US$ 1 trilhão. A perda do valor de ativos problemáticos ao longo dos últimos meses basicamente superou o dinheiro que estamos injetando. Também temos um problema: é muito difícil injetar capital em bancos fundamentalmente insolventes. E agora parece que este é o caso. Certamente, estou analisando grandes bancos como o Citigroup. Não está claro como os compradores de ações podem fazer seu trabalho nessas circunstâncias, porque me parece que um banco exige algo muito mais radical para ser salvo. O problema da crise é que ela é tão grande que o que se assemelha a uma grande resposta, na verdade, se transforma em uma resposta insuficiente.

Valor: O sr. já disse que o governo americano teme a palavra nacionalização. Seria essa uma solução para o problema dos bancos?

Krugman: Acho que, no final das contas, é a única alternativa disponível. Há muitos problemas com a nacionalização dos bancos, e temos de entender que ninguém quer ver o governo administrando o sistema bancário. Mas, se você observar a situação das maiores instituições financeiras, é muito difícil ver como podem continuar funcionando sem uma aquisição total. Elas não estão numa posição de cobrir todas as suas perdas para continuar. Se não houver uma nacionalização, isso significa que essas perdas ficarão para os acionistas. Não vejo uma saída e eu não estou feliz com a perspectiva.

Valor:
Uma das razões para que as propostas de socorro de Barack Obama sejam “tímidas”, segundo qualificação do sr., não é seu temor de aumentar o déficit? Ele não deve ter esse medo?

Krugman: Há uma preocupação real com isso, obviamente. Estamos falando dos Estados Unidos e de um grande déficit. Se alguém dissesse que vamos ter um pacote de US$ 3 trilhões, até eu diria: “Meu Deus, eu não sei se temos condições de gastar isso.” Mas acho que podemos gastar US$ 1 trilhão. No entanto, na verdade, não sei se esse é o problema real para a expansão do plano. Acho que isso ocorre por causa de uma combinação de fatores, como a dificuldade em lidar com projetos a serem pagos no futuro e a precaução dos políticos. Eles realmente não querem ter um plano de US$ 1 trilhão. Acho que o que limita o plano de Obama é a precaução política.

Valor: Quanto tempo o sr. avalia que durará esta recessão?

Krugman: Acho que o PIB dos Estados Unidos vai começar a crescer um pouco no fim do ano, mas o desemprego deve continuar muito alto nos próximos dois ou três anos. Provavelmente, o desemprego vai começar a cair no ano que vem, mas permanecerá alto.

Valor: O sr. parece não gostar da expressão “problemas estruturais” e parece não achar que eles tenham de entrar na receita para combater problemas graves e imediatos, como a crise atual. Mas há quem diga que os Estados Unidos gastam demais e a China, de menos, e que o esquema de países emergentes financiarem o déficit americano com enormes reservas está na raiz dos desequilíbrios atuais. Como consertar isso?

Krugman: Também é uma preocupação, mas não acho que deva ganhar centralidade na crise atual. Poderia argumentar que esses desequilíbrios têm muito a ver com as bolhas, mas, mesmo assim, não vejo como esses desequilíbrios façam diferenças fundamentais na estratégia de recuperação da economia. Precisamos salvar o sistema financeiro e expandir a demanda em todos os lugares. Isso não tem a ver com o desequilíbrio dos Estados Unidos com a China. Trata-se apenas de um pedaço da foto.

Valor: No livro, o sr. analisa diversas outras crises econômicas, passando pelas da Argentina, do México, da Rússia, da Ásia e chega até as bolhas da internet e da habitação nos Estados Unidos. Quais são os pontos de conexão entre todas elas?

Krugman: Há dois aspectos que unem todas essas crises. Um deles é que, de uma forma ou de outra, em todas houve um colapso financeiro, que envolve problemas com instituições, essencialmente problemas bancários. Não falo de bancos segundo o modelo tradicional, mas de bancos numa versão moderna, algo mais complexo. O segundo ponto é que, nesses episódios, os instrumentos simples de política fiscal e monetária não funcionaram. O que quero dizer quando trato de depressão econômica é justamente a incapacidade das ferramentas-padrão, que não servem para nos tirar da crise. Outra coisa é que há, por exemplo, uma similaridade reconhecível entre a forma como a crise na Rússia em 1998 levou a uma crise do real brasileiro e a forma como a crise da habitação americana atual levou a um problema na Islândia.

Valor: O sr. diz que a depressão econômica ocorre quando a política monetária perde seu poder de ação e as taxas básicas de juro são próximas de zero. Nesses casos, planos de socorro seriam fundamentais para estimular a economia. No Brasil, entretanto, nós temos as taxas de juros mais altas do mundo. O sr. acha que sua redução seria suficiente para mitigar o impacto da atual crise econômica? Isso significaria que a depressão econômica não chegou aqui?

Krugman: Vocês têm um diferente tipo de depressão, embora não seja tão severa quanto em outros lugares. Há duas razões para que você considere que a política monetária não está funcionando. Uma é aquela em que a taxa básica de juros é igual a zero, caso dos Estados Unidos hoje. Nessas condições, não há nada mais que você possa fazer. A outra é aquela em que você não corta a taxa de juros porque tem medo da desvalorização de sua moeda. Isso teria efeitos financeiros severos, por causa da dívida externa. O Brasil tem um pouco do segundo problema, mas não muito. O Brasil tem um dos casos menos ruins no cenário mundial. Não tenho lido muito sobre o Brasil ultimamente, mas me lembro que, quando o real se desvalorizou, em 1999, havia um temor generalizado de que seria uma catástrofe, como a da Indonésia, no ano anterior, e mesmo como a da Argentina, três anos depois. Na verdade, a desvalorização de 1999 não foi tão ruim porque o Brasil não tinha tanta dívida denominada em dólar nem estava tão frágil do ponto de vista financeiro como os outros. Hoje, o Brasil está numa situação melhor do que os países do Leste da Europa, que contam com empréstimos do exterior para abastecer suas economias emergentes. Eles têm muitas dívidas em euro e por isso não podem desvalorizar suas moedas. Estão numa armadilha por causa do estouro da bolha.

