06/04/2009 - 09:27h A morte do consenso

Sergio Leo – VALOR

Foram discretas, até agora, as comemorações, no governo, pela declaração do chanceler britânico, Gordon Brown, sobre a morte do chamado Consenso de Washington, regras aceitas como indispensáveis ao bom funcionamento do sistema capitalista, compiladas em 1989 pelo economista John Williamson. Reservadamente, não foram poucos os que comemoraram, entre os conselheiros do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas Brown, que expediu o atestado de óbito durante a reunião do G-20, na semana passada, pode ter se precipitado.

A crise não matou, por exemplo, a crença da abertura de mercados como instrumento de desenvolvimento. Mantém-se, nesse campo, a atitude cínica ou esquizofrênica anterior ao colapso das finanças mundiais: os governos anunciam comprometimento com o fim das barreiras comerciais, avançam gradualmente na queda de tarifas de importação, mas asseguram os interesses de setores “sensíveis” com os instrumentos que têm à mão, sejam eles mecanismos de controle não-tarifário de importações, subsídios aos produtores, ou incentivos perversos a exportadores ineficientes.

Antes de o mundo descobrir que era ameaçado por “ativos tóxicos” criados pela mente fértil de operadores do mercado financeiro, já fracassava a rodada de liberalização da Organização Mundial de Comércio (OMC), a chamada Rodada Doha. Um dos resultados da cúpula do G-20, na semana passada foi um apelo por mais, e não menos, abertura de mercados, com a retomada da rodada na OMC. Os líderes podiam marcar uma data para isso, mas não o fizeram. Sabem que o apelo, por enquanto, é mera declaração de intenções. Isso não impede que a abertura de mercados seja eleita como prioridade defendida enfaticamente pelo próprio presidente Lula – líder classificado como “o cara” pelo presidente Barack Obama.

Um dos principais motivos para o atolamento da rodada da OMC é o fato de que o consenso pela abertura de mercados não era tão consensual assim nos próprios centros do capitalismo mundial. O Congresso americano resistia, como ainda resiste, a eliminar as altíssimas tarifas remanescentes sobre produtos industriais em que não é competitivo, como o etanol. Os EUA e outros países de gente loura de olhos azuis também relutam, sempre, em reduzir significativamente subsídios agrícolas que dão competitividade desleal aos produtores locais e distorcem o comércio mundial.

Ambiguidades na lista de John Williamson já levaram analistas como Moisés Naim, editor da especializada “Foreign Policy”, a falar em “Confusão de Washington”, ao mostrar que a quantidade de exceções, adaptações e contradições nas políticas baseadas no Consenso de Washington tornavam esse receituário bastante flexível. E que, como notou o economista Joseph Stiglitz quando ocupava o posto de economista-chefe do Banco Mundial, “instituições são importantes”: nenhum modelo de política econômica pode ter êxito sem o controle de instituições fortes e bem equipadas para atender ao interesse público.

A morte decretada por Gordon Brown não foi a do Consenso de Washington, mas a da crença fundamentalista em apenas um de seus dez itens, a desregulamentação como ferramenta para promover a melhor alocação dos recursos e o desenvolvimento. O novo consenso global estabelece que o mundo pós-crise terá instituições mais fortes e ativas no controle dos agentes de mercado.

Como todo consenso econômico internacional, o novo consenso não é levado integralmente em conta pelos países mais poderosos, no momento de formulação de suas políticas. Entre as medidas recém-editadas por Obama, está a permissão aos bancos para fixar, sem fidelidade às regras rígidas de contabilidade, o valor dos “ativos tóxicos”, os papéis que serão vendidos com generosa ajuda do governo americano para socorrer as instituições financeiras. Analistas como o próprio Stiglitz já alertam para o “capitalismo artificial” de Obama, que mantém o jogo de ficção do mercado, em transações pouco transparentes.

