13/04/2009 - 09:53h ”América Latina agora diz o que pensa”

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Especialista em relações internacionais crê que era Obama vai permitir a construção de agenda conjunta entre AL e EUA

 

Fernando Dantas – O Estado SP

 


A relação dos Estados Unidos com a América Latina não é mais uma questão meramente regional. Deve se constituir numa agenda conjunta para temas globais, na opinião de Peter Hakim, presidente do Diálogo Interamericano, centro de estudos das relações entre os EUA e a América Latina e o Caribe, baseado em Washington. Para ele, os principais países latino-americanos, como o Brasil, estão mais afirmativos e independentes, e o presidente americano, Barack Obama, deveria tratar de assuntos mundiais, como a relação com China e Oriente Médio, na Cúpula das Américas, em Porto of Spain, em Trinidad Tobago, de 17 a 19 de abril. Hakim será uma das principais atrações da reunião regional no Rio do Fórum Econômico Mundial na América Latina, cuja programação de debates começa na quarta-feira. Ele falou ao Estado por telefone.

Quais as expectativas sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos na era Obama?

Obama começa com a grande vantagem de não ser o (ex-presidente George W.) Bush. O novo presidente tem um imagem muito especial na América Latina, na Europa, no mundo inteiro. Ele criou expectativas altas e é bem-recebido onde quer que vá. Mas há restrições. Com a crise, faltam recursos e a atenção do governo americano está fixada no cenário interno. O segundo problema é que a atitude na América Latina agora é ambivalente sobre o papel dos Estados Unidos.

Como assim?

A América Latina mudou nos últimos 10 a 15 anos e agora é mais independente, mais afirmativa, não aceita simplesmente o que vem de fora. A região agora diz o que pensa. Os Estados Unidos ainda são primordiais para muitas nações latino-americanas, mas países como Chile, Brasil e Peru têm uma diversidade inédita de parceiros comerciais e políticos. Na Cúpula de Trinidad e Tobago, Obama deveria falar do Oriente Médio, das relações com a China. A América Latina quer participar dessa conversação. O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, elogiou as palavras de Obama de que não está programando uma agenda para América Latina, mas sim uma agenda com a América Latina. Talvez acabe sendo muito semelhante, mas eu diria que, em política externa, 50% é simbólico.

O que o sr. prevê em relação à Cuba no governo Obama?

O primeiro passo de Obama é positivo, ao levantar restrições aos cubano-americanos, que passam a poder visitar familiares de forma ilimitada. Tudo indica que o Obama quer liberalizar mais a relação, mas depende de como reagem os cubanos americanos e os cubanos em Cuba. Não se pode imaginar que os Estados Unidos façam mudanças contínuas nessa relação sem que haja uma reação de Cuba, seja liberando prisioneiros, ou facilitando viagens ao exterior, por exemplo.

A química entre Obama e Lula parece estar funcionando bem.

Bem, é preciso lembrar que a relação na época do Bush foi boa para o Brasil e para os EUA. Os dois países tinham uma afeição mútua, toleravam as diferenças, e os EUA deixaram o Brasil assumir uma certa liderança na América do Sul, com poucas críticas até quando os dois países estavam em desacordo. O Brasil é um país que não gosta de fazer alianças muito fortes, que busca uma relação equidistante dos seus parceiros, que preza sua independência. O Brasil é importante para os EUA. Se não fosse pelo Brasil, a Venezuela seria o país mais notório na América do Sul, com uma liberdade de ação muito maior do que tem agora. Há muitos temas para se avançar, agora com o Obama, mas uma grande oportunidade é a questão dos biocombustíveis.

A relação dos Estados Unidos com Hugo Chávez deve melhorar?

Acho que Obama está seguindo mais ou menos o caminho de Bush nos últimos dois anos – não é necessário abraçar Chávez, mas tampouco confrontá-lo. A crítica de Obama a Chávez deve ficar limitada à ajuda às Farcs e a intervenções fora do próprio país, isso é, enfatizar mais a política externa venezuelana do que a questão interna.

Haverá continuidade entre Bush e Obama, apesar das grandes diferenças entre os dois?

Acho que há uma agenda incompleta de Bush que Obama deve seguir, como regionalizar a iniciativa Mérida (plano de apoio americano de combate ao narcotráfico no México), ser mais afirmativo em relação aos biocombustíveis com o Brasil, completar os tratados de livre-comércio com Colômbia e Panamá, a questão de Cuba. Mesmo nos seus sucessos, como os acordos de livre-comércio com Peru, Chile e América Central, Bush deixou um sabor amargo nos outros países, com posições exigentes, inflexíveis. Isso vai mudar, e os EUA devem reconhecer que a América Latina é um ator mundial.

30/03/2009 - 16:23h Blue Eyed Greed? Olhos azuis gananciosos?

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The Worship of Mammon by Evelyn De Morgan

Maureen Dowd – New York Times

As international lunacy goes, it was hard to beat the pope saying that condoms spread AIDS.

But Brazil’s president, known simply as Lula, gave it his best shot.

At a press conference Thursday in Brasilia with Prime Minister Gordon Brown of Britain — who has a talent for getting himself into dicey spots — Lula started off coughing from some cheese bread he’d wolfed down. Then he suddenly turned accusatory.
“This crisis was caused by the irrational behavior of white people with blue eyes, who before the crisis appeared to know everything and now demonstrate that they know nothing,” charged the brown-eyed, bearded socialist president.

As the brown-eyed Brown grew a whiter shade of pale, Lula hammered the obvious point that the poor of the world were suffering in the global crash because of the misdeeds of the rich.
“I do not know any black or indigenous bankers,” said Lula.
He also told CNN he would press this theme at the G-20 meeting in London this week. He says his past as a poor, hungry, unemployed lathe operator gives him special insight.
“I lived in houses that were flooded by water,” he said, adding, “Sometimes, I had to fight over space with rats and cockroaches, and waste would come in when it flooded.”

The “Lula lulu” by the “Brazil nut,” as The New York Post dubbed it, became big news just as President Obama met at the White House with Vikram Pandit and a cadre of white-bread bankers who have taken the bailout — some of whom, like Jamie Dimon, have distinctly blue eyes.

And it is true, of course, that the upper-crust, underwhelming Anglo-Saxon leaders who allowed America’s financial markets to morph into louche casinos, George W. Bush and Dick Cheney, were very, very white men with blue eyes.

As the Who sang: “No one knows what it’s like to be the bad man, to be the sad man behind blue eyes. No one knows what it’s like to be hated, to be fated to telling only lies.”

Every time Cheney looks into the camera with those ice-blue eyes and says President Obama is making us less safe, it sounds as if he’s secretly hoping we do get attacked just to prove his point that Obama is weak, even if he has to go up in smoke, too.
(When I double-checked the color of Cheney’s eyes, his daughter Liz Cheney jokingly e-mailed back, “Sorry, but that information is classified.”)

Before President Obama, whose brown eyes are opaque when you look into them, presidents have been more known for blue eyes. The ones with brown eyes, Richard Nixon and L.B.J., came a cropper.

Throughout history, whether it’s images of Jesus that don’t look Middle Eastern or Barbies who don’t look ethnic, blue eyes and white skin have often been painted as the ideal.

The cerulean-eyed Paul Newman once wryly predicted his epitaph: “Here lies Paul Newman, who died a failure because his eyes turned brown.”
Surveys show that people with blue eyes are considered more intelligent, attractive and sociable.

A 2007 University of Louisville study concluded that people with blue eyes were better planners and strategic thinkers — superior at things like golf, cross-country running and preparing for exams — while people with brown eyes had better reflexes, making them good at hockey and football.

Lula’s rant underscored an ancient rivalry.

When I was little, growing up in a house that prominently displayed a blue-eyed Jesus and a blue-eyed J.F.K., I felt my brown eyes were far less attractive than my brothers’ blue ones.

I obsessed on it so much, cutting out a picture of a beautiful brown-eyed model and keeping it in my scrapbook, that my mother finally reassured me:
“You look at blue eyes. You look into brown eyes.”

Later, of course, there would be the thrill of Van Morrison serenading a “Brown-Eyed Girl.”

Before Barack Obama, when I interviewed the brown-eyed sons of immigrants who were thinking of running for president, Mario Cuomo and Colin Powell, they seemed torn about taking the big plunge, given how far they had come in relation to their dads.

I asked Governor Cuomo if he was leaving the field to “the privileged blue-eyed WASPs” like Bush senior and Dan Quayle who felt entitled and never worried about their worthiness.

Barack Obama and his family have already had a profound effect on the culture in terms of what is beautiful and marketable. Black faces are popping up in all kinds of ads now — wearing straw boaters and other prepster outfits in Ralph Lauren ads.

With Michelle urging students to aim for A’s and the president promising to make school “cool,” brown eyes may finally — and rightfully — overtake blue as the windows of winners.

A version of this article appeared in print on March 29, 2009, on page WK10 of the New York edition.

16/03/2009 - 13:19h O antiamericanismo do governo Lula

Sergio Leo – VALOR

A alegria quase adolescente com que as autoridades brasileiras falam da aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama desmoraliza um dos mais frequentes lugares-comuns nas críticas à política externa do governo, a acusação de antiamericanismo. Quando se trata da relação comercial Brasil-EUA, os críticos têm até (reduzida) base real para reprovações contra Lula e assessores, mas o chavão foi esquecido neste fim de semana. Parte das atenções para o encontro entre Lula e Obama se concentrou em uma tolice, as tarifas dos EUA contra o etanol brasileiro.

Etanol não é besteira, nem o esforço brasileiro para derrubar as barreiras dos Estados Unidos contra qualquer produto brasileiro, especialmente commodity tão simbólica. Mas medir os resultados do primeiro encontro dos presidentes por decisões que possam adotar em relação à tarifa do álcool é um exercício de quem ignora a natureza e funcionamento do poder nos EUA.

Não será na Casa Branca que se decidirão mudanças relevantes na política comercial americana nessa questão. É no Capitólio, o Congresso dos EUA. Que, aliás, rejeitou na semana passada a tentativa feita por Obama de reduzir os subsídios pesados à agricultura, que distorcem o comércio e prejudicam países competitivos como o Brasil.

Curiosamente, o blogue da Casa Branca contraria o noticiário que, no Brasil, insinuou uma aparente relutância de Obama em reduzir a tarifa aplicada sobre o etanol brasileiro nos EUA. O texto do governo americano fala do tom “positivo e otimista” de Obama, que limitou-se a dizer o óbvio – a questão do etanol não se resolve do dia para a noite – e disse acreditar que essa fonte de atrito se eliminará com o tempo, à medida em que os dois governos aprofundarem a troca de “ideias, comércio, intercâmbio no setor de biocombustível”. Esse último comentário foi ignorado no relato de jornais brasileiros.

Entre os queixumes com ar de despeito feitos sobre a bem-sucedida visita de Lula a Obama, uma crítica é relevante: como notou o presidente do Diálogo Interamericano, Peter Hakim, Lula poderia ter aproveitado a oportunidade para contatos com os importantes presidentes das comissões do Congresso, tão essenciais para o futuro das questões de interesse brasileiro quanto o chefe do Executivo americano.

Lula, que hoje fala a empresários, limitou os encontros extra-agenda a uma conversa com um velho conhecido, John Sweeney, presidente da AFL-CIO, principal organização sindical do país. Visita importante: a AFL-CIO move parte do insistente lobby protecionista americano. Não há registro, porém, que Lula tenha tentado converter Sweeney para a campanha de livre-mercado hoje em moda no Planalto.

O embaixador do Brasil em Washington, Antônio Patriota, considera a questão levantada por Hakim um “falso problema”, já que a viagem, desde o convite, no primeiro contato telefônico entre os dois presidentes, à definição da data – que se ajustou à agenda de Obama – tinha uma característica diferente da visita de Estado, onde, aí sim, sem nenhuma distorção no protocolo, caberiam encontros de Lula com líderes no Congresso americano. “Essa crítica está fora de foco; e o Brasil não pode ser visto apenas pela perspectiva interamericana”, reage Patriota.

De fato, o Brasil, para os EUA tem uma dimensão hemisférica e outra mundial. A tradição é dar ênfase à relação dos EUA com o Brasil no plano do chamado Hemisfério Ocidental. Nesse plano, o encontro deu sinais importantes. Primeiro deles: como definiu a revista “Time”, na edição desta semana, Lula firmou-se como a “melhor aposta” para aproximar o governo Obama da esquerda que governa boa parte dos países do continente. Lula teve aval do venezuelano Hugo Chávez para levar sinais de paz à Casa Branca. Mais discreto, o boliviano Evo Morales indicou a Lula que gostaria de encontrar-se com Obama às margens da reunião da Cúpula das Américas, em abril, onde o Brasil será ator de destaque.

Também notável foi o anúncio feito por Lula de que o Brasil promoverá a formação de uma instituição sul-americana para cuidar, sem participação dos EUA, do combate a drogas no continente. Tarefa inadiável e complicada. Na Bolívia, por exemplo, a receita com o gás natural tende a cair, deixando sem muitas opções de renda a economia do país. Vale lembrar que o presidente da República, lá, fez questão de manter, depois de eleito, o posto de presidente do sindicato de cultivadores de coca.

Como nota o embaixador brasileiro nos EUA, porém, a dimensão do Brasil se expandiu para além do continente, e também nesse aspecto é um avanço importante a abertura de um canal direto com o governo Obama, para discutir as soluções em discussão para a crise econômica global. É difícil imaginar que o secretário do Tesouro, Thomas Geithner, vá consultar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para decidir os próximos passos a tomar na crise; mas a criação de um regime de contatos regulares entre as duas equipes econômicas tem o potencial de aumentar em muito a qualidade do processo decisório e a esfera de ação das autoridades brasileiras.

Resta das acusações de antiamericanismo contra o governo brasileiro a constatação de que, desde os anúncios de parceria estratégica, ainda no governo Bush, pouco andaram os grupos de trabalho criados ou o comemorado Fórum de Altos Executivos Brasil-EUA; e os interesses estritamente bilaterais perderam espaço na agenda em Brasília.

Baseada em evidências como a delicada economia do México, maior parceiro americano no continente, e a recusa americana em aprovar até hoje acordos de livre comércio já assinados com parceiros fiéis como a Colômbia, há uma convicção no governo brasileiro de que as diferenças essenciais de interesse entre os dois países recomendam certo descolamento da agenda americana. Se os mecanismos de parceria criados com o governo dos EUA forem postos em funcionamento desta vez, o governo poderá argumentar mais facilmente que suas ações não são guiadas por preconceitos ideológicos, mas por frio e saudável pragmatismo.

Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras

E-mail sergio.leo@valor.com.br

15/03/2009 - 10:58h “Obama es demasiado prudente”

ENTREVISTA: Paul Krugman Premio Nobel de Economía 2008

Krugman

A. GONZÁLEZ / M. Á. NOCEDA – Sevilla – El País

Máximo exponente de los neokeynesianos, Krugman cree que el nuevo Gobierno de EE UU rema en la buena dirección pero está siendo más que cauto. El fin de la crisis no aparece en sus pronósticos como algo cercano.

Pese a la generosa dotación del premio Nobel, Paul Krugman (Nueva York, 1953) no abandona su aspecto de profesor universitario, enfundado en un traje con deportivas negras y una mochila al hombro. Ha venido a Sevilla invitado por la Confederación de Empresarios de Andalucía (CEA). Hace acto de presencia en el minuto exacto de la cita, tímido y abrumado por los elogios. Todo eso desaparece en cuanto se enreda en temas económicos.

Pregunta. ¿Cuándo se dio cuenta de que habíamos vuelto a la economía de la depresión, como usted la denomina?

Respuesta. A principios de 2008 estaba bastante claro que nos habíamos topado con los límites de la política convencional. Después de la caída de Lehman, en septiembre, ya resultó obvio.

P. ¿Cuándo terminará?

R. Los precedentes no son buenos. La depresión japonesa terminó con un boom de sus exportaciones a China pero esta vez la crisis afecta a todo el mundo a la vez así que ésa no es una opción. Y la Gran Depresión terminó con la II Guerra Mundial. Hay un final natural a largo plazo, pero llevará mucho, mucho tiempo.

P. ¿Son realmente eficaces las medidas adoptadas?

R. Hasta cierto punto estamos cambiando deuda privada por deuda pública y tratamos de compensar el conservadurismo de los consumidores con un aumento del gasto público. Así salimos de la Gran Depresión. Es cierto que China pretende salir de la crisis con un aumento de las exportaciones y que eso puede ser la base de otra crisis. Pero creo que es tremendamente importante sostener la demanda, aunque no sea la solución definitiva. De lo contrario, corremos un riesgo serio de quedar atrapados en una trampa muy profunda.

P. ¿Debería coordinarse esa respuesta en el G-20 o en otros foros?

R. Lo ideal es que el G-20 saliera de las reuniones de este fin de semana con un acuerdo para coordinar las políticas fiscales aunque desgraciadamente eso no va a pasar. Lo más crucial es que los europeos pacten entre ellos las bases de la expansión fiscal porque la dependencia es mucho mayor entre los socios de la UE que respecto a EE UU. En todo caso, necesitamos un acuerdo del G-20 para coordinar las políticas fiscales y también un plan de rescate para los países emergentes con problemas. Aquí probablemente tendría un papel decisivo el FMI, que debería proporcionar recursos suficientes a Hungría y al resto de los países bálticos.

P. ¿Habría que reforzar la cooperación entre EE UU y la UE?

R. Sin duda, hay mucha dependencia entre ambos. Todos estamos preocupados por el déficit pero un esfuerzo coordinado puede reducir la aportación extra que debe hacer cada uno y aumentar los beneficios. El plan de estímulo fiscal de EE UU ayuda a la economía europea, en buena medida. Por ejemplo, muchas de las ayudas destinadas a AIG acabaron en manos de bancos europeos que eran los que les habían comprado los seguros contra impagos de deuda (credit default swaps). Ahora muchos se preguntan por qué el contribuyente de EE UU tiene que rescatar bancos europeos.