Valor: É isso o que sr. chama de mãe de todas as crises cambiais? E no Brasil, que desde que o Lehman Brothers quebrou, em setembro, o real se desvalorizou mais ou menos 25%?

Krugman: O Brasil não é o pior caso no momento. A queda da moeda brasileira não está criando o mesmo tipo de crise que outras desvalorizações. O Brasil é um país exportador de commodity [a queda das commodities é um dos fatores que explicam a expressiva desvalorização do real]. A crise de moeda realmente horrível é a da periferia européia, como já disse. Vemos países como Rússia, Estônia, Hungria, Ucrânia, Estônia, Polônia, Lituânia. Todos sofrem de crises cambiais. São crises como a da Argentina em 2002, mas de uma forma muito pior. O cenário pode se agravar, mas ainda há muitas peças de dominó para cair. Não vemos uma queda de impacto nas moedas dos Bálcãs. Só começamos a ver a severidade da crise no sudeste europeu. Claro que o problema do setor bancário está se tornando mais grave. Ainda estamos no meio da crise.

Valor: Voltando um pouco, o sr. acha que a redução das taxas de juros deve ser o principal mecanismo para o Brasil enfrentar a crise?

Krugman: Certamente haveria um efeito de expansão. Compreendo que o Brasil também tem inflação e que as coisas não são fáceis. Mas diria que o Brasil não é um caso clássico de país com depressão econômica. Vocês não são o Japão nem a Argentina, os dois tipos mais representativos de depressão econômica. Vocês devem se considerar felizardos por isso.

Valor: O sr. disse, numa entrevista recente, que saber o que ocorria na economia do G-7, grupo dos sete países mais ricos do mundo, na época da faculdade, era suficiente para entender a economia mundial. Mas hoje o cenário é diferente. As economias emergentes têm importância no mercado global. Como o sr. avalia que será a composição de forças no futuro, mesmo com a crise?

Krugman: Sim, hoje todos falamos dos Brics [Brasil, Rússia, Índia e China]. De alguma forma, o que ocorre agora são alguns ecos dos anos 30, quando um canal importante entrou em recessão, como ocorreu com os Estados Unidos na Grande Depressão, e essa recessão levou ao colapso das rendas dos países em desenvolvimento. O que vemos hoje é um colapso no comércio mundial, um dos pontos principais desta crise. E os países emergentes são centrais no comércio mundial. Realmente, estamos numa crise global. A China é uma preocupação especial, uma vez que se tornou um dos principais mercados. É uma das questões que me preocupam no momento. Estamos cautelosos ao observar essas economias emergentes. Como você disse antes, saber apenas o que ocorria nos países ricos era suficiente, mas agora os Brics são parte da história.

Valor: Em seu livro, fica bem claro que o sr. considera que os mecanismos de mercado têm limitações. O texto, de alguma maneira, procura provar isso com esta crise e outras tantas nas última décadas. Como o sr. acha que será o desenho do capitalismo a partir de agora?

Krugman: Estamos muito distantes de dizer que estamos nos despedindo do capitalismo. A forma como observo esta crise é que tivemos meio século, a partir da Grande Depressão, sem crises financeiras severas. Tivemos tempos ruins, mas nada comparado com o que vivemos nos anos 90 e, sobretudo, agora. Aquilo ocorreu por causa de um sistema bancário regulado e de um número razoável de controles. Eles não eram perfeitos, mas eram suficientes para manter o mundo como um lugar mais calmo. Podemos fazer isso novamente. O mundo está mais complicado, os controles terão de ser mais extensivos, a cooperação internacional terá de ser mais importante agora do que era no passado. Mas a história sugere que é possível moderar o capitalismo. Temos de voltar àquele modo tradicional, mas de forma atualizada para o século XXI.

Valor: Como escreveu o livro em 1999 e muito dos alertas registrados ali podem ser, de alguma forma, confirmados agora, o sr. teve uma sensação do tipo “não avisei?”, ao relançar o livro?

Krugman: Tive um pouco desse sentimento de “não avisei?”, sim. No entanto, gastei os últimos dez anos me preocupando com a crise que enfrentamos hoje. O importante é ver que isso tudo não é completamente sem precedentes, que é possível observar as lições do Japão, da Argentina e da Ásia.

20/01/2009 - 12:31h Economistas e analistas da “Conferência Risco País da Coface” são unanimes: o Brasil está se saindo relativamente bem em meio ao furacão

Para analistas, o Brasil é o menos afetado dos Bric

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Cristiane Perini Lucchesi, de Paris – VALOR

O grupo dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), que reúne algumas das maiores economias dos países emergentes, foi atingido pela crise de crédito com força após a quebra da Lehman Brothers, em meados de setembro do ano passado. O Brasil, no entanto, está se saindo relativamente bem em meio ao furacão, segundo opinião unânime dos analistas e economistas presentes à Conferência de Risco País da Coface 2009.

A seguradora de risco de crédito corporativo colocou em observação para possível rebaixamento a classificação de risco de crédito da China, que é “A3″, informou Yves Zlotowski, economista-chefe da Coface. A Rússia, que tem nota “B”, também acaba de ser incluída na mesma categoria, de acordo com Zlotowski. Já o Brasil, de nota “A4″, um degrau abaixo da nota chinesa e um degrau acima da russa, não sofreu qualquer alteração. Desde o início da crise do “subprime” a Coface não alterou sua nota para o Brasil.

