28/09/2008 - 12:59h Desvantagem do Brasil pode virar vantagem na crise


Por ter crescido menos que outros Brics e ser mais fechado, país deve ganhar com agravamento da situação externa

Sistema financeiro do país é mais sólido que o de China, Rússia e Índia; perigo maior está numa queda brusca no preço das commodities

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ÉRICA FRAGA ESPECIAL PARA A FOLHA

O agravamento da crise financeira global nas últimas semanas enterrou de vez a tese de que as chamadas economias emergentes, como a brasileira, poderiam ter se descolado (”decoupled”, em inglês) daquelas dos países desenvolvidos e, com isso, estariam quase imunes ao furacão que se aproximava. Mas é fato que a maioria dos emergentes está menos vulnerável hoje do que há uma década. E o Brasil, que nos últimos anos de bonança sempre foi considerado o patinho feio dos Brics (expressão cunhada pelo Goldman Sachs em 2003 em referência às grandes economias “do futuro”: Brasil, Rússia, Índia e China), pode ter uma história melhor para contar nestes tempos difíceis.

O fato de que a economia brasileira ainda é bastante fechada contribuiu para que o país crescesse de forma bem menos exuberante do que Rússia, Índia e China em anos recentes.

Mas agora o que era desvantagem virou seguro: o país pode acabar suportando melhor os efeitos negativos da crise do que os “Rics”, desde que não haja um colapso nos preços das commodities.

Embora os problemas que levaram à crise atual tenham sido gerados no mundo desenvolvido, vão continuar afetando os emergentes por dois canais: o da economia real e o dos mercados financeiros. O principal dado que já depunha contra a tese do descolamento se refere ao peso que os países desenvolvidos ainda têm na demanda global. Juntos, Estados Unidos e Europa Ocidental representam mais da metade (52%) do consumo privado mundial.

É verdade que as fatias representadas por China, Brasil, Índia, Rússia e outros vêm aumentando. Mas não o suficiente para evitar que uma brutal desaceleração da demanda por bens e serviços por parte dos países desenvolvidos fosse pouco sentida no mundo emergente. E esse impacto negativo tende a ser ainda maior porque o peso das exportações no PIB dos países emergentes aumentou sem parar nas últimas décadas: passando de 26% em 1990 para quase 44% em 2007.

Ou seja, o crescimento nos países emergentes se tornou muito dependente da performance de suas exportações. E, agora, os mercados que costumavam absorver boa parte dessas exportações caminham para a recessão: vão consumir menos, importar menos, quem vendia para eles vai crescer menos.

O Brasil obviamente não está imune, descolado, dessa tendência, mas é menos vulnerável que a maioria dos seus pares à forte desaceleração da demanda privada dos países ricos. Isso porque enquanto as exportações têm um peso de mais de 40% no PIB da média dos emergentes (41% na China, 31% na Rússia, 21% na Índia), no Brasil representam apenas 14%. Embora esse percentual seja bem maior que os cerca de 7% registrados em 1995-98, ainda caracteriza uma economia bastante fechada, menos vulnerável a choques como o que vem pela frente, principalmente se a desaceleração econômica no mundo desenvolvido for ainda pior do que se espera hoje. Um risco que, dada a forte turbulência nos mercados globais nas últimas semanas, não é nada desprezível.

Isso não quer dizer que o Brasil deva se orgulhar de ter uma economia ainda bastante fechada (na qual o peso de exportações e importações no PIB é relativamente baixo).

Graus maiores de abertura tendem a vir acompanhados de maior concorrência e ganhos de produtividade que beneficiam os consumidores e tornam a economia mais eficiente.

O fato de que o Brasil parece seguir rumo a uma maior abertura da economia é positivo, ainda que, neste momento, a menor importância relativa das exportações para o crescimento econômico ajude a amortecer os efeitos negativos da crise externa.

Mas há outros indicadores que podem fazer o Brasil menos vulnerável aos desdobramentos da crise atual, esses, sim, positivos “per se”. De forma geral, os indicadores que medem a solidez do sistema financeiro brasileiro-o outro canal pelo qual a turbulência externa continuará se propagando- são melhores que os dos outros três Brics. Os bancos brasileiros possuem altos níveis de solvência e liquidez e o regime de supervisão do setor é eficiente.

Diferentemente da China, o risco de grandes colapsos no sistema financeiro brasileiro é relativamente pequeno. Ao contrário do que ocorre em China e Índia, não existem bolhas significativas nos preços de ativos (como casas) no Brasil. O nível de inadimplência em empréstimos bancários na China (próximo de 6%) é pouco menos do que o dobro da média registrada no Brasil e quase certamente é subestimado.

Além disso, inflação no Brasil preocupa, mas bem menos que na Rússia e na Índia. Na verdade, talvez o risco maior para o Brasil nessa área seja que um excesso de cautela por parte do Banco Central leve a uma desaceleração excessiva da demanda doméstica. O perigo de desvalorização muito forte do real é bem menor que o da moeda russa (o rublo), que está bastante sobrevalorizada. As empresas russas contraíram crédito em moeda estrangeira de forma excessiva nos últimos anos. O estoque de dívida privada externa na Rússia pulou de US$ 64 bilhões em 2004 para quase US$ 300 bilhões neste ano, o que representa um risco grande de possível dificuldade de rolagem neste momento de forte retração do crédito.

Risco

Tudo isso quer dizer que o Brasil está blindado contra a crise? Certamente, não. Se os preços de commodities, por exemplo, desabarem, o país será um dos mais negativamente afetados, dado o alto peso das mesmas (por volta de 50%) na pauta de exportação brasileira.

Mas esse risco ainda parece ser relativamente pequeno. Fatores estruturais que sustentam os preços nos altos níveis atuais (como muito mais gente consumindo mais comida na Ásia) dificilmente desaparecerão.

Tampouco os dados que fazem com que o Brasil esteja menos sensível que outros emergentes a riscos associados à crise atual querem dizer que o potencial de crescimento de longo prazo do país seja melhor que os dos demais. Isso vai depender de muitos outros fatores, como progresso na área de educação e reformas estruturais. Mas os dados, sim, chamam atenção para o fato de que o Brasil não é mais (talvez nunca tenha sido) o pior dos Brics.

ÉRICA FRAGA é editora de América Latina da consultoria britânica Economist Intelligence Unit (ericafraga@economist.com)

25/09/2008 - 08:29h Brics podem indicar saída para atoleiro

JIM O’NEILL ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” - FOLHA SP

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A DESPEITO da magnitude dos desafios atuais, se já houve um bom momento para que os Estados Unidos e o mundo enfrentassem as notáveis dificuldades que vivemos, é este. E isso porque o consumo dos principais países de mercado emergente Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) parece capaz de compensar a desaceleração nos Estados Unidos. Um grande volume de demanda mundial continua a ser criado pelos Brics. Isso é especialmente válido no que tange à China, que em agosto viu uma aceleração de 15,9% nas vendas do varejo, já considerada a inflação. Os consumidores chineses estão contribuindo mais para o PIB (Produto Interno Bruto) mundial do que os infames consumidores dos Estados Unidos. Enquanto isso, o Brasil registrou crescimento muito mais forte que o esperado em seu PIB, no trimestre passado, com 6,1%.

Demanda

De acordo com as nossas mais recentes estimativas, até agora nesta década os países Brics apresentaram quase tanta demanda quanto os Estados Unidos. No futuro, a porção deles na demanda mundial começará a se encaminhar ao mesmo patamar ocupado pelas economias agregadas do G7 (grupo dos 7 países mais industrializados). Os Estados Unidos estão empreendendo uma dramática mudança de equilíbrio. Era óbvio há algum tempo que os consumidores norte-americanos estavam distendidos e que uma razão de consumo superior a 70% do PIB é insustentável. A tendência começou a se reverter no último ano. É bastante concebível que, ao longo dos próximos dez anos, o consumo caia para perto dos 60% do PIB, nos Estados Unidos. Para que o PIB mundial seja capaz de enfrentar a queda no consumo norte-americano, o consumo precisa subir em outros lugares. O consumo norte-americano, em 70% do PIB do país, equivale a 21% do PIB mundial. Caso caia a 60% do PIB dos Estados Unidos, equivalerá a apenas 18% do PIB mundial. O consumidor dos Brics pode ajudar a compensar esse fator e pode também receber alguma ajuda dos consumidores alemães e japoneses, ainda que de forma mais limitada. Isso significa que, no início desse período de ajuste, um crescimento mundial da ordem de 3,5% é perfeitamente viável, mesmo que não sejamos capazes de sustentar os 5%. Embora muita gente no setor de serviços financeiros, que compreensivelmente vem concentrando suas preocupações nos próprios problemas, acredite agora que existe uma compressão de crédito em toda parte, é improvável que todos os demais países enfrentem a mesma situação que os Estados Unidos. De fato, o que acontecer quanto ao preço do petróleo e de outras commodities provavelmente será muito mais importante, certamente para os grandes países de mercado emergente e talvez para alguns dos países desenvolvidos nos quais as restrições de crédito sejam menores, como na Alemanha e no Japão. Quanto a isso, os desdobramentos das últimas semanas parecem positivos. Os preços menores do petróleo são bons para a renda real disponível em muitos desses lugares, e isso quase certamente significa que a inflação cairá de forma acentuada nos próximos meses. Uma das grandes lições do crash das Bolsas em 1987, e também da crise da Long-Term Capital Management em 1998, é que, ao agir com rapidez, as autoridades conseguiram isolar os mercados financeiros do restante da economia. A economia dos Estados Unidos e a mundial não entraram em recessão, nos dois casos. As lições deveriam ser lembradas quanto às ações que estão sendo empreendidas pelas autoridades dos Estados Unidos. Apoiar a Fannie Mae e a Freddie Mac, apoiar a AIG e agora propor uma versão modernizada do resgate às instituições de poupança e empréstimos pela RTC são as medidas necessárias a garantir que os males do setor bancário não causem crise econômica mundial generalizada.

