24/08/2012 - 08:55h Selic cai há um ano, sem reação

Efeitos da redução da Selic ainda são tímidos

Por Lucinda Pinto, Conrado Mazzoni, Fernando Travaglini e Flavia Lima | VALOR

De São Paulo

Na próxima semana completa-se um ano da já famosa reunião de 31 agosto de 2011, quando o Banco Central iniciou o atual ciclo de corte de juros com uma redução de 0,5 da Selic, surpreendendo quase todo o mercado. O primeiro efeito esperado, de evitar uma depressão da economia brasileira em meio ao agravamento da crise na Europa foi atingido e o BC ganhou pontos de credibilidade por ter acertado em cheio no diagnóstico.

Até agora, no entanto, a aceleração da atividade não veio. O que se vê é uma resposta ainda tímida, restrita ao consumo. Para a indústria, a resposta é pouco efetiva e, quando existe, está mais relacionada a desonerações tributárias. No primeiro trimestre do ano, a economia brasileira cresceu 0,2% em relação aos últimos três meses de 2011. Nessa base de comparação, enquanto o consumo das famílias e do governo cresceu 2,5% e 3,4%, respectivamente, o investimento em máquinas e equipamentos caiu 2,1%. E a expectativa é que tenha apresentado expansão entre 0,4% e 0,5% no segundo trimestre, mesmo com o governo alardeando que o PIB reagiria.

Maurício Molan, economista-chefe do Santander, pondera que o atual ciclo de queda de juros só se tornou de fato um afrouxamento no começo deste ano. Entre agosto e dezembro, o BC reduziu 1,5 ponto percentual, mas o juro real ainda se mantinha acima de 5%, próximo, portanto, da média dos últimos três anos. Somente em abril, o juro real veio para a casa dos 3%. “Houve uma defasagem maior para a resposta da política monetária, que só passou a ser expansionistas no começo deste ano”, diz Molan.

Para o ex-diretor do BC e estrategista da Tandem Global Partners, Paulo Vieira da Cunha, o presidente do BC, Alexandre Tombini, tem razão ao prever um crescimento anualizado de 4% no quarto trimestre, mas teme uma desaceleração do PIB à frente. “Meu medo é que, quando isso acontecer, o governo resolver dar ainda mais estímulos.”

Essa é uma das críticas mais fortes que decorreram da decisão de agosto de 2011, a de que o BC passou a priorizar o crescimento em detrimento de um controle estrito da inflação. A avaliação é de que o BC passou a trabalhar com um objetivo de inflação mais ousado, perto de 6%. “É uma mudança não assumida, mas percebida, de que o limite para a inflação passou a ser 6%”, diz Vieira da Cunha.

“Estamos diante de um Banco Central que não está disposto a sacrificar crescimento desde que você tenha inflação dentro das bandas. Foi isso o que aprendemos ao longo de todos esses meses”, afirma Marcelo Salomon, economista-chefe para o Brasil do Barclays.

Salomon projeta inflação de 5% em 2012 e de 5,9% em 2013. “Então, não é um cenário de convergência de volta para as metas, mas é um cenário em que o BC não está disposto a sacrificar crescimento – mantendo a possibilidade de promover uma retomada mais incisiva o mais rápido possível – desde que você não comprometa o teto da meta porque o mundo ainda está muito incerto”, afirma.

Alexandre Schwartsman, ex-diretor de assuntos internacionais do BC acredita que o objetivo de inflação de até 6,5%. E isso explica o fato de as projeções estarem tão distantes do centro da meta, de 4,5% – as projeções para o IPCA se situam em 5,12% para este ano e em 5,5% para 2013.

Mesmo com a maior leniência com os preços, os benefícios da queda dos juros não foram percebidos claramente na atividade por causa de um diagnóstico errado, acredita Schwartsman. “A economia não está indo bem porque o BC tenta adotar a mesma receita de 2008 agora, sendo que as condições são completamente diferentes”, afirma.

Schwartsman diz que, há quatro anos, a economia tinha um grau de ociosidade importante, tanto no emprego quanto na produção e no crédito, que explica a resposta rápida obtida com as medidas de estímulo adotadas naquele momento. “Agora, com o país em pleno emprego, o conjunto de política econômica parece não funcionar.”

O economista Winston Fritsch, um dos integrantes do time que criou o Plano Real (1993-1994), não vê o BC mirando o ritmo de atividade da economia em detrimento do nível geral de preços. Para ele, o Copom “ganhou” do mercado ao notar antes dos agentes econômicos uma oportunidade única de reduzir a taxa básica de juro da economia brasileira, e estabelecer um novo padrão. “Eu acho que o BC não abandonou a meta de inflação. O impacto de contração da atividade foi muito rápido. Um choque de esfriamento que criou espaço para reduzir os juros sem contrapor a meta.”

Fritsch pondera, no entanto, que a condição propícia à flexibilização do juro não é eterna e o ritmo de corte da taxa Selic, que foi reduzida até agora em 4,5 pontos percentuais, 8% ao ano, tende a ficar mais contido nos próximos meses. “Chegamos a um ponto para testar e ver o que acontece. Ninguém pode dizer que o BC está fora da meta.”

A expectativa para a próxima reunião do Copom, que ocorre na semana que vem, é de novo corte de 0,5 ponto, seguida por nova redução em outubro, talvez de menor magnitude, especula o mercado. A partir daí, os especialistas se dividem entre uma estabilidade ao longo de 2013 ou uma leve alta dos juros. Todos estão de olho no atual repique inflacionário, fruto da alta dos preços das commodities (especialmente alimentos) no exterior e no aquecimento da economia doméstica.

De toda forma, há um novo equilíbrio macroeconômico defendido pelo BC: juro real baixo com câmbio depreciado. Para que isso se torne uma mudança estrutural, é necessário que se mantenha o atual rigor fiscal, além de depender ainda do desempenho da economia internacional, avalia David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch para o Brasil.

“O mix da política monetária de fato mudou e a depreciação da moeda brasileira é permanente. Mas a âncora desse novo modelo é a manutenção de um rigor fiscal razoável”, diz Beker.

Mesmo com o alívio provocado pela queda do juro básico no perfil da dívida pública brasileira, as estimativas para o superávit primário estão menores do que o resultado consolidado no ano passado. As projeções indicam 2,8% para este ano e para 2013. Em 2011, o superávit primário foi de 3,11%.

No ambiente externo, Beker acredita que o cenário de baixo crescimento e juros próximos de zero se manterá por dois ou três anos, o que deve permitir que se mantenha a taxa de juro real brasileira em patamares historicamente baixos. “Ainda é cedo para dizer se a mudança no patamar da Selic é estrutural, mas mesmo que seja apenas conjuntural não necessariamente será de curto prazo”.

Passado um ano das turbulências entre o mercado e o BC, os especialistas hoje já se acostumaram com a nova função de reação da autoridade monetária e sabem ler melhor os sinais dessa nova autoridade monetária. Antes, o BC não reduziria os juros quando a projeção de inflação se mostrava acima da meta. Hoje, a expectativa está acima de 5% e o BC continua cortando a Selic, lembra Molan, do Santander.

Outra mudança está no câmbio. Analistas que antes olhavam os fundamentos econômico como o preço das commodities e o movimento do dólar no mercado externo para estimar o valor da moeda americana no Brasil, estão mais atentos agora aos discursos do governo, seja via Ministério da Fazenda, seja via BC.

Mas condições para o processo de ajuste das taxas de juros para padrões internacionais não estão dadas, na opinião de Vieira da Cunha, uma vez que o peso do governo no sistema financeiro só faz crescer e o ajuste fiscal está focado na arrecadação, e não no gasto. E isso ajuda a explicar o resultado prático ainda limitado dessa medida. “Por enquanto, estamos pagando para ver.”


BC não mudará sua estratégia

Por Cristiano Romero | VALOR

De Brasília

A intervenção do Banco Central (BC) no mercado de câmbio, depois de 35 pregões de ausência, consagra a percepção de que o regime de câmbio flutuante, pelo menos por ora, deixou de existir. Com a atuação de terça-feira, o BC avisou que não pretende deixar a cotação do dólar americano cair abaixo de R$ 2, assim como já deu a entender que não aceitará que vá acima de R$ 2,10.

A preocupação do BC é sustentar um novo equilíbrio para a economia brasileira, em que as taxas de juros são menores e o câmbio, menos apreciado. Trata-se de um equilíbrio diferente do dos últimos anos, que combinava juros altos com real valorizado. O objetivo do novo equilíbrio é estimular a indústria nacional, estagnada há dois anos.

A determinação do BC em defender uma determinada taxa de câmbio se mostra de forma ainda mais clara quando se observa que o país assiste ao repique da inflação, provocado por um choque de oferta no setor de alimentos. Câmbio desvalorizado, como se sabe, pode alimentar a inflação.

Em março, quando o ambiente internacional se deteriorou e por consequência houve um aumento da aversão dos investidores a risco, o fluxo de dólares se tornou negativo, pressionando para cima as cotações do dólar. Ato contínuo, o BC deixou o real perder valor para a moeda americana.

O objetivo foi tirar o dólar da cotação de R$ 1,70 e levá-la a outro patamar – na ocasião, para algo em torno de R$ 1,90. O processo continuou em abril e, apenas no fim daquele mês, a autoridade monetária procurou estabelecer alguma “âncora” para a moeda, que em meados de maio já estava em novo patamar – R$ 2.

A desvalorização do real foi, até então, a mais acentuada entre as moedas de países exportadores de commodities e de economias emergentes. A partir de maio, o BC procurou atrelar o câmbio comercial ao dólar index, indicador que mede a variação da moeda americana em relação a uma cesta de moedas. Segundo o Valor Data, em meados de junho houve um descolamento entre os dois indicadores e, apenas no início do mês seguinte, o real voltou a variar em linha com o dólar index.

Lá pelo dia 20 de julho, dólar comercial e dólar index acumulavam a mesma variação em relação a 30 de abril, quando houve o “casamento”. Depois disso, o dólar comercial andou acima do dólar index, mas sempre com uma forte correlação. Em tempo: ao seguir o dólar index, a taxa de câmbio deixa de refletir os fundamentos da economia brasileira.

Analistas acreditam que, com o aumento da inflação nos próximos meses, a tendência do BC será abandonar essa política e permitir a apreciação do real. Faria isso para conter os preços via dólar mais barato, preservando o espaço para continuar reduzindo a taxa básica (Selic), uma vez que a inflação estaria sob controle. O BC vem desmentindo essa possibilidade com suas ações e comunicados.

É mais provável ver o BC exercitando sua já habitual tolerância com uma inflação mais alta. Argumentos para isso não faltarão e o primeiro deles já está dado: o mundo, por causa de um grave problema climático nos Estados Unidos, está ficando novamente inflacionário. Ademais, BC e governo não consideram alta uma inflação em torno de 5,5%. Um IPCA de 5,5% em 2013 é justamente o que espera a maioria dos agentes de mercado, segundo o boletim Focus. Para 2102, por causa do choque de oferta, o mercado tem revisado para cima as projeções e já prevê 5,15% – nos 12 meses acumulados até julho, estava em 4,9%.

Ainda há no mercado a ideia de que a atual diretoria do BC age de acordo com a tradição firmada entre 1999 e 2010, durante a implantação do regime de metas para inflação. Por essa crença, o BC não reduz juros quando as expectativas de inflação superam a meta oficial; deixa o câmbio apreciar ou depreciar como consequência dos termos de troca da economia; atua no mercado para evitar repentinas e acentuadas desvalorizações da moeda; não coordena seus objetivos com o Ministério da Fazenda.

O BC mudou. Começando pelo fim, a atual diretoria não só coordena suas políticas como compartilha com a Fazenda diagnósticos e visões sobre a economia; tolera desvalorizações da moeda a partir da crença de que o real valorizado prejudica a competitividade da indústria; não tem apego à ideia de que é natural o real andar de mãos dadas com moedas de países exportadores de commodities, como Canadá e Austrália; dá um peso menor às expectativas dos agentes ao definir a política de combate à inflação.

O que há em comum entre os BCs dos dois momentos é a crença de que o governo precisa entregar uma meta cheia de superávit primário, como elemento auxiliar ao controle da demanda. Isso não mudou. Um exemplo de como o atual BC difere dos anteriores foi a participação do presidente da instituição, Alexandre Tombini, na reunião com a Anfavea que decidiu pela diminuição do IPI para estimular a venda de automóveis. É cedo para dizer se o “novo BC” está certo ou errado. O que já dá para afirmar é que ele é diferente.

Um funcionário graduado do BC justificou desta forma a adoção de uma política fiscal, monetária e cambial menos restritiva para ajudar o setor: “A gente sabe que investimento funciona se tiver perto da capacidade. Com os pátios das indústrias cheios, não tem investimento. Então, temos que cuidar um pouco desse curto prazo para a bola continuar em movimento. Então, é essa a lógica de preservar os investimentos em setores que puxam a economia”.

30/07/2012 - 09:51h Dólar alto é novo obstáculo aos EUA

Por Assis Moreira | VALOR

de Genebra

A recente alta do dólar representa outro obstáculo para os exportadores dos Estados Unidos e para os lucros das companhias, em meio a inquietações com a perda de fôlego da maior economia do mundo, que cresceu apenas 1,5% em taxa anualizada no segundo trimestre.

O valor da moeda americana continua baixo em termos efetivos (”trade-weighted basis”) pelos padrões históricos. Mas está próximo de seu nível mais alto ante o euro em dois anos – tendo subido 4% nos últimos cinco meses e cerca de 8% no ano passado em relação aos principais parceiros.