P. ¿Y los bancos centrales?

R. Ahí los efectos no están tan claros. Hasta cierto punto, la resistencia del BCE a utilizar todo el margen en los tipos de interés está beneficiando a EE UU, con un dólar más barato que impulsa las exportaciones, así que a nosotros claramente nos interesa la política de Trichet.

P. ¿Conoce al presidente Zapatero o va a reunirse con él?

R. No le conozco. Sé que interviene en el acto en el que tengo que participar

en Madrid, pero no sé si habrá oportunidad de encontrarnos. Lo que sí he hecho ha sido repasar a fondo la situación de España.

P. ¿Y sus conclusiones?

R. Que España es como California o Florida. Las dos han vivido un boom de la construcción, han recibido grandes flujos de capital extranjero y, cuando ha estallado la burbuja inmobiliaria, la situación se ha vuelto muy difícil. Ahora tienen problemas de ajuste similares: el déficit es preocupante y la rebaja del rating ha sido inevitable, aunque peor para California.

P. ¿Y qué se debería hacer?

R. Va a ser duro. Lo que realmente asusta de la situación española es que no está nada claro cuál es la estrategia de ajuste por su pertenencia a la UE. Todo lo que puede hacer es mitigar los efectos de la crisis. Si España no fuera parte del euro, la devaluación ayudaría, pero esa opción ya no existe; la política fiscal es muy limitada para los países de la UE; también es limitada la capacidad de actuar sobre el sistema financiero aunque los bancos españoles han demostrado estar relativamente en buena forma; se pueden adoptar medidas para limitar el impacto de la crisis sobre los parados. Pero en buena medida a España sólo le queda esperar a que se produzca una recuperación europea.

P. ¿No debería jugar China un papel más destacado?

R. Sí, siempre que China también dé señales de cooperación. De momento sólo pretenden salir de la recesión con una moneda devaluada que impulse sus exportaciones y la política de la Reserva Federal no tiene como objetivo que los chinos estén contentos. Además, hay una cierta amenaza de que se puedan llevar el dinero que tienen en dólares, pero lo cierto es que si debes 100 dólares a alguien tienes un problema pero si lo que debes es un billón, como a los chinos, el problema lo tiene China, no tú.

P. ¿Puede el mismo sistema financiero que nos ha llevado al caos ser el que marque las directrices de futuro?

R. Nos enfrentamos a un gran test que debemos resolver y es la reconstrucción del sistema financiero. Solíamos tener un sistema más sencillo, con los bancos actuando como intermediarios y luego todo derivó en un sistema de enormes instituciones financieras, complejas y poco reguladas. Claramente eso ha fracasado. Probablemente debamos mirar hacia un modelo más simple y más al viejo estilo. Muchos cambios se producirán de forma natural. Dudo que la gente vuelva a confiar en estos planes financieros complejos y complicados, que en buena medida ya han quebrado: unos 400.000 millones de dólares del sistema financiero han desaparecido. Pero también se necesita más regulación de la que tenemos y eso va a ser duro.

P. La crisis se ha llevado por delante a muchos banqueros pero a ningún regulador.

R. En EE UU, muchos supervisores han sido forzados a dimitir de una forma u otra. Tampoco está claro que incluso haciendo su trabajo bien esto no hubiera pasado. Pero es cierto que ni siquiera intentaron hacerlo.

P. ¿Se refiere a Greenspan?

R. No, aunque es un poco triste ver cómo intenta defender su legado. Pero no hablaba de él.

P. ¿Podemos enfrentarnos, como en los años treinta, a una serie de devaluaciones competitivas?

R. Esas devaluaciones ayudaron, no fueron dañinas para la economía mundial, pero era un mundo distinto que se regía por el patrón oro. Lo que me preocupa es si ahora las devaluaciones sustituyen a otro tipo de medidas. Si China, por ejemplo, lo hace para salir de la crisis, eso sí es un problema.

P. ¿Cómo valora los primeros meses del gobierno de Obama?

R. El cambio a mejor es enorme, son políticas inteligentes y honestas y sólo eso ya dibuja un mundo completamente diferente al que había. El problema es que el gobierno Obama está siendo demasiado cauto, incluso siendo más audaz de lo habitual, está siendo demasiado prudente

dada la dimensión de la crisis. El plan de estímulo tenía que haber sido, al menos, un 30% mayor y no quieren adoptar ninguna medida dramática sobre los bancos. Las prioridades fijadas en el presupuesto son excelentes, pero aunque reman en la dirección correcta no están remando lo suficiente.

P. Pero sí hay ámbitos, como la sanidad y las políticas de gasto, en los que Obama está aplicando reformas profundas…

R. Hay una frase que se atribuye a su jefe de gabinete, Rahm Emmanuel, que dice: “Nunca se debe desaprovechar una crisis”. Eso define muy bien su espíritu -yo he hecho mía la frase [risas]-. Reagan aprovechó la crisis del 87 para cambiar todo, ¿por qué no vamos a poder dar la vuelta a algunas cosas?

P. ¿Incluyen esos cambios la nacionalización de la banca?

R. En eso, ni siquiera parece que tengan un plan , hablan de la cooperación pública y privada pero de forma difusa y a veces suena más como un regalo al sector. Lo que creo que va a pasar, aunque llevará tiempo, es una solución a la sueca . Eso llevará a garantizar los depósitos bancarios y a nacionalizar temporalmente Citigroup y posiblemente también Bank of America.

P. ¿A eso se refería el secretario del Tesoro cuando dijo que el capitalismo ya será diferente?

R. Éste es uno de esos momentos en los que toda una filosofía ha sido desacreditada. Los que defendían que la avaricia era buena y que los mercados debían autoregularse sufren ahora la catástrofe. Son los mismos que decían que si se subían los impuestos a los ricos pasarían cosas terribles. Pues Clinton subió los impuestos a las rentas más altas y la economía funcionó muy bien durante ocho años, mientras que Bush los bajó y mira lo que ha pasado. Creo que ese cambio se va a imponer.

P. ¿Amenaza la crisis la reelección de Obama?

R. Obama se parece a Roosevelt, que no resolvió la Depresión pero al que se veía que tomaba medidas para intentar salir de la crisis y eso le dio la victoria electoral. Muchos expertos en política de mi Universidad aseguran que los electores tienen una memoria muy frágil, que sólo se preocupan por lo que pasa en los últimos seis meses así que Obama tiene margen para mejorar cosas antes de la reelección.

15/03/2009 - 10:46h ”Para os EUA, o Brasil é hoje parte da solução”

Roberto Abdenur: ex-embaixador do Brasil em Washington e consultor de empresas; diplomata destaca que imagem do País entre americanos mudou após a superação de problemas ligados à dívida externa

 

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tem uma 'oportunidade histórica' para construir uma nova relação com a América Latina, estimou neste sábado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao defender uma maior aproximação de Washington com a região.               Foto:Saul Loeb/AFP

Gabriel Manzano Filho – O Estado SP

 


Embaixador brasileiro em Washington até novembro de 2006, o diplomata Roberto Abdenur é um otimista. Tendo presenciado o que chama de “química impressionante” entre os presidentes George W. Bush e Luiz Inácio Lula da Silva, e vendo de perto, como consultor, o diálogo entre empresários de lá e de cá, ele aposta em “progressos notáveis” no relacionamento entre Brasil e Estados Unidos – apesar da crise e de suas incertezas.

Não lhe parece crucial que Lula reviva com o presidente Barack Obama o mesmo grau de empatia anterior – não é segredo que Obama é mais formal e reservado. Mas lembra que a ligação entre nações é determinada mais por fatos concretos do que por laços pessoais.

Seu otimismo vem da crescente projeção mundial do Brasil, que contribuiu para amadurecer o diálogo. “Nosso País livrou-se da dívida externa. É hoje um credor dos EUA, comprando títulos do Tesouro americano. Tem empresários investindo lá”, resume. Em entrevista ao Estado, ele destaca: “Nessa relação, o Brasil passou a ser parte da solução.”

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De que modo a chegada de Obama e da crise financeira vão afetar as relações Brasil-EUA?

O Obama tem um temperamento e uma postura diferentes da espontaneidade de Bush. Em novembro de 2005, vi de perto no encontro entre Bush e Lula a química impressionante entre eles. Mas, independentemente disso, a relação progrediu imensamente. O Brasil gozou até de certa deferência da parte americana.

Lula e Obama vão repetir a dose?

Não conheço Obama pessoalmente. Talvez ele seja mais formal, menos descontraído que o Bush. Mas é bom lembrar que o fator pessoal, embora importante, não é o definidor de uma relação entre nações. Esta se define em função de fatos concretos e circunstâncias objetivas, regionais e globais. Nesse sentido, acho que a relação pode ter progressos notáveis.

Por quê?

A base para isso foi dada nos últimos anos, por uma situação de convergência entre os dois. A crescente projeção do Brasil levou a um relacionamento que evoluiu. Passou a haver mais sofisticação no olhar recíproco.

No que consiste essa sofisticação?

Os EUA passaram a ver o Brasil, no contexto regional e no global, como um país de peso, com potencial para uma aproximação ampla. E o Brasil, num pragmatismo que é típico de Lula, passou a vê-los mais como um potencial parceiro do que como obstáculo ao seu desenvolvimento.

Antes era muito diferente?

Em outros períodos, os EUA se contrapunham ao Brasil em muitas coisas. O exemplo mais dramático foi a dívida externa. Hoje o Brasil a superou. O quadro mudou e o Brasil passou a ser parte da solução. É credor dos EUA na forma das reservas que temos em papéis do Tesouro. Pela primeira vez a solidez da nossa economia é um dado da questão.

Que progressos o sr. espera?

O melhor exemplo é o da energia, especialmente o etanol. O Brasil quer ampliar a cooperação bilateral e acho possível que o Congresso americano, em algum momento, adote uma redução gradual de tarifas para o setor. Os EUA vêm investindo muito em energias limpas e renováveis. O Brasil já é parceiro em pesquisa de hidrogênio. Somos um potencial fornecedor de petróleo. E há todo um pacote de atividades a definir, na facilitação do comércio entre os dois.

A crise não vai atrapalhar?

Ela tem impacto nos dois sentidos. Numa perspectiva mais ampla, ela tende a estimular a convergência entre os dois governos. De imediato temos a reunião do G-20, depois vem a questão do comércio – cedo ou tarde a Rodada Doha será retomada. E pela frente virão o debate sobre mudanças climáticas, sobre energia.

O sr. tem trabalhado em contatos empresariais com os dois lados. Dá para melhorar esse diálogo?

Há um potencial. O Brasil conta com uma figura influente na política americana, o senador Richard Lugar. Há alguns dias ele divulgou nota exortando o Senado a negociar um acordo de bitributação Brasil-EUA – um tema que está no horizonte imediato dos dois governos.

Lula admite atuar numa reaproximação entre os EUA e Chávez. Isso tem algum valor prático?

Há um valor diplomático e político no fato de o Brasil ter boas relações com Caracas. Mas uma coisa é o Brasil se apresentar como amigo – de um lado e de outro. Outra é proclamar, abertamente, que a Venezuela é um país democrático. O importante é lembrar que a Venezuela não é inimiga dos americanos. Sua estatal de petróleo, a PDVSA, tem quatro grandes refinarias nos EUA e mais de 15 mil postos. De modo geral, o que a diplomacia do Obama talvez pretenda seja atenuar as tensões na região, melhorar a atmosfera.

Qual o peso, nisso tudo, dos problemas internos americanos e do protecionismo?

Eles estão fazendo uma freada de arrumação. E não vão dar passos significativos, em termos de abertura comercial, enquanto não puserem a casa em ordem. Podem até ratificar alguns acordos comerciais pendentes, com a Coreia, a Colômbia e o Panamá. Quanto ao protecionismo, é preciso qualificar melhor essa história. A economia americana é muito aberta, as tarifas americanas são menos da metade das nossas, na média. Para o bem do consumidor e da inflação, nos Estados Unidos, o acesso a bens importados baratos é um dado positivo. E, como grandes exportadores, eles não têm interesse em precipitar uma guerra comercial.

Quem é:
Roberto Abdenur

Embaixador em Washington entre 2004 e 2006

Ministro das Relações Exteriores entre 93 e 95.

Aposentou-se em 2007, após 44 anos de atividade diplomática

01/03/2009 - 12:26h Déficit sim, contra a recessão

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Alberto Tamer* – O Estado SP

 


Déficit ou depressão. Eis a questão. O que é melhor para os Estados Unidos e para o mundo, gastar mais do que arrecada para tirar a economia da recessão que só se agrava, ou guardar dinheiro nos cofres do Tesouro, por precaução? Enfrentar o presente ou prevenir o futuro?

Estas são as perguntas que políticos e economistas excessivamente ortodoxos, quase sempre desligados da realidade, estão fazendo. A crítica: os governos que aceitam déficit maior no momento, estão se endividando e sacrificando gerações futuras. A resposta: e qual seria o destino dessas gerações se as economias americana e mundial entrarem em depressão por alguns anos? Não seria melhor gastar mais o que não tem,se endividando, e evitar o desemprego em massa que já está aí? Será possível que já se esqueceram da tragédia dos anos 30, quando a fome e a miséria se instalaram no mundo?

A OPÇÃO CERTA DOS EUA

Obama escolheu a opção certa ao anunciar corajosamente um déficit de US$ 1,75 trilhão, mesmo consciente de que representa12,3% do PIB. É muito, é grave? É, sim. É muito grave. Mas a outra opção, o avanço rápido para a depressão seria pior para os EUA e para o mundo, incluindo nós. Seria o caos por muitos anos. Será que ninguém mais se lembra da tragédia de desemprego, fome e miséria da década de 1930?

Todos, absolutamente todos os indicadores dos últimos meses, das últimas semanas, dos últimos dias são mais assustadores do que esse déficit. Se o governo executar os projetos já aprovados, se vierem com urgência outros mais, como Obama já anunciou, a economia americana poderá crescer 1,2% neste ano (foi 1,1% no ano passado) e 3,1% no próximo. O déficit cairia para US$ 533 bilhões em 2013. São muito otimistas, afirmam alguns. Será? Talvez não, porque a nova equipe tem se mostrado transparente e responsável. A previsão é cautelosa. Parte de uma retomada gradual e lenta no decorrer dos próximos quatro anos.

É realista, também, porque desta vez a injeção maciça de recursos está sendo encaminhada para setores que geram produção, emprego, demanda e crescimento.

Os recursos que irão provocar o déficit atacam de frente o desemprego que já chega a quase 3 milhões de pessoas. Os recursos socorrem mutuários e famílias endividadas, abrem caminho para sair da recessão talvez ainda neste ano. E o mundo irá atrás porque é o mercado interno americano que absorve as suas exportações. Quase US$ 2 trilhões por ano.

PODE HAVER RECUPERAÇÃO

Bush e sua equipe econômica não tiveram tempo ou não quiseram fazer nada disso. Obama rompeu essa política que se revelou desastrosa. Busca com energia e sentido de urgência o fim do túnel. E há luz porque a economia americana ainda é suficientemente forte para voltar a crescer carregando as outras consigo.

E não me digam, por favor, que estou exagerando. Basta ver que a economia da zona do Euro afundou mais na recessão porque suas exportações para os EUA despencaram. E ela afunda ainda mais na recessão.

A China também está sendo seriamente atingida porque 19% das suas exportações de US$ 1,2 trilhão se destinam para os EUA. Mesmo livre da crise financeira, não vai crescer mais de 6% neste ano em confronto com 11% dos anteriores.

A recessão começou nos EUA e eles são os únicos que nos podem tirar dela. E, pelo menos até agora, Obama está tentando fazer isso. Acertou ao optar por um déficit o gigantesco para evitar a depressão. E é por isso que deve ser seguido pelos países desenvolvidos que mergulham na recessão.

E O BRASIL?

Aqui nós estamos em situação melhor, mas desconfortável. Em janeiro, tínhamos ainda um superávit primário de 3,58% do PIB. Não é mal, mesmo estando um pouco abaixo da meta do governo de 3,8%. Mas há um sinal de aviso. Ele vem recuando mais rapidamente nos últimos meses. Em dezembro, anualizado, estava em 4%. Uma parte pode ser devido a gastos do governo que não foram controlados, mas outra decorre dos investimentos e redução de impostos destinados a sustentar a economia e enfrentar a recessão. Temos, portanto, um espaço ainda para continuar agindo sem que se agrave o risco de cair novamente nos déficits fiscais do passado.

EUROPA DE NOVO…

Aqui surge a União Europeia relutando de novo. Os países membros são punidos se tiverem déficit superior a 3% do PIB. Isso é coisa do passado. Estão proibidos, também, de terem um endividamento acima de 60% do PIB. A punição é a expulsão da zona do euro. Só que sete países já ultrapassaram esses limites, por enquanto, inclusive a Alemanha. Se as regras forem cumpridas, a zona do Euro simplesmente desaparece… Mesmo assim, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia insistem em mantê-las, apesar de um aprofundamento semanal na recessão.

Os planos de estímulo à economia somente agora estão aparecendo, mas, com exceção da Grã-Bretanha, estão atrasados e poderiam ter sido úteis há cinco meses. Agora, não. Estão superados pelo agravamento da recessão que os governantes europeus, como Bush, só içaram olhando acontecer.