Condições melhoram

Prever para onde vamos nos próximos dias e semanas seria ousadia. Mas as condições para uma recuperação significativa nos mercados de capitais melhoraram dramaticamente, não menos por efeito do senso de “crise”, que facilita as ações das autoridades. As ações das autoridades norte-americanas e chinesas na semana passada mostram que os líderes das duas economias possivelmente mais importantes do mundo estão agindo de maneira proativa para conter a crise. Agora, todas as atenções estarão concentradas nos demais países dos quais se espera resposta igualmente proativa. No Reino Unido, por exemplo, onde os empréstimos hipotecários caíram de maneira dramática e a economia é mais fraca que a dos Estados Unidos, algumas medidas econômicas criativas para mitigar os efeitos de desaceleração cíclica de outro modo severos deveriam ser consideradas seriamente.

JIM O’NEILL é economista-chefe do Goldman Sachs

24/09/2008 - 09:10h Pigs e Brics: confronto de siglas no debate da crise

http://ruvr.ru/files/Image/portuguese_service/Jonas/ONU_ORGANIZACOES/bric-big.jpghttp://bkmarcus.com/blog/images/stories/3pigs/BigBadWolfHead.jpgPaíses da Europa mais ameaçados de recessão (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) são o contraponto aos maiores emergentes em evento londrino

Daniela Milanese, O Estado de São Paulo - LONDRES

Um novo confronto de siglas caracteriza o atual ambiente global, transformado pela crise que atingiu as maiores economias do mundo. Enquanto os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) continuam a ser apontados como os condutores do crescimento mundial, agora na Europa a expressão Pigs (porcos, em inglês) vem cunhar a posição menos favorecida de Portugal, Itália, Grécia e Espanha.

“Brics soa bem, mas Pigs, não”, disse o vice-presidente sênior do The Economist Group, Daniel Thorniley, durante o evento “Emerging Markets Summit 2008″, realizado ontem em Londres.

A referência aos principais emergentes do mundo, criada pelo executivo do Goldman Sachs Jim O’Neill em 2001, faz alusão a “brick” - tijolo em inglês. Já a sigla Pigs começou a ser usada pela mídia internacional para caracterizar os países europeus próximos da recessão.

Ao aparecer na coluna “Lex” do Financial Times no início do mês, o termo chegou a irritar o ministro de Economia português, Manuel Pinho. Polêmica à parte, a percepção de executivos e especialistas é de que agora a busca por oportunidades mais lucrativas de crescimento a longo prazo ganhará mais intensidade. Nesse contexto, a adoção de estratégias adequadas aos mercados emergentes recebe importância renovada.

“As empresas alemãs não estão investindo na Alemanha porque não há confiança”, disse Thorniley, ressaltando que a inflação afetou o poder de compra da população. Por isso, ele acredita que os emergentes, onde há mercado consumidor, são mais atraentes.

“Os executivos estrangeiros reconhecem que, se quiserem elevar seus lucros, não será em seus mercados domésticos”, disse o diretor Danny Lopez, da UK Trade & Investment (UKTI), órgão do governo britânico.

Para os especialistas, será difícil ver todos os países em desenvolvimento passarem pela crise externa sem arranhão. O crédito mais apertado deve limitar a capacidade de investimentos das empresas e o dinheiro não vai fluir como antes.

Porém, a avaliação positiva dos emergentes ainda prevalece - tanto que o evento em Londres reuniu mais de 200 participantes, que ouviram executivos de primeira linha contarem as estratégias de vendas e recursos humanos mundo afora, com poucas menções à palavra “crise”. “O Lehman Brothers e a AIG não terão impacto sobre São Paulo”, disse Lopez.

Para Jim O’Neill - que como “pai” dos Brics continua entusiasta -, o crescimento econômico global virá cada vez mais desses países. “Entre eles, acho que o Brasil é hoje o mais interessante, pois está conseguindo passar por anos de estabilidade depois de anos de caos.”

Os Brics vão continuar dominando o fluxo de investimentos nos mercados emergentes. Além disso, os empresários começam a buscar outras regiões desses países para expandir os negócios, conforme aponta pesquisa realizada pela UKTI e pela Economist Intelligence Unit (EIU). “Os executivos querem não só continuar investindo nos Brics como aprofundar esses aportes”, disse Danny Lopez ao Estado.

Realizado em agosto, o levantamento consultou 561 companhias de 19 setores pelo mundo. Perto de dois terços, ou 63%, acreditam que a força econômica dos emergentes vai contrabalançar o impacto da desaceleração da Europa e América do Norte. Dessa forma, a receita produzida nos países em desenvolvimento deve passar de 29% para 38% em três anos. Além disso, 34% afirmaram que sua empresa entrará em três ou mais novos emergentes no período de cinco anos.

Apesar de a pesquisa ter sido feita antes do agravamento da crise, com o colapso do Lehman Brothers e a venda do Merrill Lynch ao Bank of America, Lopez avalia que a confiança nos emergentes não mudou. Ao contrário, a turbulência aumenta a necessidade de buscar investimentos mais lucrativos.

No levantamento, 29% disseram que o Brasil é um mercado prioritário para expansão. O porcentual é mais elevado para os outros Brics: a China é considerada prioridade para 49% dos entrevistados, seguida pela Índia (42%) e Rússia (33%).

A EIU estima que o investimento externo direto (IED) na China vai somar US$ 87 bilhões nos próximos cinco anos, em média. Para o Brasil, a previsão é de US$ 31 bilhões, nível similar ao atual. A Rússia deve sofrer com o aumento do risco e pode ver o investimento cair de US$ 52 bilhões neste ano para US$ 44 bilhões no próximo. Já a Índia deve responder pelo maior crescimento anual de IED, passando de US$ 23 bilhões em 2007 para US$ 60 bilhões em 2012.

23/09/2008 - 16:10h Lula defende “regulação” na economia mundial, no seu discurso na ONU

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Agencia Estado

 

SÃO PAULO - Na abertura da 63ª Assembléia Geral das Organizações das Nações Unidas (ONU), em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira, 23, citando o economista Celso Furtado, que a privatização dos lucros e a socialização das perdas é uma atitude “inadmissível”. Lula centrou seu discurso na crise financeira global. “A crise financeira é dura realidade. A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos, após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial”, acrescentou.Em clara referência ao pacote de socorro implementado pelo governo norte-americano, o presidente observou que as “indispensáveis intervenções” realizadas pelo Estado mostram que “é chegada hora da política”. “Somente ação determinada dos governantes, em especial de países que estão no centro da crise, será capaz de combater a desordem que se instalou nas finanças internacionais, com efeitos perversos na vida cotidiana de milhões de pessoas”.

Leia abaixo a íntegra do discurso:

Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas, Nova Iorque-EUA, 23 de setembro de 2008

Senhores e senhoras chefes de Estado e de Governo,

Senhor Miguel d’Escoto, presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas,

Senhor Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas,

Senhoras e senhores chefes de Delegação,

Saúdo, com alegria, o presidente da Assembléia Geral, meu ilustre amigo Miguel d’Escoto. Desejo-lhe pleno êxito em sua missão.

Esta Assembléia realiza-se em um momento particularmente grave. A crise financeira, cujos presságios vinham se avolumando, é hoje uma dura realidade. A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial.

As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política. Somente a ação determinada dos governantes, em especial naqueles países que estão no centro da crise, será capaz de combater a desordem que se instalou nas finanças internacionais, com efeitos perversos na vida cotidiana de milhões de pessoas.

A ausência de regras favorece os aventureiros e oportunistas, em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. É inadmissível, dizia o grande economista brasileiro Celso Furtado, que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas.

O ônus da cobiça desenfreada de alguns não pode recair impunemente sobre os ombros de todos. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores. A ética deve valer também na economia. Uma crise de tais proporções não será superada com medidas paliativas. São necessários mecanismos de prevenção e controle, e total transparência das atividades financeiras.

Os organismos econômicos supranacionais carecem de autoridade e de instrumentos práticos para coibir a anarquia especulativa. Devemos reconstruí-los em bases completamente novas. Dado o caráter global da crise, as soluções que venham a ser adotadas deverão ser também globais, tomadas em espaços multilaterais legítimos e confiáveis, sem imposições. Das Nações Unidas, máximo cenário multilateral, deve partir a convocação para uma resposta vigorosa às ameaças que pesam sobre nós.

Há outras questões igualmente graves no mundo de hoje. É o caso da crise alimentar, que ameaça mais de um bilhão de seres humanos; da crise energética, que se aprofunda a cada dia; dos riscos para o comércio mundial, se não chegarmos a um acordo na Rodada de Doha; e da avassaladora degradação ambiental, que está na origem de tantas calamidades naturais, golpeando sobretudo os mais pobres.