Para os exportadores, o desempenho do dólar não é boa noticia quando eles já enfrentam a baixa de demanda na Europa e em partes da Ásia. Apple e Ford estão entre as empresas que anunciaram resultados decepcionantes no segundo trimestre por causa de consumo menor pelos europeus.

“A alta do dólar não é um desastre para os EUA e por si só não vai enfraquecer mais a economia, mas vai exacerbar as desacelerações tanto do crescimento das exportações como do lucro das empresas”, avalia o analista Paul Dales, em Londres.

Ele nota que os EUA não estão expostos a flutuações no câmbio como muitas economias “simplesmente porque o país tem uma economia relativamente fechada”. As exportações representam apenas 14% no PIB americano, comparadas a 27% na França e 50% na Alemanha. Mas o dólar no seu nível atual pode baixar de 5% para cerca de 3% o ritmo de crescimento das exportações.

O outro lado é que o dólar mais alto se traduz em preço mais baixo de importações. Mas o impacto da flutuação da moeda nos preços de importações demora cerca de quatro meses.

A economia americana cresceu 1,5% em taxa anualizada no segundo trimestre, alimentando dúvidas sobre a recuperação da economia global e sobre as perspectivas de reeleição do presidente Barack Obama.

Mas analistas notam que a dura seca em alguns Estados americanos terá impacto apenas marginal no declínio da produção agrícola e no crescimento do PIB americano. Embora os EUA produzam mais milho do que qualquer outro país e sejam os supridores de metade da soja globalmente, o setor agrícola representa apenas 1%, ou US$ 130 bilhões, do PIB americano.

No primeiro semestre, a média de temperatura em seis de nova regiões americanas bateu recorde de alta. Preços futuros de milho subiram 60%; de soja, 50%; e de trigo, 25%.

No entanto, a expectativa é de que, mesmo se os preços das commodities continuarem nos níveis atuais, o impacto sobre a inflação também será pequeno.

Na zona do euro, a queda da moeda comum dá um impulso nas exportações, mas o superávit comercial vem sendo obtido também graças a menos importações.

No Japão, o déficit na balança comercial prossegue. Por sua vez, o ministro das Finanças Jun Azumi alertou que uma intervenção continua a ser uma possibilidade para baixar o valor do iene.

A moeda japonesa está no seu nível mais alto em relação ao euro e também se valorizou um pouco ante o dólar recentemente.

04/07/2012 - 08:51h BC pode intervir no câmbio para ajudar a indústria

Diretor de política monetária diz que dólar abaixo de R$ 2 pode não ser bom para o setor
04 de julho de 2012

FERNANDO NAKAGAWA / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

O dólar abaixo de R$ 2 não agrada a equipe econômica e o Banco Central pode voltar a agir. O recado foi dado ontem pelo diretor de política monetária da instituição, Aldo Luiz Mendes. “Minha percepção é que o dólar abaixo desse nível de R$ 2 pode não ser bom para a indústria”, disse no fim da manhã.

O aviso mudou os ventos do mercado e a moeda, que recuava, passou a subir, voltou ao nível considerado adequado e terminou a R$ 2,0150, maior valor do dia, em alta de 1,31%.

Em entrevista ao Estado, Mendes deixou clara a insatisfação e a preocupação do governo com o tema. Mais que isso: mostrou que o BC está alinhado com o restante da equipe econômica no esforço de manter o dólar em um patamar favorável às empresas brasileiras.

“O desempenho industrial mais fraco até aumenta a possibilidade de o governo querer um dólar mais alto que a cotação de hoje (ontem)”, disse o diretor do Banco Central.

Minutos antes da entrevista, o dólar chegou a ser trocado de mãos por R$ 1,9770. O governo entende que o dólar mais alto é importante para os exportadores, já que torna produtos e serviços brasileiros mais competitivos.

Liquidez. Oficialmente, o BC não tem um objetivo para o preço da moeda e a instituição só intervém para resolver problemas de liquidez. “Não temos uma meta de câmbio, atuamos no ajuste da liquidez”, argumentou o diretor. Apesar do discurso, Aldo avisou que o banco pode voltar a comprar dólares, o que evidentemente aumentaria o preço da moeda. “O BC tem atuado numa ponta (a vendedora) e pode atuar na outra (como comprador). Sempre estamos de olho”, afirmou o diretor.

A chance de voltar às compras tem até endereço: o mercado futuro. “A dinâmica atual tem sido concentrada no segmento futuro. Se a gente tivesse de voltar a intervir, seria no futuro”, disse. Essa simples ameaça foi suficiente para a moeda, em poucos minutos, retornar ao patamar indicado.

O mesmo BC que agora ameaça comprar dólares teve, na semana passada, forte atuação como vendedor da moeda americana. Em três dias seguidos – entre quarta-feira e sexta-feira -, realizou leilões no mercado futuro que corresponderam à venda de cerca de US$ 9 bilhões.

Crise externa. Mesmo com tais intervenções, o diretor do Banco Central afirma que a recente queda do dólar para abaixo de R$ 2 não é responsabilidade do banco. Para ele, a queda é resultado de uma percepção positiva dos investidores sobre a crise externa. “Os anúncios após o encontro da cúpula europeia na semana passada têm consistência um pouco maior do que havia sido divulgado antes. Por isso, houve o recuo do dólar”, argumenta Mendes. “Houve alívio para a tomada de risco.”

Em Bruxelas, líderes europeus acertaram diretrizes para uma ação conjunta em favor do crescimento e para enfrentar a crise da dívida de vários países da região.

A sinalização dada pelo diretor do Banco Central mostra como a autoridade monetária compartilha ideias com o Ministério da Fazenda e o Palácio do Planalto. No esforço de tentar manter a indústria e o restante da economia aquecida, inúmeras medidas têm sido tomadas nas áreas tributária, fiscal e de crédito.

Sob a responsabilidade do Banco Central, o juro cai desde agosto do ano passado e houve liberação de recursos dos bancos – o compulsório – para crédito de veículos e rural.

25/06/2012 - 08:57h Queda de commodities afetará Brasil

Bel Pedrosa/Valor / Bel Pedrosa/Valor
Yilmaz Akyüz, economista-chefe do South Centre: “Não usem as reservas cambiais, a não ser para investimento, produção e importação de bens essenciais”


Por Diogo Martins | VALOR

Do Rio

Os preços das commodities no mercado internacional cairão consideravelmente, afetando toda a América Latina, inclusive o Brasil. Esse será o principal impacto da desaceleração da economia chinesa na região avalia o economista-chefe do South Centre (órgão internacional de países em desenvolvimento com sede em Genebra, na Suíça), o turco Yilmaz Akyüz. Ele, que veio ao Brasil para a Rio+20, lembrou que, num momento em que os países da zona do euro estão em crise e os Estados Unidos, com baixo crescimento torna o cenário mais grave.

Ele falou com exclusividade ao Valor e disse que a redução no preço dos produtos básicos mostrará que o Brasil viveu, durante os últimos anos, duas bolhas: uma relacionada à própria valorização das commodities, que garantiu o saldo positivo na balança comercial, e outra que sobrevalorizou o real, com a forte entrada de dólares no país. Na visão do economista, o Brasil se caracterizou como um grande produtor de commodities, bens que atraíram recursos estrangeiros ao país, inflando o real. Com o fim do ciclo de alta das commodities, ele diz que o fluxo de capitais para o país poderá ficar comprometido.

“O Brasil precisa ter cuidado com o balanço de pagamentos. O problema é que o fluxo de capitais e as commodities estão além do poder do governo. Ou seja, o Brasil não pode adotar medidas para os preços das commodities subirem e não pode, facilmente, adotar medidas para atrair capitais para o país”, diz ele, acrescentando que o processo de queda das commodities foi iniciado há dois meses. “Com isso, há um deslocamento rápido de recursos dos países emergentes e suas moedas se desvalorizam”.”

Na avaliação do economista, o governo deveria praticar ações domésticas. Entre elas, destaca, deveria preparar-se para fazer controle de capitais e ser mais “seletivo na importação”.

“Meu conselho é: não usem as reservas cambiais, a não ser para investimentos, produção e importação de bens essenciais”, afirma ele, para quem o real ficou valorizado por muito tempo, situação que impôs ao país a desindustrialização. Na época em que o real se valorizou, Akyüz diz que o governo deveria ter elevado o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de maneira menos “tímida”. “Aumentar 3%, 4% é ineficiente. Quando se aumenta imposto cambial, tem de se aumentar 10%, 12% para ajudar a indústria”, diz.

Akyüz conta que, em 2008, quando a crise financeira estourou, a China manteve o patamar de preços das commodities e funcionou como “a fábrica do mundo”. Ele diz que, agora, isso acabou, porque as exportações chinesas estão perdendo mercado na Europa e nos Estados Unidos. Em razão disso, avalia, a China deverá mudar seu padrão de crescimento. Além de investimentos em infraestrutura, algo que o país já faz, seu governo terá de aumentar os esforços para promover a elevação do consumo da população.

“A China não voltará a crescer 9,5%. Acho que o país crescerá algo em torno de 7,8% em 2012 e sustentará esse patamar nos próximos anos”, diz. “É um crescimento bastante decente. Muitos países adorariam ter uma taxa de crescimento dessa, inclusive, o Brasil.”

05/06/2012 - 09:30h Paralelo volta à Argentina com cerco ao dólar

05 de junho de 2012

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES – O Estado de S.Paulo

A cruzada antidólar da presidente Cristina Kirchner intensificou-se ontem com a entrada em vigência da obrigatoriedade da permissão da Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip, sigla da Receita Federal argentina) para as pessoas que – para a aquisição de um imóvel – quiserem comprar dólares com pesos obtidos por um empréstimo hipotecário.

A medida promete esfriar ainda mais o mercado imobiliário argentino, cujas operações há quatro décadas são feitas exclusivamente em dólares. Em abril, segundo o Colégio de Tabeliães de Buenos Aires, as operações imobiliárias despencaram 25% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Esta e as outras medidas que o governo Kirchner vinha aplicando desde novembro contra a moeda americana (o refúgio preferido dos argentinos para as épocas de crise e também nos tempos de vacas gordas) provocaram nos últimos meses o ressurgimento do dólar paralelo, que há duas décadas havia deixado de existir.

Na última sexta-feira, o dólar oficial estava em 4,49 pesos, enquanto que o paralelo passava dos 5,80 e chegava aos 6 pesos. Mas, para complicar, no fim de semana o senador Aníbal Fernández, braço direito da presidente Cristina no Senado, causou confusão ao afirmar que as casas de câmbio teriam um dólar paralelo a 5,10 pesos nesta segunda-feira, já que o governo negociaria com os doleiros uma cotação informal mais baixa.

Mas apesar das promessas de negociar com os cambistas, ontem, depois de um fim de semana de intensos rumores, a moeda americana ostentou a cotação oficial de 4,49 pesos. O dólar “blue” (paralelo), oscilou entre 5,50 e 5,97 pesos.

Retiradas. No início da semana passada, Aníbal Fernández declarou que os argentinos teriam de se acostumar a “pensar em pesos”. Isso levou ao aprofundamento dos boatos sobre uma iminente “pesificação”. Mas a medida foi categoricamente desmentida pelo vice-ministro da Economia, Axel Kicillof. A saída de depósitos, no entanto, persistiu.

Segundo dados do Banco Central, desde as primeiras medidas do governo Kirchner contra a moeda americana em novembro, os bancos perderam 25,3% de seus depósitos em dólares. Isso indica que o volume caiu dos US$ 14,7 bilhões em outubro para US$ 11,03 bilhões em maio. Com a intensificação dos controles, a saída teria alcançado US$ 1,6 bilhão no mês passado.

Os bancos, sem dólares suficientes para entregar, estão fazendo listas de espera para seus clientes, fato que causa mais nervosismo entre os argentinos.

José Manuel de la Sota, governador de Córdoba – segunda maior província do país -, alertou sobre os controles cambiais: “Quando as pessoas veem restrições à livre comercialização dos dólares, começam a pensar que algo anda mal”.

Cláudio Loser, ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a Argentina, afirmou que o acordo entre o governo e as casas de câmbio para moderar a alta do dólar paralelo não é a solução: “Esse problema não será curado com uma negociação entre ambos. As pessoas se assustam e retiram seus dólares. E continuarão fazendo isso. Elas são tão espertas quanto os agentes do governo, pois encontrarão a forma de continuar comprando e vendendo dólares.”

Para Loser, o dólar no câmbio oficial deveria estar em um patamar de 7 pesos.

09/05/2012 - 10:15h “Tsunami monetario” brasileño causa recelos en América Latina

Miercoles, 09 de mayo de 2012

Depreciación. El real pierde su valor frente a la divisa norteamericana, lo que genera que dicho gobierno tome medidas de precaución ante esta tendencia.
Depreciación. El real pierde su valor frente a la divisa norteamericana, lo que genera que dicho gobierno tome medidas de precaución ante esta tendencia.

Preocupación. Pérdida de valor de real brasileño ante el dólar causa inquietud en la región. Según expertos, esta depreciación podría afectar las economías de los países vecinos y ocasionar tensiones comerciales.

BBC Mundo/ La República

Latinoamérica empezó a mirar con inquietud la pérdida de valor de la moneda de Brasil ante el dólar, lo que, según expertos, podría impactar en las economías de la región y causar más tensiones comerciales entre los países vecinos.

Cada dólar norteamericano vale hoy por hoy más de 1,92 reales brasileños, lo que implica una devaluación superior a 10% de la moneda de la mayor economía latinoamericana desde fines de febrero, cuando  se cotizaba a 1,70.