*E-mail: at@attglobal.net

01/03/2009 - 11:59h Obama põe educação no topo de agenda e planeja reforma

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Presidente pretende triplicar verba do setor para US$ 150 bi, mudar políticas de Bush e diminuir índice de abandono

Pilares são a educação de crianças menores, melhora das escolas públicas e maior acesso ao ensino superior

ANDREA MURTA DE NOVA YORK – FOLHA SP

Em sua ambiciosa proposta de gastos públicos, o presidente Barack Obama quer dar à educação nos EUA quase US$ 150 bilhões em gastos discricionários já no primeiro ano de governo. É um aumento de mais de 200% em relação ao que George W. Bush pediu ao chegar ao poder. Mas a revolução prometida por Obama vai além da verba e sacode primordialmente as políticas para o setor.
“Meu Orçamento apoia um investimento histórico em educação (…) ao equilibrar novos fundos com novas reformas”, afirmou o novo presidente ao Congresso na última quinta.
Da verba sugerida, US$ 46,7 bilhões são em gastos discricionários do Orçamento para o departamento. Outros US$ 100 bilhões vêm do pacote de estímulo da economia, aprovado separadamente pelos legisladores, e já estão nos cofres do órgão. E a conta não inclui gastos hoje discricionários mas que o novo governo quer tornar obrigatórios, como bolsas para estudantes universitários de baixa renda.
A proposta de Obama destaca três pontos. O primeiro é investir na educação de crianças de 0 a 5 anos. O segundo é fortalecer e reformar escolas públicas ao ajudar Estados a desenvolver bons padrões de testes, melhorar métodos de ensino e recompensar bons professores. E o último é expandir oportunidades nas universidades por meio de empréstimos estudantis e cortes de impostos para baixar as mensalidades.

Bush

Mas propagar a intenção de transformar o ensino não é exclusividade do novo presidente. Em 2001, em seu primeiro discurso aos legisladores, Bush afirmara que “o maior aumento percentual de nosso Orçamento deve ir para a educação de nossas crianças. Educação é minha prioridade”. Em sua estreia, aliás, Bush dedicou muito mais tempo ao tema do que Obama. E remodelou já nos primeiros dias do mandato um programa abrangente, rebatizando-o de “Nenhuma Criança Ficará para Trás”.
O programa buscava mais ênfase em resultados de testes, mais liberdades para Estados e comunidades, uso de métodos educacionais “comprovados” e mais opções para os pais.
Algumas medidas foram quase unanimemente elogiadas, como a exigência de divulgação de resultados de minorias, o que revelou lacunas entre os grupos. Mas boa parte dos especialistas afirma que o resultado final foi negativo, com Estados relaxando testes de aferição por medo de fracassarem e serem penalizados ao receberem fundos do governo.
Oito anos depois, a imagem do programa é tão ruim que o novo secretário da Educação, Arne Duncan, quer mudar seu nome. Entre as sugestões irônicas aventadas na mídia estão “Nenhum Espertinho Ficará para Trás” e “Nenhuma Criança Ficará sem Teste”.
De toda forma, o acúmulo de esforços ineficazes resultou na continuidade de problemas no treinamento de professores, falta de padrões nacionais de prestação de contas, diferenças gritantes nos resultados de alunos por raça/grupo e perda de qualidade ante outros países desenvolvidos. Há ainda o que Obama chama de “crise de abandono da escola”, que afeta 22% dos estudantes hispânicos e 10,7% dos negros.
O presidente ainda precisará dobrar a resistência de republicanos e democratas mais conservadores na área fiscal para aprovar seu Orçamento. Esforço e oratória, no passado, não chegaram muito longe.

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Crise e maior papel federal são riscos em projeto

Escolas mostram medo em se submeter a avaliação

DE NOVA YORK

Além das dificuldades inerentes à ambição de reformar um sistema educacional, o presidente dos EUA, Barack Obama, contará neste ano com o peso extra da recessão.
Com a crise, só para manter a educação no nível atual, o governo vai gastar ao menos US$ 53,6 bilhões oriundos da lei de estímulo à economia para criar um fundo de estabilização fiscal para os Estados. É a parte mais gorda da lei de ajuda que vai para a educação. Sem ela, as escolas poderiam ser obrigadas a cortar 574 mil empregos, segundo estudo da Universidade de Washington.
Em meio a valores tão altos, críticos já temem que o Departamento da Educação não consiga destilar a verba adequadamente. Uma preocupação é que o dinheiro escoe para Estados que precisam menos, até porque estimar as necessidades é tarefa complicada.
“Como cada Estado estabelece seu próprio método de aferir aprendizado -e muitos deles são frouxos-, na verdade não sabemos comparar a qualidade do ensino pelo país”, afirmou à Folha Doug Harris, professor de políticas educacionais da Universidade do Wisconsin.
Ele diz que as propostas de Obama estão no caminho correto. Destaca a intenção de padronizar as medidas e ajudar mais as piores escolas, inclusive levando a elas alguns dos melhores professores.
Também elogia a ênfase na educação de 0 a 5 anos, fundamental para a capacidade de aprendizado futura.

Portas fechadas
Outro especialista, Thomas James, reitor da Faculdade de Educação da Universidade Columbia, apontou como “área nobre” das propostas de Obama a intenção de aumentar o papel do governo federal na educação.
Seria uma guinada. Hoje são Estados e municípios que criam escolas e faculdades, desenvolvem o currículo e determinam exigências para matrícula e graduação. Com as verbas, a linha é a mesma. De estimados US$ 1 trilhão gastos pelo país em educação entre 2007 e 2008, no máximo 12% foram federais.
Aumentar a participação do governo federal na educação, porém, é mexer em um vespeiro. George W. Bush evitou fazer isso. Mesmo assim, hoje as escolas costumam temer se expor a intervenções federais.
Esse medo ajuda a explicar porque as instituições se fecham à imprensa. A Folha contatou em dois dias mais de dez escolas de quatro cidades diferentes em Nova York e Nova Jersey, e nenhuma permitiu o acesso da reportagem. Entrevistas por telefone foram negadas. Solicitações a cinco profissionais dos departamentos da Educação dos dois Estados foram infrutíferos. Em Nova York, um membro do Departamento Estadual da Educação confirmou que “as escolas foram orientadas a não falar com repórteres”.
Mas Nova York e Nova Jersey estão longe de serem Estados de piores notas. Em uma das poucas provas de aferição padronizada do país, o NAEP, que mede o progresso dos alunos ano a ano em algumas escolas, Nova Jersey teve um dos melhores resultados de 2007. Nova York ficou na média. Os mais fracos foram Mississippi, Havaí, Nevada e Novo México.
Thomas James afirma porém que as maiores diferenças estão não entre Estados, mas entre subúrbios, grandes cidades e áreas rurais. Segundo ele,”os subúrbios pagam melhor e atraem os melhores professores”.
Em quatro anos, talvez o cenário seja ser outro. Isso se o plano de Obama for bem sucedido. E a crise permitir.

01/03/2009 - 11:36h Política de impostos é a espinha do projeto

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DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON

A história da economia dos EUA nos últimos 70 anos pode ser dividida a grosso modo em dois períodos: as décadas imediatamente seguintes à Segunda Guerra, quando a desigualdade diminuiu muito, e as últimas três décadas, quando as forças econômicas globais e a política governamental a fizeram aumentar em ritmo vertiginoso. Barack Obama se prepara para iniciar um terceiro período, mais semelhante ao primeiro do que ao segundo.

A agenda começa com os impostos. Nas últimas três décadas, a renda pré-impostos das famílias ricas subiu muito mais que a das demais, enquanto as alíquotas dos setores que mais ganham foram as que mais caíram, segundo o Escritório Orçamentário do Congresso. Como resultado, a renda média pós-imposto do 1% das famílias mais ricas saltou aproximadamente US$ 1 milhão desde 1979 (contada a inflação), chegando a US$ 1,4 milhão. Já a renda média geral subiu apenas um pouco mais que a inflação. Antes de tornar-se o principal assessor econômico de Obama, Lawrence Summers dizia que, com o aumento na desigualdade, era como se cada família que integrava os 80% inferiores do bolo de renda na prática estivesse remetendo anualmente um cheque de US$ 10 mil ao 1% mais rico. O Orçamento de Obama reflete essa percepção. Os especialistas ainda estão estudando os detalhes, mas parece que os vários cortes e créditos tributários voltados à classe média e aos pobres vão aumentar a renda final da família média em cerca de US$ 800.

Enquanto isso, o aumento dos impostos sobre o 1% mais rico provavelmente custará a eles US$ 100 mil por ano. “O código fiscal ficará mais progressista, com índices relativamente altos cobrados dos ricos e relativamente mais baixos da classe média e dos pobres”, disse Roberton Williams, membro sênior do Centro de Política Tributária, em Washington. “Isso é uma inversão da política de Bush.” E, assim como o aumento de taxação sobre os ricos imposto por Franklin Roosevelt se seguiu a um crash da Bolsa, que já tinha deprimido a renda deles, as propostas de Obama, se forem aprovadas, farão o mesmo.

Essa combinação tem o potencial de reverter uma parte importante da tendência de desigualdade das últimas décadas. Mas, para que o país repita o padrão pós-Segunda Guerra, será preciso que a renda da maioria das famílias também suba mais rápido do que tem subido desde a década de 70. Essa hipótese ainda é incerta. Economistas dizem ser pouco provável, nos próximos anos, que a economia americana cresça como nos anos 50 ou 60.

Saúde e educação

Obama pretende elevar a renda da classe média e dos pobres por dois canais principais. O primeiro é reformar a saúde para reduzir o valor gasto com seguro -hoje uma parcela grande a pesar nos salários. O outro canal é a educação. Nas últimas três décadas, os salários de profissionais com formação universitária subiram muito mais que os dos trabalhadores menos instruídos. Obama quer levar os trabalhadores para a primeira categoria, ampliando a assistência financeira federal e simplificando os programas de assistência.

E, nos últimos anos, os EUA perderam a posição como país em que mais adultos jovens se formam na universidade. “Os jovens de famílias de renda baixa e média frequentemente não aspiram a fazer faculdade”, disse o diretor do Escritório de Administração e Orçamento, Peter Orszag. “Eles ouvem falar das “taxas anuais de US$ 40 mil” e acham impossível.”

Tradução de CLARA ALLAIN – FONTE FOLHA SP

01/03/2009 - 11:09h Novo Orçamento americano enterra a era conservadora

Ideia central é reverter rápido crescimento da desigualdade iniciado nos anos 80 com Reagan

Com plano, Obama quer reescrever código tributário e tentar sanar parte das causas do desaquecimento da renda da classe média

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DAVID LEONHARDT DO “NEW YORK TIMES”, EM WASHINGTON – FOLHA SP

O Orçamento que Barack Obama propôs na última quinta aos EUA não é nada menos que uma tentativa de pôr fim a três décadas de política econômica dominada pelas ideias de Ronald Reagan e seguidores.

A proposta de Obama -uma mudança radical em relação à história recente- prevê forte elevação dos impostos sobre os ricos, para além do patamar para o qual Bill Clinton os elevara. E reduz os impostos sobre o resto da população para menos do que estavam sob Clinton e George W. Bush. O Orçamento ainda deita as bases para mudanças amplas na saúde e na educação, entre outras áreas.

Mais que qualquer outra coisa, a ideia é reverter o crescimento rápido da desigualdade econômica verificado nos últimos 30 anos. Isso deve ser feito, primeiro ao reescrever o código tributário e, no longo prazo, ao tentar resolver algumas das causas do desaquecimento da renda da classe média, como os altos custos médicos e a queda nos ganhos educacionais.

Depois de Obama ter passado boa parte de suas primeiras cinco semanas na Presidência tratando da crise financeira, seu Orçamento traz de volta para a mesa as prioridades nas quais ele baseou sua campanha.

Seus esforços vão aumentar um déficit já inchado pelas políticas de Bush e a recessão, criando o maior déficit desde a Segunda Guerra. Eliminá-lo vai exigir escolhas difíceis -como cortes extras de gastos e aumentos nos impostos- que Obama evitou tratar por ora.

Apesar disso, ele fez escolhas. Buscou eliminar subsídios corporativos que os economistas criticam há muito tempo, pagos a seguradoras de saúde, bancos e empresas agrícolas. Propôs taxar a emissão de carbono, para desacelerar o aquecimento global, e depois refinanciar a maior parte da receita obtida com esse programa, por meio de cortes amplos nos impostos.

Pediu cerca de US$ 100 bilhões por ano em aumentos dos tributos sobre os ricos -em sua maioria adiados até 2011, quando se presume que a recessão terá terminado- e US$ 50 bilhões por ano em cortes líquidos para os não-ricos.

Há ainda muitas perguntas em aberto sobre a proposta, a começar pelas chances de o Congresso aprová-las. Os planos para saúde e educação também esbarram em resistência, e, se a economia continuar fraca até 2010, os republicanos no Congresso vão tentar atribuir a culpa por isso ao aumento dos impostos para os ricos.

Aconteça o que acontecer, porém, faz muito tempo que nenhum presidente tentava usar seu Orçamento para moldar o governo e a economia tanto quanto Obama tentou. Nesse ponto, ele e Ronald Reagan têm algo em comum.

28/02/2009 - 14:52h Orçamento muda EUA de rumo

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Proposta de Obama apresentada rompe com as políticas dos últimos 30 anos e acaba com o temor de que presidente sacrificasse prioridades progressistas por conta da crise

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES”

ELEIÇÕES TÊM consequências. O Orçamento do presidente Barack Obama representa uma ruptura enorme, não só com as políticas dos últimos oito anos, mas com as tendências políticas dos últimos 30. Se ele conseguir que o Congresso aprove qualquer coisa parecida com o plano anunciado anteontem, terá posto os EUA num rumo novo. Entre outras coisas, o Orçamento será recebido com enorme alívio pelos democratas que começavam a sentir um pouco de depressão pós-eleitoral. O pacote de estímulo econômico que o Congresso aprovou pode ter sido muito fraco e focado em cortes nos impostos. A recusa do governo em endurecer com os bancos pode ter decepcionado. Mas o temor de que Obama pudesse sacrificar as prioridades progressistas em seu Orçamento acabou. Isso porque este Orçamento prevê US$ 634 bilhões em gastos nos próximos dez anos com a reforma da saúde. Não dá para pagar por cobertura universal, mas é um começo impressionante. Em outro front, também é animador ver que o Orçamento projeta US$ 645 bilhões em receita com a venda de autorizações para emitir carbono, o que mostra preparo para lidar com a mudança climática. E essas novas prioridades estão expostas num documento cuja clareza e plausibilidade parecem incríveis a quem se acostumou a ler os Orçamentos de Bush, que insultavam nossa inteligência a cada página. O que temos agora é um Orçamento no qual se pode crer.


Corte no déficit

Muitos perguntarão se Obama poderá realmente reduzir o déficit de US$ 1,75 trilhão neste ano para menos de um terço disso em 2013, como está prometendo. Sim, ele pode. Hoje o déficit é enorme por fatores temporários (ou que esperamos que sejam temporários): um recuo econômico grave vem deprimindo a receita, e grandes montantes precisam ser reservados para o estímulo fiscal e resgates financeiros. Mas, se e quando a crise passar, o quadro deve melhorar. De 2005 a 2007 -nos três anos que antecederam a crise-, o déficit federal foi da ordem média de US$ 243 bilhões por ano. Durante esses anos as receitas estavam inflacionadas, até certo ponto, pela bolha imobiliária. Mas também é verdade que gastávamos mais de US$ 100 bilhões por ano no Iraque. Portanto, se Obama tirar os EUA do Iraque (sem afundar num atoleiro afegão) e conseguir arquitetar uma recuperação econômica sólida – dois “ses” grandes-, reduzir o déficit para US$ 500 bilhões em 2013 não deve ser difícil.

Quanto aos juros sobre as dívidas acumuladas nos próximos anos, as taxas são inferiores a 4%, de modo que mesmo US$ 1 trilhão de dívida adicional somará menos de US$ 40 bilhões por ano a déficits futuros. E esses custos já se refletem na proposta orçamentária. Se temos boas prioridades e projeções plausíveis, o que há para não se gostar neste Orçamento? Basicamente, as perspectivas de longo prazo. Segundo as projeções do governo, a razão entre a dívida federal e o PIB vai subir muito até se estabilizar em torno de 60%. Não seria um nível extraordinariamente alto pelos padrões internacionais, mas seria o maior endividamento dos EUA desde os anos imediatamente seguintes à Segunda Guerra. E isso nos deixaria com margem de manobra consideravelmente reduzida caso outra crise se apresentasse. Ademais, o Orçamento Obama trata apenas dos próximos dez anos. Os problemas fiscais realmente graves dos EUA estão mais além desse horizonte: cedo ou tarde vamos ter que encarar as forças que empurram para cima os gastos de longo prazo -sobretudo o custo sempre crescente da saúde. E, mesmo que os custos da reforma fundamental da saúde sejam controlados, eu, pelo menos, acho difícil que o governo federal consiga cumprir suas obrigações de longo prazo sem elevar pelo menos um pouco os impostos sobre a classe média. Mas não culpo Obama por deixar algumas perguntas grandes sem resposta. Há um limite ao pensamento de longo prazo que o sistema político consegue encarar sob uma crise grave. E este Orçamento parece ser muito, muito bom.