Senhor Presidente,

Senhoras e senhores,

O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo, e com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas, e até fascistas, que nos fazem evocar, temerosos, tempos que pensávamos superados.

Um suposto “nacionalismo populista”, que alguns pretendem identificar e criticar no Sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos. As crises financeira, alimentar, energética, ambiental e migratória, para não falar das ameaças à paz em tantas regiões, demonstram que o sistema multilateral deve se adequar aos desafios do século XXI. Aos poucos vai sendo descartado o velho alinhamento conformista dos países do Sul aos centros tradicionais.

Essa nova atitude não conduz, no entanto, a uma postura de confrontação. Simplesmente pelo diálogo direto, sem intermediação das grandes potências, os países em desenvolvimento têm-se credenciado a cumprir um novo papel no desenho de um mundo multipolar. Basta citar iniciativas como o IBAS, o G-20, as cúpulas América do Sul-África ou América do Sul-Países Árabes e a articulação dos BRICs.

Está em curso a construção de uma nova geografia política, econômica e comercial no mundo. No passado, os navegantes miravam a estrela polar para “encontrar o Norte”, como se dizia. Hoje estamos procurando as soluções de nossos problemas contemplando as múltiplas dimensões de nosso Planeta. Nosso “norte” às vezes está no Sul.

Em meu continente, a Unasul, criada em maio deste ano, é o primeiro tratado - em 200 anos de vida independente - que congrega todos os países sul-americanos. Com essa nova união política vamos articular os países da região em termos de infra-estrutura, energia, políticas sociais, complementaridade produtiva, finanças e defesa.

Reunidos em Santiago do Chile há pouco mais de uma semana os presidentes da América do Sul, comprovamos a capacidade de resposta rápida e eficaz da Unasul frente a situações complexas, como a que vive a nação-irmã boliviana. Respaldamos seu governo legitimamente eleito, suas instituições democráticas e sua integridade territorial e fizemos um apelo ao diálogo como caminho para a paz e a prosperidade do povo boliviano.

Em dezembro, o Brasil irá sediar, na Bahia, uma inédita cúpula de toda a América Latina e do Caribe sobre integração e desenvolvimento. Será uma reunião de alto nível, sem qualquer tutela, assentada em uma perspectiva própria latino-americana e caribenha.

Todos esses esforços no plano multilateral são complementados por meio de ações de solidariedade de meu país para com nações mais pobres, especialmente na África. Quero também enfatizar nosso compromisso com o Haiti, país em que exercemos o comando das tropas da Minustah e ajudamos a restabelecer a paz. Renovo meu chamamento à solidariedade dos países desenvolvidos com o Haiti, muito prometida e pouco cumprida.

Senhor Presidente,

A força dos valores deve prevalecer sobre o valor da força. É preciso que haja instrumentos legítimos e eficazes de garantia da segurança coletiva.

As Nações Unidas discutem há quinze anos a reforma do Conselho de Segurança. A estrutura vigente, congelada há seis décadas, responde cada vez menos aos desafios do mundo contemporâneo. Sua representação distorcida é um obstáculo ao mundo multilateral que todos nós almejamos. Considero, nesse sentido, muito auspiciosa a decisão da Assembléia Geral de iniciar prontamente negociações relativas à reforma do Conselho de Segurança.

O multilateralismo deve guiar-nos também na solução dos complexos problemas ligados ao aquecimento global, com base no princípio de responsabilidades comuns, porém diferenciadas. O Brasil não tem fugido a suas responsabilidades. Nossa matriz energética é crescentemente limpa.

As crises alimentar e energética estão profundamente entrelaçadas. Na inflação dos alimentos estão presentes - ao lado de fatores climáticos e da especulação com as commodities agrícolas - os aumentos consideráveis do petróleo, que incidem pesadamente sobre o custo de fertilizantes e transporte.

A tentativa de associar a alta dos alimentos à difusão dos biocombustíveis não resiste à análise objetiva da realidade. A experiência brasileira comprova - o que poderá valer também para outros países com características semelhantes - que o etanol de cana-de-açúcar e a produção de biodiesel diminuem a dependência de combustíveis fósseis, criam empregos, regeneram terras deterioradas e são plenamente compatíveis com a expansão da produção de alimentos. Queremos aprofundar esse debate, em todos os seus aspectos, na Conferência Mundial sobre biocombustíveis que convocamos para novembro, na cidade de São Paulo.

Minha obsessão com o problema da fome explica o empenho que tenho tido, junto a outros líderes mundiais, para chegar a uma conclusão positiva da Rodada de Doha. Continuamos insistindo em um acordo que reduza os escandalosos subsídios agrícolas dos países ricos. O êxito da Rodada de Doha terá impacto muito positivo na produção de alimentos, sobretudo nos países pobres e em desenvolvimento.

Senhor Presidente,

Há quatro anos, junto com vários líderes mundiais, lancei aqui em Nova Iorque a Ação contra a Fome e a Pobreza. Nossa proposta era, e continua sendo, a de adotar mecanismos inovadores de financiamento. A Unitaid, Central de Compra de Medicamentos, é um primeiro resultado dessa iniciativa, ajudando a combater Aids, tuberculose e malária em vários países da África. Mas não basta. Precisamos avançar, e muito, se queremos que a Humanidade cumpra efetivamente as Metas do Milênio.

Em dezembro serão comemorados os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que não pode ser objeto de uma homenagem meramente protocolar. Ela traduz compromissos inalienáveis, que nos interpelam a todos. Como governantes, mais do que a defesa retórica da Declaração, somos chamados a lutar para que os valores proclamados há seis décadas se transformem em realidade em cada país e em todo o mundo.

Senhor Presidente,

O Brasil de hoje é muito distinto daquele de 2003, ano em que assumi a Presidência do meu país e em que, pela primeira vez, compareci a esta Assembléia Geral. Governo e sociedade deram passos decisivos para transformar a vida dos brasileiros. Criamos quase 10 milhões de empregos formais. Distribuímos renda e riqueza. Melhoramos os serviços públicos. Tiramos 9 milhões de pessoas da miséria e outras 20 milhões ascenderam à classe média. Tudo isso em um ambiente de forte crescimento, estabilidade econômica, redução da vulnerabilidade externa e, o que é mais importante, fortalecimento da democracia, com intensa participação popular.

No ano em que celebramos o centenário do grande brasileiro Josué de Castro, o primeiro diretor-geral da FAO e um dos pioneiros da reflexão sobre o problema da fome no mundo, vale a pena recordar sua advertência: “Não é mais possível deixar-se impunemente uma região sofrendo de fome, sem que o mundo inteiro venha a sofrer as suas conseqüências.” Tenho orgulho de dizer que o Brasil está vencendo a fome e a pobreza.

Senhor Presidente,

Reitero o otimismo que expressei aqui há cinco anos. Somos muito maiores do que as crises que nos ameaçam. Dispomos de sentimento, razão e vontade para vencer qualquer adversidade. Esse, mais do que nunca, é o espírito dos brasileiros.

Muito obrigado.

16/09/2008 - 10:44h Crise afetará muito pouco o Brasil, diz criador da sigla Brics

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Jim O’Neill, de Goldman Sachscriador do termo BRIC

PEDRO DIAS LEITE - FOLHA SP

DE LONDRES

O Brasil deveria se preocupar menos com a crise nos EUA e em outros países desenvolvidos e mais com o crescimento da China e com os preços do petróleo e de outras commodities.

A avaliação é de Jim O’Neill, economista-chefe do Goldman Sachs e criador da expressão Bric (as iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China).

Segundo ele, “as pessoas não deveriam exagerar” o impacto do mais recente episódio da crise econômica global, a quebra do Lehman Brothers.

O impacto da enorme turbulência será “muito pequeno” no crescimento do Brasil, que tem de ficar atento a duas barreiras: um crescimento abaixo de 7% na China e o petróleo abaixo de US$ 80. Além disso, conter os gastos governamentais. Em sua avaliação, a economia do Brasil nunca esteve tão “sólida” e “estável” nos últimos 30 anos.

Partidário da tese do “descolamento” entre as economias emergentes e as dos países desenvolvidos, O’Neill diz: “Graças a Deus que temos os Brics!”.

Segundo ele, essa é uma crise apenas do mundo rico.

PERGUNTA - Como essa nova fase da crise vai afetar o mundo?
JIM O’NEILL - A que crise você está se referindo?


PERGUNTA - À falência do Lehman, à venda da Merrill Lynch, à situação difícil da AIG…

O’NEILL - Minha visão é: graças a Deus pelos Brics!


PERGUNTA - Por quê?

O’NEILL - Todas as pessoas que estão reagindo com um enorme medo ao que aconteceu nesse final de semana precisam se perguntar o seguinte: isso vai afetar o consumidor chinês? O fato de o Lehman não existir mais vai ter um impacto negativo nas vendas do comércio chinês? Para o mundo que está emergindo para ser a liderança do futuro, não é nada demais esse problema.
É uma enorme questão nos EUA e nos países ricos. Mas, no mundo como um todo, as pessoas não deveriam exagerar os impactos dessa crise.

PERGUNTA - O que o senhor quer dizer com isso?