Segundo Zlotowski, de uma forma geral os Bric não têm déficit em conta corrente preocupante – diferentemente dos países bálticos e do Leste Europeu -, têm reservas internacionais de sobra e o déficit público está sob controle. O problema na China, no seu entender, é o baixo nível de transparência de suas empresas. Já na Rússia, o grande endividamento externo de suas empresas está “explodindo” com a desvalorização cambial dos últimos meses.

No Brasil, segundo ele, a dívida externa das empresas foi reduzida e alongada depois do susto de 2002, e representa menos em relação ao total. Além disso, o sistema bancário tem mostrado extrema “resiliência à crise”, afirma. A pauta de exportação brasileira é mais diversificada e as vendas são para um grande número de parceiros comerciais. Diferentemente do México, que tem quase 80% de suas exportações destinadas aos Estados Unidos e acaba de ter sua nota reduzida de “A3″ para “A4″ pela Coface.

Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do FMI, acredita no aumento da probabilidade de moratória de países mais vulneráveis, que vão precisar da ajuda do Fundo Monetário Internacional, como a Hungria, Turquia, Romênia e países bálticos. A queda na arrecadação fiscal com o crescimento menor vai tornar mais difícil o pagamento da dívida para esses países, diz.

Para Rogoff, o Brasil e a Índia são dois países que estão se saindo melhor em meio à crise, mesmo considerando-se os países desenvolvidos. Ele projeta crescimento de 1% a 2% para o Brasil neste ano. “O Brasil parece estar em melhor forma do que os outros Bric”, concorda Alicia Garcia Herrero, economista-chefe para os mercados emergentes do BBVA de Hong Kong. Ela lembra que as reservas internacionais são suficientes para cobrir toda a dívida externa pública do país e que a depreciação cambial ajuda neste momento a reduzir a dívida líquida do setor público. Além disso, as altas taxas de juros e os níveis ainda elevados de depósito compulsório permitem estímulos monetários importantes ao crescimento. Ela lembrou, no entanto, que ninguém mais fala em descolamento.

Olivier de Boysson, economista-chefe para pesquisa de mercados emergentes do Société Générale, também vê os países do Centro e Leste da Europa como os mais vulneráveis.

“Os mercados emergentes vinham muito bem até bem recentemente, mas hoje estão sofrendo com a queda nos preços do petróleo e das commodities”, disse Rogoff, que prevê um crescimento de 6% para a China neste ano, em comparação com os 8% de Alicia Herrero. Rogoff lembra que os emergentes sofrem também com a falta de crédito para as empresas pequenas e médias nos países ricos, que compram os produtos desses países e estão ficando sem crédito. “Isso afeta suas exportações”, diz.

Para o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, os países emergentes serão os primeiros a voltar a crescer com mais força em 2010, puxando o crescimento econômico mundial.

04/12/2008 - 09:19h Brasil sentirá menos a crise, avalia Bird

 

FolhaNews – VALOR, de São Paulo

Apesar de considerar que os emergentes estão em melhor situação diante da crise, o economista-chefe adjunto do Banco Mundial (Bird), Alessandro Rebucci, disse que o pior da crise ainda está por vir e pode causar maiores danos na economia global.

Em palestra na edição extraordinária do Fórum Nacional realizado no Rio, Rebucci considerou que é importante que continuem a ser adotadas medidas para evitar que a recessão nos países desenvolvidos se torne uma depressão. Ele criticou a atual arquitetura financeira mundial e afirmou que provavelmente será necessário um redesenho da ordem econômica.

“Achar que o pior já passou não ajuda. Alguma vida foi reinjetada no mercado financeiro. Acho que o pior está por vir com reflexos na economia real, pressão sobre as rendas e orçamentos inclusive nos países que estão em melhor condição”, observou Rebucci.

Ele avaliou que haverá diminuição no ritmo do crescimento do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) e acrescentou que a crise terá maiores efeitos em economias que não se fortaleceram e que não se regularam de forma adequada nos últimos anos. “O Brasil está em posição sólida e sentirá menos os efeitos da crise. As boas políticas econômicas na América Latina estão se sobressaindo em meio à crise”, afirmou.

02/12/2008 - 08:42h Dinamismo dos Brics é esperança para evitar o pior

BRIC Shoppers Will ‘Rescue World’ Goldman Sachs Says

By William Mellor and Le-Min Lim

Dec. 1 (Bloomberg) — The best hope to keep the global economy growing may be people like Wei Yufang. A peasant who farms a small plot beside the mud-brown Huaihe River in central China, Wei has a modest dream: to buy an air conditioner to give her family relief from the dusty heat that each summer envelops Xiaogang (Little Hill) village in Anhui province.

With economies from the U.S. to Japan in recession, Wei and the other 2.8 billion people in Brazil, Russia, India and China may provide the consumer demand needed to counter the slump.

Jim O’Neill, the Goldman Sachs Group Inc. economist who in 2001 coined the acronym BRIC from the initials of the four big emerging economies, says the faster growth investors have come to expect from these countries will survive this crisis. O’Neill, who is based in London, says the citizens of the BRIC nations are poised to spend more. “The BRIC consumer is going to rescue the world,” he says.

China’s leaders are doing their part. The massive 4 trillion yuan ($586 billion) stimulus plan they unveiled on Nov. 9 signaled their intent to spur domestic consumption to help pick up the slack left as developed economies buy fewer Chinese exports. The first-ever meeting of finance ministers from the BRIC nations, a few days earlier in Sao Paulo, charted a newly assertive role.

“The crisis revealed weakness in risk management, regulation and supervision in the financial sectors of some advanced economies,” the ministers said in a statement. It also showed the resilience of the BRIC economies, they said.

‘Global Solutions’

“This is a global crisis and demands global solutions,” says Brazilian President Luiz Ignacio Lula da Silva. “The participation of the developing world is essential.”