Tradução de CLARA ALLAIN – FOLHA SP

16/02/2009 - 10:30h Crise revela algo imprevisto: quem resistiu à globalização agora sai em vantagem

Gerenciando riscos

tony cenicola/The New York Times

FLOYD NORRIS
ANÁLISE ECONÔMICA

Nas últimas décadas, enquanto a globalização se disseminava, o ritmo do crescimento econômico mundial aumentou. As economias abertas, como se vê, conseguem crescer mais depressa que as fechadas.
Mas hoje, quando a crise financeira se transforma em econômica, parece que os países com economias fechadas talvez estejam em melhores condições de suportar os tempos difíceis.
O economista de Harvard Kenneth S. Rogoff notou, no mais recente Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, que a Índia, que tem “restrições comparativamente estritas ao fluxo de capitais internacionais”, também parecia ser a mais otimista e mais preparada para o crescimento econômico em um ano em que poucos países estão.
“Graças aos céus por nossa forte estrutura regulatória do sistema financeiro”, disse um executivo indiano a Rogoff.
Em comparação, países que se abriram mais aos mercados de capital internacionais e que tentaram atrair empresas com regulamentos relativamente frouxos hoje estão sofrendo mais. A Islândia foi a economia-prodígio do mundo; hoje está falida.
Esta crise mostrou que o ponto fraco de um sistema financeiro globalizado é a falta de regulamentação consistente para evitar que banqueiros excessivamente confiantes assumam riscos irresponsáveis. Um ano e meio atrás, quando parecia ser apenas uma questão de hipotecas de baixa qualidade nos EUA, a maioria dos países pensou que pudesse passar ao largo. Mas todos no sistema globalizado estavam vulneráveis.
“Precisamos de um regulador global com dentes afiados, para impedir o problema do mínimo denominador comum”, disse Rogoff. Antes da crise, o capital fluía para onde fosse menos regulamentado, e alguns países competiam para ser esse lugar. Vale a pena lembrar que o governo de George W. Bush tentou usar a ameaça da concorrência estrangeira para abrandar a regulamentação antes da explosão do sistema financeiro.
Se isso não acontece, o mais racional para muitos países talvez seja isolar-se da economia globalizada. “Os países vão se sentir obrigados a impor mais controles de capital para não se expor a riscos”, disse Rogoff.
A metáfora que vem à mente é a de um grande navio: um de casco simples custa menos para construir e operar do que um navio semelhante com um casco duplo. Portanto, ganhará mais dinheiro em cada viagem, mas tem maior probabilidade de afundar se encontrar uma tempestade severa ou um grande iceberg.
Permitiu-se que o sistema financeiro escapasse ao controle exatamente na época em que poderia causar mais danos ao mundo. Antes da crise, as evidências pareciam demonstrar que os países em desenvolvimento poderiam se beneficiar da abertura financeira, supondo que outros fatores estivessem presentes. “A abertura total das contas de capital, na ausência de condições de apoio essenciais, pode viciar a realização de lucros, enquanto torna um país mais vulnerável a súbitas interrupções dos fluxos de capital”, escreveu há alguns anos Rogoff, que foi chefe de pesquisa do FMI.
Essas condições essenciais, o trabalho acrescentou, “incluem políticas macroeconômicas estáveis, assim como fortes instituições financeiras, regulamentação e governança”.
Quando Rogoff e seus colegas escreveram esse texto, tinham em mente a regulamentação no país que fazia a abertura, e não nos EUA e no Reino Unido, onde estava sediada a maioria dos principais bancos do mundo.
Mas são exatamente esses países que provaram a verdade da advertência. “Fomos incrivelmente irresponsáveis”, disse Rogoff sobre os reguladores americanos. “Todas as luzes vermelhas estavam piscando. Nossos líderes foram cegos para o que estava acontecendo.”
Rogoff é um economista sério demais para achar que a solução é fechar as economias. “A lição não é que se deve rumar para a autarquia financeira”, disse. Mas o mundo poderia estar em melhores condições hoje se mais países tivessem escolhido esse rumo e estivessem mais isolados da tempestade de crédito, que deixou empresas e países temerosos de que não conseguirão os financiamentos necessários.
Certamente, de tudo isso sairá uma nova arquitetura regulatória americana, e haverá mais esforços de colaboração internacional.


Economias fechadas estão mais protegidas da crise generalizada


Entre os reguladores, uma palavra frequente hoje em dia é “contracíclico”, e haverá esforços para incorporá-la em qualquer novo sistema. Na essência, significa que os reguladores deveriam forçar os bancos a assumir menos riscos quando as coisas estão muito boas e a relaxar os padrões quando as coisas estiverem muito ruins e o mundo precisar desesperadamente de crédito.
Adotar medidas para impedir que mais países se isolem ajudaria a economia global e, em longo prazo, as instituições regulamentadas. Realizar isso será muito mais difícil e menos popular politicamente do que impor limites aos bônus dos executivos. Mas poderia causar um bem muito maior.

15/02/2009 - 19:35h Sobre os prémios World Press Photo 2008


Yannis Kolesidis/Reuters, Grécia, 2º prémio People in the News

O crítico do Público Eduardo Cintra Torres é um espectador atento à criação fotográfica contemporânea e ao fotojornalismo em particular.
Eis o texto que escreveu para o Arte Photographica sobre os prémios World Press Photo 2008 ontem divulgados:

Não há luz ao fundo da porta do fundo das nossas casas

O Iraque e o Afeganistão desapareceram dos prémios World Press Photo relativos a 2008. Não há entre as fotografias premiadas nada da guerra no Iraque (mas ainda há guerra no Iraque? Esta semana, em Badgad, o movimento do anti-american radical cleric Al-Sadr, como lhe chama a imprensa americana, patrocinou uma boa exposição de pintura contemporânea iraquiana). Do Afeganistão, nada também. E do Médio Oriente, onde ocorreram duros combates entre Israel e o Hamas, chega apenas uma fotografia, anterior ao conflito. É uma imagem de perturbadora beleza: quatro manifestantes palestinos procuram abrigar-se debaixo de uma oliveira isolada enquanto pelo chão se espalha uma nuvem de gás lacrimogéneo; a mancha branca do gás é bela, igual aos farrapos de nuvens verdadeiras no céu azul com que parece misturar-se, o nevoeiro lacrimoéneo quer esconder o mal que alberga; e a oliveira, tão bonita, símbolo de paz, no meio da pequena clareira onde o gás ainda não chegou, parece o antídoto contra o gás venenoso, mas, na sua velhice, enrosca-se em si mesma, dando um movimento adicional à imagem que nos diz como a paz é torta e difícil naquele lugar. A fotografia não ganhou o primeiro prémio, nem as fotografias do conflito mais ilustrado deste ano, o da guerra na Geórgia, que aos tanques e militares preferiram gente que chora mortos: o fotojornalismo, como a pintura desde pelo menos a Segunda Guerra Mundial, não quer saber de vitórias militares, apenas vê derrotas humanas.

É o caso das guerras tribais no Quénia, que motivaram imagens premiadas, fotografias extraordinárias que mostram que não há ali diferença entre vencidos e vencedores, os que matam e os que morrem são intermutáveis, é terrivelmente difícil sentir pena, apenas se sente horror pelo grau zero a que chega o valor da vida: aquela criança que à porta de casa agita as mãos quando chega o assassino de cacete na mão tem o horror da morte espelhado no gesto.

Há ainda outras guerras destacadas pelos prémios deste ano. São as guerras da natureza contra o homem, a que chamamos catástrofes naturais: um terramoto na China premiou um instantâneo com o primeiro lugar nessa categoria e originou um outro segundo prémio para uma fotografia que parece caótica por nos transmitir o caos da destruição em Beichuan; um ciclone em Myanmar arrancou o terceiro prémio de reportagem; um vulcão no Chile transmitiu toda a beleza da explosão ao primeiro prémio na categoria Natureza. Há também as guerras nas favelas, as guerras de gangues, o terrorismo em Bombaim. E sobra sangue: sangue no desporto (no judo, no boxe), sangue nos chãos de zonas de conflito e sangue que escorre debaixo da manga dum manifestante em Atenas, numa fotografia de impressionante composição: em primeiro plano, à direita, a manga dum blaser, o sangue que escorre pela mão, a mão que segura um dossiê, mão de professor. À sua frente, os escudos da polícia de choque: o sangue é o índice da violência e da irredutibilidade das posições.

Todavia, dentre todas as imagens, o júri escolheu para fotografia do ano a imagem de um polícia dentro de uma casa desocupada. Ele está armado, aponta a arma para uma divisão da casa que não podemos ver. O chão da divisão em que nos encontramos com ele está caótico: caixotes espalhados, lixo, papéis, mobílias velhas. Na parede ao fundo, um aplique torto; na casa de banho pela porta aberta em frente, a mesma desarrumação. Só a legenda nos pode explicar esta imagem marcada por uma violência que já passou (a desarrumação) e por uma violência que poderá chegar (o polícia que se precavê de arma apontada). Esta guerra é outra, diz a legenda: “Economia dos EUA em Crise: depois dum despejo, o detective Robert Kole tem de garantir que os moradores saíram da sua casa. Cleveland, Ohio, 26 de Março”.

Esta guerra chegou ao interior dos Estados Unidos. É mesmo uma guerra, vê-se os indícios dela. E é um drama, vê-se pela composição: a parede do fundo é como um pano de teatro paralelo aos espectadores (nós que vemos a fotografia), há portas como no teatro, há um movimento subtil do polícia, como os dos actores no palco. Há suspense: que poderá acontecer na outra divisão da casa? Estará alguém lá? Imaginamos que a família saiu, de rastos pela miséria que sobre ela se abateu, e vingando-se, deixando o lixo para quem vier a seguir: mas será que a família desesperada se esconde ainda no quarto ao lado?

A composição como de um palco de teatro favorece a organização harmónica, fornecendo a compreensão estética que compensa o caos dos elementos soltos. E essa harmonia é reforçada por um elemento paradoxal: o polícia, que parece estar do lado direito da imagem, por já ter ultrapassado a porta do fundo, está afinal exactamente no centro geométrico da imagem: o colt que traz à cintura marca o ponto em que as diagonais se intersectam.

Lemos as imagens da esquerda para a direita, e aqui essa narrativa só nos promete incerteza e a hipótese de conflito e de medo. Como nos quadros, a luz vem da esquerda, do passado, dos tempos alegres em que a família viveu nesta casa; a escuridão está à frente do polícia e por isso à nossa frente, do lado direito, é o negro para lá da porta, o Adamastor da crise. É para lá que o polícia aponta a arma: para o futuro, para a crise, para uma guerra em potência dentro das nossas casas — aquele vazio negro é o túnel sem luz ao fundo que nos ameaça a todos. Esta fotografia é um ícone da crise que chegou, da crise que está, da guerra das famílias contra a crise, o Adamastor, o monstro negro. É o ícone do fim da era Bush e das suas guerras pelo mundo fora, é o ícone do início da era Obama, da guerra interior com que se vêem a braços milhares de milhões de famílias, empresas, polícias e policiados da América e de cada país do mundo.

Eduardo Cintra Torres

11/02/2009 - 20:03h Obama revê o embargo que proíbe a divulgação de imagens dos caixões de soldados mortos no Iraque e no Afeganistão

Blog Images&Visions

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© Fotos de Todd Heisler. Caixões de soldados norte-americanos mortos no Iraque são enviados de volta para os EUA.

Na última terça-feira, dia 10/02, o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, anunciou que o governo de Barack Obama vai rever o embargo imposto pelo ex-presidente George W. Bush que proibia a divulgação de imagens dos caixões de soldados mortos no Iraque e no Afeganistão pelos veículos de comunicação nos EUA. Segundo o jornal Washington Post, o atual governo decidiu analisar quais seriam as conseqüências do fim do embargo. Bush defendia que a divulgação das imagens invadiria a privacidade e aumentaria os custos das famílias das vítimas, pois atrairiam mais pessoas aos velórios, além de atrasar o regresso dos corpos dos soldados. Para alguns, o embargo serviria para esconder os custos humanos das guerras dos Estados Unidos. Segundo John Ellsworth, presidente da Millitary Families United (associação de famílias de soldados mortos), a decisão de permitir imagens dos caixões cabe aos familiares.

07/02/2009 - 11:08h À beira da catástrofe

Ce lundi, le 44e président doit tenir une conférence de presse destinée à présenter son équipe économique. (AFP)

Paul Krugman * – O Estado SP

krugman_paul.jpgUma coisa não muito engraçada ocorreu no caminho da recuperação econômica. Nas duas últimas semanas, o que deveria ter sido um debate extremamente sério sobre como salvar uma economia em situação desesperadora, se transformou num teatro político trivial com republicanos despejando todos os velhos clichês sobre gastos perdulários do governo e as maravilhas dos cortes de impostos.

É como se o pavoroso fracasso econômico dos últimos oito anos não houvesse acontecido – e, no entanto, por incrível que pareça, os democratas ficaram na defensiva. Mesmo que um grande pacote de estímulo seja aprovado no Senado, existe um risco concreto de que partes importantes do plano original, em especial a ajuda a governos estaduais e municipais, sejam amputadas.

De alguma maneira, Washington perdeu qualquer senso do que está em jogo – da realidade de que podemos perfeitamente estar caindo num abismo econômico, e que se o fizermos, será muito difícil sair dele.

É difícil exagerar o tamanho das dificuldades econômicas que enfrentamos. A crise começou no setor imobiliário, mas o estouro da bolha imobiliária da era Bush acionou a queda das pedras de dominó não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.

Os consumidores, com a sua riqueza dizimada e seu otimismo abalado pelo colapso dos preços das moradias e um mercado acionário em queda, cortaram seus gastos e aumentaram fortemente sua poupança – uma boa coisa no longo prazo, mas um golpe enorme na economia neste momento. Os incorporadores de imóveis comerciais, observando a queda dos aluguéis e a escalada dos custos do financiamento, estão cortando seus planos de investimento. Empresas estão cancelando planos para expandir a capacidade por não estarem vendendo o suficiente para usar a capacidade de que dispõem. E as exportações, uma das poucas áreas fortes da economia americana no último par de anos, estão despencando agora na medida em que a crise financeira atinge nossos parceiros comerciais.

Enquanto isso, nossa linha principal de defesa contra recessões – a capacidade habitual do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de amparar a economia cortando taxas de juros – já foi ultrapassada. O Fed cortou as taxas que controla basicamente a zero, mas a economia continua em queda livre.

Não é de surpreender, portanto, que a maioria das projeções econômicas advirtam que na falta de uma ação governamental estaremos a caminho de uma recessão profunda e prolongada. Alguns analistas privados preveem um desemprego de dois dígitos. O Escritório de Orçamento do Congresso está um pouco mais otimista, mas ainda assim seu diretor advertiu recentemente que “na falta de uma mudança na política fiscal… o déficit na produção nacional em relação aos níveis potenciais será o maior – em duração e profundidade – desde a Depressão dos anos 30″.

O pior de tudo é a possibilidade de que a economia se veja, como aconteceu nos anos 30, presa numa prolongada armadilha deflacionária.

Já estamos mais perto de uma deflação que em qualquer ponto desde a Grande Depressão. Em particular, o setor privado está experimentando cortes generalizados de salários pela primeira vez desde os anos 30, e haverá muito mais disso se a economia continuar se debilitando.

Como assinalou o grande economista americano Irving Fischer, há quase 80 anos, a deflação, uma vez iniciada, tende a se autoalimentar. À medida que as receitas em dólar caem em face de uma economia deprimida, o peso da dívida se torna mais difícil de suportar, enquanto a expectativa de novas quedas de preços desestimula os gastos com investimento. Esses efeitos de deflação deprimem ainda mais a economia, provocando mais deflação, e assim sucessivamente.

E armadilhas deflacionárias podem durar muito tempo. O Japão teve uma “década perdida” de deflação e estagnação nos anos 90 – e a única coisa que permitiu que o Japão escapasse de sua armadilha foi um boom global que intensificou as exportações do país.

Quem salvará os Estados Unidos de uma armadilha parecida agora que o mundo todo está em retração ao mesmo tempo? Será que o plano econômico de Obama, se aprovado, garantirá que os Estados Unidos não tenham sua década perdida?

Não necessariamente: alguns economistas, eu inclusive, acham que o plano é insuficiente e deveria ser substancialmente maior. Mas o plano de Obama certamente melhoraria nossa sorte. E é por isso que os esforços de republicanos para tornar o plano menor e menos eficaz – para transformá-lo em pouco mais que outra rodada de cortes de impostos ao estilo Bush – são tão destrutivos.

O que Barack Obama deveria fazer então? Eu me incluo entre os que acham que o presidente cometeu um grande erro em sua atitude inicial, de que suas tentativas de transcender o partidarismo terminaram fortalecendo políticos que recebem ordens de marcha de Rush Limbaugh. O que importa agora, porém, é o que ele fará em seguida.

Já é hora de o presidente Barack Obama partir para a ofensiva. Ele precisa, sobretudo, não se esquivar de assinalar que os que se colocam no caminho do seu plano em nome de uma filosofia econômica desacreditada, estão colocando em risco o futuro da nação. A economia americana está à beira da catástrofe, e boa parte do Partido Republicano está tentando empurrá-la por sobre essa beira.

*Paul Krugman é articulista

23/01/2009 - 09:28h De como a especulação sem limites quebrou até os especuladores

Reuters

Pânico atinge países emergentes, como a Argentina: para Krugman, será preciso realizar uma recapitalização maior e mais ampla dos bancos e afirmar com mais firmeza o controle do governo, algo que estará mais próximo da plena estatização temporária de uma parcela significativa do sistema financeiro

 

José Roberto Campos, de São Paulo – VALOR

Os poderosos bancos americanos foram dizimados pela farra com os empréstimos “subprime” e o mundo agora caminha rumo à recessão. Como foi possível que créditos irresponsáveis concedidos na periferia do sistema imobiliário americano – clientes que não obteriam crédito em situações normais – se tornassem tão destrutivos a ponto de ameaçarem a economia global? Já vimos isso antes, lembra o economista Paul Krugman, Nobel de 2008, em seu novo livro “A Crise de 2008 e a Economia da Depressão” (Editora Campus/Elsevier). Houve circunstâncias parecidas e alguns dos mesmos atores na crise mexicana de 1995, no vendaval que se abateu sobre Coréia do Sul, Malásia, Tailândia e Indonésia em 1997, na crise russa de 2008, nos fins traumáticos dos sistemas cambiais de Brasil e Argentina e no pânico com a quebra do fundo de hedge americano LTCM, em 1998.

Heterodoxo e pragmático, Krugman reescreveu partes de seu livro de 1999, em que aborda essas crises, e atualizou-o até o mergulho na insolvência dos grandes bancos americanos. Ao longo do tempo, há uma continuidade em todos os desastres econômicos recentes, e alguns padrões de comportamento repetidos em países muitos distintos entre si. “Parcela considerável do aumento da globalização financeira decorre de investimentos de instituições financeiras altamente alavancadas, que faziam vários tipos de apostas transfronteiriças arriscadas”, escreve Krugman. “Quando as coisas davam errado nos Estados Unidos, esses investimentos transfronteiriços atuavam como ‘mecanismos de transmissão’, pelo qual uma crise que eclodiu no mercado habitacional dos Estados Unidos desencadeou sucessivas outras no exterior.”