O’NEILL - Eu vejo o que está acontecendo com o Lehman como mais um sintoma do fim de auge do consumo norte-americano. Se você olhar toda a informação que nós temos, inclusive do Brasil, mas particularmente da China, as vendas no varejo e os gastos dos consumidores estão se acelerando nos Brics, enquanto os EUA estão sofrendo imensamente com a turbulência econômica mundial. São sintomas, muito mais do que a causa. Desde que não haja um problema sistêmico, não acho que seja importante o que as pessoas falam.


PERGUNTA - As pessoas falam muito de “descolamento”. O senhor parece ser partidário dessa idéia.

O’NEILL - É justamente isso que acabei de falar. Estamos com um genuíno descolamento da demanda doméstica nos grandes mercados emergentes para longe dos EUA. O Brasil não precisa mais dos EUA.


PERGUNTA - O Brasil cresceu 6% no último trimestre. Essa crise não vai afetar em nada o crescimento do país, é isso o que o sr. está dizendo?

O’NEILL - Muito pouco. Se a China crescer abaixo de 7%, isso me preocuparia muito mais no Brasil do que a situação dos EUA. Porque a China tem sido o grande condutor marginal da economia no último ano. Não vamos saber se o B nos Brics é merecido até que as commodities passem por um período de correção. Acho que é bom que o Brasil esteja passando por esse teste, com a queda das commodities. E, até agora, o Brasil tem feito um grande trabalho. A política do BC é fantástica.

PERGUNTA - O senhor tem uma visão bastante rósea da economia brasileira.

O’NEILL - Sim. Tenho duas preocupações com a economia brasileira nos próximos anos. Um: como o Brasil vai lidar com a queda das commodities. O país está indo muito bem. Dois, o governo continua a gastar muito dinheiro. Se o Brasil continuar a manter o ritmo de crescimento acima dos 5%, então será necessário que o governo reduza seus gastos. Mas estou muito otimista. O Brasil é uma economia mais forte e estável do que em qualquer ponto nos últimos 30 anos.

16/09/2008 - 09:41h “Estou otimista e acho que o País conseguirá passar pelo teste, pois a economia hoje é muito mais forte e estável.”

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A declaração é de Jim O’Neill, economista do Goldman Sachs e criador do termo “BRIC” para se referir aos quatro países emergentes (Brasil, Russia, Índia e China). Para ele o Brasil será testado pela crise, mas ele confia na capacidade do país. Otimismo justificado. LF (fonte OESP).

 

 

 

 

25/08/2008 - 10:28h Aumento da classe média atrai companhias

Brasil aparece como 8.º destino das empresas, mostra estudo da KPMG

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Patrícia Cançado e Renato Cruz - O Estado de São Paulo

Até 2010, cem milhões de pessoas terão migrado para a classe média no mundo. A estatística faz parte de um estudo encomendado pela General Eletric com o objetivo de entender de onde veio e virá o crescimento no mundo a partir de 2002. “Até agora, 65 milhões já mudaram de patamar. Um terço deles no Brasil”, afirma o vice-presidente de marketing para a América Latina da GE, João Geraldo Ferreira.

Na sede da GE, nos Estados Unidos, poucos poderiam imaginar essa mudança rápida em pouco tempo. O País era relegado a segundo plano na gestão de Jack Welch. No primeiro trimestre, o faturamento da operação local aumentou 87% e, no segundo, 41%. “Para a GE, a América Latina é maior do que a China e Índia juntas”, diz Ferreira.

Entre este e o próximo ano, a companhia vai instalar três fábricas no Brasil. A de locomotivas foi inaugurada em maio. Uma de equipamentos para a área de saúde deve começar a funcionar em 2009. A terceira fábrica produz máquinas de purificação de água.

Os números nem sempre falam por si. Os brasileiros da GE começaram a estimular visitas de executivos estrangeiros ao País para fazer com que a matriz reconheça o potencial local. “O americano, quando conhece o Brasil, leva um choque cultural”, diz Ferreira. “Muitas vezes, levamos o executivo de helicóptero, do aeroporto de Guarulhos para o hotel, e ele fica admirado com a extensão de São Paulo, com a quantidade de prédios em construção.” E a GE já é uma empresa com alto grau de internacionalização. Hoje, metade do seu faturamento tem origem fora dos EUA. Em 2020, a expectativa é que a operação internacional responda por 80% das receitas.

O País nunca recebeu tantas visitas de presidentes mundiais e executivos de alto escalão de empresas estrangeiras. Com um discurso invariavelmente igual, eles vêm para reafirmar o interesse pelo mercado. Virou clichê dizer que o Brasil é estratégico para as mais diversas companhias, desde a fabricante de alimentos Pepsi até a grife de luxo de jeans Diesel.

A Pepsi veio ao País neste mês para anunciar aporte de US$ 450 milhões até 2013. A Diesel abriu aqui, há duas semanas, a sua maior loja no mundo. “O Brasil tem seu mérito nesse cenário, mas eu somaria a isso o fato de a economia lá fora não estar boa. Se todo o mundo estivesse bem, o País não brilharia tanto”, diz a sócia da consultoria KPMG, Marienne Munhoz.

O grau de investimento também serviu como uma chancela para empresas de menor porte e fundos de pensão e de investimento tentarem a sorte por aqui. “No passado, o perfil das empresas que procuravam o Brasil era muito diferente do das atuais. Empresas como as montadoras e a Nestlé tinham estrutura para suportar investimentos com retorno de longo prazo”, diz Marienne.

Segundo pesquisa anual da KPMG, de junho deste ano, o Brasil aparece como oitavo principal destino das empresas. Nos próximos cinco anos, sobe para a sexta posição, atrás de China, EUA, Rússia, Índia e Reino Unido.

BRICS

Por muitas décadas, o Brasil sequer era citado nos balanços das multinacionais. Hoje o País ganhou status de queridinho. Na Unilever, o Brasil já é o terceiro maior mercado. Estava em sétimo lugar há dois anos. Em alguns casos, o lucro gerado aqui está ajudando a pagar a conta das problemáticas operações nos seus países de origem.

A Volkswagen anunciou na quinta-feira que o Brasil passou a Alemanha pela primeira vez em número de carros vendidos. Agora, só perde para a China. Na Fiat, Ford e GM, a subsidiária também escalou posições numa velocidade espantosa.

Em termos absolutos, o Brasil tende a receber menos investimentos porque já é um país relativamente maduro em relação aos outros Brics (Índia, China e Rússia). Até 2007, o estoque de investimento representava 20,8% do PIB. Na China, ainda é de 11,1%. “A China e a Índia estão construindo a casa, enquanto o Brasil está reformando”, diz o presidente da consultoria Boston Consulting Group, Walter Piacsek.

25/08/2008 - 10:19h País lidera Brics em tecnologia

Estudo da IDC mostra que Brasil investe mais do que outros emergentes, inclusive a China

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Renato Cruz - O Estado de São Paulo

No ano passado, a subsidiária brasileira da HP resolveu encomendar um estudo sobre o Brasil para a consultoria americana IDC. A idéia era mostrar para a matriz e para clientes internacionais as oportunidades que existiam no País, quando comparado a outros emergentes. “Naquela época, existia uma tremenda discussão se o Brasil fazia sentido, ou se o B dos Brics tinha morrido”, diz Denoel Eller, diretor de Marketing e Alianças da HP. “A HP vinha investindo no Brasil, mas menos do que nos outros Brics. Havia uma imagem de que o País não estava crescendo, que tinha violência e instabilidade.”

No meio do caminho, enquanto o estudo era feito, a situação mudou. Em 2007, foram vendidos 10,7 milhões de microcomputadores no País, o que tornou o Brasil o quinto maior mercado de PCs do mundo. A expectativa é que ele se torne o terceiro maior até 2010, atrás somente da China e dos Estados Unidos. Um exemplo da mudança foi o interesse da imprensa internacional em relação ao País.

Neste ano, o atual presidente da subsidiária brasileira, Mário Anseloni, visitou a matriz, nos EUA, e teve de dar uma entrevista coletiva para os americanos. “Eles acabaram surpresos ao saber, por exemplo, que o mercado brasileiro de software e serviços de tecnologia é maior que o de equipamentos”, conta Eller.

O estudo da IDC mostrou que, entre os Brics, o Brasil só perde para a China no volume de investimentos em tecnologia. Quando se analisa, porém, o total de investimentos como porcentual do Produto Interno Bruto (PIB), o Brasil está à frente, sendo o único entre os emergentes com gastos maiores que 2% do PIB. “Isso coloca o Brasil ao lado de países como Japão, França e Alemanha”, afirma Roberto Gutierrez, diretor de Consultoria da IDC Brasil.

O mercado de tecnologia no País deve crescer três vezes mais que o PIB nos próximos quatro anos, a maior taxa entre os Brics. O da China, por exemplo, deve aumentar 1,43 vez em relação à economia em geral. O estudo da IDC também mostrou que o Brasil está em uma situação melhor no que diz respeito à estabilidade e à liberdade econômica. Como resultado, a HP conseguiu da matriz a contratação de 800 pessoas para o setor de serviços.