De este modo, el real ha seguido una trayectoria contraria a la de otras divisas de la región que se valorizaron ante el billete verde en lo que va del 2012, una tendencia que, si sigue, le daría ventajas comerciales al país. “Brasil está consiguiendo revertir el movimiento prevaleciente en lo que va del año en América Latina de valorización (de las monedas) frente al dólar”, dijo Luciano Rostagno, estratega jefe de Banco WetLB de Brasil.

Rostagno agregó que “consecuentemente, eso debe favorecer o dar mayor competitividad a los productos brasileños en esos países”.

El gobierno brasileño ha reiterado su preocupación ante lo que considera una “guerra cambiaria” o un “tsunami monetario” provocado por países desarrollados con políticas expansivas frente a la crisis.
Con la intención de parar la presión al alza del real, Brasil aumentó los impuestos al ingreso de capital extranjero y su Banco Central intervino activamente en el mercado.

Rostagno apunta que esta situación puede permitirle a Brasil competir mejor con China en la región.

“Habíamos visto a Brasil perder mercados en Latinoamérica ante productos chinos y el gobierno atribuye buena parte de ese movimiento a la desvalorización del dólar o a la valorización del real”, precisó.

No obstante, el efecto del real más barato y los incentivos del gobierno de Dilma Rousseff aún no se han sentido en la industria brasileña, que en abril volvió a dar señales de debilidad mientras crecían las importaciones chinas.

Marcelo Nonnenberg, economista del Instituto de Investigación Económica Aplicada (IPEA), dijo que la baja del real puede tener un impacto en las exportaciones brasileñas si se mantiene. “Lo que está aconteciendo con el real puede revertirse o puede continuar”, indicó.

El efecto del cambio en el comercio es relativo, dijo que los productos más sensibles a este son los manufacturados, precisamente los que Brasil exporta a la región.

Asimismo, resaltó que el efecto del cambio en el comercio es relativo. Nonnenberg refirió que los productos más sensibles ante este escenario son los manufacturados, precisamente los que Brasil exporta a la región.

Claves

cautela. El mercado cambiario brasileño es seguido con atención en países como Argentina, donde la consultora abeceb.com advirtió el viernes pasado sobre la superación del techo “psicológico” de 1,90 reales brasileños por dólar. “La depreciación del real enciende luces de alerta en la Argentina ya que se trata de su principal socio comercial”, indicó la consultora.

07/05/2012 - 09:53h ‘Dilma deveria ser mais rápida e agressiva’


Um dos mais famosos economistas heterodoxos, Chang diz que Dilma está \”cautelosamente\” abandonando a política de Lula

07 de maio de 2012

RAQUEL LANDIM – O Estado de S.Paulo

Um dos economistas heterodoxos mais famosos do mundo, o sul-coreano Ha-Joon Chang diz que a presidente Dilma Rousseff está “cautelosamente” abandonando a política macroeconômica de Lula. “Ela está se movendo na direção correta, mas as mudanças deveriam ser mais rápidas e agressivas”, disse Ha-Joon ao Estado.

Professor da Universidade de Cambridge, ele é autor do livro “Chutando a escada: estratégias de desenvolvimento em uma perspectiva histórica”. Amanhã, o economista dará uma palestra a empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A seguir trechos da entrevista.

O senhor vai se encontrar com empresários brasileiros. Qual será a sua mensagem?

Nas duas últimas décadas, o Brasil experimentou uma desindustrialização dramática. A participação da indústria na economia mergulhou do pico de 27,2% em meados da década de 80 para 14,6% em 2011. Esse fato é muito preocupante. Também é um imenso desperdício de potencial, pois o País é certamente capaz de competir na “primeira divisão” da manufatura mundial, como foi evidenciado pela Embraer. Para reverter essa tendência, o Brasil precisa de uma nova estratégia industrial. Sem isso, corre o risco de se transformar numa economia que vive de exportar matérias-primas para a China.

A indústria brasileira não cresce e perde mercado para outros países. O que o governo deveria fazer para ajudar?

O governo brasileiro precisa reformar suas políticas macroeconômicas. A indústria brasileira sofreu muito por conta de uma das maiores taxas de juros do mundo, que dificulta os investimentos, e de uma taxa de câmbio sobrevalorizada, que prejudica a competitividade internacional. Essas duas coisas precisam desaparecer. No entanto, não é suficiente. O Brasil também precisa de uma estratégia industrial. A experiência da Coreia do Sul – que tinha uma renda equivalente a apenas dois terços da brasileira em 1961 e hoje é 2,5 vezes mais rica que o Brasil – e de muitos outros países mostram que, sem uma política industrial coerente, o desenvolvimento econômico nos países emergentes como o Brasil não vai muito longe.

Qual é a sua impressão da política econômica da presidente Dilma Rousseff?

A presidente Dilma está deixando cautelosamente a política de Lula, que era uma mistura de política macroeconômica muito ortodoxa – focada no controle da inflação através de taxas de juros altas – e uma política industrial heterodoxa, mas pouco ambiciosa. Desde que assumiu o cargo, Dilma começou a relaxar a política macroeconômica e parece haver uma grande vontade de impulsionar uma política industrial mais pró-ativa. Acredito que ela está movendo as políticas na direção correta, mas as mudanças deveriam ser mais rápidas e mais agressivas. As condições econômicas atuais das economias brasileira e mundial tornam uma mudança mais radical não só essencial, mas também plausível. É essencial porque o declínio da indústria chegou a um ponto que não pode mais ser ignorado. Além disso, a ascensão de novos competidores, especialmente a China, significa que, se o Brasil atrasar mais seu renascimento industrial, não há caminho de volta. Uma mudança mais radical na política se tornou possível por várias razões. Primeiro, a política macroeconômica do governo Lula – apesar de o Brasil ter pago um preço alto em termos de declínio da produção industrial – convenceu o mundo que o País está determinando a não ter outra hiperinflação. Logo, uma mudança agora não provocará pânico no mercado financeiro. Segundo, depois da crise financeira de 2008, o domínio da ideologia neoliberal, que enfatiza o controle da inflação e rejeita a política industrial, diminuiu. As críticas à mudança de curso no Brasil não serão tão barulhentas quanto em 2002 ou até mesmo em 2006. Terceiro, o sucesso econômico de outros países latino-americanos, especialmente a Argentina, com políticas heterodoxas na última década aumentou a credibilidade dessas políticas.

A presidente Dilma gostaria de deixar o governo com taxas de juros reais de 2%. É possível?

Certamente. Os juros nos países ricos devem continuar muito baixos. 2% é a taxa real de juros que você precisa se quiser investimento alto e rápido crescimento. Não estou dizendo que baixas taxas de juros automaticamente levam a investimento e crescimento, mas são pré-condição. E 2% é a taxa de juros real que economias mais bem sucedidas tiveram em seu período de alto crescimento. Durante a maior parte do “milagre econômico” dos anos 60 e 70, os juros na Coreia do Sul foram negativos. Em seu período de alto crescimento, todos os países europeus tiveram taxas de juros reais entre 1% e 3%. Uma taxa de juros real de 2% é uma meta muito sensata.

O real está artificialmente valorizado? O Brasil deveria adotar controle de capitais?

Taxas de juros excessivamente altas atraem capital especulativo, o que aumenta a demanda pelo real e eleva seu valor. O problema se tornou mais sério desde a crise financeira de 2008, quando os países ricos baixaram seus juros para níveis historicamente baixos, enquanto despejavam imensos montantes de liquidez. O Brasil deveria baixar os juros, mas algum nível de controle de capitais pode também ser necessário, porque teria efeitos imediatos. O Brasil introduziu medidas de controle de capital, mas não foram fortes o suficiente. Hoje até o FMI apoia algum nível de controle de capital para países como o Brasil. Não acredito que seria um grande problema se o País fortalecesse essas medidas.

10/04/2012 - 09:23h Dilma cobra papel dos EUA contra ‘políticas monetárias expansionistas’

10 de abril de 2012

VERA ROSA / ENVIADA ESPECIAL, DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON – O Estado de S.Paulo

Na conversa de uma hora e meia com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na Casa Branca, a presidente Dilma Rousseff cobrou ontem mais responsabilidade do colega no enfrentamento da crise econômica mundial e isentou a China das consequências pela desvalorização artificial de sua moeda. Embora reconheça a retomada americana como fundamental para a economia global a médio prazo, a brasileira condenou a tática do país para estimular o mercado interno em prejuízo dos demais – em especial, dos emergentes.

“Precisamos ter clareza de que a responsabilidade de todos nós, nesse processo de contenção da crise, de retomada (do crescimento) é compartilhada”, afirmou Dilma, em entrevista sem a presença de Obama, no hotel em que está hospedada. “Ninguém pode falar: ‘Não, eu não tenho responsabilidade, não tenho nada com isso. Não é bem assim.”

Dilma já havia adotado o tom crítico ao papel de seus anfitriões na economia global ainda na Casa Branca, logo após a conversa com Obama. “Essas políticas monetárias, solitárias no que se refere às políticas fiscais, levam à valorização das moedas dos países emergentes, levando ao comprometimento do crescimento desses países”, afirmou a presidente.

Na entrevista coletiva, depois de deixar a Casa Branca, Dilma insistiu na tese. “Apostar só em políticas monetárias expansionistas leva a um verdadeiro tsunami monetário”, afirmou, repetindo expressão usada desde o encontro com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, em março. Naquela ocasião, a chanceler alemã rebateu a crítica, condenando “medidas protecionistas unilaterais”.

‘Joãozinho’. Na entrevista coletiva, Dilma chegou a usar uma expressão mineira (Joãozinho do passo certo) ao comentar as relações bilaterais entre os dois principais países do continente. A presidente afirmou que ninguém é dono da verdade e que o Brasil não tem apenas divergências com os Estados Unidos. “Não podemos acreditar – principalmente nós, as duas maiores democracias do continente -, que todo mundo é Joãozinho do passo certo. Nós não somos Joãozinho do passo certo, nem do passo errado.”

A crítica ao modo como os países europeus e os Estados Unidos têm lidado com a crise econômica global vem sendo citada por Dilma em cada encontro do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do G20, grupo das economias avançadas e emergentes. Mas foi encorpada pelo apoio de todos os parceiros do Brasil na cúpula dos Brics, grupo do qual também fazem parte Rússia, Índia, China e África do Sul.

Isso explica em parte porque Dilma, embora tenha batido na tecla de que a resposta à instabilidade provocada pela manipulação cambial exige ação conjunta e imediata, eximiu a China desse processo. “Os Estados Unidos são um país diferente do resto do mundo. Eles emitem moeda”, argumentou Dilma, ao dizer que a contribuição da China seria diferente porque o país asiático atrelou sua moeda ao dólar.

A brasileira já havia dito ao colega americano que os efeitos da política monetária sobre a América Latina são uma preocupação na região, e o tema será tratado na Cúpula das Américas, no próximo fim de semana, em Cartagena (Colômbia).

Mais tarde, diante de empresários dos dois países, Dilma foi mais didática ao explicar o efeito das medidas monetárias dos EUA na valorização do real e exercitou seu estilo pragmático. “O governo brasileiro tem tomado e continuará tomando todas as medidas necessárias para neutralizar os efeitos nocivos do afrouxamento monetário dos países desenvolvidos”, afirmou a presidente, ao encerrar o seminário Parceria para o Século 21, promovido pela Câmara de Comércio dos EUA. “Nós temos reiterado que o Brasil repudia toda forma de protecionismo, especialmente essas medidas que se configuram como uma espécie de protecionismo cambial.”

Mesmo com as cobranças, a presidente afirmou que a conversa a portas fechadas com o americano, seguida de almoço na Casa Branca, foi “muito positiva”. E acentuou que a retomada da economia americana é imprescindível para a melhoria da perspectiva mundial a médio prazo.

Na parte pública do encontro, porém, nenhum dos dois líderes deu sinal de sincero entrosamento. Dilma mostrava-se tensa, com papéis à mão, e desconfortável. Falou à imprensa durante quase 21 minutos – três vezes mais que o tempo gasto por Obama em sua declaração. Por acordo entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca, os jornalistas não puderam fazer perguntas. Por sua vez, nenhum dos presidentes tocou em temas sensíveis, como o pleito do Brasil por uma vaga no Conselho de Segurança da ONU.

No fim do dia, Dilma jantou na embaixada brasileira com personalidades como as ex-secretárias de Estado Madeleine Albright (Bill Clinton) e Condoleezza Rice (George W. Bush) e o ex-presidente Jimmy Carter.

30/03/2012 - 12:36h Governo vai taxar produtos importados e reduzir impostos da indústria nacional

30 de março de 2012

RAQUEL LANDIM – O Estado de S.Paulo

A presidente Dilma Rousseff vai elevar a tributação sobre produtos importados ao mesmo tempo em que reduz os impostos pagos pela indústria nacional. Na terça-feira, a equipe econômica pretende anunciar a desoneração da folha de pagamento para cerca de nove setores e a criação de uma Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social) adicional para as importações desses produtos.

Os setores contemplados devem ser aqueles que se reuniram recentemente com o ministro da Fazenda, Guido Mantega: máquinas, móveis, geração e transmissão de energia, plásticos, fabricantes de ônibus, de aviões, indústria naval, além de calçados e têxteis, que já haviam sido beneficiados anteriormente.

Esses setores deixam de pagar os 20% de INSS que incidem sobre os salários dos seus trabalhadores e, em troca, vão contribuir com um alíquota equivalente a cerca de 1% do faturamento bruto. A alíquota ainda não está fechada, mas a intenção do governo é adotar o mesmo porcentual para todos os setores.