Há quem fale na derrubada de outro princípio do Consenso de Washington, o que entroniza a disciplina fiscal como regra de ouro nas economias sérias. Os EUA nunca respeitaram essa regra, nem pretendem fazê-lo agora. Os europeus, apesar das manifestações em favor de estímulo fiscal, continuam firmes na crença de que muita generosidade agora pode acabar em descontrole inflacionário mais à frente. Os programas de socorro do FMI, agora turbinado com mais US$ 750 bilhões, não eliminaram a exigência de sustentabilidade fiscal.

Heresias ao Consenso de Washington defendidas agora nos países ricos, como a possível estatização de bancos americanos, ou generosidades fiscais, são apontadas como soluções de emergência, a serem descartadas assim que passar o pior da crise. Nem Gordon Brown defende o contrário, o que leva a crer que, se crê na morte do Consenso de Washington, ele não descarta a ideia de reencarnação.

Autoridades brasileiras lembram, como signo da mudança, a criação do novo mecanismo financeiro no FMI para empréstimos, sem condicionalidades ou monitoramento, para países com políticas sólidas. Não lembram que os países considerados aptos a lançar mão desse socorro são só aqueles que mostram um histórico de respeito ao… Consenso de Washington. Boa parte do êxito de Lula no G-20 é exatamente o respeito devotado pelo governo brasileiro a boa parte dos princípios sacramentados pelo Consenso.

Ao lado do respeito às políticas ortodoxas, herdado do governo anterior, a contribuição nada desprezível de Lula foi a obstinação em realizar uma política ativa de transferência e distribuição de renda, com programas sociais e o forte aumento do salário mínimo. Conseguiu fazer isso sem romper o consenso washingtoniano de fazer as despesas caberem nas despesas. Intuitivo, ele deve saber que será sua credibilidade quem estará morta, se acreditar, mesmo, que se encerrou a era da disciplina fiscal para os países de gente morena.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

02/04/2009 - 17:56h As promessas do G-20

Veja o que Obama disse ao Primeiro Ministro da Austrália, sobre o Lula. Clique aqui

 

 

 

‘Hoje nasce nova ordem financeira mundial’, diz Brown

Regulação do sistema financeiro mundial foi um dos principais pontos do acordo de líderes do G-20 em Londres

 

Da Redação – Agencia Estado

 

SÃO PAULO - A regulação do sistema financeiro mundial foi um dos principais pontos do acordo de líderes do G-20 em Londres. Este era um grande impasse entre Estados Unidos e Europa. Enquanto os americanos não aceitavam uma fiscalização internacional dos bancos, a Europa defendia o controle. Em uma coletiva de imprensa após a reunião de cúpula do grupo em Londres, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, disse que “hoje nasceu uma nova ordem financeira mundial. Este é o dia em que o mundo se uniu para lutar conjuntamente contra a recessão global”.

Primeiro-ministro britânico, Gordon Brown: “Hoje nasceu uma nova ordem financeira mundial”

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, reforçou a idéia de que os países do G-20 concordaram em realizar reformas profundas na forma como o sistema financeiro internacional está organizado, regulando fundos de hedge e registrando as agências de crédito.

O acordo saiu após duras negociações entre os países que, como Alemanha e França, davam prioridade à regulação do sistema financeiro internacional e os que, como os Estados Unidos, pediam estímulos fiscais para estimular a economia.

O premiê britânico assegurou que o G-20 lança uma mensagem clara de que “nesta era global nossa prosperidade é indivisível”, e de que “são necessárias soluções globais aos problemas globais”. Brown disse que o “consenso de Washington está superado” e que chegou um “novo consenso”, em que o comércio mundial deve se converter em um “motor de crescimento”.

02/04/2009 - 09:19h Brasil entra tranquilo e sem pressa na reunião

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Alberto Tamer – O Estado SP

 


O Brasil entra sem medo na reunião do G-20 que se inicia hoje com muita expectativa e pouca esperança. Teme-se que seja mais uma “conferência das promessas não cumpridas”, como todas as anteriores desse grupo que detém 80% do PIB mundial. Um alto funcionário americano alertou ontem para esse risco.