A mudança na imagem do Brasil fez com que a fabricante de computadores Dell nomeasse o brasileiro Fernando Loureiro diretor global de Mercados Emergentes, há cerca de um ano e meio. A divisão não existia e foi criada como uma das cinco iniciativas mundiais da empresa para acelerar o crescimento. O executivo continua sediado no Brasil, de onde comanda a divisão. “Pouquíssimos países receberam destaques em todos os relatórios da Dell nos últimos trimestres, como foi o caso do Brasil”, afirma Loureiro.

A situação atual contrasta bastante com o que acontecia há cinco ou seis anos, quando o mercado de PCs era pequeno e dominado pelos chamados fabricantes cinzas, que sonegam impostos e usam peças contrabandeadas. O corte de impostos federais, o câmbio favorável, o avanço do financiamento e a melhora da situação econômica mudaram a situação. “Em 2002, chegamos a pensar em deixar o País”, diz o diretor da Dell.

A Dell, que prosperou com um modelo de venda direta de computadores, começou a ir para o varejo, e o mercado brasileiro foi um dos pioneiros no movimento. “Fizemos uma série de ações fortes com varejistas como o Wal-Mart e o Ponto Frio”, explica Loureiro.

Outra empresa que recebe reflexos positivos do aumento na venda de PCs é a Microsoft. Em julho, o Brasil ganhou um prêmio da corporação como a melhor subsidiária de países emergentes. A redução do chamado mercado cinza levou a uma queda na pirataria de software, que beneficiou a Microsoft.

Além do crescimento do mercado, a diretora de Marketing e Negócios da companhia, Paula Bellizia, afirma que a Microsoft Brasil tem obtido bons resultados por causa de suas estratégias de aumento dos escritórios regionais, do número de empresas-parceiras e de profissionais treinados em suas tecnologias.

“No último ano, abrimos oito escritórios regionais no Brasil, chegando a 13 escritórios”, diz a executiva. “Ainda existe um potencial de crescimento muito grande no Brasil, tanto em tecnologia quanto em educação.”

25/08/2008 - 10:13h Brasil lidera investimento entre países emergentes

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Brasil é o ”queridinho” entre as principais economias emergentes

 

 

País está a frente de China, Índia e Rússia

 

 

País registra a maior taxa de crescimento de investimento direto estrangeiro de 2006 para 2007, revela Unctad

 

 

 

Patrícia Cançado - O Estado de São Paulo

A mineradora sul-africana Anglo American viveu dois milagres econômicos no Brasil. Mas foram necessários 24 anos para apostar de fato suas fichas no País, onde fincou sua base em 1973. Até o ano passado, a operação brasileira da Anglo era a lanterninha entre as dez subsidiárias. A entrada em minério de ferro, com a compra da MMX do empresário Eike Batista, colocou a filial em outro patamar.

Hoje aparece entre os três maiores destinos de investimentos do grupo, ao lado do Chile e da África do Sul. Só essa área vai receber US$ 10 bilhões até 2010, sendo 55% apenas neste ano, um recorde na história da multinacional e talvez o maior desembolso feito por estrangeiros neste ano de uma só vez. “O Brasil entrou no radar da Anglo. A companhia decidiu apostar alto porque quer participar desse crescimento”, diz o presidente da Anglo Ferrous Brazil, Alexandre Gomes.

O “radar” da Anglo dá a medida da importância que o Brasil ganhou no cenário internacional. Entre 2006 e 2007, o País teve o maior crescimento de investimentos diretos estrangeiros entre as economias emergentes, à frente de China, Índia e Rússia, segundo a Unctad, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. O volume dobrou - saiu de US$ 18,8 bilhões para US$ 37,4 bilhões. Até julho deste ano, encostou em US$ 20 bilhões, o que leva a acreditar que o País deve atingir neste ano o mesmo patamar de 2007, contrariando a tendência mundial, que aponta queda de 37% no fluxo de investimentos.

Quando a expressão Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) foi cunhada pelo banco Goldman Sachs, há sete anos, economistas do mundo inteiro questionaram a presença do Brasil. Até 2006, ainda não havia consenso se o País poderia ou não fazer parte do bloco que dominaria a economia em 40 anos. O banco revisou suas análises e o manteve na lista.

Ainda assim, para muitas multinacionais e fundos de participação estrangeiros, o Brasil só foi redescoberto mais recentemente. “O País está passando por novas fases de crescimento, diferente dos vôos de galinha de antes. Os investidores agora conseguem enxergar a longo prazo”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luis Afonso Lima.

O avanço em alguns aspectos macroeconômicos é indiscutível. Com a inflação sob controle, os juros em queda, a melhora na renda e a maior oferta de crédito, o consumo disparou, fazendo a festa das montadoras, das construtoras, das empresas de alimentos, dos bancos, das fabricantes de eletroeletrônicos e do varejo de forma geral.

O Brasil ainda perde em termos de tamanho e custo de mão-de-obra, mas os estrangeiros estão sendo atraídos principalmente pelo crescimento do mercado local. Nesse quesito, o País já ganha da China, iguala-se à Índia e só perde para a Rússia, segundo levantamento da Unctad e elaborado pela Sobeet.

O acesso a recursos naturais e a mão-de-obra eficiente faz o Brasil ter preferência dentro dos Brics. Daí o espantoso interesse da Anglo American, da ArcelorMittal, que na semana passada pagou US$ 830 milhões por uma única mina de ferro em Minas Gerais, e das petrolíferas. Isso, sem falar no etanol, que fez uma legião de gringos construírem ou apenas visitarem usinas por aqui.

O Wal-Mart, no País desde 1995, não teria reservado um investimento de R$ 1,8 bilhão para o próximo ano se não confiasse num bom cenário. Neste ano, a classe média tornou-se maioria (51%). Desde 2004, a rede americana já aplicou R$ 3 bilhões na operação brasileira, sendo R$ 1,2 bilhão neste ano. Hoje a filial é referência para outros emergentes.

O último presidente, Vicente Trius, assumiu no ano passado a operação da cadeia de supermercados na Ásia. A expectativa em Bettonville, sede do Wal-Mart, é que ele repita do outro lado do mundo a experiência tida aqui. O Carrefour chegou a cogitar sair do Brasil por dificuldades em competir com o alto grau de informalidade no setor. Em 2007, deu o recado contrário ao pagar R$ 2,2 bilhões (à vista) pelo Atacadão.

DESTAQUES

US$ 37,4 bilhões
foi quanto o Brasil recebeu de investimento direto estrangeiro em 2007

US$ 18,8 bilhões
foi quanto o Brasil captou de investimento direto estrangeiro em 2006

99,3% foi a taxa
de crescimento no período

04/08/2008 - 10:06h Deu no New York Times, por Matthew Shirts

Matthew Shirts escreve crônicas regularmente no jornal O Estado de São Paulo. Reproduzo um extrato de seu artigo que você poderá ler na integra no jornal. O título ecoa afirmação recente do presidente Lula constatando que o crescimento de 6,5% da indústria no primeiro semestre quase passou desapercebido na mídia brasileira. Já no exterior é outra coisa. Por isso Matthew Shirts escolheu esse título e diz que ele não sabia o que acabou sabendo pelo… New York Times. LF

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(…)Voltava de uma apresentação dessas na livraria Saraiva do MorumbiShopping, noite dessas, de táxi, pela Marginal do Pinheiros. Falara da história da revista National Geographic, um assunto que domino, para um público de umas 10 pessoas, 12 talvez, se contar as crianças. Mas não importa muito o tamanho da platéia, nem o tema, as emoções são as mesmas.

Do banco de trás curtia o novo cartão-postal da cidade, a ponte Otávio Frias de Oliveira, que ainda não vira iluminada, e comentei o crescimento modernoso do bairro de Brooklin, ali do lado direito.

- É por isso - respondeu o motorista, um rapaz jovem, na casa dos 20 - que não entendo como podem chamar isto aqui de Terceiro Mundo.

- O Brasil?, indaguei.

- É. O Brasil. Você vê um bairro desses e pensa: não faz sentido chamar de Terceiro Mundo.

Talvez fosse um resquício de adrenalina da palestra, não sei, mas desandei a falar. Em tom professoral, expliquei que até 17 anos atrás o mundo era dividido em dois blocos. Ele talvez não se lembrasse. Era muito novo na época. Por um lado, havia os países capitalistas e desenvolvidos, englobados no termo Primeiro Mundo. Do outro, as nações comunistas, que integravam o chamado Segundo Mundo. O termo Terceiro Mundo surgiu para descrever os países mais pobres, pós-coloniais, muitos deles que não se alinhavam, necessariamente, nem com um lado, nem com o outro. Tentei fazê-lo ver que o termo traz, embutidas, reivindicações políticas e econômicas, progressistas.

- Mesmo assim - replicou -, não faz sentido.

Insisti na aula. Reconheci que hoje o conceito mais utilizado para o Brasil era o de “país em desenvolvimento”. Faz parte do grupo Bric - Brasil, Rússia, Índia e China. Mas ele não se convenceu. Entrou na Rebouças em silêncio e não falou mais comigo. Para ele, imaginei, o País deveria fazer parte do G-4, tal como seu time de futebol, e não da terceira divisão.