A avaliação da equipe econômica é que a instituição da Cofins sobre os importados significa garantir “isonomia” para a indústria nacional. A alíquota de cerca de 1% será cobrada sobre o faturamento das empresas já acrescida de PIS/Cofins, que hoje está em 9,25%. Dessa maneira, na prática, aumentaria a Cofins paga pela indústria brasileira. Logo, a alíquota extra para o importado só compensa a diferença.

A avaliação de especialistas ouvidos pelo Estado, no entanto, é diferente: ao tributar só o importado, o governo federal estaria promovendo tratamento discriminatório, que vai contra as regras da Organização Mundial de Comércio (OMC). É a mesma polêmica da alta de 30 pontos porcentuais do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para os automóveis importados.

Para tentar escapar do questionamento na OMC, o governo poderia recorrer ao esquema de elevar a Cofins para todos os produtos manufaturados e devolver o imposto à indústria nacional por meio de crédito tributário.

Segundo um estudo que circula na administração federal, obtido pela reportagem, o governo avalia essa alternativa. Com o título de “Indústria da transformação e a concorrência externa predatória. Uma proposta de mitigação dos efeitos”, o documento tem 35 páginas.

No trabalho, os técnicos do governo simularam o que ocorreria se o governo desonerasse a folha de pagamento de toda a indústria da transformação brasileira e concluíram que representaria uma perda de arrecadação de R$ 20 bilhões.

De acordo com o documento, se fosse instituída uma alíquota extra de 9% de Cofins para os produtos importados, isso significaria arrecadação extra de R$ 27,3 bilhões. O valor é mais do que suficiente para cobrir o rombo da desoneração da folha. Procurado, o Ministério da Fazenda não se pronunciou.

21/03/2012 - 09:38h Cepal apoia protecionismo “temporário” na região

A secretária-geral da Cepal, Alicia Bárcena, vê risco de desindustrialização


Por Daniel Rittner | VALOR

De Brasília

A adoção de medidas “temporárias” pode ajudar o Brasil e países vizinhos contra a invasão de produtos importados que não encontram mais espaço em seus mercados tradicionais. Com isso, essas medidas são “muito válidas” e podem transformar-se em arma contra a ameaça de desindustrialização, desde que respeitados os limites da Organização Mundial do Comércio (OMC).

“O limite está dado pelas regras da OMC, e a nossa região ainda tem algum espaço [para medidas]“, diz a secretária-executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), Alicia Bárcena. “O outro ponto importante é se são temporárias ou permanentes. Na crise, algumas medidas temporárias foram tomadas e tiveram seu efeito, para depois serem retiradas aos poucos. A verdade é que a maioria dos países do G-20, com algumas exceções, está tomando providências para proteger seus mercados. Inclusive os países desenvolvidos”, frisa a representante do órgão das Nações Unidas.

Alicia estabelece uma diferença entre a política comercial brasileira e a argentina. “O que eu vejo no Brasil é um governo e uma presidenta muito atentos e muito cuidadosos com a economia, pensando em uma estratégia a longo prazo, e não apenas conjuntural. Gosto de ver um país que se preocupa, por exemplo, com a manutenção de sua indústria automotiva”, afirma a secretária da Cepal, em referência à recente revisão do tratado que dava isenção das tarifas de importação à troca de veículos entre Brasil e México, seu país de origem.

Já as providências tomadas pela Casa Rosada para sustentar o superávit comercial argentino não despertam nenhum entusiasmo. “Sabe o que acontece com a Argentina? Aqui [no Brasil], anunciam-se medidas temporárias e com regras claras. Isso é muito importante. Na Argentina, quando há mudança de licenças automáticas para licenças não automáticas, ou quando as empresas precisam apresentar um plano de importação para ver o que pode ser aprovado ou não, há um grau de discricionariedade. Essa é a grande fragilidade.”

A Cepal prevê crescimento de 3,7% para a economia latino-americana em 2012, mas avalia que o desempenho no primeiro trimestre pode ter transformado essa projeção em “piso”. Trata-se de um recuo na comparação com as taxas registradas no ano passado (4,3%) e em 2010 (5,9%), mas uma “boa notícia” diante das complicações nos Estados Unidos e na Europa, diz Alicia.

De acordo com ela, a desaceleração da economia chinesa ainda não teve impacto para a América Latina e as commodities metálicas tiveram alta de 15% desde o início do ano, com destaque para o cobre. Com isso, o movimento de apreciação cambial não deu trégua aos países da região e desafia a competitividade das exportações. “A maior concorrência dos importados ajuda certos setores, mas também desperta temores sobre a desindustrialização”, diz a secretária da Cepal.

Brasil, Chile, Colômbia, Venezuela, Guatemala e Honduras têm sofrido especialmente com a hipervalorização de suas moedas, segundo o órgão da ONU. O economista Antônio Prado, número 2 da Cepal, resume a preocupação: “Não existe país no mundo, em toda a história econômica, que tenha se desenvolvido com moeda supervalorizada”.

21/03/2012 - 09:26h ‘Indústria está sendo depenada’, afirma Delfim

21 de março de 2012

WLADIMIR DANDRADE – O Estado de S.Paulo

O ex-ministro Delfim Netto alertou ontem que o Brasil corre o risco de reduzir o tamanho do seu parque industrial por falta de capacidade de competir com os produtos industrializados importados.

“A indústria de transformação brasileira só cresceu 0,1% porque os empresários não compareceram ao trabalho”, afirmou o ex-ministro, ironicamente, para depois completar: “A indústria de transformação do Brasil está sendo depenada”.

As declarações do ex-ministro foram feitas após debate sobre possíveis mudanças na remuneração da caderneta de poupança, promovido ontem pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomércioSP).

Em sua palestra, Delfim Netto disse que o parque industrial brasileiro precisa ganhar competitividade a partir de reformas estruturais. A discussão, segundo ele, não se limita a discutir a redução da taxa de juros.

Um dos fatores importantes, segundo ele, é a alta carga tributária. O ex-ministro, no entanto, se mostrou cético quanto à redução expressiva dos impostos. “É um sonho da gente achar que o Brasil vai baixar sua carga tributária”, afirmou.

“A Constituição do Brasil tem um objetivo quase utópico: saúde e educação universais e gratuitas. Isso significa dar igualdade e oportunidade a todo cidadão e isso exige impostos mais altos.” A solução, disse Delfim, está no aumento da eficiência nos gastos públicos.

Poupança. O ex-ministro Delfim Netto defendeu a necessidade de mudança no rendimento das cadernetas de poupança para melhorar o ambiente econômico do País e permitir a continuidade da queda das taxas de juros. “A remuneração da poupança estipula um piso para a taxa básica de juros”, disse.

Para o economista, não mexer na poupança significa impor uma barreira ao avanço do País. “Não se trata apenas de redução da poupança, mas sim de um programa de política monetária, fiscal e cambial para reduzir as taxas de juros no Brasil”, afirmou Delfim.

Para ele, o desafio é convencer a sociedade de que a mudança na rentabilidade da caderneta de poupança é importante para a população. Para isso, disse ele, é necessário um mínimo de educação financeira. “A questão da poupança se tornou algo extremamente difícil de se por a mão”, afirmou, em referência ao custo político que envolve a questão.

Na prática, a redução da taxa básica de juros (Selic), fixada em 9,75% desde 7 de março, deve levar os fundos de investimento a reduzir suas taxas de administração para se ajustar à nova realidade de rendimentos mais baixos do que a poupança.

“A preocupação explícita pela redução do rendimento da poupança é dos fundos de investimento e de pensão”, disse. Para ele, a queda do juro não terá impacto significativo sobre o financiamento da dívida pública. Mesmo com rentabilidade menor dos títulos do Tesouro Nacional em relação à poupança, a dívida pública seguirá sendo o investimento de maior segurança.

13/03/2012 - 10:34h Desafio do Brasil é livrar-se da força do real, diz O’Neill

13 de março de 2012

O Estado de S.Paulo

“O maior desafio cíclico do Brasil é livrar-se da força do real.” O diagnóstico é do economista Jim O’Neill, do banco Goldman Sachs. Foi ele quem criou, em 2001, a sigla Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – passando a destacar o que considerou ser os principais países emergentes. A afirmação foi veiculada pela agência Bloomberg.

O’Neill calcula que a moeda brasileira precisa recuar 20% para ficar em um “nível sustentável”. Isso significa que o dólar deveria passar do atual R$ 1,80 para R$ 2,13.

O economista disse, ainda, que a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de reduzir a taxa básica de juros em 0,75 ponto porcentual, para 9,75% ao ano, foi “boa”.

As declarações de O’Neill vêm justamente no momento em que o governo voltou a acusar os países ricos de promover uma guerra cambial e ameaça usar suas munições para defender o real de uma apreciação forte.

Nos dois primeiros meses do ano, o real foi uma das moedas que mais subiram no mundo. Nas últimas semanas, o governo voltou a atuar para impedir que isso continue ocorrendo. De um lado, o Banco Central comprava dólares à vista e no mercado futuro; de outro, o Ministério da Fazenda mexeu no IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para desestimular a entrada de capital especulativo. / SILVIO GUEDES CRESPO

07/03/2012 - 08:38h Seu Beto, pedreiro, dobra renda mensal e tem fila de fregueses

Por Rodrigo Pedroso | VALOR

De São Paulo

SÃO PAULO – O crescimento modesto de 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2011 embute variações mais positivas em alguns setores. Para quem esteve diretamente ligado ao consumo e à construção civil – setores em que a atividade teve alta superior a 3,5% no ano passado -, não houve motivo para reclamar.

Há 15 anos sem trabalhar com carteira assinada, o pedreiro José Miranda Campos não viu nenhum sinal de desaceleração em 2011 em relação ao ano anterior. Autônomo por opção, dobrou a renda mensal nos últimos 12 meses por dois fatores principais: a forte demanda por seus serviços e o crescimento da procura de reformas mais elaboradas por parte dos clientes.

“Foi um ano ótimo. Se antes eu tirava uma média de R$ 2 mil por mês, no ano passado ganhei por volta de R$ 4 mil, às vezes até mais”, diz. Segundo ele, é mais rentável trabalhar por conta própria. “Se quisesse, poderia trabalhar para alguma construtora, não falta emprego nessa área. Mas ganharia R$ 1,5 mil e ainda teria patrão.”

A situação de Seu Beto, como Campos é mais conhecido, foi registrada pelo Índice Nacional da Construção Civil (INCC), da Fundação Getulio Vargas (FGV), em 2011. Puxado pelo aumento no custo da mão de obra e forte demanda no setor, o indicador fechou o ano com alta de 7,48%. No resultado do PIB divulgado pelo IBGE, a indústria da construção civil cresceu 3,6%.

A dificuldade em encontrar mão de obra, uma das maiores reclamações dos empresários do setor, também foi sentida pelo pedreiro, que trabalha geralmente com mais três ajudantes. “Eu pagava R$ 40 por dia para cada um, mas no ano passado tive que aumentar para R$ 70, por causa da concorrência”, afirma.

O ritmo menor de crescimento da economia também passou longe, ao que parece, dos clientes, que tiveram que pagar o aumento no serviço contratado. De um ano para o outro, o preço cobrado por Seu Beto para fazer uma reforma dobrou. Ainda assim, ele tem uma fila de espera de quatro obras para tocar, depois que acabar aquela em que está trabalhando no momento, na zona norte de São Paulo.

Não bastasse isso, conta que foi obrigado a dispensar mais dois orçamentos nos últimos meses. “Até terminar os serviços que estão na fila e começar mais essas reformas iria demorar muito. Antigamente, eu fazia um serviço e ficava esperando o telefone tocar. Hoje, estou com dificuldade até em achar gente para me ajudar. A maioria quer trabalhar por conta própria.”

A prosperidade alcançada durante o ano foi revertida em consumo, o que também aparece no quadro geral. O componente teve o segundo maior crescimento dentro do PIB, com aumento de 4,1% em relação a 2010. Geladeira, televisão, máquina de lavar, computador e celular para o filho adolescente, além de uma reforma na casa, foram as principais compras do pedreiro, que traça planos para este ano.

“Dei entrada em tudo e pago em prestações, mas o principal foi a reforma. Minha casa ficou uma belezinha. Agora vou ver se compro uma televisão de LCD para a sala e um carro”, diz Seu Beto.

A previsão do Banco Central para este ano é de crescimento da atividade econômica em 3,5%, uma perspectiva que já foi incorporada pelo pedreiro. “A tendência é aumentar a procura pelos meus serviços, o quanto ganho e o quanto cobro. E do jeito que começou este ano, isso deve acontecer.”

Para economistas consultados pelo Valor, existe um problema nessa dinâmica: o aumento do consumo não tem como contrapartida a alta da produção de bens industriais.

(Rodrigo Pedroso | Valor)



Mantega promete mais medidas para incentivar a retomada do crescimento


Guido Mantega:. “Não há nenhum risco de o real se desvalorizar, prejudicando as exportações brasileiras”


Por Edna Simão e João Villaverde | VALOR

De Brasília

Depois do fraco crescimento econômico de 2,7% registrado no ano passado, o governo promete adotar novas medidas de incentivo fiscal e cambiais para alavancar a indústria de transformação, que cresceu apenas 0,1% entre 2010 e 2011. O objetivo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, é cumprir a meta de 4,5% para o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, como deseja a presidente Dilma Rousseff.

Ele explicou ontem, em entrevista coletiva na sede do ministério, que mesmo fraco o desempenho do PIB em 2011 foi satisfatório, considerando a deterioração da economia internacional. Não fosse o agravamento da crise mundial, o avanço do PIB teria sido mais próximo a 4% do que dos 3%, avalia Mantega.