Um número grande de instituições financeiras, como bancos de investimentos e fundos de hedge, não era regulado por ninguém e reuniu tamanho poder e apetite por risco que se tornou um fator global de desestabilização das economias. Depois que elas semearam o pânico em países emergentes, implodiram junto com apostas excessivas na bolha de imóveis. É ilustrativa a descrição do poder de fogo atual dessas instituições traçado por Timothy Gethner, ex-presidente do Federal Reserve de Nova York e indicado para secretário do Tesouro do presidente Barack Obama, citado por Krugman. No início de 2007, conta, havia US$ 2,2 trilhões em coisas exóticas como “asset-backed commercial papers conduits”, “structured investment vehicles”, “auction-rate preferred securities”, “tender options bonds” e “variable rate demand notes”. Os ativos dos fundos de hedge eram de US$ 1,8 trilhão e os dos cinco maiores bancos de investimento, US$ 4 trilhões. Já os cinco maiores bancos comerciais detinham US$ 6 trilhões.

“A crise, em boa parte, não envolveu problemas com instituições desregulamentadas, que assumiram novos riscos. Ao contrário, girou em torno de riscos assumidos por instituições que, para começar, nunca foram regulamentadas.” Elas tinham tanto cacife financeiro quanto os bancões comerciais sob a vigilância do Federal Reserve, e uma ousadia que chegava quase que fatalmente à imprudência.

A história da atual recessão começa então com o estouro da bolha habitacional, que, para Krugman, deverá destruir US$ 8 trilhões em riquezas – US$ 7 trilhões de perdas para os donos dos imóveis e US$ 1 trilhão para os investidores. Esse trilhão de dólares é o rabo que acabou balançando o cachorro. Espalhados em títulos tóxicos pelo resto do mundo, forçaram uma espiral de vendas para cobrir posições e prejuízos que derrubou os preços de praticamente todos os ativos, em todos os mercados, em todo o mundo – e, casualmente, quebraram até a Islândia.

Uma retrospectiva das crises anteriores e das idéias na moda mostram como isso se tornou possível. A crença nos poderes mágicos do mercado levou os economistas a quase decretar o fim dos ciclos econômicos. O presidente do Fed, o todo-poderoso Alan Greenspan, que reinou de 1987 a 2006, e que “conseguira substituir a bolha de ações pela bolha habitacional”, disse em 2004 que o sistema bancário estava mais “resiliente”, uma afirmação só menos temerária que a do secretário do Tesouro de George Bush, Henry Paulson, que afirmou a mesma coisa em 2007, quando os bancos estavam caindo no abismo.

A mesma crença impulsionou a desregulamentação, que escancarou os mercados a investidores audazes e aventureiros, especialmente aos fundos de hedge, que, como qualifica bem Krugman, não buscam hedge e sim seu oposto, “extrair o máximo das flutuações de mercado”. O irmão gêmeo da desregulamentação foi o “risco moral”, a percepção, que se tornou verdadeira, de que qualquer estripulia financeira que desse errado seria consertada com dinheiro público, desde que fosse suficientemente grande para isso.

O crescente poder de fogo de instituições financeiras alavancadas patrocinou o “pânico auto-realizável”, que vitimou, por exemplo, os países asiáticos em 1997. Essas economias eram vulneráveis, diz Krugman, mas “não em razão do capitalismo de compadres, nem de políticas públicas que, sem dúvida, eram consideradas inadequadas”. Essa fragilidade aumentou com a abertura de seus mercados financeiros, pelo fato de, “na verdade, se tornarem melhores economias de mercado, não piores”, avalia.

Krugman considera que os US$ 700 bilhões do programa de alívio de ativos problemáticos são pouco para levantar os bancos, que poderão não estar dispostos a emprestar o dinheiro que recebem como ajuda. A recapitalização deverá ser maior e mais ampla, com maior controle do governo, “algo mais próximo da plena estatização temporária de parcela significativa do sistema financeiro”.

Ele acha que os gastos públicos são a melhor forma de estímulo econômico, superior às isenções fiscais. As vantagens: o dinheiro é realmente gasto, e não poupado, e, depois, com obras públicas “algo de valor seria construído”. A receita de um pragmático como ele é fazer tudo o que for preciso para reverter a crise, sem amarras ideológicas. Depois de afastado o perigo, deve-se consertar a bagunça. Sua posição sobre a reforma do sistema financeiro é igualmente simples. “Qualquer coisa que necessite de socorro durante a crise financeira, por desempenhar papel essencial no sistema financeiro, deve ser submetida à regulamentação, quando a crise tiver sido superada, para que não envolva riscos excessivos”, explica.

Conceitualmente, a economia da depressão parece um termo amplo demais, que abarca fenômenos distintos. Krugman a define a partir de falhas no lado da demanda da economia como “fator limitativo inequívoco à prosperidade econômica em boa parte do mundo”. Mas, pelo menos em alguns aspectos essenciais, as crises descritas surgiram durante um dos períodos de maior prosperidade da economia mundial, quando a demanda brotava em todos os lados, regada a crédito farto. A história de Tailândia, Malásia, Indonésia e Coréia é a de países bem-sucedidos, pelo menos pelo padrão das taxas de crescimento econômico.

Krugman chega a oscilar em seu diagnóstico, em geral muito preciso. A vulnerabilidade das economias da Ásia, do México e Brasil ao “pânico auto-realizável” torna-se quase inexplicável. Em um momento, acumular dívidas em moeda estrangeira é um dos principais suspeitos da catástrofe. Em outros, como no caso da Ásia, a repentina, e quase imotivada, é perda de confiança nos mercados que dá o sinal para o colapso. E chega a ser obscura a ligação entre a crise argentina e mexicana e a hecatombe atual dos bancos internacionais. “Sinto-me tentado a afirmar que essa crise não se assemelha a nada que tenhamos visto antes”, confessa. “Porém, eu seria mais exato se afirmasse que ela se parece com qualquer outra que já presenciamos em diferentes épocas, só que agora é como se todas estivessem acontecendo de uma vez, ao mesmo tempo.” A primeira hipótese, também bastante sugestiva, bem que poderia resultar em um outro ótimo livro de Paul Krugman.

23/01/2009 - 09:10h Sem grandes ilusões

Anna Carolina Negri / Valor

Krugman: “No curto prazo, estou muito nervoso. Espero estar errado, mas acho que provavelmente vamos ter um plano de recuperação da economia nos próximos meses que será insuficiente”

Por Robinson Borges, de São Paulo – VALOR

A esperança não venceu o medo do economista americano Paul Krugman. Considerado um dos mais severos críticos do governo de George W. Bush, o vencedor do Prêmio Nobel de Economia do ano passado diz se sentir aliviado com a mudança na Casa Branca, mas confessa estar intranqüilo com o cenário que se desenha para a economia americana. “Na verdade, no curto prazo, estou muito nervoso. Não acho que, mesmo com o novo governo, que está quase pronto para fazer o que é necessário, isso vá ocorrer”, disse Krugman em entrevista concedida anteontem ao Valor. “Espero estar errado sobre isso, mas acho que provavelmente vamos ter um plano de recuperação da economia nos próximos meses que será insuficiente, mais uma vez”, prosseguiu o célebere colunista do “New York Times”.

Árduo defensor de mais regulação dos mercados e de gastos públicos intensos, Krugman considera que as propostas divulgadas pela equipe econômica do recém-empossado presidente Barack Obama são tímidos para enfrentar a dimensão da crise atual. “Todas as soluções apresentadas me parecem meias medidas”, criticou o professor de Princeton. “O pacote fiscal parece limitar o avanço do desemprego, mas não preveni-lo. O plano de socorro aos bancos parece que serve para evitar catástrofes, mas não é suficiente para recuperar o sistema.”

Em sua perspectiva, os efeitos colaterais da crise atual serão terríveis: “O PIB dos EUA vai começar a crescer um pouco no fim do ano, mas o desemprego deve continuar muito alto nos próximos dois ou três anos. Provavelmente, o desemprego vai começar a cair no ano que vem, mas permanecerá alto.”

AP

Barack Obama na terça-feira, a caminho da posse: “O problema é a dimensão da crise que ele tem de enfrentar. Isso significa que a celebração não deve durar muito, especialmente do lado econômico”, afirma Krugman

 

De linhagem progressista, há tempos Krugman dá sinais do seu temor sobre o perigo dos excessos cometidos pelo mercado. Há dez anos, ele acendeu o farol amarelo da academia quando lançou um livro com o provocativo título “O Retorno da Grande Depressão”. Em menos de 200 páginas, ele analisava as crises internacionais que assolaram a América Latina e Ásia na década de 90 e advertia: a dramática queda da atividade econômica dos países emergentes não era um fenômeno isolado. Ao contrário do que pregavam seus colegas ortodoxos, argumentava que havia uma exagerada confiança nas políticas macroenconômicas, e que elas não seriam capazes de banir o fantasma da grande depressão da economia global. Krugman enxergava nos episódios dos países emergentes o presságio “funesto de que os problemas da depressão não haviam desaparecido”.

Uma década depois, com um Prêmio Nobel nas mãos e a maior recessão econômica nos EUA desde a Grande Depressão na cabeça, Krugman encontrou uma boa oportunidade para relançar o livro com uma edição revista e atualizada. Rebatizado de “A Crise de 2008 e a Depressão Econômica” (Campus/Elsevier), o título com prefácio do economista André Lara Resende chega às livrarias na próxima semana com um inevitável tom profético. “Tive um pouco desse sentimento de ‘não avisei?’ No entanto, gastei os últimos dez anos me preocupando com a crise que enfrentamos hoje. É importante ver que isso tudo não é completamente sem precedentes, que é possível observar as lições do Japão, da Argentina e da Ásia”, disse Krugman.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Depois de oito anos criticando severamente o ex-presidente George W. Bush, como o sr. se sente agora que a Casa Branca é ocupada por Barack Obama?

Paul Krugman: É um grande alívio. Do ponto de vista político, nossa democracia sobreviveu aos oito anos de Bush. Agora temos pessoas muito inteligentes no novo governo, o que é uma boa coisa. O problema é a dimensão da crise que Obama tem de enfrentar. Isso significa que a celebração não deve durar muito, especialmente do lado econômico, mas não apenas nesse aspecto. Há muitos outros a serem contornados. Não estou tão otimista quanto gostaria de estar.

Valor: A esperança não venceu seu medo?

Krugman: Na verdade, no curto prazo, estou muito nervoso. Não acho que, mesmo com o novo governo, que está quase pronto para fazer o que é necessário, isso vá ocorrer. Espero estar errado sobre isso, mas acho que provavelmente vamos ter um plano de recuperação da economia nos próximos meses que será insuficiente, mais uma vez. Mas, no final das contas, vamos fazer o que é necessário. Enquanto isso, seremos extremamente afortunados se escaparmos de uma taxa de desemprego de 9% ou mais nos Estados Unidos… Não sei como dizer isso… Todas as soluções apresentadas me parecem meias medidas. O pacote fiscal parece limitar o avanço do desemprego, mas não preveni-lo. O plano de socorro aos bancos parece que serve para evitar catástrofes, mas não é suficiente para recuperar o sistema.

Valor:
É uma questão de dose, isto é, seria preciso pôr mais dinheiro, ou está se fazendo a coisa errada?

Krugman: A escala dos planos é menor e muito distante das necessidades reais. A injeção de US$ 350 bilhões no setor financeiro, que para muita gente é muito dinheiro, não é. O valor necessário de injeção de capital no sistema bancário no curto prazo seria de US$ 1 trilhão. A perda do valor de ativos problemáticos ao longo dos últimos meses basicamente superou o dinheiro que estamos injetando. Também temos um problema: é muito difícil injetar capital em bancos fundamentalmente insolventes. E agora parece que este é o caso. Certamente, estou analisando grandes bancos como o Citigroup. Não está claro como os compradores de ações podem fazer seu trabalho nessas circunstâncias, porque me parece que um banco exige algo muito mais radical para ser salvo. O problema da crise é que ela é tão grande que o que se assemelha a uma grande resposta, na verdade, se transforma em uma resposta insuficiente.

Valor: O sr. já disse que o governo americano teme a palavra nacionalização. Seria essa uma solução para o problema dos bancos?

Krugman: Acho que, no final das contas, é a única alternativa disponível. Há muitos problemas com a nacionalização dos bancos, e temos de entender que ninguém quer ver o governo administrando o sistema bancário. Mas, se você observar a situação das maiores instituições financeiras, é muito difícil ver como podem continuar funcionando sem uma aquisição total. Elas não estão numa posição de cobrir todas as suas perdas para continuar. Se não houver uma nacionalização, isso significa que essas perdas ficarão para os acionistas. Não vejo uma saída e eu não estou feliz com a perspectiva.

Valor:
Uma das razões para que as propostas de socorro de Barack Obama sejam “tímidas”, segundo qualificação do sr., não é seu temor de aumentar o déficit? Ele não deve ter esse medo?

Krugman: Há uma preocupação real com isso, obviamente. Estamos falando dos Estados Unidos e de um grande déficit. Se alguém dissesse que vamos ter um pacote de US$ 3 trilhões, até eu diria: “Meu Deus, eu não sei se temos condições de gastar isso.” Mas acho que podemos gastar US$ 1 trilhão. No entanto, na verdade, não sei se esse é o problema real para a expansão do plano. Acho que isso ocorre por causa de uma combinação de fatores, como a dificuldade em lidar com projetos a serem pagos no futuro e a precaução dos políticos. Eles realmente não querem ter um plano de US$ 1 trilhão. Acho que o que limita o plano de Obama é a precaução política.

Valor: Quanto tempo o sr. avalia que durará esta recessão?

Krugman: Acho que o PIB dos Estados Unidos vai começar a crescer um pouco no fim do ano, mas o desemprego deve continuar muito alto nos próximos dois ou três anos. Provavelmente, o desemprego vai começar a cair no ano que vem, mas permanecerá alto.

Valor: O sr. parece não gostar da expressão “problemas estruturais” e parece não achar que eles tenham de entrar na receita para combater problemas graves e imediatos, como a crise atual. Mas há quem diga que os Estados Unidos gastam demais e a China, de menos, e que o esquema de países emergentes financiarem o déficit americano com enormes reservas está na raiz dos desequilíbrios atuais. Como consertar isso?

Krugman: Também é uma preocupação, mas não acho que deva ganhar centralidade na crise atual. Poderia argumentar que esses desequilíbrios têm muito a ver com as bolhas, mas, mesmo assim, não vejo como esses desequilíbrios façam diferenças fundamentais na estratégia de recuperação da economia. Precisamos salvar o sistema financeiro e expandir a demanda em todos os lugares. Isso não tem a ver com o desequilíbrio dos Estados Unidos com a China. Trata-se apenas de um pedaço da foto.

Valor: No livro, o sr. analisa diversas outras crises econômicas, passando pelas da Argentina, do México, da Rússia, da Ásia e chega até as bolhas da internet e da habitação nos Estados Unidos. Quais são os pontos de conexão entre todas elas?

Krugman: Há dois aspectos que unem todas essas crises. Um deles é que, de uma forma ou de outra, em todas houve um colapso financeiro, que envolve problemas com instituições, essencialmente problemas bancários. Não falo de bancos segundo o modelo tradicional, mas de bancos numa versão moderna, algo mais complexo. O segundo ponto é que, nesses episódios, os instrumentos simples de política fiscal e monetária não funcionaram. O que quero dizer quando trato de depressão econômica é justamente a incapacidade das ferramentas-padrão, que não servem para nos tirar da crise. Outra coisa é que há, por exemplo, uma similaridade reconhecível entre a forma como a crise na Rússia em 1998 levou a uma crise do real brasileiro e a forma como a crise da habitação americana atual levou a um problema na Islândia.

Valor: O sr. diz que a depressão econômica ocorre quando a política monetária perde seu poder de ação e as taxas básicas de juro são próximas de zero. Nesses casos, planos de socorro seriam fundamentais para estimular a economia. No Brasil, entretanto, nós temos as taxas de juros mais altas do mundo. O sr. acha que sua redução seria suficiente para mitigar o impacto da atual crise econômica? Isso significaria que a depressão econômica não chegou aqui?

Krugman: Vocês têm um diferente tipo de depressão, embora não seja tão severa quanto em outros lugares. Há duas razões para que você considere que a política monetária não está funcionando. Uma é aquela em que a taxa básica de juros é igual a zero, caso dos Estados Unidos hoje. Nessas condições, não há nada mais que você possa fazer. A outra é aquela em que você não corta a taxa de juros porque tem medo da desvalorização de sua moeda. Isso teria efeitos financeiros severos, por causa da dívida externa. O Brasil tem um pouco do segundo problema, mas não muito. O Brasil tem um dos casos menos ruins no cenário mundial. Não tenho lido muito sobre o Brasil ultimamente, mas me lembro que, quando o real se desvalorizou, em 1999, havia um temor generalizado de que seria uma catástrofe, como a da Indonésia, no ano anterior, e mesmo como a da Argentina, três anos depois. Na verdade, a desvalorização de 1999 não foi tão ruim porque o Brasil não tinha tanta dívida denominada em dólar nem estava tão frágil do ponto de vista financeiro como os outros. Hoje, o Brasil está numa situação melhor do que os países do Leste da Europa, que contam com empréstimos do exterior para abastecer suas economias emergentes. Eles têm muitas dívidas em euro e por isso não podem desvalorizar suas moedas. Estão numa armadilha por causa do estouro da bolha.

Valor: É isso o que sr. chama de mãe de todas as crises cambiais? E no Brasil, que desde que o Lehman Brothers quebrou, em setembro, o real se desvalorizou mais ou menos 25%?

Krugman: O Brasil não é o pior caso no momento. A queda da moeda brasileira não está criando o mesmo tipo de crise que outras desvalorizações. O Brasil é um país exportador de commodity [a queda das commodities é um dos fatores que explicam a expressiva desvalorização do real]. A crise de moeda realmente horrível é a da periferia européia, como já disse. Vemos países como Rússia, Estônia, Hungria, Ucrânia, Estônia, Polônia, Lituânia. Todos sofrem de crises cambiais. São crises como a da Argentina em 2002, mas de uma forma muito pior. O cenário pode se agravar, mas ainda há muitas peças de dominó para cair. Não vemos uma queda de impacto nas moedas dos Bálcãs. Só começamos a ver a severidade da crise no sudeste europeu. Claro que o problema do setor bancário está se tornando mais grave. Ainda estamos no meio da crise.