Lembrei dessa conversa na quinta-feira passada, ao me deparar com uma reportagem do New York Times. O título é Economia forte leva o Brasil ao palco mundial, numa tradução meio literal de Strong economy propels Brazil to world stage. Afirma que nosso país está prestes a se tornar uma potência. Aqui tem minérios, petróleo, agronegócios, indústria diversificada e uma forte ascensão social. O Brasil, veja só, diminuiu a distância entre ricos e pobres mais do qualquer outro país na América do Sul na última década. Não sabia disso. (…)”

24/07/2008 - 09:19h Contribuição ao debate sobre inflação e juros

Dez razões para não aumentar a taxa de juros no Brasil

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* João Saboia - VALOR

A partir do recrudescimento da inflação no mundo (e no Brasil), o Banco Central (BC) iniciou há alguns meses um processo de aumento das taxas de juros no país, cujo objetivo final é o combate à inflação. A taxa básica de juros da economia - a famosa Selic (sigla do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) - deverá continuar aumentando nos próximos meses até que o BC se convença que a inflação voltou para níveis compatíveis com as metas oficiais de inflação.

Diversos economistas têm se manifestado na mídia sobre os rumos da atual política monetária BC. Não são poucos aqueles que têm alertado que, na atual situação mundial, há um grande risco deste tipo de atuação demorar para produzir os efeitos desejados, levando o BC a aprofundar o processo de elevação dos juros por um longo período, representando um grande custo para a sociedade e para a economia.

O principal argumento utilizado pelos críticos é a especificidade do processo inflacionário atual, que está longe de ser uma inflação de demanda, onde as taxas de juros podem atuar diretamente sobre sua causa principal. No caso de choques de oferta, como o atual, a situação é distinta e o efeito de um aumento das taxas de juros é bastante questionável, podendo levar a economia para a chamada estagflação - manutenção de alta inflação com baixo crescimento econômico.

Apresentamos a seguir 10 razões para não aumentar ainda mais a taxa básica de juros da economia:

1) A taxa básica de juros no país já está entre as mais elevadas do mundo em termos reais. Seu aumento nominal nos próximos meses deverá elevar ainda mais a taxa real, levando o Brasil ao primeiro lugar com folga;

2) O Brasil tem apresentado crescimento econômico bem menor que os demais países emergentes nos últimos anos. O aumento da taxa de juros provavelmente aumentará a distância em relação a tais países no futuro. A comparação com o grupo de países do BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) é inevitável e francamente desfavorável ao Brasil;

3) O crescimento da taxa de juros atrai capitais especulativos e pressiona a taxa de câmbio para cima, favorecendo as importações e prejudicando as exportações, com reflexos negativos sobre a conta corrente do país. Depois de alguns anos superavitária, a conta corrente vem se deteriorando desde o ano passado e poderá piorar ainda mais com uma nova valorização do real;

O aumento dos juros significa uma redistribuição de renda da sociedade como um todo para os que podem aplicar seus recursos em títulos da dívida

4) Como já apontado no início do artigo, o aumento recente da inflação no Brasil não se deve a uma forte pressão de demanda interna, mas principalmente ao crescimento dos preços internacionais das commodities (petróleo, trigo, soja etc), sobre os quais a taxa de juros brasileiras não tem qualquer influência. Trata-se, portanto, de uma inflação provocada basicamente por um choque de oferta importado. O mais provável é que, em algum momento no futuro próximo, o choque de oferta diminua, ou mesmo seja eliminado, trazendo conseqüências favoráveis para a inflação brasileira e mundial. Tal tipo de experiência já ocorreu no passado, como nos choques de preço do petróleo dos anos 70 e 80. Caso o choque de oferta diminua de intensidade nos próximos meses, já em 2009 a taxa de inflação brasileira poderia convergir para a meta sem necessidade de aumento dos juros;

5) A inflação brasileira está ligeiramente acima do limite superior da meta oficial de 6,5%. Tendo em vista a atual conjuntura internacional, o BC poderia ter maior tolerância e aceitar que o limite superior seja temporariamente superado, como já ocorrido no triênio 2001/03. Em 2003, por exemplo, a meta foi inclusive ajustada para cima para dar conta da situação específica daquele ano. A situação atual também é especial e deve ser tratada como tal;

6) A inflação brasileira está bem mais baixa que em outros países emergentes como África do Sul, Chile, China e Rússia, entre outros. Vários países já estão bem acima de suas metas de inflação, enquanto o Brasil continua caminhando para superá-la relativamente pouco. Em outras palavras, a situação brasileira em termos de inflação é favorável em comparação com o que ocorre no resto do mundo;

7) O custo da rolagem da dívida pública (pagamento de juros) tem flutuado em torno de 7 a 8% do PIB nos últimos anos, o que representa um desperdício enorme de recursos públicos que poderiam ser aplicados para outros destinos sociais ou econômicos mais nobres. O aumento da taxa básica de juros significa uma redistribuição de renda da sociedade como um todo para aqueles que podem aplicar seus recursos em títulos da dívida pública;

8) Com os gastos anuais com o pagamento dos juros da dívida pública, seria possível cobrir os gastos de mais de 10 programas Bolsa-Família. Cada ponto percentual a mais na taxa básica de juros representa aproximadamente o valor de um novo programa Bolsa-Família, o que dá a dimensão dos gastos com pagamento de juros da dívida pública. Em vez de aumentá-los ainda mais, seria desejável reduzi-los para níveis semelhantes aos praticados nos demais países;

9) Se o Banco Central está preocupado em combater a inflação via redução do consumo seria mais criativo se tomasse medidas voltadas para o crédito, como a redução do número máximo de parcelas no crediário, ou o contingenciamento do crédito, fixando volumes máximos que os bancos poderiam emprestar. É claro que haveria reação do sistema bancário, mas os resultados sobre o consumo seriam muito mais fortes do que a partir de mecanismos indiretos como o aumento da taxa básica. Além disso, seu custo para a sociedade seria muito menor;

10) Finalmente, é bem provável que o aumento da taxa básica de juros da economia que será implementado pelo BC nos próximos meses resulte num processo de expectativas desfavoráveis para os agentes (produtores e consumidores), provocando a desaceleração do crescimento e adiando, mais uma vez, a retomada definitiva da economia brasileira.

João Saboia é diretor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

20/07/2008 - 11:47h “O Brasil está no lado “ganhador” e esta havendo uma boa administração no geral”

“Estou certo de que já estamos em recessão”

Para economista americano, crise nos EUA pode se agravar. Mas Brasil está no lado ganhador das ‘commodities’

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ENTREVISTA Paul Krugman

Às vésperas de vir ao Brasil — onde dará palestras, no Rio e em São Paulo, quarta e quinta-feira — Paul Krugman vê a economia brasileira como “uma das partes vigorosas do mundo”. Em entrevista por telefone, Krugman não se mostra otimista com os EUA que, na sua opinião, já estão em recessão. Tampouco mostra ânimo com as eleições americanas — aprova o democrata Barack Obama, mas o considera moderado demais. Autor de diversos livros (o mais recente, “The Conscience of a Liberal”, ainda não lançado em português), professor de Princeton e colunista do “New York Times”, Krugman acredita que o mundo vive o terceiro choque do petróleo e alerta que não há muito o que fazer para conter a inflação global

Luciana Rodrigues - O GLOBO

O GLOBO: A crise financeira americana pode se agravar?

PAUL KRUGMAN
: Sim, pode piorar. Mas, agora, estou menos assustado do que estava no início deste ano. Tivemos uma crise que levou a um colapso completo da confiança no sistema. Agora, apesar de algumas falências (de bancos) e da crise na Fannie Mae e na Freddie Mac (grandes companhias hipotecárias dos EUA), os problemas estão ocorrendo numa parte da economia em que há mecanismos muito bem estabelecidos para lidar com isso. Pode haver uma corrida a bancos, mas os depósitos estão assegurados. As duas grandes financiadoras imobiliárias, Fannie e Freddie, são parcialmente patrocinadas pelo governo. Então, é ruim que a crise continue atingindo as instituições. Mas, de certa maneira, o quadro agora é mais controlável. Porém, a economia real continuará sofrendo, e estou certo de que já estamos numa recessão.

Uma recessão nos EUA afetará o mundo da mesma forma do que no passado?

KRUGMAN
: O contágio será menos intenso. Os EUA não são mais o motor da economia mundial. Podemos ter uma recessão nos EUA sem termos uma recessão no resto do mundo. Mas é preciso levar em conta que a economia européia está tendo sérios problemas também. Há uma crise similar na Europa, com bolha imobiliária. Uma crise que afeta as duas principais economias do mundo é um grande choque. Apesar disso, eu ficaria surpreso se houvesse uma recessão global.

Os grandes emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China, chamados de Brics, assumiram novo papel na economia global?

KRUGMAN
: A categoria Brics é estúpida. São todos grandes, todos são economias em desenvolvimento. Além disso, não têm mais nada em comum. Índia e China podem em algum sentido serem agrupadas. Rússia é um grande exportador de petróleo. O Brasil é grande exportador de commodities e de manufaturados. A questão principal é que o centro de gravidade do mundo migrou dos EUA e da Europa. Ambos continuam sendo grandes economias, continuam sendo os principais jogadores em campo, mas grande parte da economia mundial não está mais nos centros industriais tradicionais. A maior parte do crescimento econômico está vindo dos países emergentes.

O senhor vem ao Brasil na próxima semana. Quais são suas impressões sobre a economia brasileira?