Seria triste, mas não uma tragédia. A economia mundial demorará mais para sair da recessão, os EUA continuarão fazendo sozinho o seu programa de incentivo fiscal e socorro aos bancos, a Europa continuará afundando e um dia, afinal, vai se decidir fazer o inevitável: investir maciçamente no estimulo à demanda interna, uma vez que já se está socorrendo o sistema financeiro.

PODEMOS FICAR SÓ OLHANDO

Nós entramos bem nessa reunião. Já estamos seguindo a estratégia certa. Desde os primeiros sinais da crise, tivemos o cuidado de fiscalizar e oferecer liquidez ao sistema bancário, que está enxuto e sólido.

Estamos executando uma política fiscal fortalecida por reduções de impostos em setores importantes para a geração de empregos e aumento da demanda, como a construção civil e a indústria automobilística. Só a cadeia produtiva dessa indústria representa 23% do PIB do País! Podemos até nos dar ao luxo de apontar o dedo para os países desenvolvidos e dizer, como estamos dizendo, absorvam logo essas subprimes, esses papéis podres que vocês mesmos criaram e que estão intoxicando, envenenando o mercado e as linhas de crédito.

Sabemos que eles vão demorar muito para fazerem isso, mas está cada vez mais claro que não há saídas. Ou os governos dos países ricos assumem os prejuízos ou essa crise vai demorar muito a passar.

E SE NÃO DER CERTO?

É evidente que, se isso acontecer, será ruim para nós. Entraremos em recessão mas poderemos conviver com ela por algum tempo melhor do que os outros.Temos, como a China, um mercado interno potencial inexplorado e não será nenhuma tragédia shakespeariana se por alguns meses tivermos um déficit fiscal de 1% ou 2%. Para nós é importante que essa reunião dê certo, mas a economia não irá cair no fundo do poço se isso não ocorrer.

POR QUE ESPERAR POUCO?

Simplesmente porque, tendo em vista o que aconteceu ontem, em Londres, pode-se dizer que há nitidamente dois blocos bem distintos. Um é formado pelos EUA, Japão e China, do qual o Brasil também faz parte. Eles defendem a aplicação imediata de uma política fiscal agressiva para promover um grande aumento da demanda e retomar o crescimento ainda no fim deste ano. O Brasil já vem há algum tempo aplicando essa estratégia. O fato de o governo ter reduzido impostos para os setores automobilístico e de construção revela pioneirismo. Só a Grã-Bretanha fez algum movimento nesse sentido mas não avançou.

O outro bloco é o da França e Alemanha. Os dois chefes de Estado, Sarkozy e Merkel, se reuniram ontem em Paris e firmaram um ponto de vista comum. Eles vão se opor a qualquer aumento de gastos e defenderão uma reforma imediata do sistema financeiro internacional.

Ainda ontem a chanceler alemã afirmou que a sua economia depende muito das exportações. Mas “é algo que nem mesmo queremos mudar, afirmou ela.” Ou seja, ela quer que o mundo mude, cresça mais para importar mais da Alemanha e sustentá-la! Isso não nos leva um pouco de volta ao passado?

G2 COM PINTA DE G3

A perigosa divisão ficou ainda mais clara nesta quarta-feira. Obama reuniu-se com Hu Jintao, no que já se estava chamando, em Londres, de um “novo G-2″. Não foi uma conversa informal, não.

Ao fim do encontro, eles anunciaram que decidiram trabalhar para reativar a economia por meio de medidas fiscais, reforçar o sistema financeiro e “estabelecer um diálogo bilateral estratégico”. Os EUA já vêm investindo pesadamente na política fiscal e a China destinou mais de US$ 500 bilhões para reativar o consumo interno. Sua vantagem é que os projetos já estão prontos e podem começar a ser executados imediatamente.

Como a Alemanha, seu crescimento espantoso até agora vem dependendo essencialmente das exportações, mas, ao contrário da Alemanha, sabe que precisa reverter essa situação, investindo na demanda interna. Ou isso, ou não crescerá mais de 5% neste ano. Inaceitável para um país com 1,3 bilhão de habitantes, 800 milhões dos quais vivendo pobre ou miseravelmente.

*E- mail: at@attglobal.net