Segundo ele, a adoção de medidas de incentivos fiscais será necessária para estimular a indústria, que deu no ano passado a menor contribuição para o crescimento do PIB. Nos meses de novembro e dezembro, o ministro disse que já foi identificada uma ligeira retomada da economia, porém, uma aceleração maior se dará apenas no segundo semestre. Além dos estímulos, o governo aposta no fortalecimento dos investimentos públicos, represados em 2011, para reanimar a economia neste ano.

“Outras medidas não estão prontas para serem anunciadas, mas a tendência é que ao longo do ano nós vamos fazendo medidas que forem necessárias para estimular investimento e o setor industrial. O setor industrial como um todo precisa de alguns estímulos e eles serão dados”, destacou.

Além disso, o governo poderá ainda utilizar um “arsenal infinito” de medidas cambiais. “Não há nenhum risco de o real se desvalorizar, prejudicando as exportações brasileiras. Esse é um dos campos de sua atuação mais importante do governo. Vamos manter um real menos desvalorizado que é o que interessa para economia brasileira”, disse o ministro.

Sem mencionar as possíveis medidas, Mantega reforçou que não permitirá que haja um grande ingresso de capitais que vêm em busca de especulação e arbitragem – investidores que tomam crédito em um país de juro baixo para aplicar em outro que paga uma taxa mais elevada para ampliar a rentabilidade. “Nós vamos coibir essas operações. Vamos enfrentar esse excesso de liquidez e nós vamos manter o real desvalorizado com um arsenal de medidas que nós temos pela frente”, explicou.

O ministro contou, por exemplo, que pode ampliar a atuação do governo tanto no mercado futuro quanto no à vista. “Temos atuado nesses mercados e podemos ampliar nossa atuação em larga escala. Não há nenhum risco de o real se desvalorizar prejudicando as exportações brasileiras.”

A forte entrada de dólares no país, por conta das elevadas taxas de juros, e a solidez da economia, fazem com que o real se valorize com relação ao dólar prejudicando, principalmente, a indústria. Mantega afirmou que, no que diz respeito à política monetária, o país está na “direção correta”.

Desde agosto, o BC vem cortando a taxa básica de juros (Selic) para estimular a economia brasileira e a tendência é de que um novo corte – 0,5 ou 0,75 pontos percentuais – seja feito hoje na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Mas o ministro não quis especular sobre novos cortes. Disse, no entanto, que os preços no país estão comportados. “Se confirmada a desaceleração da economia internacional e da China, nós poderemos ter uma redução dos preços das commodities. O risco hoje não é tanto de inflação, mas de deflação dos preços de commodities. Do ponto de vista inflacionário não há maiores desafios. A inflação está sob controle e pode tender a cair mais no âmbito internacional”, ponderou o ministro, acrescentando que o aumento dos preços do petróleo afetam o país, porém em intensidade menor que em outras economias.

Sobre a possibilidade de mudança na rentabilidade da caderneta de poupança por conta da redução gradual da Selic no país, Mantega afirmou que, pelo menos por enquanto, não há motivos para isso. A queda dos juros faz com que as aplicações na caderneta se torne um investimento mais rentável que os fundos de renda fixa.

05/01/2012 - 10:27h A alta dos preços das commodities e o câmbio

05 de janeiro de 2012

O Estado de S.Paulo

O fluxo cambial ao longo do ano passado produziu um saldo confortável de US$ 65,279 bilhões, superior em 168% ao de 2010 e menor apenas do que o resultado de 2007, de US$ 87,4 bilhões.

No entanto, no ano passado houve uma grande mudança nos fatores que possibilitaram esse resultado cambial.

Antes é preciso lembrar que os dados do fluxo cambial são diferentes, no que toca às operações, dos que aparecem na balança comercial, pelo fato de que tanto as exportações quanto as importações podem ser financiadas. O saldo do fluxo representa, pois, a entrada ou a saída efetiva de divisas no País.

As receitas de exportações comerciais ou de serviços chegaram a US$ 251,185 bilhões em 2011. Trata-se do melhor resultado registrado desde que se dispõe dessas estatísticas, ou seja, desde o ano 2000, impulsionado pela alta de preço das commodities gerada pela forte demanda da China, tanto de minério quanto de produtos agrícolas.

Não foi divulgado ainda o montante das operações de Adiantamentos de Contratos de Câmbio (ACC) para pagamento dessas exportações, mas, com os dados até outubro, vê-se que aumentaram 46,1% em relação ao mesmo período de 2010, representando 21,2% do total exportado, e lembrando que, com a crise nos países ricos, o Brasil também encontrou dificuldades para financiar suas exportações.

As importações consumiram um fluxo cambial de US$ 207,236 bilhões, um recorde que também revela, em grande parte, o recuo da indústria nacional em atender ao mercado interno, seja por atraso tecnológico, seja por preço muito superior ao dos importados.

O movimento nos dois sentidos deixou um saldo comercial de US$ 43,9 bilhões, apesar do crescimento das importações.

A conta financeira foi menos positiva, em razão das dificuldades do mercado internacional.

As entradas de recursos somaram no ano passado US$ 393,997 bilhões, com aumento de 4,4%, incluindo a compra de ações e títulos de renda fixa, mas as saídas cresceram mais, 5,7%, e o saldo ficou 18% menor do que em 2010.

Convém notar, no entanto, que o quadro foi muito mais confortável do que no período de 2001 até 20o8, quando os resultados eram negativos. O Brasil tem, atualmente, uma relação muito melhor com o mercado internacional do que naquele período, graças ao panorama mais saudável das suas finanças públicas.

05/01/2012 - 09:07h Brasil vai ter um ano bom

05 de janeiro de 2012

ALBERTO TAMER – O Estado de S.Paulo

Primeiros dias com certa calmaria no cenário internacional em um início de ano que será difícil. Há menos tensão depois de o Banco Central Europeu oferecer, no dia 21 de dezembro, 489 bilhões a juros reais negativos por três anos, fato inédito, pensando que os bancos iriam usá-los nas linhas de crédito. Não foi isso que aconteceu. Eles aceitaram o empréstimo e depositaram quase tudo nas suas contas (uma espécie do nosso compulsório) no próprio BCE, mesmo pagando juro maior. Até a noite de terça-feira, haviam recolhido ao BCE 446 bilhões dos 489 bilhões recebidos. Estão lá, prontos para serem usados quando a incerteza passar. Nem empresas nem consumidores estão dispostos a se endividar enquanto nada se definir. E essa definição, mais recursos para o fundo europeu socorrer os países em dificuldade, se choca frontalmente com a política meio suicida dos governos, Paul Krugman afirma, de atacar a dívida soberana aplicando um severo plano de austeridade fiscal. Uma política que levou à recessão atual e vai prolongá-la por mais dois trimestres.

Para os europeus, Keynes, que defendia a ação dos governos num momento de crise, está morto. Só que eles podem morrer antes de chegar na praia. Só a Alemanha se anima por enquanto, mas porque continua exportando para os países da zona do euro e para a China.

Eles viram. Mas ninguém viu isso? Todo mundo viu. Christine Lagarde se cansou de alertar. Na mensagem de fim de ano não poderia ter sido mais pessimista. A situação é grave e exige ação. Até Angela Merkel admitiu em sua mensagem de fim de ano que “2012 será sem dúvida pior que 2011″. Nicolas Sarkozy não vai tão longe, afinal tem eleição pela frente e quer se reeleger, mas concorda que a situação está cada vez mais difícil.

O teste de janeiro. De acordo com levantamento da agência Bloomberg, os países da zona do euro têm de rolar títulos no valor de 215 bilhões – há outras estimativas, mas os valores giram em torno disso. Vai ser difícil. O primeiro teste vem hoje, quando a França vai propor ao mercado renovar 8 bilhões; o segundo, no dia 12, com a Espanha precisando rolar 3 bilhões. E tem Grécia, Itália. Ao todo, mais de 1 trilhão.

Os analistas do mercado não veem outra saída a não ser o BCE comprando títulos dos países endividados e não se limitando apenas a dar liquidez ao sistema. Mas nada se resolverá enquanto, ao mesmo tempo, a economia não voltar a crescer estabelecendo a confiança que empresas e consumidores perderam nos governos e nas instituições.

Brasil até aproveita. O Brasil navega bem nesse mar em que os investidores buscam porto seguro. Saem do euro, correm para nós, onde há apenas pequenas marolas e céu azul. Os dólares e os euros continuaram entrando em dezembro e neste início de ano. Na terça-feira, o Tesouro captou mais US$ 750 milhões para vencer em 2021(!), pagando a menor taxa de juros da história. Houve mais procura do que oferta e ele pode voltar ao mercado. Para grande surpresa do governo, a demanda por papéis do Tesouro chegou a US$ 3,6 bilhões.

Superávit mais superávit. De acordo com dados do Banco Central, o Brasil encerrou o ano com um saldo cambial de US$ 65,2 bilhões. Um aumento de nada menos que 168% sobre o ano passado. Foi o melhor ano desde 2007. E isso apesar da saída de dólares nos últimos meses por empresas internacionais que foram socorrer as sedes. Houve superávit financeiro, comercial e entrada recorde de investimentos diretos com empresas atraídas pela expansão do mercado interno.

Chega. A coluna não vai cansar o leitor com mais números. Estão todos aí, muito bem mostrados, com detalhes, no Estado. O Brasil não está sentindo falta de investimentos externos. Os dólares entram via captação, mercado financeiro, investimentos em produção. O ano passou, outro se inicia e tudo indica que para nós, vai continuar assim porque o governo, a presidente, o BC e a equipe econômica reafirmam que vão continuar e até intensificar a política que deu certo. Há razão, leitores, para confiar.

14/11/2011 - 13:01h Câmbio tira R$ 6,6 bilhões do resultado da Petrobras

Por Juliana Ennes e Marta Nogueira | VALOR

Do Rio

A valorização de 18,8% do dólar frente ao real foi responsável por uma redução de R$ 6,58 bilhões no lucro da Petrobras do terceiro o trimestre. Esse foi o valor registrado na conta “variações monetárias e cambiais líquidas” da demonstração de resultados da estatal, divulgadas na sexta-feira. No mesmo período do ano passado, a rubrica estava zerada.

O impacto anulou o aumento de 17% nas vendas, que chegaram a R$ 64,18 bilhões. O lucro líquido caiu 26%, para R$ 6,34 bilhões, na comparação com o mesmo período ano passado.

“O efeito câmbio é o grande responsável pelo resultado do terceiro trimestre”, disse Almir Barbassa, diretor financeiro e de relações com investidores.

Foi o pior resultado num terceiro trimestre desde 2007, sem corrigir a inflação (2002, com a base ajustada), mas com a ressalva de que as normas contábeis mudaram no período, prejudicando a comparação.

O efeito é resultado da exposição de passivos, como dívidas, à variação cambial. A companhia tem cerca de R$ 50 bilhões – de uma dívida bruta total de R$ 146,84 bilhões – “expostos”. A empresa tem 70% da dívida atrelada ao câmbio, mas nem toda ela está exposta à variação cambial, já que a Petrobras tem subsidiárias no exterior, o compensa em parte esse efeito.

Barbassa disse que a dívida tem prazo médio de pagamento de sete anos. “A variação cambial só tem efeito real na hora de pagar, não importam as variações ao longo do tempo.”

A empresa não pretende modificar a postura em relação à exposição cambial, porque a Petrobras já teria um “hedge” (proteção) natural no longo prazo, devido à política de preços de acompanhamento internacional. “Sofro no curto prazo os efeito de flutuações, mas é um efeito gangorra, que não justifica os custos de se fazer um ‘hedge’ em cima dele”, disse.

“É um efeito contábil, que não afeta caixa. Isso é muito importante para uma empresa como a Petrobras, que está investindo pesadamente.”

A empresa fechou o terceiro trimestre com R$ 33,66 bilhões no caixa, um acréscimo de R$ 3,33 bilhões (11%) em relação à posição de dezembro de 2010. A maior parte está em aplicações financeiras, que totalizaram R$ 29,99 bilhões, comparadas a R$ 26,89 no fim do ano. Desse total, R$ 15,18 bilhões (R$ 12,80 bilhões em dezembro) estavam em fundos DI.

A Petrobras pretende investir em apenas três meses metade de tudo que investiu ao longo do ano. No acumulado dos nove meses, a companhia desembolsou R$ 50,83 bilhões, uma queda de 10% em relação ao que foi investido no mesmo período do ano passado, de R$ 56,50 bilhões.

No entanto, Barbassa, afirmou que a empresa pretende alcançar em 2011 os R$ 75 bilhões estimados de investimento anual, de acordo com o plano de negócios.

Os investimentos na área de exploração e produção ficaram estáveis, em R$ 24,18 bilhões. A área de abastecimento foi retraída, passando de R$ 20,58 bilhões para R$ 18,70 bilhões, assim como a de gás e energia, de R$ 3,65 bilhões para R$ 2,75 bilhões.

A produção total da Petrobras cresceu 1% no terceiro trimestre de 2011, em relação ao mesmo período do ano passado. A produção foi em parte prejudicada por paradas não programadas solicitadas por agentes reguladores no mercado. “Quando temos paradas fora do tempo, tem um custo extra”, diz. (Colaborou Nelson Niero, de São Paulo)

13/10/2011 - 09:04h Brics rejeitam reduzir acumulação de reservas

Por Assis Moreira | VALOR

De Paris

Brasil, China e África do Sul, que integram o grupo denominado Brics, e mais a Argentina rejeitam nova ofensiva de países desenvolvidos para que reduzam o ritmo de acumulação de reservas internacionais, ainda mais no cenário atual de crescente volatilidade.