Valor: Voltando um pouco, o sr. acha que a redução das taxas de juros deve ser o principal mecanismo para o Brasil enfrentar a crise?

Krugman: Certamente haveria um efeito de expansão. Compreendo que o Brasil também tem inflação e que as coisas não são fáceis. Mas diria que o Brasil não é um caso clássico de país com depressão econômica. Vocês não são o Japão nem a Argentina, os dois tipos mais representativos de depressão econômica. Vocês devem se considerar felizardos por isso.

Valor: O sr. disse, numa entrevista recente, que saber o que ocorria na economia do G-7, grupo dos sete países mais ricos do mundo, na época da faculdade, era suficiente para entender a economia mundial. Mas hoje o cenário é diferente. As economias emergentes têm importância no mercado global. Como o sr. avalia que será a composição de forças no futuro, mesmo com a crise?

Krugman: Sim, hoje todos falamos dos Brics [Brasil, Rússia, Índia e China]. De alguma forma, o que ocorre agora são alguns ecos dos anos 30, quando um canal importante entrou em recessão, como ocorreu com os Estados Unidos na Grande Depressão, e essa recessão levou ao colapso das rendas dos países em desenvolvimento. O que vemos hoje é um colapso no comércio mundial, um dos pontos principais desta crise. E os países emergentes são centrais no comércio mundial. Realmente, estamos numa crise global. A China é uma preocupação especial, uma vez que se tornou um dos principais mercados. É uma das questões que me preocupam no momento. Estamos cautelosos ao observar essas economias emergentes. Como você disse antes, saber apenas o que ocorria nos países ricos era suficiente, mas agora os Brics são parte da história.

Valor: Em seu livro, fica bem claro que o sr. considera que os mecanismos de mercado têm limitações. O texto, de alguma maneira, procura provar isso com esta crise e outras tantas nas última décadas. Como o sr. acha que será o desenho do capitalismo a partir de agora?

Krugman: Estamos muito distantes de dizer que estamos nos despedindo do capitalismo. A forma como observo esta crise é que tivemos meio século, a partir da Grande Depressão, sem crises financeiras severas. Tivemos tempos ruins, mas nada comparado com o que vivemos nos anos 90 e, sobretudo, agora. Aquilo ocorreu por causa de um sistema bancário regulado e de um número razoável de controles. Eles não eram perfeitos, mas eram suficientes para manter o mundo como um lugar mais calmo. Podemos fazer isso novamente. O mundo está mais complicado, os controles terão de ser mais extensivos, a cooperação internacional terá de ser mais importante agora do que era no passado. Mas a história sugere que é possível moderar o capitalismo. Temos de voltar àquele modo tradicional, mas de forma atualizada para o século XXI.

Valor: Como escreveu o livro em 1999 e muito dos alertas registrados ali podem ser, de alguma forma, confirmados agora, o sr. teve uma sensação do tipo “não avisei?”, ao relançar o livro?

Krugman: Tive um pouco desse sentimento de “não avisei?”, sim. No entanto, gastei os últimos dez anos me preocupando com a crise que enfrentamos hoje. O importante é ver que isso tudo não é completamente sem precedentes, que é possível observar as lições do Japão, da Argentina e da Ásia.

21/01/2009 - 19:25h Os Doutores do Pessimismo

MARCELO COELHO – FOLHA SP


Será chamado de ingênuo aquele que quiser algo melhor do que o mundo em que vive


NÃO É PRECISO ser um grande gênio para constatar que vivemos num mundo bárbaro.
Que o ser humano é capaz das maiores atrocidades. Que a vida é feita de competição, inveja, egoísmo e crueldade.
Ninguém precisa ter vivido num campo de prisioneiros na Sibéria nem ter sido moleque de rua no Capão Redondo para saber disso. Mas virou moda entre muitos intelectuais e jornalistas anunciar uma espécie de “visão trágica” do mundo, como se se tratasse da mais surpreendente novidade.
Com certeza, há nisso uma reação saudável contra o excesso de otimismo. Durante o século 20, grande parte da esquerda não quis ver as barbaridades cometidas por Stálin e Mao porque, em última instância, “tudo iria dar certo”. Belas esperanças tornaram-se pretexto para atos de horror. Nada mais correto do que denunciar o horror.
O que me parece estranho é que, mais do que denunciar o horror, esses pensadores trágicos e jornalistas sombrios gostam de destruir as esperanças.
O reconhecimento do Mal, a crítica à violência da esquerda, a percepção de que ninguém é “bonzinho” e de que a realidade é uma coisa dura e feia vão se transformando em algo próximo do fascínio.
E, com diferentes níveis de elaboração e de cortesia pessoal, esses autores tendem a fazer do fascínio uma estratégia de choque.
Quanto mais chocarem o pensamento corrente (que considera ruim bombardear crianças e bom defender a Amazônia, por exemplo) mais ganharão em originalidade, leitura e cartas de protesto. Parece existir uma competição nas páginas dos jornais e na internet para ver quem conseguirá ser o mais “durão”, o mais “realista”, o mais desencantado.
Há diferenças notáveis de atitude e de opinião entre pessoas como Luiz Felipe Pondé, João Pereira Coutinho, Demétrio Magnolli ou Reinaldo Azevedo. Mas é um time e tanto, e minha experiência pessoal com a violência do ser humano, adquirida nos pátios de recreio do ginásio, é suficiente para não querer polemizar com alguns deles.
Não vou, portanto, individualizar as minhas críticas. Mas, de modo geral, os “durões” do mundo opinativo parecem correr um mesmo risco. A crítica às utopias do século 20 faz sentido, com certeza, mas termina funcionando para justificar muitos erros e abusos do presente -desde que sejam suficientemente “não-utópicos”. Será chamado de ingênuo ou nostálgico todo aquele que quiser algo melhor do que o mundo em que se vive.
Nem todos os “durões” de que falo abdicam desse “melhorismo”. Mas ai de quem tiver ideias um pouquinho mais à esquerda do que as deles -o que não é difícil.
Às vezes, a crítica ao stalinismo se compraz em tornar stalinista quem se afaste um milímetro das opiniões de quem a professa. Outras vezes, a crítica às velhas utopias tende a se transformar numa glorificação da realidade.
Curiosamente, então, aquilo que deveria ser ponto de partida se torna ponto de chegada. O mundo é horrível e a realidade é cruel. É um ingênuo quem quiser mudar essa situação. O horror e a crueldade fazem parte da paisagem. Melhor assim, quem sabe: nós, pelo menos, tiramos disso a satisfação de não sermos ingênuos.
Você está esperançoso com a vitória de Obama? Ouço um risinho: que otário. Mas fico feliz de nunca ter sido otário a respeito de Bush. Você se choca com as crianças mortas em Gaza? Ouço um risinho: os militares israelenses entendem mais do problema que você.
Você quer que se preservem as reservas indígenas da Amazônia? Mais um risinho: os militares brasileiros entendem mais do problema que você, que pensa ser bonzinho mas é tão malvado como todos nós.
Pois o ser humano é mau, desgraçado e infeliz, desde que foi expulso do Paraíso. Você não sabe disso?
O que sei é algumas pessoas foram expulsas do Paraíso para morar numa mansão em Beverly Hills, e outras para morar em Darfur. Todo o poder aos poderosos, toda realidade aos realistas, e todas as bombas para quem ficar no meio do caminho. Eis o resumo da atitude dos “durões”. Mas quem precisa de articulistas num mundo desses? Os militares dão conta do recado.

coelhofsp@uol.com.br

19/01/2009 - 14:20h No que tenha a ver com Gaza, deixem a II Guerra Mundial fora disso

http://images.ig.com.br/publicador/ultimosegundo/274/23/23/1315399.ataque_na_faixa_de_gaza_252_399.jpg
Exercito de Israel bombardeia Gaza

Fonte vi o mundo – blog de Azenha

  Robert Fisk, 17/1/2009, The Independent, UK

  http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fiskrsquos-world-when-it-comes-to-gaza-leave-the-second-world-war-out-of-it-1418270.html

Detesto exageros. Comecei a detestar há anos, nos anos 70s, quando o Provisional IRA (Provisional Irish Republican Army, grupo de ação armada ativo a partir de 1969, na Irlanda e na Inglaterra) declarou que a prisão de Long Kesh seria  “pior que Belsen[1]“. Não que houvesse algo de bom em Long Kesh – a prisão Maze, como depois foi rebatizada, polidamente. Simplesmente, não foi pior que Belsen. Agora, começou outra vez. Passando por Paris, essa semana, vi, numa manifestação pró-Palestina, cartazes em que se lia “Gaza é Guernica” e “Gaza-sur-Glane”.

Guernica, como se sabe, foi a cidade basca destruída pela Luftwaffe em 1937; Oradour-sur-Glane, a vila francesa cujos habitantes foram massacrados pela SS em 1944. A selvageria de Israel em Gaza também tem sido descrita como “genocídio” e – claro –, como um “holocausto”. A União Francesa das Organizações Islâmicas descreveu-a como “genocídio sem precedentes” –, o que vale uma medalha, quando até o Papa “ministro para paz e justiça entre os homens” comparou Gaza a um “grande campo de concentração”.

Antes de pôr-me a escrever o óbvio, gostaria, só, de que a União Francesa das Organizações Islâmicas chamasse o genocídio dos armênios de genocídio. Não chamam porque não têm coragem, de medo de ofender os turcos e, além disso, quero dizer… eh… o milhão e meio de armênios massacrados em 1915, eh… eram, quero dizer… cristãos.

Aliás, vejam só, o mesmo acontece com George Bush, porque também não pode ofender os generais turcos de cujas bases aéreas os EUA precisam muito para continuar em guerra no Iraque.  E nem Israel jamais chamou o genocídio dos armênios de genocídio, de medo de perder o único aliado muçulmano que ainda lhe resta no Oriente Médio. Não é estranho? Quando acontece um verdadeiro genocídio – o genocídio dos armênios – ninguém usa a palavra. Quando não há, imediatamente a palavra aparece em todas as bocas.

Sim, sim, sei o que tantos estão tentando fazer: construir uma conexão direta entre Israel e a Alemanha de Hitler. Muitas entrevistas por rádio, essa semana, ao mesmo tempo, já condenam tais comparações. Como sentem-se, sobreviventes do holocausto, ao ser chamados de nazistas? Ora. Como alguém tem coragem de comparar o exército de Israel à Wehrmacht? Fácil: porque a comparação é ato de anti-semitismo.

Já, várias vezes, estive sob fogo do exército de Israel. Nessa condição, não estou convencido de que o exército de Israel seja “exército nazista”. De fato, não entendo por que bombardear as estradas do norte da França em 1940 foi considerado crime de guerra… e bombardear as estradas do sul do Líbano não foi considerado crime de guerra.

O massacre de mais de 1.700 palestinenses nos campos de refugiados de Sabra e Chatila – perpetrado pela Falange Libanesa aliada de Israel, e assistido por soldados de Israel que nada fizeram – pode ser mais bem comparado à II Guerra Mundial. O número de mortos estimado por Israel – vergonhosos 460 – só perde por nove para o massacre nazista da cidade tcheca de Lidice, em 1942, quando quase 300 mulheres e crianças foram mandadas para Ravensbrück (esse, sim, verdadeiro campo de concentração). Lidice foi destruída por Reinhard Heydrich, para vingar a morte de agentes aliados.

Os palestinenses foram chacinados, em Sabra e Chatila, depois que Ariel Sharon disse ao mundo – de fato, mentiu ao mundo – que um palestinense havia assassinado o falangista libanês Bashir Gemayel.

E foi o valente Professor Yeshayahu Leibovitz, da Hebrew University (e editor da Encyclopaedia Hebraica) quem escreveu que o massacre de Sabra e Chatila “foi feito por nós. Os Falangistas são mercenários pagos por nós, exatamente como os ucranianos e os croatas e os eslovacos foram mercenários de Hitler, que os organizou em exército e como soldados, para trabalharem para ele.

Exatamente do mesmo modo, nós, os israelenses, organizamos os assassinos libaneses para assassinar palestinenses”. Lição que foi saudada por Yosef Burg, então ministro do Interior e Assuntos Religiosos, com uma pergunta inolvidável: “Cristãos matam muçulmanos… E a culpa é dos judeus?!”

Há muito tempo enfureço-me contra quaisquer comparações que envolvam a II Guerra Mundial – seja na vertente Arafat-é-Hitler, já encenada por Menachem Begin, seja na vertente “os pacifistas-estão-pacificando-os-anos-30″, encenada recentemente por George Bush & Lord Blair de Kut al-Amara[2].

Os manifestantes pró-Palestina bem poderiam pensar duas vezes antes de pôr-se a falar sobre genocídio, porque o Grande Mufti de Jerusalém apertou a mão de Hitler e disse – em Berlin, dia 2/11/1943, exatamente – “Os alemães sabem como livrar-se de judeus. Definitivamente, conseguiram resolver o problema judeu.” O Grande Mufti, para quem não saiba, era palestinense. Repousa hoje, num túmulo escuro, aqui, a poucos quilômetros do meu apartamento em Beirute.

Mas, de fato, a razão mais importante pela qual o paralelo “Gaza-Genocídio” é perigoso é porque é um falso paralelo.

O 1,5 milhão de refugiados de Gaza são tratados com brutalidade terrível, mas não estão sendo mandados para câmaras de gás ou empurrados para marchas da morte.

Que o exército de Israel é uma horda, é, não há dúvida – e achei engraçado que, semana passada, um dos correspondentes regulares da revista Newsweek o tenha descrito como “esplêndido exército” –, mas isso não implica dizer que todos os soldados israelenses sejam criminosos de guerra.

E tudo faz crer que, sim, cometeram-se crimes de guerra em Gaza. Bombardear escolas da ONU é ato criminoso, que fere todos os protocolos da Cruz Vermelha Internacional. Não há atenuante possível para o assassinato de tantas mulheres e crianças.

Devo acrescentar que fui tomado por sincera emoção de simpatia pelo ministro do Exterior sírio o qual, essa semana, perguntou por que já se organizara em Haia um tribunal internacional inteiro para investigar a morte de um único homem (o ex-primeiro ministro do Líbano, Rafiq Hariri)… mas ainda não se organizara nenhum tribunal em Haia para julgar a morte de mais de 1.000 palestinenses.

Contudo, devo acrescentar que bem pode acontecer de algum tribunal de Haia apontar o dedo para a Síria… e será minha vez de perguntar por que não se organiza nenhum tribunal em Haia para julgar os sírios responsáveis pelo massacre de Hama, em 1982, quando milhares de civis foram mortos a tiro, por soldados das forças especiais de Rifaat al-Assad. O retro-referido Rifaat, sou obrigado a acrescentar, vive hoje em perfeita segurança, dentro da União Européia.

E que tal outro tribunal internacional em Haia, para julgar os soldados da artilharia de Israel que massacraram 106 civis – mais da metade dos quais crianças – na base da ONU em Qana, em 1996?

O xis da questão é a legislação internacional. O xis da questão é a punibilidade. O xis da questão é a administração da justiça – justiça sempre inalteravelmente mal distribuída e que os cidadãos palestinenses jamais receberam – e trata-se de levar bandidos a julgamento. Todos os bandidos, sejam os criminosos de guerra árabes sejam os criminosos de guerra israelenses, o bando todo.

E que ninguém diga que é impossível. É possível – o que ficou bem demonstrado no tribunal ioguslavo. Vários assassinos não foram condenados? Foram. A II Guerra Mundial nada tem a ver com nada disso.

[1] Campo de concentração de prisioneiros dos nazistas, na Baixa Saxônia. Sobre Belsen, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Bergen-Belsen.

[2] Sobre Kut-al-Amara, ver http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=Kut+al-Amara&meta=

19/01/2009 - 11:28h Obama e o PT

 

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O título acima é do artigo de Fernando Rodrigues na Folha de hoje. No artigo o jornalista crítica um excesso de otimismo por parte do PT em relação a Obama.

Acusado de não enxergar a realidade e de compartilhar com os demais políticos brasileiros uma visão atávica, maniqueísta, dos cenários externos; o jornalista considera que o PT reduz as questões à dicotomia do bem contra o mal. O partido prefere o autoengano e “beira o delírio” por escrever que “(Obama) “indicou claramente a necessidade de iniciar um novo ciclo histórico e sepultar uma era de fundamentalismo neoliberal”. Este é o conteúdo do razoamento exposto por Fernando Rodrigues.

Talvez o jornalista esteja certo sobre o grau de esperança, ou ilusão para alguns, que o PT compartilha com a maioria esmagadora dos norte-americanos. Mas o PT não diz, como pretende Fernando Rodrigues, que Obama “romperá com os cânones do livre mercado”.

O que os petistas consideram, assim como 99% dos jornalistas e artigos escritos na imprensa brasileira e mundial, é que Obama (e a crise) vão fechar uma era iniciada com Reagan e aprofundada por Bush, onde o fundamentalismo neoliberal fez da desregulação o credo central da política econômica nos Estados-Unidos e no mundo.

Dito com as palavras de Paul Krugman: “O fracasso da política monetária na crise atual mostra que Keynes estava certo. E o pensamento keynesiano está por trás do programa de Obama para a economia.” (caderno The New York Times da Folha SP de hoje).

O Prêmio Nobel de economia não pensa que Obama romperá com o livre mercado, mas sim com a ideia que o mercado resolverá -se liberado das interferências do Estado- as “negatividades” do capitalismo. Para Krugman, a era Obama coincide com um retorno da ação reguladora e intervencionista do Estado, condição sine qua non para a reconstrução da economia americana e mundial.

Ilusão?