KRUGMAN
: No próximo fim de semana (ontem e hoje), farei meu dever de casa pesquisando mais sobre o Brasil. Mas, claramente, é uma das partes vigorosas do mundo, tem ido melhor do que o resto (do mundo). Não tem tido um desempenho espetacular, mas está com um crescimento razoável. O Brasil está no lado “ganhador” da alta das commodities . E também está havendo uma boa administração no geral (na política econômica brasileira).

O governo do presidente George W. Bush pode ser responsabilizado pela crise financeira nos EUA?

KRUGMAN
: Provavelmente, teríamos uma bolha imobiliária de qualquer maneira, com ou sem o governo Bush. Mas eles (o governo Bush) sistematicamente flexibilizaram as regulamentações e mecanismos de precaução que deveriam limitar os bancos a tomarem riscos excessivos, no exato momento em que mais precisávamos dessa regulamentação. Então, o governo Bush não causou a crise, mas a tornou consideravelmente pior.

E a postura de Alan Greenspan à frente do Federal Reserve (Fed, banco central americano)?

KRUGMAN
: Greenspan pode levar grande parte da responsabilidade. Recentemente, o Fed editou novas regras para a concessão de crédito pelos bancos, para restringir financiamentos irresponsáveis. Isso poderia ter sido feito há cinco anos. E Greenspan foi avisado sobre os riscos dos empréstimos subprime (para clientes com histórico ruim), mas não fez nada. Argumentou que o mercado saberia tomar conta de si mesmo. E ainda deu garantias de que as coisas iriam bem. Disse publicamente que os preços de imóveis nunca caem, que as pessoas deveriam pegar empréstimos e fazer hipotecas. Greenspan é mais vilão do que o governo Bush.

Outra grande preocupação é o avanço da inflação mundial. O que explica a alta de preços?

KRUGMAN
: Bom, em primeiro lugar, temos o preço do petróleo, que tem subido basicamente por uma combinação de crescimento dos países emergentes com piores condições geológicas. Está mais difícil prospectar petróleo. E a China e outras economias emergentes estão consumindo muito mais petróleo. Então, temos uma combinação de demanda em expansão e oferta estagnada. No que diz respeito à alta dos alimentos, há várias razões simultâneas. A primeira é que a alta do petróleo tem muito efeito nos alimentos. Principalmente nos países em desenvolvimento, a agroindústria usa muita energia e também há o efeito dos fertilizantes (cujos preços são influenciados pelo petróleo). E há o aumento da demanda de países emergentes, principalmente da China, onde as pessoas estão ganhando mais dinheiro e, por isso, comendo mais carne. E em terceiro lugar, há questões ambientais. Tivemos eventos climáticos sem precedentes, como a seca na Austrália, que muito provavelmente já é efeito da mudança climática.
Estamos começando a ver os primeiros efeitos econômicos do aquecimento global. E, por último, há os biocombustíveis, que, na Europa e nos EUA, definitivamente, estão desviando recursos antes destinados aos alimentos.

O senhor conhece o programa brasileiro de etanol?

KRUGMAN
: Para os preços de alimentos, o etanol brasileiro é inocente. Não há um desvio na produção de alimentos nem de longe parecido com o etanol americano. E a cana-de-açúcar é uma fonte muito mais eficiente para etanol do que o milho (usado nos EUA). Então, em termos econômicos, o programa brasileiro tem muito mais sentido.
Mas as informações que recebi de especialistas em meio ambiente é que o problema com o etanol brasileiro é que ele é mais danoso em termos de emissão de gases poluentes do que parece à primeira vista. Mas eu não endosso essa afirmação, porque não fiz pesquisas independentes a respeito desse assunto.

No que diz respeito à alta do petróleo, podemos dizer que estamos no meio de um terceiro choque do petróleo?

KRUGMAN
: De certa forma sim. Não temos o mesmo impacto (dos choques anteriores).
Mas as cotações do petróleo, em termos reais, atingiram novos patamares.

Nos países pobres, alimentos caros são sinônimo de fome. A fome se tornou um efeito colateral da globalização?

KRUGMAN
: Não se pode atribuir isso à globalização. Eu sou um crítico da globalização por muitos motivos. Mas, nesse caso, havia muito mais famintos entre os anos 50 e 70 (do século passado) do que há hoje. A situação hoje está melhor em termos de segurança alimentar. Mas havia uma crença de que sempre teríamos abundância na oferta mundial de alimentos, e agora vivemos uma escassez para a qual não estávamos preparados.

O que pode ser feito para conter a inflação mundial?

KRUGMAN
: Na verdade, não há muito a ser feito. Poderíamos pensar numa política de juros mais altos para conter a demanda. Mas não está claro porque deveríamos fazer isso, se tudo que temos até agora é um choque de alimentos e de energia. A longo prazo, mais energia alternativa e mais conservação poderiam reduzir a demanda mundial por petróleo. Mas, por agora, acho que teremos que absorver esse choque.

Os americanos elegem um novo presidente este ano. Barack Obama (candidato democrata) ou John McCain (republicano) podem se sair melhor na economia do que George W. Bush?

KRUGMAN
: Bom, é difícil ser pior (do que Bush). McCain não está oferecendo qualquer mudança. E Obama está oferecendo mudanças sustentáveis, numa direção que eu aprovo, mas minhas críticas são que suas propostas não vão longe o suficiente. E, historicamente, na economia, os governos democratas sempre têm melhor desempenho. Então, temos todas as razões para acreditar que Obama oferece uma perspectiva melhor.

Historicamente, os democratas são mais protecionistas em comércio que os republicanos. Há esse risco com Obama?

KRUGMAN
: É pouco provável. É preciso fazer uma distinção entre o que os partidos falam e o que eles fazem. Se pensarmos em quais foram os governos mais protecionistas nos últimos 40 anos, foram Reagan (Ronald Reagan, de 1981 a 1989) e Bush (filho). Eles falavam sobre livre comércio, mas não o praticavam.
Enquanto isso, os democratas constantemente falam em proteger os EUA da economia mundial, mas não agem de forma protecionista. E uma das razões para isso é que os democratas, e especialmente a equipe de Obama, levam muito a sério as regras internacionais, respeitam as organizações e os tratados internacionais. Então, se tivermos um governo Obama, não voltaremos atrás em acordos comerciais já fechados. Mas, provavelmente, não haverá avanços em novos acordos. E isso é verdade para qualquer governo. Então, é muito difícil pensarmos em acordos na Organização Mundial do Comércio (OMC) ou na Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Não acredito que um governo Obama gastaria capital político com isso

09/06/2008 - 09:18h Novo status do Brasil conquista admiradores

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Brazil’s new status wins admirers

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By Ruth Sullivan - Financial Times

Institutional investors are likely to take a fresh look at Brazil following ratings upgrades by two big agencies in the past two months. PDF

Standard & Poor’s and Fitch have both upgraded Brazil’s long-term sovereign debt to investment status, which means the country is now considered a safe investment destination unlikely to default on its debts.

It has only gained the lowest rung of the investment grade ladder, a long way from the triple A status of developed economies such as the US, Britain or Germany. But the change will nonetheless make it more attractive to a broader range of international investors such as big US pension funds, which are constrained from investing in countries that have not had their capacity to repay debt positively assessed, say fund managers.

Just six years ago the country was widely seen as being on the brink of bankruptcy and many investors would have found it impossible to see Brazil as an investment-grade country.

“The upgrade opens Brazil to a wider investor audience. A lot of funds will only move into a country when it has investment grade rating,” says Julian Thompson, head of emerging market equities at Threadneedle.

Brazil equity funds have just seen their sixth consecutive week of inflows, totalling $1.4bn (£716m, €901m), compared with net outflows of about $632m before that period, according to Boston-based Emerging Portfolio Fund Research, which tracks global fund flows.

“Investors have been attracted to Brazil based on better than expected recent economic growth and the government’s past commitment to responsible fiscal policies that led to fiscal surpluses and mounting foreign exchange reserves,” says Brad Durham, managing director of EPFR.

The strong flows into Brazil’s equity funds come as emerging markets funds in general have suffered severe outflows. The MSCI Brazil index is up almost 20 per cent since the beginning of January, while the MSCI Emerging Markets index is down more than 3 per cent.

Fund managers see the investment grade more as a seal of approval than dramatically changing fundamentals. “When Mexico gained its first investment grade rating in 2000, North American investors gradually began to add Mexican equities to their portfolio,” says Urban Larson, fund manager of F&C’s Latin American fund. He expects a similar pattern to emerge with Brazil.

Although Brazil is the last of the Bric countries (the others being Russia, India and China) to gain investment grade status, many Latin America and Bric fund managers are overweight in the country’s stocks.

“We’ve been fans of Brazil for a long time . . . and expect to maintain an overweight position. Any increase [in weighting] will depend on new companies coming to market,” Mr Thompson says.

Investor appetite has traditionally focused on commodities in a country with significant natural resources, but domestic stocks are beginning to gain some attention as domestic spending and consumption grows. “Brazil is the place where we see the most exciting opportunities,” says Stefan Herz, Latin American fund manager at Charlemagne Capital, an emerging market fund specialist.

“There have been so many initial public offerings in Brazil in the past few years and the emergence of new sectors.”

The information technology, real estate and healthcare sectors have also made a debut. “It is the only Latin American country where this has happened.”