Chinese President Hu Jintao said at a summit in Washington on Nov. 15: “Steady and relatively fast growth in China is in itself an important contribution to international financial stability.”

Economic leadership from these nations wasn’t part of the mix in 1997 and 1998, when currency devaluations and excessive debt threw Asia and then Russia into crisis. Back then, the world looked mostly to the U.S. to spark a rebound.

China’s two-year stimulus program calls for spending on housing, roads, railways and airports; tax deductions for businesses that invest in new equipment; and subsidies for farmers.

Chinese Consumers

Equal to about 16 percent of the country’s annual gross domestic product, the plan dwarfs the $168 billion stimulus in the U.S. in the spring of 2008, which was about 1 percent of GDP. In the weeks since the Chinese effort was announced, President-elect Barack Obama has said he favors a larger stimulus for the U.S. economy; his aides have said it could top $600 billion.

While Chinese consumers, as a group, still don’t overshadow their American counterparts in total spending, their outlays are growing. China’s retail sales jumped 22 percent in October. Consumer purchases in the U.S., by contrast, dropped in the third quarter for the first time in seven years.

“Since October 2007, the Chinese shopper alone has been contributing more to global GDP growth than the American consumer,” O’Neill, 51, says.

The BRIC economies are performing better overall than O’Neill forecast when he unveiled the term in a November 2001 report. He predicted they would account for 10 percent of global economic output by 2010. Already, they comprise more than 15 percent.

‘Hit the Hardest’

Forecasters at Merrill Lynch & Co. share the enthusiasm. “Can BRICs help stabilize the global economy?” Merrill’s global economics team asked in an October report. “We think so.”

This doesn’t mean that the downdrafts being felt by the BRIC nations don’t hurt. “A year ago everyone was so optimistic about emerging markets,” says Marc Faber, who manages $300 million in Hong Kong. “Now the global economy is going into a severe recession and it is the most volatile economies — the emerging markets–that are being hit the hardest,” says Faber, publisher of the Gloom, Boom and Doom Report.

The BRIC countries’ stock markets have seen big swings. The benchmark index in Shanghai has been down as much as 70 percent from its high, while Moscow’s stock market has fallen as much as 75 percent from its peak.

At its peak in May 2008, Brazil’s Bovespa Index had quadrupled in four years. By late October, the index was down 60 percent from its May high. Brazil’s real in August and September erased two years of gains against the dollar and euro.

Mobius’s ‘Candy Shop’

The question is whether a deeper collapse is coming — or a turnaround. Mark Mobius, the Singapore-based money manager, says BRIC markets are a buying opportunity. “We’re like children in a candy shop,” says Mobius, 71, who oversees $30 billion in emerging-market equities at Templeton Asset Management Ltd.

The obstacles the BRIC nations have to negotiate include the cutoff of capital as U.S. and European banks refuse to lend. Japan and Germany are in recessions, recent economic data show, while the U.K. and U.S. economies are also shrinking. That means lower demand for products from China, services from India and energy and metals from Russia and Brazil.

China’s booming economy, which expanded by 9.9 percent a year for three decades, may slow to 7.3 percent in 2009, says China International Capital Corp., a Beijing investment bank. Growth in India may drop to 6.5 percent in 2009, from 9 percent in the year ended in March 2008, according to CLSA Asia-Pacific Markets, part of the French bank Credit Agricole SA.

Mumbai Attacks

India’s Palaniappan Chidambaram, who served for four and a half years as finance minister under Prime Minister Manmohan Singh, has said the country’s economy won’t be hobbled by the terrorist attacks that left at least 195 people dead in Mumbai last week. Chidambaram was tapped to become Home Minister after Shivraj Patil resigned because of the intelligence and security failures that led to the worst terrorist violence in India in 15 years.

Chidambaram predicted in a Nov. 28 interview that India will maintain 9 percent growth. Mobius, speaking after the attacks, said India remains a fast-growing economy and that the attacks shouldn’t color investment decisions there.

In Brazil, meanwhile, growth may slow to 2 percent or less, from about 5 percent in 2008, as vital exports of iron ore and other commodities slow, according to Morgan Stanley.

Plunging Oil Price

Growth in Russia, the world’s second-largest oil producer, after Saudi Arabia, may drop to 3 percent in 2009, according to Arkady Dvorkovich, an adviser to President Dmitry Medvedev. Growth topped 8 percent in 2007, according to the Russian government.

“The oil price is the main transmission route of the crisis to Russia,” says Vladimir Osakovsky, senior economist in Moscow for Italy’s UniCredit SpA. Crude oil is down 63 percent from its July record, trading at about $54 a barrel in London at the end of last week. The government has raised interest rates and spent foreign currency reserves to try to halt a slide in the value of the ruble. The Russian currency lost 3 percent against the euro last week. Investors have pulled $190 billion out of the country since August, according to French bank BNP Paribas SA.

BRIC bulls like O’Neill say the four countries are much better prepared for this global economic crisis than they were for the turmoil of a decade ago. Banking systems are stronger and international trade has expanded. Most important, the governments of the BRIC nations have accumulated some of the world’s largest financial reserves.

Currency Reserves

The four BRIC nations combined held 41 percent of total global foreign exchange reserves as of early November. Russia’s reserves are the third biggest, after China’s and Japan’s, though the government used about 20 percent of its hoard from August to mid-November to support the ruble. China’s $1.9 trillion stockpile helped make possible the giant November stimulus, targeted to the spending habits of citizens such as Wei Yufang.

China’s Communist government has already given people like Wei a push up the economic ladder. Changes in land ownership rules mean Wei, 41, can rent out some of her plot to another farmer, who grows grapes. She also plans to seek a bank loan against her land­holding. “My family’s already feeling richer,” Wei says. Investors worldwide should hope the feeling lasts.