Uma proposta no G-20 visa países com reservas “claramente acima de níveis de precaução”, ou seja, acima do considerado necessário. O foco é essencialmente a China, com seus US$ 3,2 trilhões de reservas internacionais.

Somente os Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – têm mais de US$ 4 trilhões de reservas internacionais. Certos analistas acham que a China vai acumular mais US$ 600 bilhões somente no ano que vem.

Para se proteger contra capitais de fluxos voláteis ou como resultado de estratégia de crescimento baseada em exportações, o que normalmente inclui políticas cambiais, vários emergentes têm acumulado enormes volumes de reservas internacionais.

Robustas reservas em várias economias, incluindo o Brasil, têm sido consideradas essenciais para ajudar esses países a atravessar crises globais. A acumulação de reservas serve como um colchão contra choques externos.

Mas críticos notam também que isso vem com custos para os países e que a acumulação de reservas, se excessiva, pode trazer um ônus para o sistema monetário internacional, com má alocação de recursos.

O confronto continua dentro do G-20. Para vários emergentes, o máximo que o grupo deve propor é que o Fundo Monetário Internacional (FMI) continue a trabalhar no desenvolvimento de medida para avaliar o volume de reservas adequadas que abranja melhor as circunstâncias de cada país.

Diante da crescente volatilidade nos mercados financeiros e da maior aversão ao risco, os emergentes enfrentam pressões no seu balanço de pagamentos. Seja por meio da fuga de capital, do menor ganho com exportações, entre outros. Na visão de vários países, o uso de uma forma de medição que inclua várias fontes de riscos pode ser útil nesse contexto.

Na avaliação de países como o Brasil, a análise de reservas adequadas mais diretamente vinculadas a fundamentos (como políticas cambial e monetária) deveria encorajar o setor privado, incluindo agências de classificação de risco, a usar a mesma medida.

21/09/2011 - 08:59h Uma nova política econômica

Por Cristiano Romero – VALOR

O governo Dilma Rousseff opera, sem fazer alarde, mudanças no tripé de política econômica que vigora no Brasil desde 1999. Dois aspectos do tripé – o regime de metas para inflação e o câmbio flutuante – estão sendo flexibilizados. O terceiro pilar, a política fiscal, não mudou muito, mas o cumprimento da meta de superávit primário em 2012 e nos anos seguintes ainda é uma promessa.

Desde meados do ano passado, o Banco Central (BC) não consegue coordenar as expectativas de inflação dos agentes econômicos. Esses perceberam que a economia estava crescendo acima do potencial e gerando pressão inflacionária, agravada pelo aumento dos preços das commodities no mercado internacional. O BC, por razões político-eleitorais, adotou o discurso monocórdico de que a inflação, em algum momento, cederia. Não cedeu.

Em 2010, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 7,5% e a inflação foi a 5,9%. Uma olhadela na série histórica recente de PIB e IPCA confirma um fato inegável: toda vez que o primeiro cresce acima de um determinado patamar, o segundo fica acima da meta inflacionária. Os números mostram que, quando a economia avança num ritmo superior a 4% ou 4,5% ao ano, o IPCA supera a meta oficial (de 4,5%).

Metas e câmbio flutuante estão sendo flexibilizados

Há de se considerar ainda que a inflação brasileira exibe uma persistência que desafia os teóricos. Mesmo em ano de recessão, como foi o de 2009 (PIB negativo de 0,64%), o IPCA se revelou saliente – 4,31%.

No regime de metas, quando as expectativas apontam inflação acima do alvo oficial, a autoridade monetária não consegue efetivamente levar o IPCA para o alvo. No início deste ano, as expectativas voltaram a piorar, o Banco Central elevou a taxa de juros, adotou medidas de contenção do crédito, mas optou por não derrubar o crescimento da economia a um nível que lhe permitisse conter a inflação. Ao agir dessa forma, assim como já havia feito em 2010, adiou para o ano seguinte a busca da meta.

No movimento mais recente, o BC inovou. Mesmo com a deterioração das expectativas, reduziu a taxa de juros, baseado na aposta de que a confusão lá fora atingirá o Brasil a ponto de cumprir o papel – de desaquecer a economia -, antes reservado à taxa de juros. As expectativas voltaram a piorar e, agora, apontam para o não cumprimento da meta, não apenas em 2011 e 2012, mas também em 2013, 2014 e 2015.

Dados do BC mostram que, na média, os agentes econômicos esperam inflação de 5,51% em 2012, 5,02% em 2013, 4,85% em 2014 e 4,73% em 2015. Quando se considera a mediana, os resultados melhoram um pouco, mas ainda são preocupantes – respectivamente, 5,50%, 4,80%, 4,50% e 4,50%. Se o cenário externo devastador não se confirmar, não demorará muito e o BC virá a público sinalizar que a perseguição à meta ficou para 2013.

Há uma novidade desagradável no momento atual do regime de metas. Pela primeira vez, desde 1999, o BC não se compromete com uma política efetiva de busca da meta de inflação. Isso pode ser dito de outra forma: pela primeira vez, os agentes não estão acreditando que o BC vá conseguir derrubar o IPCA.

Nos quase 12 anos do regime, o país enfrentou cinco momentos de pressão inflacionária. Em 1999, por causa da maxidesvalorização do real; em 2001, pelo inesperado apagão de energia; em 2002/2003, pela crise de confiança que se abateu sobre o Brasil; em 2008 e 2010/2011, pela aceleração do crescimento.

Em todos esses momentos, com exceção de 2010, o BC adotou política que convenceu os agentes que a inflação cairia nos meses e anos seguintes. Em apenas uma oportunidade, recorreu à prerrogativa de adoção da meta ajustada, mais alta que a original para os anos de 2003 e 2004. Não há mal algum no recurso a esse instrumento. Na prática, ele ajuda a suavizar os movimentos de juros em direção à meta e, o melhor, permite que o BC fique em sintonia com as expectativas.

O regime de câmbio flutuante também foi atenuado. Preocupado com o forte fluxo de capitais que ingressa no país, o governo adotou inúmeras medidas para taxar a entrada de “hot money” (recursos de curto prazo). Por causa dessas intervenções, o câmbio parou de flutuar – agora, sofre desvalorização mais acentuada que a de outras moedas, em grande medida por causa do aumento da aversão dos investidores a risco, mas também motivada pela surpresa da política monetária.

Na área fiscal, o governo ainda não disse como vai cumprir a meta cheia de superávit (3,1% do PIB) no próximo ano. Sinais contraditórios emitidos recentemente, como a decisão de contratar quase 55 mil funcionários públicos em 2012, tornam nebuloso o cenário fiscal, apontado pelo próprio governo como suporte fundamental para que o BC reduza a taxa de juros.

Especula-se nas ruas que Brasília caminha para a adoção de um modelo econômico mais parecido com o da Turquia ou o da Argentina, dois países que apresentam taxas elevadas de crescimento e inflação. Talvez, seja cedo para fazer essa afirmação, mas é certo que a política dos últimos anos mudou.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail cristiano.romero@valor.com.br

08/09/2011 - 08:35h A Suíça vai à guerra

08 de setembro de 2011

Celso Ming – O Estado de S.Paulo

O Banco Nacional da Suíça (banco central) vai agora enfrentar o poderio de fogo de um mercado global de moeda que movimenta, por dia, nada menos que US$ 4 trilhões.

As autoridades suíças não mostram complexo de inferioridade. Avisaram que estão em condições de comprar volumes ilimitados de moeda estrangeira que se meta a testar sua disposição de manter uma situação inegavelmente artificial.

Antes de continuar, vamos aos fatos. A pequenina Suíça vinha sendo uma das maiores vítimas daquilo que, em setembro do ano passado, o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, denunciara como guerra cambial. Os bancos centrais das duas maiores moedas do mundo, o dólar e o euro, estão empenhados em derrubar o valor de suas moedas para garantir mais exportações e aumento do emprego. Além de manter os juros a níveis próximos de zero por cento – os mais baixos da história -, vêm emitindo moeda com objetivo de recomprar títulos emitidos pelos tesouros nacionais. A sobra enorme de recursos vai sendo empurrada para cima de três economias: Japão, Suíça e Brasil, seguindo motivações distintas. O iene japonês e o franco suíço estão sendo procurados como porto seguro (reserva de valor), na condição de defesa contra a desvalorização das outras moedas fortes. O real do Brasil está sendo procurado como fonte de renda, na medida em que os juros por aqui seguem entre os mais altos do mundo.

Somente neste ano, o franco suíço se valorizou 17% diante do euro. A principal consequência foi o encarecimento (nas outras moedas) de todo produto ou serviço produzido na Suíça. Com isso, a indústria, a rede de hotelaria e os bancos vinham sangrando nos seus resultados.

A decisão tomada terça-feira foi colocar o piso de 1,20 franco suíço por euro na troca de moedas no seu câmbio. O novo compromisso prático do banco central suíço é comprar toda a moeda estrangeira cuja oferta no câmbio suíço provoque cotação mais baixa do que essa aí, de 1,20 franco por euro.

Na prática, o Banco Nacional da Suíça estará emitindo francos para enfrentar a farta entrada de capitais em seu mercado de câmbio. As compras de moeda estrangeira implicam crescimento das reservas que hoje são de US$ 151,2 bilhões.

Em situações normais, a defesa de um câmbio fixo por um banco central é quase sempre batalha perdida a longo prazo. Em 1992, por exemplo, um único grande especulador global, o húngaro George Soros, investiu US$ 10 bilhões na desvalorização da libra esterlina e levou o Banco da Inglaterra (banco central) à capitulação.

Aparentemente, as autoridades monetárias da Suíça estão levando em conta que os francos suíços comprados pelo resto do mundo não ficarão circulando no mercado, mas permanecerão entesourados, na medida em que são procurados como reserva de valor. Por isso, apostam em que não produzirão inflação.

Duas consequências imediatas parecem inevitáveis: (1) se a operação suíça for bem-sucedida, é provável que o Japão e os países nórdicos também tentem fixar o valor de suas moedas; e (2) se Suíça, Japão e outros países forem bem-sucedidos nesse regime de câmbio fixo, mais moeda estrangeira tomará o rumo do Brasil.

CONFIRA

A Suíça tem apenas 4% da população brasileira, 25% do PIB e exporta também menos que o Brasil. Mas tem uma moeda forte: o franco.

Vai explicar?
Sai hoje a Ata do Copom. Do Banco Central se espera, agora, que explique a nova estocada da inflação e os novos movimentos de sua política. A dúvida é se a atual direção dá valor ao gerenciamento das expectativas. O caráter surpreendente das últimas decisões pode estar dizendo o contrário.

Está tudo lá
Em todo o caso, ontem, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, avisou que “está tudo na Ata”.

22/08/2011 - 09:12h Entre emergentes, primeiros sinais de combate à desvalorização cambial

Por Erin McCarthy – VALOR

Num momento em que os mercados mundiais assistem à venda em massa de ativos, um pequeno grupo de países emergentes interveio nos mercados cambiais para evitar quedas mais significativas de suas moedas. A medida ocorre em frontal contraste em relação a outros países que ainda combatem a maciça valorização de suas taxas de câmbio.

Nas últimas semanas, a Turquia e a Indonésia tomaram ou advertiram que iriam tomar medidas para coibir as quedas de suas moedas, depois que preocupações relativas ao crescimento mundial levaram as ações a se desvalorizarem no mundo inteiro e os investidores a fugir dos mercados emergentes.

No início do mês, as autoridades da Coreia do Sul disseram que intensificariam o monitoramento dos mercados financeiros locais, inclusive as condições do mercado de câmbio, em meio ao aumento da volatilidade. O banco central do país, além disso, enfrentou suspeitas de ter tomado o rumo contrário em relação a suas intervenções de compra de dólares, e de vender dólares para sustentar sua moeda em meio à queda vertical registrada pela bolsa local na semana passada.

As medidas tomadas por esses países para estabilizar suas moedas ainda são relativamente modestas, mas ocorrem num momento em que outros países vistos como refúgios seguros – como Suíça e Japão – tomaram providências enérgicas para reverter a valorização de suas moedas. Elas também chamam a atenção para uma reversão das pressões enfrentadas pelos países emergentes e para o grau de insegurança do caminho atualmente trilhado pelos bancos centrais, na tentativa de administrar as agudas quedas e as drásticas oscilações de suas moedas, que tinham se recuperado anteriormente mais do que a maioria desejava.

Para os investidores, um possível resultado é os países emergentes não precisarem mobilizar tantos controles da moeda caso os fluxos de investimentos adquiram um ritmo mais moderado em relação à disparada anterior, diante da possibilidade de uma desaceleração da economia mundial. “A maioria dos mercados emergentes ainda precisa de recursos externos, e, se sentirem algo parecido como uma repentina retirada daquele paredão de dinheiro, poderão relaxar seus controles”, disse Sara Zervos, gestora-sênior de carteira de investimentos do Oppenheimer Funds.

Tanto a Turquia quanto a Coreia do Sul adotaram, há alguns meses, medidas orquestradas para impedir a alta do valor da lira e do won, uma vez que as taxas de juros superbaixas do mundo desenvolvido e o pacote de reforço à liquidez dos EUA contribuíram para inundar os mercados emergentes com capital externo. Ao mesmo tempo em que esses países ainda não querem que suas moedas se fortaleçam demais, eles também relutam em permitir que elas sofram uma depreciação aguda demais ou que resulte num nível que estanque totalmente os fluxos de investimentos externos de longo prazo.