Brazil makes up more than 67 per cent of the weighting of Charlemagne’s Magna Latin America fund.

Nicholas Morse, Schroders Latin America fund manager, is also positive on Brazil. Schroders’ $1.9bn Luxembourg-listed Latin America fund counts Brazil as the “largest overweight country in the portfolio”. The company’s $14.5bn Bric fund is also overweight in Brazilian equities .

On a short term outlook, Mr Morse says equity and fixed income markets have already discounted Brazil’s investment upgrade. But from a longer term perspective, “the status is good for foreign direct investment, especially for sectors [such as] infrastructure”.

At Threadneedle, where 22 per cent of the Global Equity Markets fund is in Brazil, compared with 18 per cent in Russia, 11 per cent in China and just 4 per cent in India, Mr Thompson also sees the attraction of investing in property. “The demand for middle income residential property is strong and remains relatively good value.”

He emphasises the importance of good stock-picking. “Once an investment grade rating has happened, the country [debt] risk has been reduced so there is not so much improvement to come. Then it is more about stock-picking.”

In the financial sector, the fund is looking outside banks, which are growing their loan books strongly but not their earnings, and at companies such as Redecard, a credit card transaction processor.

Another outcome of the rating change is that investor confidence will be boosted enough to encourage investors to look beyond traditional commodities and move into domestic stocks, says Mr Larson of F&C.

F&C’s Latin American Equity fund has been adding Brazilian domestic companies to its portfolio with AmBev, the brewery, which Mr Larson is expecting to show strong volume growth this year. The fund has also added Unibanco to its bank holding and invested in the stocks of All, a railway company, and Localixa, an auto rental company.

But some concerns still remain in the investment community, particularly the spectre of rising inflation and the question of whether current strong commodity prices can be sustained.

09/06/2008 - 08:47h Uma volta ao globo em oito notas

Toda Mídia

NELSON DE SÁ - nelsondesa@folhasp.com.br

Brics e a crise do Ocidente Jim O’Neill falou novamente. Dias atrás, à Folha, deu o Brasil como seu Bric favorito. Ontem, em fórum na Rússia, o criador do acrônimo declarou às agências que a crise financeira “definitivamente permite aos Brics se desenvolverem mais rápido“. Afinal, “esta é uma crise do Ocidente”, que ele entende apenas por EUA e Europa, “e a maior parte dos seis bilhões de pessoas do mundo não será afetada por ela”.
Sobre o clube Bric que Brasil, Rússia, Índia e China lançaram dias atrás, em encontro na mesma Rússia, opinou o economista do Goldman Sachs: “Espero que os líderes do Ocidente tenham prestado atenção àquele encontro e comecem a acelerar sua inclusão no G8 e no FMI… Penso que a falta de avanço do G8 e dos líderes ocidentais na mudança é realmente ruim e um dos maiores problemas no mundo, hoje”.

O FUNDO, AFINAL
O “Financial Times” publica hoje e já destacava ontem, no alto da home, entrevista em que Guido Mantega anuncia o fundo soberano do país, a ser enviado ao Congresso. Deve “começar pequeno”, mas crescer rapidamente para “US$ 200 bilhões ou US$ 300 bilhões em três a cinco anos” conforme “o petróleo começar a entrar”, referência a Tupi e os outros campos.
Sexta, no dia de recorde do petróleo, o Market Watch voltou a se aprofundar na “série de descobertas do Brasil”.

ADMIRADORES ETC.
De um lado, o “FT” adiantou ontem e publica hoje uma longa reportagem sobre como “o novo status do Brasil”, com o grau de investimento, “ganha admiradores”. Entrevista nos EUA uma série de fundos institucionais para retratar tais admiradores e as apostas de aplicação por aqui.
De outro, o site do mesmo “FT” posta nota de outro correspondente, dizendo que “um consultor de São Paulo” não identificado aposta que a valorização da moeda do país já teria atingido seu pico.

AGORA, A ESTRADA
Jornais britânicos ecoaram no fim de semana a multa que o Ibama aplicou em Johan Eliasch, o sueco “consultor de Gordon Brown” e dono de terras na Amazônia. Uma “fonte próxima” sem identificação disse à AFP que as provas do Ibama são “falsas, politicamente motivadas”.
Enquanto isso, um artigo ontem no “New York Times” abriu outra frente, apelando às fotos da tribo “isolada” do Acre para questionar “uma nova estrada” no Estado.

UM MÊS DEPOIS

jornalnacional.globo.com
 

William Bonner, ao noticiar o caso Alstom

Por qualquer razão, o “Jornal Nacional” deu o caso Alstom na sexta, exatamente um mês depois de sair em manchete no “Wall Street Journal”. Citou por fonte “a bancada do PT”. E nada de mencionar PSDB ou o governo paulista, só o Metrô, “sob suspeita” por um “contrato de 1994″. Não entrou na escalada de manchetes.
Sábado, mais Metrô. Fora da escalada e sem citar governo, o “JN” deu que o IPT culpa “sucessão de erros” pelas mortes na Linha Amarela.

“YEDA, DO PSDB”
Também o escândalo no Rio Grande do Sul chegou ao “JN”, enfim, no sábado. No caso, com escalada e menção a “Yeda, do PSDB” e seu vice “do Democratas”. Mas nada do PPS do chefe da Casa Civil, flagrado no áudio falando do financiamento de legendas via estatais gaúchas.

RS URGENTE
Nada, também, da oferta de “uma coisa concreta” ao vice, feita na mesma gravação. Para tanto, era preciso acompanhar o blog gaúcho RS Urgente, de Marco Aurélio Weissheimer, que dá o escândalo desde seus primeiros passos, ainda no ano passado. Está lá a oferta, em podcast.

APARÊNCIAS
O blog de José Dirceu, dado por todo lado como próximo das duas fontes das denúncias contra Dilma Rousseff, os petistas José Aparecido e Denise Abreu, citou pela primeira vez o caso Varig. Postou que “a Casa Civil” não perdoou a dívida da empresa, como noticiado, pois “não havia sucessão das dívidas”. Na aparência, defendeu Dilma.

27/05/2008 - 09:33h “Brasil, o futuro é agora”

Analistas esbanjam otimismo com o Brasil

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Fernando Dantas - O Estado de São Paulo

O Fórum Nacional, que surgiu num dos momentos mais turbulentos da história econômica brasileira, em 1988, e durante a maior parte de sua existência se voltou ao debate de problemas nacionais intratáveis, como hiperinflação e crises externas, chega a seu 20º aniversário sob o signo do otimismo e da retomada da confiança no futuro.

Em concordância com a fala do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, orador após orador bateu na tecla de que o País está vivendo um dos melhores momentos da sua história, com amadurecimento democrático, estabilidade macroeconômica, crescimento e melhora na distribuição de renda.

“Sou muito positivo quanto ao futuro do Brasil”, disse o economista e brasilianista americano Albert Fishlow, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos e do Centro de Estudos do Brasil da Universidade Columbia. Fishlow considera que depois de 20 anos de esforços, durante os quais o País abriu sua economia, privatizou empresas ineficientes e controlou a inflação, chegou-se à etapa de integração com a economia global e de convergência de opiniões que garante a manutenção do rumo.

O economista notou que, até alguns anos atrás, o status do Brasil como membro dos Brics era contestado, o que não ocorre mais. A sigla Brics significa Brasil, Rússia, Índia e China, os grandes países emergentes cujas economias devem estar entre as maiores do mundo até meados deste século.

Fishlow, porém, colocou como prioridades, para o Brasil manter o bom momento, uma forte melhora na educação básica, o aumento da taxa de investimentos e poupança (com mais superávit primário) e a reforma da Previdência.

Roger Cohen, colunista do New York Times, em uma entusiástica exposição com o título de “Brasil, o futuro é agora”, lembrou que o País tem 394 milhões de hectares aráveis, dos quais apenas 16% são usados, comparado com 269 milhões dos Estados Unidos, com uso de 70%.

Classificando de “nonsense” a acusação de que o etanol brasileiro eleva o preço global dos alimentos, Cohen notou que, em tempos de escassez global de recursos básicos, o patrimônio de terras aráveis do Brasil “assumiu uma importância crítica”.

O economista Edmund Phelps, prêmio Nobel de Economia e convidado especial do Fórum, fez uma exposição mais teórica, e não ligada diretamente ao Brasil, em que explicou o conceito de “dinamismo econômico”, que não deve ser confundido com o do crescimento econômico puro e simples. Definindo o dinamismo como “a capacidade de inovação em direções comercialmente viáveis”, ele disse que o conceito está relacionado com a satisfação dos trabalhadores e com o constante revezamento das empresas que dominam os diferentes setores da economia.

Para Phelps, os inimigos do dinamismo econômico - que ele defende como um valor em si mesmo, ligado à realização do ser humano - são a prevalência de benefícios sociais sobre o trabalho e o espírito empreendedor, e das reivindicações de ativistas sociais sobre os direitos de propriedade. Ele frisou, porém, que considera o Bolsa-Família “um passo no rumo certo”, e não um programa assistencialista. Outro adversário do dinamismo, para o prêmio Nobel, é o fechamento da economia. Phelps deixou claro que o pólo de dinamismo está nos Estados Unidos, e não na Europa.