A revista BussinesWeek, em artigo de John Carey e Theo Francis (ver aqui Setor empresarial americano espera uma nova era de regulamentação), disse com relação a Obama e seu governo:
“O fato de o governo democrata que assume amanhã o poder estar defendendo controles mais rigorosos sobre o setor privado não surpreende. Mas, desta vez, o retorno do pêndulo não é puramente ideológico. Só em 2008 houve o derretimento financeiro, brinquedos contaminados com chumbo, aeronaves com registros de inspeção duvidosos e vegetais contaminados com salmonela, entre outros casos que afetaram empresas tanto grandes como pequenas. “Há evidente percepção no país de que a era de desregulamentação prejudicou os EUA”, diz David Michaels, diretor de saúde ambiental na Faculdade de Saúde Pública, da Universidade George Washington.

Agora que os ventos da política sugerem mudanças inevitáveis, muitas empresas declaram apoiar maior rigor na regulamentação. A nova mentalidade em Washington, diz William Morin, diretor de assuntos governamentais na Applied Materials, fabricante de semicondutores em Santa Clara, Califórnia, ‘é a diferença entre as pessoas que querem fazer o governo funcionar e um pessoal que via o governo como sendo o problema’.”

Delírio?

Penso que não. Uma visão apenas lúcida sobre o significado político da vitória de Obama e sua relação com a profundidade da crise econômica.

Obama estará plenamente à altura do desafio? Poderá agir apesar da oposição Republicana no congresso? fará concessões? recuará em algumas questões? Tudo isto dependerá das relações de força políticas, sociais e das pressões de lobbys poderosos.

A resposta a estas e a outras questões relacionadas ao curso inevitavelmente sinuoso que assumirá a política de Obama, não está escrita nas estrelas, mesmo as vermelhas.

A simpatia do PT por Obama faz parte de uma identificação do partido com às posições favoráveis à regulamentação e ao carácter redistributivo que deve assumir o Estado e contrárias as pregações neoliberais, assumidas pelo programa de Obama. Isto não significa, evidentemente, endossar toda sua política, seja interna ou externa, diplomática ou comercial.

Palestinos e PT

Pulando de Obama para o Oriente Médio, Fernando Rodrigues considera que a visão “atávica” opera não só fazendo de Obama a incarnação do bem, mas também é extensiva à simpatia do PT pelos palestinos. Novamente, vale a pena ser precisos.

Tenho uma enorme simpatia pelos palestinos e não penso estar renegando minha condição de judeu fazendo esta afirmação. Os judeus vitimas de persecução e do antissemitismo só podem ter simpatia pelo direito dos palestinos a existir como nação livre e independente. O que os petistas defenderam sempre (e não deveria ser esquecido pelos petistas) é que este direito não pode implicar, nem visar, a destruição do Estado de Israel e do direito dos israelenses a viverem em paz. Por isso o PT nunca transferiu suas simpatias pelos palestinos, para os integristas do Hamas, nem para os atentados suicidas visando civis. Condenar o Hamas, seu integrismo apoiado no fanatismo religioso, não é para o PT renegar suas simpatias pelo sofrimento e pela luta do povo palestino.

Mas essa simpatia pelo justo direito dos palestinos a um Estado exige, sim, condenar sem meias palavras a política de força militar, de bombardeio de populações indefesas, de muros vergonhosos, de asfixia desumana, como a que o governo de Israel pratica depois que abandonou o processo iniciado com os acordos de Oslo. Criticando assim, o PT estará manifestando não só sua simpatia pelo povo palestino, mas uma verdadeira empatia com o povo de Israel que vê a paz almejada, cada vez mais distante, pois a política belicista de seu governo alimenta o fanatismo reacionário do Hamas.

Luis Favre

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FERNANDO RODRIGUES

Obama e o PT

BRASÍLIA - Barack Obama toma posse amanhã e a onda obamista parece ter contaminado os petistas. Logo depois da vitória do democrata na eleição presidencial dos EUA, o PT ofereceu uma análise no boletim distribuído pela sigla na Câmara dos Deputados.
Foi um relato do deputado petista Nilson Mourão, do Acre, enviado aos EUA para assistir ao processo eleitoral. O acreano não é propriamente uma estrela do establishment do PT, mas sua avaliação é um denominador comum na legenda.
Em texto benevolente com o norte-americano, Mourão pontifica: “Barack Obama tem luz própria, carisma, simpatia, competência, liderança, qualidades que se manifestam em 16 meses de campanha. Ele não é um “produto bem vendido” nem uma “criatura” da mídia”.
O relato do petista acreano aproxima-se do delírio ao afirmar que Obama “indicou claramente a necessidade de iniciar um novo ciclo histórico e sepultar uma era de fundamentalismo neoliberal”. Não há a evidência de que o norte-americano romperá com os cânones do livre mercado. Como escreveu o festejado comentarista da CNN Fareed Zakaria, “o novo presidente dos EUA será julgado pela habilidade de salvar o capitalismo”.
Mas a análise produzida por Nilson Mourão não é inútil. Expõe uma dificuldade atávica dos políticos brasileiros -não só os do PT- para entender com alguma sofisticação o cenário externo. Comportam-se como se tudo fosse um jogo do bem contra o mal. No caso da faixa de Gaza, é nítida a simpatia dos petistas pelos palestinos -como Lula torcia para os guerrilheiros vietcongues no início dos anos 70.
Daqui a alguns meses, petistas em peso constatarão a sobrevivência do capitalismo. O PT então poderá ficar indignado com o companheiro Obama. Faz parte. Mas só não enxerga hoje a realidade quem prefere se entregar ao autoengano.

frodriguesbsb@uol.com.br

19/01/2009 - 10:14h Setor empresarial americano espera uma nova era de regulamentação

AP

Barack Obama e sua mulher, Michelle, participam de evento no Memorial Lincoln, ontem em Washington

John Carey e Theo Francis, BusinessWeek – VALOR

Nas salas da Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês), em Washington, alguns funcionários estão planejando festas comemorativas da posse presidencial. O entusiasmo é um prenúncio de amplas mudanças de regulamentação empresarial que virão, para melhor ou para pior, com o presidente Barack Obama.

O fato de o governo democrata que assume amanhã o poder estar defendendo controles mais rigorosos sobre o setor privado não surpreende. Mas, desta vez, o retorno do pêndulo não é puramente ideológico. Só em 2008 houve o derretimento financeiro, brinquedos contaminados com chumbo, aeronaves com registros de inspeção duvidosos e vegetais contaminados com salmonela, entre outros casos que afetaram empresas tanto grandes como pequenas. “Há evidente percepção no país de que a era de desregulamentação prejudicou os EUA”, diz David Michaels, diretor de saúde ambiental na Faculdade de Saúde Pública, da Universidade George Washington.

Agora que os ventos da política sugerem mudanças inevitáveis, muitas empresas declaram apoiar maior rigor na regulamentação. A nova mentalidade em Washington, diz William Morin, diretor de assuntos governamentais na Applied Materials, fabricante de semicondutores em Santa Clara, Califórnia, “é a diferença entre as pessoas que querem fazer o governo funcionar e um pessoal que via o governo como sendo o problema”.

Algumas companhias estão até mesmo pedindo supervisão mais rigorosa. Laboratórios farmacêuticos estão pedindo uma FDA (agência de alimentos e medicamentos dos EUA) revitalizada. Algumas companhias de eletricidade estão pedindo limites para as emissões de carbono. “Somos favoráveis a regulamentação forte”, diz James C. Greenwood, diretor da Organização do Setor de Biotecnologia.

Mas, nos bastidores, muitos executivos temem que agências competentes avancem demais, impondo novas regras tão duras que possam ameaçar a economia. “Não se deve reagir excessivamente e estrangular as inovações”, diz R. Bruce Josten, vice-presidente da Câmara de Comércio americana para questões governamentais.

Item prioritário na agenda do governo Obama: dar sustentação ao sistema financeiro. O Congresso e as agências responsáveis pela regulamentação bancária considerarão propostas para ajudar mutuários da casa própria sob risco de perder seu imóvel por falta de pagamento. Eles provavelmente tornarão mais rigorosas as regras para concessão de empréstimos e elevarão o requisito mínimo de capital exigido dos bancos – dinheiro mantido em reserva para garantir os empréstimos que concedem. E poderão, pela primeira vez, impor novos requisitos de capital a alguns fundos de hedge. De fato, amplas áreas do sistema financeiro “sombra” – os mercados de derivativos escassamente regulamentados – poderão vir a ser submetidos a supervisão federal mais severa, especialmente o mercado de swaps de risco de crédito.

Mais no longo prazo, disse Obama, a regulamentação financeira precisa ser reformulada. Algumas agências deveriam ser consolidadas, e os riscos que as grandes empresas criam para o sistema financeiro deveriam ser monitoradas melhor. São prováveis propostas de consolidação da Comissão de Negócios Futuros com Commodities (CFTC), que regulamenta os mercados de futuros, com SEC (a comissão de valores mobiliários). E alguns analistas estão defendendo a criação de uma agência fiscalizadora interdepartamental para policiar produtos financeiros oferecidos ao consumidor pessoal.

Outras agências regulamentadoras também estão se sentindo revigoradas. Na Osha (agência de segurança e saúde ocupacional), que publicou apenas um novo regulamento sobre saúde ocupacional em 10 anos, “existem algumas normas que estão engavetadas há muito tempo e que poderiam rapidamente ser atualizadas e promulgadas”, diz Adam Finkel, que trabalhou na Osha. Em outras áreas, a criação de normas poderá ser substancial nos próximos anos. Novos limites são esperados para a presença de mercúrio e outros poluentes. É possível que, nas empresas de transportes por caminhão, os motoristas tenham de trabalhar em turnos mais curtos e que os veículos sejam obrigados a cumprir critérios mais rigorosos de economia de combustível. O setor de agronegócios poderá ter de respeitar novas normas para que agricultores evitem contaminações.

É claro que poucas normas serão oficializadas sem oposição. John Castellani, presidente da organização Business Roundtable, está muito preocupado com a questão envolvendo mudanças climáticas. “Há muita incerteza sobre qual será o regime regulatório, como a tecnologia será disponibilizada e qual será o impacto sobre a economia”, diz ele. “Será uma batalha prolongada e difícil.”

Como as empresas devem se preparar? Em nível mais básico, “a melhor coisa a fazer é assegurar que seu setor de cumprimento de normas esteja em ordem, para que estejam preparadas quando chamadas por agências de fiscalização federal”, diz Scott H. Segal, sócio na Bracewell & Giuliani, firma de advocacia e atividades lobistas.

Mas as empresas não deveriam só jogar na defensiva. Normas mais severas e repressão mais intensa também podem criar oportunidades. Poderá haver menos competição de empresas que driblam as regras e menor probabilidade de que escândalos devastem um setor inteiro. Por exemplo, na esteira dos surtos de doenças causadas por alimentos, que custaram centenas de milhões de dólares às empresas, “o setor se deu conta de que é tão saudável quanto o seu elo mais fraco”, diz William K. Hubbard, ex-funcionário da FDA. Além disso, as companhias podem favorecer suas marcas mantendo-se à frente das normas. “Uma empresa que exceda os padrões federais tem algo a alardear, como a Honda em termos de economia de combustível”, diz Joan Claybrook, presidente da Public Citizen e ex-diretor da Agência Nacional de Segurança do Tráfego Rodoviário.

As empresas também devem estar dispostas a encarar uma fiscalização mais dura, o que não é necessariamente negativo. “O governo Obama estará cheio de gente inteligente, que fará perguntas oportunas”, diz Segal. Por exemplo, ele cita que seus clientes empresariais freqüentemente conseguiam obter fáceis acordos com o governo Bush envolvendo provisões ambientais, mas então o processo empacava no Congresso ou em outra instância, devido à falta de credibilidade do governo em questões ambientais. Agora “vejo com simpatia este novo governo, porque uma vez negociado um acordo, poderemos efetivamente firmar compromissos duradouros”. As empresas também estão aliviadas diante da escolha do professor Cass Sunstein, da Faculdade de Direito de Harvard, para supervisionar as normas e regulamentos, porque ele é um firme defensor de análises custo/benefício, o que é defendido pelas empresas.

Acima de tudo, o setor privado espera que o governo Obama abra as portas para uma era de melhor, e não só mais regulamentação. Um passo simples é tornar o processo mais transparente. Gary D. Bass, diretor executivo do organização fiscalizadora OMB Watch, sempre ouve de executivos de pequenas empresas sobre o quanto é difícil saber quais normas precisam cumprir. “De uma hora para outra, recebem uma multa”, diz. O repositório central de regras federais do governo “é assombroso. Ele precisa de uma enorme reformulação”. Um avanço maior seria mais colaboração entre agências reguladoras. O conflito entre elas é comum.

Em Washington, lobistas e burocratas de carreira dizem que o clima mudou perceptivelmente. “Provavelmente, a maior mudança será um respeito emergente pelo governo como parte da solução”, diz Bass, da OMB Watch. “Nós vamos regulamentar em excesso”, prevê Edward B. Cohen, vice-presidente da Honda para relações com o governo. “A esperança é que a cada vai-vem do pêndulo regulatótio, aprendamos alguma coisa.” (Tradução de Sergio Blum)

17/01/2009 - 10:34h Eleito não deve esquecer crimes de Bush

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PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES”

krugman_paul.jpgNo domingo passado, um jornalista perguntou ao presidente eleito se ele pretendia pedir uma investigação de possíveis crimes cometidos pelo governo Bush. “Não acredito que alguém possa estar acima da lei”, respondeu Barack Obama, “mas precisamos olhar para o futuro e não para o passado”.

Lamento, mas, se não houver investigação sobre o que aconteceu ao longo dos anos Bush -e quase todo mundo entendeu a declaração de Obama como sinal de que isso não acontecerá-, aqueles que detêm o poder de fato estarão acima da lei, porque não terão de enfrentar quaisquer consequências caso decidam abusar dele. Vamos esclarecer do que falamos. Não se trata somente de tortura e escutas ilegais -cujos perpetradores alegam, ainda que de modo muito implausível, terem agido como patriotas. Os abusos do governo Bush se estenderam da política ambiental ao direito de voto.

No Departamento da Justiça, os funcionários apontados para seus cargos por políticos eleitos reservaram outros postos, não políticos, a “americanos bem pensantes”, e existem fortes indícios de que esses funcionários empregaram suas posições para solapar a proteção ao direito de voto das minorias. Durante a ocupação do Iraque, os candidatos aos postos eram julgados com base em suas posições políticas, em sua lealdade pessoal ao presidente e em sua posição sobre o aborto. Falando no Iraque, não devemos esquecer do fracassado esforço de reconstrução do país: o governo Bush entregou bilhões de dólares a empresas bem relacionadas politicamente, em contratos sem concorrência, e essas empresas não realizaram o trabalho.

Há muito, muito mais. Ao menos seis grandes agências do governo passaram por grandes escândalos nos últimos oito anos -na maioria dos casos, jamais investigados. E temos também o maior de todos os escândalos: Alguém tem dúvidas de que o governo Bush deliberadamente iludiu o país para justificar a invasão do Iraque? Por que, então, não deveria haver investigação oficial sobre os abusos dos anos Bush? Uma resposta usual é que buscar a verdade exacerbaria o antagonismo entre os partidos.

Mas, se partidarismo político é algo tão horrível, o governo Bush não deveria ser punido por politizar todos o aspectos do governo? Há quem diga que não é preciso dedicar atenção aos abusos passados porque eles não serão repetidos. Mas nenhuma figura importante do governo Bush expressou arrependimento por violar a lei. O que levaria alguém a pensar que eles ou seus herdeiros políticos não agiriam da mesma maneira, caso tenham nova oportunidade? Embora esquecer e perdoar provavelmente seja uma boa idéia política a curto prazo, na semana que vem Obama estará jurando “preservar, proteger e defender a Constituição dos EUA”. Não se trata de um juramento a ser honrado apenas quando conveniente.

E, para proteger e defender a Constituição, um presidente precisa fazer mais do que simplesmente obedecê-la; precisa responsabilizar aqueles que a tenham violado.

Tradução de PAULO MIGLIACCI
Folha de São Paulo

11/01/2009 - 10:38h É hora de reconhecer os emergentes

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Obama deve olhar além da guerra na Faixa de Gaza para reformar o sistema multilateral global

James Traub* – O Estado SP

Antes mesmo de Israel lançar os ataques a Gaza há duas semanas, a equipe de segurança nacional de Barack Obama compreendeu que as crises poderiam facilmente eclipsar a agenda de transformação que o presidente eleito adiantou durante a campanha.

Guerras no Iraque e no Afeganistão, instabilidade no Paquistão e ameaça de proliferação nuclear no Irã seriam mais do que suficientes para desalojar qualquer ideia de planejamento de longo prazo. Agora, o Oriente Médio está em chamas de novo. No entanto, um amplo leque de especialistas em política externa insiste para o futuro presidente olhar além da fumaça e do derramamento de sangue para reformar as estruturas governantes mundiais.

Essas estruturas – como a ONU – datam do fim da 2ª Guerra, quando os vitoriosos tinham o monopólio do poder econômico e político, e o sistema de Estados parecia sólido. Não vivemos mais nesse mundo. Uma prova disso veio em novembro, quando George W. Bush reuniu o G-20 para tratar da crise financeira.

Até então, a diretoria executiva do planeta era conhecida desde que se reuniu pela primeira vez, em 1975, como G-7 (ou G-8 quando a Rússia participava). Robert Hormats, ex-funcionário do Departamento de Estado, presente naquela primeira reunião, observa que, por muito tempo, as potências ocidentais “podiam gerir a economia global sozinhas”. Agora, diz ele, “isso é inconcebível”.

A reforma está no ar. Em janeiro de 2008, o premiê britânico, Gordon Brown, fez um pronunciamento em Nova Délhi no qual observou que a globalização havia trazido novas potências para o primeiro plano. Ele pediu um novo momento de “criação” que incluiria mudanças na composição das instruções do pós-guerra e novos mecanismos para lidar com mudança do clima, pobreza, energia e não-proliferação nuclear.