A aversão ao risco dos mercados voláteis fez, recentemente, com que os investidores se afastassem das moedas dos mercados emergentes e retornassem aos refúgios percebidos como seguros. Esta semana o Banco Nacional Suíço injetou liquidez no mercado pela terceira vez, na tentativa de coibir a inexorável valorização do porto seguro representado pelo franco suíço, e o Bank of Japan, o BC do país, interveio para deter os avanços do iene em relação ao dólar cerca de duas semanas atrás.

A tentativa da Turquia de administrar sua moeda foi especialmente drástica, e aparentemente levou as autoridades a agir em ambas as direções. O BC da Turquia reduziu as taxas de juros e comprou dólares no início deste ano a fim de desvalorizar sua moeda. Mas a instituição mudou sutilmente sua política nas últimas semanas, depois que os investidores se distanciaram da moeda, temerosos quanto aos efeitos do pacote pouco ortodoxo do BC. “Parte do plano era enfraquecer a lira, mas eles perderam o controle sobre ele”, disse Ilan Solot, estrategista de câmbio da Brown Brothers Harriman. O BC cancelou os leilões de compra de dólares e começou, em vez disso, a promover leilões de venda de dólares para evitar uma queda excessiva da lira, enquanto o presidente do banco central disse que a instituição estava preparada para impulsionar os leilões de dólares a fim de restringir novos impulsos de depreciação.

Em relação ao dólar, a lira turca caiu mais de 15% até esta altura do ano, e o won recuou cerca de 3% este mês, embora ainda mantenha a valorização no acumulado deste ano.

No entanto, os analistas dizem que qualquer empenho dos BCs dos mercados emergentes para combater as variações cambiais tendem a ser de curto prazo e insuficiente para reverter as tendências de longo prazo dos investimentos, que, de modo geral, ainda favorecem a força dos mercados emergentes devido à solidez de seu crescimento econômico, embora um desaquecimento do crescimento mundial possa reverter significativamente essa tendência. Alguns BCs asiáticos tentaram também executar um número de equilibrismo, embora numa escala menor. O BC da Indonésia disse na semana passada que recomprará bônus do governo denominados em rúpias dos investidores se recebesse contatos nesse sentido, acrescentando que venderá dólares e empregará os rendimentos em rúpias para custear as recompras. As corretoras também suspeitam que o BC tenha intervindo diretamente no mercado, com venda de dólares, no início deste mês. O país é conhecido por tomar medidas destinadas a estabilizar sua moeda no caso de grandes oscilações em qualquer direção da divisa, ao mesmo tempo em que se mostraria muito mais tolerante com a valorização de sua moeda do que seus congêneres dos mercados emergentes.

05/08/2011 - 08:48h Mundo pode estar numa “corrida para o fundo”

Claudia Safatle – VALOR

05/08/2011

O mundo pode estar caminhando para uma “espiral negativa”. Um círculo vicioso onde a austeridade fiscal traria mais desemprego, menos consumo privado, queda da arrecadação de impostos, recessão.

O acordo do governo dos Estados Unidos com o Congresso para aumentar o teto da dívida pública pacificou temores imediatos, mas criou a percepção de que a política fiscal restritiva decorrente do acordo pode desacelerar em mais 0,5 ponto percentual o já baixo crescimento da economia americana esperado para 2012 e agravar o já elevado nível de desemprego.

A isso se agrega a crise de confiança que se esparrama pela Europa e que ameaça se tornar uma crise financeira, com danos para o sistema bancário da Zona do Euro, carregado de títulos dos governos, o que acentua o risco de estagnação ou mesmo de uma recessão global.

Foi com base nesse quadro dramático que o governo brasileiro tomou medidas duras para o mercado de derivativos cambiais na semana passada e anunciou, nesta semana, um programa de incentivos fiscais para garantir alguma competitividade à indústria.


Medidas são para proteger o país, diz Barbosa


“Situação extraordinária requer medidas extraordinárias”, comentou o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Ele foi um dos artífices da MP 539 que, no dia 27, deu um duro golpe no mercado de derivativos. A MP instituiu o IOF de 1% sobre as variações das posições vendidas em câmbio dos bancos, empresas e fundos e paralisou o mercado, comprometendo inclusive as operações de hedge cambial.

Barbosa também esteve no centro da concepção do programa Brasil Maior, que pretendeu assegurar condições mínimas de competitividade da indústria no mercado mundial, onde ele prevê que a concorrência ficará mais acirrada. “Não se trata de uma volta aos anos 70″, disse. A crise internacional está gerando um grau elevado de desconfiança e o Brasil, dos Bric, é o país mais aberto para receber fluxos de capitais externos e apreciar ainda mais a taxa de câmbio. “Com essas medidas queremos proteger nossa demanda”, disse o secretário.

Com os olhos na tela do celular que estampava as quedas nas bolsas de valores, ontem, pelo mundo e aqui, ele avaliou: “Está se consolidando, hoje, o risco de uma desaceleração ou, até, de uma recessão americana. E há uma grande incerteza financeira na Europa.” Assinalou que comungava dos mesmos temores que têm sido apontados pelo economista Paul Krugman, de uma volta prematura da contração fiscal, tal como ocorreu em 1937, abortar a recuperação econômica nos Estados Unidos (que levou o país à depressão até a Segunda Guerra). Resultado de uma polarização das forças políticas do país que deixou o mundo em estado de perplexidade.

“É o mito da contração fiscal expansionista”, citou Barbosa, referindo-se à crença de que uma política de corte do gasto público gera um ambiente de grande confiança, capaz de animar o gasto e o investimento privado e de reativar as forças da economia. “Nem a ‘The Economist’ acredita mais nisso”, disse, reportando-se à edição da revista britânica do dia 14 de julho, que trouxe um texto intitulado ” A história mostra que austeridade e crescimento não andam juntos”.

Os EUA, que demandariam mais estímulos fiscais, vão ter que cortar gastos. A Europa, que tem um grave problema de demanda, quer resolver a crise pelo lado da oferta. “Estão indo para uma linha onde não há o agente do crescimento”, comentou o secretário.

Liquidez elevada e juros muito baixos devem perdurar no mundo ainda por um bom tempo, pelo menos por todo o próximo ano, estimulando operações altamente alavancadas em derivativos e em commodities, explicou. Isso motivou as medidas cambiais.

“O governo sentou à mesa de operação e quer saber o que os investidores estão fazendo. Não há nada proibido. Apenas queremos saber”, disse Barbosa. Ainda estão frescos na memória do governo os efeitos colaterais da crise de 2008, que derrubaram empresas altamente alavancadas em derivativos que apostavam na apreciação do real. “Queremos dar ao Conselho Monetário Nacional uma visão sistêmica dos movimentos individuais nesse mercado.” Ele reconhece que o mercado de derivativos tem importantes funções, dentre elas a de proteger os exportadores do risco cambial, mas acredita que ele gera, também, “externalidades negativas” que o governo quer evitar.

As conversas dos dirigentes da BM&FBovespa, Febraban e Cetip com o Ministério da Fazenda, para dar aplicabilidade à medida, prosseguem. O secretário admitiu desde o primeiro dia que poderão ser feitas as adequações necessárias à implementação da MP, mas nega mudanças no mérito da decisão. “Na primeira reunião eles nos pediram 60 dias de prazo. Demos o prazo, estamos avaliando e não há qualquer medida iminente.”

Sobre o risco de uma migração desse mercado para fora do país, Barbosa comentou: “Pode ocorrer de uma parcela do mercado, mas não de todo ele.” Ainda que haja a possibilidade de uma fatia importante dessas operações migrar, ele foi claro: “Esse é um risco que estamos dispostos a correr para não ter que perder empregos aqui e perder, também, setores industriais inteiros por conta de uma apreciação temporária do câmbio – por excesso de alavancagem – mas longa o suficiente para produzir efeitos permanentes na economia.”

Diante de tantos perigos, o governo reafirma que a economia está preparada para enfrentar mais essa crise, mas sabe que ninguém passa incólume por ela. Ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, lembrou que o arsenal de medidas tomadas na avalanche de 2008 está à disposição para ser resgatado caso seja preciso.

Claudia Safatle é diretora de redação adjunta e escreve às sextas-feiras

E-mail claudia.safatle@valor.com.br

24/07/2011 - 08:42h ”Mercado interno dá segurança ao Brasil”


Para secretário de Política Econômica, consumo e investimentos deixam País preparado para risco de piora internacional

24 de julho de 2011

Fernando Dantas – O Estado de S.Paulo

Entrevista – Márcio Holland, secretário de Política Econômica

O Brasil está pronto para lidar com um eventual agravamento da situação econômica internacional, garante Márcio Holland, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Ele diz que o Brasil está bem preparado para crescer a partir do mercado doméstico, não só de consumo, mas também de investimento, com diversos empreendimentos, em diferentes setores “esparramados” pelo País. Confiante de que a taxa de investimentos sairá dos atuais 19% do PIB para 23% em 2015, Holland nota que o governo tem políticas para expandir o investimento público, estimular o privado e alongar o mercado de financiamento privado. A seguir, a entrevista:

Como o sr. vê o agravamento do quadro internacional?

O quadro pós grande crise financeira é o previsto nos chamados modelos de crises financeiras centrais. Não me surpreende a fragilidade de recuperação das economias centrais, dada a gravidade da crise.

Mas o risco de não elevação do teto do endividamento americano não é uma grande ameaça?

A nossa visão sobre esse problema é a que não dá para visualizar um cenário em que o Congresso não aprove o deslocamento do teto. A probabilidade de uma suspensão de pagamentos pelos Estados Unidos tende a zero, e alguém até disse que nem deveria existir essa probabilidade, considerando que o dólar é a moeda central e reserva de valor, e os EUA são a principal economia do mundo.

E qual a sua opinião sobre a crise na Europa?

Estou mais preocupado com a Europa do que com os Estados Unidos. Na Europa, há uma combinação de fatores complicados: estado de bem-estar que está sendo removido, sistema previdenciário extremamente generoso sendo colocado em dúvida, população envelhecida. Com países como a Grécia, que deve estar a caminho de um default (suspensão de pagamentos), é mais complexo, pois se trata de uma área monetária. Os países têm limites para fazer política fiscal, perderam a política monetária local e não têm política cambial, o que os Estados Unidos têm. A margem para sair da situação é menor.

O Brasil está preparado para lidar com uma conjuntura internacional pior?

O Brasil sobreviveu muito bem ao olho do furacão da crise financeira internacional em 2008. De lá para cá, o País descobriu uma capacidade de crescer pelo mercado doméstico e, eu vou enfatizar, não é só mercado de consumo de massa, é mercado de investimento produtivo. Isso sustenta muito a capacidade de o Brasil continuar crescendo e gerar emprego no futuro próximo até essa equação internacional se resolver. Hoje nós temos um mercado doméstico para investimento e para consumo muito amplo, muito diversificado e muito esparramado pelo País. Tem projetos de energia, desde os hidrelétricos até os de petróleo, projetos de investimento em construção civil, de bens de capital, entre outros, esparramados por todo o Brasil, e isso deve dar um fôlego muito grande para a economia brasileira se sair muito bem nessa travessia.

Os investimentos no Brasil ainda não são muito baixos?

Hoje a taxa de investimento está em 19% do PIB e nossa projeção é chegar a 23,2% em 2015. Não só acreditamos nisso, como o governo está fazendo um conjunto de esforços para que isso aconteça, com foco na expansão das taxas de investimento público, no estímulo ao investimento privado e ao mercado de crédito privado de longo prazo, e políticas de competitividade. Em 2005, o governo colocou em pauta, com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), uma agenda de crescimento e começamos a deslocar a taxa de crescimento do Brasil de 2,5%, de 1990 a 2002, para 3,5%, no primeiro ano do governo Lula, e 4,5% no segundo. O Brasil aumentou a formalização do mercado de trabalho, criou 15 milhões de novos empregos. Gosto de usar a expressão do Delfim Neto, de que isso é um movimento civilizatório.

O sr. poderia detalhar as medidas de estímulo ao investimento?

Não vou fazer comentários sobre o que não foi divulgado. Do que já saiu, há, por exemplo, a medida provisória 517, que dá incentivo à expansão do mercado de debêntures no Brasil. Tem as Letras Financeiras, que estão se desenvolvendo muito bem. E há um conjunto de medidas para incentivar o mercado privado de longo prazo. O Brasil se saiu muito bem, gerando excepcional mercado de crédito para consumo. E tem a capacidade de fazer o mesmo para o investimento.

E a inflação, preocupa?

Há o preço de commodities, uma pressão mundial, mas, na verdade, a inflação global tem várias causas. Uma delas, inclusive, é o que chamo de efeito China reverso. Nos anos 90, a inflação caiu muito no mundo, em parte por conta do efeito positivo vindo da China. A China se tornava a principal fábrica do mundo com mão de obra muito barata. Em 2011, a China é a fábrica do mundo com uma mão de obra bem mais cara do que nos anos 90. O mercado de trabalho e de consumo já pressionam e fazem a China ter inflação relativamente alta, rodando a 5,5%, ou algo nessa faixa. Os países emergentes e em desenvolvimento estão rodando 2011 com a taxa de inflação média de 6,87%, comparado a 5,86% em 2005. Se você tirasse essa inflação mundial, provavelmente a inflação brasileira estaria correndo dentro do centro da meta. Então é preciso ter tranquilidade.

E a previsão de que a taxa de juro real cairia para 2% ao fim do mandato de Dilma Rousseff?