To contact the reporters on this story: William Mellor in Hong Kong at wmellor@bloomberg.net; Le-Min Lim in Hong Kong at lmlim@bloomberg.net.

28/11/2008 - 07:48h Our retail therapy is in China, India and Germany

http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/foto/0,,12100483,00.jpg

By Jim O’Neill – Financial Times

Published: November 27 2008 18:59 | Last updated: November 27 2008 18:59

For much of the past three years, as it became evident that the US housing bubble was bursting, I believed that the old adage “the US catches a cold, the world catches pneumonia” would be laid to rest, helped by the emergence of the so-called Brics – Brazil, Russia, India, China.

Until September and the collapse of Lehman Brothers, the US investment bank, this was still a reasonable model for the evolving world. However, since mid-September maybe the real question has – unfortunately – become: “What happens if the US itself has caught pneumonia?”

At the heart of this is the dramatic tightening of US financial conditions that took place from mid-September until recently. For the over-levered US consumer, coming on top of declining housing values, the era of buoyancy is almost definitely over.

At its 2007 peak, US domestic consumption reached as much as 72 per cent of the country’s overall gross domestic product, which is more than 20 per cent of global GDP. Not bad for a population of some 300m people, out of more than 6bn globally. By the end of 2008, consumption will be back below 70 per cent and will probably be on its way down to something around 65 per cent or less in a few years. How can the world cope?

The answer is that unless Chinese, German and Indian shoppers start spending more freely, it will not.

Aggressive infrastructure-based fiscal expansion in the US from the incoming administration will help the country recover and rebuild but, as with the UK, there has to be a chance that any direct stimulus for the indebted US consumer will be saved, not spent. Indeed, it is no bad thing that domestic private savings will be rebuilt. Among other things it means the US will not need to keep gobbling up the world’s savings.

To avoid global pneumonia, what we need is shopping in Berlin, Frankfurt, Beijing, Shanghai, Delhi and Mumbai. Here is how to do it.

China looks like it does not need too much guidance judging by the media focus on its $586bn (€453bn, £380bn) “stimulus” package. China has to regard export strength, especially low-valued exports, as a thing of the past. This will involve some redeployment of people, which in some regions could be quite challenging. But boosting domestic spending, especially for consumption and investment, is vital.

Such spending should feed through to renewed import growth, so China can help offset the end of import growth in the US. Of course, annual retail sales growth as measured by October’s numbers was a strong 22 per cent but, until consumption represents a bigger share of GDP, the government should seek to increase this further. Noises about the potential development of a proper nationwide social security system are encouraging; this is vital to reduce China’s huge savings rate.

As for India, its demographic dividend makes it arguably the most interesting of the Brics in the next decade. According to the United Nations, by 2020, India’s population could grow by as much as the current size of the US. If Indian policymakers can boost infrastructure spending, the escalating urbanisation that will accompany this could unleash massive consumption. Indian policymakers should stop worrying about the May 2009 election and introduce steps now to allow more foreign capital to help the financial sector fulfil these exciting prospects. Among other things it would diminish fears about India’s external financing challenges also.

It is not just India and China that could help. Germany and its policymakers should take a long, hard look in the mirror. At 85m, Germany’s population is equivalent to more than a quarter of that of the US. It needs to make a contribution to world consumption in a similar ratio, relative to that of the US consumer.

Next year is the 20th anniversary of the fall of the Berlin Wall. German consumption has barely budged since then. Why not celebrate by giving its people a surge in consumer spending? Raise real wages and cut value added tax: Germany owes it to itself and the world after such a long period of adjustment to both unification and European monetary union. It certainly needs to, as the export machine is set to struggle.

Who knows, if Germany “gets it” maybe even Japan might then consider change. Then we would know the world really was being turned upside down.

The writer is chief economist at Goldman Sachs

24/11/2008 - 09:33h The Economist olha para 2009 com previsões e desejos

The World in 2009

The Americas

Latin drift

Nov 19th 2008
From The World in 2009 print edition
By Michael Reid

Sorting Latin America’s pragmatists from its populists

Alamy 

After five years in which Latin America’s economies have averaged 5% annual growth with generally low inflation, they face a severe test of their new-found resilience in 2009. Subdued consumption in the rich world will squeeze exports and commodity prices, and finance will be harder to find. Countries with diversified exports and sound policies will be better placed to ride out the storm than those, such as Venezuela and Argentina, that have squandered their commodity windfalls and spurned private enterprise. Politically, tougher times will coincide with, and contribute to, the start of a tentative shift away from the left.

Of the region’s two big economies, Brazil will continue to do better than Mexico, but neither will do well. Softening commodity prices will erode Brazil’s trade surplus (and cause further depreciation of the real), but the diversity of its export markets and the vigour of domestic consumption will keep growth below 3% (down by more than two percentage points from 2008). With a presidential election due in 2010, Brazilian politics will be dominated by preliminary jockeying over candidacies, with President Luiz Inácio Lula da Silva, the social-democratic president, seeking to transfer his own popularity to his chosen successor, probably Dilma Rousseff, his chief of staff.

The intertwining of Mexico’s economy with United States’ manufacturing will cut growth to under 1%. That will bring an increase in social tension: tighter border controls mean it has become harder to cross into the United States, and jobs are harder to find there, so the traditional safety valve of emigration will become blocked. The slowdown comes at an awkward moment for Felipe Calderón, Mexico’s president. In a mid-term congressional election in July, Mr Calderón’s conservative National Action Party is unlikely to win the majority it desperately needs to sweep away the vestiges of corporatism that still hobble the country’s economy. The centrist Institutional Revolutionary Party, which ruled Mexico for seven decades until 2000, will make gains at the expense of the divided left. Whatever happens in the election, Mr Calderón will hope to make headway against powerful drug gangs.