Bem mais provocativo para o mundo em desenvolvimento é a composição do Conselho de Segurança da ONU, cujo rol de membros permanentes com direito de veto não mudou desde a sua criação. Obama, diferentemente de seu antecessor, vê a ONU como um instrumento fundamental para a política externa americana, mas poderá ter algumas iniciativas bloqueadas pela antipatia do Terceiro Mundo à influência desproporcional do Ocidente. Especialistas dizem que ele angariaria uma enorme boa vontade se apoiasse abertamente assentos no conselho para os atuais aspirantes: Índia, Brasil, Alemanha, Japão e África do Sul.

Será que um Conselho de Segurança ampliado ajudaria Obama a cortar o nó górdio no Oriente Médio? Infelizmente, não. A ONU desempenha hoje um papel apenas secundário de mediação entre Israel e palestinos, para os quais a Casa Branca e potências selecionadas do Oriente Médio continuarão sendo os interlocutores preferidos. Um novo Conselho de Segurança não poderia resolver tampouco as tensões criadas por um de seus membros permanentes, como uma Rússia, cada vez mais impaciente e belicosa.

No entanto, da última vez que a ONU fez uma iniciativa séria para ampliar o conselho, em 2005, cada candidato tinha seu próprio inimigo jurado – geralmente, um vizinho. Alguns defensores sugeriram que Washington se concentrasse primeiro na limitação do uso do veto e, só depois, no acesso de novos membros.

EFICIÊNCIA

Ademais, tornar uma organização mais representativa não a torna necessariamente mais eficaz. A crise financeira demonstrou a necessidade de novos mecanismos regulatórios globais. Esses serão agora reunidos segundo instruções de ministros da economia do mundo em desenvolvimento e do Ocidente.

Isso as tornará mais sólidas? Considerando a resistência de muitos membros do G-20 a padrões mais rígidos de contabilidade, a resposta é: “Não necessariamente.” Então, qual será a alternativa? O Ocidente quer que China, Rússia e as economias emergentes se vejam como atores globais responsáveis. Isso significa dar-lhes participação no sistema e esperar que essa participação os torne partes interessadas melhores.

Os defensores da reinvenção parecem ter os méritos do seu lado. Qual a importância de criar e reformar essas novas estruturas em comparação com a administração da crise? Essas perguntas foram feitas a elementos da equipe de transição de Obama, que não quiseram comentar.

É evidente que a ONU pode esperar, ao passo que a paz no Oriente Médio, não. Mas existe outra maneira de olhar para a questão: um governo que queira trabalhar via instituições, e não por meio de coalizões, terá de escolher entre reformar essas instituições ou vê-las cair na irrelevância.

Em outras palavras, a mudança virá, de um jeito ou de outro. Segundo David Rothkopf, especialista em segurança nacional, a questão é: “Permitiremos que ela avance no seu próprio ritmo, descoordenada, aos poucos, ou veremos isso como uma oportunidade e produziremos uma nova visão de um sistema que promova interesses americanos assim como a visão do pós-guerra fez por 60 anos?”

*James Traub é direto de políticas para o Global Center for the Responsibility to Protect

09/01/2009 - 15:59h Obama quer dialogar com Hamas, diz jornal

Segundo ‘The Guardian’, que cita membros da equipe de transição do presidente eleito, ele pretende contatar o grupo palestino quando assumir

 

The Guardian, Washington – O Estado SP

 


O jornal britânico The Guardian publicou ontem em seu site que o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, pretende mudar a política do atual governo americano de isolar o Hamas. De acordo com três membros da equipe de transição ouvidos pelo jornal, Obama estabelecerá um diálogo com o grupo palestino, que hoje faz parte da lista de organizações consideradas terroristas pelos EUA.

Os contatos com o Hamas, que seriam feitos por agências de inteligência, começariam aos poucos. No início, não seriam de alto nível e poderiam ser feitos até mesmo de maneira clandestina. Segundo os membros da equipe de Obama, há cada vez mais consenso em Washington de que a estratégia de isolar o Hamas é contraproducente.

Uma das alternativas que estão sendo analisadas é o estabelecimento de contatos entre o Hamas e agências de inteligência dos EUA por meio de encontros secretos, um processo muito parecido com o que foi usado pelos americanos para negociar com a OLP, nos anos 70.

MUDANÇA

Richard Haass, que seria o escolhido de Obama como enviado dos EUA ao Oriente Médio, apoia esse tipo de contato preliminar com o Hamas.

Em artigo publicado esta semana no site da revista Foreign Affairs – escrito antes do conflito em Gaza -, Haass, que é presidente do Council on Foreign Relations, escreveu que se houver um cessar-fogo entre Israel e o Hamas e uma reconciliação entre o grupo islâmico e a Autoridade Palestina, os EUA deveriam negociar com as duas facções palestinas. “Se isso ocorrer, Obama deve autorizar contatos preliminares entre funcionários dos EUA e o Hamas em Gaza.”

Para Steve Clemons, diretor do programa de Estratégia Americana da New America Foundation, existem várias maneiras de dialogar com o Hamas sem passar a impressão de estar legitimando o grupo. “Enviados secretos, diálogos multilaterais, negociações feitas por meio de diplomatas europeus, enfim, os dias de isolamento total do Hamas ditados por Bush acabarão”, disse.

Um analista de política externa bastante próximo da equipe de transição confirmou a intenção de diálogo com o Hamas, mas advertiu que, provavelmente, o andamento das negociações não vazará para a imprensa.

A disposição de negociar com o Hamas marcaria um rompimento radical na forma como o governo George W. Bush encara o extremismo islâmico. No mês passado, o general Anthony Zinni, que foi enviado do atual presidente ao Oriente Médio, já havia pedido publicamente para que Obama mudasse a estratégia dos EUA para a região e dialogasse com o Hamas.

Até agora, Obama não deu pessoalmente nenhuma pista de como será sua política externa para a região. Sempre que questionado por jornalistas, o presidente eleito responde que agirá apenas após a posse para não passar por cima da autoridade do atual presidente americano.

27/12/2008 - 15:21h Roosevelt mostra caminho a Obama

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PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA SP

krugman_paul.jpgOS TEMPOS mudaram.

Em 1996, o presidente Bill Clinton, sob ataque da direita, declarou que “a era do governo grande acabou”.

Mas o presidente eleito Barack Obama, propelido por uma onda de repulsa àquilo que o conservadorismo causou, diz que deseja “fazer do governo uma vez mais algo de positivo”.

Antes que Obama possa tornar o governo positivo, porém, ele terá de torná-lo bom. De fato, ele terá de ser um goo-goo.
“Goo-goo”, se vocês não sabem o que quer dizer o termo, é uma expressão secular que designa os proponentes de um bom governo (”good government”), reformistas que combatiam a corrupção e o compadrio. O presidente Franklin Roosevelt foi um dos grandes goo-goo, e tornou o governo a um só tempo muito maior e muito mais limpo. Obama terá de fazer a mesma coisa.

Seria desnecessário dizer que o governo Bush representa um exemplo extremo de “anti-goo-goo”. Mas os adeptos de Bush jamais tiveram de se preocupar com governar bem e de maneira honesta. Mesmo que fracassassem em seus postos (como o fizeram tantas vezes), podiam alegar os fracassos mesmos como confirmação da validade de sua ideologia de antagonismo à idéia de governo, e como demonstração de que o setor público não é capaz de fazer coisa alguma direito.

O governo Obama por outro lado, se verá em posição semelhante à que o “New Deal” enfrentava nos anos 1930.

Como no caso do New Deal, a administração que está chegando terá de expandir vigorosamente o papel do governo no resgate à economia debilitada.

Mas também como na era do “New Deal”, a equipe de Obama enfrenta oponentes políticos que aproveitarão quaisquer sinais de corrupção ou abuso, ou os inventarão, se necessário, para tentar desacreditar o programa da nova administração.

Roosevelt conseguiu navegar em segurança por essas águas políticas traiçoeiras e melhorou fortemente a reputação do governo enquanto o expandia imensamente. Como define um recente estudo do Serviço Nacional de Pesquisa Econômica, “antes de 1932, a administração da assistência pública era vista por todos como politicamente corrupta”, e os imensos programas de assistência do New Deal “ofereciam uma oportunidade de corrupção única na história do país”. No entanto, “por volta de 1940 as acusações de corrupção e manipulação política haviam diminuído consideravelmente”.

Como Roosevelt conseguiu expandir o governo e mantê-lo limpo?

Uma grande parte da resposta está na fiscalização incorporada desde o início aos programas do New Deal. A Administração de Progresso de Obras (WPA), em particular, tinha uma poderosa divisão independente de “investigação de progresso”, cuja função era investigar queixas de fraude. A divisão era tão diligente que, em 1940, quando um subcomitê do Congresso estudou a Administração de Progresso de Obras, não conseguiu encontrar nem ao menos uma irregularidade séria que a divisão não tivesse detectado.

Roosevelt também garantiu que o Congresso não enxertasse medidas politiqueiras nos projetos de lei de estímulo; não havia verbas reservadas a fins políticos nas leis que criaram a WPA e nas demais medidas de emergência.

Por fim, mas não menos importante, Roosevelt criou um elo emocional com os americanos da classe trabalhadora, que ajudou a sustentar seu governo em meio aos revezes e fracassos em seus esforços para resolver os problemas econômicos.

Que lições a equipe de Obama tem a extrair disso?

Primeiro, a administração do plano de recuperação econômica precisa ser muito limpa.

Considerações puramente econômicas poderiam sugerir certos expedientes sorrateiros com o objetivo de promover uma adoção rápida das medidas de estímulo, mas o aspecto político da situação requer grande cuidado para determinar como o dinheiro poderá ser gasto. A fiscalização é crucial: os inspetores gerais terão de ser fortes e independentes, e os responsáveis por denúncias terão de ser premiados, e não punidos como o foram nos anos Bush.

Segundo, o plano tem de estar completamente livre de gastos motivados por considerações políticas. O vice-presidente eleito Joseph Biden recentemente prometeu que o plano “não se tornará uma árvore de Natal” -o novo governo terá de cumprir essa promessa.

Por fim, a administração Obama e os democratas em geral precisam fazer tudo o que puderem para promover a formação de um elo com o público semelhante àquele de que Roosevelt desfrutava. Pouco importam os resultados favoráveis de Obama nas pesquisas atuais, baseados na esperança de sucesso. Ele necessitará de uma base forte de apoio que continue ao seu lado mesmo quando as coisas não estiverem indo tão bem.

E preciso dizer que os democratas começaram mal quanto a isso. A tentativa de coroar Caroline Kennedy como senadora parece confirmar 40 anos de propaganda conservadora de denúncia às “elites liberais”. E tenho certeza de que não fui a última pessoa a fazer careta ante as reportagens sobre a casa de luxo que os Obama alugaram para férias na praia. Não porque haja algo de errado em a família do presidente eleito tirar férias agradáveis, mas por que o simbolismo importa, e aquelas não eram as imagens que deveríamos estar contemplando em um momento no qual milhões de norte-americanos estão aterrorizados quanto às suas finanças.

Está bem, a história mal começou. Mas é exatamente esse o ponto. Reparar os problemas econômicos requererá tempo, e a equipe de Obama precisa começar a pensar já, enquanto as esperanças ainda são fortes, sobre como acumular e preservar capital político suficiente para realizar o trabalho até o fim.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

25/12/2008 - 20:30h Morre Prêmio Nobel de Literatura Harold Pinter

O Prêmio Nobel de Literatura britânico Harold Pinter morreu aos 78 anos, no Reino Unido, nesta quarta-feira (24)

Carl de Souza/AP
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O dramaturgo Harold Pinter, Nobel de Literatura de 2005, morreu aos 78 anos

Harold Pinter morreu de câncer aos 78 anos.

Pinter sofria de câncer no fígado há vários anos. “Era um grande homem e foi um privilégio viver com ele durante 33 anos”, disse sua mulher, Lady Antonia Fraser, ao jornal “The Guardian”.

Laureado com o Nobel em 2005, o prêmio recompensou um autor que, “em suas obras revela o precipício que se esconde sob a conversa fiada diária e força sua entrada no âmbito fechado da opressão”, afirmou o júri da Academia Sueca na ocasião.

“Nascido em 1930 em Londres, Pinter geralmente é considerado o maior expoente do teatro dramático inglês da segunda metade do século 20″, acrescentou a Academia.

Aos nove anos, foi retirado de Londres durante a Segunda Guerra Mundial e só retornou à cidade três anos mais tarde. A experiência dos bombardeios permaneceu indelével em sua memória, como admitiu muitas vezes.

Em 1957 estreou como dramaturgo com “The Room”. Uma de suas primeiras obras “The Birthday Party” (’A festa de aniversário’, 1957), inicialmente um fracasso, com o passar dos anos se tornou uma de suas peças mais encenadas.

Sua posição enquanto clássico moderno está ilustrada pela criação, a partir de seu nome, de um adjetivo que descreve uma forma de atmosfera e de um entorno particular nas peças de teatro: ‘pinteresque’.

Segundo o comunicado da Academia Sueca há três anos, “no cenário típico de Pinter estão seres que se defendem contra intrusões forâneas ou contra os próprios impulsos, entrincheirando-se em uma existência reduzida e controlada”.

“Outro tema principal é o caráter fugitivo e inalcançável do passado”, prosseguia a nota de anúncio do vencedor da Academia.

Desde 1973, Pinter também era conhecido como um fervoroso defensor dos direitos humanos.

Além disso, também escreveu novelas radiofônicas e roteiros para cinema e televisão. Entre seus trabalhos mais conhecidos nesta área estão ‘The Tailor of Panama’ (’O alfaite do Panamá’, 2001),’ The Handmaid’s Tale’ (1990), ‘Accident’ (1967), ‘The French Lieutenant’s Woman’ (’A mulher do tenente francês’,1981) ou ‘Breaking the Code’ (1996). (Fonte France Presse e Folha Online)

Harold Pinter abraçou causas e foi contra invasão do Iraque

PEDRO ALONSO da Efe, em Londres – Folha Online

O célebre dramaturgo britânico e eterno rebelde Harold Pinter, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2005, morreu em Londres aos 78 anos após uma longa batalha contra o câncer.

A voz de Pinter, um dos escritores do Reino Unido mais influentes da segunda metade do século 20, se apagou para sempre nesta quarta-feira, segundo informou hoje sua segunda mulher, a também escritora Antonia Fraser.

Max Nash/AP
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Dramaturgo inglês Harold Pinter, ganhador do Nobel, morreu nesta quarta-feira

“Ele foi grande”, disse ela em uma breve declaração, na qual ressaltou que foi “um privilégio viver com ele durante 33 anos” e que Pinter “nunca será esquecido”.

A doença já impediu o dramaturgo este mês de ir a sua posse como doutor honoris causa na Central School of Speech and Drama de Londres.

O escritor ganhou vários prêmios, como a Legião de Honra da França, mas destacou-se acima de tudo pela conquista do Prêmio Nobel de Literatura em 2005.

Iraque

“Estou muito comovido. É algo que não esperava”, comentou um Pinter já com a saúde frágil na porta de sua casa em Londres, após saber de sua conquista do Nobel.

Por recomendação médica, Pinter não pôde assistir à cerimônia de entrega do prestigioso prêmio em Estocolmo, mas gravou seu discurso de aceitação, no qual, como vinha fazendo nos últimos anos, dedicou suas críticas políticas mais ácidas à Guerra do Iraque, na qual o Reino Unido foi fiel seguidor dos Estados Unidos.

“A invasão do Iraque foi um ato de bandidos, um ato de flagrante terrorismo de Estado que demonstrou um desprezo absoluto do conceito de normativa internacional”, afirmou Pinter, visivelmente débil e utilizando uma cadeira de rodas.

Sem papas na língua e mais rebelde do que nunca, o dramaturgo aproveitou o Nobel para pedir o processo do presidente dos EUA, George W. Bush, e do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair por crimes de guerra.

Durante sua vida, o autor, que se sentia obrigado a assumir uma posição política como “cidadão do mundo”, abraçou outras causas como o desarmamento nuclear, a defesa de Cuba frente ao embargo americano e a rejeição ao bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Sérvia em 1999.

Vida de prazer

Filho de um alfaiate judeu imigrante da Europa Oriental, Pinter nasceu em 10 de outubro de 1930 em Hackney, bairro popular do leste de Londres.

O gênio teatral teve um filho, Daniel, fruto de seu casamento com a atriz Vivien Merchant, de quem se divorciou em 1980 para casar-se com Antonia Fraser.

Pouco amigo dos eruditos tendentes ao excesso interpretativo de suas obras, Pinter dizia que sua vida literária era “uma vida de prazer, desafio e entusiasmo”.

Figura única

Após o anúncio da morte do artista, que descrevia a si próprio como “dramaturgo, diretor, ator, poeta e ativista político”, o mundo da cultura britânica chorou sua perda e exaltou seus talentos e méritos profissionais.

“Foi uma figura única no teatro britânico. Dominou a cena teatral desde os anos 50″, afirmou Alan Yentob, diretor da “BBC”.

Na opinião de Tim Walker, crítico do jornal “Sunday Telegraph”, Pinter “forneceu realismo” às artes cênicas mediante obras “com prolongados silêncios, nos quais os personagens nem sempre iam a algum lugar, como na própria vida real”.

Por sua vez, o amigo e autor de uma biografia sobre Pinter, Michael Billington, declarou-se “devastado” pela morte do dramaturgo, a quem descreveu como um “lutador” no terreno artístico e político.

Após publicar em 1957 sua primeira obra, “O Quarto”, Pinter iniciou uma carreira na qual escreveu 29 peças teatrais, mais de 20 roteiros para cinema (entre eles para o diretor americano Joseph Losey), uma infinidade de trabalhos radiofônicos e televisivos, poesia, ensaios, um romance e curtos relatos de ficção.

Entre títulos inesquecíveis de Pinter, pertencente à geração dos Jovens Irados britânicos, destacam-se peças teatrais como “The Birthday Party”, “The Caretaker” e “Old Times”.

Seu estilo peculiar, cheio de silêncios em dramas marcados por uma linguagem ambígua e, às vezes, cômica, mas que gera um ambiente de ameaça e alienação, se cunhou como “pinteresco”, adjetivo admitido pelo dicionário de inglês da Universidade de Oxford.