Um dos desafios que nós temos certamente ainda é a persistente e elevada taxa real de juros. E que certamente tem efeitos sobre a economia, um custo fiscal alto, e atrai fluxos de capitais. Mas a taxa real de juros no Brasil estava em clara tendência de convergência. Mesmo antes de vir para o governo, em artigos acadêmicos, eu já afirmava isso. Essa alta da taxa de juros agora, para mim, é meramente transitória. O Brasil vai caminhar novamente rumo à tendência de convergência, provavelmente a partir de 2012. Agora, não vou falar num número, porque não existe meta de taxa de juros.

O câmbio valorizado é outro problema apontado frequentemente.

A taxa de câmbio é uma variável que engana todos nós economistas. Todo mundo acha que o câmbio está fora do lugar, mas ninguém sabe onde deve estar. É extremamente complexo. Mas estamos vivendo um contexto internacional de curto ou médio prazo. Tão logo se normalizem os juros americanos, tão logo se ajustem as economias europeias, essa pressão de fluxos de capital para o Brasil vai cair um pouco, e com ela a pressão sobre o câmbio. E a taxa de juros no Brasil vai recomeçar a convergir.

15/07/2011 - 08:32h Governo está dividido entre inflação e câmbio

Claudia Safatle – VALOR

Assim que assumiu o governo, a presidente Dilma Rousseff fez uma clara opção: investir todo o capital político colhido nas urnas para combater a inflação que herdara do seu antecessor. Foi por essa razão que ela anunciou, ainda em janeiro, que não pretendia patrocinar reformas estruturais que a tornassem refém do Congresso.

O ajuste fiscal necessário para frear o aumento do gasto público e ajudar a conter os preços – ao cortar as emendas parlamentares e os restos a pagar do Orçamento – já criaria um contencioso de bom tamanho junto a deputados e senadores. Era melhor não abrir outras arestas, com temas espinhosos como reformas da previdência social e do mercado de trabalho, dentre outras.

A realidade mostra-se, porém, bem mais intrincada. A inflação resiste e ameaça um repique no último trimestre do ano, ao mesmo tempo que a valorização da taxa de câmbio se acentua com rapidez e debilita a indústria.

A presidente recomendou à equipe econômica cuidado com as medidas cambiais. Uma reversão da apreciação do real pode comprometer mais o controle dos preços. Está claro que parte da aceleração da inflação em 2010 decorreu da internalização da alta das commodities no mercado internacional, pois o governo de então não permitiu que a valorização da moeda doméstica neutralizasse aquele impacto.

Indústria corre risco e BC está com sobrecarga

Teme-se que, após a queda da inflação deste inverno, que está cedendo menos do que se esperava, os dissídios salariais e a entressafra de grãos e da cana-de-açúcar comprometam a inflação do fim do ano, tal como ocorreu no ano passado. E 2012 já começa com o reajuste de 14% para o salário mínimo.

Diante do quadro de objetivos conflitantes – controlar a inflação e frear a apreciação do real para salvar a indústria -, há uma preocupação legítima no mercado: a de que o Banco Central esteja prestes a repetir o erro de 2010, quando interrompeu o ciclo de aperto monetário antes da hora e a inflação correu frouxa por todo o segundo semestre.

Na carta do Ibre/FGV, intitulada “É Preciso Tirar do BC o Fardo de Objetivos Contraditórios”, os economistas da fundação abordam esses temas e mostram que o cenário, hoje, é de imensa complexidade. Nele se misturam questões conjunturais (como a política fiscal expansionista nos EUA) e estruturais (o crescimento da China e da Índia). A combinação do excesso de liquidez internacional com o aumento dos preços das commodities contribuiu para a apreciação do real e para o encolhimento da indústria nacional.

Não se sabe, porém, o que nesse novo mundo é realmente conjuntural, embora possa ter vida longa, e o que é mudança estrutural e, portanto, restaria à economia brasileira se adaptar. Também não está claro se a piora do desempenho da indústria brasileira – praticamente parada desde abril de 2010 – advém dos aumentos da Selic, ou se é consequência dos ganhos nos termos de troca pela alta das commodities e apreciação do real (que levam a uma taxa de câmbio inviável para alguns setores industriais).

Uma avaliação mais abrangente dos dados chama a atenção. Em 2000, os manufaturados respondiam por 59% da pauta de exportação. Os primários eram responsáveis por 22,8%. No ano passado, essa relação ficou praticamente meio a meio e este ano já se inverteu. No primeiro semestre, as exportações de primários responderam por 47,48% da pauta e a de manufaturados, por 36,67%.

Custou muito ao país montar o parque industrial de hoje, que jogou um papel importante na diversificação das exportações brasileiras, assinala Luiz Guilherme Schymura, diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre). O setor é visto como crucial para avanços da produtividade ligados à tecnologia, conforme advoga uma corrente de economistas. “Ao dar ênfase ao efeito passageiro do excesso de liquidez, a criação de mecanismos para evitar um encolhimento profundo da indústria nacional faz todo sentido”, diz a carta. “Caso esse cenário se verifique, a indústria exportadora teria sido preservada”, completa.

Deixar a taxa de câmbio se apreciar para conter a inflação pode afundar a indústria. Aumentar os juros para combater a inflação valoriza mais o câmbio. Colocar restrições à apreciação da moeda pode agravar o quadro inflacionário. Rever o reajuste do salário mínimo é impensável.

“Assim, o caminho da política econômica é estreito e apresenta riscos”, diz a carta do Ibre. As dificuldades expostas, como se vê, transcendem a alçada do BC, mas a autoridade monetária acaba sendo cobrada e criticada por ser “gestora de última instância de uma estratégia com objetivos contraditórios”.

Diante dos dilemas colocados, cabe ao Banco Central “se agarrar ao seu papel central, e para o qual está bem aparelhado para lidar, que é o cumprimento da meta de inflação”, conclui o texto elaborado pelo Ibre.

Se intervenções fortes no câmbio são incompatíveis com a missão do BC de levar a inflação para o centro da meta em 2012, de nada adiantará sobrecarregá-lo com objetivos inalcançáveis.

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

E-mail claudia.safatle@valor.com.br

06/07/2011 - 08:47h Tombini alerta para risco cambial


Presidente do BC recomenda a empresas que se protejam de viradas no câmbio

Fabio Graner e Eduardo Rodrigues/BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Apenas poucas horas após o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ter retomado as ameaças de adotar novas medidas para conter a valorização do real, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, fez um alerta às empresas brasileiras para que elas não se exponham demais ao dólar.

Tombini lembrou que o regime cambial no Brasil é flutuante e que, por isso, não se pode supor que a moeda norte-americana cairá indefinidamente.

“É importante que o setor privado esteja atento à questão do hedge (proteção) de suas operações”, disse Tombini, que participou de audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.

Ele lembrou que a direção do câmbio pode abruptamente se inverter e causar prejuízos severos às empresas. Foi exatamente isso que ocorreu na crise de 2008/9, quando companhias como a Sadia e a Aracruz Celulose passaram por grandes apertos, com prejuízos bilionários causados por apostas altamente especulativas na valorização do real.

O presidente do BC destacou que o governo vem tomando medidas para conter os excessos de fluxos de moeda estrangeira para o Brasil.

Segundo ele, essas ações tiveram por objetivo evitar que um exagerado ingresso de moeda no País de uma hora para outra se reverta, causando instabilidade econômica e financeira. Além disso, tal situação estimulava o crescimento intenso do crédito interno, que o governo tenta moderar para combater a inflação.

A partir das medidas tomadas, Tombini destacou que neste ano há uma melhor composição dos fluxos, com maior presença de investimento estrangeiro direto (IED), que são voltados em tese para o setor produtivo – cerca de 60% do total – do que de demais fluxos (como investimentos em títulos e ações).

Apesar da advertência para que as empresas não apostem na valorização eterna do real, Tombini afirmou que a autoridade monetária não tem identificado grandes exposições de empresas privadas não financeiras em “derivativos exóticos”, como ocorreu no fim de 2008.

Na meta. Na audiência pública, o presidente do BC tentou mostrar otimismo com a trajetória da inflação. Segundo ele, o conjunto de ações adotadas (alta de juros e apertos fiscal e creditício) já começou a surtir efeito.

“Temos algumas indicações de que a demanda vem se moderando, que a economia vem crescendo em níveis mais compatíveis com a capacidade de oferta. Isto vai ajudar no processo de convergência da inflação para a meta de 4,5%”, afirmou. “Os resultados já estão aparecendo.” Tombini destacou que a política monetária (que já fez a taxa Selic subir 1,5 ponto porcentual desde o início do ano) atingirá sua potência máxima neste terceiro trimestre e deve seguir assim nos três meses finais deste ano. Sobre o fato de as projeções do próprio BC, divulgadas no relatório de inflação na semana passada, estarem apontando a inflação acima de 4,5% em 2012, Tombini preferiu enfatizar que as projeções indicam que o processo de convergência já está em curso.

“Obviamente, no plano internacional temos um cenário de grande incerteza. Tem havido revisões do crescimento da economia global para baixo. Isso pode no futuro próximo ser traduzido por preços de commodities que ajude no processo de controle da inflação no País”, disse.

Tendência

ALEXANDRE TOMBINI
PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL

“Temos algumas indicações de que a demanda vem se moderando, que a economia vem crescendo em níveis mais compatíveis com a capacidade de oferta. Isso vai ajudar no processo de convergência da inflação para a meta de 4,5%”

24/04/2011 - 08:34h ”Crise de dívida de ricos traz risco de guerras comerciais e cambiais”

Fernando Dantas/Rio – O Estado de S.Paulo


Mohamed El-Erian Principal executivo do Pimco, fundo americano

O economista Mohamed El-Erian, principal executivo do Pimco, maior fundo de investimento do mundo (US$ 1,2 trilhão no final de 2010), disse em entrevista ao Estado que uma crise da dívida americana pode provocar fragmentação e guerras comerciais e cambiais na economia global.

Qual a sua avaliação sobre a dívida dos países ricos?

Houve uma dramática mudança na situação da dívida pública nas economias avançadas. A principal razão para isso foi a decisão em 2008 e 2009 de usar as finanças públicas para contrabalançar a maciça, súbita e desordenada desalavancagem do setor privado, que ameaçava causar uma depressão global. O resultado foi algo impensável anteriormente, uma disparada tanto nos déficits orçamentários quanto nas dívidas do governo das economias avançadas, e também no tamanho do balanço dos bancos centrais.

Como isso afetou os diferentes países do grupo mais avançado?

Alguns, como o Reino Unido e os Estados Unidos, têm tempo para normalizar a situação antes que ela se torne altamente danosa ao investimento, ao crescimento e à criação de emprego . E a reação desses dois países tem sido diferente. O Reino Unido optou voluntariamente por uma reforma fiscal de médio prazo, enquanto os Estados Unidos estão apenas conversando sobre essa possibilidade. Outros países não resistiram ao enorme peso dos déficits e da dívida. Isso é mais visível na Europa, onde três economias periféricas estão na unidade de tratamento intensivo, requerendo socorro financeiro da União Europeia (UE), do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Nestes casos, a austeridade está sendo imposta e, suspeito, algum tipo de reestruturação de dívida virá em seguida.

E o Japão?

É um caso especial. O Japão tem uma alta carga de dívida e de déficit orçamentário, mas se beneficia pela sua riqueza acumulada e pela persistente posição de superávit nas contas externas. Isso, junto com fontes cativas de captação doméstica, permite ao Japão sustentar dinâmicas de dívida muito piores do que seria possível em outros lugares.

Como o sr. vê a briga política em torno da redução do déficit e da dívida nos Estados Unidos. Um compromisso é possível?

Eu espero que sim, mas também me preocupo de que não seja fácil por pelo menos três grandes razões. Em primeiro lugar, a sociedade americana se acostumou a adiar o ajuste, e os políticos preferem contar com a esperança de alto crescimento, em vez de pensar em reformas para lidar com o rescaldo da dívida e outros ventos contrários estruturais. Dessa forma, é difícil para os Estados Unidos fazerem o que o Reino Unido está fazendo. Em segundo lugar, os dois partidos, Democratas e Republicanos, estão em desacordo sobre a trajetória do ajuste e, de forma mais importante, sobre o peso relativo a ser atribuído ao aumento da receita e ao corte de despesas. Por trás disso há uma crescente defasagem de retórica, relativa à visão política para o país. Finalmente, direitos sociais, particularmente na forma de promessas de serviços previdenciários e de saúde, tornaram-se uma parte importante de quaisquer reformas orçamentárias futuras. Por tudo isso, um compromisso que faça sentido e possa ser implementado não deve se materializar imediatamente. Na verdade, há o risco de que tenhamos de esperar pelas eleições de 2012.

O sr. acha possível o rebaixamento do rating americano?

As agências de rating vão dar mais tempo aos Estados Unidos do que a virtualmente qualquer outro país, e por boas razões. Como fornecedor de bens públicos globais – moeda de reserva, os mais profundos e líquidos mercados de dívida e o padrão de risco zero – os Estados Unidos têm mais tempo para se ajustar. Dito isto, os Estados Unidos não têm a eternidade. Se o país não conseguir convergir para um programa de reforma fiscal de médio prazo, ele poderia sim perder o seu rating de crédito AAA nos próximos três anos

Quais as consequências para os EUA e a economia global?

Se aquilo ocorresse, afetaria os Estados Unidos e o resto do mundo. Todos os segmentos da sociedade americana teriam de enfrentar custos de crédito mais altos, um dólar mais fraco, e perspectivas menos brilhantes para o investimento, o crescimento e a criação de empregos. E, uma vez que os Estados Unidos ocupam uma posição central no coração da economia global, o resto do mundo enfrentaria o risco de uma maior fragmentação econômica e financeira, resultando em perdas de eficiência e maior risco de guerras comerciais e cambiais.