Argentina’s vigorous recovery from its financial collapse of 2001-02 will peter out in 2009, as commodity prices soften. Cristina Fernández de Kirchner, the populist president, will pay a political price for her failure—and that of her husband and predecessor, Néstor Kirchner—to persuade investors that Argentina is a safe place to do business. Despite the government’s manipulation of the inflation index, Argentines know they are getting poorer. The Kirchners’ hold over the Congress and the ruling Peronist party will vanish in a legislative election in October. Rather than the divided opposition parties, Peronist barons of the centre-right may be the big winners. Ms Fernández will govern at their pleasure for the rest of her term until 2012—if she lasts that long.

In Venezuela the cost of Hugo Chávez’s rule will become clearer. Hitherto, a high and rising oil price has paid for ballooning imports and public spending, concealing the growing inefficiencies of the state-dominated economy. Unless oil, improbably, rises above $100 per barrel again, economic growth will slow to a crawl. Mr Chávez still has some room for manoeuvre: he has stashed away perhaps $15 billion in various development funds, and the central bank’s reserves stand at some $30 billion. But as oil dollars become less abundant, the government will tighten import controls and a devaluation may be unavoidable. That will mean a downward spiral of inflation, stagnation and poverty.

Facing the unravelling of his regime, Mr Chávez may become more radical: expect him to unearth more fictitious coup plots and to curtail political freedoms.

Divided they fall

The most closely watched Latin American election in 2009 will be in Chile, where the Concertación, the moderate centre-left coalition that has governed the country since the end of General Augusto Pinochet’s dictatorship in 1990, may lose power. For the first time, the Concertación will probably run two candidates. One would be from the Socialist Party—either Ricardo Lagos, a successful former president, or José Miguel Insulza, the secretary-general of the Organisation of American States. The Christian Democrats may run their own candidate, probably Eduardo Frei, another former president. That division would help Sebastián Piñera, a moderate conservative and successful businessman. He is likely to win the presidency narrowly in a run-off ballot.

Four smaller countries will also choose a new president in 2009. In Uruguay, the ruling centre-left Broad Front will win a second term, provided it unites around the candidacy of Danilo Astori, a moderate former finance minister. Similarly, in Panama the ruling centre-left Party of the Democratic Revolution should retain power. In El Salvador, the left-wing FMLN’s attempts to dislodge the conservative Arena party may founder. In both El Salvador and Honduras the elections may be dominated by attempts by Venezuela’s Mr Chávez to influence the result with money and offers of aid.

In Bolivia Evo Morales, the left-wing president, is likely to win a referendum to ratify a new constitution that “refounds” the country as an Amerindian socialist republic. But he will face continuing unrest in the more capitalist eastern provinces. Another of Latin America’s radical socialists, Ecuador’s Rafael Correa, will organise and win a fresh presidential election under a new constitution. In Colombia, the era of Álvaro Uribe will draw towards a close—assuming that he opts not to change the constitution to allow him to stand for a third consecutive term in 2010. The fastest growing of the larger economies in Latin America will once again be Peru, not least because its government will keep faith in free trade, rather than the socialism fashionable elsewhere.

Michael Reid: Americas editor, The Economist; author of “Forgotten Continent: The Battle for Latin America’s Soul” (Yale)

24/11/2008 - 09:12h Coleção de previsões

 


Toda Mídia

NELSON DE SÁ – nelsondesa@folhasp.com.br

O Brasil em 2009

Saiu a edição anual da “Economist” com sua “coleção de previsões” para 2009. Para Brasil e a América Latina, o editor de Américas, Michael Reid, antecipa “um teste difícil de sua resistência recém-encontrada”, com a queda no consumo global. “Das duas grandes economias, o Brasil vai continuar a se dar melhor que o México, mas nenhum vai se dar muito bem.” O primeiro cresce “menos que 3%”, pela queda no preço das commodities, e o segundo, “menos que 1%”, pela vinculação com a indústria americana.
Com chamada na capa, “Lula da Silva” escreve sobre “Bric-building”, construindo com tijolos ou os Brics. O brasileiro vê “um papel mundial crescente para os grandes emergentes” -e questiona, sem eles, “a relevância do G8 e do Conselho de Segurança não-reformado, para não falar” de FMI e Banco Mundial.

“ZERO HUNGER”

economist.com
 

No artigo para a edição “The World in 2009″ da “Economist”, Lula começa saudando o crescimento da classe média, agora majoritária, e defende os programas sociais “sob a bandeira Fome Zero”, de meio ambiente e biocombustíveis como caminho global para as Metas do Milênio

MUDANÇA…
A revista abre anunciando, em editorial, um ano de “ajuste para um mundo mudado”, na economia. Ressalta que “a mudança de poder para lugares como Brasil, Rússia, Índia e China vai se acelerar e esses países vão esperar maior voz na forma como o mundo é gerido”. O crescimento “será menos especular, mas em muitos emergentes vai se manter robusto”.

DE PODER
Escrevendo sob o título “Uma nova ordem econômica mundial” para a edição da “Economist”, o indiano presidente da gigante ArcelorMittal, Lakshmi Mittal, diz que “a mudança de poder para os emergentes está num ponto crítico”. Que “a globalização começou e o mundo desenvolvido deve agradecer pela tendência”, que amplia o mercado consumidor.

ESSENCIAL, INDISPENSÁVEL
Em seu artigo de previsão na “Economist”, Henry Kissinger, o secretário de Estado que aproximou EUA e China, aposta que “a América será menos poderosa, mas ainda a nação essencial para criar a nova ordem mundial”. Avalia que “o G8 vai precisar de um novo papel, abraçando China, Índia, Brasil e talvez a África do Sul” e que “outros países, embora insistindo em seus papéis crescentes, provavelmente vão concluir que uma América menos poderosa ainda continua indispensável”.

RECOMEÇAR

economist.com
 

A capa de “O Mundo em 2009″ vai para Barack Obama, com o texto do editor John Micklethwait abrindo com a pergunta: “E então, Mr. President, o que exatamente você vai fazer?”. Sugere que ele se torne o “caixeiro-viajante do capitalismo ocidental da América”, hoje “modelo velho, defeituoso”

Leia a integra da coluna de Nelson de Sá na Folha de São Paulo

21/11/2008 - 13:25h “O Brasil vem sendo muito bem administrado, tem reservas e uma economia forte”

Mesmo os mais pessimistas dos analistas estrangeiros concordam com a frase acima, pronunciada por Michael Spence, prêmio Nobel de economia. Apesar da crise brava, o Brasil está na boa direção. Incluso os que torcem para isto não ser assim, o fazem em voz baixa. LF

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Crise pode durar até uma década

Em evento no Brasil, dois Prêmios Nobel de Economia manifestam pessimismo sobre a recuperação mundial

Fernando Dantas e Daniele Carvalho, RIO – O Estado SP

 


Dois prêmios Nobel de Economia, Daniel McFaden e Michael Spence, manifestaram ontem pessimismo sobre a capacidade de recuperação da economia americana e global, indicando que as conseqüências da atual crise podem perdurar por uma década. Os economistas participaram do primeiro dia do congresso da sessão latino-americana da Sociedade Econométrica Internacional e da Associação Econômica Latino-americana e Caribenha, no Instituto de Matemática, no Rio. O encontro é organizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Para McFaden, os EUA podem, na pior das hipóteses, crescer regularmente abaixo da média histórica por até dez anos, com níveis altos de desemprego. Ele notou que não há sinais de que possam voltar a funcionar tão cedo os motores do crescimento, o investimento e o consumo.

Já Spence acha possível que EUA e Europa encarem de dois a três anos de recessão. Ele disse que o processo de desalavancagem (redução de dívidas) é demorado. Em relação ao mundo emergente, afirmou que a desaceleração são favas contadas, mas ainda há dúvidas se haverá recessão. Frisou que, para um país de rápido crescimento, como a Índia, cair de um ritmo de 9% para 4% dará a sensação de recessão.

McFaden demonstrou mais otimismo em relação aos países em desenvolvimento, especialmente os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). Para ele, essas nações vão liderar a retomada da economia global. “Os países em desenvolvimento têm apresentado taxa de expansão maior que o resto do mundo e podem continuar apresentando crescimento mesmo durante a fase de recessão internacional”, disse.

Apesar do pessimismo, Spence e McFaden têm esperança de que as medidas de estímulo monetário e fiscal dos EUA e outros países ricos dêem certo e abreviem o período negro da economia global. Para McFaden, o governo americano deve intervir “maciça e decisivamente”, capitalizando instituições financeiras, facilitando o crédito e baixando impostos. Spence defendeu que o governo dos EUA conceda hipotecas subsidiadas diretamente para os mutuários em dificuldades. Eles poderiam trocar os contratos que não conseguem honrar pelas novas hipotecas com condições facilitadas.

Spence mostrou-se preocupado com o que chama de deflação global de ativos (queda de valor de ações, imóveis, títulos). Para ele, o processo, especialmente nos países emergentes, não guarda relação com os fundamentos da economia, mas é causado pela necessidade de repatriação de capital para países ricos recompor balanços em frangalhos de bancos e empresas.

Ele acha fundamental que os fluxos de capitais sejam revertidos, por medidas como o swap de dólares que o Federal Reserve (Fed) concedeu para quatro países emergentes, incluindo o Brasil; a linha especial de liquidez criada pelo FMI; e, a médio prazo, pela possibilidade de países com grandes reservas internacionais financiarem em dólares os emergentes com carência da moeda americana.

Em relação ao Brasil, ambos mostraram moderado otimismo. Para Spence, “o Brasil vem sendo muito bem administrado, tem reservas e uma economia forte”. Já McFaden disse que o País precisa ficar atento às conseqüências que a crise trará ao preço das commodities. Uma das alternativas seria promover investimentos na área de infra-estrutura e em aumento de produtividade.

09/11/2008 - 12:40h Brasil foi premiado pela prudência, diz especialista

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Para estudioso do acúmulo de reservas pelos emergentes, ‘swap’ do Fed mostra que a imagem do País mudou

Fernando Dantas - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Economista do Council on Foreign Relations (Conselho de Relações Exteriores, think-thank americano), Brad Setser já passou pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e trabalhou com o agora famoso Nouriel Roubini, o economista que previu mais acuradamente a atual crise financeira global. Estudioso do gigantesco acúmulo de reservas internacionais pelos países emergentes nos últimos anos, Setser acha que o Brasil tem dólares suficientes para se defender da crise, e só poderia ter problemas se a turbulência se agravasse ainda mais e perdurasse por muito tempo.Para Setser, um observador atento dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), a linha de swap de US$ 30 bilhões estendida pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano) ao Brasil é “um prêmio” pela prudência da política econômica brasileira, e significa uma mudança na forma pela qual o País é visto pela comunidade financeira internacional.Setser considera que a tão propalada mudança da arquitetura financeira internacional já começou, e diz que mais foi feito nessa direção nas últimas três semanas do que no longo período de discussão do assunto que sucedeu as crises financeiras do fim dos anos 90. Ele cita como mudanças profundas, que o deixaram surpreendido, a extensão ilimitada pelo Fed de linhas de dólares (”swaps”) para países europeus, e também (de forma limitada) para Brasil, Coréia, México e Cingapura.

A seguir, a entrevista:

Como a crise financeira vai afetar os Brics?

A crise tem três impactos amplos, que afetam todo mundo, mas em graus diferentes. O primeiro é uma significativa desaceleração no crescimento da demanda por produtos manufaturados, notadamente nos Estados Unidos e na Europa, e isso vai ter um forte impacto na China. O segundo efeito, que afetou a Rússia de forma particularmente forte, mas também atingiu o Brasil, é que a crise financeira e bancária levou a uma forte redução do crédito para as economias emergentes. Isso gerou uma pressão para baixo nas moedas da maioria destes países, e quase todos tiveram de gastar suas reservas para compensar a retirada de financiamento bancário internacional. A Rússia ficou numa situação particularmente ruim, por causa da extensão em que o setor privado russo tomou emprestado do sistema financeiro internacional. E, finalmente, há a grande oscilação do ciclo econômico global, que causou uma significativa correção no preço das commodities. Isso terá impacto na Rússia, por causa do petróleo, e no Brasil, por causa do minério de ferro e muitas outras commodities que o País exporta.

As reservas brasileiras são suficientes para enfrentar esta crise?

As reservas brasileiras são substancialmente maiores do que suas dívidas de curto prazo. O Brasil tem a vantagem de, adicionalmente às reservas, dispor agora de acesso a US$ 30 bilhões do Fed na linha de swap, e provavelmente poderia sacar no novo instrumento de financiamento de curto prazo do FMI. Então o Brasil tem pelo menos US$ 30 bilhões, e talvez até US$ 50 bilhões, em crédito adicional. O único cenário no qual poderia haver mais pressão do que o Brasil poderia agüentar seria aquele em que qualquer um com exposição ao real tentaria fazer um hedge dessa posição. Para isso, seria preciso um choque ainda mais forte do que o que vimos até agora, um longo período no qual o País financiaria com as suas reservas não apenas uma queda de curto prazo no crédito bancário, mas teria de gastá-las também para suprir o déficit em conta corrente. Não subestimo o risco para o Brasil, mas ainda acho que está em melhor situação do que muitas outras economias emergentes.

As economias emergentes sofrerão um impacto na economia real tão forte quanto aquele que já começa a afetar os países ricos?

Estou cada vez mais preocupado com a possibilidade de que a desaceleração dos emergentes, de forma agregada, seja comparável em escala àquela experimentada pelos países ricos. A Rússia vai ter uma desaceleração bem aguda, que também ocorrerá em muitos países do Leste europeu. Bem, no caso da China pode-se dizer que um crescimento de 6%, que muitos já acham que possa ocorrer no início de 2009, é mais rápido do que o de muitos países num ano bom. Mas é uma significativa desaceleração a partir do nível de 11%, 12%. Quanto ao Brasil, minha esperança é de que, com a medidas tomadas para reduzir a vulnerabilidade, o País possa ajustar-se gradualmente, e a parada súbita seja apenas dos fluxos de capital, mas não da economia.

O mundo está caminhando para uma nova arquitetura financeira internacional, o chamado “novo Bretton Woods”?

Minha visão provavelmente é influenciada pelo fato de ter trabalhado no Departamento do Tesouro durante o último esforço para reforma da arquitetura financeira internacional. E confesso que fiquei chocado com o fato de que as mudanças acordadas nas últimas três semanas sejam, em certo sentido, muito maiores e muito mais significativas do que as que foram acordadas depois das crises de 1997, 1998 e 1999, quando houve um período muito mais longo de debate e reflexão sobre a reforma da arquitetura. O fato de que o Fed forneceu US$ 500 bilhões em crédito para os bancos europeus é indicativo da escala da mudança. É impactante que o Fed concorde em emprestar para os bancos centrais europeus literalmente sem limites, com o instrumento do “swap” (troca de dólares por euros), para que estes possam cumprir o papel de emprestadores de última instância de dólares para o sistema bancário europeu. E há também o novo instrumento de financiamento de curto prazo do FMI. Olhando para a frente, ainda há alguns pontos necessários sobre os quais ainda não se chegou a um acordo, como tornar o FMI substancialmente maior do que ele é hoje, e recalibrar o peso dos votos no Fundo para refletir a crescente importância dos países emergentes na economia global.

O Brasil foi um dos quatro países emergentes que também teve acesso à linha de swap do Fed, como o sr. mencionou, embora de forma limitada. Qual o significado disso?

Acho que é o reconhecimento de que o Brasil fez muitas coisas para reduzir a sua vulnerabilidade a crises financeiras. Foi um prêmio para as políticas econômicas prudentes que o Brasil praticou nos últimos poucos anos. Se você é gestor de política econômica nos Estados Unidos, com experiência de crises em mercados emergentes, é difícil não ficar impressionado com o fato de que o governo do Brasil saiu de uma posição de devedor líquido internacional para a de credor líquido internacional. Houve uma mudança na maneira pela qual o Brasil é visto na comunidade financeira internacional. Por outro lado, a concessão do swap também reflete o fato de que o Brasil é sistemicamente importante, e deixá-lo de fora poderia ser um sinal para que os investidores fizessem ainda mais hedge da sua exposição ao País, o que poderia acabar criando uma situação ruim.

Qual será o papel do presidente Obama na montagem dessa nova arquitetura?

Teremos uma noção muito melhor quando ele escolher o seu secretário do Tesouro e sua equipe econômica. Minha suposição é de que o governo Obama terá mais inclinação do que o governo Bush para contemplar a hipótese de um FMI maior como parte da solução para os problemas financeiros dos mercados emergentes. Certamente, um governo Obama será mais favorável do que o de Bush a propostas que aumentem o nível de regulação no sistema financeiro americano. Por outro lado, nos últimos três meses Bush abriu mão de muitas posições ideológicas, e reagiu de forma muito pragmática à crise. Várias mudanças importantes, como o instrumento de financiamento de curto prazo do FMI, e a extensão do swap do Fed para países emergentes, já ocorreram sob o comando do Bush, porque os eventos assim exigiram. De alguma forma, a administração do Bush já abraçou algumas das idéias que estavam circulando entre os assessores do Obama.